sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Os parâmetros do Rei


Leia Mateus 25.31-45

"Em verdade vos digo que, sempre que o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer."
Mateus 25.45

Todo final de ano faço uma avaliação do que realizei e planejo meus sonhos e projetos para o novo ano. Constato que deixei de realizar grande parte do que projetei. Muitos destes planos dizem respeito a mim mesma, nos aspectos pessoal, familiar e profissional. No texto acima Jesus mostra os parâmetros pelos quais minha vida será avaliada por Deus. Os parâmetros são em relação à minha atitude diante dos fatos: quando o Rei teve fome; teve sede; era forasteiro; estava nu; estava enfermo e estava preso. O ter fome e sede e o dar de comer e beber é não desperdiçar e jogar fora água e alimento, bens preciosos que milhões de "meu próximo" não tem acesso e morrem de sede e fome. O ser forasteiro e hospedar é não ter preconceito para com o "meu próximo", por ele ser de outra raça ou nacionalidade ou professar outra fé e acolhê-lo. O estar nu e vestir é não gastar excessivamente para ter muita roupa, mas ter o necessário e dividir com "meu próximo" o que tenho. O estar enfermo e visitar é ter amor ao "meu próximo", acompanhá-lo, confortá-lo e cuidar dele na sua doença seja ela física, ou emocional, ou psíquica. O estar preso e visitar é lutar por mais justiça, é lutar para que todos sejam iguais perante a justiça, é acompanhar o "meu próximo" em seu infortúnio sem pré-julgá-lo. Para realizar o planejamento com este foco preciso que Jesus esteja ao meu lado todos os dias do ano que se inicia.

Oração: Senhor Jesus, que no ano que se inicia eu esteja mais próxima de Ti e assim poderei estar mais perto de meu próximo. Que minhas atitudes sejam reflexos de minha fé em Ti. Oro em nome de Jesus, amém.

Pensamento para o dia: Se seguir estes parâmetros serei realmente seguidora/o de Cristo!

Sylvia Regina de Mattos Miguel (São Paulo, Brasil)

Oremos pelo nosso próximo que professa outra fé

("No Cenáculo", Ed. Cedro, meditação de 30 de dezembro de 2010)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Tertuliano e a Trindade

Seu nome era Quintus Septimus Florens Tertullianus, primeiro pai da igreja latina e como tal, se envolveu nas mais variadas disputas. Destas, talvez a mais conhecida seja a disputa contra Práxeas, que gerou um dos primeiros tratados sobre a Trindade, contra a doutrina dos modalistas ou patripassionistas.

Assim, poderia parecer estranho perguntar se Tertuliano defendia a Trindade. Poderia.

Há hoje aqueles que levantam esta pergunta, e de alguma forma demonstram que Tertuliano não deveria ser contado como defensor da doutrina da Trindade. Há uma observação a ser feita aqui: quando se fala em doutrina da Trindade, se está referindo na verdade à doutrina estabelecida pelos concílios de Nicéia e Constantinopla. Então, a pergunta feita aqui é: A doutrina trinitária de Tertuliano é ortodoxa?

É grande o interesse nesta questão por parte dos críticos da doutrina da Trindade. Há sempre a tentativa de se atribuir a origem desta doutrina ao próprio concílio de Nicéia, geralmente destacando-se também a participação do imperador “pagão” Constantino. Tertuliano porém se torna um forte contra-argumento a esta explicação. Para restaurar a antiga explicação, é necessário minar a ortodoxia do tratado de Tertuliano, diluir sua mensagem. É preciso evitar que aquilo que ele queria dizer seja explicado.

Defendo a doutrina da Trindade. Mas defendo também a memória do autor, que tinha crenças, ideias e intenções. Estamos portanto diante de uma oportunidade extraordinária de entender como este brilhante escritor cristão pensava sobre estes assuntos.

continue lendo no site E-Cristianismo:

O blog do desempregado



segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Barraco novo na praça: ateus x gays

Nesta briga o Malafaia nem vai precisar entrar... pensando bem, como ele diz sempre que até ateus mandam grana pra ele, é bem capaz dele escolher um lado nessa pendenga que tá pegando fogo na net: ateus x gays. É que o blog agregador de conteúdo ateísta, chamado Central Ceticismo, avisou na sua página de entrada que não estava mais catalogando o blog Bule Voador, porque este blog havia se tornado "um blog GLS", e que "a Central Ceticismo não apoia a homossexualidade" (veja a imagem abaixo).




Obviamente, o fato deixou sites ateus e gays em polvorosa, ante o preconceito inusitado, e o argumento mais utilizado foi o de que minorias estão discriminando minorias. A Central Ceticismo já voltou atrás, desdizendo o que havia dito, mas o estrago foi feito. Apesar de até certo ponto inesperado, não chega a ser surpresa esta atitude, haja vista que - atualmente - muitos ateus estão se tornando mais conservadores do que os próprios religiosos mais conservadores, e não raras vezes os dois lados se aliam politicamente nos recantos mais obscuros da extrema direita, o que não deixa de ser um contrasenso, já que o ateísmo - historicamente - se desenvolveu umbilicalmente ligado às correntes marxistas (portanto, de esquerda). Talvez seja este o frisson inconfessável que está por trás do preconceito, já que os movimentos gays estão mais à esquerda. Tempos estranhos, portanto, estamos vivendo. O blog O Contorno da Sombra registra o fato porque defendemos a liberdade de expressão de todo mundo e acreditamos na convivência pacífica entre pessoas e grupos de opiniões diferentes, justamente para que aprendam a discutir respeitosamente as suas posições, melhorando a prática democrática do país.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Lagoinha 24h na cadeia

Já pensou ficar 24 horas por dia ouvindo os lindos trinados de Ana Paula e André Valadão? Pois seria algo parecido com esta experiência full time que muitos presos mineiros estariam tendo ultimamente, segundo noticia a edição de hoje da Folha de S. Paulo, informação que é contestada pelo diretor da instituição penal, conforme réplica mais abaixo. De qualquer maneira, se esta programação massiva de "reeducação" realmente estivesse acontecendo (como no filme "Laranja Mecânica"), a sua igreja nem precisaria mais visitar os presos (Hebreus 13:3). Era só botar uma TV LCD na cela retransmitindo a sua programação "ungida". Tudo bem que teriam que esquecer Zacarias 4:6 ("Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos"), mas nada mais seguro e higiênico para os seus "ungidos", não é mesmo? Já se você estivesse do lado "errado" das grades, deveria esquecer também o controle remoto e a tecla "off". Joguinho de futebol televisionado na quarta à noite e no domingo à tarde, nem pensar. Visitas íntimas, então, lamento, mas nunca mais... No máximo você iria conseguir colocar algodão no ouvido na hora de dormir...

Prisão em Minas Gerais ganha TVs de LCD, mas diretor só permite programas religiosos

RODRIGO VIZEU
DE BELO HORIZONTE

Uma das principais denominações evangélicas de Belo Horizonte (MG), a Igreja Batista da Lagoinha, bancou a instalação de TVs LCD de 32 polegadas em todas as celas de uma prisão da cidade.

Os aparelhos ficam praticamente o tempo todo sintonizados na emissora da igreja, a Rede Super.

Os presos do Ceresp (Centro de Remanejamento do Sistema Prisional) São Cristóvão não têm a opção de desligar a TV -no máximo podem tirar som e brilho na hora de dormir- e o controle de canais é feito na sala do diretor, Luís Fernando de Sousa, membro da igreja.

Em funcionamento desde 3 de outubro, o sistema é considerado um sucesso pelo governo mineiro, que o está levando para outras unidades.

Segundo Sousa, as TVs levam tranquilidade às dez celas do local e deixam os detentos "amparados espiritualmente". Ele disse que a igreja propôs a instalação.

"Você chega na cela e está todo mundo quietinho, de olho na TV. Mudam a forma de conversar, falam "bom dia, senhor diretor, tudo bem?" É gratificante."

O diretor contou que a Rede Super fica no ar "24 horas, praticamente". A preferência, disse, não foi imposição da igreja, mas escolha "natural", já que a Rede Super não tem "pornografia nem apologia ao crime". O canal exibe os cultos da igreja.

Ele disse que abre espaço para as emissoras católicas Rede Vida e Canção Nova e, recentemente, para a TV Justiça e para um canal educativo. Um preso disse à Folha, porém, que são raros os momentos sem a Rede Super.

Sousa descartou exibir outros canais por terem "muita droga e crime" e passarem programação "não salutar".

Outro argumento é que o Ceresp é um centro de triagem e os presos costumam ficar lá só cerca de uma semana. "É o tempo que tenho para plantar a semente", disse.

Sousa guarda em sua sala uma coleção de DVDs que exibe para os presos, por passarem "mensagem boa".

