quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Fechando 2009 com Bach

No apagar das luzes de 2009, só tenho que agradecer a Deus pelo ano maravilhoso que tive. Apesar de todos os problemas que todos nós temos na vida, foi um ano abençoado. Acho que mais que do que pedir que Deus faça um milagre em mim, eu tenho que agradecer pelo milagre que é a minha vida nEle. Desejo a todos os leitores e amigos deste blog um 2010 também maravilhoso e abençoado, e que todos experimentem e se satisfaçam plenamente com o dom da vida que Deus nos deu. Obrigado, Senhor!

Para celebrar a passagem do ano, nada melhor do que ouvir o 1º movimento do Concerto N. 1 para violino em Lá menor, do compositor que considero o que mais se aproximou da música divina, o alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), num solo brilhante do violonista russo-ucraniano David Oistrakh (1908-1974). São pouco mais de 4 minutos de um presente valiosíssimo para a alma e uma preparação para os ouvidos diante do ribombar de fogos logo mais. Simplesmente, deixe-se levar...


O coração de Deus

Leitura: Lucas 4:31-32; Marcos 1:22; Romanos 8:12-17

Romanos 8:12-17

“Portanto, irmãos, estamos em dívida, não para com a carne, para vivermos sujeitos a ela. Pois se vocês viverem de acordo com a carne, morrerão; mas, se pelo Espírito fizerem morrer os atos do corpo, viverão, porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Pois vocês não receberam um espírito que os escravize para novamente temerem, mas receberam o Espírito que os adota como filos, por meio do qual clamamos: “Aba, Pai”. O próprio Espírito testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus. Se somos filhos, então somos herdeiros,; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, se de fato participamos dos seus sofrimentos, para que também participemos da sua glória.”

Versículo-chave: “E muito se maravilhavam da sua doutrina, porque a sua palavra era com autoridade.” (Lucas 4:32)

MEDITAÇÃO:

Emerson, referindo-se a Sêneca, disse: “Seus pensamentos são excelentes, se tão-somente ele tivesse o direito de expressá-los”. Jesus não somente tinha o direito, mas também o poder de expressar os seus pensamentos. Ele podia iluminar, revelar e comunicar a Deus porque ele era o Deus encarnado. Reivindiquemos hoje o que sabemos acerca de Deus em virtude de sua própria Palavra a respeito de si mesmo e de Jesus Cristo.

Cristo apresentou Deus:

- como Pai amoroso vitalmente interessado por todas as necessidades dos seus filhos, um Pai que conhece a alma individualmente e se importa com ela.
- como Deus que constantemente busca os seus filhos.
- como Deus que não espera que seus filhos estejam preparados nem adequados.
- como Deus que perdoa antes que o homem confesse – não por causa da confissão, mas para que ele possa confessar.
- como Deus que, em virtude do seu amor, permitiu que seus filhos fossem livres e permanece a seu lado ainda que falhem e causem dor a si mesmos ou a outros.
- como Deus que exerce sua soberania sobre o Universo e mostra seu poder no amor sofredor da cruz para curar o ódio, as enfermidades e as dores.
- como Deus que está constantemente reunindo seus filhos de todas as raças e credos a fim de serem irmãos, porque ele é Pai.
- como Deus que está totalmente disponível a seu povo através do diálogo criativo da oração como uma fonte de orientação, poder e paz.
- como Deus que criou o homem para um relacionamento eterno, que a morte não pode destruir.
- como Deus que é o Senhor de toda a história... Aquele que era, é e para sempre será.


PENSAMENTO DO DIA: Jesus tem autoridade porque é o Autor da vida.

(Lloyd John Ogilvie, “O que Deus tem de melhor para a minha vida”, Ed. Vida, meditação de 26 de dezembro)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Ebenézer

“...até aqui nos ajudou o Senhor.”
(1 Samuel 7:12)


A expressão “Até aqui” parece-nos um marco referente ao passado. Cinqüenta, setenta anos se passaram, e “até aqui nos ajudou o Senhor!” Por meio de pobreza e riqueza, doença e saúde, em casa ou fora, em terra ou mar, em honra ou desonra, em oração ou tentação – “até aqui nos ajudou o Senhor”!

É agradável olhar para trás contemplando uma longa alameda de árvores. É bonito vê-las erguendo-se como colunas de um templo, fechando a abóbada com seu arco de ramos. Da mesma forma, contemple as alamedas de seus anos passados e veja-os cobertos pelos ramos verdes da misericórdia de Deus, e os troncos, como os fortes pilares da sua fidelidade e amor que sustentam as suas alegrias.

Não há aves cantando nas ramagens? Certo que haverá muitas, e todas elas cantam a misericórdia recebida “até aqui”.

Mas esta expressão aponta também para diante. Pois quando alguém chega a um certo marco e escreve: “Até aqui”, ele ainda não chegou ao fim; ainda há distâncias a percorrer. Mais provas, mais alegrias, mais tentações, mais triunfos; mais orações, mais respostas, mais labores, mais vigor, mais lutas, mais vitórias; e então vem a doença, idade, enfermidade e morte.

E agora, é o fim? Não! Há mais ainda – acordar semelhante a Jesus, tronos, harpas, cânticos, vestes brancas, a face do Salvador, a companhia dos santos, a glória de Deus, a plenitude da eternidade, a sempiterna bem-aventurança. Ó crente, tenha bom ânimo, e com grata confiança erija o seu “Ebenézer”, pois.

Quem te ajudou até aqui,
Te ajudará até o fim.

(“Mananciais no Deserto”, Lettie Cowman, Ed. Betânia, meditação de 31 de dezembro)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Tudo fez formoso a seu tempo

2009 chega ao fim. Tempo de fazer balanços e projetar 2010. Tempo também de agradecer a Deus por tudo o que passou, antecipando o que ainda está por vir. Não importa se foi (ou se vai ser) bom ou ruim, pois somos alertados pela Palavra que “o mundo jaz no maligno” (1 João 5:19), mas “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8:38). Salomão diz em Eclesiastes 3:11 que Deus “tudo fez formoso a seu tempo” e acrescenta que “também pôs na mente do homem a ideia da eternidade, se bem que este não possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até o fim”. É esta ideia da eternidade no coração que move muita gente a buscar, por todos os meios, uma maneira de se perpetuar na lembrança e no coração dos outros, no poder, nas riquezas, na dominação, esquecendo-se de que Quem faz tudo formoso a seu tempo é Deus e não o homem. Vivemos numa era de megapastores midiáticos e celebridades instantâneas, em que a busca desesperada de poder e fama é uma maneira mal disfarçada de tentar alcançar a eternidade já neste mundo, no ledo autoengano de que se possa roubá-la das mãos de Deus.

O confronto entre o eterno e o provisório é antigo. O tempo é um enigma que a humanidade vem tentando decifrar há milênios. Santo Agostinho dizia que todos nos sentimos familiarizados com ele, mas somos incapazes de entendê-lo de forma clara e satisfatória. Até Einstein, a ciência o considerava absoluto e imutável. A única alternativa era esperá-lo passar, como muitos fazem à espera do ano novo. Coube ao gênio da física inferir que, considerados à velocidade da luz, tempo e espaço eram grandezas relativas. Trazendo o tema para o campo da fé, Deus se revela no tempo e na história, e o modo pelo qual Ele faz isso não é absoluto, nem relativo, mas - em linguagem bíblica – formoso e oportuno. A palavra hebraica traduzida por “formoso” em Eclesiastes 3:11 é יפה - yâpheh – que também pode ser traduzida por “belo”, “agradável, “prazeroso”. A ideia por trás da expressão “tudo fez formoso a seu tempo” é que justamente devemos aproveitar todas as oportunidades que nos são dadas por Deus para viver uma vida plena dedicada a Ele, mesmo nos momentos mais difíceis. Este é o conselho também dado por Paulo em Efésios 5:15-16, que nos recomenda a sermos sábios e usarmos bem todas as oportunidades (“remindo o tempo”), porque os dias são maus. E é a Bíblia a melhor demonstração disso, contando a história do povo de Deus (e a Sua intervenção na História) ao longo dos milênios. Afinal, Jesus veio ao mundo no tempo oportuno (Marcos 12:2; Lucas 20:10; 1ª Timóteo 2:6). Já nós, humanos, somos seres que nascemos, atuamos, interagimos, e nos despedimos num determinado momento do tempo. Somos circunstanciais, enquanto Deus é eterno. Tiago (4:14) descreve a vida como um vapor que aparece por pouco tempo e logo se desvanece, mas, na nossa curta existência, o Senhor coloca dentro do nosso coração este desejo, este sentimento, este vislumbre da eternidade (Eclesiastes 3:11 - veja também um texto interessante de Philip Yancey sobre o tema). No mesmo livro, onde diz que há tempo para tudo (3:1-8), o Pregador ressalta que o tempo e a oportunidade ocorrem a todos (9:11); logo, aproveitar o tempo e todas as oportunidades que ele nos oferece é um conselho recorrente de Paulo (Efésios 5:16, Colossenses 4:5).

