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sábado, 26 de novembro de 2016

Adeus, Russell Shedd

Hoje foi um dia triste para os protestantes brasileiros, em especial os batistas, que tinham em Russell Shedd uma referência ímpar em termos de conhecimento e dignidade.

Tive o prazer de conhecê-lo no carnaval de 1986, quando participei de um retiro interdenominacional no Recanto Sal em Americana (SP), então de propriedade da Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo (CEPC), organização missionária de grande relevância no século XX, fundada por Bill Bright (1921-2003).

Foram dias de profunda comunhão e intenso aprendizado, e jamais me esquecerei das preleções de Russell Shedd sobre o evangelho de João, quando ele explicava os textos com aquela fala mansa, folheando lentamente as páginas da Bíblia que ele próprio editou pela Vida Nova.

Vai-se o servo e fica o legado, portanto.

Curioso que ele tenha falecido no mesmo dia em que Fidel Castro teve sua morte anunciada. Shedd aos 87 anos, Castro aos 90 anos de idade.

Duas vidas que, cada um à sua maneira, influenciaram o século XX e ajudaram a moldar o mundo em que vivemos, para o bem ou para o mal, segundo a ótica de quem se sentia abençoado ou ameaçado por cada um deles.

Tive o prazer de visitar Cuba em 2000. A ilha ainda guardava os sinais de uma época em que a Guerra Fria entre americanos e soviéticos dividia o mundo entre "bons" e "maus" ao gosto do freguês.

Senti-me bem, entretanto. Havia um nítido desejo de mudar, mas não se sabia como. O embargo econômico que o governo americano lhes havia imposto desde os tempos da Revolução Cubana parecia ser o mais importante fator limitador para uma mudança de regime.

Lendo a mensagem do presidente dos EUA, Barack Obama, ao povo de Cuba, dizendo que a História julgará Fidel e que o povo cubano está no limiar de novos (e melhores) tempos, fica a esperança de que aquele povo digno e batalhador encontre o lugar de honra que merece na comunidade das nações.

Por seu lado, Russell Shedd conquistou o seu lugar no coração de cristãos brasileiros e de outras nações com a sua humildade e seu enorme amor pela Palavra de Deus, da qual foi um dos maiores e melhores pregadores nas muitas décadas em que esteve entre nós.



sábado, 13 de fevereiro de 2016

O encontro do papa com o patriarca ortodoxo russo em Cuba


Ontem, 12 de fevereiro de 2016, foi um dia histórico para a cristandade. Depois de séculos de separação, o papa Francisco se encontrou com o patriarca Kiril, da Igreja Ortodoxa Russa, no aeroporto de Havana, capital de Cuba, conforme vínhamos divulgando aqui no blog nos últimos dias.

Com cerca de 200 milhões de fiéis, a Igreja Ortodoxa Russa é a maior dentre as comunidades ortodoxas orientais, e até ontem, era a mais reticente em conversar com os católicos, devido ao cisma de 1054, que afastou definitivamente os patriarcados ortodoxos do Oriente do papado de Roma.

Embora evangelizada desde o século IX via Kiev, hoje na Ucrânia, a Rússia somente teve o seu patriarcado autocéfalo (reconhecido como independente pelas demais comunidades ortodoxas) em 1589, com Job sendo o primeiro Patriarca de Moscou e de todas as Rússias.

A Igreja Ortodoxa Russa se tornou, com o avançar dos séculos, a comunidade cristã mais representativa do Oriente, passando a se considerar como a verdadeira sucessora de Roma no imaginário cristão, e imiscuindo-se cada vez mais na política, tanto que o nome do imperador russo (tsar, tzar ou czar) deriva da palavra latina Caesar ("César").

Perseguida durante a etapa comunista da União Soviética (1917-1991), os ortodoxos russos não perderam sua força e hoje têm uma relação bastante próxima com o presidente Vladimir Putin, a quem muitos atribuem um certo "empurrãozinho" para que a reunião de ontem acontecesse.

Coube ao presidente de Cuba, Raúl Castro, servir como uma espécie de "testemunha" para a declaração conjunta dos dois pontífices. O texto integral está no portal da Rádio Vaticano.

Afinal, política, religião e diplomacia continuam fazendo o planeta girar a seu bel prazer desde que o mundo é mundo.

Kiril é o atual patriarca de Moscou, e coube a ele o privilégio de se encontrar com o papa Francisco ontem em Havana, pondo fim a uma separação que remonta à Idade Média.

O encontro dos dois líderes foi bastante fraternal e amistoso, conforme se pode ver no vídeo abaixo, e a melhor conclusão dele foi dada pelo papa Francisco, que disse que "a unidade se faz caminhando".

De fato, a jornada para a reconciliação entre as duas confissões é longa e dura, mas o primeiro e significativo passo foi dado ontem em Cuba.






quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Implicações diplomáticas do encontro do papa com o patriarca ortodoxo russo


A matéria é do IHU:

Santa teimosia. A diplomacia do encontro entre o Papa e Kyrill


"Que este encontro ocorra em Cuba – ilha um tempo símbolo da guerra fria que estava para transformar-se em conflito nuclear, se não tivesse sido pela audaz e profética intervenção do Papa Francisco, caiu outro muro simbólico, é um daqueles sinais dos tempos que é preciso captar: como teria sido possível prosseguir na denegação de um abraço entre irmãos na mesma fé, quando até aguerridos inimigos históricos decidem voltar a se falar? Ali, no aeroporto daquela ilha, se manifestará a eficácia da convicção do Papa Francisco, que possamos definir santamente teimosa: entre irmãos cristãos não se pode não encontrar-se", observa Enzo Bianchi, prior do Mosteiro de Bose, teólogo leigo, em artigo publicado por Repubblica, 07-02-2016. A tradução é de Benno Dischinger. 


Eis o artigo.


Não o acaso, não as coincidências, mas o paciente trabalho de tantas pessoas, as preces de muitos fiéis, a resoluta vontade dos dois primazes e as circunstâncias históricas fizeram, sim, que este abraço ocorresse não na Europa, ante as multidões ortodoxas ou católicas movidas pelo extraordinário evento, mas na ilha do Caribe, num aeroporto, lugar laico por excelência, ágora da era contemporânea, espelho evocativo de viagens, de chegadas e partidas, onde as pessoas se cruzam, mas não se conhecem, mas também lugar simbólico de decolagens para novos horizontes e perspectivas.

Aquela disponibilidade patenteada pela presença de observadores do patriarcado de Moscou no Concílio Vaticano II, aquele auspício levado a Roma pelo metropolita Nikodim falecido entre os braços de João Paulo I, aquele elo cultivado de uma parte e da outra pela ex-cortina de ferro de modo particularmente intenso após a queda do regime soviético, aquele desejo alimentado pelos esforços de João Paulo II e pela sabedoria de Bento XVI é hoje uma realidade, ao mesmo tempo fruto de anos laboriosos e germe de messes ainda mais abundantes.

João Paulo II havia sonhado com a viagem a Moscou e foram feitas tentativas significativas, mas sempre se confrontara com a recusa da igreja ortodoxa russa que repetia: “os tempos não estão maduros”. De fato, a memória dos conflitos patriótico-religiosos entre a Polônia católica e a Rússia ortodoxa e a defesa dos uniatas greco-católicos na Ucrânia da parte de um Papa polaco não dissipava a desconfiança. Fora projetado um encontro no mosteiro beneditino de Pannonhalma na Hungria, depois na Áustria, alguns haviam ventilado o encontro em torno ao Sudário em Turim... mas, de fato nenhuma hipótese resultara praticável.

O que, então, acelerou este encontro, preparado com discrição há meses, mas anunciado no último momento? Quem segue desde o início o intensificar-se das relações entre Roma e Moscou, quem conhece o que anima simples trocas de cortesias ou mensagens aparentemente rituais de vizinhança e fraternidade, pode pesar o alcance deste encontro além de todo cálculo geo-religioso ou de realpolitik.

É um encontro que é fruto de sapiente tessitura diplomática, mas antes e mais ainda de uma consciência compartilhada: os cristãos devem prestar contas de suas divisões e dos esforços para superá-las não por uma instância internacional, mas pela precisa vontade de seu único Senhor. As recaídas concretas também fora do espaço eclesial existirão, certamente, e serão extremamente significativas, mas mais decisivas ainda serão as consequências no plano do diálogo ecumênico e da busca da unidade dos cristãos.

Não se falará de problemas teológicos – por isso faz anos que a comissão mista católico-ortodoxa, e nenhuma igreja ortodoxa particular é habilitada a diálogos teológicos bilaterais – mas, sobretudo dos problemas onerados de sofrimento dos católicos e dos ortodoxos na Ucrânia e dos cristãos perseguidos no Oriente Médio, os quais pedem solidariedade e ajuda.

É significativo, em todo caso, que a Igreja greco-católica na Ucrânia tenha adotado somente agora, após vinte e dois anos, o que tinha sido firmado entre católicos e ortodoxos em Balamand, em 1993: “a recusa do unitarismo como método de busca da unidade de pesquisa da unidade porque oposto à tradição comum das nossas igrejas”.

Também o metropolita Hilarion, ao apresentar o evento, recordou que motivos de tensão permanecem, sobretudo na intricada questão ucraniana, bem como impulsos à solidariedade se fazem urgentes nos Países onde os cristãos, independentemente de sua confissão, são vítimas de arbitrariedades, violências e perseguições.

Mas, na ótica cristã, o principal fator de aproximação não são as adversidades que surgem dentro ou fora do espaço eclesial, nem as oportunidades estratégicas de hipotéticas santas alianças, e sim a vontade de restabelecer aquela comunhão fraterna que é grande sinal que caracteriza os discípulos de Cristo.

Uma concórdia não “contra”, não em oposição a inimigos externos, mas fruto de uma comum conversão ao Senhor da paz e da unidade. Os cristãos não procuram a unidade porque assim lhes convém a ser muito mais numerosos, mais fortes de modo a contar mais plenamente entre os poderosos deste mundo: a procuram porque é a precisa vontade do próprio Jesus, e, segundo os Evangelhos, é o último preceito por Ele confiado aos seus discípulos.

É fácil imaginar que este encontro terá um peso considerável também sobre os trabalhos do próximo sínodo pan-ortodoxo: não porque expressão de alguma ingerência do bispo de Roma nas questões internas ao cristianismo do Oriente, mas porque capaz de favorecer um clima de diálogo e de recíproca compreensão também no interior da própria ortodoxia.

Não por nada, o primeiro a alegrar-se por este anúncio foi precisamente o patriarca ecumênico Bartholomeos. A nítida cordialidade de relações subitamente instaurada entre Francisco e Bartholomeos – o primus inter pares da ortodoxia – poderá agora caracterizar também as relações com o primaz da Igreja ortodoxa com o maior número de fiéis. Uma vez que dois guardiões se cruzam e dois corações se falam, de fato, é difícil que o gelo e a distância voltem a fazer sentir seu desconforto.

Que, enfim, este encontro ocorra em Cuba – ilha um tempo símbolo da guerra fria que estava para transformar-se em conflito nuclear, se não tivesse sido pela audaz e profética intervenção do Papa Francisco, caiu outro muro simbólico, é um daqueles sinais dos tempos que é preciso captar: como teria sido possível prosseguir na denegação de um abraço entre irmãos na mesma fé, quando até aguerridos inimigos históricos decidem voltar a se falar? Ali, no aeroporto daquela ilha, se manifestará a eficácia da convicção do Papa Francisco, que possamos definir santamente teimosa: entre irmãos cristãos não se pode não encontrar-se.

Lembrando-se das palavras de Jesus “Se alguém te pede andar uma milha, anda com ele duas” (MT 5, 41) – Francisco não solicitou que o patriarca se movesse para ele indo a Roma – como já fizeram todos os outros patriarcas – não solicitou ir à Rússia, suscitando talvez a sensação de triunfo sobre o antigo inimigo soviético desaparecido, mas disse: onde o patriarca quiser, quando quiser, como quiser. Uma autêntica obediência ao Evangelho e nada mais.



sábado, 6 de fevereiro de 2016

Encontro histórico do papa com o patriarca ortodoxo russo será em Cuba


A informação é da Agência Brasil:

Reunião do papa e do patriarca russo vai se centrar na perseguição aos cristãos

O encontro histórico entre o papa Francisco e o patriarca ortodoxo russo Kirill, que ocorrerá no dia 12 deste mês em Havana vai se centrar na perseguição aos cristãos, informou hoje (5) o chefe das Relações Exteriores da Igreja Ortodoxa russa, metropolitano Hilarion de Volokolamsk.

“O tema das perseguições aos cristãos será central neste encontro”, disse Hilarion, em entrevista coletiva sobre a visita do patriarca russo em países da América Latina.

Nesta reunião, também serão abordados temas referentes a relações bilaterais e política internacional. “O encontro terminará com a assinatura de uma declaração conjunta”, acrescentou Volokolamsk.

Será “o primeiro encontro da história” entre os dois principais dirigentes dos cristãos do Ocidente e do Oriente separados, desde o cisma de 1054 que dividiu a Igreja Católica em duas, informou o Vaticano.

O encontro ocorrerá à margem de uma visita à América Latina do patriarca Kirill, cuja igreja conta com 130 milhões de fiéis, e da viagem ao México do papa Francisco, que guia 1,2 bilhão de católicos.

Segundo o porta-voz, o patriarca russo não queria que o encontro ocorresse na Europa. “Foi precisamente com a Europa, que está vinculada à grave história de separação e conflitos entre os cristãos.”

O representante da Igreja ortodoxa disse esperar que o encontro entre Francisco e Kirill “abra uma nova página nas relações entre ambas as Igrejas”.

*Com informações das agências Sputnik e Lusa



terça-feira, 12 de maio de 2015

Líder cubano visita o papa

Matéria publicada no IHU:

O papa e Raúl Castro: um face a face ''familiar'' de 55 minutos

Um face a face "familiar". Um diálogo coloquial e descontraído. Assim foi a audiência concedida pelo Papa Francisco ao presidente de Cuba, Raúl Castro Ruz, na manhã desse domingo, no Vaticano. Os dois, em estrita solidão, conversaram por 55 minutos. Falaram da viagem apostólica à ilha em setembro próximo, e o mandatário cubano agradeceu pela intervenção pontifícia no "degelo" com os Estados Unidos.

A reportagem é de Andrés Beltramo Alvarez, publicada por Vatican Insider, 10-05-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Pouco depois das 9h20min locais, o líder católico chegou à Plaza del Hongo, na entrada posterior da Sala Paulo VI. Ele se transferiu caminhando da sua residência, a pouco distante Casa Santa Marta, acompanhado apenas pelo seu mordomo, que segurava uma pasta de couro preto para ele.

Imediatamente depois, deslocaram-se até ali o responsável pelas Relações com os Estados da Santa Sé, Paul Richard Gallagher, e o sostituto da Secretaria de Estado, Giovanni Angelo Becciu. Com eles, também esteve Georg Gänswein, prefeito da Casa Pontifícia, que recebeu Castro na porta. Os diplomatas saudaram apenas no início e depois se retiraram.

"Bem-vindo!" foi a palavra com a qual o papa recebeu o seu convidado. De lá, ambos se deslocaram até o escritório privado, onde permaneceram até depois das 10h25min.

"O clima da conversa foi extremamente cordial, familiar, foi uma premissa para a próxima viagem. O presidente falou da acolhida e da expectativa do povo cubano para a ida do papa. O presidente Castro, antes de sair, dirigiu-se à delegação cubana, composta por cerca de 10 pessoas. Dirigindo-se aos jornalistas, ele disse que também tinha vindo para agradecer ao Santo Padre pela sua contribuição para a melhoria das relações com os Estados. Na conversa privada, falaram longamente e sem intérpretes. Isso fala do clima de familiaridade estabelecido", explicou aos repórteres o diretor da Sala de Imprensa vaticana, Federico Lombardi.

Depois do face a face, ocorreu uma breve troca de presentes. O presidente deu ao bispo de Roma uma medalha comemorativa dos 200 anos da Catedral de Havana, da qual só 25 foram fabricadas. Além disso, também lhe entregou um quadro, obra do pintor cubano Kcho, representando uma grande cruz realizada com barcaças e a cujos pés pode-se ver um homem rezando.

O artista, especialmente interessado em questões sociais, em 2014, apresentou uma mostra no Palácio da Chancelaria de Roma e, nessa ocasião, enviou uma carta a Francisco, à qual o pontífice respondeu.

"Ele teve a inspiração a partir da viagem do papa à (ilha italiana de) Lampedusa, da sua preocupação com os problemas dos migrantes e dos refugiados. Também se baseou no fato de o papa ter chamado a atenção mundial para o problema dos migrantes", acrescentou Lombardi.

Por sua parte, Jorge Mario Bergoglio entregou um medalhão com a imagem de São Martinho de Tours e, ao fazer isso, explicou ao presidente que ele costuma presenteá-lo com muito prazer aos chefes de Estado que o visitam, porque a imagem mostra o santo cobrindo um pobre com o seu manto. "É preciso cobrir os pobres, mas também se ocupar com a sua promoção", afirmou.

Ele também deu uma cópia da sua exortação apostólica Evangelii gaudium (A alegria do Evangelho) e explicou que o texto "tem uma parte religiosa e uma parte social", acrescentando outra frase: "Aqui está uma das declarações que o senhor tanto gosta".

O líder católico, depois, cumprimentou a delegação cubana, composta por cerca de 10 pessoas, incluindo o vice-presidente do Conselho de Ministros, Ricardo Cabrizas Ruíz; o chanceler, Bruno Rodríguez, e o embaixador junto à Santa Sé, Rodney Alejandro López Clemente. Ele acompanhou o seu hóspede até a porta, onde ambos se despediram.

Mais tarde, ao sair da Sala Paulo VI, Francisco dirigiu algumas palavras aos jornalistas, que ainda estavam no lugar. Abençoou-lhes, pediu-lhes para que rezassem por ele e concluiu, brincando: "Certamente, eu estraguei o domingo de vocês!".



quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Papa Francisco teve papel essencial no reatamento entre EUA e Cuba

peace

Ontem, 17 de dezembro de 2014, não por acaso dia em que o papa Francisco completou 78 anos de idade, o mundo não poderia ter recebido presente melhor: o descongelamento das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba, após 53 anos de mutismo, espionagem e incompreensão de lado a lado.

Ainda é cedo para que se normalizem as relações entre ambos os países, mas o passo dado ontem foi gigantesco. Significa, na prática, o fim de uma era onde a "guerra fria" imperou, fazendo com que as partes capitalista e comunista do globo se enfrentassem localizada e sistematicamente em qualquer região onde houvesse a possibilidade da troca de um regime pelo outro.

A queda do muro de Berlim em 1989 e o esfacelamento da União Soviética em 1991 foram os dois outros acontecimentos, nesse processo histórico, que podem se comparar em magnitude ao que ocorreu ontem, com o anúncio simultâneo da retomada dos laços diplomáticos pelos presidentes Barack Obama e Raúl Castro.

O PAPEL DO VATICANO E DO CANADÁ


Ainda não se conhece com exatidão qual foi o papel que o papa Francisco desempenhou nas conversações entre ambos os presidentes, mas o simples fato dele ter sido referido nos discursos dos dois mandatários revela o quanto sua participação foi importante, além, obviamente, do fato do anúncio do acordo ter sido feito no dia do aniversário do pontífice.

Segundo as primeiras informações, o papa Francisco teria escrito carta aos líderes dos dois países incentivando o diálogo. Não se pode esquecer ainda a importância  das visitas anteriores a Cuba dos  papas Bento XVI e João Paulo II, que deram sua contribuição para pavimentar o longo e difícil processo de paz.

Outro grande facilitador do diálogo entre EUA e Cuba foi o Canadá, segundo anunciou também ontem o primeiro-ministro canadense Stephen Harper, embora sem especificar em que extensão se deu essa colaboração. Apenas se sabe que diplomatas cubanos e estadunidenses se reuniram várias vezes sob os auspícios das representações diplomáticas do Canadá.

OS INCENDIÁRIOS BRASILEIROS


De qualquer maneira, é impossível não notar o contraste entre a posição do líder católico com a de muitos pastores evangélicos brasileiros, que fizeram de tudo durante a última campanha eleitoral para demonizar Cuba, e não foram capazes de levantar uma oração em favor da paz entre os povos.

Essas figuras, entre as quais o candidato derrotado à Presidência da República, pastor Everaldo, não perderam nenhuma oportunidade para estigmatizar o governo cubano a fim de obter ganhos políticos, e não devem estar nada satisfeitos ao ver que o próprio Barack Obama já negociava secretamente o restabelecimento das relações diplomáticas com Cuba.

OS PRÓXIMOS DESAFIOS


Há muitos desafios à frente, mas dois se destacam. O primeiro é o fim do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba, que depende da aprovação do Congresso Americano, hoje sob comando dos republicanos, que não só são adversários ferrenhos de Obama como sofrem influência do eleitorado cubanodescendente, majoritariamente concentrado no Estado da Flórida, do qual o senador Marco Rubio é o principal porta-voz.

O segundo desafio é saber qual a extensão das reformas democráticas que serão feitas em Cuba para que o país finalmente chegue ao século XXI no campo das liberdades e da cidadania. A tão desejada "solução biológica", que implicava em esperar a morte de Raúl Castro e seu irmão Fidel, ficou para trás, mas algo deverá ser feito para garantir ao país uma transição segura para a plena democracia e a economia de mercado, o que não será nada fácil.

De qualquer maneira, o mundo está hoje um pouco melhor, ou, como diriam os pessimistas, um pouco menos ruim.



terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O primeiro milagre de São Nelson Mandela


Já "canonizado" em vida, Nelson Mandela realizou seu primeiro "milagre" durante o seu funeral na manhã de hoje, 10 de dezembro de 2013, quando autoridades e dignitários de todo o mundo se reuniram no estádio Soccer City de Johannesburg para homenageá-lo.

Entre os muitos oradores do evento, fizeram uso da palavra Barack Obama, Raúl Castro e Dilma Roussef, e os presidentes americano e cubano protagonizaram o primeiro gesto cordial entre os mandatários de ambos os países em mais de 5 décadas: um histórico aperto de mãos e algumas palavras trocadas não se sabe em que língua.

A foto acima é a prova concreta de que Nelson Mandela faz "milagres", mesmo na sua morte. Que esse pequeno gesto contribua para a paz no mundo!



sábado, 7 de dezembro de 2013

Como Fidel ajudou Mandela a acabar com o apartheid

Conforme comentamos ontem, 06/12/13, em nosso adeus a Nelson Mandela, existe toda uma tendência (que não vem de hoje) em adocicar a figura de Mandela, que já beirava a canonização em vida, tornando-o mais palatável aos interesses políticos e midiáticos em transformá-lo num herói manso e domável, portanto manipulável.

Entretanto, a história verdadeira da vida de Mandela não foi exatamente assim, personagem que ele foi de uma luta renhida contra o apartheid, o sistema racista opressor da minoria branca afrikâner da África do Sul.

"Madiba" esteve por longo tempo associado às lutas comunistas em plena Guerra Fria, aquela triste época em que o mundo se dividia entre os satélites de Estados Unidos e União Soviética, algo que as novas gerações não viveram e os mais velhos já veem pelo espelho retrovisor da História.



Por isso mesmo, Mandela foi visto por longo tempo como um terrorista, alguém que desafiava o status quo do racismo como política de Estado na África do Sul, e que, portanto, devia ser combatido e - se possível - eliminado.

"Enforquem Mandela e todos os terroristas
do Congresso Nacional Africano. Eles são
açougueiros", pedia a juventude conservadora
britânica no início dos anos 1980, com o
apoio entusiasmado de sua primeira-ministra.
O jornalista e escritor Mário Magalhães lembrava em junho deste ano, em seu blog, que a juventude conservadora do Reino Unido, no início dos anos 1980, pedia a cabeça de Madiba, querendo enforcá-lo, e a própria primeira-ministra britânica da época, Margaret Thatcher, ícone do neoliberalismo mundial, o chamava de "terrorista".

Sim, é isto mesmo o que você leu. No começo dos anos 1980, havia muitos políticos importantes no comando do globo que, a depender deles, manteriam Mandela na cadeia até o fim de seus dias, da mesma maneira que - contraditória e ridiculamente - há muita gente hoje em dia que diz celebrar Mandela mas é contra as cotas raciais e ações afirmativas pelas quais ele tanto lutou.

É provável que alguns daqueles jovens conservadores britânicos, já no fim da década de 1980, mais precisamente no dia 11 de junho de 1988, tenham ido ao estádio de Wembley, em Londres, para tomar parte do gigantesco show que homenageou o 70º aniversário de Mandela, ainda encarcerado no Sul do planeta. 

Curiosamente, também num mês de junho, agora em 2013, quando a saúde de Mandela parecia estar por um microfio, a colunista do The Huffington Post, Hirania Luzardo, chamava a atenção para a relação especial que sempre houve entre Madiba e Fidel Castro, e como Cuba foi importante para abalar as estruturas militares do apartheid, conforme você pode ver no vídeo abaixo, introduzido pelo ator norteamericano Harry Belafonte, que também foi o orador inicial do histórico concerto de Wembley de 1988:


Com o passar do tempo, houve uma tentativa do conservadorismo mundial em se apropriar e domesticar o mito Mandela, ao qual ele reagiu, diga-se de passagem, com o seu habitual pacifismo.

Entretanto, agora na hora de sua morte, não se deve esquecer que mesmo uma figura controversa como Fidel Castro, pense-se o que quiser dele (mas não seja hipócrita), foi sempre vista e reconhecida por Mandela como decisiva para o seu sucesso.

Como você percebe, o jogo político-ideológico mundial é muito mais intrincado do que parece à primeira vista. Isto quando você tem acesso à informação.



Mandela já passou à história como "santo". Quando chegar a sua vez, Fidel será vendido pelo grosso da imprensa mundial como o "diabo". Depende das tintas que alguém escolher para pintá-los. E elas nem sempre são tão definitivas assim.

Um dos episódios mais abafados da história da imprensa mundial foi a batalha de Cuito Cuanavale, quando a guerra civil de Angola ameaçou se alastrar pela Namíbia, então ocupada pelo regime racista sul-africano.

A Namíbia é hoje um país independente muito em função dessa operação cubana, que foi extremamente hábil em estratégia militar e técnicas de negociação diplomática.

Mandela viu no desgaste militar dos afrikâners nesse episódio o empurrão final para que o castelo de cartas do apartheid viesse abaixo.

Por isso mesmo, para que essa história real nunca seja esquecida, reproduzimos abaixo o relato do portal Pátria Latina, publicado em 27/03/13:



CUITO CUANAVALE: A batalha que deu cabo do apartheid

Neste ano, comemora-se o 25º aniversário (*) do início da batalha de Cuito Cuanavale, no sudeste de Angola, onde as forças armadas da África do Sul do apartheid se enfrentaram com o exército cubano e com as forças angolanas. O ataque sul-africano "foi parado abrupta e definitivamente" pelas forças revolucionárias.

O general Magnus Malan escreveu em suas memórias que a campanha foi uma grande vitória para as forças de defesa sul-africanas (SADF), mas Nelson Mandela não podia discrepar mais: "Cuito Cuanavale — afirmou — foi a viragem para a luta de libertação do meu continente e de meu povo do flagelo do apartheid".

O debate sobre o que significou Cuito Cuanavale tem sido intenso, numa parte porque os documentos sul-africanos relevantes continuam sem serem revelados. Contudo, eu tenho estudado os documentos nos arquivos fechados cubanos e também muitos documentos norte-americanos. Apesar da fenda ideológica que separa Havana de Washington, estes documentos relatam uma história que impacta pelo parecido que têm.

Eis os fatos. Em julho de 1987, o exército angolano (Fapla) iniciou uma ofensiva de maior envergadura no sudeste de Angola, contra as forças de Jonás Savimbi. Mas ao ver que a ofensiva estava tendo sucesso, as SADF, que controlavam os territórios mais meridionais do sudeste de Angola, intervieram. No início de novembro, as SADF tinham cercado as melhores unidades angolanas no povoado de Cuito Cuanavale e estavam preparando-se para eliminá-las.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas exigiu que as SADF se retirassem incondicionalmente de Angola, mas a administração Reagan se assegurou de que esta exigência fosse mais uma resolução, sem maior transcendência.

O secretário adjunto dos Estados Unidos para a África, Chester Crocker, disse ao embaixador da África do Sul nos Estados Unidos: "A Resolução não exige sanções e não estabelece nenhuma ajuda para Angola. Isto não é por acaso, mas sim o resultado dos nossos esforços para manter a resolução dentro de determinados limites". (1) Entretanto, as SADF aniquilariam as unidades elites das Fapla.

No início de 1988, fontes militares sul-africanas e diplomatas ocidentais asseguravam que a derrota de Cuito era iminente. Isto significaria um golpe devastador para o governo angolano.

Em 15 de novembro de 1987, o presidente cubano Fidel Castro decidiu enviar mais tropas e armas a Angola: seus melhores aviões com seus melhores pilotos, suas armas antiaéreas mais sofisticadas e seus tanques mais modernos. A intenção de Castro não só era defender Cuito, mas sim tirar definitivamente as SADF de Angola. Posteriormente, ele descreveu sua estratégia ao líder do Partido Comunista Sul-Africano Joe Slovo: Cuba ia parar o ataque sul-africano e depois atacaria noutra direção, "como o boxeador que com a mão esquerda mantém o contrário afastado e com a direita o golpeia". (2) Aviões cubanos e 1.500 soldados cubanos reforçaram os angolanos e Cuito Cuanavale venceu. Em 23 de março de 1988, os sul-africanos lançaram o último ataque de maior envergadura contra Cuito. Tal como descreveu o coronel Jan Breytenbach, o ataque sul-africano "foi parado abrupta e definitivamente" pelas forças conjuntas cubano-angolanas".

A mão direita de Havana se preparou para golpear. Poderosas colunas cubanas avançaram no sudoeste de Angola, para a fronteira da Namíbia. Os documentos que nos poderiam dizer aquilo que os líderes sul-africanos pensaram acerca desta ameaça continuam sem serem revelados. Mas sabemos o que as SADF fizeram: ceder terreno. Os serviços de inteligência dos EUA explicaram que os sul-africanos se retiravam porque estavam impressionados pela rapidez e a força do avanço cubano e porque consideravam que um combate de maior envergadura "teria acarretado grandes riscos". (3)

Quando criança, escutei meu pai, na Itália, falar da esperança que ele e seus amigos sentiram, em dezembro de 1941, quando escutaram pela rádio que as tropas alemãs tinham abandonado a cidade de Rostov do Don. Era a primeira vez, em dois anos de guerra, que o "superhomem" alemão era obrigado a retirar-se. Lembrei aquelas palavras quando li a imprensa sul-africana e da Namíbia, em meados de 1988.

Em 26 de maio de 1988, o chefe das SADF anunciava que "forças cubanas e das Swapo, fortemente armadas, integradas por primeira vez, avançam rumo ao sul, a uns 60 quilômetros da fronteira com a Namíbia". Em 26 de junho, o administrador-geral sul-africano da Namíbia reconhecia que caças Mig-23 cubanos voavam sobre a Namíbia, uma mudança dramática daqueles tempos em que o céu era propriedade das SADF. Acrescentava que "a presença dos cubanos provocara uma onda de ansiedade na África do Sul".

Contudo, estes sentimentos de ansiedade não eram compartilhados pelos negros sul-africanos: eles viam a retirada das forças sul-africanas como uma luz de esperança.

Enquanto as tropas de Castro avançavam rumo à Namíbia, cubanos, angolanos, sul-africanos e estadunidenses se enfrentavam na mesa de negociações. Existiam dois pontos chaves: se a África do Sul aceitava a implementação da Resolução nº 435, do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que exigia a independência da Namíbia e se as partes concordavam sobre um cronograma da retirada das tropas cubanas de Angola.

Os sul-africanos pareciam ter muita esperança: o chanceler Pik Botha esperava que a Resolução 435 fosse modificada. O ministro de Defesa Malan e o presidente P.W. Botha afirmavam que a África do Sul se retiraria de Angola, caso "Rússia e seus fantoches fizessem o mesmo". Eles nem sequer mencionavam retirar-se da Namíbia . Em 16 de março de 1988, o Business Day informava que a Pretória estava "oferecendo retirar-se para a Namíbia — não da Namíbia — em troca da retirada das forças cubanas de Angola". Quer dizer, a África do Sul não tem nenhuma intenção de retirar-se do território, em nenhum futuro próximo.

Mas os cubanos reverteram a situação no campo. E quando Pik Botha apresentou as exigências sul-africanas, Jorge Risquet, chefe da delegação cubana, lhe esclareceu: "a época das aventuras militares, das agressões impunes, de seus massacres de refugiados acabou". A África do Sul — disse — estava agindo como se fosse "um exército vencedor, em lugar do que realmente é: um exército agressor golpeado e em discreta retirada. A África do Sul deve entender que não vai obter nesta mesa de negociações o que não pôde conseguir no campo de batalha". (4)

Quando terminaram as conversações no Cairo, Crocker enviou um telex ao secretário de Estado, George Shultz, dizendo que as conversações tinham tido, como "pano de fundo, a tensão militar crescente, por causa do avanço para a fronteira da Namíbia de tropas cubanas fortemente armadas, no sudoeste de Angola. O avanço cubano criou uma dinâmica militar imprevisível" (5).

A pergunta era: será que os cubanos iam parar na fronteira? Para responder esta pergunta, Crocker foi buscar Risquet: "Cuba tem a intenção de deter seu avanço na fronteira entre a Namíbia e Angola?".

Risquet respondeu: "seu eu lhe dissesse que não vão deter-se, estaria proferindo uma ameaça. Se eu lhe dissesse que vão deter-se, lhe estaria dando um calmante, e eu não quero nem ameaçar nem dar calmante, somente os acordos sobre a independência da Namíbia podem dar as garantias" (6)

No dia a seguir, em 27 de junho de 1988, caças Mig cubanos atacaram posições das SADF, perto da barragem de Calueque, 11 quilômetros ao norte da fronteira da Namíbia. A CIA informou que "o sucesso com que Cuba vem utilizando sua força aérea e a aparente fraqueza das defesas antiaéreas da Pretória" sublinhavam o fato de que Havana já tinha conseguido superioridade aérea no sul de Angola e no norte da Namíbia. Horas depois do ataque dos cubanos, as SADF destruíram uma ponte próxima de Calueque sobre o rio Cunene. Fizeram isto — segundo a CIA — "para dificultar às tropas cubanas e angolanas o cruzamento da fronteira com a Namíbia e para reduzir o numero de posições que deviam defender". (7)

O perigo dum avanço cubano sobre a Namíbia nunca antes tinha parecido tão real.

Os últimos soldados sul-africanos saíram de Angola, em 30 de agosto, quando nas negociações nem sequer se tinha começado a discutir o cronograma da retirada cubana de Angola.

Apesar de todos os esforços de Washington para impedi-lo, Cuba mudou o curso da história da África Austral. Até Crocker reconheceu o papel de Cuba, quando disse a Shultz, em 25 de agosto de 1988: "Descobrir o que pensam os cubanos é uma forma de arte. Estão prontos, tanto para a guerra como para a paz. Fomos testemunha dum grande refinamento tático e duma verdadeira criatividade na mesa de negociações. Isto tem como pano de fundo as fulminações de Castro e o desdobramento sem precedentes de seus soldados no terreno" (8).

A façanha dos cubanos no campo de batalha e sua virtuosidade na mesa de negociações foram decisivas para obrigar África do Sul a aceitar a independência da Namíbia. Seu sucesso em Cuito Cuanavale foi o prelúdio duma campanha que obrigou as SADF a saírem de Angola. Esta vitória repercutiu mais para lá da Namíbia.

Muitos autores — Malan é só um exemplo — têm tentado reescrever esta história, mas documentos norte-americanos e cubanos relatam o que verdadeiramente aconteceu. Esta verdade foi expressa, com eloquência, por Thenjiwe Mtintso, embaixadora da África do Sul em Cuba, em dezembro de 2005: "Hoje, a África do Sul tem novos amigos. Ontem, estes amigos se referiam a nossos líderes e a nossos combatentes como terroristas e nos acossavam a partir de seus países, e ao mesmo tempo apoiavam a África do Sul do apartheid. Esses mesmos amigos hoje querem que nós denunciemos e isolemos Cuba. Nossa resposta é muito simples, é o sangue dos mártires cubanos e não destes amigos que corre profundamente na terra africana e nutre a árvore da liberdade em nossa Pátria".

NOTAS

(*) Este artigo foi escrito há cinco anos, por ocasião do 20º aniversário desta batalha.

1) Secretário de Estado, à embaixada dos EUA na Pretória, 5 de dezembro de 1987, Freedom of Information Act (daqui em diante FOIA).

2) Transcrição sobre a reunião do comandante-em-chefe com a delegação de políticos da África do Sul (Comp Slovo), Centro de Informação das Forças Armadas Revolucionárias.

3) Abramowitz (Escritório de Inteligência do Departamento de Estado) ao secretário de Estado. 13 de maio de 1988, FOIA

4) Transcrição não oficial. Conversações RPA-CUBA-EUA-RSA (Reunião Quadripartite) sessão da tarde de 24-

5) Crocker ao secretário de Estado, 26 de junho de 1988. FOIA.

6) Entrevista de Risquet com Chester Crocker, 26-6-88, ACC.

7) CIA, South Africa-Angola-Cuba, 29 de junho de 1988. FOIA; CIA, South Africa-Angola-Cuba, 1 de julho de 1988, FOIA.

8) Crocker ao secretário de Estado, 25 de agosto de 1988, FOIA.

(*) Politicólogo e historiador italiano, professor de política exterior dos Estados Unidos na Escola de Estudos Internacionais Avançados (SAIS) da Universidade Johns Hopkins, Estados Unidos.



domingo, 24 de fevereiro de 2013

Wikileaks expõe Vaticano como braço político dos EUA na América Latina

Que o Vaticano é um ente político na configuração de Estado soberano, sujeito às intrincadas relações diplomáticas (muitas vezes lascivas) da geopolítica mundial, isso todo mundo já sabia.

Igualmente conhecida é a influência conservadora que o Vaticano procura imprimir nos países que têm maioria da sua população católica, como acontece na América Latina, onde o Brasil está - obviamente - incluído.

Basta recordar as declarações supostamente imparciais e desinteressadas de vários bispos católicos quando chega a época das eleições gerais brasileiras. No que, lembremos a seu favor, são acompanhados por muitos pastores evangélicos.

Diga-se de passagem que não há nada de errado em padres e pastores tentarem influenciar seus rebanhos. O problema ocorre quando tentam travestir ideologia de teologia e apresentar apoios políticos como dogmas de fé.

Entretanto, parafraseando Bismarck, que disse que "leis são como salsichas; é melhor não saber como são feitas", é do senso comum (e de bom tom) fingirmos que não sabemos como são disputados e acordados os jogos políticos na arena (vale-tudo) das relações internacionais.

Agora, portanto, podemos também fingir uma certa surpresa, já que acaba de vir à tona - via Wikileaks - o que muita gente imaginava, mas não tinha como comprovar: o Vaticano atua como braço político dos Estados Unidos, assim meio que fazendo do papa um moleque de recados do Tio Sam. 

Justo ele que se autointitula o "vigário" ("substituto", "representante") de Cristo na Terra. Quem diria...

Moral da história: tome cuidado com as salsichas, venham de onde vierem. As notícias transcritas abaixo foram publicadas pelo insuspeito diário conservador O Estado de S. Paulo nos links indicados no título de cada manchete:




Cerca de 130 telegramas mostram que pontificado de Bento XVI agiu nos bastidores para influenciar região, incluindo articulação com EUA para que avião que traria papa ao País em 2007 fizesse escala forçada em Caracas para pressionar Chávez

Jamil Chade

GENEBRA - O regime cubano, a "ameaça" de Hugo Chávez, a crise em Honduras ou mesmo os acordos comerciais do Brasil. O Vaticano sob o pontificado de Bento XVI, longe de ter uma postura de mero espectador, adotou iniciativas políticas nos bastidores para influenciar a situação na América Latina nos últimos anos e defender seus interesses.

É o que revelam mais de 130 telegramas vazados pelo site WikiLeaks, e obtidos com exclusividade pelo Estado, apontando para as entranhas das relações políticas do Vaticano desde 2005 na região latino-americana, que representa mais de 40% de seus fiéis no mundo.

Tentando ter um papel político central no continente, a Santa Sé tratou de algumas das crises no hemisfério com o presidente dos EUA, Barack Obama. Documentos revelam que o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, fez propostas concretas para o governo americano sobre a situação em Honduras quando se reuniu, em 10 de julho de 2009, com o presidente Obama.

Num telegrama de 15 de julho de 2009, a embaixada americana na Santa Sé relata um encontro de diplomatas americanos com monsenhor Francisco Forjan em que o Vaticano rejeita chamar a retirada de Manuel Zelaya da presidência como um "golpe de Estado". A Igreja pedia ao governo americano que insistisse com seus parceiros para que explicassem ao público as "ações anticonstitucionais de Zelaya que precipitaram a crise". O líder da Igreja nesse assunto era o cardeal Oscar Rodriguez Maradiaga, arcebispo de Tegucigalpa e hoje considerado como um dos potenciais candidatos a papa.

Um dos temas mais constantes nas reuniões entre diplomatas americanos e cardeais do Vaticano é a situação de Cuba. Um telegrama de 19 de agosto de 2009 revela que uma viagem de cardeais e bispos americanos a Cuba naquele ano não era apenas uma visita episcopal. A meta era também a de pressionar o governo de Havana em relação aos prisioneiros políticos, um pedido de Washington.

O telegrama escrito pela representação americana em Cuba conta que o cardeal de Boston, Sean O’Malley, um dos que estarão no conclave, reuniu-se com o presidente da Assembleia Nacional de Cuba, Ricardo Alarcón. O documento revela que os cardeais e bispos relataram ponto a ponto ao governo americano como havia sido a conversa com Alarcón. "Apreciamos o fato de a delegação (de religiosos) ter levantado os problemas de prisioneiros políticos", indicou o telegrama.

No dia 15 de janeiro de 2010, o Vaticano fez uma sugestão concreta ao governo americano para enfraquecer o regime cubano: baratear os custos de ligações entre Cuba e os EUA. A proposta foi apresentada por monsenhor Nicolas Thevenin, conselheiro político de Bertone. "Isso poderia ter um impacto positivo na promoção de uma mudança política", indicou.

A Venezuela de Hugo Chávez é apresentada pela Santa Sé como a grande preocupação na região. Para Accattino, um endurecimento da posição dos EUA diante de Cuba poderia acabar ajudando Chávez, "o novo sucesso de Fidel Castro na América Latina". "A diferença é que ele tem os recursos do petróleo", alertou. O Vaticano, em diversas conversas com diplomatas americanos, deixou claro que Caracas vinha pressionando a Igreja e transformado a Santa Sé em um de seus alvos de crítica.

Pressão contra Chávez. Três anos antes, no dia 1.º de fevereiro de 2007, o embaixador americano em Caracas, William Brownfield, e o cardeal Jorge Urosa Savino se reuniram na casa do núncio apostólico na capital venezuelana para discutir a possibilidade de que o papa Bento XVI usasse sua viagem que faria naquele ano ao Brasil para pressionar Chávez. Uma viagem oficial a Caracas estaria descartada pelo Vaticano. "Chávez não o convidaria", disse o cardeal.

Os dois passaram a debater a possibilidade de que o avião que traria o papa de Roma a São Paulo, em maio, fizesse uma parada de 45 minutos em Caracas, com a justificativa de reabastecer. Nesse período, o papa receberia bispos e faria uma declaração. "O cardeal concordou que qualquer parada teria uma importância simbólica", indicou o telegrama, apontando para a reação positiva de Savino. A escala acabou não ocorrendo.





Jamil Chade

GENEBRA - 'Desde o início do pontificado de Bento XVI, em 2005, a tendência política na América Latina vem chamando a atenção da Igreja, de acordo com telegramas divulgados pelo Wikileaks.

Num telegrama de 3 de abril de 2006, a diplomacia americana na Santa Sé revela a intervenção da Igreja, pedindo uma ação dos EUA sob o governo de George W. Bush na América Latina. No dia 28 de março daquele ano, o cardeal mexicano Juan Sandoval se encontraria com o embaixador americano na Santa Sé. "Sandoval repetiu o que alguns de nossos interlocutores no Vaticano estão apontando quanto às preocupações sobre líderes de esquerda na América Latina - Castro, Chávez, Evo Morales, Nestor Kirchner, Bachelet, e talvez Lopez Obrador - e chamou isso de uma tendência perigosa", indicou o telegrama. "Ele nos pergunta se o presidente Bush poderia ajudar", aponta.

Segundo o governo americano, Washington já teria tratado disso com as autoridades no Vaticano e indicou que Bush também já teria falado do assunto com a Nunciatura Apostólica em Washington.

Haiti - O esforço do Vaticano em ter um papel político chega até mesmo ao Haiti. Num telegrama de 10 de janeiro de 2010, a diplomacia americana revelava como a Santa Sé estava preocupada com a possibilidade de que o ex-padre e ex-presidente Jean Bertrand Aristide retornasse a Porto Príncipe.

Figuras do alto escalão do Vaticano, como Peter Wells e Ettore Balestrero, teriam acionado religiosos com contatos com Aristide, que na época vivia na África do Sul, para convencê-lo a não voltar ao Haiti.

Num telegrama da embaixada americana junto ao Vaticano, logo após a vitória de Joseph Ratzinger no conclave de 2005, um cardeal americano revelaria ao governo de Washington. Bento XVI nao dará nenhum sinal ou nem tomará decisões em relação à América Latina apenas para ganhar simpatia ou aplausos.



domingo, 13 de janeiro de 2013

Quem quer curar a meningite na África? Resposta: Brasil e Cuba!


Pois é... qualquer estrela de Hollywood que se proponha a fazer uma viagem à África, seja para ajudar uma ação social, seja para adotar mais um filho, ganha enorme repercussão na imprensa brasileira e mundial.

Quando Bill Gates ou Oprah Winfrey despejam alguns milhares de dólares em uma instituição de ajuda à África, isto é saudado efusivamente pela mídia como um ato de gloriosa doação pessoal e patrimonial.

Agora, o que pouca gente sabe é que Brasil e Cuba, com todos os seus problemas que são sobejamente conhecidos, se uniram para combater a epidemia de meningite na África, que até então parecia incontrolável.

Felizmente, vem da revista norteamericana Science o reconhecimento a essa iniciativa que vai muito além das fotos e das declarações de efeito.

Conforme se pode perceber no mapa abaixo, o chamado "cinturão da meningite" se concentra na região subsaariana central do continente africano, onde vivem cerca de 430 milhões de pessoas, do Senegal (a oeste) à Etiópia (a leste).

Curiosamente, a Eritreia e a Somália, que estão localizados mais a leste da Etiópia (no "chifre da África"), são territórios minimamente afetados pela epidemia. As piores regiões estão marcadas em vermelho:



Ocorre que, em 2006, a Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou um apelo internacional: precisava da produção massiva, ao preço mais baixo possível, da vacina polissacarídea contra os tipos A e C da meningite, a serem aplicadas nos 23 países do cinturão africano da enfermidade.

Afinal, só uma empresa, a Sanofi Pasteur, fabricava essas vacinas, mas - já que a doença havia se retraído em outros continentes, a farmacêutica reduziu drasticamente sua produção, deixando a África à sua própria sorte.

Diante da emergência médica, a OMS praticamente implorou que laboratórios públicos e privados de todo o mundo encontrassem uma maneira de atender à demanda crescente das vacinas antimeningite da maneira mais barata possível.

Nenhuma farmacêutica se deu ao trabalho de responder ao SOS da OMS. As únicas instituições que acudiram ao apelo foram os laboratórios estatais do Brasil (Instituto Manguinhos) e de Cuba (Instituto Finlay).

Os dois órgãos governamentais estenderam as mãos, se uniram e - pelo mútuo acordo - o princípio ativo da vacina é produzido em Cuba e o processo industrial é terminado no Brasil, o que fez com que o preço final de cada dose fosse reduzido em (pasme!) 20 vezes: de 20 dólares a menos de 95 centavos de dólar.

Desde a associação entre o Manguinhos e o Finlay, 19 milhões de vacinas foram produzidas, adquiridas e distribuídas pela própria OMS, pela UNICEF, pelos Médicos Sem Fronteiras e pela Cruz Vermelha Internacional. A África agradece!

A iniciativa cubano-brasileira teve tanto sucesso que vem dos Estados Unidos, através da revista Science, o rompimento do constrangedor silêncio da grande mídia sobre essa insólita e proveitosa parceria.

É o Terceiro Mundo socorrendo o Terceiro Mundo. Suspeita-se que esta notícia você não verá no Jornal Nacional.



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