São filmes bíblicos na maioria, mas também sobre vida animal e sucessos como "À Espera de Um Milagre", que se passa em uma prisão e emocionou os detentos, de acordo com Sousa. "O cara está preso e vou passar "Fuga de Alcatraz'?"

MULHER NUA E GUGU

O diretor disse que só tem ouvido elogios, mas, ao visitar o local, a Folha viu que o projeto não é unanimidade. O preso Marcelo Corrêa disse sentir falta de poder mudar de canal: "Queria ver o que acontece no mundo".

O Ceresp abriga presos célebres, como Sérgio Sales (primo do goleiro Bruno), Thales Maioline (chamado de "o "Madoff mineiro") e membros da torcida organizada Galoucura, do Atlético-MG, suspeitos de matar um torcedor do Cruzeiro.

Roberto Augusto Pereira, o Bocão, presidente da Galoucura, disse sentir falta de assistir a notícias e jogos de futebol. "Mas já adianta para passar o tempo", afirmou.

Entre os satisfeitos com a programação evangélica está Denison Balbino, preso sob suspeita de tráfico de drogas, que disse ter se reencontrado com a religião graças à TV.

"A religião é um fator de refreio social. A gente aprende isso em sociologia", afirmou o diretor Sousa.

Ele rechaça ceder aos apelos de liberar a programação. "Eles não têm instrução, não estão preparados para escolher o que é bom, vão querer ver programa com mulher nua e o do Gugu", afirmou.

Sousa disse não acreditar que restringe a liberdade dos presos e que faz o mesmo que prisões que obrigam os detentos a trabalhar ou estudar.

O subsecretário de Administração Prisional de Minas, Genilson Zeferino, disse que a parceria com a igreja é "fantástica" e que as TVs são uma "peça fundamental na humanização" dos presos.

O juiz Márcio Fraga, do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), disse considerar "imprópria e absurda" a medida. Apesar de afirmar que as TVs podem tranquilizar os presos, ele lembrou que o Estado brasileiro é laico.


O OUTRO LADO:

Deixo abaixo em destaque a manifestação da pessoa que se identificou como sendo o Sr. Luís Fernando de Sousa, diretor do Ceresp São Cristóvão, a quem se refere a matéria do jornal Folha de S. Paulo. Considerando a triste tradição jornalística brasileira de publicar informações que nem sempre correspondem à verdade dos fatos, acho mais do que justo o contraponto oferecido pelo Sr. Luís Fernando, conforme segue abaixo:

Bom dia!!! Gostaria de solicitar a V.Sª que esclareça aos leitores sobre a verdadeira finalidade do nosso projeto.

Gostaria que corrigisse a informação de que sou membro da Igreja Batista da Lagoinha, na verdade não sou. Sou Presbiteriano, membro da 8ª Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte, inclusive com formação em Seminario Presbiteriano.

Bom, falarei um pouco sobre o Projeto.

Graças à parceria firmada entre a Unidade Prisional Ceresp São Cristóvão, em Minas Gerais, e a Rede Super de Televisão, nasceu o Projeto TV CELA , que disponibilizou televisores com finalidade de viabilizar aos presos acesso a filmes educativos, que transmitam uma mensagem de vida, que enalteçam a moral, a virtude, o caráter, que falem sobre honestidade, enfim , que façam bem à psiquê daqueles indivíduos que se encontram à disposição do Estado. É importante frisar que a única finalidade é a recuperação e a preparação para que eles voltem à liberdade um pouco, ou quem sabe, muito melhores do que lá entraram.

Não existe discriminação pois o acesso é permitido a outros cleros. Existe também uma câmera com um microfone para que o Padre, Pastor, Psicólogo, Assistente Social, profissionais da área de saúde, etc..., falem diretamente com os detentos através dos televisores. Através desta câmera, os reeducandos têm acesso à palestras sobre doenças sexualmente transmissíveis e orientações jurídicas por parte da Defensoria Pública. Na última quarta feira, dia 22/12/2010 , recebemos a visita do Padre José Geraldo e o mesmo trouxe uma palavra de vida para os reeducandos. Estamos aguardando a visita do Bispo para que fale diretamente com nossos reclusos, conforme nos informou a Dona Alice da Pastoral da Igreja Católica. Exibimos semanalmente videos do Padre Léo, e já liberamos outros canais (de cunho educativo) para eles. Não podemos permitir canais de televisão que mostrem pornografia, filmes violentos, apologia ao crime, e coisas desse gênero. Não existe, portanto proselitismo, como foi divulgado pela folha, existe sim, orientação e assistência religiosa através dos voluntários da Pastoral Carcerária, seja evangélica ou católica. Vale a pena lembrar que quem patrocinou os televisores foi a Rede Super de Televisão, porém não ficou condicionada a exibição apenas desta emissora, e tenho certeza que qualquer outra Igreja, Emissora de TV, Empresas da Rede Privada, que quiserem doar Televisores para outras Unidade Prisionais aqui em Minas Gerais, com intuito de promover a ressocialização do preso, serão bem vindos. Creio que a responsabilidade de proporcionar oportunidade de recuperação para aqueles que cumprem pena privativa de liberdade é de todos nos, não somente das Igrejas e do Estado. Um grande abraço a todos e um excelente Ano Novo, repleto de realizações e paz.

Luís Fernando de Sousa
Diretor Geral do Ceresp São Cristóvão – MG
luisfdesousa@yahoo.com.br


Estas sinistras festas de Natal

por Gabriel García Márquez:

(em artigo publicado no jornal El País no Natal de 1980)

ESTAS SINISTRAS FESTAS DE NATAL

Ninguém mais se lembra de Deus no Natal. Há tanto barulho de cornetas e de fogos de artifício, tantas grinaldas de fogos coloridos, tantos inocentes perus degolados e tantas angústias de dinheiro para se ficar bem acima dos recursos reais de que dispomos que a gente se pergunta se sobra algum tempo para alguém se dar conta de que uma bagunça dessas é para celebrar o aniversário de um menino que nasceu há 2 mil anos em uma manjedoura miserável, a pouca distância de onde havia nascido, uns mil anos antes, o rei Davi.

Cerca de 954 milhões de cristãos – quase 1 bilhão deles, portanto – acreditam que esse menino era Deus encarnado, mas muitos o celebram como se na verdade não acreditassem nisso. Celebram, além disso, muitos milhões que nunca acreditaram, mas que gostam de festas e muitos outros que estariam dispostos a virar o mundo de ponta cabeça para que ninguém continuasse acreditando. Seria interessante averiguar quantos deles acreditam também no fundo de sua alma que o Natal de agora é uma festa abominável e não se atrevem a dizê-lo por um preconceito que já não é religioso, mas social.

O mais grave de tudo é o desastre cultural que estas festas de Natal pervertidas estão causando na América Latina. Antes, quando tínhamos apenas costumes herdados da Espanha, os presépios domésticos eram prodígios de imaginação familiar. O menino Jesus era maior que o boi, as casinhas nas colinas eram maiores que a Virgem e ninguém se fixava em anacronismos: a paisagem de Belém era complementada com um trenzinho de arame, com um pato de pelúcia maior que um leão que nadava no espelho da sala ou com um guarda de trânsito que dirigia um rebanho de cordeiros em uma esquina de Jerusalém.

Por cima de tudo, se colocava uma estrela de papel dourado com uma lâmpada no centro e um raio de seda amarela que deveria indicar aos Reis Magos o caminho da salvação. O resultado era na realidade feio, mas se parecia conosco e claro que era melhor que tantos quadros primitivos mal copiados do alfandegário Rousseau.

A mistificação começou com o costume de que os brinquedos não fossem trazidos pelos Reis Magos – como acontece na Espanha, com toda razão –, mas pelo menino Jesus. As crianças dormíamos mais cedo para que os brinquedos nos chegassem logo e éramos felizes ouvindo as mentiras poéticas dos adultos.

No entanto, eu não tinha mais do que cinco anos quando alguém na minha casa decidiu que já era hora de me revelar a verdade. Foi uma desilusão não apenas porque eu acreditava de verdade que era o menino Jesus que trazia os brinquedos, mas também porque teria gostado de continuar acreditando. Além disso, por uma pura lógica de adulto, eu pensei então que os outros mistérios católicos eram inventados pelos pais para entreter aos filhos e fiquei no limbo.

Naquele dia – como diziam os professores jesuítas na escola primária –, eu perdi a inocência, pois descobri que as crianças tampouco eram trazidas pelas cegonhas desde Paris, que é algo que eu ainda gostaria de continuar acreditando para pensar mais no amor e menos na pílula.

