segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Bento XVI e a linguagem na era digital

Apesar do título um tanto quanto apelativo da notícia do site Terra, que não corresponde ao que o texto propriamente diz, o papa fez uma interessante (embora resumida) análise sobre mídias sociais, linguagem e contextualização na era digital:

Bento XVI acredita que internet oferece riscos à população

Bento XVI declarou nesta segunda-feira que a população corre alguns riscos com o uso da internet, como perda de privacidade e a superficialidade das relações. Ele também expressou o medo de que a opinião mais convincente prevaleça sobre a verdade.

No discurso, dirigido nesta segunda aos participantes da reunião do Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais sobre o tema "Linguagem e Comunicação", o papa assinalou que as novas tecnologias não só estão mudando o modo de comunicar, mas também estão propiciando uma vasta transformação cultural. O Bispo de Roma garantiu que as novas tecnologias estão proporcionando um novo modo de aprender e de pensar, assim como uma nova linguagem.

Bento XVI acrescentou que por isso é necessário, de maneira urgente, uma reflexão sobre as linguagens surgidas a partir das novas tecnologias e que o ponto de partida é a revelação, "que nos testemunha como Deus comunicou suas maravilhas na linguagem e na experiência real dos homens, segundo a cultura de cada época". "A fé sempre penetra, enriquece, exalta e estimula a cultura e por isso é preciso escutar a linguagem dos homens de nosso tempo para acompanhar a obra de Deus no mundo", manifestou.

O Pontífice acrescentou que a cultura digital abre novos desafios à capacidade da Igreja de falar e de escutar uma nova linguagem que fale da transcendência e lembrou que Jesus no anúncio do Evangelho utilizou os elementos da cultura e do ambiente de seu tempo. Nesta segunda-feira, acrescentou o papa, os cristãos estão chamados a descobrir na cultura digital os símbolos e metáforas que possam ser úteis para falar do Reino de Deus ao homem contemporâneo.

Bento XVI lembrou aos presentes sua mensagem por causa do 45º Dia Mundial das Comunicações Sociais 2011, que será realizada em 5 de junho, no qual ressalta que a internet não pode substituir o contato direto entre as pessoas e que as novas tecnologias precisam estar a serviço do bem da pessoa e da humanidade inteira. Nessa mensagem, o papa pede aos jovens "bom uso" das redes sociais, que estas não sejam um instrumento para reduzir as pessoas a categorias, que tenta manipulá-las emotivamente e que permite aos poderosos monopolizar as opiniões dos demais.

Egito e Tunísia: o desafio da trégua religiosa

O mês de fevereiro de 2010 termina hoje e entra para a História como o mês em que atingiram o auge as revoluções políticas no mundo árabe, com destaque para a queda do ditador Hosni Mubarak no Egito (no dia 11) e o início da revolta na Líbia contra o ditador Muamar Kadhafi (no dia 13), tudo isso após o estopim que representou a revolta popular na Tunísia, que resultou na deposição do ditador Ben Ali em 14 de janeiro. Muitos ditadores depostos, portanto, e ainda há outros países árabes em tumulto, como a própria Líbia, a Jordânia, o Iêmen e Bahrain.



No Egito e na Tunísia, em particular, onde a situação já está mais definida e pacífica, houve uma ampla participação conjunta da maioria islâmica e da minoria cristã na derrubada das respectivas ditaduras, como já comentamos aqui. Agora, no rescaldo das manifestações populares, muçulmanos e cristãos buscam superar também o passado de disputas e perseguições religiosas para instaurar um período de paz, tolerância e entendimento entre as duas religiões. No Egito, como informa a Reuters, a minoria copta (cristã) pode finalmente encontrar o reconhecimento que lhe foi negado nas últimas décadas, onde os cristãos eram colocados à margem das políticas públicas egípcias, pelo simples (e deplorável) fato de não terem sua cidadania reconhecida. No último dia 18 de fevereiro, ao dirigir as orações de milhões de muçulmanos na praça Tahrir o xeique Youssef al-Qaradawi, conhecido por algumas opiniões polêmicas (como o espancamento de esposas e a pena de morte aos homossexuais), mas que tem procurado construir pontes de diálogo com outras religiões, disse à multidão que "o Egito venceu o que eles chamavam de ódio sectário" e "aqui na praça Tahrir cristãos e muçulmanos lutaram lado a lado, esse maldito ódio não existe mais". Os cristãos coptas se alegraram com as declarações, embora prefiram esperar mais tempo para confirmar se esta paz é pra valer, mas pelo menos já estão recebendo o devido reconhecimento do Ministério do Interior egípcio, algo impensável até o último mês de janeiro.



Na Tunísia, por sua vez, houve uma marcha de protesto no último dia 19 de fevereiro, em que os tunisianos pediram que o Estado permaneça secular, ou seja, imune a influências religiosas de qualquer procedência. Segundo também informa a Reuters, 15.000 pessoas marcharam em Túnis, capital do país, para clamar por tolerância religiosa e se manifestar contra a organização islâmica extremista que, segundo se suspeita, foi a responsável pela morte de um padre católico de origem polonesa, de nome Marek Rybinski (foto abaixo), que havia sido assassinado no dia anterior, mesmo dia em que o xeique Yousef al-Qaradawi fazia seu discurso para milhões no Cairo. O padre teve a sua garganta cortada na escola católica em que trabalhava na cidade de Manouba. A cerimônia em sua memória, que foi realizada na Catedral de Túnis no dia seguinte, teve a participação de muçulmanos que se solidarizaram com os católicos e protestaram contra a barbárie.



Trata-se de um período profícuo - e ao mesmo tempo perigoso - por que passa o mundo árabe. A paz religiosa na região experimenta um equilíbrio delicado. Entretanto, qualquer ato tresloucado de um indivíduo ou pequeno grupo pode romper a tênue linha que separa a convivência pacífica do fanatismo religioso. Queira Deus que, ao ir embora, o mês de fevereiro de 2010 deixe como legado duradouro um rastro de paz, tolerância e mútua compreensão entre cristãos e muçulmanos naquela parte do globo. Que este cessar-fogo temporário sirva para desarmar os espíritos definitivamente.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Católicos de volta pra casa

A campanha é da Igreja Católica dos Estados Unidos e se chama "Catholics Come Home", cuja tradução seria algo como "Católicos, Voltem pra Casa", com uma série de anúncios e vídeos promocionais, dos quais o mais popular é o que está no vídeo abaixo (com legendas). A organização mantém ainda um site próprio (clique aqui para acessá-lo), onde há uma série de informações e instruções (em inglês) para aqueles que queiram se converter ao catolicismo. É interessante observar que, talvez por serem minoria nos Estados Unidos, os católicos de lá são mais praticantes que os brasileiros, por exemplo, enquanto os evangélicos norteamericanos são mais nominais, como os católicos daqui, isso tudo proporcionalmente falando, obviamente. Você pode até não querer ser católico, mas - convenhamos - a campanha norteamericana é bem produzida.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Carlinhos e a síndrome de Down

A propaganda institucional é de 1998. Há, portanto, uma geração que está chegando agora e nunca viu esta obra-prima da publicidade brasileira, que promoveu a inclusão social e o respeito aos direitos dos portadores de síndrome de Down, além de ter apresentado o Radiohead ao Brasil, com a música "Fake Plastic Trees":

O "Billy Graham" do Islã

Na cultura midiática ocidental, achamos que só pastores (e alguns padres) são televangelistas, e este é um fenômeno típico do cristianismo, mas como já dissemos aqui no blog, há rabinos que promovem o judaísmo na TV, e também líderes muçulmanos nos países em que o Islã responde pela maioria da população. Um deles é Amr Khaled, um dos mais influentes pregadores televisivos islâmicos (primeiro vídeo abaixo). Natural do Egito, com 43 anos de idade, ele foi proibido de pregar no seu país natal nos últimos anos, e, segundo noticia o blog CNN Belief e a agência Reuters, ele retornou ao Cairo depois da queda do ditador Hosni Mubarak e deve fazer uma pregação pública exatamente hoje, sexta-feira, o dia santo para os muçulmanos. Amr Khaled chegou a trabalhar como auditor da KPMG e atualmente mora em Londres, na Inglaterra, e é visto globalmente como uma autoridade muçulmana moderada, que combate o terrorismo e faz constantes críticas ao extremismo de Bin Laden, Al Qaeda e adjacências. Khaled é uma celebridade nos países islâmicos, e chamado por muitos como o "Billy Graham" do Islã. Só no Facebook, tem 2,1 milhões de seguidores. Em 2007, a revista Time o considerou uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, o que lhe dá papel de destaque quando líderes políticos e empresariais precisam de interlocutores no mundo islâmico. Basta dizer que, antes de sua presente viagem ao Egito, ele estava participando do World Economic Forum em Davos, na Suiça. No segundo vídeo abaixo, Amr Khaled dá uma entrevista em 2008, na qual prevê que os muçulmanos serão maioria na Europa em 20 anos, e que é preciso absorver e não reagir àquilo que ele chama de "provocações" para que os islâmicos sejam expulsos dos países europeus, e assim eles possam se mesclar à sociedade europeia e serem aceitos sem confusão e mediante seus valores morais e seu talento profissional. Esperamos, entretanto, que todo este interesse político não termine fazendo de Amr Khaled o Silas Malafaia do Islã. Bigode pelo menos ele tem...




quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Macumba búlgara no futebol

A coisa deve estar meio feia pros lados da Bulgária, terra do pai da presidenta Dilma Rousseff, segundo a notícia abaixo, da Folha.com. Na visita programada para o fim do ano, a presidenta brasileira poderá ensinar aos búlgaros a velha máxima boleira daqui, de que "se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminava empatado".