Temos sempre a oportunidade de fazer o bem, não só aos outros mas principalmente a nós mesmos (Gálatas 6:9-10, Filipenses 4:10), e há aqueles que, como aconteceu à enteada de Herodes, aproveitam a oportunidade para fazer o mal (Marcos 6:21), ou para manipular o bem que outros fizeram (2ª Coríntios 11:12). A oportunidade sempre aparece para que digamos a palavra certa no tempo adequado. Podemos deixá-la passar, e assim nos tornarmos omissos, ou dizer a palavra fora de tempo (ou de propósito), correndo o sério risco de sermos inconvenientes. Salomão compara a palavra dita a seu tempo a maçãs de ouro em salvas de prata (Provérbios 25:11, ver também 15:23). Como o servo sofredor profetizado por Isaías, podemos pedir a Deus que saibamos dizer boa palavra ao cansado. "Ele me desperta todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que ouça como aqueles que aprendem" (Is. 50:4). Como cristãos, temos, mais que a obrigação, o prazer de aproveitar as oportunidades de dar testemunho da nossa fé (Lucas 21:13, 2ª Coríntios 5:12), enquanto aguardamos o tempo oportuno em que nosso Senhor e Rei se manifestará em glória (1ª Timóteo 6:15), sempre alertas, entretanto, porque o mal absoluto também aproveita as ocasiões de se manifestar (2ª Tessalonicenses 2:6), conforme a própria história da humanidade insiste em comprovar. C. S. Lewis teve oportunidade de observar isso, imaginando uma carta do Diabo a um aprendiz, em que o coisa-ruim dizia o seguinte:

Os seres humanos vivem no tempo. Porém o Inimigo os destinou à eternidade. É por isso, acredito, que ele quer que os homens atentem basicamente para duas coisas: a própria eternidade e aquele ponto do tempo que chamam de presente. O presente é o ponto em que o tempo toca a eternidade. É no momento presente, e nada mais do que no momento presente, que os seres humanos têm experiências semelhantes àquela experiência que o nosso Inimigo tem da realidade como um todo; é somente nele que lhe são oferecidas a liberdade e a realidade. É por isso que ele quer que os homens estejam constantemente ligados ou com a eternidade (o que significa mantê-lo em mente) ou com o presente – quer seja meditando sobre sua união eterna com ele ou separação dele, ou então, obedecendo à voz presente da consciência, carregando a cruz de hoje, recebendo a graça para hoje e dando graças pelo prazer no presente. (transcrito de "Cartas do Diabo a seu Aprendiz", em "Um Ano com C. S. Lewis – Leituras Diárias de suas Obras Clássicas", Ed. Ultimato, 2005, p. 279)

Em suma, nós, cristãos, somos privilegiados porque recebemos, no nosso tempo finito – presente -, a visita do Deus infinito, Aquele que faz tudo formoso a seu tempo. Como lembra Paulo, fomos agraciados com "uma fé e um conhecimento que se fundamentam na esperança da vida eterna, a qual o Deus que não mente prometeu antes dos tempos eternos. No devido tempo, ele trouxe à luz a sua palavra" (Tito 1:2-3), pela qual vivemos e experimentamos a doce invasão do Eterno nas nossas vidas peregrinas neste mundo. Há momentos, entretanto, em que nossas mãos fraquejam, nossos pés escorregam, nossa vida, aparentemente, se esvai, e o tempo se torna um fardo pesado demais para carregar. É nessa hora em que todas essas verdades devem ser lembradas, para que façamos como aconselha o escritor de Hebreus (4:16): "Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno". Afinal, como lembra o salmista, a natureza se alegra em Deus e espera dEle o seu sustento em tempo oportuno (Salmo 104:27). O maná que sustentou o povo de Israel no deserto por 40 anos, durava apenas um dia, com exceção da provisão dupla para o sábado, recebida na sexta-feira (Êxodo 16). Não adiantava guardar o maná para o dia seguinte, pois o tempo prazeroso e oportuno para comê-lo havia se esgotado. Entretanto, sempre caía maná no dia seguinte. Se hoje não é o tempo oportuno, não nos desesperemos, vamos com confiança ao trono da graça, lá há tempo, formosura e oportunidade, mas principalmente graça, sempre...


Para um estudo mais detalhado do livro de Eclesiastes, clique aqui.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

"Tomando posse" com Agostinho

As últimas décadas da Igreja cristã no Brasil e no mundo têm sido marcadas pelo (re)aparecimento de teologias novidadeiras e reinterpretações esdrúxulas e mal intencionadas de alguns textos bíblicos, com o fim de apresentar um “evangelho”consumista e utilitário, em que os fins justificam os meios, e o que importa é o resultado material conseguido aqui e agora por quem o pratica. Muitas igrejas vêm sendo contaminadas por estas aberrações hermenêuticas, e se afastam cada vez mais do rio de águas vivas que, apesar de todos os obstáculos, segue jorrando desde os tempos neotestamentários. Por isso, eu dedico especial atenção aos escritos dos primeiros cristãos, aqueles que estavam mais próximos, tanto geográfica como cronologicamente, dos (verdadeiros) apóstolos e do próprio Jesus. Aqueles irmãos queridos beberam de uma água mais limpa, de melhores fontes. Tiveram a magnífica oportunidade de participar da formação da Igreja cristã, ainda não institucionalizada como querem fazer crer os historiadores papais, e como Policarpo de Esmirna orou ao morrer no ano 160 d. C: “eu te louvo porque me julgaste digno deste dia e desta hora; digno de ser contado entre teus mártires, e de compartilhar do cálice de teu Cristo, para ressuscitar na vida eterna da alma e do corpo na incorruptibilidade do Espírito Santo.”.

Consultando, pois, os pais da Igreja, é muito interessante ver como eles interpretavam de uma maneira muito mais espiritual alguns textos que hoje são completamente desvirtuados pelos falsos profetas da prosperidade. Em sua obra “O Espírito e a Letra”, escrita por volta de 412 d. C., por exemplo, Santo Agostinho interpreta alguns textos que hoje são deturpados – de maneira totalmente diferente:

Ainda se pode investigar se o Apóstolo se refere à esperança da justiça pela qual a justiça espera ou pela qual a justiça é esperada. Pois, o justo, vivendo da fé, espera certamente a vida eterna, assim como a fé, que tem fome e sede de justiça pela renovação dia a dia do homem interior, aperfeiçoa-se e espera saciar-se dela na vida eterna, onde se realizará o que o salmo diz de Deus: É ele que sacia de bens a tua vida (Sl 103,5).
...
Portanto, é réu da condenação sob o seu poder aquele que despreza sua misericórdia quando chamado à fé. Mas a todo aquele eu acreditar e a ele se confiar para ser absolvido dos pecados, curando-se de todos os vícios, inflamado por seu calor e iluminado por sua luz, contará com sua graça para as boas obras. As boas obras o libertarão da corrupção da morte mesmo em seu corpo; será coroado, saciado de bens não temporais, mas eternos, além do que podemos pedir ou pensar (Ef 3,20).

O salmo referiu-se a estes mesmos favores divinos observando a mesma ordem, ao dizer: Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não esqueças nenhum dos seus benefícios. É ele quem perdoa todas as tuas culpas, e que sara todas as tuas enfermidades. É ele quem resgata da morte a tua vida, e que te cora de misericórdia e de graça. É ele quem sacia de bens a tua vida (Sl 103,2-5). E para que a deformidade do homem velho, ou seja, de nossa mortalidade, não se desesperasse de alcançar estes bens, continua o salmo: Renova-se, como a da águia, a tua juventude. Como se dissesse: “Isso que ouviste diz respeito ao homem novo e ao Novo Testamento”. Considera comigo tudo isso um pouco, eu te peço, e contempla com prazer esse louvor à misericórdia, isto é, à graça de Deus.