Tudo isso mudou nos últimos 30 anos, mediante uma operação comercial de proporções mundiais que é, ao mesmo tempo, uma devastadora agressão cultural. O menino Jesus foi destronado pela Santa Claus dos gringos e dos ingleses, que é o mesmo Papai Noel dos franceses e aos que conhecemos de mais. Chegou-nos com o trenó levado por um alce e o saco carregado de brinquedos sob uma fantástica tempestade de neve.

Na verdade, este usurpador com nariz de cervejeiro é simplesmente o bom São Nicolau, um santo de quem eu gosto muito e porque é do meu avô o coronel, mas que não tem nada a ver com o Natal e menos ainda com a véspera de Natal tropical da América Latina.

Segundo a lenda nórdica, São Nicolau reconstruiu e reviveu a vários estudantes que haviam sido esquartejados por um urso na neve e por isso era proclamado o patrono das crianças. Mas sua festa é celebrada em 6 de dezembro, e não no dia 25. A lenda se tornou institucional nas províncias germânicas do Norte no final do século 18, junto à árvore dos brinquedos e a pouco mais de cem anos chegou à Grã-Bretanha e à França.

Em seguida, chegou aos Estados Unidos, e estes mandaram a lenda para a América Latina, com toda uma cultura de contrabando: a neve artificial, as velas coloridas, o peru recheado e estes quinze dias de consumismo frenético a que muito poucos nos atrevemos a escapar.

No entanto, talvez o mais sinistro destes Natais de consumo seja a estética miserável que trouxeram com elas: esses cartões postais indigentes, essas cordinhas de luzes coloridas, esses sinos de vidro, essas coroas de flores penduradas nas portas, essas músicas de idiotas que são traduções malfeitas do inglês e tantas outras gloriosas asneiras para as quais nem sequer valia a pena ter sido inventada a eletricidade.

Tudo isso em torno da festa mais espantosa do ano. Uma noite infernal em que as crianças não podem dormir com a casa cheia de bêbados que erram de porta buscando onde desaguar ou perseguindo a esposa de outro que acidentalmente teve a sorte de ficar dormido na sala.

Mentira: não é uma noite de paz e amor, mas o contrário. É a ocasião solene das pessoas de quem não gostamos. A oportunidade providencial de sair finalmente dos compromissos adiados porque indesejáveis: o convite ao pobre cego que ninguém convida, à prima Isabel que ficou viúva há 15 anos, à avó paralítica que ninguém se atreve a exibir.

É a alegria por decreto, o carinho por piedade, o momento de dar presente porque nos dão presentes e de chorar em público sem dar explicações. É a hora feliz de que os convidados bebam tudo o que sobrou do Natal anterior: o creme de menta, o licor de chocolate, o vinho passado.

Não é raro, como aconteceu frequentemente, que a festa acabe a tiros. Nem tampouco é raro que as crianças – vendo tantas coisas atrozes – terminem acreditando de verdade que o menino Jesus não nasceu em Belém, mas nos Estados Unidos.



Este texto circula na net com tradução atribuída a Emir Sader, do site Carta Maior, embora não tenha sido possível confirmar a informação

sábado, 25 de dezembro de 2010

A lista de Natal do Calvin




Calvin: Eu estou fazendo meus pedidos de presentes de Natal. Quer que eu peça algo pra você?

Haroldo: Hum... Não consigo pensar em nada.

Calvin: Nada?! Você quer ganhar NADA?!

Haroldo: Eu já tenho uma boa casa e o melhor dos amigos. O que mais pode um tigre desejar?

Calvin
: Deve ser triste pertencer a uma espécie com tão pouca imaginação.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Muito Shrek e pouco Jesus no Natal

Notícia do jornal O Estado de S. Paulo de hoje:


Decoração de Natal ''esquece'' do Menino Jesus


Papais Noéis, animais e até o personagem Shrek substituíram o tradicional presépio em ruas e shopping centers paulistanos

Na celebração do Natal deste ano, esqueceram de chamar o aniversariante. O Menino Jesus, que até pouco tempo era presença obrigatória em presépios e enfeites em qualquer lugar do País, está sendo deixado de lado nas principais decorações de São Paulo. Uma overdose de Papais Noéis, duendes e animais exóticos - como girafas, pinguins e elefantes - e até o personagem Shrek são hoje protagonistas da festa paulistana, embora o mundo cristão celebre o Natal como data do nascimento de Jesus Cristo.

A reportagem visitou nove locais decorados, de shoppings à Avenida Paulista, e só encontrou o Menino Jesus em uma delas - no Shopping Anália Franco, na zona leste. Lá, um pequeno presépio enfeita a capela da "Villa Anália", uma pequena aldeia em estilo europeu com prédios e comércios conduzidos pelos tradicionais duendes natalinos e pelo Papai Noel.

Em todas as outras decorações, quem mais dá a cara é o bom velhinho - que quase sempre faz o papel de um "personagem" diferente baseado no tema dos enfeites.

No Pátio Higienópolis, por exemplo, o Papai Noel é o maquinista de um carrossel gigante onde as crianças podem entrar e dar uma volta. No Shopping Center 3, ele dá uma de maestro, em pé e de batuta em riste sobre um pequeno pedestal onde um coral se apresenta várias vezes por dia na calçada da Avenida Paulista. No Iguatemi, nos Jardins, zona oeste, é o passageiro de um trem prestes a partir de uma estação. E no Shopping Bourbon, na Pompeia, também na zona oeste, o velhinho é o maquinista de um trenzinho aberto para passeios infantis.

Mais Papai Noel. Mas há decorações que abusam um pouco mais da figura do presenteador oficial da época. É o caso do casarão do Banco Itaú na Paulista, onde cinco Papais Noéis, duas Mamães Noéis e vários duendes de Natal simulam situações diárias numa vila europeia como a do Anália Franco. Na Praça de Natal montada no palco da avenida, a poucos metros dali, as cenas são ainda mais inusitadas: animais como girafas, leões, macacos e pinguins - cada um tocando um instrumento - formam uma pequena orquestra do lado de fora. E, no Shopping Interlagos, na zona sul, o personagem principal do Natal é o personagem de desenho animado Shrek.

Para o teólogo Joaquim Alberto Pereira, autor do livro É Natal, a ausência do tradicional motivo da comemoração reflete um aumento da pluralidade da sociedade brasileira. "É um momento diferente que a sociedade brasileira está vivendo. Nosso povo, que antes era basicamente católico, hoje tem ateus, judeus, muçulmanos e protestantes. É normal que a decoração natalina reflita essa realidade."

Pereira considera que o caráter consumista também conta nesse processo, pois o Papai Noel é um reflexo do ato de presentear os outros nessa época. No entanto, ele acredita que não está havendo uma secularização da festa de Natal por causa disso. "Essa tradição de presépio é uma tradição portuguesa, espanhola, italiana. E, no fundo, ela sempre esteve muito ligada a esse caráter cultural", afirma.

Competição. Já Paola Dale, gerente de marketing da Cecília Dale, empresa responsável pela decoração de seis shoppings na capital, não acha que exista uma diminuição do lado religioso nos enfeites natalinos. "Tudo depende da mensagem que cada shopping quer passar para o cliente", comenta. Um exemplo seria o Anália Franco, onde o presépio na capela é ligado à história da imigração no bairro (leia acima).

Segundo ela, o aumento do número de shoppings acabou criando uma concorrência de enfeites natalinos entre eles.

"Cada um quer uma decoração única e que seja a cara do shopping. Por isso fizemos inovações, como o trenzinho do Bourbon e o carrossel do Higienópolis", afirma. A temática escolhida, em sua opinião, também ajudaria a diminuir eventuais rusgas religiosas. "Tentamos fazer algo mais neutro, porque esses shoppings têm, principalmente, um público judeu considerável", afirma.

Natal é o tempo do perdão em duas mãos


UMA LISTA DO QUE ESQUECER



por Lloyd John Ogilvie

Leitura bíblica: Efésios 4:25-32

Versículo-chave: “Antes dede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus em Cristo vos perdoou.” (Efésios 4:32)

Meditação: A prova de fogo de que aceitamos a dádiva do amor e perdão de Deus é sermos livres para dar início à comunicação do que recebemos. Paulo nos admoesta a não entristecermos o Espírito Santo. Fazer tal é negar o motivo por que Deus veio em Cristo: amar-nos e tornar-nos amáveis. Billy Graham disse: “Deus nos deu duas mãos – uma para receber e outra para dar”. Precisamos celebrar o Natal com ambas as mãos!