Por resultados, clube búlgaro sacrifica animal no gramado

O clube Lokomotiv Plovdiv, da Bulgária, sacrificou nesta quarta-feira um cordeiro em seu campo com a esperança de que o ato irá melhorar o seu desempenho durante a segunda metade do campeonato búlgaro.

A imprensa daquele país informou que o animal foi morto no distrito de Lauta por um sacerdote conhecido como um "torcedor fanático do time". O ritual religioso foi feito para dar prosperidade ao Lokomotiv Plovdiv.

Além de matar o bicho, os jogadores da equipe, incluindo o capitão Zdravko Lazarov e o goleiro francês Florian Lucchini, pintaram as traves do local com o sangue do animal.

O Lokomotiv, campeão da Bulgária em 2004, está em quinto lugar na classificação do campeonato, com 26 pontos em 15 jogos, 11 atrás do líder do Litex Lovech.

Sentimentalismo gospel


Outro dia eu estava no trânsito e resolvi ouvir uma rádio gospel para me inteirar do que a juventude evangélica anda produzindo e ouvindo. 

Confesso que não tenho muita paciência para o que andam tocando por aí, já que impera a baixa qualidade tanto nas letras como nas composições musicais. 

Curiosamente, naqueles poucos minutos em que ouvi uma rádio gospel, tocaram três canções que me chamaram a atenção.

 De certa forma, estavam mais inter-relacionadas do que pareciam a princípio. Não conheço pessoalmente quem as compôs nem quem as canta, e a análise que vou fazer aqui deve servir mais como alerta e incentivo do que juizo de valor ou condenação. 

Espero que os envolvidos na produção dessas canções sejam verdadeiramente cristãos e saibam aceitar opiniões contrárias e aprender com as críticas.

A primeira canção é "Um Sentimento Novo", do Irmão Lázaro:




Irmão Lázaro é um bom cantor, bem afinado, a melodia é de fácil assimilação, sem grande elaboração musical, mas a letra apela para esse sentimentalismo inconsequente que tem se tornado uma marca do estilo gospel no Brasil. 

Fica difícil combater o relativismo e o existencialismo que imperam na sociedade quando as próprias canções que se dizem cristãs apelam para o sentimentalismo, que é uma característica própria do mundo sem Cristo. 

A letra, então, é sofrível, sobretudo na parte em que diz: "Essa sensação de que só Deus me basta. Certeza de que eu em Deus e Deus em mim se encaixa". 

Primeiro, saber que "só Deus me basta" não é uma "sensação", mas uma certeza que todo crente deve(ria) ter. 

Além disso, "sensação" e "encaixa" são palavras temerárias e que não combinam para quem quer comunicar uma mensagem cristã. 

É - no mínimo - de um mau gosto atroz. Pode até arrepiar os pelos do braço, mas dificilmente contribui para o crescimento espiritual ou a conversão de quem quer que seja.

A outra canção com que fui brindado em seguida é "Agora é Só Vitória", de Damares, que canta razoavelmente bem uma melodia comum, simpática até, mas sem grandes pretensões musicais.

 A letra repete o já surrado discurso triunfalista evangélico, de "agora é só vitória", acompanhado de um certo consolo bastante emotivo de cunho "celebridade midiática", ao dizer que o "vencedor que está chegando" vai sair do "anonimato" e - implicitamente - atingir a "fama". 

O refrão insiste que "a prova acabou" e "a luta foi embora", mas todo cristão sabe que a provação deve ser motivo de alegria e "grande gozo" (Tiago 1:2), e que Jesus já nos alertava de que "no mundo tereis tribulações, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo" (João 16:33). 

Lamento informar, irmãos, mas enquanto houver fôlego de vida, a luta não vai embora não. Crente que não passa por lutas e provações, ou já morreu ou tá no time errado. Logo, a letra dessa canção está em desarmonia com o evangelho.




Por fim, escutei "Toda Sorte de Bênçãos", do Ministério Apascentar, que tem uma qualidade musical melhor, embora sem grandes novidades, mas que segue na linha do pensamento positivo do "em tudo o que eu faço sou abençoado", "tudo possuirei", "prosperarei, transbordarei":




Depois eu fui pesquisar mais sobre o Ministério Apascentar e vi que "prosperidade" é o grande tema recorrente nas canções do grupo. De fato, a Bíblia fala sobre prosperidade, mas numa escala muito menor do que a ênfase que o Ministério lhe dá. 

Há uma desproporção gritante, portanto, se alguém se der ao trabalho de não simplesmente cantar, mas principalmente pensar e estudar a respeito. 

Na canção "Te Conhecer" a letra diz que "agradecido eu sou pelo que já recebi, mas não estou satisfeito: eu quero mais". Talvez estejamos vendo uma geração de crentes insatisfeitos com a graça de Deus, justamente Ele que disse a Paulo que "a minha graça te basta" (2 Coríntios 2:9). 

É claro que, também de acordo com a Palavra, Deus pode fazer tudo "muito mais do que pedimos e pensamos" (Efésios 3:20), mas esta é uma iniciativa exclusiva e arbitrária dEle, e a Ele nos submetemos agradecidos e satisfeitos.

Contraditória - mas felizmente -, o Ministério Apascentar tem outra canção ("Tua Graça me Basta"), com uma belíssima letra que nega o que foi dito nas canções acima referidas. 

Ao contrário de fugir do anonimato e buscar a fama, como quer Damares em "Agora é Só Vitória", em "Tua Graça me Basta", o grupo diz que "eu não preciso ser reconhecido por ninguém". E contraria o que o próprio ministério diz - insatisfeito - em "Te conhecer", ao cantar que "só Tua Graça me basta e Tua presença é o meu prazer".




Enfim, diante de tanto sentimentalismo, não me senti animado a ouvir música gospel da nova safra, mas - como mostra o último exemplo - ainda há esperança.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Muçulmanos querem que Bento XVI peça perdão pelas Cruzadas

Notícia da Folha.com:

Academia islâmica quer que papa se desculpe por Cruzadas

A maior instituição sunita do mundo condicionou nesta segunda-feira a retomada das relações entre o Vaticano e o mundo islâmico a um possível pedido de desculpas do papa Bento 16 pelas Cruzadas ou a uma condenação da ocupação israelense dos territórios palestinos.

A declaração foi dada por Muhammad Rifaa Al Tahtawi , ex-porta-voz da Academia de Investigação Islâmica de Al Azhar, com sede no Cairo, durante o evento "Agenda da convivência: cristãos e muçulmanos por um futuro juntos", promovido em Roma pela Comunidade de Santo Egídio.

Ele disse que está confiante sobre a retomada do diálogo, que foi congelado pela academia sunita no último 20 de janeiro, após o papa denunciar que os cristãos são perseguidos no Oriente Médio. Para a instituição islâmica, o pontífice teria atribuído aos muçulmanos a responsabilidade pela opressão da comunidade cristã na região.

Tahtawi, que alegou ter deixado o cargo para se unir à revolta do povo egípcio, afirmou que "não é aceitável" que o líder máximo da Igreja Católica diga que "não insultou [os muçulmanos e que] apenas falou" o que diria "para qualquer outro grupo religioso sobre a falta de liberdade religiosa".

Para o ex-porta-voz, "isso não é uma desculpa", e seria necessário que o papa "apresentasse agora as desculpas pelas Cruzadas", ou que "condenasse o que Israel está fazendo na Palestina".

Ele ainda observou que "a decisão de congelar o diálogo com o Vaticano, mesmo que nem todos no governo estivessem de acordo, foi muito popular".

"Isso não significa que não se queria um diálogo, mas que se quer um diálogo fecundo, e não de fachada, e baseado no mútuo respeito", completou.

"Nós queremos que o papa faça um gesto que dê a entender aos muçulmanos que ele lhes tem como seres humanos, assim como tem a todos os outros. Um sinal de respeito seria falar do Islã como uma região de paz, como uma das principais regiões no mundo que toma uma posição sobre as práticas israelenses, assim como sobre Jerusalém", defendeu o ex-porta-voz, acrescentando que "o mundo islâmico, em geral, sente por não ser respeitado e tratado igual".

Metade do Brasil será evangélica em 2020

É o que disseram especialistas da organização SEPAL ("Servindo aos Pastores e Líderes") ao site norteamericano The Christian Post em notícia publicada no último dia 20 de fevereiro. Com base nos dados do censo brasileiro levado a cabo pelo IBGE em 2010, além de dados de pesquisa do instituto Datafolha datada de 2007, a SEPAL estima que o número de pessoas que se declaram evangélicos seja de 57,4 milhões em 2011, considerando-se, para tanto, a taxa anual de crescimento de 7,42% nessa faixa da população. Luís André Brunet, pesquisador da SEPAL, prevê que em 2020 os evangélicos chegarão à marca de 109,3 milhões (52%) num total de 209,3 milhões de brasileiros, isto obviamente se a taxa de crescimento se mantiver nos patamares anteriores. (Observação: a ilustração acima foi publicada na revista Época em maio de 2009, quando se previa que os evangélicos chegariam a 104,5 milhões em 2020)

De fato, há um crescimento enorme do número de evangélicos no Brasil e é muito provável que dentro alguns anos este segmento represente mais da metade da população. A recente "descoberta" dos evangélicos pelas empresas e meios de comunicação mostra que este é um caminho aparentemente irreversível. Entretanto, é preciso um pouco de cautela quando se analisa os números frios das estatísticas. Quantidade nem sempre (aliás, raramente) vem acompanhada de qualidade. Primeiramente, é difícil saber que tipo de "evangélicos" temos hoje no Brasil. A "teologia da prosperidade" pregada nas igrejas neopentecostais tem feito uma legião de convertidos ao dinheiro, mas não exatamente a Cristo. Não se sabe, também, qual é a, digamos, "taxa de giro" dessas igrejas, ou seja, não basta saber quantas pessoas entram, mas também quantas saem. A julgar pelo crescimento positivo dos últimos anos, o número de pessoas que entram é maior do que as que saem. Por outro lado, o fato de ser "evangélico" hoje no Brasil é uma afirmação muito mais ideológica do que teológica. "Evangélico" é um termo que tem um significado - atualmente - muito mais de pertencer a um determinado grupo religioso (não raras vezes "místico") que segue um líder carismático e acredita nas mesmas coisas (materiais, de preferência). Pouca ou nenhuma importância se dá à cruz de Cristo, esta sim a verdadeira marca do cristão.

