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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Novos ateus rejeitam Deus mas querem igreja e Bíblia

Pedindo antecipadamente perdão por colocar esta introdução em primeira pessoa, eu tenho amigos ateus muito queridos com os quais aprendemos juntos a encontrar um terreno comum de respeito e afeição.

Aprendi também a (pelo menos) tentar compreender a sua aversão à fé, e de certa forma a admirar suas posturas antirreligiosas quando elas se baseiam em opiniões próprias que não têm por fundamento o mero esforço (condenado ao fracasso) de vestir a descrença com as roupas da crença, após descoloridas e lavadas a seco.

Talvez por isso mesmo eu estranhe tanto as iniciativas do neoateísmo em fornecer aos seus seguidores a, digamos, "roupagem" de religião para as suas necessidades de aprendizado e comunhão, como tem acontecido com o surgimento das assim chamadas "igrejas ateístas", fenômeno cada vez mais comum em várias partes do globo.

Fica parecendo que o que esses neoateus realmente sentem é, por assim dizer, uma "saudade de Deus", algo parecido com o que vejo em alguns amigos ateus, que é o engolido desejo de crer sem ter forças para concretizar sua fé, o que não os faz, entretanto, buscar substitutos metafísicos tão óbvios para celebrar a sua não-crença.

A iniciativa neoateísta não deixa de ser uma curiosa manobra para desconstruir a religião usando as ferramentas da própria religião.

Em sua edição de ontem, 09/02/14, o Estadão trouxe a entrevista do filósofo inglês A. C. Grayling (foto acima), que compilou vários textos humanistas com o título de "O Bom Livro" (com o subtítulo "Uma Bíblia Laica") na vã tentativa de substituir a Bíblia judaico-cristã e propiciar aos neoateus uma, digamos, "escritura sagrada" para ser utilizada em seus rituais supostamente seculares.

Leia abaixo a entrevista e o primeiro capítulo do livro de Grayling e tire as suas conclusões:



Autor inglês A. C. Grayling troca santos e parábolas por artistas e filósofos

Escritor diz que não pretendia criticar religiões, mas acrescentar elementos humanistas ao debate

Lúcia Guimarães

Uma Bíblia sem Deus? Isto mesmo. Depois de anos de um pequeno boom editorial do ateísmo, com livros como Deus Não É Grande, de Christopher Hitchens, um filósofo britânico lançou um livro inspirado na Bíblia – mas na sua forma e não no conteúdo.

O Bom Livro, que acaba de sair no Brasil, é uma bíblia humanista que o autor oferece como alternativa à Bíblia cristã. Ao longo de 30 anos, o acadêmico que hoje é Mestre do New College of Humanities, em Oxford, reuniu trechos contidos em 2.500 anos de literatura, filosofia e ciência do Oriente e do Ocidente. O Bom Livro é apresentado em versos e organizado em 12 livros com títulos como Gênesis e Lamentações. Mas os textos são de autores como Confúcio, Heródoto, Aristóteles, Montaigne e Bacon.

Grayling acredita que a história do mundo seria outra se o pensamento científico e filosófico secular tivesse influenciado os autores da Bíblia. Embora o filósofo britânico tenha querido se inserir no debate sobre o ateísmo ele diz que O Bom Livro não é um ataque à religião e sim uma contribuição, uma espécie de terceira via humanista para o debate.

Ele vê o atentado às Torres Gêmeas no 11 de setembro de 2001, em Nova York, como um marco para o reexame da religião. “Até então”, diz, “a agenda religiosa ainda era encarada com certa deferência”. “O 11 de setembro mudou isso mas veja que é ainda muito cedo. Os cristãos estão acostumados a se submeter a alguma perseguição”, argumenta. “Mas a tolerância de islâmicos para a dissidência é bem menor.”

O senhor diz que começou a escrever o livro há 30 anos. Qual foi a motivação inicial? 
Eu estudava para o doutorado em Oxford e comecei a refletir sobre perspectivas éticas diversas. E me perguntei se a história do mundo teria sido diferente se os autores da Bíblia tivessem mergulhado na escrita secular, buscado inspiração em poetas, escritores, figuras que tinham uma compreensão melhor da condição humana. Então comecei a colecionar material não religioso, textos que seriam reunidos como foi reunida a Bíblia.

Críticos que admiram o livro questionam a decisão de fazer o paralelo com a Bíblia. Não seria melhor ter oferecido um livro sem a comparação? 
A Bíblia é organizada e escrita de maneira bastante acessível. Você pode abrir aqui e ali, recorrer ao volume quando quiser e encontrar inspiração. Considero a organização da Bíblia um bom modelo. Uma primeira preocupação minha foi tornar o livro acessível. A segunda foi mostrar que a sabedoria de filósofos, historiadores e poetas era maior do que a de profetas religiosos.

Qual a importância do fato de que o senhor foi criado numa família sem religião?
Sim, fui criado sem acreditar em Deus. Eu encontrei a religião na escola, comecei a observar as crenças diferentes e me causou alguma estranheza. Havia esta ideia de que não haveria “salvação” a não ser que fosse cristão, judeu, hindu. Eu me dediquei a ler a fundo livros sobre diferentes tradições religiosas e percebi que havia restrições assustadoras. Mas devo dizer que aprecio a grande beleza poética de passagens desses livros. Infelizmente, eles não ajudaram muito o progresso humano.

O material foi colecionado ao longo de três décadas mas o livro saiu logo após a explosão do novo ateísmo, de autores como Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harris.
Uma das minhas motivações foi publicar a tempo de fazer parte neste debate. Queria argumentar que, na discussão sobre acreditar ou não em Deus, não prestamos atenção na grande alternativa que é o Humanismo. Quando o debate esquentou, três questões foram separadas. Primeiro, a metafísica, sobre a existência do divino. Depois a questão da relevância do secularismo. E, por fim, o que me parece mais importante, a questão de como nos comportamos e conduzimos nossa vida moral. Não existe o “tamanho único” como resposta. O Humanismo vem de uma tradição, desde Aristóteles e Sócrates, em que nós devemos escolher caminhos compatíveis com nosso potencial. Pode-se viver a “boa vida” de várias maneiras.