Quem, em sua vida, está sofrendo de má nutrição espiritual por falta da sua aprovação, aceitação e confirmação? A quem você precisa perdoar? Perdão de quem você precisa procurar? Pense em como seria o Natal se todas as mágoas fossem expressas e houvesse verdadeiras reconciliações. Muitos estão sobrecarregados com a tensão interior dos “se tão-somente” e dos “que poderia ter sido” da vida. Estou certo de que a frustração que muitos sentem na época do Natal acontece em virtude das coisas lindas que fazemos e damos e que contradizem nosso verdadeiro sentimento. Talvez precisemos de dois tipos de listas de presentes: uma para os presentes que queremos dar e outra para as pessoas a quem precisamos perdoar e de quem precisamos receber perdão.

Natal é a época de lembrar e de esquecer. 


O problema é que a maioria de nós tem memória melhor do que a de Deus. Lembramo-nos das mágoas e as acariciamos. A seguir gastamos nossas forças retribuindo, retirando e matando as pessoas à distância. Um dos maiores presentes que podíamos dar a nós mesmos na época do Natal é amor em ação. Henry Ward Beecher certa vez afirmou: “Dizer ‘posso perdoar mas não consigo esquecer’ é outro modo de dizer ‘não perdoarei!’”. Natal é a época de olhar para o rosto do Pai e dizer-lhe que você aceitou o seu presente de perdão e então reembrulhar a dádiva e dá-la aos outros.

Pensamento do dia: “Errar é humano; perdoar é divino”.

(Lloyd John Ogilvie, “O que Deus tem de melhor para a minha vida”, Ed. Vida, meditação de 19 de dezembro)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Motivo religioso não justifica alteração de sobrenome

Notícia curiosa de decisão (a meu ver, sensata) do Superior Tribunal de Justiça:

Família não consegue suprimir sobrenome paterno por razões religiosas

Uma família judaica teve negado o pedido de retirada do patronímico (sobrenome paterno) para que o casal e os três filhos menores fossem identificados apenas pelo apelido materno. A decisão é da Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Seguindo o voto da relatora, ministra Nancy Andrighi, os ministros entenderam que a Lei n. 6.015/73, que dispõe sobre registros públicos, traz a regra da imutabilidade do sobrenome.

De acordo com os autos da ação de alteração de registro civil de pessoa natural ajuizada pelo casal e pelos três filhos – todos com menos de dez anos de idade –, na ocasião do casamento a mulher optou por acrescentar ao seu o sobrenome do marido. Posteriormente, ele converteu-se ao judaísmo, religião atualmente praticada por toda a família.

O pedido de exclusão do sobrenome do marido e pai das crianças teve por fundamento o fato de que o patronímico não identificaria adequadamente a família perante a comunidade judaica. A supressão foi negada em primeiro grau, decisão que foi mantida pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

Ao julgar o recurso, a ministra Nancy Andrighi ressaltou que o artigo 56 da Lei de Registros Públicos autoriza, em hipóteses excepcionais, alteração do nome, mas veda expressamente a exclusão do sobrenome.

Segundo a relatora, a regra da imutabilidade do sobrenome fundamenta-se na garantia da segurança jurídica, pois o apelido de família é componente fundamental para identificação social dos indivíduos. “O sobrenome pertence, em última análise, a todo o grupo familiar, de forma que não podem os descendentes dispor livremente do elemento distintivo de sua ancestralidade”, entende Andrighi.

A relatora considerou ainda que a exclusão solicitada poderia trazer sérias consequências para os filhos do casal. Segundo ela, por mais compreensível que sejam os fundamentos de ordem religiosa, nada garante que as crianças vão seguir a religião judaica por toda a vida e que, futuramente, não se rebelarão contra a exclusão do sobrenome que os identificam com a família paterna. Há ainda a possibilidade de ofensa à dignidade dos ascendentes e futuros descendentes.

Outro ponto analisado refere-se ao argumento de que o artigo 1.565, parágrafo primeiro, do Código Civil de 2002 autoriza os nubentes a modificar o nome com o acréscimo do patronímico do outro. A ministra Nancy Andrighi ressaltou que em nenhum momento a lei discorre sobre supressão ou substituição do sobrenome, facultando apenas o acréscimo.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O cristão imperfeito

por Calvino:

5. A VIDA CRISTÃ NÃO IMPLICA PERFEIÇÃO, INATINGÍVEL NA PRESENTE CONDIÇÃO HUMANA, PORÉM RECLAMA ESFORÇO, DILIGENTE E CONTÍNUO, DE BUSCÁ-LA, DIA APÓS DIA, SEM DESFALECIMENTO


Não exijo que o viver do homem cristão nada exale senão o evangelho absoluto, o qual, no entanto, não se deve exatamente só almejar, mas também necessário se faz intentar. Contudo, não exijo perfeição evangélica em moldes tão estritos que não se possa reconhecer como cristão aquele que não a haja ainda atingido plenamente. Se esse fosse o caso, seriam todos excluídos da Igreja, uma vez que ninguém se acha que não esteja tão afastado dela por mais que haja adiantado, e contudo não há razão para que sejam rejeitados.

Então, o que fazer? Esteja fixado diante dos olhos este alvo, rumo ao qual se dirijam todas as nossas ações e rumo a ele lutemos e nos esforcemos até chegarmos. Pois não é lícito tentar partilhar com Deus dessas coisas que estão prescritas em sua Palavra, acatando parte delas, e de teu arbítrio desconsiderando outra parte. Ora, por toda parte ele recomenda, em primeiro lugar, a integridade como a parte capital de sua adoração [Gn 17.1; Sl 41.12], termo que significa a sincera candidez de espírito que careça de dolo e fingimento, à qual se contrapõe o coração dobre, como se estivesse dizendo que o princípio do bem viver é espiritual, quando o afeto interior do espírito se devota a Deus, sem fingimento, para cultivar-se a santidade e a justiça. Mas, uma vez que não sobeja a ninguém tanta força, neste cárcere terreno do corpo, que se possa avançar com a justa celeridade da corrida, ao contrário tão grande fraqueza oprime a grande maioria que, vacilando e claudicando, até mesmo rastejando no solo à frente se movem com dificuldade, avancemos, cada um segundo a medida de sua reduzida capacidade, e prossigamos a jornada iniciada. Ninguém vagueará tão desafortunadamente que não avance cada dia ao menos um pouco de caminho.

Portanto, não cessemos de progredir no caminho do Senhor, avançando incessantemente, não nos desesperando ante a insignificância de êxito alcançado. Ora, por mais que o êxito não corresponda ao desejo, contudo, o labor não foi perdido quando o dia de hoje supera o de ontem, contanto que, com sincera candidez, olhemos firmemente para nosso alvo e aspiremos alcançar nossa meta, não nos lisonjeando com adulação, nem condescendendo a nossas más disposições; ao contrário, em esforço contínuo proponhamo-nos a ser cada dia melhores até que alcancemos a perfeita bondade que devemos buscar toda nossa vida. Conquistaremos essa perfeição quando, despojados da debilidade de nossa carne, sejamos plenamente admitidos na companhia de Deus.

(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 3, pp. 159-160)

domingo, 19 de dezembro de 2010

It's raining men over.... Vaticano

O papa Bento XVI bem que podia ter uma assessoria melhor para evitar pagar micos como que pagou no último dia 15 de dezembro, afinal receber no Vaticano rapazes musculosos de calças justas, tirando a camisa para mostrar o torso desnudo, ainda que por razões, digamos, artísticas, é um gesto que não combina nada com o seu discurso antigay e antipedofilia. Ato falho? De qualquer maneira, cabeças vão rolar no Vaticano...




O vídeo sem a edição "it's raining men" está aqui:



O grupo de acrobatas se chama Fratelli Pellegrini,
("Irmãos Pellegrini") e um dos propósitos da audiência
papal era celebrar os artistas de circo,
que teve outros números como o abaixo.
Homenagem justa, sem dúvida, mas que colocou
o papa numa batina justa, isso colocou...


sábado, 18 de dezembro de 2010

Precisamos de Barnabés

Só pra lembrar de uma época em que os líderes cristãos não tinham amor ao dinheiro, nem se locupletavam daquilo que os outros repartiam, e a única semente que plantavam era o amor à Igreja e ao próximo, e pra também reviver outra época, em que se fazia música evangélica de qualidade no Brasil:






BARNABÉ, HOMEM DE DEUS


Composição: Guilherme Kerr Neto e Jorge Rehder

Não fica bem a gente passar bem e o outro carestia,
ainda mais quando se sabe o que fazer e não se faz.
Como fruto do amor de Cristo,
fruto do seu compromisso,
vendeu um homem o que tinha e repartiu.

Era o seu nome Barnabé, natural de Chipre,
também chamado de José da Consolação,
homem bom e piedoso, cheio de temor e fé,
homem de Deus.

E quando Saulo converteu-se a Cristo lhe faltou amigo,
alguém que fosse companheiro, fonte de consolo e abrigo.
Como fruto do amor de Cristo,
fruto do seu compromisso,
foi um homem procurá-lo, dando-lhe a mão.

