Mostrando postagens com marcador Colômbia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Colômbia. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de novembro de 2017

Papa canonizou 30 brasileiros mortos pelos holandeses em 1645


Olá, amigos leitores!

Como vocês perceberam, passamos o mês de outubro relembrando alguns textos de Lutero, dentre as milhares (talvez milhões) de páginas de sua vasta obra, pra que pudéssemos ver  e ler um panorama multifacetado do seu pensamento, dentro do que foi possível organizá-lo e selecioná-lo.

Retornamos agora, então, com nossa "programação normal", relembrando um fato que aconteceu alguns dias atrás e que representou, de certa forma, um contraponto católico à celebração do quinto centenário da Reforma Protestante, o que demonstra, ainda que de maneira capciosa, que manobras religiosas são também políticas e ideológicas, é só uma questão de aproveitar a ocasião, manja?

Trata-se da canonização de trinta "santos" brasileiros, martirizados pelos holandeses calvinistas que invadiram a então colônia portuguesa do Brasil no século XVII.

A matéria foi publicada na BBC Brasil em 14 de outubro de 2017:

O massacre holandês há 372 anos que levou o papa Francisco a decretar a santidade de 30 brasileiros

Renata Moura

Uma missa de domingo em uma capela, ameaças em campo aberto às margens de um rio e 150 pessoas brutalmente assassinadas. Dois massacres registrados no Rio Grande do Norte e apontados como símbolos da intolerância religiosa de holandeses que dominavam o Nordeste brasileiro em 1645 renderam ao país, 372 anos depois, 30 novos santos - "os primeiros santos mártires do Brasil".

Os chamados "mártires de Cunhaú e Uruaçú" - nomes de duas localidades da época que hoje correspondem aos muncípios potiguares de Canguaretama e São Gonçalo do Amarante - foram beatificados no ano 2000 pelo Papa João Paulo II e canonizados neste domingo pelo Papa Francisco.

"Pela exaltação da fé católica e incremento da fé cristã, declaramos e definimos santos os padres André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, Mateus Moreira e seus 27 companheiros leigos", disse o papa.

Na mesma cerimônia, ele canonizou Cristobal, Antonio e Juan, mortos em 1527 e 1529, e considerados os Protomártires do México e de todo o continente americano; o sacerdote espanhol Faustino Míguez, fundador do Instituto Calasanzio, Filhas da Divina da Divina Pastora, e o Frade Menor Capuchinho italiano Angelo d'Acri.

Os 30 novos santos do Brasil são os únicos mortos identificados em dois massacres que deixaram um saldo de aproximadamente 150 vítimas. Por esse motivo, somente eles foram reconhecidos na cerimônia.

O caso é considerado emblemático, entre outros motivos, porque os massacrados teriam "dado a vida, derramado o sangue, na vivência de sua fé", segundo a Igreja.

Em Cunhaú, 70 teriam sido assassinados em 16 de julho de 1645. O episódio é apontado como retaliação holandesa aos que seguiam a fé católica e se recusavam a migrar para o movimento religioso protestante que difundiam, o calvinismo.

O livro "Beato Mateus Moreira e seus companheiros mártires", escrito pelo Monsenhor Francisco de Assis Pereira a partir de pesquisas históricas e dados que embasaram a beatificação, afirma que os holandeses contaram com a ajuda de indígenas para invadir uma capela da região, fechar as portas e matar quem estivesse dentro, em uma manhã de domingo.

Quase três meses depois desse episódio, em 3 de outubro, outras 80 pessoas também viraram alvos em outro cenário: às margens do rio Uruaçú, foram despidas e assassinadas por não terem se convertido ao protestantismo.

Nem crianças foram poupadas do ataque. Uma delas, com dois meses de vida, foi uma das vítimas, junto com uma irmã e o pai.

Também parte desse segundo grupo, o camponês Mateus Moreira acabou virando símbolo do martírio porque, no momento de sua morte, teria bradado: "Louvado seja o Santíssimo Sacramento". A louvação seria uma prova incontestável de sua fé, na visão católica. Ele foi morto ao ter o coração arrancado pelas costas.

A presença da igreja católica no Nordeste já era considerada "marcante" nessa época, como descreve o Monsenhor Pereira, postulador da causa da beatificação dos mártires, no livro. "Havia padres seculares (padres pertencentes a dioceses), numerosos conventos de franciscanos, carmelitas, jesuítas e beneditinos. Eram mais de 40 mil católicos", escreve ele.

Os holandeses aportaram na região em 1630. Eles chegaram nesse período a Pernambuco e assumiram o comando político e militar da área - estendendo o domínio posteriormente a outras capitanias, inclusive à do Rio Grande, como era chamado o Rio Grande do Norte.

Os colonizadores teriam perseguido e assassinado adeptos da religião católica que não aceitaram virar calvinistas. Na mesma época em que, por meio da Inquisição, a Igreja Católica ainda perseguia, julgava e punia acusados de heresia.

Adultos, jovens e crianças: quem são os mártires canonizados

A lista de novos santos inclui um total de 25 homens, entre eles dois padres, e cinco mulheres. Eram 16 adultos, 12 jovens e duas crianças - a mais nova, o bebê de dois meses de idade.

"A identificação dos canonizados não se dá tanto pelos nomes, mas também por identificação de parentesco e de amizade (das vítimas)", ressalta o padre Julio Cesar Souza Cavalcanti, responsável por encaminhar a canonização dos mártires na Arquidiocese de Natal.