Há que se observar ainda, que o crescimento evangélico no Brasil nas últimas décadas andou a reboque da sucessão de crises e estagnações econômicas por que passou o país. Muitas igrejas serviram como um abrigo de sociabilidade, estímulo e auxílio mútuo para enfrentar as dificuldades financeiras. A se manter o atual nível de crescimento econômico, portanto, a tendência é que menos pessoas busquem alívio e sustento no discurso da prosperidade das igrejas que mais cresceram no período anterior. Como em qualquer país desenvolvido do mundo, as estatísticas indicam que quanto melhor o nível financeiro de um povo, menor a frequência às igrejas. O órgão mais sensível do corpo humano (e da alma também, ao que parece) continua sendo o bolso, afinal. Apesar de tudo, ainda que o número de evangélicos nominais aumente, temo que o percentual de cristãos sinceros e comprometidos com o verdadeiro evangelho de Jesus Cristo, infelizmente, não saia do lugar. Queira Deus que não diminua...

Terremoto em Christchurch: ¿maldição?

Pouco mais de um ano atrás, o Haiti foi sacudido por um terremoto devastador, e imediatamente se ergueram as vozes dizendo que a catástrofe havia sido um castigo de Deus para as práticas religiosas anticristãs dos haitianos, vudu incluído. Anteontem a bela cidade de Christchurch ("Igreja de Cristo" em inglês), segunda maior da Nova Zelândia, foi também atingida por um terremoto de menor magnitude e com muito menos vítimas civis, mas que igualmente deixou a cidade em destroços. É no mínimo estranho que, até o momento, as mesmas vozes apocalípticas - os profetas de retrovisor - que se apressaram em julgar e condenar o Haiti no ano passado não tenham se voltado contra os neozelandeses, cristãos brancos (apesar da minoria maori) que deram esse belo nome à cidade em função da catedral (foto acima) que foi construída ali em meados do século XIX. Até agora, Pat Robertson não teve o mesmo comportamento de janeiro de 2010, quando disse que o Haiti foi amaldiçoado, e - surpreendentemente - permanece calado. Não emitiu nenhum juízo de valor sobre o que aconteceu em Christchurch. É muito cômodo proferir - seletivamente - sentenças condenatórias sentado no conforto do seu lar, ou no ar condicionado do escritório, especialmente contra povos pobres e negros que empilham seus corpos no que sobrou das ruas e não podem se defender. Se bem que o fato da cidade destruída agora se chamar Christhchurch pode ter feito a Igreja de Cristo pensar melhor sobre o seu próprio estado miserável atual em vez de apontar o dedo para o cumprimento de castigos, pragas e maldições em outros lugares. Ainda dá tempo de ajuntar os pedaços, reparar as brechas e reconstruí-la. E que, nesta hora triste, Deus dê força e consolo ao bravo povo de Christchurch na linda Nova Zelândia.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

103 anos sem sexo


A notícia foi publicada originalmente no jornal britânico The Sun e foi reproduzida pelo site G1:

Mulher de 103 anos diz que segredo da longevidade é nunca ter feito sexo

Gladys Gough nunca se casou ou teve namorado.
'Provavelmente, teve algo a ver com isso', afirmou ela.


Além de nunca ter feito sexo, Gladys destacou que nunca fumou, experimentou álcool ou tomou remédios. Ela afirmou ainda que preferiu dedicar sua vida a conhecer o mundo ao lado de sua irmã Edna, que morreu em 1996 aos 85 anos.

"Nós sempre fomos paqueradas pelos homens, mas preferimos viajar", disse ela.

Os animais têm livre-arbítrio?

Artigo de Jason Palmer na BBC News Science & Enviroment, com resenha de Natasha Romanzoti do site HypeScience. Para quem quiser ser aprofundar no tema, do ponto de vista científico, o artigo da BBC cita ainda os seguintes trabalhos disponíveis na internet (em inglês):


Towards a scientific concept of free will as a biological trait: spontaneous actions and decision-making in invertebrates

Order in spontaneous behavior

Abaixo a resenha de Natasha Romanzoti:

Os animais também possuem livre arbítrio

O homem, apesar das regras sociais e dos outros tipos de restrições, goza de livre arbítrio. Segundo pesquisadores, os animais também, desde as moscas até os mais evoluídos.

Claro que a ideia de “livre arbítrio” precisa ser redefinida. Entre os animais, o processo é semelhante, não idêntico.

Os animais têm sempre uma variedade de opções disponíveis para eles. Essas “escolhas” se encaixam numa probabilidade complexa. Entre os seres humanos, as escolhas são vistas como decisões conscientes. E nos animais?

Foi estabelecido há muito tempo que o “comportamento determinístico” – a ideia de que um animal provocado de tal forma vai reagir com a mesma resposta toda vez – não é uma descrição completa do comportamento animal.

Segundo os pesquisadores, mesmo os animais mais simples não são previsíveis. No entanto, a ausência de determinismo não sugere um comportamento completamente aleatório também – é por isso que a pesquisa mostra que o comportamento animal não é nem totalmente restrito, nem totalmente livre.

Experimentos com moscas revelaram que, embora o comportamento animal possa ser imprevisível, as respostas parecem vir de uma lista fixa de opções. Os cientistas acreditam que o livre arbítrio seja uma propriedade biológica, um traço de personalidade: o cérebro possui a liberdade de gerar comportamentos e opções.

O mecanismo exato pelo qual os cérebros de todos os animais produzem essa liberdade continua a ser uma questão sem resposta convincente.

Os pesquisadores utilizaram modelos matemáticos para simular a atividade do cérebro em um computador, descobrindo que o que funcionou melhor foi uma combinação de comportamento determinístico e um outro comportamento conhecido como estocástico (que parece aleatório, mas na verdade, segue um conjunto definido de probabilidades).

Essa “estocasticidade” mostra-se, por exemplo, em terremotos. Eles não podem ser previstos com precisão, mas ao longo do tempo se pode perceber que eles se encaixam perfeitamente em uma curva.

Tal como acontece com o comportamento animal, há uma ordem subjacente e a probabilidade de um processo que pode aparecer ao acaso. Segundo os pesquisadores, a probabilidade é a melhor descrição para a “livre escolha animal”, já que lidamos com a situação de que animais não pensam.

Ao pensar, os seres humanos têm todas as opções e, teoricamente, todas as opções têm a mesma probabilidade. Mas na vida real não é bem assim. Existem opções com probabilidades extremamente raras. Os pesquisadores também afirmam que os cérebros podem criar mecanismos que transtornem o elemento probabilístico do comportamento, dependendo da situação em mãos.

Os cientistas acreditam que o livro arbítrio animal seja resultado de uma evolução. A variabilidade que é inerente ao comportamento é um pré-requisito para a sobrevivência em um ambiente competitivo.

Ou seja, um predador não deve ser sempre capaz de adivinhar as ações de sua vítima, mas as ações não devem ser tão aleatórias que incluam opções ainda mais perigosas do que o predador.

No mundo da neurobiologia, a ideia tem certo apoio. Porém, são necessários mais resultados experimentais que correspondam aos modelos matemáticos.

Ainda assim, o debate sobre livro arbítrio é muito mais complexo, e a discussão atual não aborda temas como a consciência, as suas origens, ou se os animais a compartilham.

O livre-arbítrio, como descrito neste estudo, vem com um significado geral, um pré-requisito necessário, mas não está nem perto de ser suficiente para lidar com coisas como moralidade e responsabilidade. Ainda assim, lembram os cientistas, sem essa capacidade muito básica de escolher entre as opções, nós não teríamos que pensar em todas as outras coisas que vêm antes: consciência, educação, etc.

O ex-travesti de Matão

Destaque para os "50% dele, 50% de Deus", ao fato de "achar homens bonitos porque não é machista", e ao beijo do repórter meigo no final:


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Cristina Mortagua diz que filho tem "encosto"

Depois do barraco que lhe rendeu até uma prisão temporária por agressão e desacato, a ex-modelo e ex-neoconvertida gospel Cristina Mortágua agora alega que seu filho pode estar com um "encosto". Nada que um salzinho ou uma fogueirinha "gospel" não possa resolver, obviamente. Estranho ela não ter pensado em "encosto" quando fez um "ensaio sensual" com o mesmo filho algum tempo atrás. Só que, em vez de "espiritualizar" o discurso, talvez fosse o caso da ex-sensual (agora "sensitiva") parar de se achar "famosa", como diz na reportagem abaixo do site EGO, e cuidasse mais de si mesma longe dos holofotes. Afinal, o tal "encosto" pode estar mais perto do que parece...

Cristina Mortágua diz que filho adolescente pode estar com 'encosto'

Em entrevista para a revista 'Veja Rio', a ex-modelo falou sobre os recentes acontecimentos envolvendo sua família: 'O cristal se quebrou'

Durante entrevista concedida para a revista "Veja Rio", que chegou às bancas neste sábado, 19, a ex-modelo Cristina Mortágua disse que o filho, Alexandre, 16 anos poderia estar passando por um momento de complicações espirituais.