(Santo Agostinho, “O Espírito e a Letra” (De Spiritu et Littera), caps. XXXII e XXIII, em “A Graça (I)”, Coleção Patrística, São Paulo: Paulus, 1998, pp. 85 e 88)

Felizmente ainda temos esses registros, verdadeiros testemunhos históricos da Igreja cristã, que mostram que a verdadeira prosperidade – para todos os cristãos de todas as eras - é viver uma vida ESPIRITUAL plena e completa, que se projeta para a eternidade na mais absoluta dependência de Deus.



domingo, 27 de dezembro de 2009

O encanto do desencanto

Curioso com a polêmica que envolve o livro “A Cabana”, de William P. Young, aproveitei o feriadão do Natal para lê-lo, até porque a época convida para uma reflexão espiritual. 

Primeiro, entretanto, tive que vencer alguns preconceitos meus. Em geral, não gosto de best-sellers por sempre duvidar do tal “comportamento de manada” numa sociedade consumista como a nossa. 

Espero algum tempo até ler algumas críticas e (principalmente) o livro entrar em promoção. Foi o caso agora. 

Por outro lado, as opiniões que li falavam de uma abordagem um tanto quanto exótica da Trindade, doutrina que eu prezo muito, e como defensor da ortodoxia cristã, confesso que tenho sérias dificuldades ao ler algo que possa parecer blasfêmia contra os dogmas cristãos.

Feitas essas observações, passemos a uma análise da conjuntura que envolve a venda de livros hoje em dia, antes de falar dele propriamente. Há dois ângulos que merecem ser aprofundados. 

O primeiro é o mercadológico, afinal ninguém vende melhor (qualquer coisa) do que os americanos, treinados desde a infância para se tornarem verdadeiras máquinas de fazer dinheiro. 

O mercado editorial por lá é algo monstruoso, e qualquer pessoa se aventura a escrever um livro que, se cai nas graças do público um pouco que seja, já lhe garante no mínimo um book tour com todas aquelas entrevistas e sessões de autógrafos agendadas. 

A suprema glória, neste caso, é ir ao programa da Oprah Winfrey, o que parece não ter acontecido até agora com o William P. Young, embora Oprah tenha sido cogitada para interpretar o “Deus” do livro (“Papai”) na versão cinematográfica. 

Isto porque todo autor americano escreve o livro já pensando em vender os direitos para o cinema, como o próprio Young confessa nos agradecimentos finais ao, digamos, “consultor cinematográfico” Bobby Downes, por “ajustar o fluxo e reforçar o drama” (p. 235). 

Envolve muita grana, portanto. 

O segundo aspecto a ser levado em conta é a carência espiritual da humanidade como um todo, que não vem sendo suprida pela pregação pura e simples do evangelho de Jesus Cristo, como se não bastasse mais apontar a Sua cruz e dizer que (somente) ela traz salvação verdadeira. 

Vivemos numa fase assustadora do que eu chamo de “o evangelho do desencanto”, em que Deus (em Jesus) é visto mais como um supridor de carências afetivas, num discurso “psicologizado” e choroso, que deixam as Lamentações de Jeremias no chinelo. 

É o encanto do desencanto.

Deixemos isso de lado e vamos ao livro, então. É bom deixar claro que não se trata de literatura, no melhor sentido da palavra. 

“A Cabana” seria melhor classificada como uma espécie de “autoajuda cristã” ou esoterismo, isso para não dizer que foi concebido como um roteiro a ser vendido ao cinema. 

A leitura é fácil e flui bem nas pouco mais de 200 páginas do livro. A primeira parte, que conta o rapto e o assassinato de Missy, garota de 6 anos de idade, filha do personagem principal, Mack, é muito bem escrita e consegue capturar a atenção do leitor. 

Já o encontro de Mack com a Trindade na cabana-título é outra história. A Trindade é apresentada em três pessoas distintas, sendo Deus-Pai uma “negra gorda” a quem Mack chama de “Papai”, Jesus um jovem de meia-idade de feições árabes, chamado pelo próprio nome, e o Espírito Santo uma mulher asiática magra, baixa e translúcida, chamada de Sarayu. 

Nada mais politicamente correto e vendável, não é mesmo?

Os Três com Mack se inter-relacionam de maneira pra lá de irreverente e descompromissada. 

Há, ainda, a Sabedoria encarnada numa mulher chamada Sophia, o que pode deixar os católicos mais propensos a gostar do livro. 

Por sinal, a visão do Espírito Santo como uma mulher se assemelha muito com as ideias de Elcasai, de uma seita judaizante do século II (clique aqui para saber um pouco mais sobre suas ideias). 

Repercutindo a tendência cóspel atual de “apaixonar-se” por Jesus, em vez de “amá-lO”, em "A Cabana" Jesus também se declara “apaixonado” por uma mulher, a Igreja (p. 164), embora o autor diga que o próprio Jesus não dá tanto valor à Igreja e nem gosta de religião nas duas páginas seguintes, e, mais adiante, Ele diga – o próprio Jesus – que não é cristão (p. 168). 

Aliás, parece que o autor não entendeu bem a mensagem de Jesus, ou não leu direito a Bíblia, já que coloca na boca do Mestre a frase “É verdade, minha vida não se destinava a tornar-se um exemplo a copiar” (p. 136), enquanto Paulo insiste tanto na necessidade de se imitar a Cristo (1 Coríntios 11:1, Efésios 5:11, 1 Tessalonicenses 1:6).

É claro que o autor não quis escrever um compêndio de doutrinas teológicas, mas ainda que a Trindade tenha sido manifestada em Três Pessoas no batismo de Jesus (com a voz vinda do céu e o Espírito Santo em forma de pomba), é difícil aceitar que Deus-Pai tenha se manifestado em carne de maneira que não seja em Jesus, Seu Filho, já que nem a Moisés foi permitido vê-lO face a face. 

Além do triteísmo explícito, as Pessoas da Trindade (Pai e Espírito Santo) teriam se manifestado em imagens da criação, algo que poderia configurar idolatria. 

Chama a atenção, também, que “Papai” tenha as marcas dos pregos da cruz no corpo, que lembra a antiga heresia do patripassionismo, rejeitada pela Igreja primitiva por declarar que o próprio Deus-Pai tinha sido crucificado com Cristo na cruz (e, portanto, nela morrido).

Pode-se alegar que isso deva ser relevado pelo caráter ficcional e pela, digamos, licença poética da obra, mas o cristão mais ortodoxo vê nisso tudo uma grossa heresia.

Há algumas pistas que reforçam o aspecto esotérico do livro... 

Toda vez que a gente vê um escritor de ficção usando o termo “quântico” e derivados, tenha certeza de que ele está tentando parecer inteligente enquanto escreve bobagens sobre coisas que não entende ou não são apropriadas às ideias que propõe. 

É o caso de Young, que pouco antes de atribuir a Deus-Pai a condição de ter sido crucificado JUNTO com Jesus, coloca na Sua boca a frase: 
A herança genética de sua família, seu DNA específico, seu metabolismo, as questões quânticas que acontecem num nível subatômico, onde só eu sou a observadora sempre presente. Existem as doenças de sua alma que o inibem e amarram, as influências sociais externas, os hábitos que criaram elos e caminhos sinápticos no seu cérebro” (p. 85). 
Hãhã... sei... quânticas... subatômico... sinápticos... tá! Talvez isso se encaixe naquilo que o autor chama de “supra-racionalidade: a razão além das definições normais dos fatos ou da lógica baseada em dados” (p. 61), seja lá o que isto queira significar...

Existem duas outras passagens que me parecem ter recebido influência de duas obras anteriores. 

No capítulo 15 (“Um festival de amigos”), além do aspecto mediúnico do contato e conversa com pessoas mortas, há claras manifestações de auras multicoloridas muito parecidas com as narradas no também best-seller (de 1993) “A Profecia Celestina”, de James Redfield. 