A missa solene em que o papa Francisco proclamou a canonização, na Basílica de São Pedro, em Roma, aconteceu às 10h deste domingo, no horário local (5h no Brasil), com a praça completamente lotada.

A professora aposentada Sônia Nogueira, de 60 anos, ficou em Natal, a mais de sete mil quilômetros de distância da cerimônia, mas em vigília e "com o coração cheio de gratidão pelos mártires".

Ela diz que, por intermédio deles, pediu "a graça da cura e da libertação" para o marido, José Robério, que em 2002 começou a enfrentar as consequências de um câncer no cérebro.

Fortes dores de cabeça levaram o militar aposentado, hoje com 68 anos, ao diagnóstico.

O caminho trilhado a partir desse ponto foi marcado por "apreensão", mas também pelo que Sônia resume com letras maiúsculas em um texto: "MILAGRE DA SOBREVIDA!"

A frase foi escrita por ela em um relatório que enviou à Igreja Católica no Rio Grande do Norte, em 2016, para contar a história do marido em meio a exames, tratamentos de saúde, cirurgias e momentos de "fé".

Rezar foi a estratégia fundamental, segundo Nogueira, para que Robério resistisse à doença, que raramente possibilita sobrevida de mais de três anos aos pacientes após diagnóstico. No laudo médico que a professora apresentou para embasar cientificamente o que considera um milagre, o neurocirurgião que acompanhou o caso de Robério o coloca no rol de "exceções da medicina", porque ele sobreviveu.

"Já se vão 15 anos e 5 meses desde que soubemos do tumor", diz Sônia, em entrevista à BBC Brasil. Ela não tem dúvidas: "Foi um milagre. A medicina foi só um complemento".

Comprovação de milagres não foi exigida no processo

Robério e sua mulher estão entre os mais de cinco mil fiéis que já relataram à Arquidiocese de Natal "graças alcançadas" por meio dos "novos santos" do Brasil. Não foram necessários, porém, milagres para fundamentar a canonização.

"O papa Francisco, quando decidiu pela canonização com a dispensa do milagre, colocou como um ponto básico (para a aprovação) a antiguidade do martírio e a perpetuidade da devoção do povo aos mártires", explica o padre Julio.

Por meio do chamado processo de equipolência, o papa reconhece a santidade considerando três requisitos: a prova da constância e da antiguidade do culto aos candidatos a santos, o atestado histórico incontestável de sua fé católica e virtudes e a amplitude de sua devoção.

O mesmo processo, em que milagres foram dispensados, foi adotado para a canonização de São José de Anchieta, outro santo do Brasil.

Para Nogueira e Robério, no Rio Grande do Norte, o milagre que os mártires teriam realizado é, porém, inquestionável. "Robério foi bem aventurado no processo, por intercessão deles", justifica a aposentada. "Como um paciente pode chegar a (sobreviver) 15 anos tomando uma medicação que segura outros por no máximo três?".

Com dificuldades para falar e andar sem apoio, após a segunda e última cirurgia que fez, o marido faz coro: "Estava muito doente e os mártires me levantaram".

"Quem não vai ficar bom tendo um santo dentro de casa?", ele questiona, referindo- se ao fato de os novos santos terem origem no estado em que mora.

A canonização deste domingo eleva para 36 a quantidade de santos considerados nacionais. Até agora, só um deles, Santo Antônio de Sant'Ana Galvão, mais conhecido como Frei Galvão - santificado em 11 de maio de 2007 - é, porém, brasileiro de nascimento. Os outros cinco já oficializados, São Roque Gonzales, Santo Afonso Rodrigues, São João de Castilho, Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus e São José de Anchieta, são estrangeiros, mas desenvolveram missões no país. Eles são reconhecidos por milagres.

Para o padre Júlio, "a grande mensagem com a canonização é de reconhecer que mesmo pensando diferente, seja em qualquer campo, devemos sempre respeitar o outro e jamais destruir alguém, de nenhum modo".



sábado, 16 de setembro de 2017

Papa diz que quem nega aquecimento global é "estúpido"


E, cá entre nós, o papa pegou leve...

Chamar esses imbecis, para dizer o mínimo, de "estúpidos", até que ficou simpático.

A matéria é da BBC Brasil:

'O homem é um estúpido': a crítica do papa aos que negam mudanças climáticas

O papa Francisco citou a Bíblia para fazer duras críticas a líderes mundiais que se recusam a levar a sério as ameaças das mudanças climáticas.

"O homem é estúpido, é um teimoso que não vê", disse, atribuindo a frase a uma passagem do Antigo Testamento. Em seguida, emendou: "o homem é o único animal que tropeça duas vezes na mesma pedra".

O pontífice disse que os recentes furacões Harvey e Irma mostraram que os efeitos das mudanças climáticas podem ser vistos "com seus próprios olhos".

"Quem nega as mudanças climáticas tem de perguntar aos cientistas. Eles são claros e precisos", assinalou o líder da Igreja Católica em conversa com a imprensa na sua viagem de volta a Roma, após uma visita à Colômbia.

Ele disse ainda que a história julgará os líderes mundiais que nada fazem para minimizar os danos causados ao meio ambiente.

Apesar de o papa associar o aquecimento global às tempestades que provocaram prejuízo milionário a ilhas do Caribe e aos EUA nas últimas semanas, nem todo mundo concorda com essa visão.

Momento inapropriado

O chefe da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, em inglês), Scott Pruitt, disse ser um momento inapropriado para discutir a relação entre aquecimento global e a passagem dos furacões pelo Caribe e EUA.