"Sinto que ele tem uma necessidade muito grande de chamar a atenção. Talvez por ter um pai que foi um ídolo do futebol, uma mãe famosa... Ele ainda não se descobriu. Acho até que recebeu uns espíritos ruins...Outro dia virou os olhos e começou a falar coisas estranhas", declarou Mortágua.

Ainda na mesma entrevista, a ex-modelo disse que após ter sido presa por causa de uma confusão em família, ainda não falou o com filho: "Estou aqui para o que ele precisar. Afinal, sou a mãe dele. Acredito que a gente possa fazer as pazes um dia, mas não agora. O cristal se quebrou."

Cristina foi detida no início de fevereiro após ter sido denunciada pelo filho por agressão. O caso foi registrado na 16ªDP da Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio.

Deus: a favor e contra

Excelente resenha publicada no Estadão de ontem, 21/02/11, sobre o lançamento simultâneo no Brasil de dois livros que representam campos opostos na questão da existência (ou não) de Deus: "Em Defesa de Deus", de Karen Armstrong, e "Hitch-22", autobiografia do militante ateu Christopher Hitchens.


A devota e o ateu no terreno da fé

A publicação simultânea de Em Defesa de Deus,da teóloga Karen Armstrong, e do autobiográfico Hitch-22, do rebelde Christophr Hitchens, traz à tona novos argumentos para o debate religioso

ANTONIO GONÇALVES FILHO - O Estado de S.Paulo

A ponte que separa a ex-freira e teóloga inglesa Karen Armstrong do jornalista e escritor também inglês, naturalizado norte-americano, Christopher Hitchens passa sobre o mesmo rio, o da religião. Por coincidência, estão sendo publicados ao mesmo tempo no País os mais recentes livros dos dois, Em Defesa de Deus, de Karen Armstrong, e Hitch-22, a autobiografia de Hitchens, escrita a toque de caixa depois que ele foi diagnosticado com câncer no esôfago. Em sua obra, a inglesa reserva sérias críticas ao patrício, que há quatro anos escreveu um best-seller, Deus Não É Grande, com mais de 300 mil exemplares vendidos. Hitchens, no seu Hitch-22, não menciona Karen Armstrong, mas, na última entrevista concedida antes da metástase que chegou ao pulmão do inveterado fumante, em novembro passado, ele voltou à carga contra os que condenam seu ateísmo, soltando um epigrama filosófico digno do austríaco Wittgenstein (1889-1951): "O que pode ser afirmado sem evidência também pode ser rejeitado sem evidência".

Hitchens foi batizado pela mídia um dos "quatro cavaleiros do Apocalipse", como ficou conhecido o quarteto ateísta formado por ele, o zoólogo evolucionista britânico Richard Dawkins e os filósofos norte-americanos Sam Harris e Daniel Dennett. Em Deus Não É Grande, Hitchens defende que "Deus não criou o homem à sua imagem, mas o contrário", o que explicaria a profusão de deuses e religiões que, segundo ele, "tanto têm adiado o desenvolvimento da civilização". Para Hitchens, nenhuma religião oferece respostas às perguntas mais elementares e a fé num ser supremo não passa de uma crença totalitária que abala os alicerces da liberdade individual.

Karen Armstrong não pensa assim, mas já pensou, assumindo ter sido uma espécie de Richard Dawkins de saias depois que abandonou o convento, aos 25 anos, e passou por uma crise de fé. Hoje, ela diz que compreende a irritação dos novos ateus, porque, como explicou em suas memórias, A Escada Espiral, durante muitos anos não quis nada com a religião, afirmando mesmo que alguns de seus primeiros livros "tendiam ao dawkinsesco". Para Karen, é uma pena que Dawkins, Hitchens e Harris - ela poupa o darwinista neural Dennett - "se expressem com tanto destempero, porque algumas de suas críticas são válidas", entre as quais, os petardos atirados por Hitchens nos fundamentalistas islâmicos. Surpreendentemente, Karen observa em seu livro que, na verdade, os novos ateus "não são suficientemente radicais". Teólogos judeus, cristãos e muçulmanos repetem há séculos que Deus não existe sem que a fé dos religiosos se abale. "Com isso eles não pretendem negar a realidade de Deus, mas salvaguardar a transcendência divina", justifica a autora. Em nossa "sociedade falastrona", conclui, essa tradição do silêncio, que foi esquecida, podia evitar uma montanha de transtornos religiosos.

Em seu livro, Karen concentra-se no cristianismo - ela que escreveu sobre Buda e Maomé, entre os seus 15 livros que tratam de Deus e religiões - "porque é a tradição mais diretamente afetada pelo advento da modernidade científica e a mais castigada pelo novo ataque ateísta". Tanto Hitchens como Dawkins seguiriam, segundo a autora, "um naturalismo científico linha-dura, que reflete o fundamentalismo no qual baseiam sua crítica". O ateísmo, define a acadêmica, "sempre é a rejeição de uma forma específica de teísmo e depende dela como um parasita". Hitchens dependeria totalmente de uma leitura literal da Bíblia, critica a ex-freira. Dawkins, como os fundamentalistas protestantes, teria uma visão simplista dos ensinamentos morais da Bíblia. Os dois - além de Sam Harris - apresentariam a religião no que ela tem de pior, argumenta Karen.

E o que ela tem de pior? O fundamentalismo, segundo a autora, por ser uma forma de fé que com frequência "deturpa a tradição que está tentando defender". A religião, defende Karen, é uma "disciplina prática" que depende de exercícios espirituais e uma vida de dedicação. A racionalidade científica pode até explicar o câncer de Hitchens, mas não pode aplacar seu pavor, observa. Hitchens, que já enfrentou outras tragédias - a mãe se matou num pacto com o amante - teve de engolir o próprio discurso contra o Estado de Israel ao descobrir que a avó materna trocara o prenome judeu Levin por Lynn e que seus ancestrais poloneses tinham como sobrenome Blumenthal.

O jornalista e escritor não nutre simpatia pela ideia sionista, mas dedica um capítulo inteiro de suas memórias a esse conflito pessoal por ter sido criado como católico inglês e forçado pela avó a retomar suas raízes. Diz que não mudaria para Israel, mas se qualifica "como um membro da tribo", embora tenha brigado com Saul Below num jantar ao defender seu amigo Edward Said, justamente no dia em que o palestino foi manchete da revista Commentary, que o classificou de "professor de terror". Hitchens não conseguiu se livrar totalmente do seu trotskismo.

Intolerância

Outra revelação de Hitch 22 que explica a aversão religiosa do autor, casado por duas vezes e com três filhos, é sua homossexualidade, camuflada durante anos. No colégio, em Cambridge, se apaixonou por um garoto loiro de pernas arqueadas, sorriso malicioso e "ligeiramente de direita", o que ele logo resolveu perdoar. Pegos em flagrante, quase foram expulsos da escola, mas os professores convenceram a direção que Hitchens teria boas chances em Oxford, evitando assim o vexame público - e uma ação judicial, porque a homossexualidade era, então, considerada crime na Inglaterra. Hitchens talvez tenha evitado antes o assunto para não dar munição a seus inimigos - e eles são muitos, porque o jornalista defendeu a guerra contra o Iraque, inventou o termo islamofascismo e arrasou com a reputação de madre Teresa de Calcutá, acusando-a de bajuladora de fascistas e de estar a serviço dos poderosos.

Hitchens é intolerante com religiosos e comunga com Sam Harris a ideia de que a própria defesa da tolerância religiosa está nos levando para o abismo. Nessa radicalidade, segundo Karen Armstrong, ambos se assemelham aos fundamentalistas religiosos - "embora devessem ter em mente que foi por não respeitar diferenças que uns e outros cometeram as piores atrocidades na era moderna", citando os campos de concentração nazistas e o Gulag soviético. Como exemplo extremo, a autora repete uma velha história sobre judeus que perderam a fé em Auschwitz e resolvem colocar Deus em julgamento, condenando-o à morte por ser onipotente e permitir o horror nazista. O rabino que dá a sentença é o mesmo que depois conclama os prisioneiros a rezar.

Deus pode estar morto, como sugere a fúria dos ateístas, mas a ex-freira recomenda aos pós-modernos recuperar a vida espiritual que tinham nossos ancestrais, visitando 2 mil anos de teologia para provar que não são as doutrinas, mas a prática de rituais e a introspecção que vão trazer Deus de volta à vida - uma heresia escandalosa para os ex-irmãos de fé de madre Martha, nome religioso adotado pela autora de Jerusalém (tradução de Hildegard Feist, 576 págs., R$ 34) que está sendo relançado, em edição de bolso, pela Companhia das Letras. Nele, Karen comenta a suprema ironia dessa cidade de fé (para a qual convergem os três monoteísmos, cristão, judaico e muçulmano) ser palco de tanta discórdia.

Ancestrais

O que de mais interessante traz o livro Em Defesa de Deus - e vai incomodar os seguidores de Hitchens - é o elogio das religiões primitivas, caracterizadas por rituais, danças, sacrifícios e cantos. É também em defesa dos apóstatas que Karen recomenda o silêncio sobre algo ou alguém do qual ou de quem nada se sabe - e, nesse ponto, ela evoca, como Hitchens, a filosofia de Wittgenstein, autor da frase "Sobre o que não se pode falar deve-se manter silêncio". Para Karen, religião é como música. Não se pode explicar, mas se ouve com prazer e, de quebra, ela ainda opera milagres como acalmar bebês, fazer crescer as flores e curar algumas doenças.