No mesmo episódio, o reencontro de Mack com o pai morto remete ao filme “O Campo dos Sonhos” (de 1989), com Kevin Costner, por sua vez baseado no livro “Shoeless Joe” (de 1982), de W. P. Kinsella. 

É provável que William P. Young não tenha se baseado conscientemente nessas obras (e em centenas de outras afins), mas elas falam essencialmente das mesmas coisas, com os mesmos fenômenos típicos do movimento esotérico mais conhecido como Nova Era, que de “nova” não tem nada, mas apenas tenta reunir uma série de impressões espiritualistas que permeiam o inconsciente coletivo da humanidade desde priscas eras e é constantemente reinventado, reempacotado e - claro! - vendido.

Nem tudo se perde, entretanto, em “A Cabana”. Há algumas sacadas bem interessantes, que podem – eventualmente – não agradar os defensores da teologia da prosperidade e da confissão positiva, como quando Mack diz que 
agora posso ver que gastei a maior parte do meu tempo e da minha energia tentando adquirir o que eu achava que era bom, como a segurança financeira, a saúde, a aposentadoria, ou sei lá o quê. E gastei uma quantidade gigantesca de energia e preocupação temendo o que determinei que era mau” (p. 123). 
Energia... talvez seja esta a palavra-chave do livro. Tudo é energizante, energizado, energia e fica só na intenção.

Mais adiante, numa conversa com Sarayu, esta lhe diz que o grande problema da humanidade é reivindicar seus direitos, que nada mais são do que aquilo “que os sobreviventes procuram para não ter que trabalhar os relacionamentos” (p. 124), o que Jesus, na conversa seguinte, chama de “medo da vida” (p. 130). 

Aqui fica claro o traço “psicologizante” da trama, já que em matéria de “Medo da Vida”, o psicanalista freudiano Alexander Louwen escreveu um livro muito melhor e menos pretensioso que o de Young.

O resultado, portanto, não deixa de ser frustrante. 

Pode até haver algum interesse em um ou outro aspecto da divindade que motive alguém a encontrar o caminho da salvação em Jesus (o que, cá entre nós, pode acontecer com qualquer outro livro), embora me pareça que a imensa maioria dos leitores d’A Cabana vá ali buscar (e talvez encontrar) algum conforto para os corações sofridos, as suas carências afetivas e uma certa dependência emocional. 

Depois volta tudo à normal letargia, e não energia...

Não o recomendaria para ninguém, confesso, a não ser que um amigo próximo estivesse iniciando uma pesquisa sobre o comportamento atual dos cristãos no mundo, pois o grande benefício de sua leitura é tentar entender o que move as pessoas (inclusive os que se dizem cristãos) a buscar conforto em “literatura” deste tipo. 

Será que a graça de Deus não lhes basta mais?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Grandes filmes - 9

Se estiver passando AVATAR em 3D num cinema próximo, acho que você tem um excelente programa para os próximos fins-de-semana prolongados. Tive o prazer de ver o filme na última segunda-feira e realmente é uma experiência e tanto esta nova tecnologia 3D desenvolvida pelo diretor James Cameron em parceria com a Sony. Esqueça aquela tecnologia 3D antiga, com aqueles óculos bicolores medonhos que, quando você tirava pra ver a tela, via tudo embaçado. Sem os óculos, as imagens ficam um pouco embaralhadas, sem dúvida, mas não tanto como na antiga tecnologia. Além disso, você não vai ficar com dor de cabeça depois de 2h45min de filme, mas com aquela gostosa sensação de ter sido testemunha ocular de um momento histórico do cinema.

O roteiro do filme não é assim tão sensacional, devo alertar. É um pouco diferente por dar voz aos explorados, no caso os alienígenas azuis (chamados de "na'vis") do planeta Pandora, que estão prestes a serem exterminados pelos terráqueos que invadiram seu mundo em busca de uma substância exótica - o unobtainium -, da qual depende a vida na Terra. Um dos terráqueos, paraplégico, incorpora mentalmente uma espécie de clone na'vi (um "avatar") para interagir com os aborígenes, a fim de ajudar a tomar sua gigantesca árvore-tribo, que se assenta sobre a maior reserva do mineral no planeta. Depois de conviver com os na'vis, ele desiste dos planos iniciais, e passa para a resistência aos terráqueos. Nada muito diferente de "Dança com os Lobos", por exemplo. Além da temática ecológica, existe uma certa sátira política, que são as referências nem um pouco disfarçadas aos "ataques preventivos" do governo Bush.

Essas questões do roteiro até que são bem resolvidas, mas têm sua importância diluída no espetáculo de verdade que é a tecnologia 3D, que sublima - inclusive - a bela trilha sonora de James Horner, que ganhou o Oscar por Titanic, mas agora pouca gente vai prestar atenção na música que compôs, em função da explosão de sentidos que provoca o 3D. As cenas são de uma beleza indescritível, uma sensação de cores e profundidade que eu particularmente nunca havia visto em lugar algum. As cenas da noite fluorescente na floresta são inesquecíveis, e as imagens das batalhas emocionam, especialmente na derrubada da grande árvore, em que há um certo ar de "Amazônia devastada". Há algumas sacadas bem originais, como as montanhas suspensas do planeta, com as cascatas despencando no vazio. Enfim, vale a pena gastar um pouco mais e ver Avatar em 3D, pois, como diz o Cameron na entrevista à revista Época desta semana, alguns cientistas dizem que esta nova tecnologia acessa áreas novas do cérebro, proporcionando uma retenção maior na memória. Pode até não ser verdade, mas quem sabe aí está o começo de uma nova ferramenta de estudo para o vestibular? Ou uma desculpa pra já ir se acostumando vendo um filmão...


O melhor presente é pra você mesmo!

Fica aqui uma meditação do Lloyd John Ogilvie como o meu cartão de Feliz Natal aos leitores e amigos deste blog:


A DÁDIVA DA
AUTO-ESTIMA


Leitura bíblica:
Romanos 8:1-11

Versículo-chave:

"Agora, pois, já nenhuma condenação há
para os que estão em Cristo Jesus"
(Romanos 8:1)


Meditação: Cristo veio ao mundo quando menos o merecíamos ou o queríamos. E ele continua a vir. Nada há que possamos fazer para merecer o seu perdão amoroso ou fazê-lo parar de nos amar. Do presépio à cruz, através do túmulo aberto, ouvimos o seu amor que implora: "Você me pertence. Você é minha pessoa amada e perdoada. Vim por você, vivi por você, morri por você, derrotei a morte por você e agora estou aqui por você".

É esse o presente de Natal que Deus tem para nós. Não deixe de desembrulhá-lo! Abra-o e desfrute do poder curador, libertador e motivador. Não há problema, perplexidade ou potencial à nossa frente que não possam ser vencidos se aceitarmos o presente de Deus. Amor mais perdão é igual à liberdade.

Seremos livres para amar e perdoar a nós mesmos. Que recordação ou fracasso o persegue e o torna negativo e hostil para com a pessoa mais importante de sua vida - o seu ser interior? Seja gracioso a si mesmo neste Natal. Dê a si mesmo um presente. Perdoe-se a si mesmo. Desse perdão flui auto-estima nova e salutar. Poucas são as pessoas que festejam o Natal e que sentem bem a respeito de si mesmas. Será por isso que nos ocupamos tanto com a correria da estação? Não será que estamos correndo da pessoa que vive dentro de nós? Deus ama muito essa pessoa. Ele nos conhece melhor do que nós mesmos. Natal é a época de dizermos: "Estou contente por ser eu!"

Ouça as palavras do apóstolo João: "Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus. Por essa razão o mundo não nos conhece, porquanto não o conheceu a ele mesmo. Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é" (1 João 3:1-2). Que essa verdade equilibre a balança de autocondenação à medida que você permite que o Natal lhe encha o coração.

Pensamento do dia:

"Você já pensou que em cada ação de graça em seu coração você conta com toda a onipotência de Deus dedicada em abençoá-lo?" (Andrew Murray)

(Lloyd John Ogilvie, “O que Deus tem de melhor para a minha vida”, Ed. Vida, meditação de 18 de dezembro)

sábado, 19 de dezembro de 2009

Uri Geller e o evangelho torto


Eu estava ouvindo uma pregação televisiva de Silas Malafaia esta manhã, o que faço eventualmente por obrigação, e não por prazer, e me bastou uma frase para entender a mensagem: algo como “não adianta uma pregação cheia do Espírito na igreja se ela não for aplicada lá fora e ver se funciona”. 