Pruitt, que anteriormente declarou não concordar que emissões de dióxido de carbono fossem uma das principais causas do aquecimento global, afirmou à rede de televisão CNN que a especulação sobre "as causas e efeitos dos furacões...são descabidas".

O chefe da agência americana disse que as discussões, nesse momento, deveriam focar nos esforços de limpeza.

O prefeito de Miami, Tomás Regalado, que viu a própria cidade ficar parcialmente submersa depois da passagem do furacão Irma, discorda. Ele declarou ao jornal Miami Herald que "agora é a hora de falar sobre aquecimento global". "É a hora do presidente (Trump), da EPA e de quem mais toma decisões de falar sobre mudança climática".

Podemos associar furacões mais devastadores às mudanças climáticas?

Matt McGrath, analista da BBC para assuntos de meio ambiente, afirma que furacões são fenômenos complexos, difíceis de prever, mesmo com ou sem o aquecimento global como pano de fundo das discussões.

Ligar a incidência e a gravidade do impacto dos furacões a mudanças climáticas, diz McGrath, também é difícil de provar, simplesmente porque são eventos raros e não existe uma quantidade significativa de dados históricos para serem analisados e comparados.

Mas o especialista pondera que há algumas certezas. A equação de Clausius-Clapeyron nos permite afirmar que atmosfera mantém mais umidade, diz ele. Para cada grau Celsius extra no clima, a atmosfera pode conter 7% mais de água. Isso tende a tornar as chuvas ainda mais fortes, quando ocorrem.

McGrath diz que outra certeza é que a temperatura dos mares está mais alta - e cita o cientistas Brian Hoskins, do Instituto de Mundanças Climáticas Grantham, que disse que "as águas do Golfo do México estão 1,5 graus mais quentes que a temperatura registrada entre 1980 e 2010".

O debate sobre mudanças climáticas saiu da pauta oficial do governo dos EUA depois que Donald Trump assumiu a Casa Branca.

O presidente dos EUA reverteu algumas leis de proteção ambiental - muita delas implementadas por Barack Obama. Trump também anunciou a intenção de retirar os EUA do Acordo de Paris, assinado em 2015 por 195 países, como resposta global à ameaça da mudança do clima.

No entanto, não se sabe ao certo o que Trump pensa hoje sobre o aquecimento global. Em 2012, ele escreveu no Twitter que "o conceito de aquecimento global foi criado pela China" para prejudicar a competitividade da indústria norte-americana.

Responsabilidade de todos

O papa Francisco, por sua vez, não tem dúvidas sobre essa ameaça. Ele disse temer que o impacto será maior sobre os mais pobres, e critica abertamente quem não se disponha a agir contra o problema.

Suas declarações recentes foram vistas como críticas veladas a líderes como Trump.

"Eu não acho que seja algo para brincar. Cada pessoa tem sua responsabilidade, os políticos têm as suas."

- Desculpe, Sua Santidade, mas eu não acredito.
- Há esperança para todos, meu filho.
- Eu estou falando sobre mudança climática...
- Então, acho que não há esperança para você...




sábado, 18 de fevereiro de 2017

O bacharel mulato e filho de padre que peitou D. Pedro I e as agruras do séc. XIX

Pelo jeito, o mundo não mudou nada desde então.

Talvez tenha até perdido muito em senso de humor, segundo se depreende do artigo de Mary del Priore em História Hoje:

O bacharel mulato que desafiou D. Pedro I

No Brasil imperial, época de mudanças, um personagem importante invadiu a cena: o mulato. Em seu clássico Sobrados e Mocambos, Gilberto Freyre foi dos primeiros a observar fenômeno: ele era uma força nova e triunfante. Segundo Freyre, o mulato vinha se constituindo em elemento de diferenciação da sociedade rural e patriarcal no universo urbano e individualista. Ele estaria se integrando, ou melhor, se acomodando, entre os extremos: o senhor e o escravo. A urbanização do Império, a fragmentação das senzalas em quilombos, o crescimento de alforrias e a inserção nos cargos públicos e na aristocracia de toga, deu visibilidade aos mulatos, “aos morenos”.

Nos jornais, notícias e avisos sobre “Bacharéis formados”, “Doutores” e até “Senhores Estudantes”, principiaram, desde os primeiros anos do século XIX a anunciar o novo poder daqueles que agiam e se expunham em becas escuras. “Trajes de casta capazes de aristocratizar” seus portadores, diz Freyre. Muitos não dispunham de protetores políticos para chegar à Câmara nem subir à diplomacia. Muitos estudaram ou se formaram graças “ao trabalho de uma mãe quitandeira ou um pai funileiro”. Outros faziam casamento com moças ricas ou de famílias poderosas. Mas eram visíveis em toda a parte.

É o mesmo Gilberto Freyre quem conta o exemplo de José da Natividade Saldanha, bacharel mulato e protagonista de uma história surpreendente. Filho de padre, Saldanha estudou para padre no Seminário de Olinda, mas rebelou-se contra o Seminário. Durante a Revolução Pernambucana, em 1817, ele deixou a cidade com os familiares e rumou para Coimbra, a fim de continuar os estudos. Na volta ao Recife, se insurgiu contra Dom Pedro I e sua constituição. Foi eleito secretário do governo de Manoel de Carvalho Paes de Andrade e encontrava tempo para escrever relatórios sobre a revolução, pensando em deixar para a posteridade as informações do acontecido. Com a derrota dos insurretos, Natividade Saldanha fugiu.