A autora teve esse insight - para usar uma expressão do jesuíta canadense Bernard Lonergan (1904-1984 ) -, ao visitar as cavernas de Lascaux e verificar que religião e arte já surgem inseparáveis. A experiência da iniciação do homem ancestral prova, segundo ela, que não existe no pensamento arcaico o conceito do sobrenatural, ou seja, "nenhum abismo entre o humano e o divino". Não existia o ser supremo, mas apenas um ser.

"Nossos ancestrais normalmente imaginavam uma raça de seres especiais que chamavam de deuses", escreve Karen. Ao se cobrir com peles sagradas para personificar o mestre animal, o sacerdote assumia temporariamente o poder divino, lembra ela, ritual que não era produto de ideias religiosas - ao contrário. Pode parecer que a ex-freira entrou para o time de Hitchens, mas é só impressão. A exemplo de Diderot, ela crê em Deus, contudo vive muito bem com os ateus, como respondeu a Voltaire, que o criticou numa carta. Diderot foi aprisionado por escrever um texto ateísta, ele que cogitou ser jesuíta. Karen, pelo menos até agora, escapou da Inquisição.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ciência e fé

Artigo de Marcelo Gleiser publicado na Folha de S. Paulo de hoje:

Ciência, fé e as três origens

A compreensão científica dos vários fenômenos da natureza deveria fortalecer a nossa espiritualidade

UMA EXCELENTE ILUSTRAÇÃO da intersecção entre a ciência e a religião ocorre quando refletimos sobre o que chamo de "as três origens": a do Universo, a da vida e a da mente.

Por milênios, mitos de criação de todas as partes do mundo vêm tecendo explicações para esses três grandes mistérios. No meu livro "A dança do Universo" (Ed. Companhia das Letras, 2006), explorei alguns dos temas míticos que reaparecem na ciência, em particular na cosmologia, no estudo do Universo.

Precisamos conhecer nossas origens. E, desde os primórdios, olhamos para os céus em busca de respostas. Hoje, sabemos que somos aglomerados de poeira estelar dotados de consciência. Para desvendar nossa misteriosa origem, precisamos saber de onde vieram as estrelas, como a matéria não viva se transformou em matéria viva e como essa virou matéria pensante.

Mitos de criação atribuem as três origens a forças sobrenaturais, capazes de realizar feitos que nos parecem impossíveis. Grande parte do conflito entre a religião e a ciência se deve à tensão entre esses dois modos antagônicos de explicação.

Qualquer entidade que, por definição, existe além das leis naturais está além da esfera da ciência.

Será que as três origens podem ser explicadas pela ciência, sem a interferência de entidades sobrenaturais? Em caso afirmativo, religiões baseadas em entidades que existem além das leis naturais teriam que sofrer revisões profundas.

Isso não significa que, caso a ciência venha a entender as três origens, não teremos mais uma conexão espiritual com a natureza. Pelo contrário, a compreensão dos fenômenos naturais, dos mais simples aos mais profundos, deveria apenas fortalecer nossa espiritualidade. A racionalidade e a espiritualidade são aspectos complementares.

Religiosos ou não, poucos resistem ao fascínio da criação. As perguntas que fazemos hoje foram já feitas há milênios de anos na savana africana, nas pirâmides do Egito, nas colinas do monte Olimpo e na selva amazônica. O que mudou foi a natureza da explicação.

A cosmologia nos mostra que o Universo surgiu há 13,7 bilhões de anos. Podemos reconstruir sua história a partir de um segundo após a criação -um grande feito do intelecto humano. Mas ainda não podemos ir até a origem. Podemos afirmar que todos os seres vivos na Terra, presentes e extintos, dividem um ancestral em comum, um ser unicelular que viveu em torno de 3,5 bilhões de anos atrás. Mas não entendemos a origem da vida em si e nem sabemos se a questão pode ser respondida de forma definitiva: talvez existam várias origens da vida.

Entendemos menos ainda o cérebro, esse fantástico aglomerado de cerca de 100 bilhões de neurônios que define quem somos. Porém, através da ressonância magnética, detectamos as atividades de grupos de neurônios que trabalham como numa orquestra sem maestro.

Se podemos ou não entender as três origens através da ciência é matéria para futuros ensaios. Precisamos destrinchar as questões relacionadas com a natureza e com os limites do conhecimento.

São as questões não respondidas que servem de motivação para os cientistas. O destino final importa menos do que o que aprendemos no meio do caminho.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"

Religião põe Sidrolândia (MS) em pé de guerra

A inscrição AVE MARIA na bandeira da cidade provoca guerra de palavras e batalha judicial entre católicos e evangélicos, segundo noticia a Folha de S. Paulo do dia 15/02/11:

Bandeira de município causa discórdia em MS

RODRIGO VARGAS
DE CUIABÁ


A expressão "Ave Maria", presente na bandeira de Sidrolândia (a 70 km de Campo Grande) desde 1957, tornou-se recentemente alvo de uma polêmica entre católicos e evangélicos do município.

Para o pastor Adílson Machado de Souza, coordenador da IES (Igreja Evangélica de Sidrolândia), a presença da inscrição é "um desrespeito aos seguidores de outras religiões que não a católica".

Ele acionou a Defensoria Pública do município para exigir da prefeitura a retirada da frase e prometeu "ir até o Supremo, se for preciso".

"Não se trata de uma ação contra os católicos, e sim contra a prefeitura. O fato é que o Brasil é um Estado laico", disse o pastor, em entrevista à Folha.

Segundo Souza, o apoio à iniciativa está expresso em um abaixo-assinado, que já tem centenas de assinaturas de evangélicos.

"Recebemos também o apoio de vários ateus que vivem no município e que defendem a mudança", disse o religioso.

O fato de se tratar de uma inscrição antiga, para o pastor, "não é relevante". "Em eventos dentro da nossa igreja, hastear a bandeira do município é sempre um constrangimento. Aquela frase trata de uma devoção que não é a nossa."

"Quem se irrita com o nome de Maria é o diabo", reagiu, em nota, o Conselho Pastoral da Paróquia Nossa Senhora da Abadia.

O texto, no qual o pastor é chamado de "irmão em Cristo", defende que "proclamar o nome de Maria como na bandeira da cidade não se trata de idolatria."

A defensora pública que recebeu a manifestação dos evangélicos está em férias e não foi encontrada.


Meu comentário: De fato o laicismo (a separação entre Igreja e Estado) é uma conquista da Constituição de 1891 que deve ser preservada. Entretanto, bom senso é sempre um ótimo remédio para toda e qualquer situação que envolva desavenças. Os símbolos religiosos em espaços públicos fazem parte da fundação e da construção de uma nação, que se deram ao longo dos séculos e não podem ser ignorados. Se o laicismo for levado a ferro e fogo, teríamos que derrubar o Cristo Redentor do Corcovado, por exemplo. Se a bandeira de Sidrolândia foi instituída democraticamente em 1957, provavelmente só havia católicos na então nascente cidade, ou os que ali estavam ou chegaram depois não se importaram com isso.

Por outro lado, o pastor em questão deveria estar mais atento. "Ave Maria" não é só o título de uma reza católica, mas a tradução em latim do que o anjo lhe diz em Lucas 1:28 - "Salve agraciada, o Senhor é contigo". Não há nada errado, portanto, para um evangélico com a expressão "Ave Maria", já que ele não faz a reza que lhe corresponde na tradição católica. Como de costume o problema deixa, então, a seara teológica para se imiscuir na ideologia, na disputa de poder, na briga de torcidas na saída do estádio, já que muitas igrejas funcionam mais como torcidas organizadas do que exatamente comunidades sagradas, ajuntamentos de pessoas santas e separadas para Deus (ou que deveriam ser), solidárias e misericordiosas. Pelo jeito não é só a expressão "Ave Maria" que corre risco de extinção em Sidrolândia.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Um papa americano

Sátira do remix mais conhecido por "Panamericano", na performance de José Mota, no Especial Nochevieja 2010 da RTVE:


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Conheça o Japão em 7 minutos

Quer conhecer o Japão assim de passagem? Tem saudades daquele antigo programa da extinta TV Tupi, "Imagens do Japão"? Mergulhe, então, nas lindas imagens do vídeo abaixo, do filme Hayaku: A Time Lapse Journey Through Japan, captadas em time lapse (alta velocidade nem tão estática assim) com uma Canon 5DMKII, dirigido por Brad Kremer, e gravado em Tokyo, Matsuyama, Imabari, Nagano, Gifu e Ishizushisan. A trilha sonora é de Royksopp – Triumphant (veja também abaixo) e The Album Leaf – Window.

Dica do BLCKDMNDS.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Amigos ou inimigos?

Inimizade pode ser apenas uma questão de referencial no curta-metragem israelense "Strangers" (de Erez Tadmor e Guy Nattiv, 2003). Um judeu e um árabe se encontram casualmente num vagão qualquer de um metrô europeu e começam a se provocar silenciosamente mediante os símbolos que os identificam. A "guerra de sinais" vai bem até que chega um grupo de neonazistas e os intimida, e a ironia recíproca tem que enfrentar um inimigo real e muito mais ameaçador. O árabe e o judeu terão que decidir instantaneamente se são amigos ou inimigos, e por quanto tempo esse (des)acordo vigorará. Vale a pena ver, são 6 minutos imperdíveis:


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Hitler - a biografia por Ian Kershaw

“Hitler”, a monumental biografia escrita por Ian Kershaw (1.024 págs., Companhia das Letras, 2010), é um livro altamente recomendado para quem quer entender o século XX e – em especial – as profundezas da natureza humana. 

Confesso que o nazismo e Hitler são temas que despertam em mim um certo fascínio, menos pela morbidez propriamente dita que é atrelada a ambos e mais pelo interesse que tenho em - pelo menos - tentar entender a maldade humana em essência, e não há episódio histórico em que isto tenha acontecido com tamanha intensidade (e densas névoas) como no período em questão. 

