sexta-feira, 31 de julho de 2009

Quando não há força


“Vão indo de força em força;
cada um deles aparece diante de Deus em Sião.”
(Salmo 84:7)

Para descrever a difícil situação em que se encontrava (a iminente invasão assíria), o rei Ezequias usa uma provável expressão proverbial da época, muito apropriada: “Os filhos estão para nascer e não há força para os dar à luz” (2 Reis 19:3 – Bíblia de Jerusalém). Ele se reporta à mulher cuja gravidez já se completou, mas o filho não sai do útero, não vem para fora. A mãe sente dores de parto, mas não tem força para expelir a criança. Ela fica desesperada e a criança corre risco de vida.

Não há nada mais aflitivo do que faltar força no momento em que mais se precisa dela. Pior ainda é quando não se sabe que naquela hora a força vai estar ausente. Foi isso que aconteceu com Sansão. Ele não tinha conhecimento de que havia se retirado dele a sua força. Quando os filisteus chegaram, ele não conseguiu repetir as façanhas anteriores. Então teve seus olhos vazados e sofreu o vexame de ser preso e levado para Gaza (Juízes 16:18-22).

Não ter força para dizer não, não ter força para vencer a tentação, não ter força para resistir à dor, não ter força para deixar de beber, não ter força para abandonar as drogas, não ter força para superar uma crise conjugal, não ter força para perdoar o desafeto, não ter força para dominar o gênio, não ter força para esquecer algo deprimente, não ter força para terminar o trabalho iniciado, não ter força para romper um amor proibido, não obter força para vencer a timidez – são situações realmente muito complexas. Em circunstâncias assim, a história pára, o que precisa acontecer não acontece, o que não pode ser protelado é adiado.

A privação da força tem muito que ver com a perda ou a diminuição da comunhão com Deus. Na verdade a força promana de Deus. Daí a confidência de Paulo a Timóteo: “O Senhor me assistiu e me revestiu de forças” (2 Timóteo 4:17). O mesmo testemunho está na boca de Davi: “O Deus que me revestiu de força, e aperfeiçoou o meu caminho. Ele deu a meus pés a ligeireza das corças e me firmou nas minhas alturas” (Salmo 18:32). Deus é pródigo na distribuição de força, pois “faz forte ao cansado e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor” (Isaías 40:29). Aqueles que estão cada vez mais ligados a Deus “vão indo de força em força” (Salmo 84:7).

(“Devocionais para Todas as Estações”, Ed. Ultimato, meditação de 27 de julho)

Deixem Jesus em paz

Artigo do Juca Kfouri na Folha de S. Paulo de ontem, disponível no blog dele:

JUCA KFOURI

Deixem Jesus em paz

Está ficando a cada dia mais insuportável o proselitismo religioso que invadiu o futebol brasileiro

MEU PAI , na primeira vez em que me ouviu dizer que eu era ateu, me disse para mudar o discurso e dizer que eu era agnóstico: "Você não tem cultura para se dizer ateu", sentenciou.

Confesso que fiquei meio sem entender.

Até que, nem faz muito tempo, pude ler "Em que Creem os que Não Creem", uma troca de cartas entre Umberto Eco e o cardeal Martini, de Milão, livro editado no Brasil pela editora Record.

De fato, o velho tinha razão, motivo pelo qual, ele mesmo, incomparavelmente mais culto, se dissesse agnóstico, embora fosse ateu.

Pois o embate entre Eco e Martini, principalmente pelos argumentos do brilhante cardeal milanês, não é coisa para qualquer um, tamanha a profundidade filosófica e teológica do religioso.

Dele entendi, se tanto, uns 10%. E olhe lá.

Eco, não menos brilhante, é mais fácil de entender em seu ateísmo.

Até então, me bastava com o pensador marxista, também italiano, Antonio Gramsci, que evoluiu da clássica visão que tratava a religião como ópio do povo para vê-la inclusive com características revolucionárias, razão pela qual pregava a tolerância, a compreensão, principalmente com o catolicismo.

E negar o papel de resistência e de vanguarda de setores religiosos durante a ditadura brasileira equivaleria a um crime de falso testemunho, o que me levou, à época, a andar próximo da Igreja, sem deixar de fazer pequenas provocações, com todo respeito.

Respeito que preservo, apesar de, e com o perdão por tamanha digressão, me pareça pecado usar o nome em vão de quem nada tem a ver com futebol, coisa que, se bem me lembro de minhas aulas de catecismo, está no segundo mandamento das leis de Deus.

E como o santo nome anda sendo usado em vão por jogadores da seleção brasileira, de Kaká ao capitão Lúcio, passando por pretendentes a ela, como o goleiro Fábio, do Cruzeiro, e chegando aos apenas chatos, como Roberto Brum.

Ninguém, rigorosamente ninguém, mesmo que seja evangélico, protestante, católico, muçulmano, judeu, budista ou o que for, deveria fazer merchan religioso em jogos de futebol nem usar camisetas de propaganda demagógicas e até em inglês, além de repetir ameaças sobre o fogo eterno e baboseiras semelhantes.

Como as da enlouquecida pastora casada com Kaká, uma mocinha fanática, fundamentalista ou esperta demais para tentar nos convencer que foi Deus quem pôs dinheiro no Real Madrid para contratar seu jovem marido em plena crise mundial.

Ora, há limites para tudo.

É um tal de jogador comemorar gol olhando e apontando para o céu como se tivesse alguém lá em cima responsável pela façanha, um despropósito, por exemplo, com os goleiros evangélicos, que deveriam olhar também para o alto e fazer um gesto obsceno a cada gol que levassem de seus irmãos...

Ora bolas!

Que cada um faça o que bem entender de suas crenças nos locais apropriados para tal, mas não queiram impingi-las nossas goelas abaixo, porque fazê-lo é uma invasão inadmissível e irritante.

Não é mesmo à toa que Deus prefere os ateus...  


quinta-feira, 30 de julho de 2009

O "evangelho" diet

"Tu tá gordo e careca porque qué, mano"...





Vamos lançar este "pastor" pra secretário-geral da ONU, que tem SÓ 196 países filiados... afinal, ele conhece "mais de 200" ...

Rebolation cóspel

domingo, 19 de julho de 2009

Eclesiastes - capítulo 12

Leitura anterior: Eclesiastes - capítulo 11

O último capítulo de Eclesiastes é um poema belíssimo sobre a decadência inexorável da vida de cada um de nós, ou seja, o envelhecimento que nos acomete a todos os que tivemos o prazer de passar pela juventude e ver os anos bons em que tínhamos força, curiosidade e vitalidade para experimentar os prazeres da vida, desde os mais simples até os mais complexos. 

O chamado constante do Pregador à sabedoria não deixa de ser um lembrete para que todos os jovens (de corpo e de espírito) se preparem para o destino inevitável – a morte – e quando este preparo é feito sabiamente, não deixa de ser uma espécie de "décadence avec élégance" ("decadência com elegância"), já que tolo é aquele que se revolta contra o processo orgânico inevitável que nos leva ao fim da vida. 

E a morte deve ser vista, também, como uma celebração da vida, como um retorno à casa do Pai (12:7), por mais que seja doloroso pensar que existe um fim para a existência, seja a nossa própria, seja a dos nossos queridos. 

É nesse espírito que Coélet escreve as palavras finais de Eclesiastes, chamando a atenção do jovem para Deus, que é o grande Provedor de todas as coisas, que é o grande sustentador da vida, mas é também Aquele que nos recebe de braços abertos depois de uma vida entregue a Ele.

Assim, a primeira parte do capítulo 12 de Eclesiastes exorta o leitor a lembrar-se do Criador em três momentos (três "antes"), um no v. 1 (que mostra a perda da alegria de viver), outro nos versículos 2 a 5 (que falam do envelhecimento físico) e o terceiro nos versículos 6 e 7 (que se referem ao fim propriamente dito, à morte). 

No primeiro ANTES (v. 1), o Pregador fala da perda da alegria de viver, da importância de se lembrar de Deus e do dom da vida "antes que venham os maus dias" e cheguem os anos em que se possa dizer que neles não há mais prazer, alegria e felicidade. 

Este não deixa de ser um reforço à pregação que ele vinha fazendo, ou seja, de se aproveitar a vida, pelo simples fato de existir, nos bons e maus momentos. 

Nos vv. 2-5, o Pregador diz que devemos lembrar do Criador ANTES que a decadência física seja incontornável, e a partir daí começa a descrever de uma maneira poética belíssima, como o nosso corpo – definitivamente – não responde mais aos estímulos que no circundam. 

É claro que a tendência natural do ser humano é passar por uma fase de esplendor físico na juventude, e a partir de uma certa idade, o organismo começa, por assim dizer, a se desconstruir, assim como o Pregador vinha desconstruindo – nos capítulos anteriores - toda a percepção da vida que o senso comum dita. 