Na primeira tentativa frustrada de refugiar-se na França, perdeu o navio e escondeu-se novamente em Olinda. O cônsul americano James Hamilton Bennet o ajudou na fuga para Filadélfia, Estados Unidos, onde sofreu discriminação, por ser mulato. Viajou, então, para a França, onde conseguiu um passaporte português. Sob perseguição do governo brasileiro, ele foi expulso do país pela polícia local. Foi à Inglaterra e, de lá, à Venezuela, onde sofreu privações. Na Venezuela, Natividade Saldanha conheceu o General Abreu e Lima, que o encaminhou a Simon Bolívar. Conseguiu, então, exercer a advocacia naquele país. Ali, comentou a sentença de um juiz branco, Mayer, na qual ele, Saldanha era chamado de mulato. E retrucou:
”[…] Esse tal mulato Saldanha era o mesmo que adquirira prêmios quando ele, Mayer tinha aprovação por empenho e quando o tal mulato recusava o lugar de auditor de guerra em Pernambuco, ele, Mayer, o alcançava por bajulação”.
Saldanha abandonou Caracas e foi à Colômbia pela selva, passando a residir em Bogotá, onde passou a ensinar Humanidades. Soube, então, que tinha sido condenado à morte por enforcamento no Brasil. Tomando conhecimento que um antigo amigo exercia atividade no tribunal que o condenou, enviou-lhe uma procuração com os seguintes termos:
“Pela presente procuração, por mim feita e assinada, constituo por meu bastante procurador na Província de Pernambuco ao meu colega Dr. Tomaz Xavier Garcia de Almeida, para em tudo cumprir a pena que me foi imposta pela Comissão Militar, podendo este morrer enforcado, para o que lhe outorgo todos os poderes que por lei me são conferidos.
Caracas, 3 de agosto de 1825.
Texto de Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2)”, Editora LeYa, 2016.



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Repercute suicídio de padre colombiano acusado de pedofilia



A notícia foi publicada pela acidigital em 16/12/16:

Sacerdote acusado de abusos se suicida na Colômbia

CALI, 16 Dez. 16 / 05:30 pm (ACI).- No último fim de semana se suicidou na Colômbia um sacerdote acusado de abusos sexuais. A Arquidiocese de Cali já tinha o afastado do seu ministério, enquanto realizavam a investigação correspondente.

Em declarações a ‘Notícias Caracol’, o advogado Elmer Montaña afirmou que o Pe. William Lasso Mazuera, que foi encontrado morto em uma propriedade de La Cumbre, no Valle del Cauca, era acusado de abusar de um menor de 14 anos e também haveria “outras crianças supostamente abusadas por este sacerdote”.

“Foi realizada uma investigação de primeira instância, conforme mencionado, corresponde a um suicídio”, afirmou por sua parte o general Nelson Ramírez, comandante da Polícia de Cali, a respeito do sacerdote.

O Pe. William Lasso Mazuera já foi sepultado em Cali.

Em um comunicado publicado no dia 13 de dezembro, a Arquidiocese de Cali assinala acerca do caso do falecido sacerdote que, “desde quando a Cúria recebeu a denúncia, iniciaram o processo estabelecido pela Santa Sé e pelo direito canônico”.

Por isso, explica a Arquidiocese, “o mencionado presbítero foi retirado ad cautelam do exercício do ministério”.

Do mesmo modo, prossegue o texto, “pediram aos denunciantes para que realizassem a denúncia ante as autoridades competentes e pediram reiteradamente ao presbítero Lasso Mazuera para que se apresentasse ante as autoridades como prova da sua suposta inocência”.

“Como Arcebispo de Cali, me uno publicamente à dor da família Lasso Mazuera, do presbitério de Cali, dos paroquianos e dos amigos do sacerdote falecido, por quem oferecemos orações e súplica do perdão divino, se como tudo indica, cometeu suicídio, o qual não impede como ensina a Igreja para reconhecer fatores que 'podem diminuir a responsabilidade do suicida', para esperar um arrependimento salvador nem para deixar de 'orar pelas pessoas que atentam contra sua vida'”.

O Arcebispo de Cali, Dom Darío de Jesus Monsalve, também reiterou seu apelo a “estar vigilantes e denunciar ante as autoridades civis e ante a Cúria ou qualquer autoridade eclesiástica de maneira imediata acontecimentos ou comportamentos suspeitos contra menores”.

“Unamos os esforços construtivos para enfrentar social e culturalmente esta degradação da sexualidade da sociedade humana e a convivência das gerações sem ocultar o verdadeiro mal e suas verdadeiras causas”, concluiu.



sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Evangélicos disseram não ao processo de paz na Colômbia


A notícia abaixo, da versão brasileira do El País, permite que várias reflexões comecem a ser elaboradas.

Primeiro, a espetacularização crescente do discurso dos líderes evangélicos e como a sua posição de suposta autoridade espiritual fazem com que sejam seguidos cegamente por um rebanho gigantesco de pessoas que se recusam a simplesmente pensar.

Segundo, que estranho (para dizer o mínimo) é que uma legião de evangélicos prefira continuar com uma guerra civil que já matou mais de 200 mil pessoas para transformá-la em instrumento de barganha contra os movimentos que lutam pacificamente pelos direitos das minorias.

Quanto ódio em gente que prega e diz praticar o "amor", além de ter como suposto objetivo "colocar os valores do Reino no país e construir".

Como assim? Como este tipo de gente que se diz cristã pode ignorar solenemente conselhos claros como os de Paulo na Carta aos Romanos: "se for possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens" (12:18) e "sigamos as coisas que servem para a paz" (14:19).