E quando a igreja se espalhou por todo canto que havia,
por providência, sim, por mão de Deus chegou a Antioqui.
Precisando de um pastor de almas,
mesmo de um partor de homens,
foram procurar aquele Deus que preparou.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Teólogo presbiteriano pede que evangélicos fiquem 5 anos sem falar nos gays

Só precisa combinar com o Malafaia a notícia abaixo, do site Melodia, principalmente na parte em que o teólogo fala que o Novo Testamento está muito mais preocupado com a pregação do evangelho, contra a avareza e cobiça, do que com a homossexualidade. Seria muito interessante também que os pregadores da "teologia" da prosperidade ficassem 5 anos sem falar em dinheiro. Já pensou o Malafaia (e o Murdock) sem falar em "plantar a semente de X mil reais" por 5 anos, se nem por 5 dias eles conseguem?


Teólogo sugere que evangélicos deixem homossexuais em paz


Para o teólogo presbiteriano Juan Stam, a guerra homofóbica está causando dano à igreja e propõe que as igrejas deixem os homossexuais em paz. O teólogo presbiteriano Juan Stam, hoje vivendo na Costa Rica, propôs às igrejas evangélicas uma moratória, de cinco anos, para que elas analisem com calma o assunto da homossexualidade, deixem os homossexuais em paz e se fixem em outros temas mais importantes e evangélicos. Pautada pelas alas conservadoras da Igreja Católica e denominações evangélicas, a homossexualidade entrou com força nos debates durante campanha à presidência da República deste ano. O tema ficou bem demarcado pelas balizas da moralidade, amparado por versículos bíblicos.

“Faria muito bem para nós recordar que as mesmas passagens bíblicas denunciam a avareza – os avarentos não entrarão no Reino dos Deus. “O Novo Testamento diz muito mais contra a avareza e a cobiça do que contra a homossexualidade”, destaca Stam.

A guerra homofóbica está causando dano à igreja, sustenta o teólogo. Evangélicos parecem estar presos a uma obsessão pelos temas sexuais, “como se fossem os únicos problemas críticos de nosso tempo e como se deles dependesse o futuro da igreja e da civilização.” Esse tema domina, de modo a cansar, o discurso de políticos protestantes. Ele indaga, por exemplo, por que igrejas evangélicas e católica não se uniram para organizar marchas contra as guerras do Iraque e do Afeganistão? Ou em protesto contra o golpe de Estado em Honduras e, agora, contra o regime repressivo do seu governo?

Por isso, as igrejas evangélicas “carecem de autoridade moral para que suas campanhas anti-homossexuais sejam convincentes”, afirma, agregando: “Suas arengas contra a homossexualidade caem no ridículo ante os setores pensantes e críticos da população e, às vezes, cheiram a oportunismo e hipocrisia”. O evangelho, lembra o teólogo, não vive da negação, mas das boas novas. Na América Latina, evangélicos têm se destacado por serem anti: anticatolicismo, anticomunismo, antiecumenismo e agora anti-homossexualidade. “O evangelho é o ‘sim’ e o ‘amém’ de Deus; quando o negativo domina a Igreja, ela está doente”, sustenta. O viés religioso sobre o homossexualismo, que apareceu na campanha política, deixou de lado dados preocupantes e assustadores para quem defende o valor último da vida. De 1980 a 2009, o Grupo Gay da Bahia contabilizou 3.196 assassinatos de homossexuais no Brasil, uma média de 110 por ano.

O Paraná é o Estado mais homofóbico do país, ao lado da Bahia, e seguido por São Paulo, Pernambuco, Minas Gerais e Alagoas. No ano passado, foram mortos 15 travestis, oito gays e duas lésbicas no Paraná. Entre travestis e transsexuais, 70% já sofreram algum tipo de violência naquele Estado. O ex-presidente do Grupo Gay da Bahia, o antropólogo Luiz Mott, frisa que a maioria dos crimes contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transsexuais (LGBT) é motivada por “homofobia cultural”. A comunidade LGBT luta pela aprovação do projeto de lei, em tramitação no Congresso nacional, que criminaliza a homofobia. O presidente da Associação Brasiléia de LGTB, Toni Reis, destaca que o maior empecilho para a aprovação da lei é a oposição de grupos religiosos conservadores. Ele afirma, contudo, que a reivindicação da comunidade LGBT não é o casamento religioso, mas a união civil. Reis menciona, em matéria no Brasil de Fato, que 53 países têm legislação específica contra a homofobia, dentre eles o Uruguai, a Argentina, a Colômbia e o México.

Fonte: ALC

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Igreja gay é atacada em Fortaleza

Notícia da Folha de S. Paulo de hoje:

Em Fortaleza, igreja gay se torna alvo de ataques


LUIZA BANDEIRA
DE SÃO PAULO


Uma igreja evangélica que defende a inclusão de homossexuais e cujos fiéis são na maioria gays virou alvo de ataques em Fortaleza.

A Comunidade Cristã Nova Esperança foi pichada com os dizeres "Morte aos gay e sapatão (sic)", "Igreja gay filosofia do diabo", "Fora bando de gays" e "Homofobia não é crime".

A presidente da igreja na cidade, Sara Cavalcante, relatou que pessoas que passam na rua jogam pedras no local e ameaçam incendiar o imóvel.

De acordo com ela, as agressões começaram com as pedradas, no último mês de agosto. Depois disso, os cadeados da igreja foram danificados.

Já as pichações começaram em outubro e se intensificaram no mês passado. Neste mês, até urina, diz Sara, já foi jogada pela porta da comunidade.

A igreja, que fica no bairro Nova América, não tem placas ou nome na porta, de acordo com a líder, justamente para evitar exposição.

As pichações mais ofensivas escritas nas paredes da igreja cearense foram cobertas com tinta.

"Somos uma igreja evangélica pentecostal, só que o diferencial é que nas outras igrejas os homossexuais têm certa dificuldade de desenvolver sua área espiritual."

DIVERSIDADE

Sara diz que sua igreja abre as portas para abraçar a diversidade. "Cremos que a salvação é para todos, que Deus é um só e que todos têm liberdade de culto", afirma.

A igreja, segundo Sara, está em Fortaleza há três anos e nunca havia sofrido ataques homofóbicos.

Ela afirma que cerca de 60 religiosos frequentam o local, a maior parte gays, lésbicas e travestis.

INVESTIGAÇÃO

A Polícia Civil está investigando o caso. Até ontem, os autores das agressões não haviam sido identificados.

Segundo Felipe Lopes, da Coordenadoria de Diversidade Sexual da Secretaria Municipal de Direitos Humanos de Fortaleza, será feito um trabalho educativo com os moradores do bairro e de uma igreja metodista que fica na mesma rua.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Racismo reverso e karma

A comediante afroamericana Wanda Sykes consegue resumir em menos de um minuto, e com muito bom humor, o que de certa maneira já tratei aqui no texto "Preconceito às avessas", com muito menos sucesso, obviamente:


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

8 volumes de História Geral da África - é grátis!

Todos aqueles que se interessam pela História da humanidade, pela difusão do conhecimento e pelo acesso à educação têm agora uma boa razão para comemorar. Depois de décadas de trabalho (que começou em 1960), a UNESCO, em parceria com o Ministério da Educação, disponibiliza gratuitamente - em português - os 8 volumes da obra "História Geral da África", de particular interesse para a formação do povo brasileiro, em especial o vol. V, que abrange o período em que o tráfico negreiro atingiu seu auge. Todas as bibliotecas públicas do país receberão os exemplares, mas você já pode baixar a versão digital dos 8 volumes diretamente no site da UNESCO.

República Tcheca testa bilau de gays


Esta notícia da Deustche Welle vai desanimar todos aqueles que achavam que só o Brasil é o país da piada pronta:

UE condena "testes falométricos" para gays na República Tcheca

Quem pedir asilo afirmando ser homossexual e, por esse motivo, perseguido em seu país de origem, tem, em alguns casos, que passar por testes humilhantes na República Tcheca. União Europeia crítica agora o procedimento.

Nos assim chamados "testes falométricos" para gays requerentes de asilo na República Tcheca, é acoplado ao candidato um aparelho que mede seu grau de estimulação sexual enquanto é obrigado a assistir vídeos pornôs heterossexuais.

Dessa forma, as autoridades de imigração pretendem constatar se o solicitante é realmente homossexual ou se somente o afirma para obter asilo. Caso mostre sinais de excitação, seu pedido será possivelmente rejeitado.

À procura da verdade

Ativistas tchecos de direitos humanos se mostram indignados. "Sabemos que, aqui na República Tcheca, este 'exame falométrico' foi realizado até mesmo em casos em que os candidatos puderam comprovar através de documentos que eram, por exemplo, perseguidos no Irã devido a assim chamados atos imorais", afirmou Martin Rozumek, da organização de ajuda a refugiados OPU.