Resumindo, a grande questão implícita era: “a pregação funciona?”. 

 Para quem não está familiarizado com a filosofia dominante na atualidade, o utilitarismo, é exatamente esta a pergunta que os utilitários fazem a respeito de todas as situações da vida: “funciona?”, ou seja, “produz resultados visíveis, palpáveis?”, “maximiza o lucro e minimiza as perdas?”, “os fins justificam os meios?”. 

Tudo, obviamente, preocupado com os resultados materiais que possam ser mensurados (e capitalizados) aqui e agora.

O fato de eu assistir alguma coisa do Malafaia na TV se deve à necessidade que todos nós temos, como corpo de Cristo nesta terra, de acompanhar e (o mais difícil) tentar entender em que estágio (e estado) está a igreja evangélica no Brasil. 

A conversão paulatina e radical de Silas Malafaia ao utilitarismo (também chamado de “teologia da prosperidade”), mostra que esta ideologia (não só filosofia, portanto) se instalou definitivamente na igreja brasileira. 

Afinal, não podemos nos esquecer de que não faz muito tempo o próprio Malafaia criticava a teologia da prosperidade, à qual se converteu com gosto, ao que tudo indica.

Necessário se faz uma breve análise do discurso de Malafaia, sintetizado na frase reproduzida acima, “não adianta uma pregação cheia do Espírito se ela não for aplicada lá fora e ver se funciona”. 

A primeira grande questão é definir quem é que julga se a pregação é cheia do Espírito Santo ou não. 

Afinal, existem critérios objetivos para se chegar a esta conclusão? Seriam eles línguas estranhas, sinais, curas, expulsões de demônios, contorcionismos físicos e verbais, etc.? 

Não seria isto limitar a ação do Espírito a uma espécie de check-list de estupefações emocionais e fatos aparentemente inexplicáveis? 

Por outro lado, não passa esta análise também pelo julgamento subjetivo de quem ouve a tal pregação? 

Logo, não entram em jogo todos os dados pessoais, sociais, intelectuais e culturais do ouvinte, a influenciar a sua definição de “cheio do Espírito”? 

Parece-me que não há nenhum critério humano razoável para se definir uma pregação “cheia do Espírito”, o que deixa a tarefa para o testemunho do próprio Espírito Santo – individualmente – a cada ouvinte, e por isso mesmo restrito a ele, a não ser em situações extremamente especiais, em que a sua impressão deve ser proclamada aos quatro ventos, mas dada a raridade com que isso acontece, isto ficará muito claro no seu espírito, e não só no “senti no coração o desejo de...”, outro chavão evangélico que sintetiza um modo de ser que não pertence ao evangelho, já que “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer? ” (Jeremias 17:9).

Quanto ao “funciona!”, me parece que igreja evangélica retrocedeu no tempo e voltou aos anos 70, período em que o israelense Uri Geller, autointitulado “paranormal”, viajava o mundo em grotescos espetáculos televisivos cuja grande atração eram os talheres entortados com a suposta força do pensamento, movida pela palavra mágica “funciona!”, que deveria ser repetida insistentemente enquanto a colher entortava. 

O evangelicalismo brasileiro absorveu Uri Geller, e hoje busca tudo na base do pensamento positivo, movido ao mantra do “funciona!”. 

 A própria palavra “evangelicalismo” parece tristemente apropriada para descrever o movimento, já que une um arremedo de evangelho com os instintos mais primitivos do utilitarismo. 

Alguém poderia objetar, entretanto, que a pregação deve produzir frutos, esquecendo-se que os frutos não devem ser só produzidos, mas principalmente, devem permanecer para sempre (João 15:16) e que Jesus é a fonte de água não só para esta vida, mas principalmente para a vida eterna (João 4:14). 

Eternidade cujo anseio Deus colocou no coração do homem (Eclesiastes 3:11), e não um mero sentir instantâneo e despropositado.

Resumo da ópera: se o evangelicalismo brasileiro continuar seguindo o caminho do “funciona!”, a única coisa que vai conseguir entortar é o evangelho. Lamentavelmente.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Que bom são os amigos!

Marcos 2

1 Poucos dias depois, tendo Jesus entrado novamente em Cafarnaum, o povo ouviu falar que ele estava em casa.
2 Então muita gente se reuniu ali, de forma que não havia lugar nem junto à porta; e ele lhes pregava a palavra.
3 Vieram alguns homens, trazendo-lhe um paralítico, carregado por quatro deles.
4 Não podendo levá-lo até Jesus, por causa da multidão, removeram parte da cobertura do lugar onde Jesus estava e, através de uma abertura no teto, baixaram a maca em que estava deitado o paralítico.
5 Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: "Filho, os seus pecados estão perdoados".
6 Estavam sentados ali alguns mestres da lei, raciocinando em seu íntimo:
7 "Por que esse homem fala assim? Está blasfemando! Quem pode perdoar pecados, a não ser somente Deus?"
8 Imediatamente Jesus percebeu em seu espírito que era isso que eles estavam pensando e lhes disse: "Por que vocês estão remoendo essas coisas em seus corações?
9 Que é mais fácil dizer ao paralítico: 'Os seus pecados estão perdoados', ou: 'Levante-se, pegue a sua maca e ande'?
10 Mas para que vocês saibam que o Filho do homem tem na terra autoridade para perdoar pecados -- disse ao paralítico --
11 eu lhe digo: Levante-se, pegue a sua maca e vá para casa".
12 Ele se levantou, pegou a maca e saiu à vista de todos. Estes ficaram atônitos e glorificaram a Deus, dizendo: "Nunca vimos nada igual!"
13 Jesus saiu outra vez para beira-mar. Uma grande multidão aproximou-se, e ele começou a ensiná-los.


Que bom que esse homem tinha amigos! Se não os tivesse, que esperança teria?
Que bom que seus amigos tinham fé! Sem fé ninguém move uma palha na vida.
Que bom que sabiam onde levar o enfermo! Só na presença de Jesus há restauração
Que bom que não se detinham frente aos obstáculos! A fé leva-nos a ver possibilidades onde outros só vêem impedimentos.
Que bom que puseram seus dons e capacidade de trabalho a serviço do amigo necessitado! Dons são para isso: abrir janelas onde as portas estão fechadas.
Que bom que sua fé e seu amor eram práticos! Eram amigos parteiros, lutavam pela vida.
Que bom que sua fé era suficiente para suprir a falta de fé do amigo! Às vezes o sofrimento abate uma pessoa a ponto de ela não mais conseguir crer. Nessa hora, amigos de fé são imprescindíveis.
Que bom que eles colocaram o amigo na presença de Jesus, crendo que Ele saberia o que fazer! Jesus sabia que antes de tudo o moço precisava de perdão de seus pecados.
Que bom que o perdão de Jesus cura! Por isso tanto faz dizer “perdoados estão os teus pecados” ou “levanta e anda”: um não aconteceria sem o outro. Só o perdão o faria andar.
Que bom que ele saiu carregando o leito! O leito, sua prisão, tornou-se seu troféu. Quando Cristo age é assim: nossa fraqueza é transformada em nossa maior força.
Que bom se fôssemos como os quatro amigos, importando-nos com os necessitados, crendo pelos necessitados, carregando-os, colocando nossos dons a serviço deles, criando janelas onde não houvesse portas, levando-os à presença do Senhor.
Ou somos os amigos ou a multidão.


(“Devocionais para Todas as estações”, Ed. Ultimato, meditação de 18 de dezembro)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Filho de pastor abandona filha adotiva em estrada de MG

A gente nunca deve menosprezar a possibilidade de ser surpreendido pela miséria humana. Leio nos blogs Cristão Confuso e Blog da Leilahh que Eber Rosa da Silva, filho do pastor Antonio Rosa da Silva, da Igreja Assembléia de Deus de Ipatinga (MG), abandonou sua filha adotiva de 3 anos de idade na beira de uma estrada próxima de Resplendor (MG). Diz a reportagem (com vídeo) que o mesmo confessou o crime. Como diz em seu blog, Eber Rosa é o responsável pela comunicação e pelo sistema online da igreja em questão.