Há um momento final, entretanto, em que o corpo entra em colapso, e a partir daí a vista escurece, os ouvidos mal conseguem detectar o sussurro, o corpo treme, os dentes caem, o prazer sexual (o perecer do "apetite" do v. 5) se esvai, e o sono não serve mais de repouso (o "levantar-se à voz das aves" do v. 4). 

Depois dessa descrição triste, mas realista, vem o desenlace final, o terceiro ANTES (vv. 6), que é o rompimento do cordão de prata e do copo de ouro, o cântaro que quebra junto à fonte, e para mais nada serve senão ser jogado fora. Perde a sua utilidade, simplesmente não existe mais. 

Tudo poderia terminar por aí, mas Salomão conclui dizendo que ainda que o pó volte à terra, inservível para os propósitos humanos, por outro lado o espírito volta a Deus, que o deu (v. 7), porque "vaidade de vaidade, diz o pregador, tudo é vaidade" (v. 8). 

Não por acaso, esta é a sublime conclusão do discurso do Pregador, a mesma que ele já adiantara ao iniciá-lo (1:2). 

Mais que um discurso, este é um percurso que ele apresenta, o seu percurso "debaixo do sol", expressão tão repetida em Eclesiastes, que dá a idéia de que a nossa vida é como um dia que amanhece, transcorre e se vai ao escurecer:

1:3 Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol?
1:4 Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.
1:5 Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu.
1:6 O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos.
1:7 Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr.
1:8 Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.
1:9 O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.


Felizmente, há um retornar, não mais para o mesmo dia terreno, onde há lida e dor, mas também alegria e felicidade. 

Há um retorno à casa do Pai, ao Deus criador, ao Pai que espera o filho pródigo voltar para seu lar (Lucas 15), para o dia perfeito, conforme Salomão diz em seus Provérbios:

Prov 4:18 Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.
Prov 4:19 O caminho dos ímpios é como a escuridão; nem sabem em que tropeçam.


Este dia perfeito, da luz divina, é o dia da alma imortal, conforme Calvino ensina:




2. ESPIRITUALIDADE E IMORTALIDADE DA ALMA, CONTUDO DISTINTA DO CORPO

Afinal, que o ser humano consta de alma e corpo, deve estar além de toda controvérsia. E pela palavra alma entendo uma essência imortal, contudo criada, que lhe é das duas a parte mais nobre. Por vezes também é chamada espírito. Ora, ainda que estes dois termos difiram entre si em sentido quando ocorre juntos, contudo, onde o termo espírito é empregado separadamente, equivale a alma, como quando Salomão, falando da morte, diz que "o espírito retorna então a Deus, que o deu" [Ec 12.7]. E Cristo, encomendando o espírito ao Pai [Lc 23.46], como também Estêvão o seu a Cristo [At 7.59], não entendem outra coisa senão isto: quando a alma é liberada do cárcere da carne, Deus lhe é o perpétuo guardião.

Entretanto, são absolutamente destituídos de senso aqueles que imaginam que a alma é denominada espírito por ser um sopro, ou força divinamente infundida nos corpos, a carecer, no entanto, de essência, comprovando-o não só a própria realidade, mas ainda toda a Escritura. Sem dúvida é verdade que, enquanto se apegam à terra mais do que é justo, os homens se fazem broncos; aliás, visto que se alienaram do Pai das Luzes [Tg 1.17], foram cegados pelas trevas, de sorte que não pensam que haverão de sobreviver à morte. Contudo, nem assim a luz lhes foi aniquilada nas trevas a tal ponto que não se sintam tangidos por algum senso de sua imortalidade. Sem dúvida que a consciência, que discernindo entre o bem e o mal responde ao juízo de Deus, é sinal indubitável do espírito imortal. Pois, como uma disposição sem essência poderia penetrar até o tribunal de Deus e a si incutiria terror de sua culpabilidade? Ademais, tampouco é o corpo afetado pelo temor de uma penalidade espiritual; ao contrário, só recai na alma, do quê se segue que a alma é dotada de essência.

Já o próprio conhecimento de Deus comprova sobejamente que as almas, que transcendem ao mundo, são imortais, visto que um alento evanescente não chegaria jamais à fonte da vida. Enfim, quando tantos dotes preclaros dos quais a mente humana está enriquecida proclamam sonoramente que algo divino lhe é impresso, são outros tantos testemunhos de uma essência imortal. Ora, a sensibilidade que se instila nos animais brutos não vai além do corpo, ou, pelo menos, não se estende mais longe que às coisas que lhes estão adiante. Também a versatilidade da mente humana, a perlustrar céu e terra e os arcanos da própria natureza, e quando a todos os séculos compendiou no intelecto e na memória, cada evento a dispor em sua ordem, e dos fatos passados a deduzir os futuros, demonstra claramente que no homem se aninha algo distinto do corpo. Mediante a inteligência concebemos o Deus invisível e os anjos, o que ao corpo escapa totalmente; aprendemos as coisas que são retas, justas e honrosas, o que não podemos fazer pelos sentidos corpóreos. Portanto, só o espírito pode ser a sede dessa inteligência. Aliás, o próprio sono, que entorpecendo o homem parece até mesmo privá-lo da vida, é uma testemunha não obscura da imortalidade, quando não só sugere pensamentos dessas coisas que jamais ocorreram, mas ainda presságios quanto ao porvir.

Estou abordando, apenas de leve, estes assuntos que mesmo os escritores profanos exaltam magnificamente, com estilo e expressão mais esplêndidos. Contudo, entre leitores piedosos será bastante um simples lembrete. Ora, se a alma não fosse algo essenciado, distinto do corpo, a Escritura não ensinaria que habitamos casas de barro e que na morte migramos do tabernáculo da carne, despojamo-nos do que é corruptível para que, por fim, no último dia recebamos a recompensa, em conformidade com o que, enquanto no corpo, cada um praticou.

Ora, por certo que essas referências e semelhantes a essas, que ocorrem com freqüência, não só distinguem claramente a alma do corpo, mas ainda lhe transferem o designativo homem, indicando ser ela a parte principal. Ora,quando Paulo exorta os fiéis [2 Co 7.1] a que se purifiquem de toda impureza da carne e do espírito, ele enuncia duas partes nas quais reside a sordidez do pecado. Também Pedro, chamando a Cristo "pastor e bispo das almas" [1 Pe 2.25], teria falado improcedentemente, se não existissem almas em relação às quais desempenhasse este ofício. Nem seria procedente, a não ser que as almas tivessem essência própria, o fato de que fala acerca da eterna salvação das almas, e que ordena purificar as almas, e que desejos depravados militam contra a alma [1 Pe 1.9; 2.11]; de igual modo, o autor da Epístola aos Hebreus [13.17] declara que os pastores velam para que prestem conta de nossas almas.

Com o mesmo propósito é o fato de Paulo [2 Co 1.23] invocar a Deus por testemunha contra sua própria alma, porquanto ela não se faria ré diante de Deus, se não fosse susceptível à penalidade. Isto expressa-se ainda mais claramente nas palavras de Cristo, quando ele manda que se tema àquele que, após haver matado o corpo, pode lançar a alma na Gehena de fogo [Mt 10.28; Lc 12.5]. Ora, quando o autor da Epístola aos Hebreus distingue Deus dos pais de nossa carne, como sendo o Pai dos espíritos, não poderia ele afirmar de modo mais claro a essência das almas.

Além disso, a não ser que as almas liberadas dos cárceres dos corpos continuassem a existir, seria absurdo Cristo representar a alma de Lázaro a desfrutar de bem-aventurança no seio de Abraão, e a alma do rico, por outro lado, destinada a horrendos tormentos [Lc 16.22,23]. Paulo confirma isso mesmo, ensinando que peregrinamos distanciados de Deus durante o tempo em que habitamos na carne; desfrutamos de sua presença, porém fora da carne. E, para que não me alongue mais em matéria de forma alguma obscura, acrescentarei apenas isto de Lucas [At 23.8]: ele menciona entre os erros dos saduceus o fato de não crerem na existência de espíritos e anjos.

(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 1, pp. 180-182)







Tudo, portanto, que fazemos nesta vida interessa a Deus, em toda a extensão de nossa existência, e quanto antes nos lembrarmos para onde vamos (ou deveríamos ir), ou seja, quanto antes nos lembrarmos do nosso Criador, mais desfrutaremos esta vida aqui, com todas as suas limitações, mas também com todas as suas alegrias. 

Após ter promovido, pelo seu discurso-percurso, a desconstrução daquilo que era tido como sábio e proveitoso pela humanidade, o Pregador fincou 4 estacas sobre o terreno pantanoso e instável da vaidade humana, a saber: a sabedoria, a eternidade, a providência divina e o temor de Deus

Desses 4 pilares, apenas 2 têm o condão de tanto ser imanente como transcendente: a sabedoria e o temor de Deus. Os dois outros são transcendentes, estão acima das possibilidades do ser e do existir, e é nessa busca da sabedoria mediante o temor de Deus que podemos confiar que tanto a providência divina não nos faltará, como a eternidade nos está reservada pelo Pai que nos aguarda de braços abertos no final da jornada.