 Entretanto, a sensação que fico é que a diferença entre o nazismo e os tristes episódios corriqueiros e individualizados de maldade cotidiana é apenas uma questão de escala. Sim... magnitude.

O ser humano é – felizmente - capaz de gestos de bondade e sacrifício extremos, mas – tristemente – também da pior crueldade elevada às mais macabras potências. 

Na Alemanha das primeiras décadas do século XX houve uma infeliz e colossal confluência de dramas e preconceitos individuais e coletivos que resultou numa bomba com imenso poder de destruição e prestes a explodir. 

Hitler teria sido, por assim dizer, o homem errado na hora errada e no lugar errado. Produto sórdido de uma conjunção letal de fatores e horrores.

Ian Kershaw deixa claro, logo de início, que julga impossível traçar um perfil psicológico detalhado e definitivo do líder nazista, ou dar razões claras para o amálgama perverso entre sua personalidade doentia e as aspirações nacionais do povo alemão. Neste diapasão, digamos, psicopatológico, a biografia escrita por Joachim Fest vai mais fundo.

Kershaw insiste que o que sobrou da personalidade de Hitler são pistas, nada mais do que isso. A não ser na remotíssima hipótese de algum pesquisador descobrir, no futuro, alguma revelação inédita e inusitada, o mundo não terá resposta conclusiva a respeito dessa reunião catastrófica de fatores pessoais e coletivos. 

Tudo indicava que Adolf Hitler passaria em medíocres nuvens por este mundo, com uma existência curta, insignificante e miserável. Nascido em Linz, na Áustria, com laços familiares frouxos e breves, talvez uma boa linha de investigação seja o seu desejo (tão humano, mas nele profundamente exacerbado) de pertencer a alguém ou a algum grupo em especial. 

A contradição é que não tinha, entretanto, traços afetivos que o ligassem a outros seres humanos. As únicas demonstrações de afeto testemunhadas por seus asseclas eram dirigidas aos seus cães da raça pastor alemão. 

Sua sexualidade também era objeto de curiosidade mórbida e os poucos que verbalizaram suas impressões, o chamavam de “esquisito”. Havia uma certa dose de misoginia na sua relação com as mulheres, já que ao mesmo tempo que nutria por elas um aparente desprezo, mostrava surpreendente interesse por mulheres de personalidade forte e – casadas! Sua relação com Eva Braun era também - no mínimo - estranha, já que Hitler era "casado" com a Alemanha. 

Eva foi sua amante por vários anos, mas foi cuidadosamente mantida longe dos holofotes públicos, de maneira que somente seu círculo íntimo sabia de sua existência até o último de seus dias, embora não ficasse claro que tipo de relação o casal tinha em privado. 

Entretanto, não havia sinais concretos de homossexualidade – ainda que reprimida - por parte do Führer, mesmo que tenha convivido e tolerado por muitos anos o comando homossexual assumido de Ernst Röhm e seus parceiros (de cama, inclusive) na SA (Sturmabteilung), o braço armado do partido nazista. Além disso, a homossexualidade não foi razão determinante na eliminação da liderança gay da SA na Noite das Longas Facas de 30 de junho de 1934, mas a disputa interna do poder no partido que havia recém assumido o governo alemão. 

Embora abominasse a homossexualidade de Röhm, enquanto este lhe foi útil Hitler fez vistas grossas e o tolerou. Os fins (a sobrevivência do partido e a manutenção da força e da coesão do grupo) justificavam os meios. 

Na série de entrevistas que concedeu posteriormente a Joachim Fest, compiladas em outro livro, Albert Speer disse que Hitler era tão ególatra que talvez seu perfil sexual mais adequado fosse o de um "masturbador compulsivo", ou "um onanista nato", [atualizamos] como traduz a edição brasileira de 2012 ("Conversas com Albert Speer", Ed. Nova Fronteira, pág. 35). 

A própria relação de Speer com Hitler foi vista como "estranha" por aqueles que compartilhavam do círculo íntimo do Führer, embora no que se refira ao supremo líder as palavras "amizade" e "intimidade" sejam impróprias. 

No livro de Joachim Fest se levanta a suspeita de que houvesse, sobretudo da parte de Hitler, um interesse platônico de cunho homoerótico por Speer, que era, afinal, o "galã" da alta cúpula nazista. 

Fest comenta a foto abaixo dizendo que, não fossem os personagens serem quem são (Speer e Hitler sentados pensativos e afastados num banco), qualquer pessoa diria que se tratava de uma evidente crise de um relacionamento romântico:


Speer e Hitler, uma relação delicada

Foi estranha, realmente, a atitude de Speer nos últimos dias do Terceiro Reich. 

No último aniversário de Hitler (20 de abril de 1945) ele esteve no bunker para parabenizar o Führer, quando os soviéticos estavam a poucos quilômetros dali. Desafiando todos os riscos, retornou dois dias depois para, segundo se justificaria mais tarde, não parecer covarde e e se despedir adequadamente do seu líder. 

Apesar do perigo a que se expôs e das poucas horas de conversa que o líder nazista lhe concedeu, o adeus foi frio e convencional. Havia algo, digamos, diferente no relacionamento entre os dois. 

Nada conclusivo ou levado às últimas consequências, entretanto. Hitler era, ao que tudo indica, incapaz de se relacionar ou de se sentir parte de um grupo ou um envolvimento amoroso de qualquer espécie, o que deixou sem solução este seu desejo mórbido de pertencer. 

Provavelmente, nenhuma imagem revele mais este sentimento (que representa - no fundo - o sonho do retorno a uma infância perdida e idealizada) do que a foto abaixo, em que observa a maquete da planejada reconstrução de sua cidade natal, Linz, feita às pressas pelo arquiteto Hermann Giesler em fevereiro de 1945, quando dois milhões e meio de soldados soviéticos já batiam às portas de Berlim. 


Hitler admira uma maquete enquanto a Berlim real desmorona

O arquiteto favorito Albert Speer tentava, então, garantir alguma sobrevida à indústria de armamentos, bem como (na surdina) convencer os oficiais e gauleiters (líderes provinciais) nazistas a não cumprirem a ordem que Hitler lhes dera para destruir toda a infraestrutura alemã, na sua "estratégia" final de terra arrasada, o famigerado "Decreto Nero" (Befehl betreffend Zerstörungsmaßnahmen im Reichsgebiet"). 

Enquanto pôde, Hitler passava horas admirando a maquete de sua cidade natal, não se importando para os milhares de soldados, jovens e idosos mal treinados, que defendiam as ruas destroçadas da capital alemã. 

Não se tratava só de escapismo, algo em que o Führer era viciado, por assim dizer, mas também um saudosismo extemporâneo que o fazia viver pateticamente a versão real (e covarde) do “rosebud” de Charles Foster Kane, o “Cidadão Kane”, filme de Orson Welles (1941).


No começo de sua história, nada indicava que Hitler teria o poder que alcançou. Era austríaco de nascimento, pobre e um candidato medíocre a artista (arquitetura e pintura eram suas paixões mal resolvidas). Lutou na Primeira Guerra Mundial pelo exército alemão, desempenhando funções de mensageiro nas trincheiras da França, tendo sido promovido a cabo no final do embate. 

Aliás, aí já poderia ter sido barrado seu progresso político, pois legalmente não podia ter se integrado às tropas alemãs por ser cidadão austríaco. Uma série de manipulações legais e omissões das autoridades (ir)responsáveis pavimentou o seu caminho político na Alemanha. 

Por outro lado, se tivesse sido aceito na escola de Belas Artes de Viena, o mundo teria sido poupado de suas atrocidades. Ainda antes da Primeira Guerra, viveu numa espécie de pensionato masculino de Viena, sustentando-se com suas pinturas sofríveis, que eram inclusive comercializadas por mercadores de arte judeus. 

Até então, não havia nenhum traço de antissemitismo no seu discurso, que ele exercitava nas reuniões comunais do Lar dos Homens de Viena. 

Tudo indica que tenha sido este relacionamento comercial com judeus que o fez querer se informar mais sobre eles, tendo caído em suas mãos farto material antissemita, mas este é um tema que ele só abordaria de forma sistemática e doutrinária (transformando-o em dogma) em Munique após a Primeira Guerra - Kershaw cita à p. 125 a referência explícita aos judeus em um único discurso de 1920 -, na formação do partido nazista e nas reuniões de cervejaria, numa das quais tentaria o golpe (“putsch”) de 9 de novembro de 1923. 

O fracasso do putsch e a prisão decorrente em Landsberg terminariam, por assim dizer, de “formatar” o seu pensamento radical. Nos seis meses em que ficou preso em Landsberg, dedicou-se à leitura de Darwin e Nietzche, e ali desenvolveu a sua versão tresloucada de “darwinismo social” que o acompanharia até o último dia no bunker, como bem mostra o filme “A Queda”, em que diz que se o povo alemão não fosse capaz de vencer a guerra, deveria ser extinto segundo a sua mórbida teoria de “seleção natural”. 

Ali em Landsberg, de certa forma, transformou-se na encarnação do Übermensch ("Super-Homem") de Nietzche, que faz o que quer sem compaixão e toma o máximo poder sem considerações ou limitações "menores" de cunho humanístico ou religioso.

Dali por diante, houve uma sucessão de infortúnios para a República de Weimar, a quem Hitler culpava pela rendição e decadência alemã pós-guerra. 

Fiel à sua política de tudo ou nada (que manteve até o final), bateu de frente com todos os demais partidos políticos alemães, que, por sua vez, perderam todas as muitas oportunidades que tiveram de barrar a radicalização nazista que chegou ao poder em 30 de janeiro de 1933, diga-se a seu favor (e por incrível que pareça), de forma legítima e democrática (dentro do que era possível ser "democrata" naqueles tempos). 

