sábado, 31 de março de 2012

Real Madrid tira cruz do escudo

Quando há muito dinheiro na jogada, não há tradição ou paixão clubística que resista, muito menos os pudores religiosos. Nem o sacrossanto escudo do Real Madrid, um dos maiores clubes da Espanha (ao lado do Barcelona) e do mundo, consegue suportar o peso de 1 bilhão de dólares, valor estimado para o projeto da ilha paradisíaca que será construída nos Emirados Árabes Unidos. 

Os sete emirados que compõem o país se preparam para mais um empreendimento imobiliário gigantesco, como foi a construção do Burj Al Arab (برج العرب), um dos mais belos hotéis do mundo e do Burj Khalifa Bin Zayid (برج خليفة), aquele que é atualmente o prédio mais alto do mundo com seus 828 metros de altura, se bem que a ideia do Real Madrid se parece mais com a das ilhas artificiais construídas com o formato de palmeira, chamadas de Palm Islands (جزر النخيل). 

As ilhas artificias que o clube madrilenho planeja construir terão o formato do seu escudo, mas com uma sutil - e altamente significativa - diferença. Ele não terá a cruz que adorna o topo da coroa que encabeça o escudo e justifica o seu adjetivo "Real". O complexo desportivo e turístico que receberá o nome de Real Madrid Resort Island está programado para começar a funcionar em janeiro de 2015 no emirado de Ras Al Khaimah, ao contrário dos três grandes empreendimentos anteriores, que estão localizados no vizinho emirado de Dubai. 

O presidente do clube, Florentino Pérez, imagina que - desta maneira - conseguirá aproximar o Real Madrid daquilo que ele estima em cerca de 150 milhões de torcedores asiáticos. Como se trata de um país essencialmente muçulmano no coração de uma região islâmica, do lado do Irã, Pérez imaginou que não ficaria bem fincar uma cruz nas águas do Golfo Pérsico, ainda mais num momento tão conturbado entre as religiões como o que o mundo passa ultimamente. 

O símbolo cristão está presente na coroa do escudo desde 1920, quando o clube obteve uma concessão especial do então rei espanhol Alfonso XIII para utilizar permanentemente o símbolo monárquico, e a cruz honra a tradição ancestral católica dos reis de Espanha, entre eles aqueles - Fernando de Aragão e Isabel de Castela - que expulsaram os mouros da Espanha no longo processo de Reconquista que terminou em 1492, com o fim da Guerra de Granada. Não é uma boa recordação para os muçulmanos, portanto.

Agora, o que um ser humano não é capaz de fazer por 1 bilhão de dólares? A notícia foi publicada ontem, 30/03/12, pelo jornal Marca da Espanha, mas a versão inglesa do Yahoo sugere que a próxima alteração no escudo do Real Madrid seja a supressão das letras MCF (Madrid Club de Fútbol) do centro do escudo e sua substituição por uma figura do presidente Florentino Pérez segurando turistas de cabeça pra baixo enquanto dinheiro cai dos seus bolsos. O perigo é esta história chegar aos ouvidos de alguns líderes religiosos brasileiros. Vai que eles se inspiram?

o Burj Al Arab

o Burj Khalifa Bin Zayid

Palm Island
o projeto da ilha artificial do Real Madrid




Deputados de cabresto

O beija-mão de deputados federais recebidos por Valdemiro Santiago e divulgado pelo Genizah (vídeo abaixo) é um daqueles episódios grotescos que mostram o quanto a pregação de certos líderes religiosos é muito mais ideológica do que teológica. Diga-se de passagem, pra começo de conversa, que não são todos deputados evangélicos, já que há um maranhense que se apresenta como “católico” no meio, embora o seu padre ou bispo não deva saber disso, se é que ele frequenta alguma paróquia que não a do Sarney.

Por sinal o apoio do deputado Waldir Maranhão não é lá muito firme, já que ele corre o risco de ter o mandato cassado por irregularidades na sua campanha, o famoso “caixa 2”. É que ele gosta tanto, mas tanto de servir ao povo que prestou contas dizendo que vendeu um imóvel de 600 mil reais para financiar a sua eleição, e “torrou” toda a grana na campanha, quando a lei o autorizava a gastar apenas 10% do valor. Deve ser por isso que ele chamou Valdemiro de “homem alegre e festivo”, já que 10% é um número mágico para os ouvidos do “apóstolo”, se bem que ultimamente ele está mais chegado no “trízimo” (30%).

De qualquer maneira, o vídeo é uma aula sobre como funciona a política (e a manipulação) religiosa no Brasil.

- Primeiro, por mostrar que os latifundiários da fé veem seu rebanho como um verdadeiro “curral eleitoral”, que ainda que não respeite tanto seus líderes nas eleições majoritárias (para o poder executivo), não titubeia ao segui-los fielmente quando se trata de eleições proporcionais (para o legislativo). E aí não importa a sigla partidária, desde que os desejos do líder sejam satisfeitos.

- Segundo, por deixar claro que deputados não se elegem de acordo com convicções doutrinárias ou os objetivos dos crentes que votam neles, mas para servir um guia religioso a quem juram lealdade. São os famosos “deputados de cabresto”. Serão fiéis pelo menos até o momento em que os seus interesses pessoais são contrariados (ou se convertam ao Deus verdadeiro).

- Terceiro, por escancarar que essa rede de apoios navega ao sabor das marés políticas e dos conchavos de ocasião. Valdemiro não reuniu os deputados pelo “amor ao evangelho”, mas para oferecer a eles a possibilidade de amealharem os votos potenciais do seu curral eleitoral, bem como mostrar às autoridades constituídas que ele “tem bala na agulha” e pode – eventualmente – confrontar a bancada do arqui-inimigo (e “irmão”) Edir Macedo e barganhar qualquer coisa na bacia das almas da chantagem eleitoreira.

- Quarto, pelo silêncio gritante das ausências. São só esses os congressistas que apoiam Valdemiro contra Edir? Um dos deputados traz “de boca” o apoio do senador Magno Malta, que não compareceu ao conchavo encontro, mas mandou dizer que apoia Valdemiro. Um apoio assim, digamos, meio envergonhado e medroso, já que ele não quer se indispor com os outros "irmãos" Edir Macedo e Silas Malafaia, este último de quem é mais próximo.

- Quinto, por revelar que os deputados estão ali para atender interesses particulares, os seus e os de Valdemiro, e não os anseios maiores do povo que dizem representar.

Por fim, é claro que os evangélicos, a exemplo de outros segmentos da população brasileira, merecem e devem ser representados em todas as instâncias políticas, uma situação salutar para este sistema imperfeito que é a democracia (mas até hoje não inventaram nada melhor). Não podem, contudo, querer transformar o país numa teocracia do tipo iraniano.

Deviam, inicialmente, ter respeito pelo nome “evangélico” e pela magnitude do seu significado, não o misturando com os golpes mais baixos da política. Além disso, mesmo sendo evangélicos, não poderiam esquecer jamais que são servidores públicos, e - como o próprio nome diz e nunca é demais relembrar - é ao interesse público que devem servir, da mesma maneira que todos os demais representantes de outros partidos e comunidades.

Entretanto, parece que está distante o dia em que eles perceberão isso. Na verdade, até já perceberam, mas não praticam, principalmente porque a religião – quando mal usada – é um excelente refúgio para os mais baixos instintos.

Enquanto este dia não chega, só resta aos verdadeiros evangélicos orarem e votarem melhor.





Tinha um ganso no meio do caminho

Não tente dar uma voadora no bicho, pega mal pra caramba...




sexta-feira, 30 de março de 2012

Invente novos usos para o seu iPad

Pra quê ficar se limitando aos modismos e ao que é convencional? Seja corajoso, inovador, e invente novos usos para o seu iPad, principalmente se você for, digamos, mais "experiente" na vida. No diálogo em alemão do vídeo abaixo, a filha pergunta se o pai está gostando do iPad que ela lhe deu de presente e aproveita para perguntar se ele aprendeu a usá-lo. O pai diz que diz que está tudo ok com o aparelho. Confira se isso é mesmo verdade:





Escravo fugido

O Brasil já foi assim... ou será que ainda é?


Anúncio de escravo fugido no Rio de Janeiro em 1854


Fonte: Arquivo da FBN (Fundação Biblioteca Nacional), publicado no Café História por Beatriz Salinas



Comer pipoca faz bem!



Inverno chegando, edredom já a postos e chega também a melhor notícia da estação: pipoca tá liberada, galera! Menos aquela de cinema, com muito sal e manteiga, é claro. A notícia é da MSNBC Health e foi traduzida por Bernardo Staut para o HypeScience e aguardamos ansiosos a liberação de toneladas de chocolate quente pra aguentar aquele friozinho gostoso:

Pipoca é mais saudável do que frutas e vegetais

Os polifenóis já foram ligados a redução de doenças cardíacas e certos tipos de câncer. E, por se tratar de um alimento integral, a pipoca também é uma boa fonte de fibras. E isso é um marco para um lanche tão mal visto!

A pipoca pode não substituir uma refeição inteira, mas ainda assim é uma boa escolha na hora de comer uma “besteira”. O que você tem que fazer é evitar as opções ricas em manteiga, óleo e sal, que diminuem seus benefícios.

Você só come pipoca quando vai ao cinema? Essa é o pior tipo possível. Estudos revelam que as “variedades cinematográficas” possuem muito mais calorias, sal e gordura saturada, quase o mesmo que comer um lanhe em cadeias de fast food.

As pipocas de microondas são convenientes, mas possuem seus pontos negativos, mesmo quando a escolha são as light ou de pouca gordura. E estudos mostram que muitos componentes químicos usados nesses produtos são prejudiciais à saúde.