Os versículos finais de Eclesiastes (12:9-14), são uma espécie de assinatura do Pregador, um apelo à inspiração divina de suas palavras (vv. 10-11) e um último reforço ao conselho de temer a Deus (vv. 13-14). 

Conforme a experiência demonstra, sempre haverá novos e velhos conselhos a circular entre nós, e nunca os livros conseguirão dar conta deles, nem vale a pena ficar estudando-os tentando descobrir o segredo da vida(v. 12), pois a única coisa que realmente importa é viver e ser feliz com o que temos e alcançamos, e sempre temer a Deus e tê-lO em conta em todas as nossas atividades e em todos os nossos dias.



F I M



quarta-feira, 15 de julho de 2009

O bom pastor - 1ª parte

O BOM PASTOR

Nesses tempos bicudos em que o bom nome de "pastor" é rotineiramente aviltado e profanado pelos aproveitadores e charlatães de plantão, devemos retornar à fonte – o Novo Testamento – para verificar o que Deus quer e requer daqueles que aceitam o nobre desafio de ser bons pastores do Seu rebanho. O assunto é bastante extenso, já que, biblicamente, a missão de um pastor tem a ver com a função de liderar o povo de Deus, no sentido da palavra grega ηγέομαι - hēgeomai (Atos 15:22, Hebreus 14:24)[1], e grandes líderes estão espalhados por todas as páginas da Bíblia. Entretanto, tentaremos aqui verificar alguns critérios que os apóstolos – afinal, os organizadores da Igreja primitiva - nos legaram para identificarmos as qualidades que se esperam de um bom pastor.

Os nomes bíblicos para pastor

A nomenclatura bíblica para a palavra traduzida para o português como "pastor" ou seus equivalentes ("bispo", "presbítero") não segue uma rigidez metodológica, por assim dizer, já que está claro para os destinatários das cartas apostólicas que, ao usarem esses termos, eles se referiam aos líderes da igreja para as quais foram dirigidas (Éfeso, Colossos, Filipos, etc.), bem como para toda a comunidade cristã que seria beneficiada e consolidada pelas cópias das cartas que circulavam entre os irmãos. Assim, vemos que eram usadas, basicamente, as palavras ποιμήν - poimēn ("pastor") - ε ̓πισκοπή - episkopē ("bispo") e πρεσβύτερος - presbuteros ("presbítero"). Nas cartas apostólicas, não há uma clara distinção hierárquica ou funcional entre esses termos, como a tradição da Igreja Romana passaria a usar depois de algum tempo, em que o bispo (e o "patriarca" na Igreja Ortodoxa) passa a ter uma autoridade maior sobre uma jurisdição mais abrangente, e com o nome "pastor" sendo paulatinamente mudado para "padre" ou "sacerdote". Algumas igrejas reformadas seguiram esta distinção, como os presbiterianos, anglicanos e metodistas, no que foram acompanhadas por muitas igrejas neopentecostais da atualidade, sendo que algumas destas buscam uma legitimação ainda maior pela ressurreição do termo "apóstolo", com todas as prerrogativas inerentes ao pretenso "cargo", isto baseados numa interpretação controversa de Efésios 4:11[2], que, ainda que não seja objeto desta análise, parece-nos cristalino que o termo "apóstolo" é reservado aos doze mais próximos de Jesus, com a inclusão de Paulo, também testemunha de sua ressurreição, tanto que ele geralmente começava suas cartas se auto-intitulando de "apóstolo", mas quando escreve conjuntamente com Timóteo a carta aos filipenses (1:1), faz questão de referir-se a ambos como "servos de Jesus Cristo", zeloso que era da nomenclatura apropriada e da autoridade que ela lhe conferia com exclusividade. Passemos, então, ao estudo da qualificação de um bom pastor.

O que se espera de um pastor

Em sua primeira carta a Timóteo (3:1-7)[3], Paulo estabelece alguns critérios (também citados na carta a Tito[4]) que devem ser observados na ordenação de um bom pastor:

1) que seja irrepreensível – a palavra aqui traduzida por "irrepreensível" é ανεπίληπτος - anepilēptos – que não se pode culpar, irrefutável, também um derivativo da palavra επιλαμβάνομαι - epilambanomai - que não deve dar motivos para ser preso, ou conduzido preso às barras da Justiça, como Paulo e Silas em Atos 16:19[5]. Antes que alguns impostores tentem se equiparar a Paulo e Silas, é bom lembrar que eles foram levados às autoridades por estarem pregando o evangelho de Jesus, e não por crimes que cometeram abusando do santo nome do Mestre. No contexto da época (e que vale para os dias atuais), esta palavra ανεπίληπτος - anepilēptos – significa que não deve pairar sobre o pastor nenhuma reprovação de ordem moral ou doutrinária, ou seja, ele não pode defender heresias ou ser equiparado a um falso profeta. Na carta a Tito (1:6-8), ele cita esta qualidade duas vezes e também diz que o pastor deve ser "santo" (ARC), "consagrado" (NVI).

2) marido de uma mulher – embora Paulo fosse solteiro, e alardeasse essa condição[6], ele aconselha que o pastor seja casado com uma mulher, ênfase que se justifica numa sociedade como a em que ele vivia, em que muitos polígamos se convertiam a Cristo e não podiam aspirar ao episcopado. Já traziam enormes problemas para a igreja resolver. A versão católica Bíblia do Peregrino (BP) propõe a tradução "fiel à sua mulher", provavelmente mais uma paráfrase do que uma tradução literal, mas de igual importância. É interessante observar também que, no momento da posse do pastor, Paulo recomenda não só que ele seja casado (e fiel), mas também não seja viúvo, já que a idéia que o versículo dá é a de que a esposa deve estar viva, justamente para auxiliá-lo na difícil missão que tem pela frente. Isto não exclui a possibilidade de que haja excelentes pastores solteiros, não só por um curto período como por toda a vida, mas aí devem ter o dom especial de conter-se, que Paulo conhecia tão bem, como confessa em 1ª Coríntios 7.

3) vigilante, sóbrio – a palavra traduzida por "vigilante" é νηφάλεος , νηφάλιος - nēphaleos, nēphalios – que quer dizer também "sóbrio", "circunspecto", e é usada mais duas vezes no Novo Testamento, como o atributo "honesta" das mulheres do seguinte v. 11 de 1ª Timóteo 3, e como os "anciãos sóbrios" de Tito 2:2. Paulo reforça a idéia com a palavra traduzida por "sóbrio", que é σώφρων - sōphrōn – que é a qualidade de quem tem um excelente autocontrole, moderado (como em Tito 1:8), desapegado das discussões e observações apaixonadas, ou seja, "temperante", conforme a tradução proposta pela versão Almeida Revista e Atualizada (ARA), "cheio de bom senso", conforme a tradução da Bíblia de Jerusalém (BJ) e "ponderado", como propõe a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB). A quase-sinonímia de ambos os termos foi provavelmente proposital, já que Paulo queria dar ênfase a esses atributos. A NVI traduz a primeira palavra por "sóbrio" e a segunda por "prudente", por exemplo. Também se pode relacionar essas qualidades a "sensato, justo, ...que tenha domínio próprio" (Tito 1:8).

4) honesto – a palavra traduzida por "honesto" na ARC é κόσμιοςkosmios
que a NVI traduz por "respeitável", a ARA por "ordeiro", a TEB por "de maneiras corretas", a Bíblia do Peregrino (BP) por "modesto", e a BJ – curiosamente - por "simples no vestir". De fato, a palavra κόσμιος dá a ideia de decoro, bom comportamento, ordem no agir, vestir-se e comportar-se.

5) hospitaleiro – essa é uma das qualidades que a Bíblia mais preza, mas lamentavelmente é uma das mais negligenciadas. Desde os tempos do Antigo Testamento, a hospitalidade era um dever sagrado num meio inóspito como o Oriente Médio, em que povos nômades vagavam pelas planícies e desertos em busca de pasto para o seu gado, além de água e comida para eles mesmos, bem como de um lugar para adorar a Deus, ainda que muitas vezes servissem a deuses estranhos. E interessante observar que a gota d'água que fez com que o caldo punitivo entornasse sobre Sodoma e Gomorra (Gênesis 19) é a preocupação de Ló em exercer a hospitalidade aos dois anjos que foram visitá-lo, a ponto de oferecer a virgindade de duas filhas para que seus hóspedes não fossem violentados (vide também a correlação trágica entre hospitalidade e perversão no caso da mulher do levita em Juízes 19). Esperamos e confiamos que não seja necessário chegar a estes extremos, mas de igual maneira o pastor deve ser hospitaleiro, bom anfitrião dos convidados, amigo dos estrangeiros, como a raiz da palavra grega φιλόξενος - philoxenos – propõe. Paulo reforça esta qualidade em Romanos 12:13 ("Comunicai com os santos nas suas necessidades, segui a hospitalidade") e o escritor de Hebreus (13:2) aconselha: "Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos", como o nosso amigo Ló.