Hitler atribuía essa trajetória àquilo que ele chamava de “Providência”, embora não houvesse neste termo nenhuma referência religiosa de qualquer espécie, pois abominava tanto católicos como protestantes na Alemanha, vítimas constantes de suas catilinárias petit comité, mas não media esforços para manipulá-los, e estes se submetiam de bom grado, com raras (e facilmente extermináveis) exceções. 

O “deus” de Hitler era ele mesmo, e por “Providência” ele entendia a própria vontade, à qual misticamente reservava um “triunfo” final. 

Não por acaso, “O Triunfo da Vontade”, filme de Leni Riefenstahl (1935), filme autolaudatório nazista, reflete este tema recorrente dos discursos de Hitler, em que ele apelava para uma espécie de “destino manifesto” reservado para o Führer à frente da raça ariana, na forma daquilo que seria posteriormente conhecido por “pensamento positivo”, ou seja, bastava ele querer e pensar, que seus objetivos seriam magicamente alcançados, por mais maléficos ou impossíveis que parecessem a princípio. 

Lamentavelmente, qualquer semelhança com o discurso triunfalista atual, especialmente de cunho religioso, não é mera coincidência. 

Retórica, portanto, era a grande força de Hitler. Seus dotes teatrais não reconhecidos em Viena vinham agora à tona da pior forma possível. Alicerçou no antissemitismo o inimigo que despertou os instintos mais primitivos no povo alemão, encontrando enorme ressonância interna e externa, já que somente ele tinha coragem de dizer e transformar em política de Estado aquilo que boa parte da elite mundial pensava, mas temia admitir. 

Graças à astúcia e ao talento maligno de Goebbels (foto abaixo), por outro lado, soube - como ninguém antes dele – explorar os requintes sub-reptícios da propaganda. Goebbels se revelaria - também - um "profeta pela metade", já que em 1943 diria: "Ficaremos na história como os maiores estadistas de todos os tempos ou como seus maiores criminosos". A última opção venceu.
Goebbels, o "profeta" do mal


O que a biografia de Kershaw deixa claro é que havia, de fato, uma misteriosa “Providência” agindo na vida de Hitler e nos destinos do povo alemão. Não foi só a omissão e a estultícia dos políticos adversários que permitiram a ascensão de Hitler ao poder, numa autofagia imperceptivelmente programada da República de Weimar. 

As instituições alemãs foram se submetendo pouco a pouco aos delírios do Führer, sem que para isso ele precisasse fazer muita força. Basta dizer que o reles cabo do fim da Primeira Guerra Mundial (1918) viu cair no seu colo vinte anos depois, por incompetência e escândalos pessoais dos seus generais, o comando da Wehrmacht, o Exército alemão. 

Nas demais áreas, paradoxalmente, o seu estilo desastroso de liderança contribuiu em muito (instintiva e inadvertidamente) para que seu poder fosse reforçado. 

Hitler era um administrador medíocre, e por isso se cercava de várias esferas de poder que se sobrepunham e confundiam, mas estavam todas debaixo do guarda-chuvas de sua vontade suprema. 

Gente desocupada e desqualificada se agarrava ao partido para alcançar cargos aos quais jamais chegariam pelas vias regulares em tempos "normais". Seus "talentos" pessoais e laborais se circunscreviam à maldade e à perversão. 

Os muitos chefetes competiam não só pelo poder como pelos favores do Führer, e isto fazia com que todos tratassem de agradá-lo o máximo possível, desempenhando com afinco aquilo que ficou conhecido como “o trabalho de Hitler”. 

O líder nazista não precisava sujar as mãos na execução de suas ideias macabras, sobretudo quanto ao holocausto e à posterior "solução final" para os judeus. Havia uma legião de fanáticos aproveitadores sempre dispostos a auxiliá-lo e a se anteciparem às próprias vontades do líder-ídolo. 

Este, por sua vez, traçava as linhas gerais nos seus discursos de ódio, e sua corja de admiradores obsessivo-compulsivos tratava de levá-las a cabo (leia-se: "às últimas consequências"), interpretando nas entrelinhas o que correspondia à “vontade de Hitler”, o que provocou uma metástase em toda a sociedade alemã, já que indivíduos inexpressivos se sentiam autorizados a implementar medidas bizarras que entendiam como “sintonizadas” com os desejos mórbidos de seu líder supremo. 

Os objetivos do Estado alemão eram os objetivos de Hitler, o totalitarismo personificado que determinava a seu bel prazer os destinos de corações e mentes do país. 

É claro que houve uma tímida oposição à barbárie instalada no país, mas os adversários eram sumariamente eliminados ou presos. O fanatismo era a regra que contaminou praticamente toda a população alemã. 

A “Providência” se revelou ainda nas muitas oportunidades que houve para assassinar Hitler, única alternativa que restava aos poucos militantes contrários. Em todas as tentativas (a maioria não chegou a ser descoberta), sempre houve algum empecilho ou imprevisto de última hora que impossibilitou a consumação do atentado. 

O último deles, a famosa Operação Valquíria, conseguiu explodir uma bomba na Toca do Lobo em 20 de julho de 1944, mas Hitler escapou com apenas alguns arranhões, o que serviu para reforçar nele este apreço desmedido à tal “Providência” (leia-se: a sua própria vontade) que o protegia e o destinava a um triunfo final glorioso. 

Ele se sentia o "iluminado" e as circunstâncias externas apenas confirmavam (e reforçavam) sua autoimagem macabra. Por isso, não havia o que tergiversar: para o Führer era tudo ou nada, preto ou branco, mesmo que milhões de alemães (e dezenas de milhões de outros povos) morressem inutilmente durante este percurso trágico. O destino de todos, ainda que imaginário e individualmente pensado, já estava traçado na cabeça de Hitler. 

Talvez outro tipo de "Providência" tenha se revelado, entretanto, quando o Führer abortou o programa nuclear antes do começo da guerra, e tenha interferido tanto nos projetos do avião a jato e das bombas voadoras (V1 e V2) que eles sofreram um brutal atraso que só os tornou viáveis no fim do conflito e - pior para os alemães - quando não havia nem combustível suficiente para fazê-los voar. Tarde demais para o Terceiro Reich.

Propaganda russa contra Hitler


O seu triunfo final, felizmente para a humanidade, não chegou. Todas as vitórias eram saboreadas e “faturadas” por Hitler como comprovação de sua fiel “Providência”, até chegar a Stalingrado, quando sofreu a primeira (e talvez maior) derrota em fevereiro de 1943. 

Daí por diante, as forças soviéticas empurraram rapidamente os exércitos alemães de volta a Berlim, num dominó fatídico de generais que foram perdendo suas cabeças e seus cargos, e a quem Hitler imputava a culpa pelos erros estratégicos que eram só dele, o ex-cabo promovido (por si mesmo) a chefe do Estado Maior das Forças Armadas. 

Seus quartéis generais foram se deslocando de Wehrwolf (em Vinnytsia, na Ucrânia), para a Toca do Lobo (Wolfsschanze) em Rastenburg, na Prússia Oriental (atual Kętrzyn, na Polônia), terminando por se enfurnar nos subterrâneos da outrora esplendorosa Chancelaria de Berlim, com sua ostentação de granitos e mármores que para nada mais serviam senão testemunhar gelidamente o fim de seu criador. 

Até seu último momento no bunker, esperou por uma virada do destino que não veio. A “Providência” finalmente lhe mostrou a cara, e lhe negou o beijo de despedida, porque simplesmente ela só existia nos seus delírios e em sua megalomania, provocados em larga escala (também) pelos muitos remédios que tomava, inclusive um misterioso colírio à base de cocaína. 

Justo ele que era vegetariano e prezava (e pregava) tanto os hábitos saudáveis, revelou ser também um hipocondríaco contumaz. 

Seu ocaso no bunker de Berlim revela a miséria humana de que era emocionalmente constituído, e também o cercava com seus asseclas procurando, como baratas tontas, uma via de escape. 

Os últimos dias de Hitler foram o de um rato preso na própria ratoeira, sem esperança de salvação. 

Atitudes patéticas foram tomadas, como movimentar exércitos imaginários em mapas defasados, condenar à morte traidores de última hora e assinar decretos inúteis que não seriam lidos nem cumpridos por ninguém. 

A última foto registrada de Hitler fora do bunker mostra o seu desalento final:


O fim

É muito fácil e cômodo chamar Hitler de “psicopata” ou “monstro”, mas lamento dizer que todas as evidências apontam no sentido de que ele era tão humano como qualquer um de nós. Demasiado humano, talvez.

Tende a se tornar perene a questão sobre como se deu essa mescla tenebrosa de vontades de um líder carismático com o seu povo. 

É este o enigma aparentemente insolúvel: como foi que milhões de pessoas "normais" se deixaram enredar e engolir pela máquina de destruição nazista, o maior turbilhão de maldade que a humanidade experimentou. 

O discurso incendiário de um único homem não seria capaz de fornecer ignição suficiente para tamanha fogueira. 

Afinal, a Alemanha já era à época um país sofisticado, de altos níveis de educação e cultura, ainda que humilhado pela derrota na Primeira Guerra e os graves problemas econômicos e sociais (sobretudo a hiperinflação) daí advindos. 

A busca do bode expiatório nos judeus e comunistas, estranhamente associados por Hitler, teve ampla aceitação popular que pode não ter sucumbido com a acachapante derrota final. 

Nesse aspecto é sintomática a declaração de Hanna Reitsch (foto abaixo), heroína aviadora reconhecida no mundo todo e que só veio a falecer em 1979. 