A melhor opção mesmo – e saborosa também – seria a tradicional pipoca de panela, com um pouco de azeite de oliva. Ficou com vontade? Experimente colocar também pimenta do reino e queijo ralado. Huum!



quinta-feira, 29 de março de 2012

Metodistas promovem encontro afro-cristão



Uma iniciativa da Igreja Metodista, rara no meio evangélico, que foge aos chavões das "unções", "estratégias", "renovações" e "prosperidade", e que merece ser divulgada:

Do Novos Diálogos:

V Encontro Afrocristão | 13 a 15 de abril de 2012

Tema: Saúde: dom de Deus e direito das populações negras e indígenas brasileiras

A proposta de V ENCONTRO AFROCRISTÃO é ser um espaço e tempo de fortalecimento da autoestima étnico-racial das pessoas negras inseridas nas igrejas cristãs e de todas as pessoas interessadas em dialogar com esta temática e com o grupo negro evangélico. Tendo como referência a mensagem cristã de libertação de preconceitos e discriminações que separam as pessoas e impedem que a justiça, a paz e o amor sejam realidade em nossa sociedade.

O tema deste ano é a saúde, compreendida como um bem-estar integral – físico, emocional e espiritual – que flui entre o individual, social e ambiental. Saúde é dádiva de Deus a todas as pessoas, direito que tem sido usurpado das gentes negras e indígenas. Um bem cultural das comunidades tradicionais negras e indígenas que preservam o cuidado e respeito com a natureza, com as pessoas e a comunidade. Um valor enfatizado na vida e obra de Cristo.

Maiores informações: http://3re.metodista.org.br



Fidel Castro pergunta ao papa: "o que o senhor faz?"



Fidel Castro deve estar sentindo o peso da idade. O jornal Valor Econômico traz hoje uma informação esquisita sobre o encontro dele com o papa Bento XVI ontem em Havana, capital de Cuba:
O que faz um papa?, pergunta Fidel

O papa Bento XVI encerrou ontem sua visita de três dias a Cuba com um encontro de meia hora com Fidel Castro (foto). Na reunião, Fidel fez perguntas sobre o funcionamento da Igreja: "O que o senhor faz?" O Vaticano não disse o que o papa respondeu. Momentos antes, Bento XVI celebrou uma missa para 300 mil pessoas na Praça da Revolução, em Havana. Diante do presidente Raúl Castro e de vários ministros, ele denunciou o "fanatismo", numa aparente crítica à ditadura cubana. O papa citou uma passagem bíblica, em que homens perseguidos por um rei preferem a morte a trair suas consciências. "Há outros que interpretam mal essa busca da verdade, levando-os à irracionalidade e ao fanatismo, fechando-se em sua verdade e tentando impô-la aos demais", disse. Durante a visita, o papa já havia "suplicado à Virgem Santíssima" pelos que estão "privados da liberdade", em alusão aos presos políticos cubanos.
Diante da dúvida inusitada (alguns diriam "divertida") d'El Comandante, ficamos a imaginar como seria o prosseguimento do diálogo entre os dois octogenários, a partir da resposta do papa: 

Papa: - Eu comando uma igreja presente no mundo todo.
Fidel: - A Mundial?
Papa: - Não, essa é de um fazendeiro brasileiro chamado Valdemiro...
Fidel: - Odeio latifundiários, principalmente os da fé. É aquele que está brigando com um tal de Edir?
Papa (constrangido): - Isso, o Edir da Universal...
Fidel (pensativo, olhando para cima): - Mas se o mundo pertence ao universo, então o Edir manda no Valdemiro?
Papa: - Até onde sei, ele mandava, mas não manda mais. Só que eu não tenho nada a ver com eles... me inclua fora dessa...
Fidel: - Ah, tá... perdão! E o senhor, comanda que igreja mesmo?
Papa (visivelmente irritado): - Estás perdoado, meu jovem. Vamos mudar de assunto?


E foi assim que Fidel conseguiu que o papa o perdoasse...



quarta-feira, 28 de março de 2012

STJ libera estupro de prostitutas menores de 14 anos

Eu não sei o que é mais assustador: liberar o estupro de prostitutas menores de 14 anos ou o fato de uma ministra-mulher (com o perdão da redundância) ter chegado a essa conclusão absurda. A sociedade brasileira caminha a passos largos para a catástrofe. É impressionante como o Judiciário se dispõe a construir teses jurídicas olhando para o próprio umbigo e afastando os ouvidos do óbvio e ululante senso comum do povo que lhe paga os altíssimos salários. A notícia é da Folha:

Acusado de estuprar prostitutas menores é inocentado no STJ

Ao julgar o caso de um homem acusado de estuprar meninas de 12 anos antes da mudança do Código Penal, a Terceira Seção do STJ (Superior Tribunal de Justiça) entendeu que ele não cometeu crime porque as meninas eram prostitutas.

Segundo a relatora do caso, ministra Maria Thereza de Assis Moura, não se pode considerar crime o ato que não viola o bem jurídico tutelado --no caso, a liberdade sexual.

Na época em que os estupros foram cometidos, o Código Penal considerava que o crime deveria ser cometido mediante violência, e que ela era presumida quando se tratava de vítimas menores de 14 anos. O artigo foi revogado em 2009 com a mudança da lei.

O réu foi acusado de ter praticado estupro contra três meninas de 12 anos, mas foi absolvido pela primeira e segunda instâncias com o argumento de que as garotas "já se dedicavam à prática de atividades sexuais desde longa data".

O entendimento foi de que a violência citada no Código Penal para existir o crime de estupro era relativa --dependia de cada caso-- e não absoluta. Ou seja, poderia ser questionada mesmo em se tratando de menores.

Na decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, foi citado que a própria mãe de uma das meninas afirmou em juízo que a filha "enforcava" aulas e ficava na praça com as demais para fazer programas com homens em troca de dinheiro.

"A prova trazida aos autos demonstra, fartamente, que as vítimas, à época dos fatos, lamentavelmente, já estavam longe de serem inocentes, ingênuas, inconscientes e desinformadas a respeito do sexo. Embora imoral e reprovável a conduta praticada pelo réu, não restaram configurados os tipos penais pelos quais foi denunciado", afirmou o acórdão do tribunal.

JURISPRUDÊNCIA

O caso foi levado ao STJ, onde a Quinta Turma decidiu reverter as primeiras decisões e determinar o caráter absoluto da presunção de violência. Mas a Sexta Turma, ao julgar anteriormente caso semelhante, havia entendido que a presunção era relativa.

A defesa do réu apresentou o conflito à Terceira Seção do tribunal, que acompanhou a Sexta Turma e modificou a jurisprudência da corte, afirmando que a presunção de violência é mesmo relativa.

Para a ministra Maria Thereza de Assis Moura, apesar de buscar a proteção do ente mais desfavorecido, o magistrado não pode ignorar a realidade.

"O direito não é estático, devendo, portanto, se amoldar às mudanças sociais, ponderando-as, inclusive e principalmente, no caso em debate, pois a educação sexual dos jovens certamente não é igual, haja vista as diferenças sociais e culturais encontradas em um país de dimensões continentais", afirmou na decisão.

O STJ analisou apenas a acusação em relação ao estupro. O réu pode ter sido condenado com base em acusações por outros crimes, mas as informações não foram divulgadas pelo caso estar em sigilo para resguardar a identidade das garotas.



terça-feira, 27 de março de 2012

Líder islâmico do Marrocos aconselha masturbação feminina com cenouras e garrafas

Essa notícia do Terra só pode ser gozação:

Religioso marroquino autoriza masturbação de mulheres solteiras

Um célebre teólogo islamita marroquino autorizou as mulheres solteiras que se masturbem usando "cenouras ou garrafas" para evitar que mantenham relações sexuais proibidas fora do casamento.

"O uso de uma cenoura ou uma garrafa está autorizada pelos ulemás (teólogos) e a sharia (lei muçulmana)", confirmou à AFP Abdelbari Zemzemi, um teólogo cujas fatwas (opinião jurídica de um teólogo) geralmente provocam polêmica na imprensa.

No entanto, esta autorização "diz respeito a casos excepcionais: mulheres solteiras que não querem manter relações sexuais sem se casar e têm dificuldade de controlar sua libido", declarou Zemzemi, ex-deputado e presidente de uma associação religiosa de Casablanca.

Zemzemi considera normal que suas declarações possam causar polêmica "porque a sexualidade é um tema tabu no Marrocos". No entanto, a "sharia evoca esses temas íntimos com muita liberdade e o objetivo é evitar as relações sexuais fora do matrimônio".

A masturbação é proibida pelo Islã, mas tolerada por algumas das escolas. Essas escolas preveem que, se uma pessoa está dominada pelo desejo, não consegue controlar seus instintos e teme cair em Zina (pecado), pode recorrer à masturbação para acalmar-se, seguindo o princípio de que "entre dois males, é melhor escolher o menor".



Bill Maher expõe a teologia da prosperidade

Bill Maher é um conhecido comediante e apresentador de talk show nos Estados Unidos, além de ser militante ateu e político libertário, constantemente envolvido em polêmicas as mais variadas. Em 2008, ele escreveu o roteiro e lançou o documentário cômico (se é que esta categoria existe) Religulous (dirigido por Larry Charles), cujo título é uma junção irônica das palavras "religious" e "ridiculous", que, conforme o nome indica, é só um veículo para ridicularizar a religião e satisfazer o ego não só do Maher como de uma série de pessoas que se alegram com esse tipo de argumentação rasteira. Além da óbvia falácia do apelo ao ridículo, entre outras falácias menos importantes que pululam pelo documentário está a falácia da composição, que é tomar o todo pela parte, ou seja, a partir de um pilantra qualquer que se diz cristão, eu chego à conclusão de que todos os cristãos são pilantras. Cá entre nós, é esta - basicamente - a opinião que muitos brasileiros têm dos evangélicos quando não querem respeitar um pouco que seja a teoria da argumentação. De qualquer maneira, descontados esse partidarismo exacerbado e a miopia argumentativa enviesada, o Bill Maher é um cara bem mais inteligente, bem-humorado e informado do que a imensa maioria dos militantes ateus que só gostam mesmo é do xororô amargurado, o que torna as suas entrevistas com alguns expoentes da teologia da prosperidade norteamericana uma verdadeira aula sobre as falácias utilizadas por estes lobos travestidos de ovelhas, nada muito diferente do que você vê e ouve aqui no Brasil. No link do youtube abaixo (infelizmente não é possível incorporar o vídeo), você encontra esse confronto de falácias num trecho legendado em português do documentário Religulous, em que Maher entrevista o dourado "doutor" Jeremiah Cummings, "pastor" de mais uma dessas "igrejas" ávidas por dinheiro e merchandising que, infelizmente, muita gente ainda acha que são cristãs:

Bill Maher entrevista Jeremiah Cummings



segunda-feira, 26 de março de 2012

O instinto da fé revisitado

Aqui no blog já tratamos várias vezes sobre instinto moral (clique no link para acessar todos os textos), como nos artigos "Pesquisa científica comprova existência de instinto moral em bebês" e "Mais uma pesquisa comprova que bebês têm instinto moral". De certa forma, o instinto moral está intimamente ligado ao instinto da fé, tema que também já foi abordado aqui no artigo "A fé dançarina", que consiste na resenha do livro "The Faith Instinct" ("O Instinto da Fé"), de Nicholas Wade, publicada na Folha de S. Paulo em abril de 2010, pelo jornalista Reinaldo José Lopes. Dizer a um ateu, por exemplo, que a fé é um instinto natural do ser humano pode dar ensejo a uma boa discussão, mas o HypeScience trouxe ontem mais um artigo do NewScientist que segue a mesma linha e apenas confirma o que já se sabia, para desespero de muita gente que luta contra as evidências de que ter fé é absolutamente instintivo, intuitivo e - pasme! - normal:

Somos programados para acreditar em Deus?

Algumas habilidades humanas, tais como a música, são tratadas como dons: alguns parecem “ter nascido para a música”. No entanto, tarefas como andar e falar são comuns a todas as pessoas saudáveis, todos fomos “nascidos para andar” ou para falar. Será que é possível incluir a tendência de crer em Deus em um destes dois grupos? Acreditar em uma divindade é algo que vem naturalmente com o ser humano ou não?

Um autor norte-americano, Justin Barrett, acredita que sim. Ao analisar pesquisas antropológicas de várias universidades americanas, ele defende que quase todos nós nascemos naturalmente “crentes em Deus”.

Isso significa que, usando a lógica do andar ou falar, estamos naturalizados com a religião e a crença tão logo ela nos é apresentada, ainda na primeira infância. Seria uma tendência incluída na mente desde o nascimento.

Um estudo psicológico com bebês de 9 meses de idade, conduzido pela Universidade Emory (Atlanta, EUA), fez experimentos cognitivos. Os pesquisadores observaram que o cérebro das crianças, para entender o mundo, faz associações a partir de “agentes” (qualquer fator de ação ao seu redor, não necessariamente uma pessoa), e de como podem interagir com eles.

Naturalmente, os bebês sabem que tais agentes têm uma finalidade, ainda que seja desconhecida, e que os agentes podem existir mesmo que não possam ser vistos (é por isso, por exemplo, que filhotes de animais buscam se proteger de predadores mesmo que não os tenham visto).

Essa tendência, segundo o autor, facilita que se acredite em Deus. Não nos causa estranheza atribuir determinados fenômenos a um ente desconhecido: nosso cérebro pode lidar com isso sem problemas.

Outra pesquisa, da Universidade Calvin, em Grand Rapids (Michigan, EUA) vai ainda além: não apenas temos naturalidade com a ideia de um agente invisível, como somos diretamente propensos a este pensamento. Além disso, tais tendências não desaparecem na infância, se prolongando pela vida adulta na maioria dos casos.

Desde a infância, somos condicionados a acreditar que todas as coisas têm um propósito fixo. Uma terceira faculdade americana, Universidade de Boston (Massachussets, EUA), estudou crianças de 5 anos que visitavam um zoológico e olhavam para a jaula dos tigres.

Os pesquisadores descobriram que as crianças são mais propensas a acreditar que “os tigres foram feitos para andar, comer e serem vistos no zoológico”, do que “ainda que possam comer, andar e serem vistos, não é para isso que foram feitos”.

Temos dificuldade em não saber a razão da existência de algo, por isso recorremos a divindades. Este ente superior, por deter uma resposta que o ser humano não pode descobrir, recebe naturalmente atribuições de onisciência, onipresença e imortalidade, pois nosso cérebro tende a depositar todo o universo desconhecido em tal entidade.

O autor ainda lança uma pergunta: se Deus é aceito pelas crianças em um mecanismo de atribuição do desconhecido, semelhante ao Papai Noel ou a Fada do Dente, porque as crenças nestes últimos morrem com a infância e a ideia de Deus tende a permanecer na vida adulta?

Isso se explica, segundo ele, porque a imagem de Deus é mais poderosa. Papai Noel sabe apenas que deve te entregar um presente no dia 25 se você se comportou, e a Fada verifica apenas se você escondeu o dente debaixo do travesseiro.

Deus, ao contrário – e desde sempre somos levados a acreditar nisso -, sabe não apenas tudo o que você faz, mas também todos os outros seres do mundo e do universo. É por isso que algumas pessoas só passam a crer em Deus depois de mais velhas, mas ninguém retoma na vida adulta uma crença no Papai Noel: isso é algo restrito ao imaginário infantil.



domingo, 25 de março de 2012

Senador Demóstenes diz se "amparar em Deus" para enfrentar denúncias de corrupção

Demóstenes Torres trocou quase 300 telefonemas com Cachoeira,
quem deu uma cozinha de 27 mil dólares ao senador e foi preso
pela Polícia Federal. A explicação de Torres virou piada na internet.
 

E nisso ele não está sozinho, diga-se de passagem. Curiosamente, Edir Macedo, Valdemiro Santiago, Estevam Hernandes, Silas Malafaia e outras tantas celebridades gospel dizem a mesma coisa quando são acusados de algum malfeito. A notícia vem da Carta Capital:

Revelações complicam situação de Demóstenes

As novas revelações sobre as ligações do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) com o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira , devem acelerar as investigações sobre o suposto esquema de contravenção do jogo do bicho apurado desde 2009 pela Procuradoria Geral da República.

Diante dos novos índicos, o órgão estuda pedir ao Supremo Tribunal Federal a abertura de inquérito para investigar o senador – que só pode responder ao STF.

Para terça-feira 27 está prevista uma reunião da Frente Parlamentar de Combate à Corrupção com o procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Segundo a Agência Brasil, deputados e senadores querem saber os motivos da lentidão do processo que investiga desde 2009 o bicheiro e vários políticos sob suspeita. O grupo de parlamentares quer ainda saber quais outros nomes aparecem nas interceptações telefônicas.

Capitaneado pelos deputados Chico Alencar (PSOL-RJ) e Protógenes Queiróz (PCdoB-SP), o grupo pedirá urgência nas apurações.

Na sexta 23, CartaCapital revelou que Demóstenes tinha direito a 30% da arrecadação geral do esquema de jogo clandestino comandado pelo bicheiro – e que movimentou, em seis anos, 170 milhões de reais (Leia mais AQUI). A reportagem, assinada por Leandro Fortes, mostrou que a Polícia Federal tem conhecimento, desde 2006, das ligações do bicheiro com o senador e que o esquema jamais foi encerrado porque os policiais responsáveis pela investigação foram cooptados pelo esquema.

Horas após a reportagem, Demóstenes foi a público, por meio do Twitter, se defender das acusações. “De todos os absurdos publicados contra mim, os mais danosos estão no site da Carta Capital. Os informantes da revista estão enganados”, escreveu o senador.

“O sofrimento provocado pelos seguidos ataques a minha honra são difíceis de suportar, mas me amparo em Deus e na certeza de minha inocência”, completou.

Apesar da manifestada fé na inocência, a situação é cada vez mais delicada para o senador flagrado em telefonemas pedindo favores de Cachoeira, de quem já recebeu até presente de casamento. Antes mesmo das últimas revelações, os senadores Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) e Pedro Taques (PDT-MT) protocolaram, na terça-feira 20, uma representação cobrando que sejam investigadas as suspeitas sobre Demóstenes.

O PSOL protocolou também na Mesa da Câmara pedido para que a Corregedoria da Casa investigue as relações de outros parlamentares com o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Ao longo da semana, o deputado Protógenes conseguiu 181 assinaturas de deputados em um requerimento para criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) com a finalidade de investigar, em 180 dias, as práticas criminosas desvendadas pela Operação Monte Carlo da Polícia Federal. A ação, baseada em Goiás (estado do senador), levou à prisão integrantes de uma suposta quadrilha que operava com a contravenção do jogo do bicho, de caça-níqueis, corrupção em larga escala de autoridades civis, policiais e políticos.



sábado, 24 de março de 2012

Quando tocam o hino que debocha do teu país na hora de receber a medalha

Manja aquela emoção toda de subir ao pódio para receber a medalha de ouro enquanto tocam o hino sacrossanto do teu país? Provavelmente não, já que poucas pessoas têm essa honra na vida, mas dá para imaginar como é que o vencedor se sente. E se o DJ da cerimônia, talvez na pressa de baixar o hino, não percebeu que a música, na verdade, se trata de uma sátira muito ofensiva do teu país? Pois é isso o que aconteceu com Maria Dmitrienko, do Cazaquistão, que foi campeã numa competição de tiro ao alvo no Kuwait, e na hora de por a mão no peito e se preparar para a homenagem, teve que ouvir o "hino-deboche", que fala, entre outras barbaridades, que as prostitutas do país são as mais "limpinhas" da região (com exceção das colegas do Turcomenistão), que lá existe um gueto judeu chamado JewTown, que o sistema de abastecimento de água elimina 80% dos dejetos humanos e, por fim, convida os estrangeiros a visitarem ao país para tocar no "poderoso pênis" do líder deles. Para piorar o "impiorável", o "hino" fake é cantado em inglês (que deve parecer russo para quem só fala árabe) e veio do filme Borat, que satiriza impiedosamente o Cazaquistão. Depois do incidente, ao perceberem a tragédia diplomática que acabara de ser consumada, os organizadores do torneio trataram de pedir desculpas oficiais e marcaram uma nova cerimônia de premiação, desta vez com o hino correto do país. No primeiro vídeo abaixo, aparece a coitada da Maria Dmitrienko, constrangida durante a execução do "hino", e no segundo vídeo está a versão com letras do hino de Borat. Agora esta coisa de tocar o hino do Cazaquistão em cerimônias oficiais é uma espécie de tragédia anunciada: não dá certo nem no próprio país. No terceiro vídeo abaixo, durante o recente festival de esqui em Kostanay, lá mesmo, na hora das autoridades se perfilarem para a execução do hino nacional, o DJ local mandou ver "Livin' la Vida Loca", do Ricky Martin. Constrangimento geral:







Agora, vamos homenagear o Cazaquistão com o seu verdadeiro hino, acompanhado de belas imagens do país:



O Cazaquistão foi uma das 15 repúblicas que formaram a extinta União Soviética, cujo desaparecimento, apesar de comemorado mundo afora, teve pelo menos um triste efeito colateral: baniu para sempre um dos mais belos hinos nacionais já compostos pelo talento humano, o da finada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que os menos jovens nunca se cansaram de ouvir nas cerimônias olímpicas de premiação, já que eles ganhavam quase tudo. Independentemente do que se pense daqueles tempos comunistas, o mundo nunca pode se esquecer que, se hoje estamos livres do nazismo - que esteve por um fio de vencer a guerra -, isso se deve em grande parte ao sacrifício de mais de 20 milhões de russos, moídos no morticínio em levas sucessivas de milhares de combatentes que se batiam contra as (até então) invencíveis forças alemãs, e boa parte deles tombou na cruel Batalha de Stalingrado, que marcou a primeira grande derrota de Hitler e a virada definitiva no curso do conflito. Este episódio deverá ser sempre lembrado e contado para as novas gerações. O hino belíssimo da URSS era esse:





sexta-feira, 23 de março de 2012

Padre vende Nintendo e esquece de apagar fotos pedófilas

A notícia vem do Olhar Digital:

Padre vende Nintendo DS, mas esquece de apagar fotos de pornografia infantil

Venda resultou em investigação policial, que encontrou fotos de crianças nuas em seu computador

Parece pegadinha daquelas bem mal feitas, mas não é: em Kalispell, um condado no estado norte-americano de Montana, um padre da Igreja Católica local foi preso sob acusação de abuso de menor e uso de pornografia infantil pelas autoridades. De acordo com o jornal local Missoulian, Rudolph Bulmann vendeu um Nintendo DS, porém esqueceu-se de formatar o aparelho, e quem o comprou acabou vendo as fotos de menores de idade nus.

À polícia, Rudolph confessou ter usado o DS para acessar sites pornográficos gays, porém garantiu que só abriu páginas que informavam que seus modelos tinham idade compatível com a legislação. Entretanto, a suspeita persistiu e um mandado foi emitido para procura em sua residência. Lá, a polícia de Montana encontrou fotos de crianças que beiravam os 12 anos - na maioria, meninos.

Bulmann já se encontrava em processo administrativo de saída (algo como "ser demitido cordialmente") da igreja local e estava sob cuidados psicológicos desde dezembro de 2011. Ele foi acusado e preso, mas atualmente responde o processo em liberdade por ter assumido a culpa do caso.

O Nintendo DS, o primeiro modelo da geração mais recente de portáteis da Nintendo, tem a capacidade de tirar fotos tal qual um smartphone, salvo a capacidade da lente, que é relativamente baixa. Este recurso permite, em alguns jogos, que usuários façam upload de seus rostos em personagens.



quinta-feira, 22 de março de 2012

A oração do divórcio

Pense bem antes de pedir ao seu pastor que ele faça a "oração do divórcio":






quarta-feira, 21 de março de 2012

Hitler: biografias comparadas

O propósito deste texto é fazer uma análise comparativa das três biografias de Adolf Hitler que foram resenhadas aqui no blog, pela ordem a de Ian Kershaw, Alan Bullock e Joachim Fest, a fim de ajudar quem esteja na dúvida sobre qual delas ler. Todas são excelentes obras que satisfarão plenamente a curiosidade ou o desejo de pesquisa mais profunda de quem se proponha a ler pelo menos uma. 


Engana-se, entretanto, quem pensa que o fato de terem como objeto a mesma pessoa, no caso alguém com uma história de vida razoavelmente bem conhecida e que foi considerado um dos maiores monstros da história da humanidade, faz com que as três biografias sejam muito parecidas, daí a mais completa desnecessidade de se ler as três. 


É claro que o leitor que tiver menos tempo ou interesse no tema poderá se satisfazer plenamente com uma só delas, mas nesse caso se perderia a chance de perceber que elas, na verdade, não são idênticas ou entediantes, mas fascinantes exatamente porque se complementam, e a abordagem de cada autor se imbrica com a do outro, permitindo que o leitor faça um julgamento muito mais acurado de toda uma época fundamental (para o bem e para o mal) na ruína de uma sociedade antiga com a consequente construção do mundo moderno em que vivemos, com todos os seus dilemas e contradições. 


A outra vantagem de se ler mais de uma biografia é que os personagens não se tornam repetitivos, mas vão, por assim dizer, “ganhando vida”, sobretudo aqueles oportunistas e escroques que foram eclipsados pela magnitude da figura sombria de Hitler e, como mais uma condenação (justa) que "ganharam", foram relegados ao esquecimento. Deixam de ser uma mera referência num livro de história para que os fragmentos de suas personalidades, recolhidos por cada autor em várias facetas, ajudem a formar a imagem intrincada de um quebra-cabeça de interações particulares e coletivas que representam uma era não tão distante assim. Virtudes, defeitos e indiferenças esfumaçados pela poeira do tempo vão se tornando mais visíveis quanto mais se ouve falar de alguém que, numa só das biografias, não tinha tanta importância assim.

Especificamente quanto às biografias, a de Alan Bullock tem a desvantagem de estar disponível somente em inglês, o que dificulta bastante a tarefa de lê-la para quem não tem fluência na língua. Entretanto, ela é facilmente encontrada nas grandes livrarias do país (com entrega rápida e sem frete internacional) e tem a vantagem de ser a mais sucinta das biografias, com suas 490 páginas, que traçam um panorama bastante adequado de toda a vida de Hitler, com um poder de concisão que facilita a vida do leitor mais apressado, sem com isso perder qualidade no conteúdo. Fica a dica e o clamor para que alguma editora brasileira providencie com urgência a tradução e publicação dessa obra magistral. Será um marco na historiografia do período em língua portuguesa. 


A biografia de Joachim Fest tem, no total, 935 páginas nos dois volumes, muitas delas compostas por notas do autor (bastante úteis, por sinal), e que representam um pouco menos do que as 1.024 páginas da obra de Ian Kershaw, mas a de Fest tem a desvantagem do tipo da letra ser um pouco menor, o que pode tornar a leitura um tanto quanto desagradável a quem está acostumado com fontes maiores. Aliás, é louvável o esforço da Ed. Nova Fronteira em proporcionar ao público brasileiro uma edição do porte da biografia hitleriana de Fest, mas podiam ter um pouco mais de cuidado e capricho no trato de sua publicação sem necessariamente encarecer a obra, que já é vendida por um preço “salgado”. Quanto a este quesito, portanto, a biografia de Ian Kershaw é impecável. Um único volume (um tanto quanto pesado e difícil de manusear, é verdade) muito bem cuidado, por um preço não tão baixo, mas nem por isso duplicado, e com fontes maiores fáceis de serem lidas.

Quanto ao conteúdo das biografias, a de Kershaw se prende mais aos detalhes, procurando mostrar todos os fatos relevantes, os conexões inusitadas e os personagens de cada período da vida de Hitler, bem como não economiza palavras na descrição das decisões estratégicas, das intrigas militares, das disputas de bastidor pelo poder e pela proximidade com Hitler, e das batalhas da Segunda Guerra Mundial. Para quem gosta de se ater aos fatos ou tem mais interesse em assuntos políticos e militares, a decisão deve ser facilmente tomada em favor de Kershaw. A de Fest, curiosamente, é a que menos cuida dessa parte de estratégia militar, menos até que o livro de Bullock, que embora menor no tamanho, se concentra mais na guerra propriamente dita do que Fest. 


Kershaw não dispensa a tentativa de se traçar um perfil psicológico de Hitler, mas desde o começo avisa que isso é impossível, pelo que não vai fundo na questão, diferentemente de Bullock e Fest, que dão especial atenção a esse tema. Bullock também descreve com grande interesse esse perfil, mas não tanto como Fest, que é realmente o melhor deles quando se trata de tentar entender o fenômeno Hitler a partir de sua mente doentia (mas humana e miseravelmente normal), bem como toda a histeria coletiva que ele causou num povo tido como moderno para os padrões da época. Ainda que ele não chegue a uma conclusão definitiva sobre essa questão, não teme nem um pouco mergulhar na psiquê do Führer, de maneira que o leitor terá uma boa ideia do que se passava na sua cabeça e na da sociedade alemã como um todo, além de poder comparar muitos dos diagnósticos de Fest com fatos, situações e pessoas da vida atual. 


Favorece muito o livro de Fest o seu estilo brilhante de raciocínio lógico e argumentação. Bullock fica, portanto, no meio-termo, nem tão histórico e factual como Kershaw e nem tão psicológico e relacional como Fest. É preciso ficar claro que todas as biografias mostram praticamente tudo o que realmente interessa quando se trata de Hitler, do nazismo e da Segunda Guerra Mundial, e o que varia é a ênfase de cada autor. O leitor não ficará órfão de uma boa leitura em nenhuma delas.

Em suma, guardadas essas diferenças, os três estilos de escrita dos autores em questão são muito agradáveis de se ler, apesar da aridez do tema e do macabro personagem biografado, transformando a sua decisão de leitura no melhor dos mundos: qualquer que seja a sua opção, você só tem a ganhar.



Leia as nossas resenhas acessando:


Hitler - a biografia por Ian Kershaw


Hitler - a biografia por Alan Bullock


Hitler - a biografia por Joachim Fest



terça-feira, 20 de março de 2012

Hitler - a biografia por Joachim Fest

A biografia de Hitler por Joachim Fest (Ed. Nova Fronteira, 2ª ed., 2005) é uma obra de 935 páginas em 2 volumes. O primeiro acompanha a vida do líder nazista de 1889 a 1933 (até a pág. 461)e o segundo de 1933 a 1945 (págs. 462 a 935). 

Trata-se de uma obra monumental em que o foco é uma tentativa, até certo ponto bem sucedida, de se entender a personalidade do Führer, cuja melhor definição é o título do capítulo 21 (já no vol. 2): “examinando a impessoa”. 

Portanto, aqueles que buscam maiores detalhes estratégicos da Segunda Guerra Mundial não devem ler este livro, mas o de Ian Kershaw, por exemplo, ou mesmo a de Alan Bullock, já que a guerra em si toma menos de 1/5 da biografia de Fest, que se concentra na “impessoa” de Hitler e nas suas relações mórbidas com as pessoas que o cercavam e com o povo que, se não exatamente o levou ao poder por maioria de votos, não só aceitou a sua liderança como a apoiou incondicionalmente a partir dos seus primeiros sucessos como chanceler da Alemanha. 

Especificamente quanto à biografia de Fest, ela é tão profunda e rica em detalhes que se torna difícil resenhá-la. Capítulos extraordinários como o 7 e o 21 mereceriam ser transcritos na íntegra, mas diante da impossibilidade de fazê-lo, vamos nos concentrar em alguns pontos capitais.


Hitler na 1ª Guerra Mundial: desde jovem
ele era incapaz de mostrar um sorriso

Os três grandes biógrafos de Hitler, Ian Kershaw, Alan Bullock e Joachim Fest são unânimes em traçar sua infância e juventude como um período em que ele não tinha nenhum objetivo na vida. 

Fest relembra sua experiência desastrada como estudante até que, em 1904, na escola profissional de Steyr, então com 15 anos de idade, quando “o primeiro boletim foi tão fraco que, segundo sua própria confissão, Hitler tomou uma bebedeira e, tendo usado o documento como papel higiênico, precisou pedir depois uma cópia” (pág. 18). 

Um pouco mais tarde, já em Viena, Hitler vivia com a cabeça tão nas nuvens que o simples fato de ter comprado um bilhete de loteria o fez imaginar que a sorte o acolheria e, diante dessa perspectiva irreal, tratou de ir gastando o dinheiro por conta do prêmio que não veio (pág. 20). 

Numa tabacaria na Felberstrasse, perto de onde morava, ele teve contato com uma revista que era ali vendida, a Ostara, editada por Jorg Lanz von Liebenfels, onde bebeu da água envenenada da eugenia, do racismo e do antissemitismo. 

Pouco se sabe também sobre a sua vida afetiva e sexual quando era um jovem adulto na capital austríaca, mas Fest conclui que “somos levados a dar mais crédito a afirmação de que tanto em Linz como em Viena ele não teria tido ‘contato real com uma mulher’. 

De qualquer modo, é certo que nunca conheceu a paixão magnífica que teria sido capaz de libertá-lo de seu egocentrismo teatral” (pág. 39). 

Em 1909, quando gastou todo o dinheiro da pensão que seu pai lhe havia legado (e ele recebia fraudulentamente mentindo que estava matriculado na Escola de Belas Artes), não restou outra alternativa a Hitler senão levar uma vida de sem-teto, dormindo nas praças e procurando o albergue para os desabrigados de Meidling, onde conheceu um vagabundo notório, Rheinhold Hanisch, com o qual se associaria comercialmente para vender suas pinturas (pág. 45). 

Tudo indica que em 1938 Hitler, já todo-poderoso na Alemanha, teria encomendado o assassinato de Hanisch para manter intocada a sua aura mítica de homem que se fez sozinho de maneira minimamente digna. 

A experiência humilhante no albergue teria sido decisiva, segundo Fest, para que – quanto mais se aprofundava a guerra anos depois – Hitler se afundasse no seu mundo bizarro de bunkers escuros em que estava sempre cercado de homens medíocres como ele (pág. 47), o que no fim das contas representou um dos fatores decisivos que lhe custaram a vitória. 

Uma passeata organizada dos operários vienenses foi sua primeira inspiração para a manipulação das massas mediante a demonstração pública de força (pág. 51), assim como o filme “O Túnel”, de Bernhard Kellermann lhe aguçou os sentidos quanto às possibilidades dos discursos demagógicos (pág. 52). 

Também pertencem a esta época as primeiras influências que o levaram à sua concepção esdrúxula de “darwinismo social”, com a lei do mais forte determinando a vida e a morte na sociedade (págs. 54-55).


Hitler era tão meticuloso na sua encenação que
chegou a tirar fotos em estúdio para avaliar o seu
desempenho como orador
Veio então a fuga para Munique, a fim de escapar ao seu destino austríaco. Combate pela Alemanha na Primeira Guerra Mundial, e após a revolução de novembro de 1918, que selou o fim da monarquia e a derrota alemã, viu-se repentinamente sem chão, já que a caserna e o companheirismo dos militares haviam sido por 4 anos o seu mundo. 

Desperta nele então o gosto pela política, quando nas reuniões dos soldados desmobilizados, “descobriu com uma espécie de êxtase seu talento de orador e percebeu de repente um meio de escapar às aflições de uma existência sem esperança e de se projetar para o futuro” (pág. 87). 

Nas tabernas de Munique, entre copos e barris de cerveja, “o correr dos anos veio provar que tais associações de bebedores de cerveja racistas – aos quais se juntaram logo grupos de ex-combatentes desiludidos e burgueses ameaçados pela proletarização – possuíam em estado latente um dinamismo poderoso, que parecia aguardar apenas o momento de ser despertado, concentrado e posto em ação” (pág. 92). 

Diante da angústia latente de um país derrotado e esfacelado pelas crises econômica e política, “Hitler foi o primeiro a criar um denominador comum a todo esse descontentamento que se manifestava tanto entre os civis como no meio militar. Deu-lhe uma orientação e uma força combatente” (pág. 104). 

Este é o tema central do extraordinário capítulo (a que o autor chama de “primeira inserção” posterior) intitulado “A grande angústia” (págs. 91-111), um tratado sobre a crise moral de uma nação que deveria ser motivo de maiores estudos e que traduz com rara felicidade o “espírito” daquela era, capítulo este que mereceria ser transcrito na íntegra, mas do qual destacamos um pequeno trecho:
Hitler se apoiou nas forças que naquelas circunstâncias críticas ofereciam chances de grande eficácia política. Porque, socialmente falando, os movimentos fascistas tinham-se fixado sobre três elementos: os pequeno-burgueses com seus assomos de indignação moral, econômica, e contra-revolucionária; os meios tendentes a pensar em termos de racionalismo militar; e aqueles que acreditavam no carisma de um Führer único do seu gênero. A seus olhos, esse homem seria a voz resoluta da ordem que poria fim à confusão e ao caos, teria visão mais aguda e refletiria mais profundamente, saberia o que fazer em meio ao desespero vigente, e conheceria também os remédios. O tipo do super-homem não fora evocado só nas numerosas antevisões literáris que se inspiraram ao máximo nas fontes da saga popular germânica. A exemplo da mitologia de numerosos outros povos de história infeliz, a fonte folclórica alemã registra a epopeia daqueles chefes que, mergulhados num sono secular no fundo de suas montanhas, despertaram um dia para reunir seu povo e infligir ao mundo um corretivo vingador.
[...]
Na mesma ocasião, Max Weber tinha traçado também o retrato do líder de personalidade superior que, referendado pelo plebiscito, aspira a obter uma obediência ‘cega’. Mas via nele sobretudo um elemento vivo de resistência à ação e sob a ação de influências bastante distanciadas umas das outras, a época estava pronta para acolher o Führer. Essa ideia buscava inspiração tanto na sensibilidade das camadas populares como na poesia ou no raciocínio científico.
(pág. 106)
Hitler em campanha sabia galvanizar em si a atenção da multidão

Percebe-se, portanto, que nesse mórbido caldo de cultura da angústia coletiva alemã estavam plantadas as raízes do messianismo que seria mais tarde personificado em Adolf Hitler. 

No começo da década de 1920, entretanto, não era essa a ideia que dominava os pensamentos do protótipo do Führer. Ele era basicamente um líder local de Munique, cidade que fervilhava de novidades não tão novas assim e que se tornou o terreno propício para que o nazismo frutificasse. 

Aos poucos Hitler vai se dando conta de que ali suas ideias messiânicas podem vir a florescer: “pouco importa que nos apresentem como palhaços ou criminosos. O essencial é que falem de nós e que se ocupem de nós incessantemente” (pág. 137). 

Curiosamente, o mal que eles representavam encontrou apoio nas forças aliadas vencedoras da Primeira Guerra Mundial, que monitoravam as atividades políticas alemãs, e viram no suporte velado aos nazistas uma forma de impedir que o país entrasse em guerra civil e os comunistas viessem a tomar o poder (pág. 138). 

Na aglutinação das forças da extrema-direita alemã, Hitler não fazia esforço algum em se destacar pela aparência, chegando a apresentar-se às reuniões com “uma jaqueta velha, sapatos de couro amarelo e mochila nas costas” (pág. 146). 

Não descuidava, entretanto, do apelo às forças paramilitares, já que “uma de suas máximas de psicologia era que uma demonstração de força, por pessoas de uniforme, tinha não só o efeito de intimidar como também o de arrastar” (pág. 156). 

A própria palavra “nazi” não foi inventada gratuitamente, já que apesar de derivar da denominação alemã do partido – NazionalesoZIalist (NA-ZI) – soava como o diminutivo carinhoso do nome próprio Ignaz, tão familiar aos ouvidos bávaros (pág. 158). 

O sucesso do partido estava intimamente ligado a essa vinculação imediata com os anseios mais básicos e cotidianos da população bávara a princípio. “Sem esse acordo íntimo entre um destino individual e uma situação sociopatológica, seria inconcebível que Hitler tivesse conseguido obter essa ascendência mágica sobre os espíritos” (pág. 162). 

Desde aquela época, Hitler intuitivamente se fazia passar por mito. “A imagem muito difundida que nos apresenta Hitler como um oportunista desprovido de princípios subestima certamente tanto sua temeridade como sua originalidade. 

Foi precisamente proclamando o ostracismo a que se sentia relegado que colheu apreciáveis êxitos. Ele se revestiu assim de uma auréola de virilidade, de destemor e de desprezo, que preparou, de modo decisivo, o mito do grande líder” (pág. 165). 

Para compor essa aura mistificadora, Hitler não tinha qualquer pudor religioso em fazer sua exegese demagógica:
O emprego frequente de imagens e motivos religiosos, a que recorria para intensificar ao máximo seus efeitos de retórica, refletia a emoção marcante de sua infância. Lembrava-se do tempo em que, ajudando a missa no claustro de Lambach, ficara transtornado pelas imagens de dor e de desespero que contrastavam com a certeza de uma redenção triunfal. Tais combinações lhe inspiravam admiração pelo gênio e o senso psicológico da Igreja católica e daí tirava valiosos ensinamentos. Hitler chegou ao ponto de invocar, de modo blasfematório, ‘seu Senhor e Salvador’, em apoio de suas explosões de ódio anti-semita. “Na qualidade de cristão e de homem, leio com amor infinito aquela passagem que nos relata como o Senhor chegou ao ponto de se levantar bruscamente e se servir de uma chibata para expulsar do templo os usurários, essa raça de víboras e serpentes. Dois mil anos depois, inclino-me com profunda emoção, diante do combate inaudito que Ele travou em prol do mundo inteiro contra o veneno judeu, e constato que essa foi a razão pela qual teve de morrer sobre a cruz”.
(pág. 166)
As paradas das SA - as milícias nazistas - eram
uma maneira de arregimentar o povo em torno
dos seus ideais totalitários

Vem daí, talvez, seu gosto peculiar pela ritualização do nazismo, como complementa Joachim Fest:
Havia o rito das conferências semanais que se tornaram obrigatórias, as excursões em comum, os concertos ou as festas do solstício de verão, os cânticos em coro, as refeições tomadas em conjunto, os braços levantados coletivamente, sem falar das manifestações de simples bonomia que se multiplicaram em locais do partido e nas casas das SA. Tudo isso correspondia, de modo inimitável, às grandes necessidades de fraternidade política e humana. E Hitler insuflou, assim, no partido, uma espécie de espírito de seita que inicialmente poderia ser comparado àquele que animava, originalmente, as comunidades dos primeiros cristãos. Entre as manifestações mais populares figuravam “as festas do Natal alemão” que tinham origem comum. Essas manifestações uniam seus integrantes no sentimento de fazerem parte dos eleitos e de se protegerem contra um mundo tenebroso e hostil. “A maior tarefa do movimento”, declarou Hitler naquela época, “é dar a verdadeiras multidões que erram em busca de soluções ocasião de achar ao menos um lugar onde seu coração respire em paz”.
(pág. 169)
E, ao contrário do que era de se esperar na imensa maioria dos seres humanos, Hitler não mudou – em essência - um milímetro em suas convicções. Segundo Fest, “tem-se a ideia, ou melhor, a impressão de súbita paralisia. Não se manifesta uma só tendência à renovação, uma experiência pessoal. Hitler permaneceu sempre aquilo que foi um dia, imóvel, e como que petrificado” (pág. 174). 

O autor atribui esta dureza ao fato de que “uma das fórmulas que tinham proporcionado o sucesso da cristandade, [Hitler] costumava dizer, era a imutabilidade de seus dogmas, e o temperamento ‘católico’ de Hitler raramente se manifestava de maneira tão precisa quanto na sua vontade de manter fórmulas rígidas e imutáveis” (pág. 263). 

Essa “impessoa” pétrea continuava tendo a sua visão muito particular de “darwinismo social”: “ou o Partido Nazi é realmente o futuro da Alemanha, e então nem o diabo vai detê-lo, ou não é, e então merece ser aniquilado” (pág. 176). 

Antes que essa aniquilação chegasse, entretanto, valia tudo para encher os cofres do partido, já que “consta até que um bordel, dirigido em Berlim na Tauentzienstrasse por um antigo oficial, seguindo as sugestões de Scheubner-Richter, estava a serviço da causa nacional e despejava suas receitas na central do partido em Munique” (pág. 182). 

Por outro lado, apesar dos fins sempre terem justificado seus meios, em relação a Hitler “haveria erro grosseiro em atribuir-lhe traços de corrupção. Semelhante retrato subestima sua obstinação, seu orgulho e o poder de seu delírio” (pág. 183). 

O líder nazista era visto como “infalível”, como “o Cristo que veio a nós através da pessoa de Adolf Hitler” (pág. 525) e o então ministro da Guerra, Werner von Blomberg disse que “um aperto de mão cordial do Führer curou-o de uma gripe, certa ocasião” (pág. 535), o que dá uma ideia clara e gritante do fanatismo das pessoas que o cercavam. 

Este sentimento do partido como uma “nova fé religiosa” (pág. 193) serviu de base para os preparativos do putsch (“golpe”) de Munique, levado a cabo em 9 de novembro de 1923, que resultou num retumbante fracasso. Enganou-se, entretanto, quem imaginou que esse era o seu fim:
Com essa convicção reforçada pelo processo judicial que sofreu, assumia agora, com segurança cada vez maior, a missão do Führer, a única adequada para sua vocação messiânica. Metodicamente e com aguda consciência de seu papel, Hitler impôs essa convicção a seus companheiros de prisão – e foi esse sentimento que lhe deu, desde então, aquela mascara quase gelada cuja expressão jamais viria a ser modificada sequer por um sorriso, um gesto desinteressado, um momento de descuido. De agora em diante, apareceria como uma figura estranhamente inatingível, impessoal, quase abstrata, no cenário em que era, incontestavelmente, o principal protagonista. Já antes do putsch de novembro, Dietrich Eckart se queixara da mania de grandeza e do “complexo messiânico” de Hitler. Agora, ele assumia cada vez mais aquela pose de estátua, correspondente às dimensões monumentais da imagem que fazia da majestade e do comando.
(pág. 219)
Mein Kampf, a autobiografia

É da época da prisão em Landsberg a sua autobiografia, Mein Kampf, em que Hitler tenta criar em torno de si a aura de uma figura mitológica, pelo menos até então sem sucesso. 

Curiosamente, foi o absurdo de sua narrativa e a obviedade de sua automistificação em vida que fizeram com que muita gente desprezasse os nazistas, da mesma maneira como hoje parece ao homem moderno, em retrospectiva, uma insanidade coletiva o fato dele ter chegado ao poder alguns anos depois. E esse foi o grande erro que custou dezenas de milhões de vidas inocentes alguns anos depois:
A exaltação curiosamente neurótica do livro, sua afetação e sua desordenada fragmentação deram argumentos àqueles que por muito tempo subestimaram a ideologia nacional-socialista. “Ninguém leva a sério, ninguém poderia levar a sério ou mesmo compreender esse estilo”, escrevia Hermann Rauschning. E, invocando seu conhecimento íntimo dos bastidores da cena, acrescentava: “O que Hitler realmente pretende não está no Mein Kampf”. Num estilo brilhante e, em todo caso, de maneira que influenciou consideravelmente a historiografia, Rauschning formulou a teoria segundo a qual o nacional-socialismo seria uma “revolução do niilismo”. Hitler e o movimento que dirigia, disse ele, não tinham nem uma ideia nem mesmo uma filosofia própria, mas se aproveitavam de tendências e inclinações do momento, na medida em que estas lhes permitiam ampliar sua ação e recrutar partidários. Seu nacionalismo, seu anticapitalismo, seu culto à tradição, suas concepções de política exterior e até seu racismo e anti-semitismo estavam sempre na dependência de um oportunismo cínico, que nada respeitava, nada temia, em nada tinha fé e violava sem o menor escrúpulo os juramentos mais sagrados. Quando se tratava de tática, as traições do nacional-socialismo não tinham limites, e toda a sua ideologia era apenas um chamariz de fachada, ruidosamente exposto, para dissimular sua vontade de empalmar o poder. E a essa ambição é que era preciso satisfazer antes de tudo, e todo e qualquer êxito era considerado exclusivamente uma etapa no rumo de novas aventuras tão desenfreadas quanto presunçosas, sem razão, sem objetivo concreto, impossíveis de saciar. “As forças atuantes e dirigentes desse movimento eram totalmente desprovidas de princípios e de programa. Seus melhores grupos de choque estavam prontos para agir instintivamente, suas elites assim o faziam após madura reflexão, com sangue-frio e maquiavelismo. Não houve nem há qualquer objetivo que o nacional-socialismo não estivesse pronto a sacrificar ou a suscitar a qualquer momento, desde que o interesse do partido assim o exigisse”. A sabedoria popular expressava a mesma opinião nos anos 30, quando dizia ironicamente que a ideologia nacional-socialista era “o mundo como vontade sem representação”.
(pág. 225)
O nazismo era, na visão de Hitler, era “mais ainda que uma religião. Corresponde à vontade de criar uma nova humanidade” (pág. 235), e esse processo passava pela criação de um “espaço vital” (o lebensraum) alemão no Leste da Europa, às custas dos povos eslavos especialmente da então arqui-inimiga, a bolchevista União Soviética. 

Para chegar lá era necessário, antes, conquistar o poder, o que fez enganando gente como Alfred Hugenberg, dono de um império jornalístico (entre outras atividades) que pensava que podia usar Hitler para os seus propósitos, na vã esperança de posteriormente descartá-lo. O dom oratório de Hitler era o seu maior capital político:
É pois verdadeiro, como se afirma frequentemente, que Hitler só dizia em cada comício o que o público queria ouvir. Certamente não era o falador oportunista dirigindo-se à multidão, mas deixava-se impregnar de todos os sentimentos supersticiosos, de dominação, de angústia, de ódio, e integrava-os para transformá-los imediatamente em dinâmica política. O jornalista americano H. R. Knickerbocker observou, depois de um comício em Munique: “Hitler falou no circo. Era um evangelista falando num comício, o Billy Sunday da política alemã. Seus convertidos marchavam com ele, riam com ele, sentiam com ele. Com ele, riam dos franceses. Com ele, vaiavam a república”. Nessas fusões, Hitler chegava a “viver sua própria neurose como uma verdadeira geral e a fazer da neurose coletiva a caixa de ressonância de sua própria obsessão”.
(pág. 350)
O decrépito presidente Hindenburg cumprimenta
o novo chanceler da Alemanha em 30/1/1933
Por outro lado, Hitler não teria chegado ao poder (para dele não mais sair senão morto), se uma série de atitudes políticas desastradas e egoístas lhe abrissem o caminho para tanto. 

O senil presidente Hindenburg talvez seja o homem que mais tinha o poder nas suas mãos para impedir a ascensão de Hitler ao poder no fatídico dia 30 de janeiro de 1933, mas se envolveu numa “fritura” de primeiros-ministros de Brüning a von Papen:
Isso não quer dizer de modo algum que Hitler tivesse igualmente chegado ao poder com adversários mais decididos. A história moderna quase não tem acontecimentos de tão considerável importância, em que os fatores pessoais, caprichos, preconceitos e emoções de uma ínfima minoria tenham desempenhado papel tão determinante. As instituições raramente estiveram mais invisíveis no momento da decisão. Sem a camarilha presidencial, a chancelaria de Hitler é praticamente impensável; embora desde o verão de 1932 ele não estivesse tão longe do poder, esse passo, por curto que fosse, era grande demais para suas forças. Foram seus adversários que lhe permitiram avançar, com a eliminação dos partidos e do parlamento, a série de batalhas eleitorais, o hábito de infringir a constituição. Cada vez que um deles decidia desistir de criar problemas e resistir ao governo, outro erguia-se inevitavelmente para botar obstáculos. Consideradas em conjunto, as forças da parte adversa foram até o fim maiores do que as de Hitler; mas, voltando-se umas contra as outras, anulavam-se. Era fácil perceber que o nacional-socialismo era o inimigo comum dos burgueses, dos comunistas e marxistas, dos judeus, dos republicanos; mas a cegueira e a fraqueza impediram a maioria dessa gente de deduzir que todo mundo deveria ter sido inimigo dos nacional-socialistas.
(pág. 390)
Um dos primeiros discursos de Hitler, após chegar ao cargo de chanceler, prometia proteger “a cristandade, que é a base de toda a nossa moral, e a família, célula-mater de nosso povo e de nossa nação” (pág. 466, já no vol. 2). 

Agora imagine se ele não tivesse essa “preocupação”, será que conseguiria mais nefasto do que foi? Uma vez instalado no poder, Hitler foi rapidamente desmontando o Estado alemão para se apossar de todas as suas instituições. “Até mesmo um congresso de intelectuais e artistas de esquerda, realizado no teatro da Ópera Kroll, foi interrompido logo no início por causa de supostas afirmações de tom ateu” (pág. 469). 

É importante frisar que tudo isso foi feito dentro das regras do jogo democrático, numa aula magna de como uma ditadura pode inocular e se instalar gradualmente numa democracia, até sufocá-la pela metástase fatal. 

O totalitarismo passa a ditar todas as formas de interação social. Somente “o sono era visto como questão puramente privada” (pág. 509), ou como dizia Hitler, “nosso socialismo tem uma forma de agir muito mais profunda. Não modifica a ordem das coisas, não faz senão mudar as relações dos homens com o estado (...) Que significado têm a partir de agora as expressões ‘propriedade’ e ‘renda’? Por que teremos necessidade de socializar os bancos e as usinas? Nós socializamos os homens” (pág. 513). Por fim:
Toda atividade, toda necessidade básica é, para cada um, determinada pela comunidade que, por sua vez, é representada pelo partido. Não há mais nada de arbitrário; não existe espaço livre algum onde o indivíduo se pertença a si mesmo (...) O tempo da felicidade pessoal está extinto”.
(pág. 497)
Detenções e execuções em massa: "o tempo da felicidade
pessoal está extinto"
Até a clássica divisão da Alemanha entre católicos e protestantes, apesar de manifesta, foi sendo gradualmente absorvida pelo Estado:
Se a considerarmos em seu todo, a depuração se efetuou sobre o plano cultural sem protestos e sem uma resistência realmente séria. Só a Igreja protestante pôde, a custo de uma cisão, opor-se à conquista declarada do poder. Toda e qualquer possibilidade real de expressão desse desejo de resistir da Igreja Católica (cujos bispos já tinham criticado energicamente e condenado de forma oficial o nacional-socialismo) foi obstada pelas negociações já concretizadas durante a vigência da república de Weimar, resultando numa concordata com o Vaticano, e retomadas depois com empenho por Hitler, com todo seu corolário de promessas e concessões aparentes. A Igreja católica terminaria, contudo, por opor uma certa resistência, sempre entravada por múltiplas considerações táticas. As atitudes pseudocristãs do regime não deixaram de influir sobre os líderes das duas religiões oficiais. O próprio Hitler, com suas invocações constantes ao “Deus, nosso Pai” ou à “Providência”, sabia muito bem dar a impressão de estar animado de um santo temor de Deus. O que veio a enfraquecer a vontade de oposição foi o fato de que os fundamentos da visão de mundo do nacional-socialismo (luta contra o “marxismo ateu”, contra o “livre-pensamento”, a “decadência dos costumes”, até mesmo o veredito contra as “artes degeneradas”) eram, no seu conteúdo, muito familiares a numerosos crentes. A ideologia nacional-socialista, na sua heterogeneidade, era, com efeito, para alguns, “uma substância derivada de convicções cristãs, um aspecto dos ressentimentos e das ideologias que se tinham desenvolvido no seio de comunidades cristãos em seu confronto com um mundo exterior que não compreendiam ou que refutavam juntamente com todo o processo evolutivo dos tempos modernos.
(págs. 505-506)
Para se manter no poder recém-conquistado, Hitler ainda precisava ganhar a lealdade do Exército alemão, e isso só foi possível mediante a “faxina” que fez na sua milícia armada, a SA, comandada por Ernst Röhm. 

Entretanto, mesmo no episódio grotesco da “Noite dos Longos Punhais” (Nacht der langen Messer), de 30 de junho para 1º de julho de 1934, em que o Führer alegou um complô imaginário e acusou a liderança da milícia de homossexualismo (que até então era notório e não o havia incomodado), ainda houve espaço para situações tragicômicas como de um membro da SA, também chamado Ernst:
Assim se explica que, até o último momento, muitos dos chefes da SA não tivessem podido compreender o que se passava; nada sabiam de golpe armado ou de complô e sua moralidade não fora até então objeto de discussão ou de crítica por parte de Hitler. O Gruppenführer Ernst, de Berlim, por exemplo, que de acordo com os informes de Himmler tinha organizado para a tarde daquele dia a tomada de surpresa do quarteirão ministerial, na realidade estava em Bremen, de onde se preparava para partir em viagem de núpcias. Antes de embarcar no navio, foi detido e, julgando tratar-se ainda de uma das brincadeiras de despedida de solteiro, um pouco rudes, sem dúvida, de seus camaradas de armas, deixou-se levar. Foi conduzido de avião a Berlim. Sorrindo ao exibir seus braços algemados e fazendo blague com o grupo SS postado no aeroporto, saiu do avião direto para uma viatura policial que o aguardava. As edições extras dos jornais vendidas naquele momento já anunciavam a morte do infeliz. Mas Ernst continuava a crer tratar-se de uma brincadeira. Meia hora depois, era encostado no muro de Lichterfeld e fuzilado, mas recusando-se até aí a acreditar no que se passava e balbuciando ainda um “Heil, Hitler!”.
(pág. 547)
Adolf Hitler e Ernst Röhm quando ainda estava tudo bem entre os dois.
Aparentemente, Hitler jamais se perdoaria por ter traído seu maior apoiador
no início de sua carreira.
Este episódio bizarro mostra o quanto o regime nazista, desde o seu início, tinha de surreal, se transformando e – pior – se instalando definitivamente no governo alemão, e posteriormente dominando boa parte da Europa numa espécie de pesadelo coletivo sem fim. 

Joachim Fest vê nos “espetáculos” de luz e sombras de Nuremberg, por exemplo, não só uma ritualização estética da morte, como também uma espécie de orgasmo hitleriano:


A "catedral de luz" na noite de Nuremberg,
por ocasião do "Dia do Partido" (Reichsparteitag)
A concepção hitleriana de uma política estetizada encontra sua verdadeira expressão nessas exibições, nessas espécies de encantamentos de Sexta-Feira Santa politizada, tal como se pôde dizer que a música de Richard Wagner fazia “propaganda da morte”.
A predileção pelos espetáculos noturnos também fazia parte dessa sublimação estética da morte. Acendiam continuamente archotes, fogueiras, círculos em chamas que, segundo as afirmações dos técnicos em manejo das almas num regime totalitário, pretendiam celebrar a vida, mas que desvalorizavam-na por seus efeitos patéticos, tornando-a inseparável das visões do apocalipse, que sublimavam o arrepio provocado pelo incêndio dos mundos, evocavam catástrofes de que implicitamente o regime não estava excluído.
(pág. 600) 
Em sua pompa pontifical, os congressos do partido não eram apenas o ponto culminante do ano nacional-socialista, mas, para Hitler, a realização dos sonhos de gigantescos cenários de sua juventude. Seus íntimos contaram sobre a excitação que se apossava dele durante a semana do congresso de Nuremberg e sobre a maneira de superar o que correspondia a sua sexualidade contrariada por meio de uma onda inesgotável de discursos.
(pág. 602) 
Cedendo a antigas tendências profundamente enraizadas nele, associava a visão da Nova Europa ao mito da Morte. No fim da guerra, na hora do grande acerto de contas com as Igrejas e quando o Papa, em paramentos solenes e com a tiara na cabeça, tivesse sido enforcado na Praça de São Pedro, a catedral de Strasburgo seria transformada em memorial ao Soldado Desconhecido, enquanto, nos confins do império, dos mais remotos cabos rochosos do Atlântico à planura da Rússia, seriam erigidas torres numa grinalda de monumentos da Morte.
(pág. 779)
A encenação teatral do tipicamente nazista "ritual da Morte"
No magistral capítulo 21 de sua biografia, intitulado “Examinando a impessoa”, Joachim Fest penetra fundo na psicopatologia de Hitler, comentando sobre sua “incapacidade de viver a vida cotidiana” (pág. 604), já que “por uma espécie de auto-sugestão, sempre mostrou-se ao mundo nos disfarces mais diversos, em formas de existência tomadas de empréstimo. [...] 

Reprimia qualquer espontaneidade: do mesmo modo que, pelo temor de revelar livremente uma emoção, só ria escondendo o rosto com a mão, também detestava que o vissem brincando com seu cachorro. 

Quando se percebia observado, ‘afastava brutalmente o cão’, conta uma de suas secretárias” (pág. 605). “Quanto mais alto chegou, maior se fez o vazio humano em torno dele” (pág. 609). 

A constatação de que “de certo modo, Hitler é simplesmente uma impessoa; não se pode atingi-lo, tocá-lo” é atribuída a Magda Goebbels (esposa do ministro da Propaganda, Joseph Goebels) desde o início dos anos 1930 (pág. 611). 

Sua estrita reserva pessoal, entretanto, não impediu que se notasse que ele preferia se cercar de jovens moçoilos como ajudantes mais próximos, já que “uma parte de seu séquito compunha-se de efebos, com os cabelos ligeiramente ondulados, segundo a moda, e gestos afeminados” (pág. 613). “Em um de seus monólogos, Hitler descreveu aos mais íntimos o novo tipo humano, parcialmente realizado na SS, como um animal predatório, cruel, sem medo, marcado de traços ‘demoníacos’ de tal modo que ele próprio se apavorou com a visão” (pág. 622).

Chega então o ano de 1938, com seus preparativos para a guerra. A anexação da Áustria (o Anschluss) em março daquele ano, e a invasão da região dos Sudetos, com a posterior anexação da Tchecolosváquia um ano depois, anunciam ao mundo que a nova Grande Guerra está para começar. 

Joachim Fest faz questão de observar várias vezes que as indecisões (e uma certa “preguiça”) das nações aliadas vencedoras da Primeira Guerra, com suas concessões absurdas e tentativas vãs de pacifismo, terminaram custando ao mundo dezenas de milhões de vidas num horror aparentemente sem fim. 

Se Hitler tivesse sido confrontado em 1938, quando começou com sua tática diversionista e expansionista, ele certamente teria sucumbido, já que o exército alemão, naquela época, não tinha condições de suportar uma retaliação armada, e seria facilmente esmagado. “Um ataque por parte das potências ocidentais, mesmo com a metade de seus efetivos, deveria, consequentemente, ter provocado desde o outono de 1939 o afundamento da Alemanha e o fim da guerra: vários peritos confirmam esse fato” (pág. 702). 

Todas essas vitórias diplomáticas de Hitler, sem disparar um tiro, apenas serviram para criar na população alemã um respeito pela aura mítica do seu Führer, que passou a ser visto como um herói invencível, ao qual a tal “Providência” sempre cobria dos mais cobiçados louros de glória. 

Enquanto pôde, Hitler soube como ninguém tirar proveito da hesitação constrangida e reiterada dos governos da Inglaterra e da França, até negociar com a União Soviética o pacto de não agressão que lhe permitiu invadir a Polônia em 1º de setembro de 1939. 

Estourava a Segunda Guerra Mundial. É aí que Joachim Fest identifica o primeiro erro fatal de Hitler, que o levaria à sua derrocada final:
Se o pacto com Stalin fora um magistral sucesso diplomático, nem por isso deixava de conter um erro pouco visível: anulava as premissas pelas quais Hitler e o Ocidente haviam guiado sua política. Foi um erro irreparável e, com rara unanimidade – inclusive os mais convictos partidários do apaziguamento – a Inglaterra inteira se mostrou decidida a resistir de agora em diante. Embora Hitler tivesse uma merecida reputação por acuidade psicológica, ficou claro, naquele momento crucial, que ele fora apenas o psicólogo dos exaustos, dos resignados, dos desesperados, e que era mais hábil para avaliar o comportamento de suas vítimas do que a reação de seus adversários.
(pág. 684)
Hitler e Göring quando as coisas já não iam nada bem
O próprio Hitler logo percebeu que havia cometido um erro tático que contrariava todo o seu discurso antibolchevique anterior e lançaria por terra todos os seus esforços bélicos posteriores. 

Durante toda a sua carreira política, havia pregado que o inimigo morava no Leste e atendida pelo nome comunista de União Soviética, às custas de quem os alemães deveriam buscar pela força o seu “espaço vital”. 

Agora, entretanto, ainda que na base do tratado de não agressão, os comunistas eram seus aliados, e a toda-poderosa Inglaterra se convertera na inimiga a ser combatida. 

O Führer vaticinou que o começo da guerra era, na verdade, o seu fim. “Algum tempo depois que a guerra com a Inglaterra tornou-se uma certeza, Hitler confiara a Rudolf Hess: ‘Toda a minha obra agora desmorona. Meu livro foi escrito para nada’. Às vezes, comparava-se a Lutero, que tivera tão pouco desejo de lutar contra Roma quanto ele contra a Inglaterra” (pág. 692). 

Era esta a “guerra errada” de Hitler, que até tem o seu sucesso inicial na invasão da França e, já em junho de 1941, da União Soviética, traindo o pacto de 1939, mas que pelo menos o recolocava de volta à sua trincheira ideológica, só que tarde demais. 

1941 não foi, definitivamente, um ano bom para Hitler, já que em dezembro – a reboque do ataque japonês em Pearl Harbor - entraria na guerra o seu inimigo mais temido: os Estados Unidos (pág. 727). 

Nesse ínterim, Fest faz uma curiosa distinção, pois para ele a Segunda Guerra Mundial dura até a entrada das duas superpotências, EUA e URSS, nos campos de batalha. 

A partir daí começa o que ele chama de “Terceira” Guerra Mundial, já que até então os combates haviam sido concentrados em território europeu, o que não mais aconteceria depois disso. O próprio Hitler, de certa maneira, constatou essa mudança radical no curso da guerra:
Desde 1941 – disse ele mais tarde – tinha imposto a si mesmo “jamais e sob pretexto algum, perder o controle, mas, ao contrário, quando sobrevinha uma catástrofe em qualquer parte, sempre me esforçava para encontrar uma solução, a fim de corrigir a situação de qualquer maneira (...) Há cinco anos vivo fora do mundo, não botei o pé no teatro, não tenho assistido a nenhum concerto, nunca mais vi um filme. Vivo apenas para essa única tarefa: levar a bom termo esta luta, porque sei que, se ela não for conduzida por um ser dotado de vontade de ferro, jamais poderá ser vencida”. Resta-nos então perguntar se não foi precisamente a pressão a que se submetia esse maníaco da vontade, essa concentração obstinada sobre o fato da “guerra”, que encurtaram sua razão e o privaram de toda a liberdade interior.
(pág. 757)
Nesse seu mundo inferior de bunkers lúgubres, Hitler vai se afundando cada vez mais no pânico e na hipocondria, incapaz de encarar a realidade, sobretudo a dos milhões de vítimas do seu próprio povo. 

Certa vez, “quando o trem especial do Führer, numa baldeação em Berchtesgaden, passou uma vez, por engano, com as cortinas levantadas, perto de um trem de feridos estacionado ali, Hitler pôs-se em pé, furioso, e mandou que baixassem imediatamente as cortinas” (pág. 766). “Um de seus velhos seguidores, depois de haver comparado suas observações com outras feitas no passado, afirmava já ter notado, nos anos 20, que Hitler tinha necessidade de se deixar enganar para poder agir (...) o caráter de sobretensão fantástica que aureola sua personagem tem origem nessas relações falsas com a realidade: só o irreal era real a seus olhos!” (pág. 767). 

Isto gerou um claro conflito entre a sua pretensa vocação messiânica, da qual havia se alimentado durante anos, e a realidade de suas ações quando teve que esconder o holocausto judaico. 

Preferiu o silêncio, o subterfúgio, a dissimulação, tornando “estranha essa imagem de um salvador que esconde sua ação salvadora” (pág. 770). 

A covardia não era exclusividade sua, entretanto, já que, “entre os dirigentes do regime, Himmler foi o único a assistir – no fim de agosto de 1942 – a uma execução em massa; mas quase desmaiou e imediatamente após teve uma crise de histeria” (pág. 771). 

Com gente desse nível ao seu lado nos postos de comando, o cenário da queda final estava solenemente preparado:
É inteiramente infundada a ideia de que Hitler tenha procurado escapar à queda espetacular tão cuidadosamente preparada. Mais provável que aquelas semanas e dias derradeiros fossem, para ele, a despeito de seu fracasso, um período no qual se acumularam estranhas sensações de apaziguamento. A compulsão suicida que o acompanhara ao longo da vida, predispondo-o sempre aos riscos supremos, iria realizar-se por fim. Uma vez mais, estava de costas contra a parede; mas, agora, era o fim da viagem: não lhe restava mais nada a questionar ou disfarçar; havia nesse fim um elemento de auto-satisfação exacerbado que explica em parte a energia pouco comum de que esse homem ainda dava mostras, e que um observador pertencente a seu círculo mais íntimo descreveu então como “uma ruína humana devorando bolos”.
(pág. 822)
Com os russos já ocupando as ruas de Berlim, chega ao fim a trajetória de vida de uma das figuras mais tristemente emblemáticas da história da humanidade, sobretudo no que ela tem a dizer sobre a miséria humana em seu estado mais cruel. 

Como conclui Joachim Fest, “para se usar, sob outra forma, uma frase de Schopenhauer, a quem Hitler venerava, podemos dizer que Hitler deu ao mundo uma lição que o mundo jamais esquecerá” (pág. 844).


Derrota final: soldados comunistas hasteiam a bandeira
da União Soviética no topo do Reichstag (o Parlamento alemão)





Leia também:

Hitler: biografias comparadas

A biografia de Hitler por Ian Kershaw

A biografia de Hitler por Alan Bullock



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