6) apto para ensinar – a palavra aqui traduzida por "apto para ensinar" (ARC, ARA e NVI) é de fácil compreensão para o nosso português atual: διδακτικός - didaktikos – simples assim, didático. A BP traduz por "bom mestre", a BJ por "competente no ensino", a TEB por "capaz para ensinar". Curiosamente, talvez estejamos diante de uma contradição moderna, já que os charlatães e impostores, que abusam do evangelho de Jesus, são "bons de lábia", como diz a gíria. Paulo dava especial importância, entretanto, à dupla função primordial do pastor: pregar e ensinar, como mais adiante diz ao próprio Timóteo: "Os presbíteros que lideram bem a igreja são dignos de dupla honra, especialmente aqueles cujo trabalho é a pregação e o ensino" (1 Tim 5:17 – NVI). Em outro episódio, adverte também contra os oportunistas: "Sei que, depois da minha partida, lobos ferozes penetrarão no meio de vocês e não pouparão o rebanho. E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos para si" (Atos 20:29-30).

7) que governem bem a sua própria casa – aqui temos mais um, digamos, incentivo a que o pastor seja casado, tenha a sua família e a administre bem, não só as pessoas que a compõem, mas todos os negócios que a ela dizem respeito. Parece que isso era particularmente importante nos tempos de Paulo, já que os primeiros pastores eram, geralmente, homens já maduros, com muitos filhos, e que deveriam gerir bem os filhos, não os provocando à ira (Efésios 6:4), mas educando-os "com toda a dignidade" (NVI, BJ, BP, TED) com o exemplo de bom pai e chefe de família. Na carta a Tito (1:6), ele amplia a ideia: que o pastor "tenha filhos crentes que não sejam acusados de libertinagem e insubmissão". Já na carta a Timóteo, no versículo seguinte, Paulo faz questão de esclarecer a relação que faz entre esse atributo e a igreja, perguntando: "se alguém não sabe governar a sua própria casa, como cuidará da igreja de Deus?" (1 Tim 3:5)

8) que tenha bom testemunho dos que estão de fora – "deve ter boa reputação perante os de fora" (NVI), "é conveniente ter boa fama entre os de fora" (BP). Fora de onde? A antiga versão árabe diz que essa reputação deve ser reconhecida "sem a igreja", ou seja, mesmo aqueles que estão fora da igreja, que desprezam o evangelho, devem dar bom testemunho do caráter do pastor como um ser humano comum nas suas atividades cotidianas. Não deixa de ser interessante (e curioso) que Paulo, por assim dizer, "transfira" aos que estão fora da igreja o julgamento deste quesito. Ele privilegiava a boa reputação do cristão perante a comunidade dos não-cristãos, algo que já havia dito pouco antes ao próprio Timóteo[7].

9) retendo firme a fiel palavra - "que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes" (Tito 1:9), " que se apegue firmemente à mensagem fiel, da maneira como foi ensinada, para que seja capaz de encorajar a outros pela sã doutrina e de refutar os que se opõem a ela" (NVI), ou ainda "que se mantenha na doutrina autêntica, de modo que possa exortar com uma doutrina sadia e refutar os que afirmam o contrário" (BP). Paulo está, aqui, se reportando à sua autoridade apostólica, com o seu constante zelo pela sã doutrina, que ele fazia questão de relembrar a Timóteo (1 Tim 1:10, 2 Tim 4:3) e a Tito (1:9 e 2:1), sabedor que era de que muitos falsos profetas e aproveitadores tentavam se apoderar da mensagem do evangelho para servir aos seus próprios prazeres[8]. Sobre esses impostores, falaremos mais adiante, quando analisarmos o que Paulo diz sobre o que um pastor não deve ser.

(continua - para acessar a 2ª parte, clique aqui)




[1] Atos 15:22 (NVI) Então os apóstolos e os presbíteros, com toda a igreja, decidiram escolher alguns dentre eles e enviá-los a Antioquia com Paulo e Barnabé. Escolheram Judas, chamado Barsabás, e Silas, dois líderes entre os irmãos. Hebreus 13:24 (NVI) Saúdem a todos os seus líderes e a todos os santos. Os da Itália lhes enviam saudações. A versão Almeida Revista e Corrigida (ARC) traduz por "homens distintos" e "chefes", respectivamente. Interessante notar que esses "líderes" estão entre "os apóstolos e presbíteros" da Igreja primitiva. Veja também um artigo interessante do blog Estudantes de Teologia.
[2] Efésios 4:11 (ARC) E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores,
[3] (ARC) 1Ti 3:1 Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja.
1Ti 3:2 Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar;
1Ti 3:3 Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento;
1Ti 3:4 Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia
1Ti 3:5 (Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?);
1Ti 3:6 Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo.
1Ti 3:7 Convém também que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta, e no laço do diabo.
[4] Tito 1:5 Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei:
Tito 1:6 Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes.
Tito 1:7 Porque convém que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância;
Tito 1:8 Mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante;
Tito 1:9 Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes.
[5] Atos 16:19 E, vendo seus senhores que a esperança do seu lucro estava perdida, prenderam Paulo e Silas, e os levaram à praça, à presença dos magistrados.
[6] 1Co 7:7 Porque quereria que todos os homens fossem como eu mesmo; mas cada um tem de Deus o seu próprio dom, um de uma maneira e outro de outra.
1Co 7:8 Digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como eu.
1Co 7:9 Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se.
[7] 1Timóteo 2:1 Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças por todos os homens;
1Timóteo 2:2 pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranqüila e pacífica, com toda piedade e dignidade.
1Timóteo 2:3 Isto é bom e agradável perante Deus, nosso Salvador,
[8] Romanos 16:17 Recomendo-lhes, irmãos, que tomem cuidado com aqueles que causam divisões e colocam obstáculos ao ensino que vocês têm recebido. Afastem-se deles.
Romanos 16:18 Pois essas pessoas não estão servindo a Cristo nosso Senhor, mas a seus próprios apetites. Mediante palavras suaves e bajulação enganam os corações dos ingênuos.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Os 500 anos de Calvino


Há exatos 500 anos atrás, no dia 10 de julho de 1509, um menino chamado Jehan Cauvin nascia na pequena vila de Noyon, região da Picardia, cerca de 95 km ao norte de Paris. 

Com o nome devidamente aportuguesado para João Calvino, fica mais fácil saber de quem estamos falando, um dos dois maiores reformadores protestantes do século XVI. 

Apenas para fazer um paralelo com o outro reformador de destaque, em 1509, Martinho Lutero tinha 26 anos de idade, já havia sido ordenado sacerdote (em 1507), e lecionava Teologia na Universidade de Wittenberg desde 1508. 

Calvino tinha, portanto, 8 anos de idade quando Lutero afixou suas 95 teses na porta da Catedral de Wittenberg, dando início ao período da História da humanidade (e da Igreja) que ficou conhecido como a Reforma Protestante. 

Numa brevíssima biografia, Calvino foi estudar na Universidade de Paris, no Collège Montaigu, em 1521 ou 1523 (há divergências sobre a data). 

Curiosamente, foi contemporâneo de dois expoentes católicos, Francisco Xavier e Inácio de Loyola, que fundariam a Companhia de Jesus (os jesuítas) em 1534, o que dá uma ideia da efervescência teológica daquele momento histórico. 

A idéia inicial era que também Calvino deveria estudar Teologia, já que possuía uma espécie de bolsa da Igreja Católica francesa destinada a este fim. 

Entretanto, seu pai muda de idéia em 1529, e ele vai estudar Direito em Orleans, onde provavelmente desenvolveu melhor sua veia argumentativa que se nota tão bem na sua obra. 

Além de uma forte formação humanista, Calvino também continuou estudando Teologia Não se sabe, com precisão, qual é a data da conversão de Calvino ao protestantismo, até porque ele nunca deu detalhes sobre este fato. 

Só se pode afirmar que foi entre 1532 e 1533, quando o movimento de luteranos e anabatistas já havia influenciado boa parte da Europa. 

Com a perseguição aos protestantes na França, Calvino se refugia na Suíça, inicialmente na Basiléia, onde publica – em 1536 - a primeira versão de sua obra máxima, Instituições da Religião Cristã ("As Institutas"), que é, originalmente, uma defesa da fé protestante, endereçada ao rei Francisco I, procurando convencê-lo das boas razões da Reforma. 

É em 1536 também que ele vai a Genebra, onde após idas e vindas, se estabelece definitivamente como o chefe da Reforma Protestante na cidade, na qual vem a falecer em 27 de maio de 1564. 