Na última década, os Estados Unidos tomaram a liderança, no mundo desenvolvido, de uma tendência cultural que muitos consideram obscurantista. Cito, como exemplo o fato de que o ensino da Teoria da Evolução foi prejudicado em favor do ensino religioso sobre a criação do mundo, nas escolas.
Sim, mas chamo atenção para outro fato que explica esta radicalização. Estima-se que a direita evangélica nos Estados Unidos tenha 60 milhões de pessoas e a maioria delas considera que detém o monopólio da verdade. Mas a população que não declara vínculo religioso é cada vez maior, entre os americanos, especialmente os que têm menos de 35 anos. Então, acredito que há uma minoria vociferando e se debatendo sob pressão. Acredito, também, que vai haver um retrocesso para o fundamentalismo religioso no mundo. Veja que os fundamentalistas islâmicos estão sobretudo se matando uns aos outros. A rivalidade, especialmente entre xiitas e sunitas, que ficou quieta durante séculos, explodiu. É um mundo que está ruindo sob a pressão da globalização. Quando a cultura visual, o cinema, por exemplo, chega a uma comunidade que não está acostumada a questionar seus valores, o desconforto é enorme.

O senhor começou a escrever o livro tendo um leitor em mente? O quanto o seu leitor mudou ao longo dos últimos 30 anos?
Bem, enquanto colecionava o material, fui me inspirando para escrever outros livros e entender quem seria o leitor. Destaco que o livro que lancei em seguida, The God Argument, que lida com questões de deificação e é uma espécie de complemento. Como viajei muito e falei em público sobre os dois volumes, passei a compreender melhor os problemas que mobilizavam o público. Notei que, à medida que a religião perde espaço, há uma grande busca, especialmente entre os que têm mais educação, por recursos que orientem as escolhas de vida. Vejo nesta busca parte da explicação para o sucesso de meus amigos, como Richard Dawkins e Christopher Hitchens. Porque muitos destes leitores vivem entre pessoas que têm fé religiosa e encontraram nos autores ateus alguém que compreendeu seus dilemas. Outra explicação que me ocorreu ao participar de um seminário em Austin, no Texas: a comunidade não religiosa aprendeu com o movimento gay. Os gays americanos bradaram “sou gay e tenho orgulho disso”. Pense nas dificuldades tradicionais do ateu. Se você é um encanador numa cidade sulista americana, ninguém quer contratar seu serviço! E os ateus americanos perceberam que quebrar o isolamento seria a chave da aceitação.

O quanto o colapso econômico do final da década passada, nos Estados Unidos e na Europa, e a alienação provocada pelo desemprego em massa endossam um livro como o seu?
Durante décadas, o debate sobre a moralidade da organização social foi enfraquecido, o lucro endeusado. Mas, ainda que a ideia do socialismo como modelo econômico tenha sido desbancada, pelo menos na Europa, a ideia da justiça social nunca morreu. Quando os sistemas financeiros entraram em colapso, o pêndulo voltou a favorecer essa ideia. Mesmo assim, entre meus alunos, ainda vejo uma erosão do interesse por Humanidades, uma atração excessiva por profissões ligadas a negócios. Quando pais de estudantes vêm me dizer que querem seus filhos com diplomas que favoreçam o emprego a curto prazo eu respondo: a educação não é para um só emprego, é para a vida.





Leia o primeiro capítulo de 'O Bom Livro', de A. C. Grayling

Ao longo de 30 anos, A. C. Grayling, mestre do New College of Humanities, em Oxford, reuniu trechos contidos em 2.500 anos de literatura, filosofia e ciência do Oriente e do Ocidente. O Bom Livro (Objetiva) é apresentado em versos e organizado em 12 livros com títulos como Gênesis e Lamentações, com textos de autores como Confúcio, Heródoto, Aristóteles, Montaigne e Bacon. Leia a seguir o primeiro capítulo.

Gênesis - Capítulo 1

1. No jardim há uma árvore. Na primavera ela dá flores; no outono, frutos.

2. Seu fruto é o conhecimento, ensinando o bom jardineiro a entender o mundo.

3. Assim ele aprende como a árvore passa da semente ao rebento, do rebento à maturidade, pronta para gerar mais vida;

4. E da maturidade à velhice e ao sono, de onde ela retorna aos elementos das coisas.

5. Os elementos por sua vez alimentam novos nascimentos; tal é o método da natureza e seu paralelo com o curso da espécie humana.

6. Foi da queda do fruto de uma árvore assim que nasceu uma nova inspiração para examinar a natureza das coisas,

7. Quando Newton se sentou em seu jardim e viu o que ninguém vira antes: que uma maçã atrai a terra e a terra atrai a maçã,

8. Por uma força mútua da natureza que mantém todas as coisas, dos planetas às estrelas, unidas entre si.

9. Assim todas as coisas se unem numa coisa só: o universo da natureza, onde existem muitos mundos; os orbes de luz numa imensidão de tempo e espaço,

10. E entre eles seus satélites, num dos quais há uma parte da natureza que reflete a natureza em si mesma,

11. E pode meditar sobre sua beleza e seu significado, e pode procurar entendê-la: é a espécie humana.

12. Todas as outras coisas, em seus ciclos e ritmos, existem em si e por si;

13. Mas na espécie humana há também a experiência, que é o que cria o bem e seu contrário,

14. E nos quais a espécie humana procura apreender o sentido das coisas.



sexta-feira, 9 de março de 2012

Ateu Alain de Botton chama Dawkins e Hitchens de "dolorosamente agressivos e destrutivos"

A batata está assando um pouco mais da conta no arraial ateísta, depois que Richard Dawkins criticou a proposta do filósofo suíço Alain de Botton de construir um templo ateu. Haja fogueira de vaidades para propiciar combustão a egos tão inflados. De Botton, autor do livro "Religião para Ateus", se defendeu em artigo publicado ontem, 8 de março, no The Washington Post, em que tenta justificar sua pregação de que os ateus precisam - sim! - da religião (e nela devem se inspirar), se esquecendo de que, formal e ideologicamente falando, o neoateísmo já é uma religião, tendo o objetivo declarado no próprio artigo de vir a substituir aquilo que combate num futuro próximo. Dizendo que escreveu o livro em questão porque "estava profundamente frustrado pela raiva e intolerância dos neoateístas como Richard Dawkins e Christopher Hitchens", chamando o "tipo de ateísmo deles" de "dolorosamente agressivo e destrutivo", Alain de Botton considera que eles "se focavam - num grau bastante inconfortável - na questão de se Deus existe ou não".  O filósofo suíço entende que "a pergunta mais entediante que você pode formular a respeito da religião é se tudo o que a envolve é verdadeiro", criticando a obsessão ateísta com essa questão, que segundo ele, envolve "um grupo radical de crentes fanáticos se batendo com um grupo igualmente pequeno e fanático de ateus". Alain de Botton prefere uma abordagem diferente. Embora reconheça que a religião não deve ser compreendida como "dada por Deus", conclui que "é possível permanecer como um ateu comprometido e, apesar disso, achar que as religiões são esporadicamente úteis, interessantes e consoladoras - além de se manter curioso ante a possibilidade de importar algumas de suas ideias e práticas para o reino secular". Isto tudo como uma espécie de antídoto ao individualismo, ao "endeusamento" da tecnologia e ao perigo de se perder o referencial: "ver o nosso tempo como tudo que temos, esquecer da brevidade do momento presente e parar de apreciar (numa maneira boa) a natureza minúscula das nossas conquistas. E, finalmente, sem Deus, pode haver o perigo de que a necessidade de empatia e comportamento ético seja descartada". O filósofo suíço termina dizendo que quer chamar a atenção dos ateus para algumas dessas lacunas, "algumas das quais podem vir a desaparecer se nós dispensarmos Deus tão bruscamente". Ao menos, Alain de Botton não está sendo contraditório: mesmo que queira terminar eliminando a religião, reconhece que precisa dela a ponto de construir um templo que pelo menos a imite. É mais paradoxo do que contradição, na minha humilde opinião. No fundo, apesar do gnosticismo desenfreado que acomete os novos "papas da iluminação sapiencial", Alain de Botton tem uma preocupação mais estética do que filosófica, mas este é um tema que merece ser melhor explorado, ao qual voltarei em outra ocasião. O ato falho é que, ao tentar responder positivamente à pergunta do título do seu artigo - "Ateus precisam de religião?" - Alain de Botton se esqueceu que eles - de fato - já a têm...




sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Militante ateu Christopher Hitchens morre aos 62 anos de idade



(1949 - 2011)

Conforme já havíamos divulgado aqui no blog no último mês de março, o conhecido militante ateu britânico (radicado nos Estados Unidos) Christopher Hitchens sofria de câncer no esôfago bastante agressivo, pelo que vinha fazendo tratamentos experimentais inclusive com o auxílio de seu oponente (apenas nos debates) cristão Francis S. Collins (leia a história clicando aqui), mas infelizmente não foi possível dar-lhe uma sobrevida um tanto quanto mais longa e digna, pelo que Hitchens veio a falecer em Houston, no Texas, na noite passada, em decorrência de uma pneumonia relacionada ao seu sofrível estado clínico.

Apesar de Hitchens ser um militante ateu que já esteve envolvido em várias polêmicas registradas aqui no blog (clique aqui para lê-las), não sentimos nenhum tipo de alegria ou mórbida vingança na sua morte, pelo contrário, lamentamos profundamente.

As palavras do cristão John Donne (1572-1631) expressam essa sensação estranha de perda de um ser humano como ninguém conseguiu colocar no papel até hoje:
“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.




domingo, 16 de outubro de 2011

O calvário do ateu

O conhecido militante do neoateísmo Christopher Hitchens segue sua luta contra a morte, conforme já foi divulgado aqui no blog, mais especificamente nos textos "Um ateu diante da morte" e "Ateu Christopher Hitchens pode ser "salvo" por adversário cristão". O Estadão de hoje traduz e publica um artigo muito interessante do The New York Times sobre o estágio atual de saúde de Hitchens, por ocasião do prêmio Freethinker of the Year ("Livre Pensador do Ano") que ele acaba de receber. Destaque para a sua postura preocupada com a, digamos, "institucionalização" do ateísmo como religião, constatação sábia, sóbria e constantemente reiterada de Hitchens (veja "Seria o neoateísmo uma antiga religião?") que fica muito evidente no último parágrafo - en especial na última frase - do artigo:

A VIDA PELA ESCRITA

Em tratamento contra um câncer, Christopher Hitchens fala de carreira e morte

CHARLES MCGRATH , THE NEW YORK TIMES , HOUSTON - O Estado de S.Paulo

Christopher Hitchens, o mais famoso ateu dos EUA, recebeu o prêmio Freethinker of the Year na convenção anual da Atheist Alliance of America. Alguns dias antes, disse ter ficado lisonjeado com a honra, mas também um pouco constrangido. "Não estou certo de que precisamos ser homenageados por conta do ateísmo. Não necessitamos de reforço positivo. Por outro lado, temos que nos defender, especialmente num lugar como o Texas."

Hitchens, um prolífico ensaísta e autor de Deus Não É Grande, descobriu em junho de 2010 que estava com câncer em estado avançado no esôfago. Abreviou sua agenda repleta de aparições em público, mas na semana passada abriu uma exceção a pedido da Atheist Alliance - em parte porque a homenagem coincidiu com o dia de sua mudança, há 30 anos, da Inglaterra, onde nasceu, para os EUA. Ele já estava em Houston para se submeter a um tratamento, tendo transformado seu quarto no 12º andar de um hospital em biblioteca.

Hitchens não tem mais aquela antiga corpulência. Sua voz está mais branda do que costuma ser e pela segunda vez desde o início do tratamento, perdeu quase todo o cabelo. Outrora um fumante inveterado, renunciou ao vício. Não tem bebido desde julho, quando um tubo gástrico foi colocado no seu estômago para ele se alimentar. "Este é o aspecto mais deprimente", disse ele. "O paladar desapareceu. Nem mesmo quero comer. É incrível com o que você tem que se acostumar." Mas, em muitos outros aspectos da vida Hitchens continua firme, preferindo se ver como uma pessoa vivendo com câncer e não morrendo da doença.

Para Hitchens, escrever parece ser algo tão natural quanto falar - e ele associa as duas coisas. "Se você consegue falar, consegue escrever. Você precisa ter cuidado para que seu discurso seja o mais imaculado possível. É o que mais temo. Tenho horror de perder minha voz. Escrever é algo que faço para viver, é o meu sustento. Mas é também a minha vida. Não conseguiria viver sem isso."

Seu mais recente livro, publicado no mês passado, é Arguably, enorme coletânea de ensaios. A gama de assuntos é tipicamente hitchensiana. Há textos - quase que miniaturas de panfletos - sobre temas políticos e especialmente sobre o perigo que o terrorismo islâmico e o totalitarismo representam para o Ocidente; panegíricos ao sexo oral; discursos prolixos sobre os indóceis sommeliers. Na introdução, escreve: "Alguns destes artigos foram escritos com a plena consciência de que podem ser realmente os últimos." No seu quarto de hospital, ele sugeriu que a consciência da mortalidade é útil para um escritor, mas deve permanecer latente. "Tento não pensar nisso, salvo uma ou outra vez. Se precisar escolher entre dois assuntos, por exemplo, não vou optar pelo que me aborrece."