A agência de direitos fundamentais da União Europeia (UE) critica agora o fato de a República Tcheca ser o único país que aplica o controverso teste sexual. A agência afirma que esse método não é confiável e que não leva a resultados evidentes. Além disso, tal ingerência na esfera íntima violaria os direitos humanos.

As acusações incomodaram o Ministério tcheco do Interior. Entre 2008 e 2009, o exame teria sido aplicado menos de dez vezes, explica Tomas Haismann, responsável por questões de asilo e imigração no ministério. "Assim que a ONU nos criticou pela primeira vez, paramos de realizar o teste. Agora, iremos ler o relatório da agência de direitos fundamentais da UE e tirar as devidas consequências."

Menos de dez testes

Nos casos em que os testes foram aplicados, os atingidos sempre deram seu aval por escrito, assegurou o ministério tcheco. O ministro do Interior Radek John afirmou até mesmo que os candidatos insistiram em fazer o exame. "Eles queriam provar de qualquer forma que eram realmente homossexuais." John assumiu a pasta em julho último, e desde então os testes não foram mais aplicados, afirmou.

O caso veio à tona na Alemanha. Um requerente de asilo iraniano fugiu da República Tcheca para a Alemanha, após ser obrigado a fazer o teste. Um tribunal do estado alemão de Schleswig-Holstein rejeitou o pedido de recondução do requerente de asilo à República Tcheca, alegando que o iraniano teria sido exposto a "testes falométricos" naquele país.

Autora: Cristina Janssen (ca)
Revisão: Augusto Valente


Atualização de 07/04/11:


Pelo jeito, a fixação dos tchecos com gays vem de longe, conforme a notícia abaixo do site Vírgula:

Homem das cavernas gay é descoberto na República Tcheca



Um homem das cavernas foi encontrado enterrado como se fosse mulher. Os arqueologistas da República Tcheca acreditam ter encontrado o primeiro homem das cavernas homossexual, que teria vivido entre 2900 e 2500 A.C.

A ossada encontrada estava enterrada da mesma foram que outras sepulturas que já tinham sido descobertas: a cabeça apontando para o leste e rodeada por vasos e jarras. Sepulturas masculinas normalmente tinham o cadáver com a cabeça para o leste e cercado de armas, martelos e facas.

"Sabemos que pessoas desse período levavam rituais fúnebres muito a sério, então é muito difícil que essa posição seja apenas um erro", disse o arqueologista líder, Kamila Remisova Vesinova. "É muito mais provável que seja um homem com orientação sexual diferente, homossexual ou transexual", completou.

E hoje em dia tem político que ainda quer ver problema na opção sexual alheia. Vai entender.

via The Telegraph

domingo, 12 de dezembro de 2010

Propaganda ateísta é bloqueada na BA e no RS

É o que noticia o jornal O Estado de S. Paulo de hoje:

Campanha de ateus em ônibus é bloqueada


Uma campanha publicitária de combate ao preconceito contra os ateus, prevista para ser iniciada amanhã, pode ficar engavetada e criar uma polêmica jurídica no País nos próximos dias.

A Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea) contratou a exibição de painéis na parte traseira de ônibus urbanos de Porto Alegre e Salvador, mas foi informada, no final da tarde de anteontem, que a veiculação havia sido recusada.

Na capital gaúcha, a Associação dos Transportadores de Passageiros (ATP) alegou que a legislação municipal veda a divulgação de peças de conteúdo religioso, pornográfico ou de incentivo ao uso de bebidas alcoólicas nos painéis.

Em Salvador, segundo a Atea, a empresa contratada teria desistido da veiculação por temer ação do Estado e das transportadoras de passageiros.

Na cidade de São Paulo, o presidente da Atea, o engenheiro Daniel Sottomaior, disse que a entidade vai estudar a possibilidade de encaminhar ações à Justiça com base no princípio de que a recusa à prestação de um serviço (no caso, de publicidade) é caso clássico de preconceito em todo o mundo.

A exemplo de iniciativas anteriores, tomadas por ateus da Espanha e da Inglaterra, a associação brasileira programou a exibição de seus cartazes para ônibus urbanos. E escolheu Salvador pelo nome da cidade e Porto Alegre pela percepção de que a Justiça gaúcha tem sido pioneira na análise de temas polêmicos.

Chaplin versus Hitler. A campanha previu a exibição de quatro peças. Uma delas mostra o ator e cineasta Charles Chaplin como não crente e o ditador da Alemanha Adolf Hitler como crente para afirmar que 'religião não define caráter'. A segunda diz que 'se Deus existe, tudo é permitido'. A terceira sustenta que 'a fé não dá respostas, só impede perguntas'. E a quarta afirma que 'somos todos ateus com os deuses dos outros'. Todas contêm a frase 'diga não ao preconceito contra os ateus' e são assinadas pela Atea.

Segundo cálculos da Atea, os ateus declarados são 2% da população brasileira. Para Sottomaior, essas cerca de 4 milhões de pessoas são vítimas de preconceitos, caracterizados sobretudo pela associação inadequada com pessoas más, feita por parte dos crentes.

'Queremos ser reconhecidos como pessoas dignas, que participam legitimamente da sociedade num País que é laico', destaca o presidente da entidade.




A notícia havia sido veiculada pelo jornal virtual gaúcho Sul21 no último dia 10/12:



Ônibus “ateus” começam a circular na Capital neste domingo


Milton Ribeiro

A partir deste domingo (13), ônibus com mensagens ateias circularão em Porto Alegre e Salvador. A iniciativa é da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) e apresenta quatro mensagens que expõem um pouco o que pensam os ateus. Segundo a entidade, este é mais um passo dado na direção do reconhecimento dos não crentes como cidadãos plenos e dignos. Serão 10 ônibus em Porto Alegre, financiados por um único doador paulista que prefere permanecer anônimo, e cinco ônibus em Salvador, financiados com recursos da entidade e outros doadores.

O mote da campanha é “Diga não ao preconceito contra ateus”, que aparece em quatro formatos diferentes. Um deles afirma “A fé não dá respostas. Ela só impede perguntas” e outra diz “Religião não define caráter” mostrando uma foto de Hitler, citado como crente, e Charles Chaplin, um ateu. As propagandas permanecerão nos ônibus por um mês. Porém Daniel Sottomaior, presidente da ATEA, revela que “O prazo pode se estender, se tivermos doações. Somos cerca de 2% dos brasileiros ou 4 milhões de ateus. Muitos têm medo de se expor devido ao preconceito de amigos, chefes e familiares. Isso tem que acabar”.

A campanha traz ainda a foto de um avião atingindo o World Trade Center com os dizeres “Se Deus existe, tudo é permitido”, uma citação alterada da famosa frase de Dostoiévski em Os Irmãos Karamázovi, “Se Deus não existe e a alma é mortal, tudo é permitido”, dita paradoxalmente pelo ateu Ivan Karamázov no romance. Outra peça afirma “Somos todos ateus com os deuses dos outros”, mostrando imagens de um deusa hindu, um deus egípcio e um deus palestino — Jesus.

Segundo a entidade, o objetivo da campanha não é fazer desconversões em massa, mas conseguir um espaço na sociedade e diminuir o preconceito que existe contra ateus.

Com informações do site Ateus do Brasil e da ATEA

A graça como estilo de vida

Ainda há muitos cristãos que anunciam a graça de Deus, ainda que timidamente, enquanto a aparente maioria - dos que professam essa fé - vive como se a ignorasse, impondo a si mesmo e aos outros um “evangelho” em que o desempenho visível e material (e muitas vezes materialista) é o critério que os define do ponto de vista da religião, mesmo que neguem peremptoriamente e rejeitem qualquer conteúdo religioso ao seu discurso e ao seu estilo de vida. Não é de se estranhar, portanto, que funcionem, na prática, como carrascos de si mesmos e dos outros, nem tanto pelo seu comportamento excessivamente rigoroso, vigilante e formalista, mas principalmente por se privarem de viver a plenitude da graça de Deus, que alegam ter encontrado um dia.

