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terça-feira, 16 de maio de 2017

Universidade Presbiteriana Mackenzie abre centro criacionista


A informação é da revista Exame da Abril:

Mackenzie abre núcleo de estudos que contesta teoria da evolução

O Núcleo Discovery-Mackenzie tem como objetivo promover os estudos de fé, ciência e sociedade

Marina Demartini

São Paulo – A Universidade Presbiteriana Mackenzie abriu um novo espaço para que professores e alunos discutam a origem da vida e questionem uma das principais teorias da biologia: o evolucionismo. O chamado Núcleo Discovery-Mackenzie é uma parceria entre a instituição brasileira e o Discovery Institute, um instituto americano que promove o estudo da Teoria do Design Inteligente (TDI).

Para os estudiosos do TDI, certas características do universo e dos seres vivos são tão complexas que só podem ser explicadas por uma causa inteligente. Assim, células e moléculas precisaram passar pela intervenção de algum tipo de inteligência para existir “e não por um processo não direcionado, como a seleção natural”, como aponta o site oficial do Discovery Institute.

A seleção natural é um dos mecanismos básicos da teoria da evolução proposta por Charles Darwin em seu livro A Origem das Espécies, de 1859. Segundo ela, indivíduos melhores adaptados à determinada condição ecológica têm mais chance de sobreviver e deixar descendentes.

Até hoje, a teoria da evolução é uma das mais aceitas entre os membros da comunidade científica para explicar a origem da vida e a evolução humana. Além disso, ela é amplamente ensinada em escolas de diversas partes do mundo.

O Discovery Institute, aliás, já tentou colocar o TDI dentro da grade de escolas públicas dos EUA. Um dos casos mais conhecidos é o de Kitzmiller contra o Distrito Escolar da área de Dover, na Pensilvânia, em 2005. Na época, o distrito mudou seu currículo de ensino da matéria de biologia para exigir que o TDI fosse apresentado como alternativa ao evolucionismo.

Onze pais de alunos da região processaram o distrito sob a alegação de que o design inteligente não passava de um tipo de criacionismo (crença religiosa de que os seres vivos foram criados por um ser superior).

O juiz John E. Jones III chegou ao veredito de que o ensino do design inteligente viola a Cláusula de Estabelecimento da Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos. Segundo ele, o TDI não é ciência e “não pode desacoplar-se do seu criacionista, portanto religioso, antecedente”.

O teólogo e pastor presbiteriano Davi Charles Gomes, chanceler da universidade, ressalta em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo que o Núcleo Discovery-Mackenzie não é um espaço de TDI, mas de estudos de fé, ciência e sociedade. “Nossa instituição é confessional, o que significa que ela tem uma visão segundo a qual o mundo tem um significado transcendente. E não existe ciência que, no fundo, não reflita também sobre coisas transcendentes.”

Quem faz afirmação parecida é Marcos Eberlin, presidente executivo da Sociedade Brasileira do Design Inteligente e futuro coordenador do núcleo da Mackenzie. “Tem gente que acha que o design vem dos ETs, outros falam de um Grande Arquiteto do Universo, como os maçons, ou um espírito evoluído, como os espíritas”, disse em entrevista à Folha.

Já Maria Cátira Bortolini, geneticista da UFRGS, disse ao jornal que a teoria descarta evidências, fatos e provas científicas. “O que importa é a narrativa, construída de forma que se coadune com a ideologia ou a crença do sujeito.”



sábado, 22 de abril de 2017

Sobre falar, engasgar e soltar pum


Alegre o seu feriadão com a leitura divertidíssima da crônica de Luis Fernando Verissimo, publicada no Estadão em 06/04/17:

Em comum

Uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais, sendo a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum

O homem é o único animal que fala pela mesma razão que é o único animal que se engasga. Algo a ver com a localização da laringe. Ou é da faringe? Enfim, algo no homem lhe dá o dom da expressão verbal que nenhum bicho tem, mas os bichos, em compensação, nunca se veem na situação embaraçosa de dizer o que não deviam ou se engasgar na mesa.

O fato também sugere uma questão: foi a necessidade que o homem — ou, mais provavelmente, a mulher — sentiu de falar que determinou a eventual localização privilegiada da laringe, ou foi o acaso da laringe humana evoluir como evoluiu que determinou a fala?

O ser humano desenvolveu a fala por um acidente anatômico e assim virou gente ou a linguagem foi uma etapa lógica da sua evolução, porque para ser gente só faltava falar?

O próprio Darwin chegou a especular que a fala começou com a pantomima, com os órgãos vocais inconscientemente tentando imitar os gestos das mãos.

A linguagem oral teria se desenvolvido porque, antes da invenção do fogo, a linguagem gestual não era vista no escuro e as pessoas, ou as pré-pessoas, não podiam se comunicar. A linguagem é filha da noite!

Teorias estranhas sobre a origem da linguagem não faltam.

No século XVII um filólogo sueco afirmou com certeza que no Jardim do Éden Deus falava sueco, Adão falava dinamarquês, e a serpente falava francês (Sempre a má vontade com os franceses).

Na sua infância — a palavra “infância”, por sinal, vem do latim “incapacidade de falar” — a humanidade não produzia palavras mas certamente produzia sons, e uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais para identificá-los e que esta foi a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum.

Foi chamada de “teoria bow-wow”, e o nome já a desmentia, pois “bow-wow” é como latem os cachorros anglo-saxões, enquanto os luso-brasileiros fazem “au-au” e os japoneses, segundo os japoneses, “bau-bau”.

A única linguagem comum a toda a humanidade é a dos ruídos involuntários do nosso corpo.

Toda a espécie humana espirra e tosse da mesma maneira, não há como variar a pronúncia de um arroto e nada simboliza melhor a nossa igualdade intrínseca do que o pum, que todos dão da mesma maneira, não importa o que digam do pum alemão.

Eis uma receita para o entendimento, inclusive entre os grupos e facções em choque no Brasil de hoje, esquerda x direita, políticos x Lava-Jato etc. Todos os confrontos entre partes litigantes deveriam começar com um coro de ruídos elementares, para enfatizar nossa humanidade em comum.



domingo, 29 de novembro de 2015

Darwin e o instinto moral


Relembrando matéria publicada na Folha de S. Paulo de 20/04/13:

Antropologia de Darwin: 
Os fundamentos materiais da moral

CARLOS ALBERTO DÓRIA

RESUMO "A Descendência do Homem" (1871), de Charles Darwin, foi praticamente ignorado em nome da ideia liberal de "guerra de todos contra todos". Releituras e pesquisas recentes em torno do livro revelam uma verdadeira teoria antropológica darwiniana que aponta para as raízes biológicas da moral.

Um dos casos mais intrigantes da epistemologia das ciências biólogicas é a quase absoluta ignorância que se seguiu à publicação de "A Descendência do Homem" (1871), de Charles Darwin.

Quase ninguém se deu conta de que a obra encerrava uma revolução no conhecimento, tão importante quanto "A Origem das Espécies" (1859).

Tão certos estavam os seguidores e detratores de Darwin de que se tratava de uma "continuação" ou "aplicação" da "Origem" à espécie humana, contestando a natureza divina do homem, que nem se deram ao trabalho de lê-la. Do mesmo modo, parte do trabalho --sobre o mecanismo da seleção sexual-- foi considerado um ensaio independente, sem conexão com a origem do homem. Passou em brancas nuvens esta que é considerada agora a "segunda revolução darwiniana".

A obra vale por não repetir argumentos da "Origem", constituindo uma verdadeira antropologia na qual se fundem as dimensões biológica e cultural, como nunca se vira antes e não se viu depois, pois as ciências humanas se desenvolveram de costas para a biologia e a cultura foi considerada algo além do mundo orgânico ("superorgânica") --isto é, a vida simbólica já aparece como plenamente constituída.

Essa antropologia só é possível porque Darwin não vê diferenças de natureza, e sim de grau, naquilo que une o homem às demais espécies animais. As habilidades, os instintos, a inteligência, a capacidade de comunicação (linguagem), os comportamentos são caracteres animais difundidos por infinitas espécies.

O impacto político dessa antropologia é enorme. Ao "animalizar" o homem e seus instintos mais "nobres", deixava a igreja falando sozinha, mesmo sem haver pensado a obra como um libelo antideísta. O livro mostra que os homens pertencem a uma espécie polimórfica, na qual todos são iguais, e as diferenças secundárias, como a cor da pele, foram desenvolvidas ao longo de milênios, através de escolhas estéticas de grupos humanos.

POLÍTICA

Mas por que Darwin escreveu esse livro, se as ciências humanas não eram seu foco de atenção? A razão foi de ordem política e humanitária, conforme hoje se sabe, graças ao estudo dos biógrafos de Darwin sobre suas anotações e diários (Adrian Desmond e James Moore, "Darwin's Sacred Cause: Race, Slavery and the Quest for Human Origins", Penguin Books, 2009).

Quando Darwin esteve no Brasil, horrorizou-se com a escravidão e, desde o distante ano de 1837, começou a reunir elementos para provar a origem comum e a igualdade entre os homens no plano biológico, de modo a sepultar as principais teses dos escravistas, com destaque para a tese da poligenia (tomando raças ou variedades como se fossem espécies "criadas" independentemente, segundo sugeria a leitura que faziam da Bíblia) com a qual "justificavam" o direito à escravizar seres aparentemente distintos.

Do ponto de vista historiográfico, a trajetória intelectual de Darwin também é surpreendente: uma obra sobre o homem, provando sua igualdade (monogenia), foi ideia anterior à concepção da seleção natural. Assim, se o estudo sobre a origem das espécies favoreceu sua compreensão sobre a animalidade do homem, ela contribuiu igualmente para o amadurecimento de sua antropologia.

A nova leitura esclarecedora de "A Descendência do Homem" deve-se ao trabalho de quase 20 anos do epistemólogo francês Patrick Tort, cujo livro "L'Effet Darwin: Séléction Naturelle et Naissance de la Civilisation" (Seuil, 2008) é síntese dessa trajetória persistente.

A primeira questão que Tort busca explicar é o desprezo pela antropologia de Darwin. E sua explicação é relativamente simples: a ideia de "luta pela vida" era extremamente conveniente para a economia política liberal; reforçava a noção de luta de "todos contra todos" e triunfo dos mais fortes, e os evolucionistas liberais, como Herbert Spencer, a ela se aferraram.

"A Descendência do Homem", ao contrário, é a obra na qual Darwin sofistica os mecanismos de seleção --faz até um mea-culpa por haver exagerado o papel da seleção natural-- introduzindo na história natural as noções cruciais da cooperação e "altruísmo".

Contudo, só nos países sem tradição de economia política liberal esses mecanismos de evolução foram percebidos e valorizados, como na Rússia czarista, resultando em algumas obras discrepantes em relação à interpretação dominante, como a de Peter Kropotkin, "Ajuda mútua: Um Fator de Evolução" (1888).

Em "A Descendência do Homem", Darwin mostra como esse animal surge da evolução de formas mais simples através da convergência fortuita de vários processos: a pedestrialização (quando o animal desce das árvores), o bipedismo, a encefalização (aumento do cérebro) e o desenvolvimento da linguagem simbólica. Mas não foram só as transformações físicas que Darwin captou. Ele indicou que, ao se desenvolver no plano social, criou-se uma ruptura com o processo anterior, no qual, por força de pressões ambientais, os animais se adaptavam mediante a transformação física milenar.

O Homo sapiens já não se transforma fisicamente, mas age sobre o ambiente, adaptando-o às suas necessidades (produz vestimentas, habitação etc.). Do mesmo modo, o instinto animal evolui e aprofunda seu caráter social, impondo formas cooperativas, tornando-o um animal social bastante sofisticado, capaz de várias ações altruístas.

Mas por que o altruísmo? Não se trata da manifestação de uma "essência humana", fruto de um sopro divino, mas de uma necessidade material da vida. O instinto social é característica de várias espécies --como as abelhas, as formigas e vários mamíferos superiores. Através dele, a reprodução do grupo entra em causa, condicionando as ações e escolhas individuais.

NOVO PERCURSO

No homem, desde a divisão de trabalho entre macho e fêmea para cuidar da cria (longamente inabilitada para, sozinha, prover a vida) até o desenvolvimento das instituições sociais, como a ciência ou a medicina, um novo percurso evolutivo se instaura quando crianças, velhos e indivíduos menos aptos são protegidos, em vez de eliminados.

Uma seleção natural de instintos e comportamentos antieliminatórios (ou "antisselecionistas") vai tomando corpo e reprimindo as ações eliminatórias.

O resultado cego desse longo processo é a civilização, isto é, a repressão sistemática da "lei do mais forte" na medida em que padrões encontram formas de se impor ao grupo e se sobrepor aos do indivíduo. Tort verá nesse mecanismo a "reversão da seleção natural", ou o nascimento da civilização sem ruptura com a dimensão biológica da vida. Em outras palavras, a base material, natural, da moral.

"A Descendência do Homem" traz uma segunda parte, sobre a "seleção sexual". Nela, o cientista inglês mostra justamente a necessidade do altruísmo --a capacidade de dar a vida por outros membros da espécie-- como fator de evolução. Por que em certas espécies, notadamente de aves, o macho é muito mais belo e exuberante que as fêmeas? Simplesmente porque, ao se desenvolverem dessa forma, eles têm mais chances de serem "escolhidos" pelas fêmeas e criarem descendência. Mas o pavão, por exemplo, ao desenvolver sua beleza perde a capacidade de voar, ficando à mercê dos predadores. Essa inabilitação adquirida só se explica pelo "altruísmo": correr riscos, o autossacrifício em nome do outro, da descendência.

Por esse mecanismo da seleção sexual, o homem também terá capacidade de alterar seus caracteres secundários. Sendo espécie polimórfica, variará na cor da pele e outros traços físicos exteriores ao perseguir padrões de beleza restritos a cada grupo humano isolado. O "belo ideal" é um conceito social que se materializa nos indivíduos que ocupam a chefia do grupo, nas mulheres que utilizam adornos, nas estátuas que representam os deuses e assim por diante.

Esses padrões se tornam dominantes na medida em que passam a intervir nas escolhas matrimoniais e, por esse processo, disseminam-se pelo grupo. Nada disso precisa ser consciente para agir sobre o homem, como o instinto não é consciente no animal.

Caminhos como esse mostram, mais de um século depois, a dimensão insuspeitada de uma obra que parecia "caduca" aos olhos das ciências naturais e ciências humanas. Trata-se de um clássico que, finalmente, impõe sua grandeza intelectual.



quarta-feira, 19 de junho de 2013

Descendente de Darwin se torna apologista católica

Laura Keynes, descendente direta de Charles Darwin, quem diria, se tornou uma apologista católica. Ela é tetraneta (da 4ª geração de netos) do renomado cientista britânico.

Laura se juntou recentemente ao projeto Catholic Voices, que se propõe a fazer a voz da igreja católica ser ouvida na mídia.

Na edição desta semana da revista Catholic Herald, ela conta como retornou à fé católica de sua infância após um longo período de agnosticismo.

Seu pai era ateu e sua mãe havia passado um curto período no catolicismo, embora posteriormente tenha se tornado budista. Mesmo assim, Laura foi batizada como católica.

Na adolescência, Laura se tornou agnóstica e se afastou de qualquer contato com a igreja de Roma.

Bem mais tarde, quando fazia um doutorado em Filosofia na Universidade de Oxford ela sentiu a necessidade de voltar a pensar naqueles valores quando teve que enfrentar questões sobre relacionamentos, feminismo, relativismo moral e a santidade e a dignidade da vida humana.

Curiosamente, no artigo em questão, Laura revela que suas reflexões sobre o livro "Deus, Um Delírio", de Richard Dawkins, a fizeram seguir o caminho contrário ao proposto pelo conhecido líder ateu.

Ela afirma que "o neoateísmo parece ter a semente da intolerância e do desprezo por pessoas, o que poderia somente minar os clamores humanistas por liberalismo".

Prossegue a tetraneta de Darwin dizendo que "se o apelo do ateísmo ao alto nível intelectual é fundado na habilidade característica do meu ancestral em explorar e analisar inconsistências na evidência, essa mesma característica familiar me leva a ter uma abordagem cética do que pode e do que não pode ser conhecido como absoluto"

Antecipando-se à provável pergunta sobre como seus parentes receberam sua decisão, Laura disse que "o fato de que eu escolhi livremente ser uma católica após muita reflexão e análise, e de não ter sofrido lavagem cerebral para tanto, desconcertou meus amigos e minha família".

Acrescenta que chegou a ouvir um comentário sussurrado entre eles: "Mas ela parecia uma garota tão inteligente". Ter o sobrenome Darwin e ser católica, segundo ela, confunde as expectativas das pessoas a seu respeito.

Talvez os genes que mais influenciaram Laura não tenham sido os do tetravô Charles Darwin, mas aqueles de outro ascendente mais antigo, do século XVII, o padre jesuíta John Keynes, que escreveu "Um compêndio racional para convencer sem qualquer menosprezo todas as pessoas que por qualquer razão se desviam da verdadeira religião".



terça-feira, 23 de abril de 2013

Darwin e o instinto moral

Alguns dias atrás (11/04/13), repercutimos aqui um artigo sobre o efeito Dunning-Kruger, que, no final, cita uma frase de Charles Darwin que abre o seu livro "A Descendência do Homem":"a ignorância gera confiança com mais frequência do que o conhecimento".

Já no domingo, dia 21/04/13, reproduzimos aqui uma matéria do mesmo jornal sobre o mais recente livro de Steven Pinker, "Os Anjos Bons da Nossa Natureza", que também fala sobre a diminuição da violência humana ao longo dos milênios.

Naquele mesmo dia 21 de abril, a Folha de S. Paulo trouxe uma resenha muito interessante de Carlos Alberto Dória sobre essa mesma obra esquecida de Darwin, "A Descendência do Homem", baseada na obra de Patrick Tort, "L'Effet Darwin: Séléction Naturelle et Naissance de la Civilisation" (Seuil, 2008).

No meio de tantas informações interessantes, não deixa de ser um tanto quanto, digamos, "patrioticamente" constrangedor, perceber como o contato de Darwin com o triste fenômeno da escravidão no Brasil do século XIX foi decisivo na formulação de seu pensamento.

Eis a íntegra do artigo:

Antropologia de Darwin: Os fundamentos materiais da moral

CARLOS ALBERTO DÓRIA

RESUMO "A Descendência do Homem" (1871), de Charles Darwin, foi praticamente ignorado em nome da ideia liberal de "guerra de todos contra todos". Releituras e pesquisas recentes em torno do livro revelam uma verdadeira teoria antropológica darwiniana que aponta para as raízes biológicas da moral.

Um dos casos mais intrigantes da epistemologia das ciências biólogicas é a quase absoluta ignorância que se seguiu à publicação de "A Descendência do Homem" (1871), de Charles Darwin.

Quase ninguém se deu conta de que a obra encerrava uma revolução no conhecimento, tão importante quanto "A Origem das Espécies" (1859).

Tão certos estavam os seguidores e detratores de Darwin de que se tratava de uma "continuação" ou "aplicação" da "Origem" à espécie humana, contestando a natureza divina do homem, que nem se deram ao trabalho de lê-la. Do mesmo modo, parte do trabalho --sobre o mecanismo da seleção sexual-- foi considerado um ensaio independente, sem conexão com a origem do homem. Passou em brancas nuvens esta que é considerada agora a "segunda revolução darwiniana".

A obra vale por não repetir argumentos da "Origem", constituindo uma verdadeira antropologia na qual se fundem as dimensões biológica e cultural, como nunca se vira antes e não se viu depois, pois as ciências humanas se desenvolveram de costas para a biologia e a cultura foi considerada algo além do mundo orgânico ("superorgânica") --isto é, a vida simbólica já aparece como plenamente constituída.

Essa antropologia só é possível porque Darwin não vê diferenças de natureza, e sim de grau, naquilo que une o homem às demais espécies animais. As habilidades, os instintos, a inteligência, a capacidade de comunicação (linguagem), os comportamentos são caracteres animais difundidos por infinitas espécies.

O impacto político dessa antropologia é enorme. Ao "animalizar" o homem e seus instintos mais "nobres", deixava a igreja falando sozinha, mesmo sem haver pensado a obra como um libelo antideísta. O livro mostra que os homens pertencem a uma espécie polimórfica, na qual todos são iguais, e as diferenças secundárias, como a cor da pele, foram desenvolvidas ao longo de milênios, através de escolhas estéticas de grupos humanos.

POLÍTICA

Mas por que Darwin escreveu esse livro, se as ciências humanas não eram seu foco de atenção? A razão foi de ordem política e humanitária, conforme hoje se sabe, graças ao estudo dos biógrafos de Darwin sobre suas anotações e diários (Adrian Desmond e James Moore, "Darwin's Sacred Cause: Race, Slavery and the Quest for Human Origins", Penguin Books, 2009).

Quando Darwin esteve no Brasil, horrorizou-se com a escravidão e, desde o distante ano de 1837, começou a reunir elementos para provar a origem comum e a igualdade entre os homens no plano biológico, de modo a sepultar as principais teses dos escravistas, com destaque para a tese da poligenia (tomando raças ou variedades como se fossem espécies "criadas" independentemente, segundo sugeria a leitura que faziam da Bíblia) com a qual "justificavam" o direito à escravizar seres aparentemente distintos.

Do ponto de vista historiográfico, a trajetória intelectual de Darwin também é surpreendente: uma obra sobre o homem, provando sua igualdade (monogenia), foi ideia anterior à concepção da seleção natural. Assim, se o estudo sobre a origem das espécies favoreceu sua compreensão sobre a animalidade do homem, ela contribuiu igualmente para o amadurecimento de sua antropologia.

A nova leitura esclarecedora de "A Descendência do Homem" deve-se ao trabalho de quase 20 anos do epistemólogo francês Patrick Tort, cujo livro "L'Effet Darwin: Séléction Naturelle et Naissance de la Civilisation" (Seuil, 2008) é síntese dessa trajetória persistente.

A primeira questão que Tort busca explicar é o desprezo pela antropologia de Darwin. E sua explicação é relativamente simples: a ideia de "luta pela vida" era extremamente conveniente para a economia política liberal; reforçava a noção de luta de "todos contra todos" e triunfo dos mais fortes, e os evolucionistas liberais, como Herbert Spencer, a ela se aferraram.

"A Descendência do Homem", ao contrário, é a obra na qual Darwin sofistica os mecanismos de seleção --faz até um mea-culpa por haver exagerado o papel da seleção natural-- introduzindo na história natural as noções cruciais da cooperação e "altruísmo".

Contudo, só nos países sem tradição de economia política liberal esses mecanismos de evolução foram percebidos e valorizados, como na Rússia czarista, resultando em algumas obras discrepantes em relação à interpretação dominante, como a de Peter Kropotkin, "Ajuda mútua: Um Fator de Evolução" (1888).

Em "A Descendência do Homem", Darwin mostra como esse animal surge da evolução de formas mais simples através da convergência fortuita de vários processos: a pedestrialização (quando o animal desce das árvores), o bipedismo, a encefalização (aumento do cérebro) e o desenvolvimento da linguagem simbólica. Mas não foram só as transformações físicas que Darwin captou. Ele indicou que, ao se desenvolver no plano social, criou-se uma ruptura com o processo anterior, no qual, por força de pressões ambientais, os animais se adaptavam mediante a transformação física milenar.

O Homo sapiens já não se transforma fisicamente, mas age sobre o ambiente, adaptando-o às suas necessidades (produz vestimentas, habitação etc.). Do mesmo modo, o instinto animal evolui e aprofunda seu caráter social, impondo formas cooperativas, tornando-o um animal social bastante sofisticado, capaz de várias ações altruístas.

Mas por que o altruísmo? Não se trata da manifestação de uma "essência humana", fruto de um sopro divino, mas de uma necessidade material da vida. O instinto social é característica de várias espécies --como as abelhas, as formigas e vários mamíferos superiores. Através dele, a reprodução do grupo entra em causa, condicionando as ações e escolhas individuais.

NOVO PERCURSO

No homem, desde a divisão de trabalho entre macho e fêmea para cuidar da cria (longamente inabilitada para, sozinha, prover a vida) até o desenvolvimento das instituições sociais, como a ciência ou a medicina, um novo percurso evolutivo se instaura quando crianças, velhos e indivíduos menos aptos são protegidos, em vez de eliminados.

Uma seleção natural de instintos e comportamentos antieliminatórios (ou "antisselecionistas") vai tomando corpo e reprimindo as ações eliminatórias.

O resultado cego desse longo processo é a civilização, isto é, a repressão sistemática da "lei do mais forte" na medida em que padrões encontram formas de se impor ao grupo e se sobrepor aos do indivíduo. Tort verá nesse mecanismo a "reversão da seleção natural", ou o nascimento da civilização sem ruptura com a dimensão biológica da vida. Em outras palavras, a base material, natural, da moral.

"A Descendência do Homem" traz uma segunda parte, sobre a "seleção sexual". Nela, o cientista inglês mostra justamente a necessidade do altruísmo --a capacidade de dar a vida por outros membros da espécie-- como fator de evolução. Por que em certas espécies, notadamente de aves, o macho é muito mais belo e exuberante que as fêmeas? Simplesmente porque, ao se desenvolverem dessa forma, eles têm mais chances de serem "escolhidos" pelas fêmeas e criarem descendência. Mas o pavão, por exemplo, ao desenvolver sua beleza perde a capacidade de voar, ficando à mercê dos predadores. Essa inabilitação adquirida só se explica pelo "altruísmo": correr riscos, o autossacrifício em nome do outro, da descendência.

Por esse mecanismo da seleção sexual, o homem também terá capacidade de alterar seus caracteres secundários. Sendo espécie polimórfica, variará na cor da pele e outros traços físicos exteriores ao perseguir padrões de beleza restritos a cada grupo humano isolado. O "belo ideal" é um conceito social que se materializa nos indivíduos que ocupam a chefia do grupo, nas mulheres que utilizam adornos, nas estátuas que representam os deuses e assim por diante.

Esses padrões se tornam dominantes na medida em que passam a intervir nas escolhas matrimoniais e, por esse processo, disseminam-se pelo grupo. Nada disso precisa ser consciente para agir sobre o homem, como o instinto não é consciente no animal.

Caminhos como esse mostram, mais de um século depois, a dimensão insuspeitada de uma obra que parecia "caduca" aos olhos das ciências naturais e ciências humanas. Trata-se de um clássico que, finalmente, impõe sua grandeza intelectual.



quinta-feira, 11 de abril de 2013

A ilusória superioridade do neoateísmo

O artigo abaixo foi publicado na página do facebook "The Atheist Delusion", e diante da dificuldade de encontrar o original, tomei a liberdade de traduzi-lo para compartilhar com os leitores do blog:

O neoateísmo e o efeito Dunning-Kruger

O efeito Dunning-Kruger é um preconceito cognitivo no qual indivíduos não qualificados padecem de uma superioridade ilusória, avaliando - equivocadamente - a sua capacidade muito acima da média. Este preconceito é atribuído a uma inabilidade metacognitiva de reconhecer os seus próprios erros.

Estariam os novos ateus sofrendo do efeito Dunning-Kruger?

Em 1999, dois psicólogos da Cornell University (David dunning e Justin Kruger) apresentaram a hipótese de que pessoas com pouca competência numa determinada atividade tendem a ter excesso de confiança nela. Esta crença exagerada vem da inabilidade de cumprir uma determinada tarefa enquanto, ao mesmo tempo, não se reconhece o seu nível de incompetência. Por outro lado, aqueles que têm competência suficiente para levar a cabo a tarefa, tendem a ter falta de confiança porque eles estão conscientes das suas próprias deficiências, especialmente quando comparam suas habilidades com as dos outros.

Esta observação se tornou linguagem corrente com qualquer número de casos examinados. Assim, por exemplo, o bêbado pensa que ele pode andar sobre uma linha reta porque ele está tão ocupado pensando em como vai fazer isto, que será incapaz de analizar a sua incapacidade de fazê-lo. Ou ainda alguém que usa um celular enquanto dirige está tão concentrado em falar ao telefone ao mesmo tempo em que pilota o carro que ele não notará a significante queda na sua competência de dirigir.

Para ter uma compreensão de iniciante neste campo do estudo, ocorreu-me perguntar a questão: "Estariam os neoateístas sofrendo do efeito Dunning-Kruger?" Por exemplo, muitas das resenhas do livro de Richard Dawkins, "Deus, Um Delírio" ("The God Delusion"), têm apontado a incompetência do autor nas áreas sobre as quais ele escreve. Algumas dessas resenhas não foram escritas por cristãos ou teístas se defendendo dos ataques deles, mas por profissionais não cristãos constrangidos pelo mau uso das suas disciplinas acadêmicas.

Escrevendo no The New York Times em 2007, o jornalista católico Prof. Peter Steinfels notou que as críticas ao livro "Deus, Um Delírio" de Richard Dawkins, vêm não somente de crentes mas também de ateus e descrentes. Ele se referiu às críticas de acadêmicos como o crítico literário de Oxford, Prof. Terry Eagleton, ao crítico literário de Harvard, James Wood, ao biólogo-evolucionista de Rochester, Prof. James H. Orr, e ao filósofo de New York, Prof. Thomas Nagel. E Steinfels poderia ter acrescentado outros como o filósofo e biólogo da Flórida, Prof. Michael Ruse. A principal queixa desses críticos de Richard Dawkins diz respeito à incompetência dele em lidar com o tema de Deus e da teologia.

A desculpa que o prof. Dawkins dá aos críticos, sobre a sua falta de estudo sério de teologia é a pergunta retórica "Você tem que saber 'leprechologia' antes de não acreditar em leprechauns [os folclóricos duendes irlandeses]?" Essa tática contraria o famoso conselho chinês d'A Arte da Guerra: conheça os seus inimigos. Desafortunadamente para Dawkins, aqueles de nós com algum conhecimento de cristianismo não nos abalamos pela sua tirada anti-teísta. Nós sabemos o suficiente para reconhecer a incompetência e a necessidade de uma humildade consideravelmente maior diante dos fatos.

Muitos cristãos têm escrito contra "Deus, Um Delírio", mas o fato de serem crentes faz com que seu ponto de vista ganhe pouca visibilidade da mídia e na opinião pública - sendo relevados com a frase "naturalmente, eles discordariam". Escritores que possuem tanta credibilidade acadêmica como o prof. Dawkins, tais quais o professor de Matemática de Oxford, John Lennox, ou o biólogo que se tornou teólogo, prof. Alistair McGrath, têm publicado críticas valiosas sobre o neoateísmo. O prof. McGrath, que obteve doutorados da Universidade de Oxford tanto em Biologia como em Divindade, se converteu do ateísmo para o cristianismo através da sua "descoberta da filosofia da ciência" e a sua investigação do "que o cristianismo realmente era". Ele escreveu um valioso pequeno livro chamado "O Delírio de Dawkins" ("The Dawkins Delusion").

Menosprezar tais escritos por causa do viés do autor é tão irracional como desprezar os escritos ateus por causa do seu viés. Cada um deles tem que ser avaliado de acordo com os seus méritos.

Aceitar o que eles dizem por causa de suas credenciais acadêmicas também é irracional. Há momentos na vida em que o pequeno garoto na multidão pode ver através da pretensão acadêmica e declarar que o imperador está nu. Naquela ocasião, uma rápida avaliação dos fatos trouxe o riso para ambos os lados. É razoável esperar que eruditos com qualificações acadêmicas de grande reputação irão escrever nas suas áreas de conhecimento e estarão cientes das limitações do seu conhecimento.

Isto nos traz de volta ao efeito Dunning-Kruger, que diz que quanto menos competente você for mais confiante provavelmente você será. Lançar uma campanha mundial sobre assuntos dos quais você sabe pouco e pesquisou menos ainda - omitindo que você intencionalmente não os estudou porque não crê neles - é menos do que aceitável para um debate público genuíno ou uma discussão acadêmica, para não dizer que está falhando na arte da guerra.

Foi o grande herói do prof. Dawkins, Charles Darwin, que escreveu na sua introdução a "A Descendência do Homem": "a ignorância gera confiança com mais frequência do que o conhecimento".



terça-feira, 26 de junho de 2012

O gene altruísta

Interessante artigo sobre a possibilidade de seleção de grupos (em vez da seleção natural darwiniana e o "gene egoísta" de Richard Dawkins) e a evolução da ética, publicado na Folha de S. Paulo do último domingo, 24/06/12:

Guerra acadêmica sobre a evolução da ética

REINALDO JOSÉ LOPES 
EDITOR DE "CIÊNCIA E SAÚDE"

Edward Osborne Wilson, 82, nunca foi um sujeito modesto, embora quase todos os que o conhecem façam questão de louvar a gentileza um tanto antiquada do biólogo, um dos derradeiros exemplares de "cavalheiro do Sul" dos EUA (ele nasceu no Alabama).

Em livro que acaba de ser lançado, o pesquisador da Universidade Harvard --uma das maiores autoridades mundiais em formigas e "bicampeão" do Prêmio Pulitzer-- decidiu revisar sua própria (e grandiosa) explicação sobre as raízes da natureza humana.

Em obras como "Sociobiology: The New Synthesis", de 1975, Wilson já explorava o foco da discórdia atual: por que, afinal, somos (ao menos de vez em quando) altruístas? Para ele, a explicação mais correta está na "seleção de grupo", ideia com fedor de heresia para uma parcela importante dos teóricos da evolução.

Seus adversários enxergam a evolução como um jogo cujos protagonistas são indivíduos ou genes --jamais grupos. Essa também era a opinião dele em "Sociobiology". Agora, no entanto, Wilson discorda.

"Indivíduos egoístas se saem melhor do que indivíduos altruístas. Mas grupos de altruístas vencem grupos de egoístas. Todo o resto é comentário", resume ele no recém-lançado "The Social Conquest of Earth" ["A Conquista Social da Terra", ed. Liveright, 297 págs.].

De leitura agradável e clara, o livro foi escrito para divulgar as novas ideias do cientista para o grande público. A edição brasileira está prevista para o segundo semestre, pela Companhia das Letras, que ainda lançará, no ano que vem, "O Superorganismo - A Beleza, a Elegância e a Esquisitice das Sociedades dos Insetos".

PARENTESCO

Wilson ainda faz questão de cutucar outro vespeiro caro aos biólogos evolutivos: o conceito de seleção de parentesco.

Grosso modo, ele pode ser descrito como a versão evolutiva do nepotismo. Ajuda a expressar como sacrifícios feitos em favor de parentes podem ser uma estratégia vencedora no jogo da evolução, mesmo quando o indivíduo que arrisca a sua vida nem chega a deixar descendentes diretos.

Bobagem, diz Wilson: tanto comportamentos observados na natureza quanto modelos matemáticos --que supostamente mostrariam a importância da seleção de parentesco-- podem ser explicados de outras maneiras. Por exemplo, pelo conceito de seleção de grupo.

A seleção de parentesco, escreve ele, é "uma construção matemática fantasma, impossível de ser expressa de maneira que faça algum sentido biológico realista."

Para alguns, a briga põe mais coisas em jogo do que a ortodoxia da teoria evolutiva. Decidir a disputa também ajudaria a determinar se, afinal, o altruísmo puro, desinteressado, faz parte da nossa herança genética, ou não passa de um belo manto para o mais rasteiro favorecimento de parentes.

"Isso é ciência com altas implicações existenciais", escreveu o neurocientista e divulgador científico Jonah Lehrer na revista americana "New Yorker".

Dois anos atrás, ao apresentar uma prévia de suas teses em artigo publicado na revista científica "Nature", Wilson despertou tamanha ira que 130 dos mais renomados biólogos do mundo mandaram uma carta tentando refutá-lo. O debate continuou, com réplica e tréplica na "Nature" e na internet, e ainda não amainou de todo.

"O Ed sempre teve um viés favorável à seleção de grupo, embora trate o tema de forma extremamente confusa. Nada mudou [na pesquisa sobre evolução] para justificar a ênfase que ele vem dando à ideia agora", diz Robert Trivers, pesquisador da Universidade Rutgers (EUA), um dos críticos mais ferrenhos da guinada.

Outros, porém, saem em defesa de Wilson. "O que a gente está vendo é pura resistência paradigmática. Thomas Kuhn ia adorar presenciar isso", diz Charbel Niño El-Hani, do Laboratório de Ensino, Filosofia e História da Biologia da Universidade Federal da Bahia.

Historiador da ciência americano, morto em 1996, Kuhn postulou que as grandes mudanças na ciência só acontecem aos trancos e barrancos, quando uma antiga visão de mundo (o tal paradigma) é suplantada por outro paradigma, inconciliável com o anterior.

Para El-Hani, muitos dos que se opõem a reconhecer um possível papel relevante da seleção de grupo o fazem por mero conservadorismo: "Muita gente veio com a conversa de que o Wilson endoidou ou está gagá. São os filhos se sentindo traídos pelo Grande Pai".

HAMILTON

Expressão matemática bastante simples, a regra de Hamilton é considerada a base do pensamento quantitativo sobre seleção de parentesco. A álgebra é do britânico William Donald Hamilton (1936-2000), antigo aliado de Wilson e um dos biólogos evolutivos mais admirados do século 20.

A expressão, C < r x B, diz que um comportamento altruísta valerá a pena desde que seu custo (C) seja menor que o benefício (B) multiplicado pelo grau de parentesco (r, do inglês "relatedness") entre os indivíduos envolvidos no ato altruísta.

Se a conta parece um pouco abstrusa, podemos compreendê-la a partir de uma anedota, anterior ao trabalho de Hamilton e que acabou por inspirá-lo. Certa vez perguntaram ao também britânico John Burdon Sanderson (conhecido como "JBS") Haldane (1892-1964), outro gigante da biologia evolutiva, se ele seria capaz de dar a vida para salvar um irmão. Ele fez uma conta rápida e respondeu que seria capaz de se sacrificar alegremente não por um, mas por dois irmãos. Ou por oito primos, tanto fazia.

Por trás da piada está o fato de que criaturas que se reproduzem por meio do sexo, como nós e a vasta maioria dos reinos animal e vegetal, possuem "fatias" genéticas de si mesmas espalhadas pelo genoma de seus parentes.

Lembre-se de que seres humanos normais, por exemplo, possuem 23 pares (a palavra-chave aqui é "pares") de cromossomos, as estruturas enoveladas que abrigam o DNA. Um dos membros de cada par é legado pelo pai; o outro vem do genoma materno.

Isso significa que, a cada geração, quando óvulos e espermatozoides são produzidos, ocorre uma nova divisão, meio a meio, do material genético que será passado para os filhos. Grosso modo, uma menina carrega 50% do genoma de sua mãe (a conta é a mesma para irmãos, desde que sejam filhos do mesmo pai e da mesma mãe), enquanto uma neta tem 25% do DNA de sua avó. Primos em primeiro grau compartilham entre si 12,5% de seu material genético, e por aí vai.

Portanto --e adicionando uma dose de dramalhão mexicano à brincadeira de JBS--, só fará sentido usar o seu corpo como escudo para proteger o seu irmão dos disparos de um bandido caso você saiba de antemão que seu irmão terá, no futuro, quatro filhos ou mais. Isso porque "quatro sobrinhos" (25%+25%+25%+25%) = 100% "você".

O DNA que caracteriza o seu organismo, em outras palavras, será mantido no grande caldeirão genético da nossa espécie graças ao seu ato heroico, ainda que você pereça sem deixar descendentes.

Claro que esse é o cenário extremo, hollywoodiano, em que a seleção de parentesco poderia favorecer comportamentos altruístas. Nesses casos, o B (de "benefício") da regra de Hamilton é simples: garantir a sobrevivência de membros da família.

Mas mesmo ações bem mais modestas, como tomar conta de um neto ou sobrinho quando a filha ou a irmã precisam ir para o trabalho, podem trazer uma contribuição pequena, mas não desprezível, para a aptidão geral da família """aptidão" entendida como a capacidade de sobreviver e deixar descendentes viáveis, a medida primordial do sucesso evolutivo.

A formulação da regra de Hamilton, originalmente publicada em artigos no periódico científico "Journal of Theoretical Biology", em 1964, a princípio quase caiu no vazio. Wilson foi um dos poucos partidários de primeira hora.

Em seu último livro, ele conta ter defendido Hamilton "diante de uma plateia em grande parte hostil", num encontro da Real Sociedade Entomológica de Londres, em 1965. A seleção de parentesco é uma das estrelas de um dos livros do biólogo a receber o Pulitzer, "On Human Nature" ("Sobre a Natureza Humana"), de 1979.

Defender esse tipo de ideia nos anos 1970 não era exatamente um passeio no parque. Acusado de achar que os genes controlavam o comportamento humano como se as pessoas fossem robôs e de até de apoiar o racismo e a extrema direita, Wilson chegou a ser atacado durante uma conferência científica - ativistas derramaram um jarro de água gelada na cabeça dele.

O biólogo Nelio Bizzo, hoje professor de ensino de ciências na USP, estudante de pós-graduação no começo dos anos 1980, lembra como as implicações políticas da obra de Wilson geravam polêmica.

"Cursei a disciplina de sociobiologia durante o mestrado e, no trabalho final, levantei a conjectura de que, se as ideias de Wilson estivessem corretas, o editor do livro deveria ser parente dele. Quase fui reprovado", conta.

"Acho que a carga ideológica da seleção de parentesco era evidentemente muito grande, pois era uma justificativa muito forte para uma série de práticas sociais moralmente inaceitáveis, como o racismo e a xenofobia", diz Bizzo. "Talvez o Wilson seja descendente de uma família que possui um gene que faz as pessoas pensarem que tudo é genético", ironiza.

Apesar do debate político, para muitos a regra de Hamilton parecia unir e explicar, num único conjunto conceitual e com economia, uma série de fenômenos biológicos aparentemente disparatados.

EUSSOCIALIDADE

O caso mais importante tinha a ver com o estilo de vida bizarro de certos insetos, como formigas, abelhas e vespas, todos membros da ordem dos himenópteros. Muitos desses animais adotaram a eussocialidade (do grego "eu", "verdadeiro", ou "sociedades verdadeiras", cuja complexidade pouco deve à da sociedade humana).

A praxe nos grupos de insetos eussociais é que a reprodução seja monopólio de uma única rainha, enquanto as demais fêmeas do grupo, divididas em castas de operárias, soldadas etc., nunca deixam descendentes diretos --e são em certa medida descartáveis.

Para Hamilton e companhia, uma pista crucial para entender a estrutura social desses insetos está no sistema que usam para determinar o sexo dos indivíduos, conhecido como haplodiploide.

Começando pelo fim: "diploides" são os organismos com dois conjuntos de cromossomos, como os humanos, as abelhas rainhas e as abelhas operárias. Criaturas haploides têm um só conjunto de cromossomos ""é o caso dos zangões.

Rainhas e operárias nascem da união entre fêmeas e machos, tal como nós. Já os zangões são fruto da partenogênese (literalmente, "nascimento virgem"), vindo ao mundo a partir de óvulos não fertilizados, botados pelas rainhas.

Essa "esquisitice" teria uma consequência intrigante para a regra de Hamilton. Por terem só uma cópia de cada cromossomo, os zangões legam sempre os mesmos genes para suas filhas, a não ser que ocorram mutações (se o genoma deles fosse como o nosso, duas filhas poderiam herdar, cada uma, um cromossomo diferente).

Por isso, duas abelhas filhas do mesmo pai e da mesma mãe estão geneticamente muito mais próximas uma da outra do que irmãos mamíferos: compartilham 75% de seus genes. No entanto, o grau de compartilhamento entre essas fêmeas e suas mães ou filhas ainda é o tradicional: 50%. Quanto aos zangões, justamente pela presença de um único conjunto de cromossomos no genoma deles, o compartilhamento cai para 25%.

Esses fatos simples, vistos pelo prisma da seleção de parentesco, pareciam explicar o porquê da rainha solitária, destinada a trazer ao mundo uma multidão de operárias depois de um único voo nupcial com zangões. A monarca não passaria de uma máquina de fazer súditas, as quais teriam muito mais "interesse" em produzir irmãs geneticamente muito parecidas com elas mesmas do que em criar suas próprias filhas e filhos.

BRECHAS

O poder explicativo da seleção de parentesco teria ajudado, portanto, a resolver o enigma da origem de alguns dos animais mais bem-sucedidos da história da Terra. Afinal, embora formigas, abelhas e vespas eussociais correspondam a apenas dezenas de milhares entre cerca de 1 milhão de espécies de insetos conhecidas, esses bichos não têm rival em número de indivíduos. Apenas as formigas correspondem a um quarto do total da biomassa (o "peso" somado dos seres vivos) de animais.

No entanto, uma praga devoradora de celulose sempre rondou essa ortodoxia: o cupim. Mais aparentados às baratas, esses animais são diploides, tal e qual mamíferos como nós, e mesmo assim são adeptos refinados da eussocialidade. Em seu novo livro, Wilson mapeia o avanço da pesquisa nas últimas décadas, revelando, em várias espécies, clara adoção da vida eussocial sem o arranjo genético peculiar de abelhas e formigas.

São seres como besouros, camarões e até roedores que habitam o subsolo africano, entre eles o rato-toupeira-pelado (Heterocephalus glaber). Mesmo no caso de abelhas e formigas, o mais comum é que a rainha se acasale com múltiplos machos, anulando o efeito de proximidade genética entre irmãs que poderia ser gerado pela haplodiploidia "de um marido só".

O resultado desse novo conjunto de dados, argumenta Wilson, é que a associação entre haplodiploidia e vida eussocial "deixou de ter significância estatística".

SELEÇÃO DE GRUPO

Para Wilson, é muito mais simples pensar em termos de seleção de grupo. Examinando o que há de comum entre os vários tipos de espécies eussociais, ele afirma que esse estilo de vida depende de vários pré-requisitos para emergir.

Um deles é a existência de um ninho "fortificado", facilmente defensável --um protótipo de colmeia ou formigueiro, digamos.

Outro passo crucial é quando modificações comportamentais, provavelmente ligadas a mutações, levam os filhotes, ao se tornarem adultos, a deixar de se dispersar e criar seus próprios ninhos, permanecendo com a família e cuidando dos irmãos que vão nascendo. Dados experimentais mostram que, nesses casos, estabelece-se uma divisão de trabalho natural dentro da colônia, com o aparecimento de formas rudimentares de rainhas e operárias.

Nesse contexto, afirma o biólogo, ganha a corrida evolutiva o ninho que funcionar como a unidade reprodutiva mais azeitada --e a divisão de trabalho e coesão proporcionadas pela vida eussocial representariam enorme vantagem para os grupos altruístas, diz ele.

O argumento já seria suficientemente ambicioso se a proposta fosse explicar apenas os insetos sociais, que são a especialidade de Wilson. Mas ele também classifica os seres humanos como mamíferos eussociais, ainda que de natureza bem distinta da dos ratos-toupeira-pelados.

Apoiando-se em dados arqueológicos e paleoantropológicos, ele vê os hominídeos (ancestrais do homem) passando pelo processo de criação de "ninhos" defensáveis ao adotarem o hábito de montar acampamentos de caçadores-coletores. Assim como nas espécies eussociais, os acampamentos abrigavam múltiplas gerações de indivíduos aparentados e lançavam mão da divisão de trabalho para obter alimentos, defender-se de grupos vizinhos e atacá-los.

"Invenções" tipicamente humanas, como a linguagem complexa, a arte e a religião, seriam meios refinados para maximizar a coesão interna dos grupos e prepará-los para o confronto com os demais.

"A questão é que os seres humanos não apresentam a divisão reprodutiva de trabalho que vemos nos insetos", ressalva Klaus Hartfelder, biólogo da USP de Ribeirão Preto que estuda o genoma das abelhas.

Para Wilson, as tendências altruístas humanas no interior dos grupos são contrabalançadas pela seleção natural agindo nos indivíduos, com cada um tentando maximizar seu próprio potencial reprodutivo à custa dos demais.

O resultado é uma visão decididamente dualista da natureza humana: a seleção de grupo é a mãe do que chamamos de virtudes, diz Wilson; a seleção natural "individual", a fonte de todos os vícios. Ser humano significa estar dilacerado por essas tendências opostas a cada momento da vida.

RENASCIMENTO

Uma coisa é certa: os últimos anos viram um renascimento dos estudos sobre seleção de grupo, embora a maioria dos biólogos ainda relute em aceitá-la.

"Vinte anos atrás, a crítica à seleção de grupo era feroz. Era considerado 'naïf' [ingênuo] ter ideias desse campo", conta Diogo Meyer, biólogo evolutivo da USP. "O campo amadureceu, deixou de ser anátema. Mas demonstrações teóricas e empíricas fortes a favor da seleção de grupo ainda são modestas".

Uma objeção tradicionalmente levantada pelos que duvidam da seleção de grupo tem a ver com a relativa vulnerabilidade das sociedades de altruístas ao chamado "mutante egoísta". Num grupo em que predominam altruístas, um sujeito desse tipo teria uma grande vantagem reprodutiva em relação aos demais, e aquela população logo seria "invadida" e dominada por descendentes dele.

Desde o fim dos anos 1990, no entanto, trabalhos de pessoas como David Sloan Wilson (não é parente do outro Wilson) usaram modelos matemáticos para mostrar que, em determinadas condições, a seleção de grupo pode ocorrer. "Pode ser um evento raro", diz Gustavo Caponi, professor de filosofia e história da ciência da Universidade Federal de Santa Catarina. "Mas a evolução tem tempo de sobra para eventos raros acontecerem."

Tais condições envolveriam, por exemplo, grupos relativamente bem separados e homogêneos, de modo que a diversidade de comportamento fosse menor no interior dos grupos do que entre um grupo e outro.

Para Charbel El-Hani, esse tipo de contexto pode favorecer a aplicação que Wilson faz da seleção de grupo à evolução humana. "As culturas humanas conseguem criar esse cenário", diz ele, ressaltando, no entanto, que outros fatores igualmente importantes devem ter influenciado a trajetória evolutiva de nossa espécie.

El-Hani lembra que até a avicultura fornece indícios em favor da seleção de grupo: "Descobriu-se que, depois de um certo limiar, era muito difícil aumentar a produção de ovos de galinha. É que, quando os criadores selecionavam individualmente as galinhas mais produtivas, essas acabam sendo também as 'nasty chickens' [galinhas malvadas], que destruíam os ovos das outras." Quando a seleção passou a ser feita pelos grupos que mais botavam ovos, a produtividade voltou a subir.

Apesar da crescente adesão à ideia de seleção de grupo, Wilson parece pisar em terreno mais pantanoso quando diz que a seleção de parentesco inexiste ou é desimportante.

Mesmo entre os supostamente harmoniosos himenópteros, conflitos de interesse genético ocorrem com frequência, lembra Klaus Hartfelder, referindo-se ao seu campo de especialidade, as abelhas domésticas. As operárias, célebres por sua esterilidade, ainda assim são capazes de produzir ovos por partenogênese, e uma rainha pode se acasalar com 20 machos diferentes antes de "constituir família". "O que acontece é que as operárias tendem a destruir os ovos botados por outras operárias cujo pai não é o mesmo que o delas", conta Hartfelder. Coisas parecidas também se dão com formigas.

A acidez do debate está longe de amainar, mas o biólogo da USP vê com tranquilidade a briga. "Essas posições fortes são importantes, é assim que a ciência avança." E, se Wilson estiver certo, talvez esse seja mais um resultado dos profundos instintos tribais que a evolução inscreveu certa vez nos corações de um punhado de primatas bípedes.



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