Se abandonar um animal já é uma atitude absolutamente condenável, muito pior é deixar uma criança de 3 anos à própria sorte nas margens de uma rodovia movimentada. Além da atitude criminosa, são imensuráveis os danos psicológicos que a criança terá ao enfrentar a segunda rejeição em tão tenra idade. Por sinal, alguns casos parecidos têm chegado ao Judiciário, que tem reconhecido os danos morais e a obrigatoriedade de se pagar pensão à criança abandonada até uma certa idade (geralmente 24 anos). Entretanto, este caso de Ipatinga é muito mais grave, já que não se trata de uma devolução de filho adotivo (que em si já é muito traumático), mas de uma exposição a uma situação de risco gravíssimo, já que, se a menina não tivesse sido resgatada logo em seguida, poderia ter sido atropelada. Dependendo da argumentação do Ministério Público com base nas provas colhidas, e provável que a denúncia seja de tentativa de homicídio, além dos crimes previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente.

É lamentável, sem dúvida, que o fato tenha ocorrido com o filho de um pastor de uma igreja importante de Minas Gerais, como seria com qualquer outra pessoa, mas certamente este fato trará repercussões ainda mais negativas para as igrejas evangélicas no país. Por outro lado, diante de um comportamento tão desumano, seria o caso, creio eu, de se investigar a sanidade mental do acusado, porque continua sendo muito difícil acreditar que alguém cometeria um ato tão absurdo em sã consciência. Parece que o "ano de Herodes" que foi 2008 atravessou 2009 e já ameaça 2010.

Seja um aluno retrô!

Nesses tempos bicudos em que a grana tá curta e as escolas modernosas pra riquinhos exigem que você leve um notebook às aulas, seja original e faça um protesto bem-humorado: leve sua máquina de datilografar!


Família processa médium que "psicografou" livro sobre o acidente da TAM

Tem hora que o bom senso faz uma falta danada não só a alguns "evangélicos", mas também a outros tantos "religiosos". Tome um sal de frutas antes de ler a notícia abaixo, do jornal Diário da Região, de São José do Rio Preto (SP):


Família processa médium por livro sobre acidente da TAM


Mãe de duas vítimas da tragédia do voo JJ 3054, da TAM, Carmen Caballero ingressou com ação na Justiça de Rio Preto para recolher os exemplares e impedir uma nova edição do livro “Voo da Esperança”, escrito pelo médium Woyne Figner Sacchetin , que narra o acidente que causou a morte de 199 pessoas em 18 de julho de 2007. Além de suas filhas Júlia Elizabete, 14, e Maria Isabel Caballero Gomes, 10, a explosão matou também sua mãe Maria Elizabete Silva Caballero, 65 anos.

Uma das teses apresentadas no livro é que todos os passageiros morreram na explosão da aeronave porque tinham débito em suas vidas passadas. Eles seriam “os algozes da Gália”, membros de um exército mercenário romano que, 60 anos antes de Cristo, teriam queimados pessoas vivas. “Ontem vocês queimaram seres humanos, hoje veem seus corpos queimados”, diz um dos trechos da obra, ditada ao autor, segundo ele, pelo espírito de Alberto Santos Dumont.

O livro descreve o acidente aéreo do ponto de vista espírita. “A providência divina, em sua sabedoria infinita, não colocou neste avião espíritos inocentes, mas almas seriamente comprometidas com um passado de erros”, diz outro trecho. O advogado de Carmen, Marco Aurélio Bdine, afirma que o autor não pediu autorização à família para publicar o livro. “Ele não cita os nomes, mas o contexto deixa claro que se trata da família Caballero”, diz. O livro faz referência a uma avó e duas crianças: “ela saiu do meio das chamas, segurando pelas mãos duas meninas que, antes desesperadas, agora quase sorriam felizes agarradas à mão da avó”.

O advogado diz que o autor descreve uma das vítimas como “professora aposentada” e natural do Rio Grande do Sul, terra natal de Maria Elizabete. Outra parte diz que “as feições se iluminaram quando reconheceu o moço ao lado: era seu filho, desencarnado (...) vítima de um (...) acidente automobilístico”. De acordo com Bdine, o texto faz uma menção indireta a um dos filhos de Elizabete, morto de acidente de trânsito.

Bdine afirma que a família ficou profundamente abalada ao ler o livro. “Todos ficaram desolados ao ler o livro. Eles estão tentando seguir em frente após a tragédia, se tranquilizar, mas a publicação trouxe todo o sofrimento de volta.” Além de recolher os exemplares, ele pede uma indenização no valor de mil salários mínimos (R$ 465 mil) por danos morais. “Fiz um pedido liminar para que a recolha dos exemplares seja realizada antes do julgamento da ação, que pode demorar.” O Airbus que vinha de Porto Alegre e pousaria no aeroporto de Congonhas se chocou contra o prédio da TAM Express.

Outro lado

Procurado pela reportagem, o autor Woyne Figner Sacchetin afirmou que não foi comunicado sobre o processo e que não identificou nenhuma das pessoas. “Não tem o nome de ninguém no livro.” Ele se recusou a dar mais informações sobre a obra, pois estava viajando e só atenderia o Diário pessoalmente.

‘Espírito um dia colhe o que planta’

No espiritismo, a morte de uma pessoa pode ser encarada como um “pagamento” por uma ação realizada no passado, segundo explica a presidente da União das Sociedades Espíritas de Rio Preto, Nair Rocha Soares. “Acreditamos no princípio da reencarnação. Um espírito tem muitas vidas. O que ele planta em cada uma dessas vidas será colhido depois”, diz. De acordo com Nair, tais consequências não podem ser encaradas como um castigo, e sim como resgate. “Se uma pessoa morre nessa encarnação para pagar um erro do passado, isso não é uma punição.

O objetivo do espírito é atingir a perfeição. A cada resgate, o espírito fica mais depurado.” Nair afirma, ainda, que não se pode confundir a idade da pessoa com a do espírito. “É muito comum acharmos injusto quando uma criança morre. Mas não sabemos quantos anos o espírito dela tem e o que já fez durante esse tempo.”

Dor

Apesar das explicações da doutrina espírita, Nair diz que a dor diante da morte sempre é grande. “É muito difícil lidarmos com a reencarnação. Mas ao mesmo tempo temos um consolo, pois acreditamos que a pessoa não morreu e que um dia o reencontro irá acontecer.”


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Colabore com o Songs of Love

O espírito natalino sempre nos remete à solidariedade, embora muitas vezes este sentimento seja suplantado pelo consumismo que nos leva a gastar carradas de dinheiro em presentes supérfluos a pessoas que, cá entre nós, não merecem ou nem se interessam pelos regalos. Eu já estava pensando nisso quando ontem, na Globo News, vi uma reportagem sobre trabalho voluntário, e entre as ONG's que foram mostradas, uma me chamou a atenção em particular: a Songs of Love, composta por voluntários que visitam crianças enfermas em hospitais e compõem para elas canções específicas, com o próprio nome delas, além das pessoas e situações alegres que as envolvem. Confira o trabalho deles no vídeo da Globo News, clicando no link acima. É emocionante ver a reação das crianças e a maneira como eles conseguem levantar o ânimo delas numa fase tão complicada de suas vidas. Visitando o site do Songs of Love, soube que tudo começou com uma história igualmente emocionante:

A Fundação Songs of Love foi criada em 1996 por iniciativa do músico e produtor John Beltzer em Nova Iorque – EUA. John nasceu e passou a sua infância no Brasil. Morou em São Paulo até os 08 anos de idade, quando se mudou com a família para os Estados Unidos.

Alguns anos após a tragédia da perda de seu irmão gêmeo, que um mês antes de falecer escrevera uma canção intitulada Songs of Love, John teve, como ele diz, uma revelação e imaginou o bem que faria a uma criança doente receber uma música própria, feita sob medida, especialmente para ela. Essa música ficaria eternizada em gravação para ela, sua família e amigos e ajudaria a superar um momento tão difícil.