Viver a plenitude da graça de Deus não é sinônimo de licenciosidade, de pecar inconsequentemente para que esta mesma graça cubra essa multidão de pecados. O estilo de vida determinado e dirigido pela graça implica, com o perdão da redundância, em viver graciosamente consigo mesmo e para com os outros, ter uma atitude em relação à vida (sua e dos outros) de acolhimento, generosidade, leveza, gentileza, simplicidade e tolerância; não querer ser mais do que se é e ter prazer no simples fato de existir e ter provado a suprema graça de ter sido acolhido por Deus. Entretanto, há tantos cristãos que submergem num oceano de obrigações autoimpostas que não conseguem voltar à superfície para simplesmente respirar o ar que Deus de graça lhes deu. Essas obrigações não são necessariamente uma vigilância permanente contra o pecado, mas um bloqueio das suas próprias aptidões e do seu crescimento espiritual, geralmente com medo do que os outros vão pensar. Todo o teatro das relações sociais corriqueiras é incorporado pelo crente e ele se preocupa mais em representar uma vida cristã do que propriamente em ser um cristão. Não é raro, tristemente, que muitos descubram tarde demais que apenas têm uma representação cristã, mas perderam muito tempo evitando ser cristãos.

Por isso é tão comum ouvirmos mais lamentações dessa gente boa do que celebração, ainda que silenciosa. Por isso há tantas caras fechadas e cansadas em busca de um sorriso alheio, esquecidas que estão da capacidade que têm em si mesmas de sorrir. Por isso há tanta gente que não consegue se perdoar e vive numa rotina de autopunição, ainda que travestida de desempenho religioso. Tanto a graça como a vida são dons de Deus, e viver a graça de Deus como estilo de vida é simplesmente unir com ternura o que Ele não separou. Todos os dias e para sempre.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Quando tirar os sapatos...

Abaixo segue uma crônica de Michal Kepp, publicada no caderno Equilíbrio do jornal Folha de S. Paulo de 07/12/10, em que ele dá um enfoque bastante humano (e interessante) ao ritual de se tirar os sapatos, atitude que geralmente carrega um simbolismo muito mais religioso, como no caso de Moisés (Êxodo 3:5) e Josué (Josué 5:15):

Basta tirar os sapatos

Ficar descalço chama a atenção para furos nas nossas meias. Mas a vulnerabilidade nos humaniza

"GENTE INTERESSANTE" não é um clube exclusivo.

Qualquer um pode entrar, porque todos são interessantes para alguém. O grau de interesse depende do que a pessoa revela de si, e não do quanto ela mostra. Não precisa fazer um striptease. Basta tirar os sapatos e esperar os resultados.

Sim, tirar os sapatos traz riscos: chama a atenção para os buracos nas nossas meias.

Mas ser vulnerável humaniza e pode convencer o outro a também tirar os sapatos. A maioria precisa de um empurrãozinho para fazer isso.

Nas festas, uso álcool. Nas minhas crônicas, tiro bem mais do que os sapatos, porque o público está distante e normalmente é simpático.

Por isso, aos leitores já revelei minha transa com uma prostituta, a vez que botei no jornal um classificado amoroso, minhas dificuldades de lidar com a adolescência dos meus enteados, meu derrame e alguns dos meus defeitos (mas não os piores). Eu já escrevi até sobre meu pelo corporal. Mas, mesmo assim, eu nunca tiro tudo.

Todas essas confissões têm o propósito de provocar alguma reação: risos, lágrimas, raiva ou reflexão. Enfim, comover aqueles que conseguem se identificar comigo e se sentir menos alienados, menos solitários. Às vezes, essa cumplicidade se confirma em um e-mail que diz: "Sua crônica expressou algo que sempre senti e queria dizer, mas nunca consegui"."

Há pouco tempo, eu contei a um amigo que, durante uma viagem recente à minha cidade natal, visitei, pela primeira vez, o túmulo da minha mãe, que morreu quando eu tinha dez anos. E quando vi a lápide me emocionei tanto que a abracei como se fosse seu corpo. Daí ele me contou que há dois anos, no Peru, ele visitou a montanha onde ocorreu o acidente aéreo que matou seus pais quando ele tinha 13 anos. Quando viu uma cruz enorme fincada no lugar do desastre, ele se debruçou no solo diante dela e abriu os braços para dar nos seus pais o mesmo abraço simbólico que dei em minha mãe. Foi uma das raras vezes que ele se abriu comigo.

Ele tirou os sapatos porque eu tirei também. E quando duas pessoas começam a se expor, ambas ficam mais interessantes.

Uma pessoa pode ser interessante antes de abrir a boca. Pode ser também que ela nunca tire os sapatos e só revele que prefere se esconder.

Mas quem não corre o risco de se expor também paga um preço. Afinal, uma pérola só tem valor fora da ostra.


MICHAEL KEPP, jornalista norte-americano radicado há 27 anos no Brasil, é autor do livro de crônicas "Sonhando com Sotaque - Confissões e Desabafos de um Gringo Brasileiro" (ed. Record)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Estradas paulistas cobram mais pedágio do que podem

O pedagiômetro aí ao lado revela que só em 2010, até hoje, os pedágios paulistas renderem quase 5 bilhões de reais. De vez em quando, a imprensa paulista descobre assim do nada o que os motoristas que cruzam as estradas do Estado (e o atual, o futuro e o ex-governador) estão carecas de saber há décadas, conforme a notícia abaixo publicada ontem na Folha de S. Paulo. Pena que só publicam depois das eleições. Se bem que é dos carecas que os paulistas gostam mais...

Principais rodovias cobram pedágio a mais



Governo de SP alterou regra de reajuste, causando valor indevido em vias como Bandeirantes, Imigrantes e Castello

A diferença a mais em 24 praças varia deR$ 0,05 a R$ 0,10; maioria foi beneficiada, diz gestão tucana

ALENCAR IZIDORO
DE SÃO PAULO

Os motoristas pagam desde julho um valor indevido de pedágio, acima do previsto nos contratos de concessão, em 24 praças de São Paulo.

O valor extra afeta inclusive trechos de rodovias movimentadas como Bandeirantes, Anhanguera, Castello Branco, Raposo Tavares, Anchieta e Imigrantes.

A diferença a mais nesses postos de cobrança, que representam 18% do total existente no Estado, varia de R$ 0,05 a R$ 0,10 para carros.

Ela é um efeito colateral de uma decisão do governo Alberto Goldman (PSDB) às vésperas das eleições. Ele resolveu mudar, unilateralmente, a regra contratual de reajuste e arredondamento.

O objetivo divulgado publicamente era atenuar os aumentos, evitando ajustes acima da inflação num momento em que esse tema era motivo de críticas à candidatura de Geraldo Alckmin.

Em 72 praças, os reajustes realmente ficaram menores. Em 39, deu na mesma. O problema é que houve um resultado contrário em 24. Esse efeito colateral, negativo para milhares de motoristas, foi omitido pelo Estado.

Goldman alterou a base de correção da tarifa. Ela ocorreria a partir de um valor exato, previsto em contrato, mas foi aplicada sobre um valor arredondado, cobrado na cabine.

Numa praça da via Anhanguera, por exemplo, a tarifa de R$ 6,10 deveria passar para R$ 6,30 pelo contrato. Ficou em R$ 6,35 com o novo cálculo. Num ponto da Bandeirantes, deveria ter ido de R$ 6,10 para R$ 6,40, mas ficou em R$ 6,35 (veja quadro).

O governo diz que a medida beneficiou ou foi indiferente para 85% dos usuários (o número total não foi informado). Mas há uma estimativa de técnicos de que foram prejudicados por dia de 200 mil a 400 mil, que pagam esse "extra" sem saber.

Um motorista que passa num pedágio desses na ida e outro na volta diariamente pode ter um prejuízo anual de até R$ 73. Ou seja, mais do que a taxa de inspeção veicular paulistana, de R$ 56,44.

Entre os prejudicados estão os que passam na principal rota do litoral. A tarifa no sistema Anchieta-Imigrantes, baseada em cálculos contratuais, deveria ser de R$ 18,40, e não os R$ 18,50 desembolsados desde julho.

Em nota, a Secretaria dos Transportes, chefiada por Mauro Arce, diz que a decisão "se mostrou benéfica para a grande maioria" e, no "pequeno número de praças" onde houve efeito negativo, a tarifa deve ser revista em 2011.

O governo Goldman não comenta valores específicos e nega acesso a processos que revelariam os detalhes.

QUEBRA DE CONTRATO

As concessionárias viram na decisão quebra de contrato que pode motivar pedido judicial de indenização.

Executivos do setor dizem que houve oposição radical do corpo técnico da Artesp, agência reguladora das concessões de rodovias de São Paulo. Mas a mudança foi imposta pelo secretário Arce.

Ele temia a repercussão negativa de uma alta de 16,7% (de R$ 1,20 para R$ 1,40) numa praça de Diadema (ABC), devido aos critérios contratuais de reajuste.

As principais concessionárias formalizaram alertas ao governo. Alegam que, no conjunto, haverá um ônus superior a R$ 8 milhões a ser assumido por Alckmin.

Ressaltam que há praças cobrando tarifas mais caras do que as corretas -e que não haverá como ressarcir quem já passou por elas.