Quatro dias antes do suicídio de Hitler, após um voo e aterrissagem altamente perigosos e improváveis junto ao Portão de Brandenburgo, ela esteve no Führerbunker juntamente com Robert Ritter von Greim (que assumiria o lugar de Hermann Göring na Luftwaffe naquele mesmo dia), e muito a contragosto deixou o bunker a mando de Hitler dois dias depois, já que lhe devotava verdadeira adoração. 

Em 1970, ela se justificaria numa entrevista ao jornalista americano Ron Laytner de maneira contundente: "E o que nós temos agora na Alemanha? Uma terra de banqueiros e fabricantes de carros. Até o nosso grande exército se tornou suave. Soldados usam barbas e questionam ordens. Eu não estou envergonhada em dizer que eu acreditava no Nacional-Socialismo. Eu ainda visto a Cruz de Ferro com diamantes que Hitler me deu. Mas hoje em toda a Alemanha você não consegue encontrar uma simples pessoa que votou e levou Adolf Hitler ao poder... muitos alemães se sentem culpados pela guerra. Mas eles não explicitam a real culpa que nós compartilhamos - a de que nós perdemos..."


Hanna Reitsch cumprimenta Hitler


A meu ver, o conjunto da biografia de Ian Kershaw corresponde àquilo que outra Hannah - Hannah Arendt (1906-1975) -, a grande filósofa judia de origem alemã, com o seu refinado senso de humor (que beira o sarcasmo), consegue chegar ao âmago da questão da colaboração massiva da população alemã com os nazistas, no seu livro escrito em 1963, "Eichmann em Jerusalém - um relato sobre a banalidade do mal" (Companhia das Letras, 1999). 

Primeiramente, na constatação que Adolf Eichmann faz (contrariado) sobre Hitler na entrevista que havia concedido secretamente (em 1955) na Argentina, ao - colaborador nazista e também fugitivo - jornalista holandês Willem S. Sassen (pp. 142-143): "Muito típica disso foi sua última palavra sobre o assunto Hitler - a quem ele e seu camarada Sassen haviam combinado 'deixar de fora' em sua entrevista; Hitler, disse ele, 'pode ter estado errado do começo ao fim, mas uma coisa está acima de qualquer dúvida: esse homem conseguiu abrir seu caminho de cabo lanceiro do Exército alemão até Führer de um povo de quase 80 milhões [...] Bastava o seu sucesso para me provar que eu devia me subordinar a esse homem'. Sua consciência ficou efetivamente tranquila quando ele viu o zelo e o empenho com que a 'boa sociedade' de todas as partes reagia ao que ele fazia. Ele não precisava 'cerrar os ouvidos para a voz da consciência', como diz o preceito, não porque ele não tivesse nenhuma consciência, mas porque sua consciência falava com 'voz respeitável', com a voz da sociedade respeitável a sua volta". 

O relato de Hannah Arendt sobre Eichmann tem o surpreendente condão de revelar (e resumir) toda uma sociedade mediante a análise de um único indivíduo, como se percebe claramente às págs. 64-65 do seu livro referido acima:


Hannah Arendt
No entanto, o caso de Eichmann é diferente do criminoso comum, que só pode se proteger com eficácia da realidade do mundo não criminoso dentro dos estreitos limites de sua gangue. Bastava a Eichmann relembrar o seu passado para se sentir seguro de não estar mentindo e de não estar se enganando, pois ele e o mundo em que viveu marcharam um dia em perfeita harmonia. E a sociedade alemã de 80 milhões de pessoas se protegeu contra a realidade e os fatos exatamente da mesma maneira, com os mesmos auto-engano, mentira e estupidez que agora se viam impregnados na mentalidade de Eichmann. Essas mentiras mudavam de ano para ano, e frequentemente se contradiziam; além disso, não eram necessariamente as mesmas para todos os diversos níveis da hierarquia do Partido e para as pessoas em geral. Mas a prática do auto-engano tinha se tornado tão comum, quase um pré-requisito moral para a sobrevivência, que mesmo agora, dezoito anos depois do colapso do regime nazista, quando a maior parte do conteúdo específico de suas mentiras já foi esquecido, ainda é difícil às vezes não acreditar que a hipocrisia passou a ser parte integrante do caráter nacional alemão. Durante a guerra, a mentira que mais funcionou com a totalidade do povo alemão foi o slogan "a batalha pelo destino do povo alemão" [der Schicksalskampf des deutschen Volkes], cunhado por Hitler ou por Goebbels, e que tornou mais fácil o auto-engano sob três aspectos: sugeria, em primeiro lugar, que a guerra não era guerra; em segundo, que fora iniciada pelo destino e não pela Alemanha; e, em terceiro, que era questão de vida ou morte para os alemães, que tinham que aniquilar seus inimigos ou ser aniquilados.




A conclusão de Hannah Arendt é para mim, portanto, brilhante. Hitler e Goebbels conseguiram convencer os nazistas e - pior - o povo alemão de que ninguém era culpado por nada, mas a tal "Providência" os havia colocado naquela situação sem volta, o beco sem saída do destino triunfal ariano e antissemita, que o Führer chamava de busca do "espaço vital" (Lebensraum) pangermânico. 

Era este o Éden que prometia aos alemães: a colonização de toda a Europa, sem compaixão, escrúpulos ou culpa, e com todos os benefícios espúrios (e despojos) advindos da eliminação "pura" e simples de todas as populações concorrentes. Era esta a visão hitlerista do darwinismo. 

Por isso fica difícil "romantizar" a questão da participação coletiva dos alemães nessa empreitada fatídica, como se tivessem sido todos enganados por um único estelionatário carismático. 

Tanto os jovens soldados que morreram nos campos de batalha, como o povo que padecia e sucumbia aos constantes bombardeios aliados na segunda metade da guerra, realmente acreditavam nas ideias fascistas de seu Führer, e mesmo nos estertores do regime, ainda esperavam que a "sorte" (ou "Providência") que tanto auxiliara Hitler na sua ascensão ao poder e no início do conflito, reapareceria como que num passe de mágica, dando-lhes tempo para reagrupar as forças e eles continuariam lutando pelos mesmos objetivos racistas e totalitários que por pouco não os havia dizimado. 

Se havia descontentamento contra Hitler no final da guerra, era muito mais pelo custo humano que ela causava e pela evidente (e vergonhosa, para o espírito belicista alemão) impossibilidade de vitória, do que propriamente por discordância das ideias nefastas do Führer. 

Na metáfora que consigo captar de toda essa tragédia, a imagem funciona como se Hitler fosse o maquinista de um trem macabro que fez algumas paradas no início do trajeto, recolheu toda a população alemã e empreendeu alta velocidade com destino a Lebensraum

Conforme o comboio avançava (e perdia os freios), milhões de judeus e de outros excluídos foram sendo descartados nos precipícios que margeavam a ferrovia, enquanto outros tantos milhões de jovens soldados alemães, soviéticos e de outras nacionalidades eram impiedosamente atropelados pela enorme locomotiva nazista, a que Hitler batizara pelo eufemismo de "Providência". 

Já que estavam todos embarcados mesmo, não havia o que fazer, senão esperar o desfecho. Só que o maquinista - covardemente - se suicidou ao saltar da locomotiva no último momento, e por sorte - ou por outro tipo benfazejo de "Providência" - a composição conseguiu parar antes da aniquilação completa e ainda sobrou uma enorme população para reconstruir a Alemanha. 

Sintomático, contudo, que a população da Alemanha reunificada seja hoje praticamente a mesma que os 80 milhões à época do nazismo, como Hannah Arendt bem cita no texto acima.



Talvez a única contribuição do horror nazista à humanidade seja o fato de que tenhamos nos convencido de que o ser humano é capaz de perpetrar as mais inimagináveis atrocidades e as gerações posteriores de líderes mundiais tenham se tornado cientes de que uma nova guerra mundial também seria a última, e por isso evitassem a todo custo acender o derradeiro estopim. 

O mundo não se tornou mais seguro, entretanto, pois vivemos até hoje as consequências nefastas do conflito encerrado em 1945. 

Basta citar um exemplo: a fundação do Estado de Israel, que representou - de certo modo - o cumprimento da “profecia” de Hitler de que os judeus seriam “varridos da Europa”, continua influenciando os destinos do planeta. 

A recente crise no Egito reflete a insegurança causada pelos conflitos na Palestina e remete à besta religiosa que está sempre pronta a despertar. 

Por outro lado (e paradoxalmente), se o fator Hitler não tivesse existido as tensões então latentes poderiam ter se esgarçado bem mais tarde e de forma muito mais letal, dando destino terminal ao planeta. 

As máquinas e armas utilizadas na Segunda Guerra rapidamente se transformaram em peças de museu. Houvesse o conflito estourado uma década mais tarde, talvez não estivéssemos mais aqui contando a história. 

Enfim, o mundo continua tão perigoso e contraditório quanto era no nem tão longínquo ano de 1939. O caldeirão de ódio, fanatismo, preconceito e intolerância continua cozinhando em fogo brando, mas sempre pronto para estourar ao menor descuido. 

A diferença, para nossa acalentada esperança, é que hoje talvez haja muito mais gente atenta para identificar seus sinais e disposta a combatê-los. 

O nazismo não pode ser apenas uma pálida lembrança que a humanidade quer varrer para debaixo do tapete. 

Melhor seria, sem dúvida, nem ter que se preocupar com isso, mas a biografia de Ian Kershaw deve ser lida e recomendada como um alerta de que a História costuma não perder a chance de se repetir.




Leia também:

Hitler: biografias comparadas

Hitler - a biografia por Alan Bullock

Hitler - a biografia por Joachim Fest

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