Segundo sua última vontade, seu corpo foi embalado num pano cru e depositado num caixão de pinho, como aqueles destinados aos pobres, para finalmente ser enterrado numa sepultura simples sem nenhuma inscrição ou monumento, para dar testemunho de que ele voltava ao pó.

Se as breves linhas acima não dão conta de traçar uma biografia de Calvino, muito mais espaço seria necessário neste blog para discutir a extensão de sua influência na trajetória da Igreja e do mundo nos séculos seguintes. 

Paixões – pró e contra, e muitas vezes extremadas – são despertadas quando se abordam a vida e os ensinos de Calvino. No campo teológico, ele é muitas vezes visto – equivocadamente – como uma espécie de "pai" da doutrina da predestinação, quando este tema é examinado de maneira discreta nas Institutas, que é um tratado de teologia muito bem escrito e fundamentado sobre as mais variadas doutrinas cristãs. 

Não se pode ignorar que a predestinação era um tema recorrente nas cartas de Paulo, e, antes de Calvino, já havia sido desenvolvido por Agostinho, Tomás de Aquino e Lutero.

Lamentavelmente, o preconceito faz com que muita gente despreze as Institutas e as demais obras de Calvino na base do "não li e não gostei". 

Outra crítica comum que lhe é dirigida, agora no campo materialista, é a de que a suposta ênfase calvinista na predestinação teria lançado as bases do capitalismo moderno, exercendo sobre ele uma enorme influência que, na verdade, não teve. 

Afinal, o sistema capitalista teve sua gênese no desmonte do feudalismo, no nascimento dos burgos e suas corporações de ofício, no colonialismo e nas novas rotas comerciais propiciadas pelas grandes navegações, todos esses fenômenos ocorridos nos séculos XIV e XV. 

A Reforma Protestante do século XVI se encaixa nesta agenda proto-capitalista como o xeque-mate no poder político da Igreja Católica, que até então mandava e desmandava na Europa. 

Como os séculos seguintes testemunharam, esse poder foi sendo perdido paulatinamente e, por mais que Max Weber tente, não se pode fazer uma associação direta e imediata entre a doutrina da predestinação com a riqueza da elite dominante e o destino proletário das classes trabalhadoras, como se Calvino tivesse tentado reproduzir na Europa o sistema hindu de castas, tudo com o objetivo de inaugurar um novo sistema, que, por sinal, só veio a tomar as feições modernas de capitalismo após as Revoluções Industrial (no campo econômico) e Francesa (no campo político), mais de 3 séculos depois.

Como indica o texto anterior, do historiador Justo L. González, muito do que se atribui a Calvino, ele efetivamente não fez, disse ou escreveu. Nunca se viu como o dono da verdade ou o fundador de uma nova doutrina ou religião, mas como um humilde servo de Deus num período especialmente conturbado para a Sua Igreja. 

É muito cômodo (e anacrônico) julgar um homem do século XVI com os olhos do século XXI, mas Calvino, além de ter sido um produto do meio em que viveu, foi um homem à altura do seu tempo, desafiando o establishment e lutando para construir um mundo em que a liberdade de culto fosse um direito reconhecido e protegido, isso num tempo em que milhares morreram por defender esta garantia, hoje tão preciosa à humanidade.

Obviamente, teve que encastelar-se em Genebra para poupar a vida e as idéias, e não viveu para ver isso concretizado, nem a mudança se operou de forma instantânea, tanto que, 8 anos após sua morte, a França sofreu a infame Noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572), em que dezenas de milhares de protestantes foram massacrados a mando da realeza católica. 

Nos séculos seguintes, muito sangue fratricida ainda correria pelas ruas e pelos rios europeus até que desfrutássemos da atual liberdade religiosa (ou ateísta). 

Calvino pode até não ter sido um fator decisivo neste processo, mas foi um dos muitos homens e mulheres que dedicaram a vida a vê-lo realizado, ainda que pelos olhos do século XVI. 

Aquele foi um período em que era preciso tomar posição, geralmente desconfortável, e fazer escolhas terríveis com consequências potencialmente drásticas ou letais. 

Qualquer relação que se possa fazer com a intervenção divina na história da humanidade não é mera coincidência. 

Neste aspecto, Calvino preferiu não se omitir e foi o homem certo no lugar certo e na hora certa. Motivos não faltam, portanto, para celebrar o seu 5º centenário.


quinta-feira, 9 de julho de 2009

Calvino x calvinistas

por Justo L. González

Devido à sua importância e ao fato de que tem sido freqüentemente interpretada como representante da teologia de Calvino, a Confissão de Westminster merece alguma consideração detalhada, bem como uma comparação com a teologia do próprio Calvino.

A Confissão de Westminster começa com um capítulo sobre a Santa Escritura. Nele é declarado que os textos gregos e hebraicos do Antigo e Novo Testamento, que foram mantidos puros ao longo das eras são “imediatamente inspiradas” por Deus. A regra infalível para interpretar a Escritura não é outra senão a própria Escritura, em que os elementos necessários para a salvação estão claramente declarados – muito embora questões menores possam ser mais difíceis para o leigo interpretar. Embora Calvino concordasse com a importância que a Confissão deu à Escritura, existem dois pontos nos quais este documento se diferencia dele. O primeiro é o lugar da própria doutrina dentro da estrutura da Teologia. Calvino tomou a condição humana e o alvo da existência humana como ponto de partida para sua teologia. Dentro desta estrutura, a Escritura era importante como um meio para nos ajudar a alcançar o alvo para o qual fomos criados. Na Confissão, por outro lado, a Escritura se torna quase um livro de jurisprudência no qual textos devem ser encontrados para provar e apoiar vários pontos – incluindo a própria compreensão do que significa ser humano. Neste ponto, é interessante notar que os dois catecismos produzidos pela Assembléia de Westminster – redigidos por diferentes pessoas – concordam com Calvino, ao invés de concordarem com a Confissão. O outro ponto no qual a Confissão se diferencia de Calvino é a sua ênfase na inerrância escriturística. Embora Calvino cresse na inspiração divina da Escritura, ele nunca detalhou essa doutrina de forma detalhada ou mecanicista. A ênfase de Calvino estava no uso da Escritura pelo Espírito Santo na comunidade da fé, especialmente no ato da pregação. A Confissão trata com o texto sagrado de um modo mais individualista, como um guia para a fé de cada cristão.

A Confissão de Westminster coincide com a maioria dos calvinistas posteriores ao colocar a doutrina da predestinação em tal lugar na estrutura da Teologia que ela parece ser derivada da natureza de Deus, ao invés da experiência da graça dentro da comunidade da fé. Isto pode ser visto em que, imediatamente após afirmar a autoridade da Escritura, a Confissão prossegue discutindo a divindade no seu segundo capítulo, e os decretos eternos de Deus no terceiro.

Dois exemplos claros do modo em que o Puritanismo se diferenciou da teologia de Calvino podem ser vistos na maneira em que a Confissão de Westminster trata da oração e do Shabbat (descanso). Sobre a oração, Calvino diz que é o momento em que nós nos aproximamos mais intimamente do nosso propósito final. Na oração, nós glorificamos a Deus e nos relacionamos com o divino de tal forma que nós claramente esperamos que Deus seja a fonte de tudo o que somos e necessitamos. A Confissão aborda a oração de uma maneira muito legalista, afirmando que é “requerida de todo homem”, que deve ser no nome do Filho, numa língua conhecida e não (oferecida) pelos mortos. A respeito do Shabbat, o mesmo capítulo da Confissão adota uma posição diametralmente oposta a de Calvino. O reformador de Genebra afirma que o Shabbat era uma figura de coisas por vir e foi, portanto, abolido por Cristo, cuja ressurreição é o começo do Shabbat final. A celebração do domingo, então, não é uma nova forma de manter uma “observância supersticiosa de dias”, mas é, ao contrário, um modo prático de capacitar a igreja a adorar conjuntamente, e de dar descanso àqueles que trabalham. De certa forma, todos os cristãos estão agora no dia de descanso, pois não somos mais dependentes de nossas próprias obras (Institutas, 2.8; 28-34). A Confissão, por outro lado, afirma que Deus

“em Sua Palavra, através de um mandamento moral, positivo e perpétuo, unindo todos os homens, em todas as eras, apontou particularmente um dia em sete, como um shabbat a ser mantido santo para Ele: o qual, desde o começo do mundo até a ressurreição de Cristo, era o último dia da semana; e, a partir da ressurreição de Cristo, foi mudado para o primeiro dia da semana, que, na Escritura, é chamado o Dia do Senhor, e deve ser mantido até o fim do mundo, como o Shabbat cristão.

Esse Shabbat é, então, conservado santo para o Senhor, quando os homens, após uma devida preparação dos seus corações, e pondo em ordem seus assuntos comunitários com antecedência, não somente observam um descanso santo, todo o dia, das suas próprias obras, palavras e pensamentos sobre seus trabalhos seculares e recreações, mas também estão despendendo todo o tempo em exercícios públicos e privados de sua adoração, e nos deveres dos necessitados e de misericórdia.”


Este contraste marcante entre Calvino e a Confissão de Westminster pode ser visto como derivando da maneira em que os dois tratam da Escritura, o que foi discutido acima.

A influência de Calvino pode ser vista na Confissão onde ela afirma que tanto a lei quanto o evangelho pertencem ao pacto da graça. Dizendo isso, a Confissão evita o contraste marcante entre a lei e o evangelho que foi característico de Lutero e que Calvino tentara evitar. Mas então a Confissão prossegue para declarar que Adão, como originalmente criado, estava debaixo de um “pacto de obras” e que, apenas mais tarde, depois da queda, o “pacto da graça” foi estabelecido. Calvino nunca teria dito isso, pois isto pareceria fazer da fé um substituto para as obras que nós não podemos mais praticar. Se fé pertence a um novo pacto, segue-se que ela não foi requerida de Adão e Eva como é requerida dos seres humanos em todas as gerações posteriores.

Assim, a Confissão de Westminster, como muito do Calvinismo do século 17, esquematizou tanto a teologia de Calvino que uma grande parte do seu espírito original se perdeu.

Em resumo, o que dissemos sobre a Confissão de Westminster também pode ser dito sobre a maior parte do Calvinismo do século 17 – com a exceção notável de Amyraut e seu círculo na Igreja Reformada da França. Esta é a razão por que os historiadores freqüentemente se referem a esse período como um da “Ortodoxia Calvinista”. Esta ortodoxia geralmente centrou-se na questão da predestinação, que então se tornou o critério do Calvinismo. Isto é muito interessante, desde que durante o século 16, o ponto de maior divergência entre o Calvinismo e o Luteranismo não fora a predestinação – com o qual os dois grupos concordavam – mas, ao contrário, o modo da presença de Cristo na Ceia do Senhor.

A ortodoxia calvinista prestou um desserviço ao Calvinismo verdadeiro, na medida em que gerações posteriores creram que ela foi uma expressão acurada dos pontos de vista de Calvino, e, portanto, tenderam a vê-lo como mais rígido do que ele de fato fora. Isto, em contrapartida, significou que o reformador de Genebra tenha recebido menos simpatia do que ele merecia.

(extraído de “Uma História do Pensamento Cristão”, de Justo L. González, Ed. Cultura Cristã, 2004, vol. 3, pág. 299/302).

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O significado da cruz

“Ao contrário do que se imagina, eu olho para trás e vejo as experiências que, à época, pareciam especialmente desoladoras e dolorosas com particular satisfação. De fato, eu posso afirmar com total sinceridade que todas as coisas que aprendi em meus 75 anos de permanência neste mundo, tudo o que, verdadeiramente, fortaleceu e iluminou a minha existência, veio através da aflição e não por intermédio da alegria, tenha sido ela gratuita ou conquistada. Em outras palavras, se fosse possível eliminar a aflição de nossa vida terrena, seja por meio de alguma droga ou medicina alternativa, o resultado não seria uma vida atenuável, mas, sim, uma vida intoleravelmente banal e trivial. Este é, claro, o significado da cruz. E foi a cruz, mais do que qualquer outra coisa, que me levou, de forma inexorável, a Jesus Cristo.”
(Malcolm Muggeridge, “A Twentieth Century Testimony”, citado por Eugene Peterson em “Corra com os Cavalos”, 2003, Ed. Textus e Ed. Ultimato, pág. 100)

As crônicas de Marvin - 12

Ameaça

Ponto de vista alternativo, 7 de setembro de 2051, 23:00

- Vigiar a moça? – perguntou um dos homens encapuzados.
- Sim. Quero saber mais sobre o envolvimento dela com o rapaz... Não será necessária uma vigilância reforçada como no caso dele... Só descubram mais sobre ela... Se ela possuir um relacionamento forte com ele, poderemos usá-la para conseguir o que queremos dele... Agora ele deve estar desconfiado, será mais difícil segui-lo. Será muito mais difícil descobrir como ele faz aquilo...
Por um breve momento, todos ficaram em silêncio. O velho ditado que dizia “quem cala consente” caia muito bem para a ocasião. Moshe então mudou de assunto...
- Não podemos mais perder membros... Temos que interromper os planos daquele jovem, antes que seja tarde. Yekhezqe'l, você sabe o que fazer, não?
- Sim, Moshe. Está tudo dentro do cronograma.
- Pois bem, prossiga conforme o combinado.
- Você acha que vai funcionar, Moshe? – indagou uma das figuras.
- Bem, acredito que o rapaz não terá coragem de desfazer nada do que fizermos. Colocaria em risco o próprio plano dele. E pelas nossas informações, este seria o plano principal do rapaz, não é Eliyahu?
- Isto mesmo. – respondeu brevemente uma daquelas figuras.
- Pois bem, se anularmos o efeito causado por ele, teremos bastante tempo para planejar os próximos passos. Portanto, Yekhezqe'l, não falhe. Nosso sucesso depende de sua atuação.
- Pode deixar comigo, Moshe.
- Bem, senhores, acredito que por hoje seja só. Se mais alguma coisa surgir, convocaremos outra reunião. Vigiem o jovem e a moça até definirmos nossos planos para eles. Qualquer movimento suspeito, me avisem. Estão dispensados.
Então, lentamente aquelas figuras se afastaram, desaparecendo nas sombras. Mais uma vez a figura principal ficou para trás. Olhava para os céus, talvez pensando no futuro...