Perdão, mas que "valores" são esses? Começar dizendo "não" à paz parece não ser a melhor maneira de promovê-los.

Talvez lhes falte tão simplesmente ler a Bíblia toda vez que seus líderes, com sua encenação de espiritualidade, lhes apresentarem esta ou aquela posição como vinda diretamente do trono de Deus, sem medo de contestá-los e - se for o caso - denunciá-los como aproveitadores da fé e rejeitá-los.

Isto porque parece que estamos mesmo vivendo os últimos tempos, em que "surgem falsos cristos e falsos profetas, fazendo grandes sinais e prodígios, de modo que, se possível fosse, enganariam até os escolhidos" (Mateus 24:24).

Por "grandes sinais e prodígios" talvez não devamos entender como sendo milagres inexplicáveis, mas a capacidade inacreditável de gente que se diz cristã conseguir - mediante seus falsos profetas - barrar um processo de paz deste porte.

A julgar por essas e outras notícias assustadoras, é de se temer o dia em que os evangélicos chegarão ao poder político-ideológico em qualquer nação.

Eis a matéria do El País:

Voto evangélico é chave na vitória do ‘não’ no plebiscito da Colômbia

O líder das igrejas protestantes calcula que dois milhões de fiéis votaram contra o Acordo de Paz

ANA MARCOS

“Jesus Cristo é o único que pode trazer a paz que tanto desejamos.” A mensagem enviada no dia 28 de setembro pelo jogador de futebol colombiano Daniel Torres em sua conta do Facebook se tornou premonitória, além de viral. Em 2 de outubro às 17h da tarde, a Colômbia rejeitou em plebiscito os acordos de paz negociados durante quatro anos com a guerrilha das FARC em Havana. O presidente Juan Manuel Santos perdeu para o furacão Matthew, que impediu muitos eleitores de irem votar. Não conseguiu conter a mensagem do ex-presidente Álvaro Uribe, principal opositor ao processo. E foi incapaz de convencer os 10 milhões de evangélicos existentes no país, segundo cálculos do Ministério do Interior, de que o acordo não punha “em perigo a família tradicional”.

Pouco mais de 12 milhões de colombianos foram às urnas, e mais de seis demonstraram seu descontentamento com o acordo. “Não tenho números oficiais, mas se foram votar quatro milhões de evangélicos, possivelmente a metade deles recusou os acordos”, disse Edgar Castaño, presidente da Confederação Evangélica da Colômbia. “Um total de 99% de nossos fiéis disse ‘não’”, afirma Héctor Pardo, assessor do Conselho Evangélico da Colômbia e representante da Confederação da Liberdade Interreligiosa (Confilerec). Dois dias depois do plebiscito, os dois pastores estavam sentados com o presidente Santos e uma delegação de coletivos religiosos na Casa Nariño para aproximar posições sobre os acordos com as FARC.

Os grupos cristãos da Colômbia não gostam da política do Governo no que se refere a direitos sociais como casamento entre homossexuais, adoção por casais do mesmo sexo, lei do aborto e iniciativas educacionais inclusivas. Além disso, consideram que os pactos com a guerrilha privilegiam a comunidade LGBTI. “Têm seus direitos, mas não podem prevalecer sobre os do resto”, opina Pardo. O pastor esclarece que seu voto foi de consciência, não político. “Nos cultos explicamos os acordos para que os fiéis entendessem a posição do não.” E com base nesta interpretação, consideram que o ponto sobre gênero vai contra seus princípios, apesar de o próprio texto especificar que é “uma questão de igualdade para que homens, mulheres, homossexuais, heterossexuais e pessoas com identidade diversa participem e se beneficiem em igualdade de condições” do que foi pactuado.

“As mudanças que pedem são minúcias. Vamos tirar tudo aquilo que ameace a família, que ameace a igreja e vamos buscar uma frase, uma palavra, que não cause temor aos crentes”, disse o presidente na saída do encontro com os líderes religiosos. “Nos disse que acredita na família”, afirmou Castaño no momento.

Os evangélicos, explicam os dois pastores, trabalham desde então em duas mesas temáticas para apresentar um documento no próximo dia 20 de outubro. Uma equipe de especialistas se encarrega dos temas de educação e família para salvaguardar seus princípios nos acordos. “A Igreja tem uma tarefa importante: colocar os valores do Reino no país e construir”, dizem. Em paralelo, demandam o reconhecimento de suas vítimas e que se inclua a liberdade religiosa. “Esperamos que as propostas cheguem à mesa de Havana e que tenhamos um representante”, propõe Pardo.

O poder dos crentes foi subestimado nas pesquisas que apostaram na vitória do sim no plebiscito. “Estamos presentes nos setores políticos, culturais, econômicos e sociais do país”, lembra Pardo, e coloca como exemplo as manifestações massivas protagonizadas por eles em agosto passado.

Milhares de fiéis saíram às ruas de várias cidades da Colômbia contra a “doutrinação hegemônica da identidade de gênero” que, na opinião dos fiéis, estava exercendo o Ministério da Educação. “Até a Igreja Católica se uniu a nós”, disse o pastor. Apesar de esta instituição ter se mantido neutra durante a campanha e apesar de mais de 100 líderes religiosos terem manifestado seu apoio ao processo de paz, no dia seguinte à votação do referendo, quando o país ainda acordava, Gina Parody, titular da pasta, se demitiu.

O mal-estar transformado em poder real que o Governo não previu durante a campanha do plebiscito foi catalisado por Uribe. O ex-presidente fez da defesa da família tradicional um de seus argumentos eleitorais, consciente do celeiro de votos que há nas 6.000 igrejas evangélicas do país.

Em 26 de setembro, quando a comunidade internacional se reuniu em Cartagena para assinar a paz com as FARC, o político congregou centenas de pessoas para mostrar seu rechaço, entre elas o pastor Miguel Arrázola, importante figura evangélica na cidade e apoio habitual do uribismo. E esta mesma bandeira voltou a tremular em sua reunião com Santos três dias depois do plebiscito: “Apresentamos nossas preocupações com os valores da família”.

“Nós não apoiamos Uribe, nem o procurador Ordóñez, nem Santos nem as FARC”, disse Pardo, enquanto também reconhece a proximidade do Centro Democrático, o partido do ex-presidente, de suas ideias. “Queremos viver em harmonia e o Governo terá de ceder, mas o povo não. E as FARC precisam entender isso”, conclui Castaño.



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Colômbia rejeita acordo de paz em plebiscito

Colômbia: o difícil trajeto para a paz.
O comparecimento no plebiscito era facultativo, e parece que o tratado de paz foi "pras cucuia", não Cúcuta, ali na fronteira com a Venezuela.

Nesses tempos bicudos de polarização radical e fragmentação social e política lá e "acá", a notícia não é nada boa.

A informação é da BBC Brasil:

Em votação apertada, colombianos rejeitam acordo de paz com as Farc

Em uma disputa acirrada entre "sim" e "não", os colombianos rejeitaram o acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), fruto de uma longa negociação e assinado pelo governo e pela guerrilha nesta semana.

Com 99% das urnas apuradas, 50,2% dos votantes optaram pelo "não", enquanto 49,7% escolheram o "sim" no plebiscito deste domingo.

O plebiscito trazia a pergunta "Você apoia o acordo final para o fim do conflito e a construção de uma paz estável e duradoura?".

Dos 30 milhões de eleitores habilitados para votar, pouco mais de 13 milhões compareceram às urnas - isso significa que 67% dos votantes optaram por não participar do plebiscito.

O resultado é considerado surpreendente, já que as pesquisas da última semana apontavam que o "sim" ganharia o plebiscito com uma considerável vantagem.

O acordo de paz havia sido celebrado na Colômbia na última segunda-feira, quando o presidente Juan Manuel Santos e o líder das Farc, Rodrigo Londoño ("Timochenko"), assinaram o documento que punha fim aos conflitos.

O documento foi assinado após quatro anos de negociações, que foram iniciadas por Santos em 2012. O acordo colocaria fim a um conflito armado que começou em 1964 e já deixou mais de 220 mil mortos.

O principal argumento dos críticos ao acordo era a ausência de punição aos culpados de crimes - tanto os integrantes das forças oficiais quanto os da Farc acabariam anistiados caso o acordo de paz fosse confirmado nas urnas, exceto para crimes como torturas, chacinas e estupros.

Não se sabe ao certo qual será o futuro do conflito após esse resultado do plebiscito. Alguns porta-vozes das Farc haviam anunciado que não estariam dispostos a uma renegociação do tratado de paz caso esse fosse rejeitado na votação.



terça-feira, 27 de setembro de 2016

O papel do perdão no processo de paz da Colômbia


Ontem, 26 de setembro de 2016, foi um dia de júbilo para a humanidade, para a América Latina em especial e para a linda Colômbia em particular.

Vestidos de branco, mais de 2 mil autoridades de todos as procedências do mundo presenciaram - em Cartagena de las Indias - a assinatura do tratado de paz entre o governo colombiano e as FARC, pondo fim a um conflito que durou 52 anos, dizimando mais de 260 mil pessoas.

No meio de tanta dor, é possível perdoar? Como fica o perdão tanto do ponto de vista individual como coletivo?

O processo de mediação e entendimento no caso colombiano pode ser replicado mundo afora?

O excelente artigo abaixo, publicado no Estadão de ontem, talvez nos ajude a procurar (e encontrar) as respostas:

‘Prefiro as Farc no Congresso do que causando dor'

Mulher de deputado morto pela guerrilha conta como foi ouvir pedido de perdão e pede apoio ao acordo de paz

"Prefiro ver as Farc no Congresso, transmitindo suas visões por meio de palavras e debates do que vê-las no campo atirando e causando mais dor." Essa é a opinião de Fabiola Perdomo, mulher de um dos 11 deputados de Valle de Cauca sequestrados pela guerrilha em 2002. Como parte do processo de paz, há duas semanas, as Farc pediram perdão pela primeira vez e assumiram total responsabilidade pela morte dos deputados, ações que levaram Fabíola a ter certeza de que a guerrilha mudou e a decidir fazer campanha pelo "sim" no plebiscito de 2 de outubro para saber se a população ratifica o acordo.

Em entrevista ao Estado por telefone, Fabíola relembra os cinco anos que lutou pela vida do marido, Juan Carlos Narváez, e como foi ouvir que ele estava morto. A seguir, a entrevista:

A senhora acreditava em um acordo de paz?

Sempre esperei isso. Sou desses colombianos que acreditavam que a única forma de solucionar o conflito interno era por meio de uma negociação política, do diálogo, pois temos certeza de que o que se consegue pela força, só se mantém pela força. Tivemos muitas dúvidas, principalmente nos anos de radicalização das Farc, quando sequestraram meu marido, tínhamos um governo que só via a guerrilha de forma intransigente e possível de combater militarmente. Quando o atual presidente começou a trabalhar nisso (negociações de paz), fiquei muito feliz de ver que poderia haver um caminho diferente. Aí não duvidava de que chegaríamos a uma saída.

Como foi ouvir o pedido de desculpas das Farc?

Muito doloroso, mas antes de nos pedirem perdão pudemos fazer o que queríamos havia muito tempo: transmitir nossa dor, reclamar por todo o mal que nos causaram e mostrar os danos que sofremos. Foi um encontro de mais de 3 horas e, antes de pedirem perdão, nos disseram a verdade, responderam às perguntas que tínhamos. Depois veio o pedido, o clamor por perdão por parte do secretariado das Farc às famílias dos deputados de Valle de Cauca. Foi um momento muito doloroso, de muitas lágrimas, que ficará gravado na nossa memória, mas que também foi de esclarecimento para as vítimas. Perdoar não é apenas perdoar os que fizeram o mal, é nos dar o direito, como vítimas, de tirar dúvidas, nos livrar do rancor, do ressentimento. Hoje posso dizer que estou trabalhando a dor, posso começar a fechar esse capítulo, o que não pude por 14 anos porque não tinha respostas.

Hoje a senhora pode dizer que finalmente conhece a verdade sobre tudo o que aconteceu?

Posso dizer que 90%. Faltam esclarecer questões que eles (Farc) ainda precisam explicar e, para isso, pediram uma nova reunião em algumas semanas para terem todas as informações. Mas só o fato de ter visto a mudança de atitude de uma guerrilha que deixou de ser arrogante e desumana, que sentiram vergonha diante de nós e suplicaram nosso perdão, para mim já é suficiente.

O que falta ser sanado?

Duas coisas. Nos encontramos com os comandantes do sequestro, mas queremos encontrar quem deu a ordem para disparar os tiros. Para reconstruir a memória de nossos parentes, queremos saber o que ocorreu, como eles viviam. Também pedimos para ter de volta qualquer pertence de nossos maridos que ainda estejam em posse das Farc, como diários, artefatos. Queremos fechar esse capítulo.

Como foi apertar a mão do homem que planejou o sequestro de seu marido?

Decidi fazer isso, principalmente, em homenagem ao meu marido, que foi um grande homem. E fiz isso contando a eles (Farc) quem foi esse homem que mataram, que tiraram de mim. Poder fazer isso foi uma forma de reivindicar o nome do meu marido e mantê-lo na memória de todos, pois quem é mantido na memória nunca morre. Depois das conversas, um padre nos convidou a rezar uma missa e nesse momento tomei a decisão de dar as mãos a Iván Márquez e Catatumbo, me coloquei no meio dos dois, e durante toda a oração eu entreguei as palavras ao meu marido. Todos os pedidos de perdão entreguei a ele, para ele descansar e eu me despedir. Foi doloroso ter a mão dada a quem ordenou a morte de nossos parentes, foi um momento mais do que simbólico, foi um momento de grande nível espiritual, que nos permitiu sentir de verdade o perdão.

A senhora os perdoou depois do encontro?

Acredito que já os havia perdoado, faltava terminar algo que estava inacabado, que é o sofrimento. A dor é inevitável, vou carregar por toda minha vida. Hoje não tenho raiva, ódio, rancor, só uma dor enorme.

Como foi o sequestro de seu marido?

Foi em 2002. Ele era presidente da Assembleia departamental. Naquele dia, 12 deputados chegaram mais cedo para a sessão e estavam trabalhando quando a guerrilha entrou, disfarçada de Exército, dizendo que precisava esvaziar o local porque havia uma bomba. Eles entraram em uma espécie de van, mas não era o Exército. Ficaram em cativeiro por cinco anos e dois meses. Lutamos por cinco anos pela vida deles, por sua liberdade. Minha filha tinha 2 anos quando levaram meu marido. Após cinco anos mataram meu marido, em uma confusão entre eles mesmo, um confronto entre duas frentes. Eles (Farc) assumem toda a responsabilidade, não só porque foram incapazes de protegê-los, mas também porque foi com balas da mesma guerrilha que os mataram.

A senhora recebia notícias de seu marido nesses cinco anos?

Sim. A cada seis meses, nos chegavam provas de sobrevivência. Eram sempre vídeos com cerca de dois minutos para cada deputado falar com a família. Era principalmente para mostrar que estavam vivos. Eles aproveitavam o espaço para nos fazer perguntas, declarar seu amor e, claro, pedir ao governo uma solução.

A senhora se lembra de como recebeu a notícia da morte de seu marido?

Sim. Estava dormindo quando um jornalista me ligou e perguntou 'já viu a notícia de Ancol (uma espécie de agência das Farc)?'. Disse que não e perguntei se havia mais provas de sobrevivência. Então ele me disse 'não, mataram 11 dos 12 deputados'. Eu lhe perguntei 'Juan Carlos está vivo?' e ele me disse que não. Nesse momento senti que meu chão se abria, que tudo estava perdido e os cinco anos de luta haviam sido inúteis.

Como contou para a sua filha?

Foi doloroso. Me fechei em um banheiro chorando e não sabia que ela estava me escutando. Há pouco ela contou que me escutou dizendo a parentes por telefone 'mataram Juan, mataram Juan'. Essas foram as palavras que minha filha se lembrará por toda vida.

O que a senhora pensa agora das Farc ingressarem na vida política?

Prefiro ver as Farc no Congresso, transmitindo suas visões por meio de palavras e debates do que vê-las nos campos atirando, causando mais dor, mais sofrimento, deixando mais órfãos e mutilados nesse país. Acho que devemos dar a eles essa oportunidade e merecemos isso como colombianos. O dano que nos causaram é tão grande que estamos dispostos a ceder à justiça em troca de que não repitam as ações. A não repetição é o melhor incentivo para que as vítimas apoiem esse processo de paz.

Hoje qual é a sensação de fazer campanha pelo sim no plebiscito?

Sentimos que há esperança, que mesmo as pessoas que não acreditavam no processo (de paz) e tinham muitos questionamentos começaram a acreditar, começaram a ver a mudança de atitude das Farc e entender que o processo foi construído milimetricamente, inclui muitos setores do país, desde as vítimas, passando pelos grupos étnicos, setores empresariais e militares. Acredito que seja um acordo sério, responsável e possível. Há uma grande esperança de que esse país mude e possamos virar a página da guerra, do terror, e começar a escrever uma nova página de esperança, perdão, acordo.



sábado, 27 de agosto de 2016

Colômbia finalmente encontra a paz


O futuro dirá se o título deste artigo é realidade ou mais um desejo que se evaporou nas brumas das florestas sulamericanas.

Esperamos que a paz prevaleça, pois das grandes alegrias que tive na vida, uma delas foi ter visitado a Colômbia e conhecido seu povo maravilhoso, muito além dos estereótipos do tráfico e da guerrilha.

Que país lindo, que pessoas dignas, que gente especial!

Por isso festejamos aqui o acordo de paz entre o governo colombiano e as FARC, encerrando uma guerra civil que durava décadas e tem suas origens remotas no Bogotazo de 1948.

Por sinal, guardadas as devidas proporções, o Brasil passa por um momento de fratura político-social que assusta e lembra o triste destino que imergiu a Colômbia no caos e na violência.

Que não copiemos nem renovemos a tragédia que morou ao lado e hoje se encerra!

A matéria é do Opera Mundi:

Santos entrega texto do acordo de paz com FARC ao Congresso e ordena cessar-fogo definitivo

Presidente colombiano pretende realizar 'plebiscito pela paz' no dia 2 de outubro, quando população do país deverá referendar o acordo para que entre em vigor

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, entregou nesta quinta-feira (25/08) ao Congresso Nacional o texto final do acordo de paz do governo com as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), assinado na quarta-feira (24/08) em Havana, Cuba, após quatro anos de negociações.

Durante o ato de entrega do texto ao presidente do Congresso, Mauricio Lizcano, Santos anunciou que a partir da próxima segunda-feira (29/08) estão suspensas as ações militares ofensivas e defensivas contra a guerrilha.

“Como comandante-chefe das Forças Militares da Colômbia, ordeno o cessar-fogo definitivo com as FARC a partir das 00:00 do dia 29 de agosto”, declarou o presidente. “Termina assim o conflito armado com as FARC.”

Além do texto final do acordo de paz, Santos entregou também uma carta em que informa o Congresso que deseja realizar o “plebiscito pela paz” no dia 2 de outubro, quando a população do país deverá referendar o acordo para que ele entre em vigor. Os legisladores colombianos devem analisar e aprovar o texto do acordo de paz e autorizar a convocação do plebiscito.

Santos afirmou que o acordo “deve ser referendado pelo povo para que tenha mais legitimidade”. “Sou consciente de que não tinha essa obrigação legal, mas sim a obrigação moral, porque sou um democrata e porque creio que o povo deve ter a última palavra”, disse.

A assinatura do acordo final de paz foi feita na quarta-feira (24/08) em Havana, capital de Cuba, onde desde novembro de 2012 se desenrolavam os diálogos de paz.

Humberto de La Calle, representante do governo da Colômbia, e Ivan Marquez, representante das FARC, assinaram o texto do acordo final, assim como os representantes dos governos de Cuba e Noruega, países fiadores do processo de paz.

Os dois lados assinaram um cessar-fogo bilateral em junho, um dos pontos mais complexos do acordo e que abriu caminho para a conclusão das negociações. As condições sobre como será a anistia aos guerrilheiros, sua futura participação política e reincorporação à vida civil foram os últimos temas a serem acordados.

Segundo o acordo de paz, as FARC irão pôr fim à luta armada e buscar seus objetivos políticos por meio da atuação partidária na democracia representativa colombiana.

Espera-se que, com a vitória do “sim” ao fim do conflito segundo o texto do acordo no referendo popular em outubro, o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, e o líder das FARC, Timoleon Jimenez, assinem o texto final até o fim deste ano, o que colocaria em vigor o acordo de paz.

Para além destes passos, a verificação e o respeito aos pontos da agenda discutida nos últimos quatro anos em Havana são as garantias para a paz duradoura na Colômbia. Em janeiro, os dois lados concordaram na participação da ONU como monitora do cessar-fogo e da resolução das eventuais disputas que possam surgir da desmobilização de pelo menos 7 mil guerrilheiros armados.

Em agosto, foram anunciados os critérios para escolha dos juízes que atuarão na Jurisdição Especial para a Paz, um tribunal estabelecido no processo de diálogo entre as partes e que julgará delitos cometidos durante o conflito entre a guerrilha e as forças colombianas.

O conflito entre diversas guerrilhas, entre elas as FARC, e o governo colombiano já deixou mais de 220 mil mortos e pelo menos um milhão de pessoas desalojadas desde 1964. O governo Santos e as FARC estão desde 2012 negociando um acordo de paz que dê fim ao conflito entre as duas partes e trate de justiça e reparação para as vítimas e de reinserir as pessoas envolvidas na guerrilha na sociedade civil.





LinkWithin

Related Posts with Thumbnails