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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

TV Band processada por ataque de Datena aos ateus

Notícia do site Terra:

MPF pede retratação de TV por preconceito contra ateus

O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou ação civil pública em que pede que a TV Bandeirantes seja obrigada a exibir uma mensagem de retratação de declarações ofensivas aos ateus durante o programa Brasil Urgente. Segundo a denúncia, no dia 27 de julho, o apresentador José Luiz Datena e o repórter Márcio Campos fizeram, por 50 minutos, comentários preconceituosos às pessoas que não acreditam em Deus.

"Esse é o garoto que foi fuzilado. Então, Márcio Campos (repórter), é inadmissível, (...) não é possível. Isso é ausência de Deus, porque nada justifica um crime como esse, não, Márcio?", questiona Datena em um dos trechos do programa, que transmitia uma reportagem sobre um crime bárbaro. "O sujeito que é ateu, na minha modesta opinião, não tem limites, é por isso que a gente vê esses crimes aí", prosseguiu.

Segundo o MPF, o apresentador atribuía os males do mundo aos descrentes. "É por isso que o mundo está essa porcaria. Guerra, peste, fome e tudo mais, entendeu? São os caras do mau. Se bem que tem ateu que não é do mau. Mas o sujeito que não respeita os limites de Deus, é porque (...) não respeita limite nenhum", afirmou.

Para o autor da ação, o procurador regional dos Direitos do Cidadão Jefferson Aparecido Dias, a emissora veiculou declarações preconceituosas contra pessoas que não compartilham o mesmo modo de pensar do apresentador. "Evidentemente, houve atitudes extremamente preconceituosas, uma vez que as declarações do apresentador e do repórter ofenderam a honra e a imagem das pessoas ateias. O apresentador e o repórter ironizaram, inferiorizaram, imputaram crimes, 'responsabilizaram' os ateus por todas as 'desgraças do mundo'", diz o procurador.

Além da retratação, "com duração de no mínimo o dobro do tempo usado para exibição das mensagens ofensivas", a ação do MPF pede que sejam transmitidos esclarecimentos à população acerca da diversidade religiosa e da liberdade de consciência e de crença no Brasil. O MPF também pede que a União, através da Secretaria de Comunicação Eletrônica do Ministério das Comunicações, seja obrigada a fiscalizar adequadamente o programa.

sábado, 4 de dezembro de 2010

A catedral dos cristais quebrados


Robert H. Schuller, hoje com 84 anos de idade, foi um dos primeiros televangelistas norteamericanos. Fundou seu ministério Garden Grove, na localidade de mesmo nome no exclusivo Condado de Orange (mais conhecido pela sigla O.C.) na Califórnia. 

Foi também um dos pioneiros a pregar a teologia da prosperidade e do pensamento positivo, essa vertente perigosa do "humanismo religioso", por assim dizer, lançando no mercado a auto-ajuda religiosa "express" e os títulos dos livros dele publicados no Brasil dão uma dimensão disso: "Você Pode Ser Quem Deseja", "Floresça onde Está Plantado", "Atitudes para Ser Feliz", "Auto-Estima, A Nova Reforma", além da série "Descubra" ("Suas Oportunidades", Como Acertar Suas Prioridades", "a Liberdade", "o Amor"). 

Nada diferente, portanto, de tanta lenga-lenga gospel que a cristandade tem ouvido da boca de "eminentes" líderes nacionais e internacionais, infelizmente. Essa baboseira gospel se tornou uma verdadeira praga que tem substituído a boa, antiga e - paradoxalmente - sempre moderna pregação bíblica nas últimas décadas.

Schuller construiu um grande império eclesiástico, talvez marcado mais pela beleza arquitetônica de seus templos. O primeiro, finalizado em 1961, tinha como inovação o fato de ser uma espécie de "drive-in church", em que os fiéis podiam assistir os cultos sentados confortavelmente em seus próprios automóveis.



Já o segundo templo ficou conhecido como a Catedral de Cristal, projetada pelo arquiteto Philip Johnson e finalizada em 1980, que se tornou um ponto turístico e uma referência em projeto arquitetônico de templos.


Considerando sua idade avançada, Robert Schuller se afastou da liderança do ministério em 2006, deixando seu filho Robert A. Schuller no seu lugar, mas - descontente com os rumos que o filho havia dado à organização - em 2008 o pai o destituiu e o substituiu por sua outra filha, Sheila Schuller Coleman. 

Parece que, apesar de toda a pregação da prosperidade, da ostentação do templo e dos membros da exclusiva região em que se localiza, os problemas se avolumaram e se agravaram, levando a Catedral de Cristal a pedir falência no último mês de outubro, o que surpreendeu a todos. 

Maior surpresa causou, entretanto, a reportagem de ontem (03/12/10) do jornal americano Los Angeles Times, que informa que - nos 12 meses anteriores ao pedido de falência - a igreja distribuiu cerca de 1,8 milhões de dólares em bônus e benefícios a 23 membros e agregados da família Schuller, enquanto outros ministros, empregados e associados estão com seus salários e pagamentos atrasados. 

Aparentemente a crise econômica norteamericana atingiu em cheio as megaigrejas, e aquelas dirigidas como organizações familiares trataram de proteger os seus.

É um triste episódio que revela, mais uma vez, que muitas igrejas e denominações são criadas e dirigidas, ainda que dissimuladamente, como verdadeiras empresas familiares, restritas a um pequeno clã que utiliza a religião como meio de ganhar a vida. 

Nada muito diferente do que - lamentavelmente - ocorre no mundo afora e no Brasil em particular. A pregação da teologia da prosperidade é um câncer que infesta muitas igrejas ditas "evangélicas", e não deixa de ser emblemática a bancarrota da Catedral de Cristal e a louca tentativa de se preservar os seus resultados familiares, humanos e falíveis. 

A ênfase nos "frutos" materiais da pregação tira o foco dos verdadeiros frutos espirituais (que ela não produz), e se esquece mais ainda de que Jesus disse que não basta dar frutos, mas eles devem permanecer (João 15:16), algo que - ao que tudo indica - não ocorrerá com o ministério fundado por Robert H. Schuller décadas atrás.


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Advogados paulistas não confiam na Justiça

É o que diz pesquisa noticiada pela Folha de S. Paulo de hoje:

Advogados confiam pouco na Justiça e acham que ela é ineficiente, diz pesquisa

VENCESLAU BORLINA FILHO
DE RIBEIRÃO PRETO

A Justiça brasileira vai de mal a pior na visão dos advogados que participaram de uma pesquisa da Fundace (Fundação para pesquisa e Desenvolvimento da Administração, Contabilidade e Economia), coordenada por professores da FEA-RP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto), da USP.

Numa escala de zero a cem, o "Índice de Confiança na Justiça sob a Percepção de Advogados do Estado de São Paulo" foi calculado em 34,68.

Segundo os coordenadores da pesquisa e professores do departamento de contabilidade da FEA-RP, Marco Aurélio Gumieri Valério e Cláudio de Souza Miranda, o índice é considerado muito ruim se verificada a percepção para os próximos cinco anos.

Dos 706 entrevistados em todo o Estado, apenas 50,4% afirmaram que a Justiça estará melhor (48%) ou muito melhor (2,4%) daqui a cinco anos. O restante afirma que estará pior (36,5%) ou muito pior (13%).

Entre outros indicadores, o estudo revelou que 87,9% dos entrevistados acreditam que a Justiça brasileira é pouco ou nada eficiente.

Quanto à igualdade de tratamento, ou seja, sem importar meios econômicos, contatos pessoais ou filiação política, 80,5% dos advogados que responderam à pesquisa julgam que o tratamento é nada igual, ou pouco igual.

Já no quesito honestidade, 50,6% acham que é honesta ou muito honesta e 49,4% nada honesta ou pouco honesta. A lentidão foi um dos pontos críticos apontados pelo estudo, já que 99% dos entrevistados disseram que é lenta ou muito lenta.

A pesquisa ainda levantou as opiniões sobre os custos para a solução de litígios, apontando que 88,3% acham cara ou muito cara. O acesso para a solução de litígios foi considerado difícil ou muito difícil por 61,9% das pessoas que responderam o questionário.

Segundo Valério, o advogado faz a ligação entre o Judiciário e o cidadão, e 'sua percepção é transmitida para as pessoas' que representam nas ações. 'Ou seja, a avaliação do cidadão sobre a Justiça brasileira pode ser ainda pior', disse.

Em estudo publicado em novembro pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a população deu nota 4,55 para a Justiça, numa escala de zero a dez.

Para os técnicos do instituto, a avaliação mostra que órgãos como o Ministério Público, a Polícia Judiciária e a Defensoria Pública realmente têm uma avaliação ruim da população.

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