Veja o vídeo da reportagem do Fantástico em 1997 com a entrevista com o próprio John Beltzer:




e também uma reportagem do SPTV na Globo:



Na página deles, existe um banner do PagSeguro ("Faça uma doação"), e não tive dúvida: contribuí de maneira bem fácil e segura. Para minha surpresa, hoje recebi um email do Thiago Bonetti agradecendo a doação e manifestando grata surpresa também, pois fui apenas a segunda pessoa a contribuir para a ONG. É muito pouco, você não acha? Que tal aumentarmos este número não só contribuindo com o que for possível, mas divulgando este trabalho? Acho que eles merecem ser apoiados para que mais crianças e mais hospitais sejam alcançados e ajudados pelo Songs of Love. Por isso estou divulgando o trabalho deles aqui, não só como uma boa idéia de ajudar uma instituição séria no Natal, mas durante o ano todo. E se não der pra ajudar o Songs of Love, ajude tanta gente séria neste país que faz trabalho voluntário da maior necessidade e credibilidade. E não só por caridade, mas principalmente por amor a Deus e à humanidade.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Morre o televangelista Oral Roberts

Morreu hoje nos EUA o televangelista Oral Roberts, um dos pioneiros no uso da televisão para evangelismo, iniciado em 1955. 

Ele tinha 91 anos de idade e, após uma queda sofrida no último fim de semana, teve um quadro de pneumonia que se agravou até o seu falecimento. 

Se hoje vemos uma série de pastores na TV, isso se deve em boa parte ao exemplo de Roberts, que também se envolveu em uma série de problemas, como a fundação do City of Faith Medical and Research Center em 1981, seguindo uma ordem do próprio Jesus, segundo ele disse, que lhe havia dito que encontraria a cura do câncer através deste hospital e centro de pesquisas, que veio a fechar em 1989.

 Também fundou a Oral Roberts University, na qual foi acusado, em 1988, de usar recursos da Universidade para a compra de uma mansão em Beverly Hills. 

O caso mais famoso, entretanto, ocorreu em 1987, quando disse, aos prantos, que Deus "o levaria pra casa" se não levantasse US$ 8 milhões em ofertas. 

Diante do apelo emocionado (muitos pensaram que ele ia se suicidar), conseguiu levantar U$ 9.100.000,00, mas seu ministério perdeu o que restava de credibilidade a partir de então. 

De qualquer maneira, é interessante analisar a sua vida para ver como é que toda esta panaceia de telepregadores começou e continua envolvendo muito, mas muito mesmo.... dinheiro!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Qualquer golfinho consegue ser ateu

Artigo de Luiz Fernando Pondé na Folha de S. Paulo de hoje:

Budista light

O ateísmo é uma conclusão óbvia, não há nenhuma grande inteligência nisso

O "ASSUNTO Deus" é complicado. Em jantares inteligentes, é mais fácil você confessar que faz sexo com dobermans, prova de que seu gosto ultrapassou formas sexuais conservadoras. Mas, se falar sobre Deus, há risco grave de que não te convidem mais. E aí nunca mais aquela cozinha vietnamita. Melhor se dizer um budista light.

Mas a mania que muito religioso tem de achar que tudo na vida se deve a Deus (ou similares) é um saco! Isso fala mais de sua preguiça e medo do que de Deus.

Entendo o bode dos ateus com essa gente. Para mim, essa conversa é semelhante ao papo de que você tem câncer porque não resolveu adequadamente seus conteúdos emocionais. Ora bolas, isso quer dizer que, se todo mundo um dia for feliz, ninguém vai ter câncer? Ou que, pior, além de ter câncer, você é um babaca responsável pelo câncer porque não fez terapia? Conheço gente que se diz ateia (e com isso se acha mais inteligente, como de costume) e acredita nessa baboseira de que o amor cura câncer.

Mas, desculpe-me, ateísmo é coisa banal. Quando eu tinha oito anos era ateu. O ateísmo é óbvio (por isso comecei a desconfiar dele), diante do lamentável estado da vida: somos uma raça abandonada (Horkheimer). Ateísmo não choca mais ninguém (pelo menos quem já leu uns três livros sérios na vida), porque ateus já são vendidos às dúzias em liquidações. E mais: ser ou não ateu não diz nada acerca de como a pessoa se comporta com os outros (ao contrário do que muitos ateus e não ateus pensam). Existem canalhas de ambos os lados do muro.

Deus, como se diz em filosofia, "é uma variável sem controle epistemológico", isto é, não se testa Deus em um laboratório.

Mas, antes, uma pequena heresia.

Mais chocante hoje é alguém confessar que não crê no aquecimento global, pelo menos na versão que aconteceu nesse espetacular concílio bizantino em Copenhague, reunindo toda a gente legal do mundo.

Confesso minha fraqueza: sou um herege, não acredito que meu pequeno carro aqueça o planeta, mas já estou pagando mais imposto por isso e tenho certeza de que outros virão. Acho essa história uma mistura de ego inflado (disputamos com o Sol para ver quem aquece mais?) e tédio (que tal salvar o planeta? A vida está tão chata na Dinamarca!). Meu cachorro anda triste? Deve ser o aquecimento global.

Sei que dizem que é fato científico, mas, para mim, que sou um medieval, só acredito na ciência quando vem no formato de resultados de exames do Fleury ou do Delboni, e não quando tem a ONU no meio e gente ganhando milhares de euros salvando o planeta.

Para mim, Copenhague foi aquele tipo de concílio onde se discutia se a roupa de Jesus era dele ou não. Temperamentos autoritários gozaram de tesão em Copenhague.

E o ateísmo? A constatação de que o mundo é péssimo e, por isso, Deus não deve existir é razoável. A primeira vez que isso me ocorreu foi quando descobri que existiam colegas mais felizes do que eu na escola, e aí eu julguei o mundo injusto. Se Deus, como todo mundo me dizia, era bom, por que eu não era o cara mais forte do mundo? Decidi que Deus não existia. Ou não era bom. O ateísmo é uma conclusão óbvia, não há nenhuma grande inteligência nisso. Qualquer golfinho consegue ser ateu.

Anos mais tarde, fosse eu uma dessas pessoas legais que creem no marketing do bem, concluiria que o mais justo seria que todos fossem igualmente felizes, e aí Deus teria sido democrático. Graças a Deus nunca passei pelo ridículo de pensar assim. Quanto a Deus ser mau, concluí que melhor seria mesmo considerar o universo indiferente e cego e mecanicamente cruel. Naquele dia, tornei-me um trágico (antes de ler Nietzsche ou Darwin).

Poucos ateus não são descendentes de uma criança infeliz e revoltada (e, veja, 110% das crianças, esses pequenos lindos monstros malvados, são infelizes porque sempre existem crianças mais felizes do que você). A prova disso é que ateus gostam de falar mal da igreja (nunca superaram aquela freira azeda), de Deus (esse malvado que não me fez mais forte), ou do pai judeu (que me obrigou a só namorar judias).Ou acham que, se formos todos ateus, o mundo será melhor. Se você é assim e tem orgulho de ser ateu, você é um rancoroso.

Quando se deixa de acreditar em Deus, passa-se a acreditar em qualquer besteira (Chesterton): na Natureza, na História, na Ciência, na Dinamarca, em Si Mesmo. Essa última crença, eu acho, é a pior de todas. Coisa de gente cafona.

Torcedores brahmeiros e igrejeiros

Neste festival consumista que o século XXI nos reservou, salta aos olhos do observador mais atento o comportamento de massa regido pelos ideais bélicos, às vezes com os objetivos mais nobres, como vemos nos protestos antiaquecimento global em Copenhague e anticorrupção em Brasília. 

Mas há metas menos nobres, como vimos recentemente nos atos ensandecidos da torcida coxa-branca no Estádio Couto Pereira, depois do rebaixamento do Coritiba na partida contra o Fluminense. 

Apesar da diversidade das propostas e dos tipos de manifestação, o traço comum entre esses protestos é a urgência de se obter resultados e a união momentânea na defesa de um objetivo comum, ainda que seja produto da louca frustração de um momento negativo, como o acontecido em Curitiba, ocasião em que vemos claramente como a publicidade se mimetiza com o comportamento que pretende produzir, só que da pior maneira, como sugere a atual propaganda da Brahma, ao dizer aos 190 milhões de guerreiros que “vamos para a guerra juntos”:




Por sinal, o Ugo Giorgetti escreveu um excelente artigo sobre isso no Estadão do último domingo. Registre-se também que o Pe. Marcelo Rossi anda flertando com a liberação do consumo de cerveja nos estádios de futebol. Afinal, a publicidade (e a violência) não diferencia católicos de evangélicos.