Ponto de vista de Amanda, 8 de setembro de 2051, 10:00

Não havia nada melhor que um feriado prolongado para recompor as energias de uma pessoa. Parecia até que o céu ficava mais azul, os pássaros cantavam mais e os problemas... Ah, quais problemas?
Não era todos os dias que se podia dormir até mais tarde. E como eu estava aproveitando aquilo! Levantei preguiçosamente de minha cama e ainda usando meus pijamas, fui buscar alguma coisa para comer.
Não havia ninguém em pé ainda. Papai ficou até tarde bebendo para variar e mamãe provavelmente ficou esperando ele. Tadinha... eu que sou filha não consigo suportar isto às vezes, imagino como ela se sente... Ver o homem que ama se acabar mais e mais...
O homem que ama...
Lembrei-me dos motivos de minha felicidade naquela manhã, os mesmo motivos que me deixaram feliz toda aquela semana... Não era somente o feriado prolongado que me deixava assim, como uma pessoa estranha poderia dizer ao me ver...
Enquanto tomava o café, eu revisava os detalhes daquele dia, como um filme... Me lembro que não estava muito animada para uma festa. Não tinha com quem ir, com quem conversar... Mas eu quis pelo menos ter a oportunidade de vê-lo. Talvez conseguisse falar com ele? Não tinha muitas esperanças disto acontecer, por isto quando eu o vi conversando com a irmã Priscila, imaginei que tinha cometido um grande erro... Eu jamais imaginaria que ele ficaria o resto da noite comigo...
Estava mergulhada em meus pensamentos, quando me lembrei que deveria ir ao mercado para comprar algumas coisas que mamãe me pediu, para o almoço. Então resolvi agir, pois já estava tarde. Terminei meu café, me troquei e saí.
O mercado não era muito longe de casa. Para chegar lá, eu tinha que passar por uma pracinha, onde em dia de feriado, muitas crianças brincavam com os pais. Não havia uma vez que eu passasse por ali e não sorria ao ver aquelas crianças brincando e desta vez não foi diferente. O filho dos meus vizinhos era o mais engraçadinho, brincando com um carrinho na areia. Estava distraída vendo ele brincar, quando percebi que duas irmãs vinham em minha direção.
- Bom dia, irmãs! – disse eu sorrindo.
No entanto, elas sequer me olharam. Já estava me acostumando com esta atitude, mesmo assim eu quis acreditar que poderia arrancar um cumprimento delas. Eu estava realmente de bom humor naquele dia.
- Irmãs? Bom dia! – disse mais uma vez, mas agora me aproximando delas.
Foi então que elas, me olhando com aquela cara de desprezo, me responderam:
- Bom dia, irmã. – responderam, como se a resposta fosse algo muito prejudicial a elas.
- Ei, o que houve? Por quê vocês estão assim?
Elas se entreolharam, como se perguntassem “qual é a dela?”, então uma delas disse à outra:
- Irmã, eu não entendo o quê o irmão Marvin viu nela...
- Nem eu...
E continuaram a caminhar, me deixando sozinha ali. Aquele tipo de coisa doía tanto, que me deu vontade de chorar. Só não fiz isto pois estava naquela praça ainda. Em um instante, minha alegria foi derrubada... E aquela não era a primeira vez.
Assim que Marvin se tornou um destaque, as irmãs começaram a olhar para ele de maneira diferente. Ele havia se tornado um “bom partido”. Eu senti naquele Congresso mesmo que eu não poderia mais me aproximar dele e isto me entristeceu. Não esperava encontrar ele no ônibus na saída, talvez por isto ele tenha percebido minha tristeza... Uma tristeza não só por ficar difícil me comunicar com o novo profeta de Jeová, como dei a entender para ele... Agora, se eu me aproximasse dele, seria desprezada por estas irmãs. Eu seria uma rival.
Assim que ele me pediu para ajudá-lo, eu comecei a sentir este desprezo. Já não me convidavam muito para festas e eventos, ninguém conversava comigo direito... Depois disto, fui completamente isolada. A irmã Priscila também sofreu com isto, mas ela tinha muito mais amigas que eu, então ela não ficou tão sozinha. Talvez por isto a “estratégia” contra ela tenha sido totalmente diferente... As irmãs estavam usando o fato dela fazer um curso superior contra ela, dizendo que uma moça que se preocupa mais com as coisas do mundo do que com as de Jeová, não merecia ajudar os dois profetas... Para não dizer casar, que só não era dito, pois objetivos das irmãs com aquelas críticas ficariam claros demais...
Assim, ao mesmo tempo que nos ignoravam, também faziam de tudo para impressionar os dois irmãos. O irmão Estêvão parecia estar mais à vontade com elas. O Marvin era diferente. Eu sei que ele só tinha olhos para a irmã Priscila e isto no fundo dói um pouco... Mas por outro lado, eu ficava feliz pois por causa disto, ele parecia nem perceber o mico que as irmãs pagavam para chamar a atenção dele, como dançar quase na cara dele, olhando para ver se ele percebeu... Só faltava chamar ele com o dedinho indicador... Como dizia minha tia, “o tal homem é um bicho besta mesmo... Quando vê um rabo de saia...”
E agora, fui totalmente ignorada. As irmãs sequer falaram comigo. É como se elas falassem de uma outra pessoa... Como é que irmãs de fé podiam fazer isto? É difícil acreditar que algo assim acontecia...
Me sentei em algum dos bancos da praça, enquanto pensava sobre tudo aquilo... Nos absurdos, na humilhação... Como? Dei um tempo, então segui meu caminho... Mas estas coisas não saíam da minha cabeça, mesmo durante as compras no mercado... Quase esqueci o troco.
Quando saí do mercado, vi um carro parado do lado de fora. Nele estava uma pessoa que eu conhecia de algum lugar. Mas de onde? Não estava conseguindo me lembrar... Ah, sim. É um irmão, mas de outra congregação... O coitado morava longe, certamente estava procurando a casa de algum irmão e ficou perdido por aqui. Então resolvi conversar com ele, pois eu poderia ajudá-lo com algum problema.
Comecei a me dirigir ao carro. Isto ele percebeu. O estranho foi que ele deu a partida no carro e saiu depressa... É como se não quisesse falar comigo... Eu poderia até entender que as irmãs fizessem isto, mas um irmão de outra congregação? O que estava acontecendo?
O que estava acontecendo com os irmãos? Agora não estava entendendo mais nada. Cheguei em casa muito confusa, com vontade de chorar... Estava sozinha... Depois de uns 20 minutos, o telefone tocou. Eu sabia que não era para mim, ninguém nunca liga para mim mesmo. Quem atendeu foi minha mãe. E fiquei surpresa, ao ouvir minha mãe me chamando:
- Amanda, telefone para você!
- Já vou, mãe.
Enxuguei meu rosto, e fui atender.
- Alô?
- Alô, Amanda... Como vai?
Aquela voz... Eu a reconheceria de qualquer lugar...

8 de setembro de 2051, 10:00

Mais uma vez estavam lá fora. Durante toda a semana eu estive sendo observado.
Eram três carros diferentes, segundo pude notar. E nenhum deles mora na mesma região. Porém, era sempre regiões distantes de onde eu moro, provavelmente para que eu não reconheça ninguém. Muito esperto.
Isto eliminaria a hipótese de que um ancião estivesse me monitorando. Talvez um trabalho em equipe, ou então um trabalho do Estêvão. Preferia nem pensar nisto.
Eu poderia perguntar a Estêvão se ele está me vigiando. Mas eu tinha certeza que ele me negaria, mesmo que estivesse mesmo vigiando. Não tenho meios de persuadi-lo a me responder.
Já tentei me aproximar dos carros, mas eles sempre fugiam. Apesar de ter buscado as informações deles pelo site do DETRAN, não adiantaria nada chegar na residência deles e intimá-los a me responder. Simplesmente me negariam tudo, como fizeram os dois rapazes na festa. Eu precisava pegá-los em flagrante...
Na rua, além deles, havia apenas um garoto brincando com uma espécie de carrinho de controle remoto. Bom, pelo menos era isto o que o homem que me vigiava estava imaginando. Mal sabia ele que eu havia pedido para o garoto brincar com um carrinho que por fora parecia com um de meus projetos.
Assim, enquanto um dos carrinhos de controle remoto aparecia na rua, bem no campo de visão daquele homem, outro se aproximava cada vez mais do veículo. Não foi muito difícil colocar o carrinho em baixo do carro.
Os carros mais novos no ano de 2051 já vinham todos com o barramento CAN, que integrava todo o sistema do veículo. Para minha sorte, um dos três veículos era relativamente novo. Aproveitei que o turno deste carro era hoje, dia de feriado, para conseguir algumas respostas.
O desenvolvimento da robótica nos últimos anos também foi espetacular. Há 50 anos atrás eu não poderia construir um braço mecânico tão preciso. Com uma câmera na ponta, e com a capacidade de se expandir, guiei o braço até encontrar o ponto certo. Tinha que ser rápido, nunca poderia prever quando aquele homem decidiria partir. Mas mesmo com toda a complexidade da operação, eu obtive sucesso. Agora tinha acesso a todo o sistema do carro.
No carro, o observador despreocupado olhava para a minha casa. Às vezes prestava atenção na brincadeira do garoto. Ele sempre quis um daqueles quando pequeno. Levou um susto, quando o rádio do carro dele ligou, sintonizado na rádio Terra, que por coincidência (bem, eu esperei a música chegar neste ponto) tocava:

A coisa tá feia, a coisa tá preta
Quem não for filho de Deus tá na unha do Capeta...


Ele se assustou enormemente. E quem não se assustaria? Não entendendo nada, ele desligou o rádio. Em vão, já que este ligaria novamente...

Se o picasso fosse vivo ia pintar tabuleta
Bezerrada de gravata vê se cuida e não se meta
quem mamava no governo agora secou a teta


Mais uma vez sem entender, ele desligou o rádio. Olhava desconfiado para aquilo, pensando o que poderia estar acontecendo... Outra rádio tinha uma música muito legal! Compartilhemos...

"Cheguei, hein ! Estou no Paraíso!
Que abundância meu irmão!"

Conheci uma menina que veio do sul
Pra dançar o tchan e a dança do tchu tchu
Deu em cima, deu em baixo,
na dança do tchaco
E na garrafinha deu uma raladinha
Agora o Gera Samba mostra pra vocês
A dança do bumbum que pegou de uma vez

Ele não deixou chegar ao refrão, que era o momento mais edificante da música. É uma pena. Bem, eu já o preparei psicologicamente. É hora do show.
De uma vez, todas as travas do veículo foram acionadas, enquanto os vidros subiam. O homem até tentou destravar o carro, mas a funcionalidade já havia sido desligada. Estava preso lá dentro. Imediatamente o veículo começou a jogar água no parabrisas, depois os limpadores começaram a limpá-lo.
Ele então deu umas pancadas no painel... Claro, se seu limpador de parabrisas ligar sozinho é problema de mau contato... O carro revidou a violência, ligando o ventilador na cara dele, com potência máxima. Desesperadamente o rapaz tentava mudar a direção do vento.
Como nada dava certo, ele deu a partida no carro. Foi inútil, a primeira coisa que eu fiz foi desligar a ignição. Então liguei o rádio, que na hora tocava alguma coisa como “Ado, ado, ado, cada um no seu quadrado”, em volume máximo. Quando o pisca-alerta ligou, já havia um punhado de gente olhando. Esperei um pouco mais de gente ficar olhando, para depois disparar a buzina. A esta altura do campeonato, todo mundo já o tinha como louco.
A sorte daquele rapaz é que não é muita gente que conhece o código Morse hoje em dia. Pois qualquer um que o conhecesse saberia que os sinais de luz alta que o carro fazia convidava as mulheres para programas e outras coisas indecorosas que não me atrevo a repetir por aqui.
Então de repente, tudo parou. Ele continuou trancado lá dentro, mas as coisas estranhas não estavam mais acontecendo. Então, liguei meu transmissor FM. Ele tinha potência necessária para transmitir para o carro. Sintonizei o rádio do carro para a frequência que estava usando e comecei a transmissão:
- Eu sei que vocês estão me observando, rapaz... E eu acho que agora você sabe o quê acontece com aqueles que me desafiam... Ou você acha que sou uma pessoa comum? Portanto, ou você me conta agora por quê está fazendo isto e quem te mandou, ou você sofrerá consequências mais sérias do que uma simples pane no seu veículo... Quando estiver disposto, bata três vezes no vidro de seu carro.
Imediatamente ele bateu umas dez vezes. Parece que ele vai cooperar. Desci um pouco o vidro do carro e fui até ele.
- Muito bem, rapaz. Me conte o que sabe...
- Irmão, sinto muito, eu não queria...
- Olha, se você me disser o que está havendo, eu te perdoo... Então me conte logo...
- Irmão, eu não sei de muita coisa não. Os anciãos nunca deixaram nós sabermos os motivos. Sempre que perguntamos, eles dizem que é sigiloso.
- Então, vocês se reportam aos anciãos?
- Sim, irmão.
- E fazem isto por celular?
- Não, usamos o celular apenas para nos comunicar durante nossa observação. Não é bom que uma pessoa apenas vá atrás de você, você descobriria mais fácil.
- Bem, acabei descobrindo... E vocês ligam para quem?
- Geralmente para nossos anciãos. Eles dão um jeito de atualizar as informações entre si.
- Humm, interessante. E eles, estão agindo em conjunto?
- Irmão, me parece que eles receberam a ordem de outra pessoa, mas eles nunca dizem quem é.
- Hummm... E por quê raios vocês aceitaram seguir ordens de forma tão cega assim?
- Bem, irmão, eles prometeram nos dispensar de muitas horas de pregação...
- Como é que é?
- Isto mesmo. Todo mundo que está ajudando a te observar está dispensado do serviço de campo.
- Deixe-me ver se entendi... Vocês estão fazendo barganha com o serviço de campo? Pensei que vocês se preocupassem com as pessoas que não conhecem a Verdade...
O rapaz baixou a cabeça, em sinal de vergonha. Mas geralmente a última coisa que eles se preocupam é sobre as pessoas. Tudo que eles mais querem é completar suas horas. Não os culpo. A própria Torre transformou a pregação em uma espécie de trabalho não-assalariado com carga horária.
- Muito bem, rapaz, você vai me escutar com muita atenção e vai fazer exatamente o que eu te disser. Você primeiro não vai comentar nada do que aconteceu aqui hoje com ninguém, entendeu?
- Entendi, irmão.
- Deixe que eles me vigiem. Se você quiser me vigiar também, não tem problema. Mas não diga nada a ninguém. Continue entregando seus relatórios. Se por acaso você contar o que aconteceu por aqui hoje para alguém, pode ter certeza que seu futuro estará em sério perigo.
Ele arregalou os olhos, demonstrando que entendeu bem o que eu dizia.
- Bem, eu vou então entrar em casa, e depois de dez minutos, seu carro estará normal. Quero que saia daqui quando isto acontecer. E lembre-se, não diga nada a ninguém.
- E... Está certo, irmão.
Então, me virei, e caminhei lentamente para a minha casa. Enquanto isto, o pequeno robô se desconectava da rede de dados do veículo, recolhendo o pequeno braço mecânico. Quando entrei em casa, já estava manobrando o carrinho para que ele saísse debaixo do carro. Como orientei ao garoto, ele foi até onde o carrinho estava e o pegou (o outro carrinho estava bem escondido). Exatamente em dez minutos, o rapaz ligou o carro e partiu em alta velocidade. Não demorou muito para que o garoto aparecesse em casa para entregar o meu equipamento.
Era óbvio que os anciãos estavam envolvidos. Porém, eu não imaginava que eles conseguissem guardar o segredo tão bem assim... Eu teria mesmo que visitá-los. E para isto, não deveria levantar suspeitas. Seria prudente fazer uma visita ao ancião daquele rapaz, acompanhado por alguém não tão suspeito...
Primeiro, decidi ligar para ele, avisando da visita. Não foi difícil conseguir o telefone daquele ancião.
- Olá, aqui é o Marvin. Como vai, irmão Rogério?
- Olá, irmão Marvin! Estou bem, e você?
- Estou bem também. Irmão, primeiramente gostaria de agradecer pela festa do último fim de semana.
- Ah, não foi nada. Vocês merecem.
- Hehehehe, nem tanto. Bem, em segundo lugar, eu gostaria de te avisar que eu farei uma visita até sua Congregação, com uma das irmãs que me ajudam por aqui. Gostaria de conversar com você, enquanto deixo ela e sua esposa conversando sobre a Congregação e seus problemas. Estou estendendo o que já faço por aqui, para ajudar todos os irmãos que eu puder.
- Ah, que bom saber disto, irmão. Pode deixar que vou avisar minha esposa sobre sua visita.
Pronto, minha reunião estava preparada. Agora eu tinha que avisar a pessoa que me acompanharia.
Priscila? Foi o primeiro nome que pensei, é claro... E foi esquisito isto, pois embora tenha pensado nela primeiro, eu não me senti empolgado de encontrá-la... É como se aquela magia de vê-la tivesse deixado de existir...
Descobri recentemente que gostava de conversar mais com outra pessoa... Sim, me descobri sorrindo ao mentalizar seu nome... Não havia melhor companhia para mim do que ela. Por isto, peguei meu telefone e liguei para ela. Quem atendeu foi a mãe dela.
- Olá, é da casa da Amanda?
- Sim, é sim. Vou chamá-la.
Em poucos minutos uma voz trêmula me atendeu no telefone:
- Alô?
- Alô, Amanda... Como vai?
- M... Marvin??
- Sim, sou eu... Que voz é esta, aconteceu alguma coisa?
- Ah... não aconteceu nada não... Mas a que devo a honra de sua ligação?
A voz dela parecia melhor...
- Bem, eu programei uma visita à Congregação do Alto da Glória e gostaria que você me acompanhasse. Você pode?
- Te acompanhar? Hum, claro que sim! Que horas seria?
- Sairemos às 13:00... Eu te encontro em sua casa, está bem?
- Está bem!
- Muito bom. Então até mais.
- Até mais.

8 de setembro de 2051, 13:00

Desta vez foi mais fácil sair de casa... Despois de despachar o meu vigia, poderia andar tranquilamente pela rua.
A casa de Amanda ficava um pouco longe... Tinha que andar um bocado. Mas até que eu gostava de caminhar. Ao chegar perto da casa dela, tive um susto... Havia um carro parado na porta dela. Um dos carros que eu já havia visto. Estariam vigiando ela também? Mas por quê?
Disfarcei um pouco, entrando rapidamente na casa dela. Ela já estava me esperando na porta.
- Olá, Marvin!
- Oi, Amanda. Está melhor?
- Melhor? Como assim?
- Me parecia triste ao telefone... Pensei que tivesse acontecido alguma coisa na sua casa e você não quisesse falar ao telefone...
- Ah, não... Não aconteceu nada... Às vezes eu fico assim mesmo... Não se preocupe...
- Hum, tudo bem então... Bem, vamos que a jornada é longa, hehehe...
Ela sorriu.
- Está certo. Vamos lá.Então fomos caminhando em direção ao ponto de ônibus, enquanto éramos observados...

domingo, 5 de julho de 2009

Um centenário



Se viva fosse, minha avó faria hoje 100 anos de idade. Infelizmente, faleceu aos 86, em 4 de abril de 1996. Viveu bastante e viveu bem. Fica aqui, então, a homenagem à D. Zinha, esse grande exemplo de mulher.




quinta-feira, 2 de julho de 2009

Grandes filmes - 8



"A General" é um título que pode despertar a curiosidade sobre um eventual erro de português, mas se trata de um nome feminino mesmo, já que "a General" é uma locomotiva, que é, com o perdão da redundância, o grande mote desta obra-prima de Buster Keaton, um filme mudo em preto-e-branco de 1927, que (pasmem!) continua assombrando os moderninhos por ter sido feito sem nenhum efeito especial e pelo fato do próprio Keaton, acrobata desde menino, ter dispensado dublês nas cenas perigosas, que são muitas e impressionantes. 

A história é parcialmente baseada num episódio real da Guerra Civil americana, em que um maquinista sulista passa pelas linhas yankees com a sua locomotiva. 

Buster Keaton, grande comediante mais conhecido - paradoxalmente - como "o homem que nunca ri", dá à tragédia da guerra uma veia cômica e séria ao mesmo tempo, e este é, para mim e para muita gente, um dos melhores filmes de todos os tempos. 

Felizmente, este clássico dos clássicos está disponível completo no Youtube (link abaixo), e você poderá conferir se isto é mesmo verdade. Desfrute-o então:

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