O que Hitchens mais lamenta no momento foi que, como tinha que cumprir com seus muitos prazos para entrega de artigos para a imprensa, não teve energia para trabalhar também num livro. Recentemente teve algumas ideias sobre o seu herói, George Orwell. Entre elas, que ele podia ter tido a Síndrome de Asperger - e disse que deveria também inclui-las numa edição revisada do seu livro, lançado em 2002, Why Orwell Matters. Pensou também em escrever um livro sobre a morte. "Poderia chamá-lo de What To Expect When You're Expecting", ele disse rindo.

Mas voltando a falar sério, disse: "Passei algumas noites com a alma sombria, naturalmente, mas ceder à depressão seria uma capitulação, uma derrota." E acrescentou: "Não sei porque fiquei tão doente. Talvez por causa do cigarro, ou talvez seja genético. Meu pai morreu da mesma coisa. Não há sentido em falar de remorso."

No final das contas, refletiu, o ano passado foi muito bom. Ganhou o National Magazine Award, publicou seu livro Arguably, debateu com Tony Blair diante de uma grande plateia e acrescentou dois estados à lista daqueles que já visitou. "Falta somente Dakota do Norte e do Sul e Nebraska, embora talvez não chegue lá, salvo se alguém propuser um tratamento de câncer à base de etanol em Omaha."

Christopher Hitchens conta com uma enorme rede de apoio que inclui sua mulher, Carol Blue, e seus amigos James Fenton e Martin Amis. Martin é conhecido como uma pessoa fria e mordaz, mas quando beijou e abraçou Hitchens, que visitou quando estava a caminho de um festival literário no México, sua afeição pelo amigo era evidente. "O otimismo de Hitch é surpreendente", ele disse mais tarde. "Ele tem um grande amor pela vida, que até invejo, porque acho que sou um pouco deficiente neste aspecto. É curioso dizer, mas ele se comporta quase como um monge tibetano. É como se tivesse tornado religioso". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO



segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Líder ateísta britânica foge de debate com William L. Craig

Polly Toynbee, presidente da Associação Humanista Britânica (British Humanist Association - BHA) desistiu de participar de um debate sobre a existência de Deus, com o conhecido filósofo e apologeta cristão William Lane Craig, que seria realizado no próximo mês de outubro, no Westminster Central Hall, em Londres, sob os auspícios da Premier Christian Radio. Polly Toynbee é muito conhecida por suas críticas reiteradas ao cristianismo, além da coluna que escreve no jornal britânico The Guardian, e - no último mês de abril - havia concordado em debater com William L. Craig, dentro do circuito de discussões agendadas para o The Reasonable Faith Tour do apologeta. A desculpa que Polly deu para desistir do evento foi que "não tinha conhecimento do estilo de debate do Sr. Lane Craig, e a partir do momento que viu seus debates anteriores, percebeu que este não era o mesmo estilo de debate dela". A estranha alegação foi dada na semana passada e causou espécie, já que o mínimo que se espera dos líderes ateístas proeminentes é que eles tenham, pelo menos, "estudado" - um pouco que seja - os adversários, a não ser que a arrogância os impeça de descer a esses detalhes comezinhos tão caros à retórica e à argumentação. Afinal, bastava um telefonema simpático a um ou outro colega ateu para se informar sobre o que a esperava. É que William L. Craig tem debatido com expoentes ateus muito mais conhecidos do que a Sra. Toynbee. Ele é professor e pesquisador de Filosofia na Talbot School of Theology, na California (EUA), e seus debates estão disponíveis no youtube. Entre os seus oponentes estão ateus do porte de Anthony Flew, Lewis Wolpert, Christopher Hitchens, e mais recentemente Sam Harris, que deu um ótimo testemunho a respeito de Craig, descrevendo-o como "o único apologista cristão que colocou o temor de Deus em muitos dos meus companheiros ateus". Logo após o debate com outro titã do neoateísmo, Christopher Hitchens, em abril de 2009, também ficou bastante conhecida a declaração do site ateu Common Sense Atheism, que reconheceu que Craig “spanked Hitchens like a foolish child” ("espancou Hitchens como se fosse uma criança tola"). A vergonha só não é maior para Polly Toynbee, entretanto, pois ela está na doce companhia ateia de Richard Dawkins, seu vice-presidente na BHA, que também se recusa a debater com William L. Craig apelando para os seus conhecidos insultos que a nada levam, senão a uma convicção crescente de que seu discurso só funciona na base da ofensa gratuita. Debate parece não ser o forte da diretoria da BHA, já que o outro vice-presidente, A. C. Grayling, autor da "bíblia humanista" intitulada "The Good Book", também bate o pé e se recusa terminantemente a debater com Craig. Talvez o "não" de Polly tenha sido parido num cafezinho nos corredores da BHA. Curioso: se eles dizem que a razão está do lado deles, do que eles têm medo afinal? Vai ver não querem sair mal na foto. A recusa de Dawkins em debater com Craig foi descrita como "apta a ser interpretada como covardia" por Dr. Daniel Came, professor ateu de Filosofia na Universidade de Oxford, que acrescentou que isto é uma "clara omissão" no curriculum do fujão Dawkins. Um debate com regras claras de argumentação não parece ser a praia dos ateus, a não ser que possam jogar areia na cara do oponente. Talvez este seja o caso de muitos deles, magoados com a religião (por motivos muitas vezes compreensíveis e razoáveis), que migram para o neoateísmo apenas para descarregar suas frustrações na verborragia inconsequente, sem pausa para pensar. Justo eles que se dizem livres-pensadores...

Fonte: bethinking

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Seria o neoateísmo uma antiga religião?


Já há algum tempo existem evidências (para usar um termo caro aos ateus) espoucando aqui e ali sobre a ritualização e "sacramentalização" do movimento ateísta no mundo, inclusive com sumos sacerdotes como Richard Dawkins e Christopher Hitchens. 

Aliás, foi este último que, ao se tratar contra um câncer terminal, comentou sobre o fato de ter sido convidado para oficiar "casamentos ateus", dizendo-se, obviamente, horrorizado com este caminho que o movimento está tomando. 

Há alguns dias atrás, ateus espanhóis foram impedidos de realizar uma "procissão ateia" em protesto contra as festividades católicas da Semana Santa. 

Outro acontecimento recente é o lançamento da "Bíblia Humanista" (The Good Book: A Humanist Bible - "O Bom Livro: uma Bíblia Humanista") pelo escritor A. C. Grayling, que propõe substituir Deus pela filosofia e pela ética. 

Agora do The New York Times vem uma notícia que reforça ainda mais essa impressão: militares ateus norteamericanos estão se movimentando para exigir que as Forças Armadas norteamericanas incluam uma espécie de "capelão ateu" entre os serviços religiosos que tradicionalmente fornecem às suas tropas. 

Atualmente há cerca de 3.000 capelães religiosos servindo as necessidades espirituais dos militares norteamericanos na ativa, a imensa maioria deles de cristãos (católicos e protestantes), mas também há alguns capelães judeus e muçulmanos, um budista, e existe a possibilidade de que se convoque um hindu e outro representando a religião wicca.

Tanto os chefes militares, como os religiosos e a imprensa dos Estados Unidos ficaram surpresos com esta nova demanda dos ateus, que também pode ser chamado de "capelão humanista" por Jason Torpy, líder da Military Association of Atheists and Freethinkers ("Associação Militar de Ateístas e Livre-Pensadores"), o que incluiria o "militar religioso ateu" (com o perdão da contradição) nos serviços comuns a todos os demais capelães, que não necessariamente se dirigem exclusivamente aos militares que professam a mesma confissão de fé, mas rotineiramente oficiam cerimônias ecumênicas com vistas a fortalecer o moral da tropa. 

Torpy não vê nenhum problema em um capelão ateu participar dessas cerimônias, o que, cá entre nós, convenhamos, seria no mínimo estranho. Para ele, "o humanismo desempenha o mesmo papel para ateus que o cristianismo desempenha para cristãos e o judaísmo para judeus, respondendo a questões de preocupação última da vida, e direciona nossos valores". 

Bem, daí a oficiar cerimônias religiosas coletivas seria um tanto quanto torpe, não é, Torpy? [com o perdão do trocadilho infame]

Por sua vez, outra organização ateísta, que curiosamente tem a sigla MASH (como o antigo seriado cômico), a Military Atheists and Secular Humanists ("Militares Ateístas e Seculares Humanistas", apenas para manter o MASH em português), que está sediada em Fort Bragg (North Carolina), pediu que o Exército norteamericano nomeasse um líder ateu para aquela base militar, atitude que foi seguida por outro capítulo do MASH sediado agora na base aérea de Fort Campbell, no Kentucky, em relação ao seu equivalente na Força Aérea. 

Estima-se que cerca de 9.400 dos cerca de 1.400.000 militares norteamericanos na ativa se identifiquem como ateus, e muitos deles se sentem pressionados a se converterem a alguma religião por causa das crenças da imensa maioria que tem algum tipo de fé. 

Não deixa de ser uma preocupação relevante, temos que admitir, mas a exemplo do que acontece em outras áreas da vida em sociedade, é no mínimo muito curioso que os movimentos neoateístas recorram cada vez mais a cerimônias e expedientes religiosos para se posicionarem no mundo, o que levanta a suspeita de que eles sejam apenas mais uma antiga religião que é contra todas as outras religiões. 

Pelo menos, vamos tentar tratar o tema com o humor do vídeo abaixo, já que parece que a clássica esquete da igreja ateísta no domingo de manhã está muito próxima de se tornar realidade:





Leia também:

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Ateus querem se apropriar da palavra "espiritual"

Richard Dawkins vira nome de peixe


quinta-feira, 21 de abril de 2011

"Procissão" de ateus é proibida em Madri

Você, amigo ateu que foi à Espanha, perdeu a viagem, pois não vai rolar a "procissão" que movimentos ateus espanhóis convocaram para esta quinta-feira em Madri, com o fim de protestar contra práticas e valores cristãos, representados sobretudo pela Igreja Católica, que tem enorme influência naquele país. Não deixa de ser interessante, entretanto, observar que o chamado "novo ateísmo" caminha para uma, digamos, "ritualização" ou "cerimonialização" muito parecida com aquelas patrocinadas pela religião, a exemplo do que já comentou Christopher Hitchens em outra oportunidade, dizendo que ateus estavam lhe pedindo que oficiasse casamentos. É muito sintomático e chamativo o fato de copiar rituais católicos, ainda que o objetivo alegado seja contrapor-se às doutrinas que combatem. Confira a notícia do Estadão:


Justiça proíbe 'procissão ateia' em Madri

Seis organizações laicas protestariam contra a 'hipocrisia social e moral' da Semana Santa.

O Tribunal de Justiça de Madri proibiu nesta quarta-feira a realização, prevista para a quinta-feira desta Semana Santa, de uma manifestação antirreligiosa organizada por seis instituições laicas espanholas.

Chamada oficialmente de "procissão ateia", a manifestação levaria às ruas faixas com dizeres como "Congregação da Cruel Inquisição", "Irmandade da Santa Pedofilia" e "Confraria do Papa do Santo Latrocínio" com o objetivo de "derrubar a hipocrisia social e moral que representa a Semana Santa Católica".

Os organizadores disseram que irão acatar a decisão judicial, mas acrescentaram que convocariam uma manifestação similar em outra data simbólica para o Catolicismo.

Eles também prometem realizar um grande evento no próximo mês de agosto durante a visita do Papa Bento 16 a Madri.

Por outro lado, a associação anti-aborto Faz-te ouvir anunciou que analisa o material de divulgação da procissão ateia para saber se é possível abrir um processo, alegando incitação ao ódio.

Chamas

Os organizadores da "procissão ateia" anunciaram com cartazes pelo centro da capital espanhola a hora e percurso do evento, convocado para passar diante de igrejas e ao lado de procissões católicas.

Os cartazes traziam imagens do papa e ilustrações sacras alteradas. Também foram distribuídos folhetos com a frase "a única igreja que se ilumina é a que arde (em chamas)".

O presidente da Associação Madrilenha de Ateus e Livres Pensadores, Luis Veja, disse à BBC Brasil que a proposta da manifestação era "mexer com a ideologia e a consciência católica".

"Queremos uma procissão sim, porque a palavra procissão não é exclusiva do Catolicismo. E vamos continuar combatendo a hipocrisia e o fundamentalismo", afirmou.

As críticas dos laicos se concentram especialmente na intervenção do Vaticano em assuntos políticos como a liberdade religiosa, leis de aborto e casamento gay, além dos escândalos de pedofilia dentro da igreja.

Entre os críticos ao protesto estava o prefeito de Madri, Alberto Ruiz Gallardón, que disse ser contra "provocações contra a fé".

No entanto, ele disse que a prefeitura que "não se considera competente para autorizar ou recusar a celebração desta procissão" e recomendou uma decisão judicial sobre o caso. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.


segunda-feira, 28 de março de 2011

Ateu Christopher Hitchens pode ser "salvo" por adversário cristão

É o que informa hoje o diário britânico The Telegraph. O conhecido militante ateu Christopher Hitchens, 61 anos de idade, autor do livro "Deus Não É Grande - Como a Religião Envenena Tudo", sofre de câncer no esôfago, e está se submetendo a um novo tratamento com o geneticista cristão Francis S. Collins, autor do livro "A Linguagem de Deus". Os dois já participaram - como adversários cordiais - de vários debates sobre fé e ateísmo, e se tornaram amigos neste processo, o que é algo que deve ser enaltecido porque religião (ou a falta dela) não deveria separar ninguém. Agora o cientista cristão, da mesma idade de Hitchens e que foi diretor do renomado Projeto Genoma Humano, selecionou o militante ateu como um dos poucos beneficiários no mundo que terá seu genoma completamente mapeado, tudo obviamente na tentativa de proporcionar-lhe uma cura para o câncer agressivo que enfrenta. Hitchens diz na entrevista que se sente um experimento de laboratório (uma verdadeira cobaia) e deixa claro que não busca um milagre mas uma cura pela ciência.

Entretanto, outro trecho da entrevista é bastante revelador sobre o estágio em que se encontra o movimento chamado "neoateísta" no mundo. Hitchens diz que tem muitos seguidores que estão pedindo para que ele oficie seus casamentos, numa espécie de "cerimônia religiosa ateia", se é que se pode utilizar esta expressão. Acrescenta que esta estranha procura começou há uns 2 anos atrás e que "isto é algo que ele tem que resistir enquanto sobreviver e mesmo que não consiga". Talvez este seja um claro sintoma de que os neoateístas estejam fundando, contrariamente ao que defendem, uma nova religião, o que não é exatamente uma surpresa, já que suspeito que a maior parte da população mundial professa, na verdade, uma espécie de "ateísmo funcional", ou seja, até dizem acreditar nesta ou naquela divindade ou espiritualidade, participam de suas cerimônias religiosas, mas no fundo tocam suas vidas como se nenhuma delas existisse. Pode ser que esta surpreendente confissão de Hitchens, de que o estão convidando para desempenhar as funções de um "sacerdote ateu" de casamentos, seja o ponto de contato entre o ateísmo militante e sua versão funcional. Vai entender...

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Deus: a favor e contra

Excelente resenha publicada no Estadão de ontem, 21/02/11, sobre o lançamento simultâneo no Brasil de dois livros que representam campos opostos na questão da existência (ou não) de Deus: "Em Defesa de Deus", de Karen Armstrong, e "Hitch-22", autobiografia do militante ateu Christopher Hitchens.


A devota e o ateu no terreno da fé

A publicação simultânea de Em Defesa de Deus,da teóloga Karen Armstrong, e do autobiográfico Hitch-22, do rebelde Christophr Hitchens, traz à tona novos argumentos para o debate religioso

ANTONIO GONÇALVES FILHO - O Estado de S.Paulo

A ponte que separa a ex-freira e teóloga inglesa Karen Armstrong do jornalista e escritor também inglês, naturalizado norte-americano, Christopher Hitchens passa sobre o mesmo rio, o da religião. Por coincidência, estão sendo publicados ao mesmo tempo no País os mais recentes livros dos dois, Em Defesa de Deus, de Karen Armstrong, e Hitch-22, a autobiografia de Hitchens, escrita a toque de caixa depois que ele foi diagnosticado com câncer no esôfago. Em sua obra, a inglesa reserva sérias críticas ao patrício, que há quatro anos escreveu um best-seller, Deus Não É Grande, com mais de 300 mil exemplares vendidos. Hitchens, no seu Hitch-22, não menciona Karen Armstrong, mas, na última entrevista concedida antes da metástase que chegou ao pulmão do inveterado fumante, em novembro passado, ele voltou à carga contra os que condenam seu ateísmo, soltando um epigrama filosófico digno do austríaco Wittgenstein (1889-1951): "O que pode ser afirmado sem evidência também pode ser rejeitado sem evidência".

Hitchens foi batizado pela mídia um dos "quatro cavaleiros do Apocalipse", como ficou conhecido o quarteto ateísta formado por ele, o zoólogo evolucionista britânico Richard Dawkins e os filósofos norte-americanos Sam Harris e Daniel Dennett. Em Deus Não É Grande, Hitchens defende que "Deus não criou o homem à sua imagem, mas o contrário", o que explicaria a profusão de deuses e religiões que, segundo ele, "tanto têm adiado o desenvolvimento da civilização". Para Hitchens, nenhuma religião oferece respostas às perguntas mais elementares e a fé num ser supremo não passa de uma crença totalitária que abala os alicerces da liberdade individual.

Karen Armstrong não pensa assim, mas já pensou, assumindo ter sido uma espécie de Richard Dawkins de saias depois que abandonou o convento, aos 25 anos, e passou por uma crise de fé. Hoje, ela diz que compreende a irritação dos novos ateus, porque, como explicou em suas memórias, A Escada Espiral, durante muitos anos não quis nada com a religião, afirmando mesmo que alguns de seus primeiros livros "tendiam ao dawkinsesco". Para Karen, é uma pena que Dawkins, Hitchens e Harris - ela poupa o darwinista neural Dennett - "se expressem com tanto destempero, porque algumas de suas críticas são válidas", entre as quais, os petardos atirados por Hitchens nos fundamentalistas islâmicos. Surpreendentemente, Karen observa em seu livro que, na verdade, os novos ateus "não são suficientemente radicais". Teólogos judeus, cristãos e muçulmanos repetem há séculos que Deus não existe sem que a fé dos religiosos se abale. "Com isso eles não pretendem negar a realidade de Deus, mas salvaguardar a transcendência divina", justifica a autora. Em nossa "sociedade falastrona", conclui, essa tradição do silêncio, que foi esquecida, podia evitar uma montanha de transtornos religiosos.

Em seu livro, Karen concentra-se no cristianismo - ela que escreveu sobre Buda e Maomé, entre os seus 15 livros que tratam de Deus e religiões - "porque é a tradição mais diretamente afetada pelo advento da modernidade científica e a mais castigada pelo novo ataque ateísta". Tanto Hitchens como Dawkins seguiriam, segundo a autora, "um naturalismo científico linha-dura, que reflete o fundamentalismo no qual baseiam sua crítica". O ateísmo, define a acadêmica, "sempre é a rejeição de uma forma específica de teísmo e depende dela como um parasita". Hitchens dependeria totalmente de uma leitura literal da Bíblia, critica a ex-freira. Dawkins, como os fundamentalistas protestantes, teria uma visão simplista dos ensinamentos morais da Bíblia. Os dois - além de Sam Harris - apresentariam a religião no que ela tem de pior, argumenta Karen.

E o que ela tem de pior? O fundamentalismo, segundo a autora, por ser uma forma de fé que com frequência "deturpa a tradição que está tentando defender". A religião, defende Karen, é uma "disciplina prática" que depende de exercícios espirituais e uma vida de dedicação. A racionalidade científica pode até explicar o câncer de Hitchens, mas não pode aplacar seu pavor, observa. Hitchens, que já enfrentou outras tragédias - a mãe se matou num pacto com o amante - teve de engolir o próprio discurso contra o Estado de Israel ao descobrir que a avó materna trocara o prenome judeu Levin por Lynn e que seus ancestrais poloneses tinham como sobrenome Blumenthal.

O jornalista e escritor não nutre simpatia pela ideia sionista, mas dedica um capítulo inteiro de suas memórias a esse conflito pessoal por ter sido criado como católico inglês e forçado pela avó a retomar suas raízes. Diz que não mudaria para Israel, mas se qualifica "como um membro da tribo", embora tenha brigado com Saul Below num jantar ao defender seu amigo Edward Said, justamente no dia em que o palestino foi manchete da revista Commentary, que o classificou de "professor de terror". Hitchens não conseguiu se livrar totalmente do seu trotskismo.

Intolerância

Outra revelação de Hitch 22 que explica a aversão religiosa do autor, casado por duas vezes e com três filhos, é sua homossexualidade, camuflada durante anos. No colégio, em Cambridge, se apaixonou por um garoto loiro de pernas arqueadas, sorriso malicioso e "ligeiramente de direita", o que ele logo resolveu perdoar. Pegos em flagrante, quase foram expulsos da escola, mas os professores convenceram a direção que Hitchens teria boas chances em Oxford, evitando assim o vexame público - e uma ação judicial, porque a homossexualidade era, então, considerada crime na Inglaterra. Hitchens talvez tenha evitado antes o assunto para não dar munição a seus inimigos - e eles são muitos, porque o jornalista defendeu a guerra contra o Iraque, inventou o termo islamofascismo e arrasou com a reputação de madre Teresa de Calcutá, acusando-a de bajuladora de fascistas e de estar a serviço dos poderosos.

Hitchens é intolerante com religiosos e comunga com Sam Harris a ideia de que a própria defesa da tolerância religiosa está nos levando para o abismo. Nessa radicalidade, segundo Karen Armstrong, ambos se assemelham aos fundamentalistas religiosos - "embora devessem ter em mente que foi por não respeitar diferenças que uns e outros cometeram as piores atrocidades na era moderna", citando os campos de concentração nazistas e o Gulag soviético. Como exemplo extremo, a autora repete uma velha história sobre judeus que perderam a fé em Auschwitz e resolvem colocar Deus em julgamento, condenando-o à morte por ser onipotente e permitir o horror nazista. O rabino que dá a sentença é o mesmo que depois conclama os prisioneiros a rezar.

Deus pode estar morto, como sugere a fúria dos ateístas, mas a ex-freira recomenda aos pós-modernos recuperar a vida espiritual que tinham nossos ancestrais, visitando 2 mil anos de teologia para provar que não são as doutrinas, mas a prática de rituais e a introspecção que vão trazer Deus de volta à vida - uma heresia escandalosa para os ex-irmãos de fé de madre Martha, nome religioso adotado pela autora de Jerusalém (tradução de Hildegard Feist, 576 págs., R$ 34) que está sendo relançado, em edição de bolso, pela Companhia das Letras. Nele, Karen comenta a suprema ironia dessa cidade de fé (para a qual convergem os três monoteísmos, cristão, judaico e muçulmano) ser palco de tanta discórdia.

Ancestrais

O que de mais interessante traz o livro Em Defesa de Deus - e vai incomodar os seguidores de Hitchens - é o elogio das religiões primitivas, caracterizadas por rituais, danças, sacrifícios e cantos. É também em defesa dos apóstatas que Karen recomenda o silêncio sobre algo ou alguém do qual ou de quem nada se sabe - e, nesse ponto, ela evoca, como Hitchens, a filosofia de Wittgenstein, autor da frase "Sobre o que não se pode falar deve-se manter silêncio". Para Karen, religião é como música. Não se pode explicar, mas se ouve com prazer e, de quebra, ela ainda opera milagres como acalmar bebês, fazer crescer as flores e curar algumas doenças.

A autora teve esse insight - para usar uma expressão do jesuíta canadense Bernard Lonergan (1904-1984 ) -, ao visitar as cavernas de Lascaux e verificar que religião e arte já surgem inseparáveis. A experiência da iniciação do homem ancestral prova, segundo ela, que não existe no pensamento arcaico o conceito do sobrenatural, ou seja, "nenhum abismo entre o humano e o divino". Não existia o ser supremo, mas apenas um ser.

"Nossos ancestrais normalmente imaginavam uma raça de seres especiais que chamavam de deuses", escreve Karen. Ao se cobrir com peles sagradas para personificar o mestre animal, o sacerdote assumia temporariamente o poder divino, lembra ela, ritual que não era produto de ideias religiosas - ao contrário. Pode parecer que a ex-freira entrou para o time de Hitchens, mas é só impressão. A exemplo de Diderot, ela crê em Deus, contudo vive muito bem com os ateus, como respondeu a Voltaire, que o criticou numa carta. Diderot foi aprisionado por escrever um texto ateísta, ele que cogitou ser jesuíta. Karen, pelo menos até agora, escapou da Inquisição.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Um ateu diante da morte

Coluna de Alvaro Pereira Junior na Folha de S. Paulo de hoje:


Um ateu diante da morte


VIVO ELOGIANDO o Christopher Hitchens. Agora ele vai morrer.

Hitchens, jornalista e ensaísta britânico, é o chamado espírito de porco. Ele pensa ao contrário do senso comum.

Chegou ao extremo de escrever um livro contra a Madre Teresa de Calcutá.

Para ele, a santa freirinha mantinha suas casas de caridade em condições precaríssimas por mero sadismo, já que recebia toneladas de doações em dinheiro e poderia perfeitamente montar hospitais de primeiríssima linha.

Mas eu ia dizendo: Hitchens vai morrer. Tem câncer de esôfago em estado avançado. A doença já se espalhou pelo corpo. Foi detectada tarde demais.

Ele está careca e muito magro, consequências da quimioterapia.

O fato de Hitchens ter escrito um livro chamado "God Is Not Great" ("Deus Não É Grande") e de ser ateu convicto não ajuda muito no que se chama de "consolo espiritual".

Vale muito a pena ver uma entrevista que ele deu há pouco para o repórter Anderson Cooper, na CNN.

Não se faz de vítima, muito pelo contrário. Enquanto o normal, diante de algo tão grave, é perguntar: "Por que eu?", Hitchens indaga: "Por que não eu?".

E explica: o pai morreu da mesma doença. O que não impediu Hitchens de não dar a mínima para a própria saúde, beber e fumar como um desesperado.

Quem acompanhou os passos dele na feira literária de Paraty, em 2006, se lembra de que ele era o último a sair das festanças, zureta e bêbado como um porco.

Agora, ele se confronta com o fim da vida.

Lamenta estar nesse estado tão cedo, aos 61 anos (o pai morreu aos 79). Gostaria, pelo menos, de ver os netos crescerem.


Veja a íntegra da entrevista de Christopher Hitchens a Anderson Cooper na página da CNN. Em inglês, obviamente.

domingo, 13 de junho de 2010

Newton, Einstein e Deus

Artigo de Marcelo Gleiser na Folha de S. Paulo de hoje:

Newton, Einstein e Deus

Os dois gigantes da física tinham uma relação íntima com certa versão do que se costuma chamar de Deus

TALVEZ ISSO SURPREENDA muita gente, mas tanto Newton quanto Einstein, sem dúvida dois dos grandes gigantes da física, tinham uma relação bastante íntima com Deus.

É bem verdade que o que ambos chamavam de "Deus" não era compatível com a versão mais popular do Deus judaico-cristão.

Numa época em que existe tanta disputa sobre a compatibilidade da ciência com a religião, talvez seja uma boa ideia revisitar o pensamento desses dois grandes sábios.

No epílogo da edição de 1713 de sua obra prima "Princípios Matemáticos da Filosofia Natural" (1686), Newton escreve que o seu Deus (cristão, claro) era o senhor do Cosmo e que deveria ser adorado por estar em toda a parte, por ser o "Governante Universal". Essa visão de Deus pode ser considerada panteísta, se entendermos por panteísmo a doutrina que identifica Deus com o Universo ou que identifica o Universo como sendo uma manifestação de Deus.

A visão que Einstein tinha de Deus, devidamente destituída da conotação cristã, ecoava de certa forma a de Newton. Einstein desprezava tudo o que dizia respeito à religião organizada, em particular a sua rígida hierarquia e ortodoxia.

Para ele, um Deus que se preocupava com o destino individual dos homens não fazia sentido. Sua visão era bem mais abstrata, baseada nos ensinamentos do filósofo Baruch Spinoza, que viveu no século 17.

Numa carta dirigida a Eduard Büsching, de 25 de outubro de 1929, Einstein diz: "Nós, que seguimos Spinoza, vemos a manifestação de Deus na maravilhosa ordem de tudo o que existe e na sua alma, que se revela nos homens e animais".

Em 1947, numa outra carta, Einstein escreveu: "Minha visão se aproxima da de Spinoza: admiração pela beleza do mundo e pela simplicidade lógica de sua ordem e harmonia, que podemos compreender".

Como essas posições podem ser usadas no debate sobre a compatibilidade da ciência com a religião?

De um lado, ateus radicais como Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harris argumentam que não pode haver uma compatibilidade, que a religião é uma ilusão que precisa ser erradicada, que o sobrenatural é uma falácia.

De outro, existem vários cientistas que são pessoas religiosas e até mesmo ortodoxas, e que não veem qualquer problema em compatibilizar seu trabalho com a sua fé. O fato de existirem posições tão antagônicas reflete, antes de mais nada, a riqueza do pensamento humano. Nisso, vejo um ponto de partida para uma possível conciliação.

É verdade que o ateísmo radical está respondendo a grupos fundamentalistas que tentam evangelizar instituições públicas. "Guerra é guerra e devemos usar as mesmas armas", ouvi de amigos. Mas o pior que um fundamentalista pode fazer é transformar você nele.

Einstein e Newton encontraram Deus na Natureza e viam a ciência como uma ponte entre a mente humana e a mente divina.

Para eles, adorar a Natureza, estudá-la cientificamente, era uma atitude religiosa. Acho difícil ir contra essa posição, seja você ateu ou religioso. Religiões nascem, morrem e se transformam com o passar do tempo. Mas, enquanto existirmos como espécie, nossa íntima relação com o Cosmo permanecerá.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Papas ateus querem prender papa católico

Os líderes da "religião ateia", Richard Dawkins e Christopher Hitchens, não perdem uma oportunidade de aparecer, conforme a notícia da BBC abaixo:

Intelectuais britânicos querem prisão do papa por abusos na Igreja


Dois renomados intelectuais britânicos expressaram sua intenção de processar o papa Bento 16 pelo seu papel nos casos de abusos sexuais envolvendo padres da Igreja Católica em diversas partes do mundo.

Os escritores Richard Dawkins e Christopher Hitchens disseram que moverão um processo contra o papa tanto na Justiça da Grã-Bretanha, país que o pontífice visitará em setembro, quanto na Corte Penal Internacional.

Dawkins, biólogo de formação, é um conhecido autor de livros que questionam a validade e a veracidade das religiões. Seu trabalho mais conhecido, Deus, um Delírio, vendeu mais de 1,5 milhão de cópias e virou um best-seller publicado em mais de 30 países.

Hitchens é filósofo e cientista político pela Universidade de Oxford, e colunista de diversas publicações, como Vanity Fair, Harper's e Granta.

A argumentação jurídica seguiria a mesma lógica da ação que culminou com a prisão do ex-ditador chileno Augusto Pinochet durante sua visita a Londres em 1998.

Os pensadores alegam que o pontífice "não é imune à prisão no Reino Unido" porque, apesar de ser o chefe do Vaticano, não é um chefe de Estado reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU).

"Acredito que a Justiça britânica rejeitará (o argumento de imunidade do papa)", disse o advogado especializado em direitos humanos que representará os escritores, Mark Stephens.

"Se o papa viesse em visita de Estado, normalmente um chefe de Estado teria imunidade soberana. O que defendo é que ele não é um soberano, não é chefe de Estado, por isso não pode se valer dessa defesa."

Dawkins e Hitchens e seu advogado crêem que podem acusar o papa de crime contra a humanidade.

Escândalos

Bento 16 tem sido alvo de críticas diante das inúmeras denúncias de abusos de menores que surgiram, porque ele chefiava o braço da Santa Sé responsável pela disciplina.

Em muitos casos o papa, então cardeal Joseph Ratzinger, é acusado de omissão. Mas no fim da semana passada veio a público uma carta de 1985 em que ele resiste à ideia de destituir das funções sacerdotais o padre americano Stephen Kiesle, acusado de abuso sexual.

O então cardeal Ratzinger afirmou na carta que o "bem da Igreja universal" precisava ser levado em conta em um ato como a destituição das funções sacerdotais.

O Vaticano confirmou a assinatura do cardeal no documento, revelado pela agência de notícias Associated Press.

Em resposta à divulgação da carta, o porta-voz do Vaticano disse que o documento foi apresentado "fora do contexto".

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