O fato é que este mesmo comportamento guerreiro é comum no meio evangélico brasileiro. Muitos seguidores de determinadas igrejas agem como se fossem brahmeiros, movidos por uma intensa paixão por seus líderes, que beira o fanatismo mais desenfreado e se mimetiza com o que chamam de “paixão por Jesus”. 

Esta atitude é perceptível tanto nas conversas mais simples, do tipo “minha igreja tem 5.000 novos membros” (que não costuma gostar da pergunta “e quantos são salvos?”), como nas variadas manifestações de apoio aos líderes sobre os quais pesam denúncias escandalosas, como é o caso da igreja Renascer. 

A própria Marcha para Jesus deste ano foi utilizada como uma demonstração de poder político (ideológico, portanto), em que muitas pessoas ingênuas e contrárias ao escândalo tiveram sua boa fé usada para respaldar a defesa dos líderes da Renascer. 

Qualquer semelhança com a pregação do utilitarismo (“os fins justificam os meios”) não é mera coincidência. 

Além disso, durante o período em que eles estiveram presos nos Estados Unidos, foi muito comum ver e ouvir as frases guerreiras “Renascer até morrer” e “espada pelo apóstolo e pela bispa” sendo proclamadas e – muitas vezes – tatuadas pelos seus adeptos.

Este comportamento belicista em nada difere, em essência, daquele protagonizado pelas torcidas organizadas nos estádios de futebol e nas ruas do país. 

Ao contrário do que dizia o conselho popular, hoje futebol e religião não só se discute como se misturam. 

Muitos seguidores de líderes denominacionais estão mais preocupados com a demonstração pública (e apaixonada) de poder político do que propriamente com o evangelho. 

Sequer percebem que a violência não está apenas nos gestos, mas principalmente na intimidação e nos coros de guerra. 

Dizem seguir a Jesus, mas se envergonham de anunciar a mensagem da Sua cruz (a verdadeira Paixão – sofrimento, martírio), preferindo se posicionar agressivamente na defesa da reputação de seus comandantes, num comportamento de manada que mal consegue disfarçar que prefere torcer pela sua igreja como se fosse seu time de futebol. 

Apregoam a prosperidade de suas agremiações como se observassem um placar no estádio, em que seu time está ganhando, e em vez de gols aparecem cifrões. 

O problema é que, a exemplo dos campeonatos reais de futebol, podem terminar sendo rebaixados para a segunda divisão.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Sócrates e a teologia da prosperidade


Sócrates, o pai da filosofia ocidental, tinha como adversários os sofistas, aqueles que, basicamente, viviam da arte da retórica, e ensinavam as técnicas dos belos discursos que não levavam a nada, cobrando por suas aulas e palestras. A História reservou a Sócrates a palavra – e a vitória - final, e hoje “sofista” e “sofismas” são palavras que têm um sentido pejorativo, com a qual se ofende elegantemente alguém que não sabe nada do assunto que diz dominar, mas mesmo assim tortura a plateia e seus adversários no debate com um palavrório bonito, mas inútil.

Sócrates não deixou nada escrito, mas seus discípulos registraram muitos de seus diálogos e ensinamentos. Um deles, Xenofonte, legou à posteridade o diálogo de Sócrates com Antifão, um sofista que invejava o número de seguidores que – gratuitamente - seguiam Sócrates, e queria “roubá-los” para que pudesse cobrar por suas lições e, assim, ficar ainda mais rico. Num desses diálogos, Antifão critica a maneira humilde como Sócrates vivia, insinuando que o sinal distintivo do bom mestre era exatamente a sua prosperidade material.

Proponho um exercício, então: apliquemos este diálogo aos dias atuais, na igreja evangélica brasileira. É relativamente simples: deixe "discípulos" do jeito que está, troque “filosofia” por “teologia” ou “sã doutrina”, “mestres” por “pastores”, “aprazível” por “próspera” e “magnificência” por “prosperidade”. Você vai ver que aproveitadores e falseadores do conhecimento são uma praga antiga, e que a conclusão de Sócrates, relacionando prosperidade à divindade, devidamente adaptada ao cristianismo, continua tão atual como 2.500 anos atrás:


Convém não calar a conversação que teve com o sofista Antifão. Certo dia Antifão, que queria tomar a Sócrates seus discípulos, interpelou-o e disse-lhe na presença deles:

- Eu pensava, Sócrates, que os que professam a filosofia, fossem mais felizes. Muito outro, porém, parece ser o fruto que colhes da filosofia. Vives de tal guisa que não há escravo que deseje viver sob tal senhor. Alimentas-te das viandas mais grosseiras, bebes as mais vis beberagens. Cobre-te um manto chamboado, que te serve no verão como no inverno. Não tens calçado nem túnica. Sem embargo, não aceitas nenhum oferecimento de dinheiro, por agradável que seja recebê-lo e muito embora proporcione vida mais independente e aprazível. Se, pois, como todos os mestres formas os teus discípulos à tua semelhança, podes considerar-te um professor de miséria.


Ao que Sócrates respondeu – Fazes, creio, Antifão, tão triste ideia de minha existência, que preferirias morrer a viver como eu. Ora bem, examinemos por que achas minha vida tão penosa. Será porque, ao contrário dos que, exigindo salário, são obrigados a fazer o que lho rende, eu que nada recebo não sou forçado a falar com quem não queira? Achas minha vida miserável porque minha alimentação seja menos sã ou menos nutritiva que a tua? Porque meus alimentos sejam menos difíceis de obter que os teus, os quais são mais raros e mais delicados? Porque os manjares que preparas te saibam melhor ao paladar que os meus a mim? Não sabes que quem come com apetite não tem necessidade de condimento, que a quem bebe com prazer, fácil é prescindir da bebida que não tem? Quanto às vestes, sabes que quem as muda não o faz senão por causa do frio e do calor; que se calçam sapatos, é para que os pés não sejam impedidos no andar pelo que os possa ferir. Viste-me alguma vez entocado em casa por causa do frio? Disputar, no verão, a sombra a alguém, ou impossibilitado de ir aonde quisesse por ter os pés feridos? Ignoras que graças a certos exercícios pessoas fracas de corpo se tornam mais fortes e os suportam mais facilmente do que aquelas que, nascidas mais fortes, foram descuidadas? Não crês que eu, que avezei meu corpo a resistir a todas as influências, não fora melhor que tu, que não te exercitaste? Se não sou escravo do ventre, do sono, da volúpia, é porque conheço prazeres mais doces que não deleitam apenas no momento, mas fazem esperar vantagens contínuas. Sabes que sem a esperança do sucesso nenhum prazer experimentamos, de passo que, se se pensa lograr bom existo, seja na agricultura, seja na navegação, seja em outra profissão qualquer, a ela nos dedicamos com tanto júbilo como se já houvéssemos triunfado. Pois bem, julgas que esta felicidade iguale a que nos dá a esperança de nos tornarmos melhores a nós próprios e aos nossos amigos? Tal é, contudo, a opinião em que persisto! Se for preciso servir aos amigos, ou à pátria, quem para tanto terá mais lazer, aquele que vive como eu ou aquele que esposa o gênero de vida de que te vanglorias? Quem fará a guerra mais a seu grado, aquele que não pode dispensar uma mesa suntuosa ou aquele que se contenta com o que tenha à mão? Quem capitulará mais depressa, aquele que tem necessidade de iguarias difíceis de obter ou aquele que se contenta com os alimentos mais triviais? Pareces, Antifão, colocar a felicidade nas delícias e na magnificência. De mim, penso que de nada necessita a divindade. Que quanto menos necessidades se tenha, mais nos aproximamos dela. E como a divindade é a própria perfeição, quem mais se aproximar da divindade mais perto estará da perfeição”.

(Xenofonte. Ditos e feitos memoráveis de Sócrates. In: Sócrates, livro I, cap. VI, pp. 79-80 [Os Pensadores, Nova Cultura, 1996]

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails