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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Livro grátis do dia para kindle - 5


A dica de livro grátis para o e-reader kindle da Amazon brasileira é "John Calvin: A Heart for Devotion, Doctrine and Doxology" ("João Calvino: Um Coração para Devoção, Doutrina e Doxologia").

A obra é uma seleção de artigos (com 246 páginas) sobre o reformador de Genebra, sua teologia e sua influência no cristianismo, organizada por Burk Parsons, com a participação dele próprio e de nomes bastante conhecidos no meio protestante americano como Jay E. Adams, John MacArthur e Michael Horton, entre outros.

Alertamos que o "presente" vale para hoje, 1º de outubro de 2013, e que não temos qualquer vínculo comercial ou financeiro com a Amazon.com, razão pela qual não sabemos por quantos dias o e-book continuará grátis.

O livro, escrito em inglês e adequado para quem possui um kindle, pode ser baixado gratuitamente clicando-se aqui.



domingo, 5 de maio de 2013

Francisco, o papa protestante?

Artigo interessante publicado no IHU:

O ''protestantismo'' do Papa Francisco

Quando eu li o que Bergoglio disse sobre a questão dos ateus, eu tive um pensamento provocativo que eu me senti tentado a pôr no início desta coluna. Algo assim: "Ei, católicos: vocês sabem o que vocês fizeram? Vocês escolheram um papa protestante".

A opinião é de Bill Tammeus, elder presbiteriano e ex-colunista religioso do jornal The Kansas City Star, pelo qual recebeu diversos prêmios. É autor do blog Faith Matters e colunista mensal da revista The Presbyterian Outlook. Seu livro mais recente, em coautoria com o rabino Jacques Cukierkorn, é They Were Just People: Stories of Rescue in Poland During the Holocaust.

O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 01-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Eu costumo dizer às pessoas que, se você se perder na teologia da Tradição Reformada (leia-se presbiteriana), você sempre pode voltar à estaca zero, que diz, em essência, isto: Deus é soberano.

Ou – em estilo, eu prefiro esta outra, porque a maioria de nós não tem nenhuma experiência de vida sob um soberano – Deus é gloriosamente livre.

Eu pensei sobre isso outro dia, quando eu li algo que o Papa Francisco disse em um livro do qual ele foi coautor em 2010, como cardeal Jorge Mario Bergoglio. Falando sobre como ele conversaria com um ateu, Bergoglio escreveu: "Eu não lhe diria que a sua vida está condenada, porque estou convencido de que não tenho o direito de fazer um juízo sobre a honestidade dessa pessoa".

Essa, amigos, é a teologia da Tradição Reformada. Cabe a Deus determinar quem terá a vida eterna. Não cabe a nós. Mesmo que você recorra aos conceitos difíceis de seguir do fundador da Tradição Reformada, João Calvino, sobre predestinação (sem falar da dupla predestinação), você descobrirá que nenhum ser humano pode saber ao certo quem está salvo e quem está condenado.

Esse ponto, uma vez, levou minha amiga Kathleen Norris a escrever isto no seu livro Amazing Grace: A Vocabulary of Faith: "Surpreende-me que só um advogado francês poderia chegar a uma justificação tão complexa, senão bizarra, para tratar todas as pessoas como se elas pudessem estar entre os eleitos, os escolhidos de Deus".

Ela está certa. Mesmo que você compre a ideia do esquema calvinista "alguns se salvam, alguns são condenados e não há a nada que você possa fazer a respeito", você não sabe quem é quem, por isso você precisa ser bom para com todos, na teoria de que você pode passar a eternidade com essa pessoa.

E isso é quase a mesma coisa que Bergoglio está dizendo em Sobre o Céu e a Terra, coescrito com o rabino Abraham Skorka.

Quando eu li o que Bergoglio disse sobre esse assunto, eu tive um pensamento provocativo que eu me senti tentado a pôr no início desta coluna. Algo assim: "Ei, católicos: vocês sabem o que vocês fizeram? Vocês escolheram um papa protestante".

Mas, no dia seguinte que eu li as palavras do papa, eu descobri que alguém tinha sido mais rápido do que eu nessa conclusão. O escritor Jonathan Merritt fez essa pergunta sobre o Papa Francisco no seu artigo do site Religion News Service: "A crescente popularidade (de Francisco) entre os não católicos pode torná-lo o primeiro papa protestante?".

Merritt acrescentou: "A combinação da preocupação do novo papa com as questões de justiça e a sua teologia conservadora parecem ser atraentes para muitos daqueles protestantes socialmente conscientes" (eu gosto do que Merritt disse, embora eu não fique feliz que ele tenha posto por escrito antes de mim a ideia de que Francisco pode ser o primeiro papa protestante. Mas deixe estar).

Aqueles de nós que fazem parte das principais Igrejas protestantes (presbiterianos, metodistas, luteranos etc.) têm sido exaustivos no que se refere às preocupações de justiça social e superficiais no que se refere ao respeito pelas estruturas de governo hierárquicas e rituais extravagantes.

Nós pagamos um preço por causa dessa ênfase, mas é um preço que nós temos estado dispostos a pagar. E agora muitos de nós acham que o novo papa tem a intenção de aproximar a Igreja Católica um pouco mais dessa abordagem protestante.

Talvez pudéssemos nos encontrar no meio do caminho. Nós, protestantes, acrescentaremos mais ritual, e vocês, católicos, podem descentralizar a sua estrutura de governo, enquanto nós, juntos, lavamos os pés dos pobres.

Eu sei que soa um pouco jocoso, mas eu estou falando sério. Há muita coisa que podemos aprender uns com os outros, e o aprendizado disso pode nos aproximar mais de algum tipo de reunificação (ao menos de espírito), quase 500 anos depois que Martinho Lutero pregou as suas 95 teses na porta da catedral, dando início assim (inadvertidamente) a Reforma Protestante.

Nós, protestantes, não temos o nosso próprio papa para negociar um grande acordo com Francisco, mas, se ele realmente é o primeiro papa protestante, o problema está resolvido. Tudo o que nós, protestantes, e vocês, católicos, precisamos fazer, para início de conversa, é prestar atenção às vezes em que ele se posiciona no nosso campo comum e nos unirmos a ele lá.



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 12

Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 11

O último capítulo de Eclesiastes é um poema belíssimo sobre a decadência inexorável da vida de cada um de nós.

O envelhecimento nos acomete a todos os que tivemos o prazer de passar pela juventude e ver os anos bons em que tínhamos força, curiosidade e vitalidade para experimentar os prazeres da vida, desde os mais simples até os mais complexos. 

O chamado constante do Pregador à sabedoria não deixa de ser um lembrete para que todos os jovens (de corpo, alma  e espírito) se preparem para o destino inevitável: a morte.

Quando este preparo é feito sabiamente, não deixa de ser uma espécie de "décadence avec élégance" ("decadência com elegância"), já que tolo é aquele que quer retardar indefinidamente ou se revolta contra o processo orgânico inevitável que nos leva ao fim da vida. 

E a morte deve ser vista, também, como uma celebração da vida, como um retorno à casa do Pai (12:7), por mais que seja doloroso pensar que existe um final para a existência, seja a nossa própria, seja a dos nossos queridos. 

É nesse espírito que o Pregador escreve as palavras finais de Eclesiastes, chamando a atenção do jovem para Deus, que é o grande Provedor de todas as coisas, que é o grande sustentador da vida, mas é também Aquele que nos recebe de braços abertos depois de uma vida entregue a Ele.

Assim, a primeira parte do capítulo 12 de Eclesiastes exorta o leitor a lembrar-se do Criador em três momentos (três "antes"), um no v. 1 (que mostra a perda da alegria de viver), outro nos versículos 2 a 5 (que falam da deterioração do corpo) e o terceiro nos versículos 6 e 7 (que se referem ao fim propriamente dito, à morte). 

No primeiro ANTES (v. 1), o Pregador fala da perda da alegria de viver, da importância de se lembrar de Deus e do dom da vida "antes que venham os maus dias" e cheguem os anos em que se possa dizer que neles não há mais prazer, alegria e felicidade. 

Este não deixa de ser um reforço à pregação que ele vinha fazendo, ou seja, de se aproveitar a vida, pelo simples fato de se existir, nos bons e maus momentos. 

Nos vv. 2-5, o Pregador diz que devemos lembrar do Criador ANTES que a decadência física seja incontornável, e a partir daí começa a descrever de uma maneira poética belíssima, como o nosso corpo – paulatina e definitivamente – não responde mais aos estímulos que no circundam. 

É claro que a tendência natural do ser humano é passar por uma fase de esplendor físico na juventude, e a partir de uma certa idade, o organismo começa, por assim dizer, a se desconstruir, assim como o Pregador vinha desconstruindo – nos capítulos anteriores - toda a percepção da vida que o senso comum dita. 

Há um momento final, entretanto, em que o corpo entra em colapso, e a partir daí a vista escurece, os ouvidos mal conseguem detectar o sussurro, o corpo treme, os dentes caem, o prazer sexual (o perecer do "apetite" do v. 5) se esvai, e o sono não serve mais de repouso (o "levantar-se à voz das aves" do v. 4). 

Depois dessa descrição triste, mas realista, vem o desenlace último, o terceiro ANTES (vv. 6), que é o rompimento do cordão de prata e do copo de ouro, o cântaro que quebra junto à fonte, e para mais nada serve senão ser jogado fora. 

Perde o seu viço e a sua utilidade, simplesmente não existe mais. 

Tudo poderia terminar por aí, mas Salomão conclui dizendo que ainda que o pó volte à terra, inservível para os propósitos humanos, por outro lado o espírito volta a Deus, que o deu (v. 7), porque "vaidade de vaidade, diz o pregador, tudo é vaidade" (v. 8). 

Não por acaso, esta é a sublime conclusão do discurso do Pregador, a mesma que ele já adiantara ao iniciá-lo (1:2). 

Mais que um discurso, este é um percurso que ele apresenta, o seu transcurso "debaixo do sol", expressão tão repetida em Eclesiastes, que dá a ideia de que a nossa vida é como um dia que amanhece, amadurece, desvanece e se despede ao escurecer:


1:3 Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol?1:4 Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.1:5 Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu.1:6 O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos.1:7 Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr.1:8 Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.1:9 O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.

Felizmente, há um retornar, não mais para o mesmo dia terreno, onde há lida e dor, mas também alegria e felicidade. 

Há um retorno à casa do Pai, ao Deus criador, ao Pai que espera o filho pródigo voltar para seu lar (Lucas 15), para o dia perfeito, conforme Salomão diz em seus Provérbios:


Prov 4:18 Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.Prov 4:19 O caminho dos ímpios é como a escuridão; nem sabem em que tropeçam.

Este dia perfeito, da luz divina, é o dia da alma imortal, conforme Calvino ensina:

2. ESPIRITUALIDADE E IMORTALIDADE DA ALMA, CONTUDO DISTINTA DO CORPO
Afinal, que o ser humano consta de alma e corpo, deve estar além de toda controvérsia. E pela palavra alma entendo uma essência imortal, contudo criada, que lhe é das duas a parte mais nobre. Por vezes também é chamada espírito. Ora, ainda que estes dois termos difiram entre si em sentido quando ocorre juntos, contudo, onde o termo espírito é empregado separadamente, equivale a alma, como quando Salomão, falando da morte, diz que "o espírito retorna então a Deus, que o deu" [Ec 12.7]. E Cristo, encomendando o espírito ao Pai [Lc 23.46], como também Estêvão o seu a Cristo [At 7.59], não entendem outra coisa senão isto: quando a alma é liberada do cárcere da carne, Deus lhe é o perpétuo guardião.
Entretanto, são absolutamente destituídos de senso aqueles que imaginam que a alma é denominada espírito por ser um sopro, ou força divinamente infundida nos corpos, a carecer, no entanto, de essência, comprovando-o não só a própria realidade, mas ainda toda a Escritura. Sem dúvida é verdade que, enquanto se apegam à terra mais do que é justo, os homens se fazem broncos; aliás, visto que se alienaram do Pai das Luzes [Tg 1.17], foram cegados pelas trevas, de sorte que não pensam que haverão de sobreviver à morte. Contudo, nem assim a luz lhes foi aniquilada nas trevas a tal ponto que não se sintam tangidos por algum senso de sua imortalidade. Sem dúvida que a consciência, que discernindo entre o bem e o mal responde ao juízo de Deus, é sinal indubitável do espírito imortal. Pois, como uma disposição sem essência poderia penetrar até o tribunal de Deus e a si incutiria terror de sua culpabilidade? Ademais, tampouco é o corpo afetado pelo temor de uma penalidade espiritual; ao contrário, só recai na alma, do quê se segue que a alma é dotada de essência.
Já o próprio conhecimento de Deus comprova sobejamente que as almas, que transcendem ao mundo, são imortais, visto que um alento evanescente não chegaria jamais à fonte da vida. Enfim, quando tantos dotes preclaros dos quais a mente humana está enriquecida proclamam sonoramente que algo divino lhe é impresso, são outros tantos testemunhos de uma essência imortal. Ora, a sensibilidade que se instila nos animais brutos não vai além do corpo, ou, pelo menos, não se estende mais longe que às coisas que lhes estão adiante. Também a versatilidade da mente humana, a perlustrar céu e terra e os arcanos da própria natureza, e quando a todos os séculos compendiou no intelecto e na memória, cada evento a dispor em sua ordem, e dos fatos passados a deduzir os futuros, demonstra claramente que no homem se aninha algo distinto do corpo. Mediante a inteligência concebemos o Deus invisível e os anjos, o que ao corpo escapa totalmente; aprendemos as coisas que são retas, justas e honrosas, o que não podemos fazer pelos sentidos corpóreos. Portanto, só o espírito pode ser a sede dessa inteligência. Aliás, o próprio sono, que entorpecendo o homem parece até mesmo privá-lo da vida, é uma testemunha não obscura da imortalidade, quando não só sugere pensamentos dessas coisas que jamais ocorreram, mas ainda presságios quanto ao porvir.
Estou abordando, apenas de leve, estes assuntos que mesmo os escritores profanos exaltam magnificamente, com estilo e expressão mais esplêndidos. Contudo, entre leitores piedosos será bastante um simples lembrete. Ora, se a alma não fosse algo essenciado, distinto do corpo, a Escritura não ensinaria que habitamos casas de barro e que na morte migramos do tabernáculo da carne, despojamo-nos do que é corruptível para que, por fim, no último dia recebamos a recompensa, em conformidade com o que, enquanto no corpo, cada um praticou.
Ora, por certo que essas referências e semelhantes a essas, que ocorrem com freqüência, não só distinguem claramente a alma do corpo, mas ainda lhe transferem o designativo homem, indicando ser ela a parte principal. Ora,quando Paulo exorta os fiéis [2 Co 7.1] a que se purifiquem de toda impureza da carne e do espírito, ele enuncia duas partes nas quais reside a sordidez do pecado. Também Pedro, chamando a Cristo "pastor e bispo das almas" [1 Pe 2.25], teria falado improcedentemente, se não existissem almas em relação às quais desempenhasse este ofício. Nem seria procedente, a não ser que as almas tivessem essência própria, o fato de que fala acerca da eterna salvação das almas, e que ordena purificar as almas, e que desejos depravados militam contra a alma [1 Pe 1.9; 2.11]; de igual modo, o autor da Epístola aos Hebreus [13.17] declara que os pastores velam para que prestem conta de nossas almas.
Com o mesmo propósito é o fato de Paulo [2 Co 1.23] invocar a Deus por testemunha contra sua própria alma, porquanto ela não se faria ré diante de Deus, se não fosse susceptível à penalidade. Isto expressa-se ainda mais claramente nas palavras de Cristo, quando ele manda que se tema àquele que, após haver matado o corpo, pode lançar a alma na Gehena de fogo [Mt 10.28; Lc 12.5]. Ora, quando o autor da Epístola aos Hebreus distingue Deus dos pais de nossa carne, como sendo o Pai dos espíritos, não poderia ele afirmar de modo mais claro a essência das almas.
Além disso, a não ser que as almas liberadas dos cárceres dos corpos continuassem a existir, seria absurdo Cristo representar a alma de Lázaro a desfrutar de bem-aventurança no seio de Abraão, e a alma do rico, por outro lado, destinada a horrendos tormentos [Lc 16.22,23]. Paulo confirma isso mesmo, ensinando que peregrinamos distanciados de Deus durante o tempo em que habitamos na carne; desfrutamos de sua presença, porém fora da carne. E, para que não me alongue mais em matéria de forma alguma obscura, acrescentarei apenas isto de Lucas [At 23.8]: ele menciona entre os erros dos saduceus o fato de não crerem na existência de espíritos e anjos.
(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 1, pp. 180-182)

Tudo, portanto, que fazemos nesta vida interessa a Deus, em toda a extensão de nossa existência, e quanto antes nos lembrarmos para onde vamos (ou deveríamos ir), ou seja, quanto antes nos lembrarmos do nosso Criador, mais desfrutaremos esta vida aqui, com todas as suas limitações, mas também com todas as suas alegrias. 

Após ter promovido, pelo seu discurso-percurso, a desconstrução daquilo que era tido como sábio e proveitoso pela humanidade, o Pregador fincou 4 estacas sobre o terreno pantanoso e instável da vaidade humana, a saber: a sabedoria, a eternidade, a providência divina e o temor de Deus

Desses 4 pilares, apenas 2 têm o condão de tanto ser imanente como transcendente: a sabedoria e o temor de Deus. 

Os dois outros são transcendentes, estão acima das possibilidades do ser e do existir, e é nessa busca da sabedoria mediante o temor de Deus que podemos confiar que tanto a providência divina não nos faltará, como a eternidade nos está reservada pelo Pai que nos aguarda de braços abertos no final da jornada.

Os versículos finais de Eclesiastes (12:9-14), são uma espécie de assinatura do Pregador, um apelo à inspiração divina de suas palavras (vv. 10-11) e um último reforço ao conselho de temer a Deus (vv. 13-14). 

Conforme a experiência demonstra, sempre haverá novos e velhos conselhos a circular entre nós, e nunca os livros conseguirão dar conta deles, nem vale a pena ficar estudando-os tentando descobrir o segredo da vida(v. 12), pois a única coisa que realmente importa é viver e ser feliz com o que temos e alcançamos, e sempre temer a Deus e tê-lO em conta em todas as nossas atividades e em todos os nossos dias.

Se fosse possível resumir o ensino de Eclesiastes em poucas palavras, talvez elas seriam: "aproveite bem a sua vida e lembre-se de que a finitude é sua companheira inseparável, mas você pode ter o Infinito e o Eterno ao seu lado". Basta crer!



FIM



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 9


Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 8

O capítulo 9 de Eclesiastes começa ainda com o eco do último versículo do capítulo 8, ou seja, "o homem não pode compreender a obra que se faz debaixo do sol". 

O discurso do Pregador está perto do fim, e ele começa a preparar o leitor/ouvinte para a conclusão, não sem antes repetir alguns temas que já havia dito, e enfatizar a questão da morte, do tempo e do acaso, principalmente. 

No primeiro versículo, há um jogo interessante entre as palavras "amor" e "ódio", que provoca uma certa controvérsia, sobre se ambos se referem a Deus ou ao homem. 

Ambas as traduções são possíveis, como se percebe das diferentes versões em português:


"os seus feitos estão nas mãos de Deus; e, se é amor ou se é ódio que está à sua espera, não o sabe o homem" (Revista e Atualizada)

"O homem não conhece nem o amor nem o ódio; tudo isto lhe está pela frente" (Tradução Ecumênica)

"O que os espera, seja amor ou ódio, ninguém sabe" (NVI)

"o homem não sabe se Deus o ama ou odeia" (Bíblia do Peregrino)

"O homem não conhece o amor nem o ódio de tudo o que espera" (Bíblia de Jerusalém)

"Deus controla o que as pessoas sábias e honestas fazem e até o amor e o ódio delas" (NTLH)

O versículo, a meu ver, deve ser entendido dentro do seu contexto, que inclui o último versículo do capítulo 8, ou seja, realmente o homem não sabe o que lhe está reservado nesta vida, já que ele não é dono de si mesmo, nem do seu destino, e mesmo as situações sobre as quais ele imagina ter controle geralmente são as que mais lhes escapam das mãos. 

As palavras "amor" e "ódio" podem também significar, respectivamente, "aceitação" ou "rejeição" da parte de Deus, o que, de alguma maneira, se relaciona com o v. 7, em que o Pregador diz que o homem deve viver gostosamente, "pois Deus já de antemão se agrada das suas obras". 

Mais do que propriamente a predestinação, Salomão fala aqui da providência divina, de uma forma que a graça de Deus está em destaque. 

É interessante perceber que o próprio Calvino usa esses versículos para refutar o dogma escolástico de que a fé é uma conjectura moral, ou seja, a pessoa teria certeza de que tem fé em Deus se se sente em paz com Deus pelas obras que realiza:

38. IMPROCEDÊNCIA DO DOGMA ESCOLÁSTICO DE QUE A CERTEZA DE FÉ É UMA CONJETURA MORAL.

Daqui se pode ajuizar quão pernicioso seja esse dogma escolástico de que não podemos estabelecer de outro modo quanto à graça de Deus para conosco do que por uma conjetura moral, segundo cada um não se reputa indigno dela. Certamente, se houvéssemos de julgar por nossas obras que afeto Deus nos tem, confesso que não o podemos compreender nem pela menor conjetura do mundo. Como, porém, deve a fé responder à simples e graciosa promessa, não se deixa nenhuma possibilidade de dúvidas. Ora, pergunto, de que confiança seremos armados, se raciocinarmos que Deus nos é propício com esta condição: desde que a pureza de nossa vida assim o mereça? Entretanto, uma vez que, para tratar destas coisas destinamos seu devido lugar, por ora não iremos mais longe, sobretudo vendo que nada pode haver mais contrário à fé do que a conjetura ou qualquer outro sentimento que tenha algo parecido com a dúvida ou incerteza.E para isso torcem mui abusivamente o testemunho de Eclesiastes, que por vezes, têm nos lábios: "Ninguém sabe se, porventura, seja digno de ódio ou de amor" [Ec 9:1]. Ora, deixando de parte que esta passagem foi incorretamente traduzida na versão corrente, contudo, não pode ser desconhecido até mesmo ás próprias crianças o que Salomão tem em mente com palavras desta natureza, isto é, se alguém queira julgar do presente estado das coisas, as quais delas Deus persegue com ódio, as quais delas abraça em amor, em vão labora ele e se atormenta com nenhum proveito, uma vez que "tudo sobrevém igualmente ao justo e ao ímpio, ao que oferece sacrifícios e ao que não os oferece" [Ec 9.2]. Do quê se segue que Deus não atesta perpetuamente seu amor para com aqueles a quem tudo faz suceder prosperamente, nem manifesta sempre seu ódio para com aqueles a quem aflige.E Salomão faz isso para comprovar a fatuidade do engenho humano, quando em coisas sumamente necessárias de se conhecer ele se vê dominado de tão grande obtusidade. Como havia escrito pouco antes [Ec 3.19], não se pode discernir em que a alma do homem difira da alma do animal, visto que parece morrer da mesma forma. Se alguém daí queira inferir que a convicção que temos acerca da imortalidade das almas se apóia em mera conjetura, porventura com razão não será tido por insano? Portanto, porventura são dotados de são juízo esses que, porque não se pode alcançar nenhuma conclusão da percepção sensória das coisas presentes, concluem que nenhuma certeza existe da graça de Deus?
(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 3, cap. II, p. 63)

Assim, os primeiros versículos do capítulo 9 de Eclesiastes ressaltam que "tudo sucede igualmente a todos" (v. 2), a crentes e incrédulos, a justos e injustos, o destino é o mesmo, o que dá a idéia de que somos todos, digamos, "descartáveis" no final. 

Nem "reciclados" somos, já que tudo jaz no esquecimento (v. 5). De nada adiantou amar, odiar, invejar, pois a vida se foi e tudo foi em vão (v. 6). 

Palavras duras, sem dúvida, se o Pregador tivesse parado por aí. Entretanto, ele realmente crê que vale a pena viver (v. 7), que a vida é melhor do que o nada (v. 9). 

Ele não está pregando uma alienação total, um desânimo generalizado, um distanciamento da vida, um nihilismo desenfreado. 

Tudo o que vier às nossas mãos, façamos conforme as nossas forças (v. 10), até porque, no nosso destino final, nada disso existirá. Pode-se perceber ecos desta lição nas palavras de Jesus:
João 12:35 Disse-lhes então Jesus: Ainda por um pouco de tempo a luz está entre vós. Andai enquanto tendes a luz, para que as trevas não vos apanhem; pois quem anda nas trevas não sabe para onde vai.
E nas de Paulo:
Gálatas 6:10 Então, enquanto temos oportunidade, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé.
Já Derek Kidner, no seu livro "A Mensagem de Eclesiastes" (Ed. ABU, 2ª ed., 1998, pp. 69-70), vê ecos de culturas passadas, como o Gilgamesh, neste trecho de Eclesiastes:
Há notáveis semelhanças entre esta passagem (9:7-10) e algumas linhas da Epopéia de Gilgamesh [placa X], um poema acadiano que data do tempo de Abraão ou antes e que era muito conhecido no mundo antigo. Neste ponto da história o herói, impelido pela morte de seu grande amigo a ir em busca da imortalidade, chega ao jardim dos deuses. Ali a jovem Siduri, a fabricante de vinhos, lhe fala:
"Gilgamesh, por onde você está vagueando?
A vida que está procurando, você nunca encontrará,
Pois os deuses, quando criaram o homem, deram-lhe
A morte como quinhão, e a vida
Ficou retida nas mãos deles.
Gilgamesh, encha o estômago!
Alegre-se dia e noite,
Encha os seus dias de alegria,
Dance e faça música de dia e de noite.
Use roupas limpas,
Tome banho e lave a cabeça.
Olhe para o filho que lhe segura a mão,
E que sua esposa se deleite com o seu abraço.
Apenas essas coisas dizem respeito ao homem.
"Este não é o único lugar onde se encontram sentimentos deste tipo. A canção de um banquete fúnebre egípcio, talvez mais ou menos contemporâneo de Gilgamesh, contém o seguinte conselho, após advertir os vivos acerca do que terão de enfrentar:
"Realiza os teus desejos enquanto estiveres vivo. Unge a tua cabeça com mirra, veste-te de linho fino, e unge-te...., e não aborreças o teu coração, até que chegue o dia da lamentação."

Após destacar a questão da morte, o Pregador segue dizendo que "tudo depende do tempo e do acaso" (v. 11), o que não deixa de ser uma recordação do que já havia dito em Eclesiastes 3, no célebre texto do "há tempo para tudo". 

Afinal, não sabemos a nossa hora de chegar nem de partir (v. 12). A maneira como decidimos sair do portão de casa pode definir a nossa vida (ou a nossa morte) de maneira totalmente inesperada. 

A nossa vida pode depender do simples fato de decidirmos sair pela direita ou pela esquerda, pelo portão de casa, numa linda manhã. 

A morte nos ronda todos os dias, conforme percebemos por uma simples passada de olhos nas manchetes dos jornais, com tantas vítimas do acaso, das balas perdidas, dos diques que se rompem, das pontes e dos meteoritos que caem. 

Já repararam como, às vezes, tudo dá errado? Muitas vezes, eu tive que sair mais tarde de casa, ou pegar a estrada atrasado, porque simplesmente algo (ou uma sucessão de "acasos") deu errado. 

Com o tempo, eu percebi que aquilo muito bem podia ser Deus simplesmente me protegendo de um acaso pior, e eu passei a relaxar depois desta percepção das coisas. 

Mais do que a Lei de Murphy, existe uma providência divina agindo nas nossas vidas, de todos nós, e esta providência às vezes se parece mais com um agente secreto que espreita os acontecimentos mais banais e corriqueiros do nosso dia-a-dia, mas está sempre ali presente, batendo o ponto, influindo nos mínimos detalhes para o nosso bem, mesmo que o aparente mal nos aconteça.

No final do capítulo 9, o Pregador conta uma pequena parábola, para exaltar a sabedoria (v. 13). Ele conta a história de uma pequena cidade, cercada por um grande rei (v. 14), em que um homem pobre, mas sábio, a livrou (v. 15), mas logo caiu no esquecimento do povo que havia salvo (v. 16). 

Esta é uma parábola com vários significados, mas o que mais salta aos olhos, a meu ver, é a questão da gratidão e da ingratidão

No v. 7, já vimos que havia uma espécie de gratidão de Deus para com os seus servos, sem nenhuma razão específica, apenas pela graça dEle mesmo. 

Aqui vemos que o povo daquela cidade deveria ser eternamente grato ao homem pobre, mas eles logo se esqueceram do benefício que este lhes havia feito. 

De fato, não devemos esperar gratidão dos homens, porque a regra é a ingratidão. 

Da mesma maneira, é esta regra que vigora no relacionamento dos homens para com Deus, como o próprio Jesus teve ocasião de vivenciar e delatar quando curou 10 leprosos (Lucas 17:11-19), e apenas um (ainda mais samaritano, ou seja, um pária para a época e contexto social em que vivia) retornou para lhe agradecer. 

Isto depois do Mestre ter dito que o senhor não precisava agradecer ao servo por este ter feito o que lhe havia sido ordenado (Lucas 17:9).

Este é um claro contraste com Eclesiastes 9:7, que é muito mais existencialista, no sentido de nos mostrar a importância de viver uma vida bem vivida, com todos os seus bens e males, e nos lembrarmos sempre de agradecer a Deus pelo dom da vida que Ele graciosamente nos deu.



Leitura seguinte: Revisitando Eclesiastes - capítulo 10




terça-feira, 22 de janeiro de 2013

As "fortunas" de Malafaia, Lula e Calvino

A coluna de Mônica Bergamo na Folha de S. Paulo de hoje, 22/01/13, traz a informação de que a jornalista consultou Silas Malafaia a respeito do seu patrimônio de supostos 150 milhões de dólares, conforme noticiado pela última edição da revista Forbes.

Não sem antes recorrer às suas rotineiras, nauseantes e já esperadas bravatas de que vai processar a revista para "ferrar esses caras", Malafaia frisou que seu patrimônio real está avaliado em 6 milhões de reais, míseros 2% do total estimado pela Forbes.

O telepastor amigo de Mike Murdoch declarou possuir nove imóveis, sendo um em Boca Raton, na Flórida (EUA), a Meca dos televangelistas e cantores gospel brasileiros, lugar onde provavelmente existe a maior necessidade missionária de todos os tempos na história do cristianismo mundial. Há mais caciques e pajés do que índios por lá...

O vizinho de Ary Fontoura e Fernanda Lima em um condomínio de luxo no Rio de Janeiro (segundo também informa Mônica Bergamo) e metido a sabe-tudo deveria se informar melhor sobre as leis e o sistema judicial norteamericano.

Primeiro, a liberdade de expressão, aquela mesma que o Malafaia diz lutar tanto no Brasil (veja aqui ele defendendo o que agora quer condenar), é muito mais que sagrada em terras yankees e raramente a opinião de um órgão da imprensa é punida.

Além disso, é preciso muita grana só para contratar um bom escritório de advocacia nos Estados Unidos (as famosas "law firms"), ainda mais um que queira se aventurar a processar a revista Forbes. Teria Malafaia bala para tanto na agulha?

A não ser que ele recorra aos advogados de Boca Raton especialistas em atender alguns caciques e pajés que são presos com dólares dentro da Bíblia, como já aconteceu por lá...

O novo imbroglio malafaiano surge num momento em que outro veículo estrangeiro, no caso o jornal inglês Financial Times, divulgou recentemente os dados do patrimônio declarado do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, que foram vazados por um hacker, e se revelaram bem menores do que se aquilo que se anunciava há anos.

Malafaia, que sempre faz campanhas desinteressadas para José Serra, arqui-inimigo de Lula, não deve ter gostado de saber que o patrimônio do ex-presidente é menor do que o dele, apesar - cá entre nós - da íntima empáfia que deve tê-lo acometido ao saber que conseguiu amealhar bens mais valiosos do que o de seu desafeto político.

Outro desafeto do telepastor, agora no campo teológico, é o reformador João Calvino, a quem, vez ou outra em suas preleções, acusa de ter pregado a "demoníaca" doutrina da predestinação.

Curioso é perceber o que tem de calvinista que segue Silas Malafaia de olhos fechados, mesmo depois dele tê-los chamados de "demoníacos". Se não a teologia, a ideologia deve explicar...

Ocorre que Calvino, esse "mala" (para Malafaia, obviamente) era um pastor de verdade que ousou ser pobre, apesar de ter sido uma das pessoas que mudaram a história do mundo tal como o conhecemos hoje.

Segundo informa o e-cristianismo, Calvino, este "fracassado demoníaco" (para Malafaia, é claro) vivia com um módico salário pago pelo Conselho de Genebra, que - envergonhado com a situação - insistia em aumentar o soldo do reformador tal era a ninharia que lhes pagavam, mas este se recusava terminantemente a abusar da boa fé, da boa vontade e dos cofres de seu povo.

Enquanto Malafaia, na entrevista acima dada à Folha de S. Paulo, afirma que doou à igreja um Mercedes blindado que havia recebido de presente de um empresário rico amigo seu (embora não revele o destino dela), Calvino recusou até o auxílio-doença mínimo que sua igreja queria lhe pagar.

Muito provavelmente, ninguém jamais pensou em dar a Calvino um cavalo blindado e uma armadura inexpugnável. Afinal, ele era verdadeiramente crente e sabia muito bem Quem o sustentava e o defendeu até o final. 

A fortuna dele era outra, muito diferente...



sábado, 16 de junho de 2012

Perfume calvinista

Um momento de descontração e bom aroma para você, calvinista:





quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Quão calvinista foi Lutero?


Um artigo muito interessante de James R. Swan sobre em que pontos básicos da teologia reformada, em especial a doutrina da predestinação, concordam ou discordam os grandes reformadores João Calvino e Martinho Lutero, traduzido pelo Gustavo (co-editor deste blog) e publicado no portal e-cristianismo. Abaixo, a introdução, e depois o link para quem quiser ler o artigo na íntegra:

I - INTRODUÇÃO


Parece não haver nada mais enfurecedor para um luterano que sugerir que Lutero era fundamentalmente um calvinista em sua visão da soberania e predestinação. O diretor executivo da Concordia Publishing House, Reverendo Paul McCain declara, “Sempre que a questão do porquê alguns são salvos e não outros surge, é normal que calvinistas que defendem que Deus predestinou alguns para o inferno, e outros para o céu, puxem Martinho Lutero em seus argumentos e clamem que eles estão na verdade sendo fiéis ao que Martinho Lutero ensinou. Que isto fique claro: Martinho Lutero não ensinou a predestinação dupla”.

McCain poderia ter vários autores reformados em mente. Em seu livro Escolhidos por Deus, R.C. Sproul conta sua antiga resistência intelectual à doutrina da predestinação. “Minha luta com a predestinação começou cedo em minha vida cristã. Eu conhecia um professor de filosofia no colégio que era um calvinista convicto. Ele declarou a tal visão 'reformada' da predestinação. Eu não gostei. Não gostei tanto. Eu lutei contra ela com unhas e dentes através do colegial”. Parte do argumento de Sproul para eventualmente abraçar a visão reformada inclui uma lista comparando aqueles que mantiveram um tipo parecido de predestinação reformada contra aqueles que não mantiveram. Agostinho, Aquino, Lutero, Calvino e Edwards são colocados contra Pelágio, Armínio, Melanchthon, Wesley e Finney. Sproul aponta que tal comparação não prova a veracidade de uma visão sobre a outra, mas “nós devemos levar a sério o fato de que tais homens letrados concordaram sobre este tema difícil”. Sproul declara,
É importante para nós vermos que a doutrina reformada da predestinação não foi inventada por João Calvino. Não há nada na visão da predestinação de Calvino que não havia sido antes pronunciada por Lutero e Agostinho. Depois, o luteranismo não seguiu Lutero nesta questão mas Melanchthon, que alterou suas visões depois da morte de Lutero. É também digno de nota que em seu famoso tratado sobre teologia, As Institutas da Religião Cristã, João Calvino escreveu pouco sobre o tema. Lutero escreveu mais sobre predestinação que Calvino.
Lutero escreveu mais sobre predestinação que Calvino? Melanchthon alterou a visão luterana da predestinação para os luteranos subsequentes? Tais declarações poderiam facilmente levar a equívocos sobre os pontos de vista de Lutero e Calvino da predestinação, assim como os pontos de vista de Lutero e os chamados cinco pontos do calvinismo. Alguns no campo reformado têm feito precisamente isto. Lorraine no seu A Doutrina Reformada da Predestinação declara que Lutero “entrou na doutrina de coração tão quanto o próprio Calvino” e “Ele até mesmo a declarou mais entusiasmadamente e procedeu a níveis mais duros em defendê-la do que Calvino jamais fez”. O popular livro de introdução ao calvinismo de Duane Edward Spencer coloca Lutero entre aqueles “teólogos partidários” que mantiveram “as preciosas doutrinas da graça conhecidas como calvinismo”. A introdução ao calvinismo de Edwin Palmer se refere a Lutero como um “bom calvinista”. O resumo clássico do calvinismo de Steele e Thomas inclui Lutero como um campeão listado no “modelo exemplar de calvinistas”8.

Este artigo irá examinar os pontos de vista de Lutero comparados às doutrinas reformadas da predestinação, dando atenção aos slogans calvinistas da depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, vocação eficaz e perseverança. Enquanto a teologia de Lutero pode ser teologia da Reforma, ela não é teologia reformada. Se alguém falha em levar em conta as pressuposições de Lutero assim como suas declarações explícitas sobre a predestinação, expiação, perseverança, etc., erros grosseiros contra sua teologia ocorrerão. Enquanto há similaridades entre as visões de Lutero e a visão reformada, diferenças importantes ainda separam os dois lados. Quando o reformado acidentalmente apela para Lutero como um de seus próprios, ele faz assim às custas da precisão histórica.

Continue lendo o artigo no e-cristianismo


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O evangelho de Lucas - parte 39

Lucas 23:27-56

Depois que Simão Cireneu é forçado a carregar a cruz destinada a Cristo no seu trajeto até o Calvário (v. 26), Lucas relata um episódio que só ele, entre os evangelistas, registra: uma conversa altamente emotiva entre Jesus e as mulheres de Jerusalém.

Lucas é o evangelista, digamos, mais “feminista”, no sentido de que dá vez e voz às mulheres de uma maneira muito mais perceptível do que se vê nos outros evangelhos. Aqui, ele fala do pranto das mulheres (v. 27) e da mensagem de Jesus a elas, num discurso relativamente longo (vv. 28-31), em que lhes recomenda – cifrada e profeticamente – que chorassem pela destruição de Jerusalém, com a subsequente dispersão do povo judeu, que se daria no ano 70, ou seja, menos de 40 anos depois.

 Claro que as mulheres não tinham noção de que isto iria acontecer, embora não seja de duvidar que a intuição feminina as fizesse pressentir que algo muito fora da ordem estabelecida estivesse para acontecer. Muito provavelmente, a expressão “lenho verde” do v. 31 equivalia a um provérbio popular da época, e Jesus compara a sua passagem por Israel com um lenho verde, em que tudo florescia e havia esperança de vida verdadeira, e mesmo assim o estavam crucificando.

Há um eco aqui do lamento “mas não quereis vir a mim para terdes vida!” de João 5:40. Logo, certamente não haveria mais “lenho verde” quando ele fosse rejeitado (pelo povo que o próprio Deus havia escolhido para Si) e os seus discípulos perseguidos, mas somente “lenho seco”, vida estéril que se consumiria completamente quando chegassem os dias da desolação de Israel com a ruína final de Jerusalém e seu templo.

Junto com Jesus, dois “malfeitores” são encaminhados à execução (vv. 32-33) no local chamado “Caveira” (ou “Calvário”, do grego κρανίον kranion). Mateus (27:38) e Marcos (15:27) os chamam de “salteadores”. Curioso o contraste que Lucas faz entre a rejeição do povo judeu e a companhia (forçada, no caso) de dois malfeitores que teriam o mesmo destino da execução, a que o evangelista passa rapidamente no v. 33, chamando a atenção para o fato de que Jesus ocupava o lugar central das três cruzes.

Cumprindo a profecia de Isaías 53:12, Jesus era “contado com os transgressores”. A partir daí, Lucas não se diferencia muito dos outros evangelistas, mostrando como Jesus pede ao Pai que perdoe seus executores porque “eles não sabem o que fazem” (v.34), enquanto os soldados repartiam as suas vestes, sorteando-as e cumprindo a profecia do Salmo 22:18.

O v. 35 muda um pouco o foco para a plateia que ali estava para acompanhar a crucificação e certificar-se de que o veredito de Pilatos seria cabalmente cumprido, enquanto as autoridades farisaicas zombavam dele, desafiando-o a salvar-se a si mesmo se era verdade que Ele era o Messias tão ansiado por Israel, o “escolhido de Deus”.

A humilhação pública devia ser tão contagiosa que os próprios soldados romanos se animaram a escarnecer do Mestre, oferecendo-lhe vinagre (v. 36) e repetindo o desafio dos fariseus (v. 37). Lucas registra no v. 38 que acima da cabeça de Jesus estava a inscrição “Este é o Rei dos Judeus” nos 3 alfabetos que eram de uso comum do povo que habitava e transitava pela região, o grego, o hebraico e o latim. Sobre as diferentes versões registradas pelos 4 evangelistas, na sua Bíblia de Estudo, John MacArthur dá a seguinte explicação:
“Os quatro autores dos Evangelhos mencionaram a inscrição, mas cada um registrou uma versão um pouco diferente. Tanto Lucas como João (19:20) relatam que a inscrição estava em grego, latim e hebraico, de modo que os diferentes relatos nos Evangelhos podem simplesmente refletir maneiras alternativas de se traduzir o que estava escrito na placa. É ainda mais provável que cada um dos evangelistas tenha simplesmente relatado a essência da inscrição de maneira elíptica, sendo que cada um omitiu diferentes partes da inscrição como um todo. Todos os quatro Evangelhos concordam com Marcos de que a inscrição dizia O REI DOS JUDEUS (Mt 27:37; Mc 15:26; Jo 19:19). Lucas acrescentou “ESTE É” no início e Mateus começou com “ESTE É JESUS”. A versão de João diz “JESUS NAZARENO”. Ao reunir todas as versões, a inscrição como um todo é “ESTE É JESUS NAZARENO, O REI DOS JUDEUS”.”
A partir do v. 39 até o v. 43, há um inusitado diálogo, se é que pode ser chamado assim, entre Jesus e os dois malfeitores que foram crucificados com Ele, um de cada lado. Há quem diga – embora não exista qualquer evidência conclusiva a esse respeito - que os dois outros não foram crucificados com pregos, mas amarrados cada um à sua cruz, de maneira que estariam em melhores condições físicas do que Jesus, até porque, muito provavelmente, não teriam sido tão torturados como o Mestre havia sido.

Isto lhes daria, então, melhores condições para tentar entravar um diálogo com Jesus. No v. 39, talvez inspirado pela zombaria dos fariseus e dos soldados, ou ainda na esperança de que Jesus tivesse mesmo algum poder sobrenatural que o livrasse da morte, um dos malfeitores provoca Jesus a mostrar que era de fato o Cristo e se salvasse a Si mesmo e – óbvia e convenientemente – aos seus dois companheiros de cruz.

Seu amigo, entretanto, não concorda com este tipo de provocação a um companheiro de crucificação (v. 40), com uma declaração que revela que ele teve uma visão muito mais completa do que realmente estava acontecendo naquele dia e lugar: “Nem ao menos temes a Deus, estando na mesma condenação?”.

É muito interessante que ele estivesse percebendo como a plateia estava se comportando de maneira ímpia ao zombar de alguém naquela condição, que ele reconhecia como diferente, talvez divina, o que fica claro no versículo seguinte (v. 41), quando admite que ambos mereciam a condenação, mas Jesus era um homem inocente, o que o leva a fazer ao Mestre, chamando-O pelo nome, um pedido inesperado: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino” (v. 42).

Aqui é necessário adiantar um aspecto que será indicado mais adiante, no v. 44. A melhor tradução para esse verbo “lembrar” (no grego, μνησθητι - mnaomai) não é o imperativo “lembra-te”, mas “comece a lembrar-se de mim” no sentido de “fazer desse pedido a Sua prioridade nº 1”, dada a urgência que a ocasião requeria. Esta circunstância vai influenciar o advérbio “hoje” do v. 44, como veremos mais à frente.

Este é um dos mais belos mistérios humanos do cenário da crucificação. Tudo indica que este homem foi o único, naquele momento decisivo da história da humanidade, a compreender com surpreendentes olhos espirituais o que – realmente – estava acontecendo com Jesus.

A reação dos apóstolos, de Maria e dos discípulos, indica que eles estavam, de alguma forma, desanimados e temerosos do que estava por vir. Seus olhos miravam apenas as evidências materiais do que lhes parecia uma tragédia que eram obrigados a assistir. A própria estupefação de todos eles, três dias depois, ao constatarem que Jesus ressuscitara, mostra o quão incrédulos eles estavam naquele momento terrível de suas vidas e como os seus olhos espirituais estavam fechados até então.

Um dos malfeitores, entretanto, não tinha esta visão, tanto que lhe faz um pedido que deve ter soado louco a quem o ouviu. Como assim seu companheiro de cruz ia entrar num reino e, ainda por cima, se lembraria dele?

Esta é uma das maiores provas de fé registradas na Bíblia, vindas de um homem sobre o qual pouco se sabe e menos ainda se esperaria que tivesse uma atitude como essa. É possível que ele já tivesse ouvido a pregação de Jesus, ou mesmo O seguido à distância.

O Mestre, então, honra essa maravilhosa prova de fé, e o presenteia com uma das mais belas frases proferidas por Sua abençoada (e abençoadora) boca: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (v. 43). Tanto o pedido do ladrão como a resposta de Jesus mostram que, de alguma forma, era firme em ambos a crença de que a vida não terminava ali, mesmo para os ímpios (já que o ladrão se via nessa condição e Jesus concordava – ainda que tacitamente - com a sua opinião) e que ainda naquele dia, o ladrão estaria com Jesus no paraíso.

Isto foi perfeitamente compreendido por toda a cristandade, seja ela católica, ortodoxa ou protestante, durante quase dois milênios, até que – no século XIX, dois grupos dissidentes em especial, os adventistas e as testemunhas de Jeová, passaram a ter uma interpretação diferente, para adaptá-la ao seu sistema de crenças.

O que eles basicamente questionam é a tradução do v. 43, em que haveria uma pontuação inexistente tanto no texto original como nas traduções mais aceitas, uma vírgula (ou dois pontos) que modificaria completamente o entendimento do seu significado: “Em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso”.

Perceba que o advérbio de tempo “hoje”, nessa versão extemporânea, modificaria o verbo “dizer” e não o “estarás”, o que deixaria essa entrada no paraíso para um futuro indeterminado, um “quem sabe um dia...talvez”. Esta tradução alternativa se justifica, para esses grupos, por uma razão muito mais ideológica do que teológica.

Na sua visão de mundo, o tempo cronológico é essencial para justificar as suas marcações de datas para a volta de Jesus, ou o início do juízo investigativo, ou o fim do mundo propriamente dito. Necessitam, portanto, contar o tempo para Deus da mesma maneira como o contam para o ser humano, com início, meio e fim, ainda que a eternidade e a perfeição sejam valores inalcançáveis para o nosso entendimento presente.

O tempo de Deus tem que caber no nosso calendário gregoriano, o que até favoreceria a interpretação mais aceita, se a isso não se somasse a sua pregação do aniquilacionismo, ou seja, que as almas dos ímpios são extintas, aniquiladas (em contraposição à doutrina da imortalidade da alma), que não há nenhum estado intermediário após a morte e que o inferno não existe.

Esperam uma espécie de paraíso físico, real, no qual o corpo material, de alguma forma, será aproveitado, daí também as suas restrições alimentares. Essa polêmica só faz sentido para quem tem que defender outras doutrinas que julga muito mais importantes para a sua própria constituição e sobrevivência como grupo dissidente da ortodoxia cristã.

A objeção costumeira que fazem à interpretação ortodoxa do v. 43 é que, em João 20:17, depois da ressurreição, Jesus diz que não havia subido ainda ao Pai. É difícil ver algum problema aí, a não ser para criar polêmicas desnecessárias que sirvam à afirmação de alguma doutrina extravagante, porque a ênfase em João 20:17 é no corpo humano de Jesus (“não me detenhas, Maria!”) e na sua ascensão física aos céus, o que ocorreria 40 dias depois.

Tudo isso, ainda que resumido de maneira insuficiente aqui (reconhecemos), os leva a não aceitar a tradução tradicional de Lucas 23:43, que nos parece que não só é a mais correta, como a única compatível não só com o contexto imediato de Lucas 23, mas também com toda a pregação neotestamentária.

Como este não é o espaço e o momento para nos estendermos sobre esse assunto, que realmente demanda uma análise interessante e bastante detalhada, quem quiser se aprofundar em todos os detalhes técnicos da tradução do grego e da discussão acadêmica que a envolve, recomendamos enfaticamente que visite o artigo abaixo:


Especificamente sobre a imortalidade da alma, recomendamos os seguintes artigos:




Apenas para registrar, as testemunhas de Jeová também levantam uma polêmica tola quanto à forma de execução de Jesus, que - segundo eles - teria sido consumada numa estaca e não numa cruz, cuja "justificativa" talvez seja a sua necessidade mórbida, típica de seitas, de se sentirem diferentes e portadores de uma informação única e exclusiva (nada mais gnóstico!), cuja refutação também pode ser lida no link abaixo:

Com quantos paus se faz uma stauros?

A partir do v. 44 começa a ser pintado, com grandes trevas (cumprindo a profecia de Amós 8:9), o quadro dos últimos suspiros de Jesus. O véu do santuário, o Santo dos Santos, que até então era visitado única e exclusivamente pelo Sumo Sacerdote uma vez por ano para fazer expiação pelo povo de Israel (Hebreus 9:3-8), passaria a ter o caminho aberto por Jesus (Hebreus 10:19-22), franqueado a todos os que cressem no seu sacrifício pelo seu próprio sangue derramado na cruz.

Este véu, naquele momento, é rasgado (v. 45), enquanto Jesus entrega o Seu espírito e morre como homem (v. 46). A cena deve ter sido de tal forma tocante e simbólica que o centurião que estava aos pés da cruz reconhece que havia algo de especial naquele homem que acabara se expirar (v. 47).

O contraste gritante apontado por Lucas é que ele não era judeu, mas romano, e mesmo assim glorificava a Deus porque, muito provavelmente, agora entendia o que de fato acontecera naquele local, um “espetáculo”, nas próprias palavras do evangelista, o que fez a multidão sair dali “batendo no peito” (v. 48), o que mostrava um sinal de arrependimento tardio (provavelmente, mais remorso do que arrependimento) pelo que haviam consentido que se fizesse contra um inocente.

 Os discípulos de Jesus estavam vendo tudo isso de longe (v. 49) e coube a José de Arimateia, membro do Sinédrio que não concordara com a execução de Jesus, ir até Pilatos para pedir o corpo de Jesus (vv. 50-52) a fim de lhe providenciar o devido sepultamento (vv. 53-56), dando destaque ao sepulcro escavado na rocha, pertencente ao rico José e cumprindo a profecia de Isaías 53:9, o qual ninguém havia utilizado ainda (v. 53), o que afastaria a suspeita, quando da ressurreição, de que era outro cadáver que estava na tumba.

Apesar das mulheres terem visto onde o corpo de Jesus fora depositado, e terem se preocupado em preparar os perfumes e especiarias para tratá-lo devidamente, já escurecia a sexta-feira da Paixão, e o sábado sagrado começava, não havendo mais tempo para os seus cuidados. Elas voltariam apenas no domingo, quando teriam uma grata surpresa. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.



quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O relógio de Calvino

Uma mirada sobre Calvino fora da seara teológica, publicada no jornal Valor Econômico de 23/09/11:

Calvinismo iniciou cultura relojoeira

Por De Schaffhausen

A tradição relojoeira suíça remonta ao século XVI e está intimamente ligada à Reforma Protestante. O teólogo João Calvino, um dos protagonistas daquele movimento de contestação à Igreja Católica, acompanhou o fluxo de fugitivos da perseguição aos protestantes franceses e exilou-se a Suíça em 1536 - quando ela ainda era Confederação Helvética - e, entre idas e vindas, lá se estabeleceu.

Em Genebra, em 1541, ele começou a pregar suas "leis morais", que aconselhavam os fiéis da nova doutrina a buscar uma conduta diária irrepreensível e a fugir, entre outros pecados, da ostentação.

Os joalheiros, diante do impasse, resolveram começar a se dedicar à relojoaria. Mais discretos que as joias e com uma função prática - a de mostrar as horas -, os relógios (na época apenas de bolso) não eram mal vistos pelo calvinismo. Mais que isso, os mais raros e bem acabados ainda serviam para seus donos como indicativo de prosperidade, principal sinal da "predestinação", um dos pilares centrais da religião.

Em 1601 os relojoeiros em Genebra uniram-se em uma guilda e os relógios suíços já eram reputados em regiões próximas. A partir daí, a tradição de montagem, criação e desenvolvimento das chamadas complicações para relógios mecânicos se espalhou para outras cidades do oeste do país, especialmente aquelas no entorno das montanhas Jura, como Neuchâtel e Bienne.

A indústria relojoeira suíça só viveria tempos realmente difíceis quase 400 anos depois, durante a "crise do quartzo". Movidos a bateria e mais baratos que os mecânicos, os relógios de "quartzo", começaram a ser vendidos em escala a partir da década de 1970 e tiraram a hegemonia suíça.

Muitas marcas sobreviveram - e se destacaram no mercado - vendendo relógios mecânicos como artigo de luxo.



segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O cristão imperfeito

por Calvino:

5. A VIDA CRISTÃ NÃO IMPLICA PERFEIÇÃO, INATINGÍVEL NA PRESENTE CONDIÇÃO HUMANA, PORÉM RECLAMA ESFORÇO, DILIGENTE E CONTÍNUO, DE BUSCÁ-LA, DIA APÓS DIA, SEM DESFALECIMENTO


Não exijo que o viver do homem cristão nada exale senão o evangelho absoluto, o qual, no entanto, não se deve exatamente só almejar, mas também necessário se faz intentar. Contudo, não exijo perfeição evangélica em moldes tão estritos que não se possa reconhecer como cristão aquele que não a haja ainda atingido plenamente. Se esse fosse o caso, seriam todos excluídos da Igreja, uma vez que ninguém se acha que não esteja tão afastado dela por mais que haja adiantado, e contudo não há razão para que sejam rejeitados.

Então, o que fazer? Esteja fixado diante dos olhos este alvo, rumo ao qual se dirijam todas as nossas ações e rumo a ele lutemos e nos esforcemos até chegarmos. Pois não é lícito tentar partilhar com Deus dessas coisas que estão prescritas em sua Palavra, acatando parte delas, e de teu arbítrio desconsiderando outra parte. Ora, por toda parte ele recomenda, em primeiro lugar, a integridade como a parte capital de sua adoração [Gn 17.1; Sl 41.12], termo que significa a sincera candidez de espírito que careça de dolo e fingimento, à qual se contrapõe o coração dobre, como se estivesse dizendo que o princípio do bem viver é espiritual, quando o afeto interior do espírito se devota a Deus, sem fingimento, para cultivar-se a santidade e a justiça. Mas, uma vez que não sobeja a ninguém tanta força, neste cárcere terreno do corpo, que se possa avançar com a justa celeridade da corrida, ao contrário tão grande fraqueza oprime a grande maioria que, vacilando e claudicando, até mesmo rastejando no solo à frente se movem com dificuldade, avancemos, cada um segundo a medida de sua reduzida capacidade, e prossigamos a jornada iniciada. Ninguém vagueará tão desafortunadamente que não avance cada dia ao menos um pouco de caminho.

Portanto, não cessemos de progredir no caminho do Senhor, avançando incessantemente, não nos desesperando ante a insignificância de êxito alcançado. Ora, por mais que o êxito não corresponda ao desejo, contudo, o labor não foi perdido quando o dia de hoje supera o de ontem, contanto que, com sincera candidez, olhemos firmemente para nosso alvo e aspiremos alcançar nossa meta, não nos lisonjeando com adulação, nem condescendendo a nossas más disposições; ao contrário, em esforço contínuo proponhamo-nos a ser cada dia melhores até que alcancemos a perfeita bondade que devemos buscar toda nossa vida. Conquistaremos essa perfeição quando, despojados da debilidade de nossa carne, sejamos plenamente admitidos na companhia de Deus.

(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 3, pp. 159-160)

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