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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Um novo amanhã, feliz 2016!


Dietrich Bonhoeffer escreveu o poema abaixo no Ano Novo de 1945, pouco antes de morrer executado por ordem de Hitler:

POR BONS PODERES

1. Por bons poderes fielmente cercado,
maravilhosamente protegido e consolado –
assim com vocês estes dias desejo passar
e com vocês também num novo ano entrar.

2. O antigo nosso coração ainda tortura
e o fardo de maus dias nos traz amargura.
Senhor, dá a nossas almas assustadas
a salvação para a qual foram criadas.

3. Se nos estendes o cálice pesado e amargo
do sofrimento, cheio até a borda,
nós o tomaremos gratos e sem tremor
das tuas mãos plenas de bondade e amor.

4. Mas se ainda quiseres dar-nos alegrias
com este mundo e o brilho dos seus dias,
então nos lembraremos do passado e
entregaremos nossa vida ao teu cuidado.

5. Faz com que chamejem as velas cálidas e claras,
que tu mesmo trouxeste para as nossas trevas.
Permite, se possível, que outra vez nos encontremos!
É a tua luz que brilha na noite, bem o sabemos.

6. Quando se espalhar profundo o silêncio,
faz com que ouçamos aquele som intenso
do mundo que invisível se estende ao nosso redor,
de todo o teu povo que a ti está rendendo louvor.

7. Por bons poderes maravilhosamente protegidos,
esperamos consolados o que nos será trazido.
Deus está conosco de noite e de manhã,
e com toda a certeza a cada novo amanhã.

Ano Novo/1945



sábado, 18 de abril de 2015

Dietrich Bonhoeffer, 70 anos depois de sua morte

No dia 9 de abril de 1945, um mês antes da capitulação da Alemanha nazista frente aos aliados, Dietrich Bonhoeffer foi enforcado nu por ter tido a coragem de se opor à insanidade que havia tomado conta do país.

Em homenagem ao grande teólogo protestante alemão, reproduzimos o artigo abaixo publicado no IHU:


O desafio de Bonhoeffer ao nazismo.
Artigo de Alberto Melloni


Bonhoeffer não é um homem forçado a viver sob o nazismo: ele poderia ter ficado nos Estados Unidos ou em Londres, onde ele tinha sido levado pelo seu trabalho como teólogo e onde sonhou um concílio de todas as Igrejas para anunciar a paz de Cristo ao mundo em delírio.

A opinião é de Alberto Melloni, historiador da Igreja, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII de Bolonha. O artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera, 09-04-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Era dezembro de 1931. Um jovem livre professor evangélico, pároco dos estudantes da escola técnica de Berlim, ávido leitor do livro de capa violeta de Otto Dibelius, O século da Igreja, vai escutar uma palestra do admirado teólogo, superintendente geral da Igreja Luterana em Berlim.

E conta a Erwin Sutz a cena hilariante que se revela a ele: "Dibelius nos informou em uma conferência sobre o fato de que a Igreja tem 2.500 estudantes a mais e que, por isso, aos teólogos poderão ser feitos pedidos particulares, incluindo, em primeiro lugar, a disponibilidade ao martírio, em uma luta em que estariam entrelaçados ideais políticos e religiosos! (...). Os ouvintes pisoteavam como loucos: viva a 'Igreja violeta'".

O ouvinte afiado e cortante daquela infantil arrogância era Dietrich Bonhoeffer: jovem teólogo de alta linhagem acadêmica (o bisavô era o historiador da Igreja Karl August von Hase, chamado por Goethe a Jena, o avô era o pregador da corte Karl Alfred), cuja figura e cuja obra marcam um antes e um depois na história do cristianismo.

Bonhoeffer não é um homem forçado a viver sob o nazismo: ele poderia ter ficado nos Estados Unidos ou em Londres, onde ele tinha sido levado pelo seu trabalho como teólogo e onde sonhou um concílio de todas as Igrejas para anunciar a paz de Cristo ao mundo em delírio.

De volta à pátria, trabalhou no seminário clandestino da Igreja Confessante, na que Dibelius também tinha entrado: e aceitou entrar na contraespionagem alemã, posição essencial para uma ação de resistência que visava a matar Hitler.

Preso no dia 5 de abril de 1943, deu-se conta, depois do fracasso do complô de Canaris, que não tinha saída e, da prisão de Tegel, escreveu, em forma de pensamentos, cartas e poesias, textos que cumpriam o percurso teológico iniciado com a tese sobre a Communio sanctorum em 1927 e que continuou nos cursos (o de 1932 saiu em italiano no dia 22 de abril, com o título Tra Dio e il mondo [Entre Deus e o mundo], pela editora Castelvecchi, traduzido por Nicholas Zippel, p. 64 e 69).

Assim, naquela série de textos que seria reunida com o título Resistência e submissão, Bonhoeffer marca uma ruptura no modo de pensar Deus com uma "fé concreta". Em torno dessa interrogação da responsabilidade se desdobrará a sua vida como prisioneiro até o dia 9 de abril de 1945, quando, em uma Alemanha já derrotada, Bonhoeffer foi levado ao castelo de Flossenbürg, submetido a um processo rocambolesco para salvar as formas e enforcado pouco antes da chegada dos Aliados.

Bonhoeffer não vive esse trajeto com a alma febril dos pisoteadores exaltados da "Igreja violeta", mas com a dolorosa ternura de quem viu a dupla "substituição vicária" da Igreja e do mundo, colocada, uma, lá onde deveria estar o outro, em um deslocamento em que o Cristo se revela como tal "para o mundo" e não "para si mesmo".

Ele já tinha escrito isso em uma pregação de 1932: "É possível que o cristianismo, iniciado de modo tão revolucionário, seja agora e para sempre conservador? (...) Se é realmente assim, não devemos nos admirar que até mesmo a nossa Igreja volte ao tempo em que será pedido o sangue dos mártires. Mas esse sangue, admitindo-se que ainda tenhamos a coragem, a honra e a fidelidade para derramá-lo, não será tão inocente e luminoso como o das primeiras testemunhas. Sobre o nosso sangue, haverá o peso de uma nossa grandes culpa: a culpa do servo inútil, que é jogado para fora, nas trevas".

Mas, ao se reconhecer assim, ele descobre a graça cara. E, ao mesmo tempo, descobre que somente "o Christus intercedens nos assegura da graça de Deus".



domingo, 20 de julho de 2014

A motivação cristã por trás do atentado contra Hitler, 70 anos depois

Alfred Delp
Artigo publicado no IHU:

Fé é responsabilidade. 70º aniversário do atentado contra Adolf Hitler

As Igrejas não apoiaram atividades de resistência ao regime nazista em sentido estrito. Porém, chama a atenção que algumas das pessoas envolvidas na resistência motivaram as suas escolhas com a fé cristã.

A opinião é do teólogo e pastor italiano Lothar Vogel, professor da Faculdade Valdense de Teologia, em artigo publicado na revista Riforma, publicação semanal das Igrejas Evangélicas batista, metodista e valdense, 18-07-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Este ano marca o 70º aniversário do atentado contra Adolf Hitler posto em ação, sem atingir o objetivo, no dia 20 de julho de 1944, pelo conde Claus von Stauffenberg.

Na Alemanha, a data da "Operação Walkyrie", apesar de não ser a única tentativa desse tipo, tornou-se o momento mais importante para comemorar a resistência ao nacional-socialismo.

Falando de resistência, é necessário introduzir uma distinção. Apesar de um controle férreo sobre a população, na Alemanha, houve reservas, críticas e algumas poucas contestações públicas ao regime, e também atividades de ajuda para aqueles que eram perseguidos e ameaçados de morte, particularmente para os judeus.

Esse tipo de atividades implicava riscos não ignoráveis para a incolumidade, a liberdade e a vida daqueles que se comprometiam. Até mesmo alguns representantes e membros das Igrejas, de todas as confissões, fizeram ouvir as suas vozes.

A resistência, porém, baseou-se na convicção de que o regime nazista perderia, por causa dos crimes por ele cometidos, qualquer legitimidade e deveria ser eliminado ou mediante uma conspiração ou com um atentado contra o ditador, ao qual os funcionários estatais e as forças militares estavam ligados por um juramento pessoal.

Uma resistência operacionalmente relevante se formou apenas nos anos da guerra (a partir de 1938) e era composta sobretudo por intelectuais, pela nobreza prussiana e por altos oficiais que tinham se dado conta da insustentabilidade da estratégia bélica adotada.

De certa importância foi o fermento cristão da resistência alemã. É verdade que a tomada do poder pelo nazismo foi possível graças à repugnância alimentada nas camadas protestantes em relação à República de Weimar e pela propensão de boa parte do catolicismo, justamente no período de crise da democracia, a ideias corporativistas, adversas ao sistema parlamentar. Um princípio de lealdade para com o Estado nazista era predominante até mesmo na Igreja Confessante.

Em síntese, as Igrejas não apoiaram atividades de resistência em sentido estrito. Porém, chama a atenção que algumas das pessoas envolvidas na resistência motivaram as suas escolhas com a fé cristã.

Harald Poelchau
O "círculo de Kreisau" em torno do conde Helmuth James von Moltke, que buscava desenhar uma Europa pós-bélica composta por entidades locais autogovernadas, era frequentado por protestantes afins socialismo religioso, incluindo o pastor Harald Poelchau (foto ao lado) e o jovem jesuíta Alfred Delp (foto acima).

Foi este último que inseriu nas reflexões do círculo a doutrina social católica, afirmando o princípio da subsidiariedade. O protestante von Moltke tomou de Delp também a visão – em si mesma discutível – da modernidade como época de progressiva degradação, culminando justamente no nazismo, cujo colapso deveria permitir a inauguração de uma fase de renovação.

Depois do atentado, quando Delp, assim como outros membros do círculo, acabou na prisão de Tegel, foi Poelchau, que atuava ali como capelão, que lhe levou as hóstias e o vinho para a celebração da missa – símbolo de um ecumenismo aprofundado pela experiência compartilhada de resistência ao regime.

O teólogo evangélico mais relevante da resistência foi Dietrich Bonhoeffer. Um dos pouquíssimos que já em 1933 tinham protestado contra o antissemitismo do regime, ele colaborou desde 1940 com o serviço secreto (Abwehr), que, sob a direção do almirante Wilhelm Canaris, havia se tornado um centro da resistência, organizada, dentre outros, por Hans von Dohnanyi, cunhado de Bonhoeffer.

Dietrich Bonhoeffer
Em vez de explorar as suas relações ecumênicas para espionar a Inglaterra, que era a sua tarefa oficial, Bonhoeffer tentou preparar o terreno internacional para um golpe de Estado na Alemanha, até a sua prisão ocorrida ainda em abril de 1943.

Somente depois do atentado do dia 20 de julho, no entanto, é que foram encontradas provas suficientes para condená-lo à morte. Como os outros conspiradores do Abwehr, Bonhoeffer também foi enforcado em abril de 1945.

Com as suas reflexões sobre a "responsabilidade" a ser vivida em um mundo secular, responsabilidade orientada a "mandatos" vocacionais concretos e não a princípios abstratos, Bonhoeffer fez do seu compromisso "laico" uma leitura teológica isenta de pretensões de superioridade. O seu compromisso nesse ramo da resistência que, conscientemente, tentava matar o tirano expressou o reconhecimento pleno da mundanidade do mundo, em que Bonhoeffer tentava viver a fé cristã na consciência de correr o risco de errar, mas de não poder não responder ao chamado recebido.



sexta-feira, 30 de maio de 2014

Hitler e a espiritualidade contemporânea

Hitler comanda ataque nazista em caricatura soviética de 1942

Artigo de Mateus Prates Mori, a quem agradecemos por ter gentilmente autorizado sua reprodução aqui:

ESPIRITUALIDADE CONTEMPORÂNEA:
O que Hitler tem a ver com isso?

Muitos hoje baseiam qualquer tipo de espiritualidade com algo absorvido ou criado por eles mesmos. Como diz o ditado, no Mundo há tantas pessoas como religiões. Mas, o que Hitler tem a ver com tudo isso?

A grosso modo, pode-se dizer que hoje a religião imperante é uma espécie de Unismo. Como explica o Dr. Peter Jones, no Unismo acredita-se que se há um deus, ele está em todas as coisas e é todas as coisas. Em uma analogia, deus seria o conjunto dos números reais, ou seja, todos os números. Nesse bem bolado, você necessita ter olhos para ver o todo. Você faz parte do Cosmos sendo uma parte muito importante do Universo. Você deve exercitar olhar para dentro de si e achar o seu deus interior. Não é um exercício fácil e você pode e deve fazer o uso de várias técnicas, como meditação transcendental, questionamento da moralidade vigente, esvaziamento e libertação da mente em direção a um estado de harmonia com o universo, algo semelhante a um Nirvana. Seja como for, o que se deve buscar é toda a capacidade dentro de si para ser feliz e ser uma pessoa realizada, amando a si mesmo primeiro, para enfim entrar em harmonia consigo e com o universo. Só assim você entenderá o seu papel. Somente dessa forma você pode oferecer ao próximo o seu melhor. Você deve ser satisfeito sozinho e buscar a completude sem haver a necessidade de encontrar a felicidade em alguém. Você pode ser tudo o que você desejar, sendo capaz de realizar seus sonhos sempre tendo em mente que isso faz parte de um plano geral.

Tudo isso é muito bonito, muito belo e com certeza fala ao coração da humanidade. Não acredito que haja um ser humano que em sua essência natural deseja ser um fracassado. Esse discurso se assemelha bastante com a filosofia de Nietzsche destacando que "A sociedade nunca considerou a virtude outra coisa senão um meio para a força, o poder e a ordem". Em 'A vontade de poder', Nietzsche profetizou a vinda de uma raça de dominadores, "uma espécie humana particularmente forte, altamente dotada de inteligência e vontade". Quase todo tipo de ideologia mama, de alguma forma, nesse fundamento. A teologia da prosperidade que cresce no meio evangélico não é diferente. Afinal, se o Todo-Poderoso o salvou, Ele o salvou para ser um vencedor. Você é um campeão de Deus e como tal deve determinar a sua vitória sobre todas as coisas, pois se Ele prometeu nos dar todas as coisas, assim Ele fará.

De modo muito interessante esse tipo de pensamento rondava a mente de Adolf Hitler. Ouve-se, por vezes, que Hitler era cristão católico. Não era, sabemos, mas não também era abertamente anticristão. Sempre usou a Igreja como massa de manobra para impor sua ideologia e quando necessário distorcia as Escrituras. O Führer apoiou a ala da Igreja denominada de Cristãos Alemães que criaram o 'Cristianismo Positivo'. Uma similaridade que se nota com a espiritualidade atual e a doutrina propagada pelos Cristãos Alemães era o DESPREZO AO ENSINO DO PECADO E DA GRAÇA. O próprio Hitler considerava a pregação cristã de "mansidão" inútil à ideologia nacional-socialista da época, dizendo: "Temos a desgraça de que a nossa religião não nos convém.

Por que não temos a religião dos japoneses, cuja aspiração máxima é o sacrifício pela pátria? Para nós a religião maometana teria sido melhor que o cristianismo, uma religião frouxa e paciente". Em seu livro 'A cruz distorcida: o movimento cristão alemão do Terceiro Reich', a historiadora Doris Bergen escreveu que "os Cristãos Alemães pregavam um cristianismo como o polo oposto do judaísmo, Jesus como líder antissemita, e a cruz como símbolo de guerra contra os judeus". O Evangelho da cruz de Cristo era aquém e negativo demais para recuperar o orgulho e a força do povo alemão após a humilhação no Tratado de Versalhes. Admitir a derrota não é uma opção.

Se você leu até aqui, espero que você possa trazer à memória o que traz esperança. Sim, Jesus Cristo venceu todas as coisas e nos deu a salvação eterna oferecendo-se a si mesmo, de uma vez por todas, como sacrifício vicário (substitutivo) pelos nossos pecados (Hb 7.27). Porém, Cristo jamais pregou e viveu como se dele emanasse poder autogerado. Todo poder por ele exercido emanava do Pai das Luzes (Tg 1.17) e vinha como resultado da perfeita submissão do Filho ao Pai (Mt 11.27; Jo 8.28; Jo 12.49). O Evangelho de Jesus veio revelar que o homem é pecador e que não há esperança de salvação para ninguém abaixo dos céus senão por uma ação ativa de amor do Pai revelando esse favor imerecido por intermédio de Jesus (Mt 19.16-26). O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16). Mas apesar de sermos filhos de Deus, nós não somos deuses. "A igreja possui um único altar, o altar do Todo-Poderoso [...] perante o qual toda criatura deve se ajoelhar. Aquele que procura coisa diferente disso deve se afastar; não pode se juntar à casa de Deus [...]. A igreja possui um único púlpito, e, do púlpito, a fé em Deus (que está em Cristo Jesus) será pregada, e nenhuma outra fé, e nenhuma outra vontade que não a vontade de Deus, por mais bem-intencionada. [...] não podemos simplesmente não estar atento com o fato de que a causa de Deus nem sempre é o sucesso; nós realmente podemos ser 'malsucedidos': e, ainda assim, estar no caminho certo" (Dietrich Bonhoeffer).

Na verdadeira espiritualidade, para Deus sucesso é:

  • Humildade para o reconhecimento de sua natureza pecaminosa.
  • Arrependimento do que te leva a se distanciar de Deus (inclusive, eventualmente fazer tudo "certinho" e não dar glória a Deus pelo privilégio de ser participante de Sua Obra)
  • Submissão à vontade de Deus (que é naturalmente contrária a sua, o que inclui negar-se a si mesmo).
  • Fidelidade à promessa da Palavra de Deus de que Ele irá cumprir a transformação que começou em cada um dos crentes até o dia que encontraremos com o nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo diante dos fracassos e derrotas que tivermos aqui nesse mundo.


Disse Jesus: "Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo" (Jo 16.33).

"Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou" (Rm 8.36 e 37).



terça-feira, 18 de março de 2014

O cristianismo "não religioso" da pós-modernidade

Artigo instigante publicado no IHU:

Rumo a um ''cristianismo não religioso''

A corrida rumo a um cristianismo adulto implica uma árdua reviravolta de fé (e de pensamento!) que vai muito além da superação do dogmatismo e do confessionalismo.

A opinião é do pedagogo italiano Michele Turrisi, especialista no "pensamento fraco" de Gianni Vattimo, em artigo publicado na revista Koinonia, de fevereiro de 2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Era 1944, e um intrépido teólogo prisioneiro da Gestapo escrevia: "Estamos indo ao encontro de um tempo completamente não religioso; os homens, como já são agora, simplesmente não podem mais ser religiosos. Mesmo aqueles que se definem sinceramente 'religiosos', não colocam isso em prática de modo algum...".

Em geral, é justificado reagir com surpresa quando "ambientes eclesiásticos" promovem ocasiões comunitárias de reflexão (auto)crítica a partir de testemunhos como o de Bonhoeffer conservado na Carta do dia 30 de abril de 1944 da prisão nazista de Berlim Tegel. Nenhuma surpresa, porém, no caso da Associação Koinonia de Pistoia (Koinonia-online.it), que busca muito concretamente "uma maturação humana e cristã adequada às exigências socioculturais dos nossos dias".

Sinal inequívoco, dentre outros, de uma declarada vontade de superar as distorções de uma certa atitude religiosa bastante difundida foi o encontro de dezembro passado, com o tema: Rumo a um 'cristianismo não religioso – onde "rumo" não expressa o perigo, o desvio a ser enfrentado para salvaguardar o cristianismo das Igrejas, mas sim a direção sinceramente desejada, justamente como crentes (que se sentem) chamados à adultez espiritual.

Acolhido também em antologias escolares de filosofia, o célebre texto bonhoefferiano (as cartas e outros escritos da prisão estão reunidos em Resistência e submissão [Ed. Sinodal, 2003]) se impõe pela sua notória atualidade. Nele se encontram considerações urgentes e interrogações tão desconcertantes (na ótica crente comum), quanto inevitáveis, que soam como um apelo a discernir os "sinais dos tempos", aceitando fazer as contas com eles até o fim, humana e cristãmente.

Em uma antiga publicação da editora Claudiana, lê-se o seguinte destaque: "Quanto mais os anos passam, mais Bonhoeffer se torna, por assim dizer, atual. Ele viveu antecipadamente os problemas fundamentais da experiência e da existência cristã de hoje e, provavelmente, também de amanhã. Nesse sentido, é verdade que 'ainda estamos perseguindo Bonhoeffer' (Sperna Weiland)". Difícil discordar.

De fato, dois teólogos conhecidos – embora bastante distantes entre si – reconhecem a plena validade da mensagem do jovem pastor luterano também no novo século: um constatando que "as coisas, com relação a 1944, para a tradicional mentalidade religiosa, permaneceram exatamente as mesmas, mesmo que se busquem buracos [ou lacunas, do mundo físico e da alma humana] para dar legitimidade e consistência ao discurso sobre Deus" (Vito Mancuso, L'anima e il suo destino); o outro admitindo que "nenhuma Igreja ousou colocar em prática essa indicação de Bonhoeffer de uma dupla ascese, a ascese da palavra, reservada à oração, a ascese da ação, reservada exclusivamente à prática da justiça no meio dos homens" (Paolo Ricca), depois de ter lembrado francamente que "Bonhoeffer é um dos poucos teólogos mártires de toda a história cristã, já que os teólogos são intelectuais e, como todos os intelectuais, são especialistas em evitar as tempestades da história e propensos ao pensamento cortesão, isto é, aquele pensamento que acaba por aderir ou não contrastar o poder existente. Na Itália, apenas 13 professores universitários recusaram-se a prestar juramento ao fascismo. Bonhoeffer é uma dessas moscas brancas: ele passou da cátedra na Universidade de Berlim, alcançada ainda muito jovem, à forca de Flossenbürg. [...] Justamente porque pensou exclusivamente naquilo pelo qual se tornou responsável pela ação, viveu apenas 39 anos. E o seu pensamento manifesta uma crescente juventude" (de Finesettimana.org).

Em um congresso realizado em Trento pelo centenário do seu nascimento (2006), Paolo Ricca também disse: "Na realidade, Bonhoeffer nasceu no futuro. Ele não nasceu há 100 anos, antes de nós. Ele nasceu cem anos depois de nós, e nós, como disse um estudioso seu, ainda estamos perseguindo-o" (da revista Il Margine, n.2/2006).

Mas essa corrida rumo a um cristianismo adulto – o único adequado para a nossa sociedade secularizada, ou seja, não mais condicionada por uma visão religiosa/mítica da realidade – implica uma árdua reviravolta de fé (e de pensamento!) que vai muito além da superação (além disso, ainda só em parte realizada em nível intracristão) do dogmatismo e do confessionalismo.

Afirma Bonhoeffer: "As pessoas religiosas falam de Deus quando o conhecimento humano (às vezes por preguiça mental) chegou ao fim, ou quando as forças humanas vêm a faltar – e, com efeito, aquilo que elas chamam em causa é sempre o deus ex machina, como solução fictícia para problemas insolúveis, ou como força diante do fracasso humano; portanto, sempre explorando a fraqueza humana ou diante dos limites humano […]; eu gostaria de falar de Deus não nos limites, mas no centro, não nas fraquezas, mas na força, não, portanto, em relação à morte e à culpa, mas na vida e no bem do homem".

O que significa, então, emancipar-se da dependência (infantil) com relação a uma entidade transcendente caracterizada religiosamente? Deixamos que a resposta seja dada por um dos maiores filósofos italianos, cuja "recristianização" (relatada em um pequeno livro muito pessoal de 1996) certamente não podia ignorar a teologia de Bonhoeffer: "[...] O que está no meu coração é rejeitar aquele cristianismo que quer afirmar a religião como necessária via de fuga de uma realidade 'intratável'; mais uma vez, em suma, a ideia bonhoefferiana do Deus 'tapa-buraco', para a qual o caminho da razão para Deus é o caminho da derrota e do fracasso. É verossímil que, uma vez escolhida essa atitude, acabe-se por enfatizar a ênfase do mal, a insuperabilidade dos limites humanos, a ideia da história como lugar de sofrimento e de provação, em vez de história da salvação. Sobre essa base, seria fácil demais retorcer a acusação de insensibilidade ao mal do mundo contra aqueles que a formulam do ponto de vista do cristianismo trágico: muitas vezes, de fato, a ênfase na realidade do mal insuperável com meios humanos se resolveu, mesmo na história da Igreja, com a aceitação dos males do mundo, confiados apenas à ação da graça divina. Encarnando-se, em todos os sentidos da kénosis, Deus torna possível um compromisso histórico concebido como realização efetiva da salvação, e não só como aceitação de uma prova ou busca de méritos em vista do além. [...] É verdade que a posição 'trágica' parece corresponder mais às experiências em muitos sentidos apocalípticas que a humanidade do século XX vive: efeitos perversos do 'progresso' técnico e científico, iminência de problemas existenciais aparentemente irresolvíveis... Mas o 'salto' na transcendência, nessas condições, pode ter no máximo um significado consolatório; se empurrado para além desse significado, torna-se fonte de uma interpretação supersticiosa, mágica, naturalista do divino. [...] O cristianismo trágico corresponde bem demais a uma certa Stimmung difusa nesse fim de milênio, que eu acredito que deve ser combatida, porque os seus resultados são fundamentalismos, o fechamento no horizonte restrito da comunidade, a violência implícita na concepção da Igreja sob o modelo de um exército pronto para a batalha, a tendencial inimizade contra a facilitação da existência prometida e parcialmente realizada pela ciência e pela técnica" (Gianni Vattimo, Credere di credere).

Maria Mantello observou que "o deus da Bonhoeffer não quer tronos no mundo e assim liberta a fé individual da Religião"; que "colocar Deus entre parênteses (etsi Deus non daretur, como defendia o teólogo luterano) ainda é o caminho para a liberdade e a autodeterminação individual na convivência democrática civil – é o caminho da laicidade"; que" o crente emancipado não precisa das fugas escatológicas, mas diz sim à vida 'como ela é', na responsabilidade de ser seu artífice na humana inter-relação" (cf. Libero Pensiero, de setembro de 2013).

Essa posição, a meu ver, é bem compatível com a expressada por um estimado biblista e teólogo protestante que, justamente referindo-se a Bonhoeffer, escreveu: "É a cruz de Cristo que expressa estatutariamente para nós, cristãos, o 'espaço' de Deus no mundo. Na cruz, Deus, em Cristo, se expõe sem tutelas, em um espaço público por excelência [...]. Por isso, creio eu, é uma exigência acima de tudo cristã aquela de que Deus não seja posto como a priori necessário ou como alicerce de valores em si mesmos não universalmente compartilhados. Ainda mais nociva para o coração do anúncio cristão é a pretensão de apresentar os valores cristãos como fundamento natural, apriorístico e indiscutível daquelas atividades atividades (como a ciência e o dominium terrae) que o criador confiou à autonomia daquela humanidade à qual atribuiu o papel de agir 'à imagem de Deus'" (Daniele Garrone, Protestantesimo, n. 61/2006).

Quando a fé não se reduz a psicofármaco comunitário nem é instrumentalizada para esmagar os "outros" (sempre olhados de cima, como eternos menores que precisam de "luz" e de redenção): eis o horizonte em que, finalmente, crentes e não crentes podem se encontrar, se contaminar mutuamente e até mesmo confraternizar. Pois bem, aquele teólogo antinazista "sem preconceitos" também experimentou isso na sua curta vida (mas dinâmica existência!), que, longe de desdenhar a companhia de pessoas não religiosas, ousou confessar: "Muitas vezes me pergunto por que um 'instinto cristão' me empurra frequentemente na direção dos não religiosos que na direção dos religiosos, e isso certamente não na perspectiva de uma ação missionária, mas em um estado, eu diria, 'fraterno' [sic]".

E mais: o encontro de Bonhoeffer com pessoas não crentes pesou sobre a sua busca por um cristianismo arreligioso em um mundo que se tornou adulto. Beatrice Iacopini destacou isso no seu relatório ao supracitado congresso de Koinonia: "Na prisão, Bonhoeffer toca com a mão um mundo que abre mão de Deus: nenhum dos seus companheiros de prisão, nem os guardas pareciam viver alguma referência religiosa. Em particular, ele é tocado pelo fato de que nem mesmo durante os bombardeios – e, portanto, enquanto experimentam o terror – aqueles que o cercavam se voltavam para Deus. Tal observação confirma a sua convicção de que apresentar Deus como solução aos problemas do homem, além de ser teologicamente equivocado, também é totalmente inútil: em um mundo já adulto, os homens querem caminhar com as próprias pernas".

Um desejo: que, diante dos desafios éticos na comum aventura daqui de baixo, crentes e não crentes possam em breve se redescobrir ao menos como companheiros, senão irmãos.



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 10

Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 9

Eclesiastes está chegando ao final, e o discurso do Pregador se encaminha para uma conclusão. Existe algum sentido na vida, afinal? Se existe, qual é? 

Até o capítulo 9, o Pregador veio desconstruindo uma série de certezas que pensamos ter sobre a vida. Ironicamente, a única certeza absoluta que temos sobre ela é a morte

O senso comum nos mostra que as mesmas coisas acontecem para justos e injustos, e que crentes e descrentes se equiparam nas circunstâncias cotidianas da vida, sejam elas tristes ou felizes. 

O sol nasce para todos, indistintamente. O capítulo 10 marca uma transição, em que o Pregador compara a sabedoria e a estultícia. 

"Estultícia" é um sinônimo mais formal e rebuscado de "tolice". 

No capítulo 2, ele já tentara se embriagar para que a estultícia se apoderasse dele (v. 3) e deixara claro que o que acontece ao sábio, também acontece ao estulto, ao tolo (vv. 15-16), mas agora é hora de marcar posição, e, para tanto, ele faz uma comparação muito simples, dizendo que a estultícia na vida de quem busca a sabedoria é como a mosca morta que estraga o perfume. 

A exemplo do que nos aconselham Jesus (Lucas 21:36), Paulo (1 Coríntios 16:13), e Pedro (1 Pedro 4:7 e 5:8), devemos estar sempre vigilantes não só quanto ao mal em si, mas também quanto às tolices, as bobagens, que somos tentados a fazer, aceitar ou vivenciar todo dia. 

Aquelas coisas pequenas, que aparentemente não têm nenhuma importância, podem estragar não só o nosso dia, mas às vezes uma vida toda. As versões católicas são mais felizes na tradução deste v. 1 (que é uma continuação de 9:18) para o português:

"Uma mosca morta estraga um perfume, uma migalha de insensatez conta mais que muita sabedoria." (Bíblia do Peregrino)

"Moscas mortas infectam e fazem fermentar o ungüento do perfumista; uma pequena tolice pesa mais que a sabedoria, que a glória." (Tradução Ecumênica)

A Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) diz: "Assim como algumas moscas mortas podem estragar um frasco inteiro de perfume, assim também uma pequena tolice pode fazer a sabedoria perder todo o valor".

Dietrich Bonhoeffer, pastor (e grande teólogo) alemão, que foi preso por conspirar contra Hitler, e depois enforcado a mando deste, alguns dias antes da guerra acabar.

Antes de morrer, chamou a atenção para a estultícia, a tolice, que aos poucos foi se impregnando num povo tido como sábio, que é o povo alemão, a ponto de resultar na gigantesca tragédia que foi a Segunda Guerra Mundial, onde o mal parece ter chegado ao seu apogeu na humanidade. 

No início do seu cativeiro, em 1943, ele escreveu um texto intitulado "Sobre a tolice" (para acessar o texto completo, clique aqui), em que diz o seguinte:
A tolice é um inimigo mais perigoso do bem do que a maldade. Contra o mal se pode protestar, é possível desmascará-lo, pode-se, em caso de necessidade, impedi-lo com o uso da violência. O mal sempre já traz em si o germe da auto-desagregação, pelo fato de deixar ao menos um mal-estar na pessoa. Contra a tolice não temos defesa. Nada se consegue com protestos nem com violência; argumentos não adiantam; a fatos que contradizem o próprio preconceito não se precisa dar crédito – em tais casos o tolo até mesmo se torna crítico – e se esses fatos são incontornáveis, simplesmente se pode pô-los de lado como casos isolados sem significado. Diferentemente do malvado, o tolo está completamente satisfeito consigo mesmo; ele até mesmo se torna perigoso, pois facilmente se sente provocado e passa à agressão. Por isso, recomenda-se mais cautela em relação ao tolo do que ao mau. Nunca mais tentaremos persuadir o tolo com argumentos; é inútil e perigoso.

(BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e Submissão. Ed. Sinodal, 2003, p. 33)

Hoje, olhando pelo retrovisor da História, ficamos com a impressão de que Bonhoeffer lutou contra um mal muito visível, fácil de identificar, um monstro com enormes garras, chamado nazismo.

Entretanto, a mesma História diz que nos esquecemos facilmente de que uma série de pequenas permissões à estultícia de um "salvador da pátria" personificado em Hitler, fez com que uma imensa tragédia se abatesse sobre toda a humanidade, e não só a Alemanha. 

E tudo começou de maneira bem simples, contaminando e corrompendo a civilização alemã a ponto de levá-la à barbárie da guerra e do holocausto. 

Talvez seja o caso de procurarmos identificar, atualmente, quais são as pequenas idiotices que toleramos na Igreja, imaginando-as inofensivas, quando têm não o poder de destruí-la, mas a possibilidade concreta de solapar muitas das bases em que nos firmamos ao longo dos séculos.

Desta maneira, o capítulo 10 de Eclesiastes é um libelo contra a estultícia, a tolice, a idiotice, que, por pequenas que sejam, ameaçam o caminho da sabedoria de qualquer um. 

Os três primeiros versículos anunciam a tônica de todo o capítulo. 

A questão do lado direito (para onde se inclina o sábio) e do lado esquerdo (para onde vai o tolo), longe de ser um preconceito contra os canhotos, refere-se a uma simbologia bíblica que associa a bondade divina ao lado direito e a punição ao lado esquerdo, como no dia do juízo final previsto por Jesus em Mateus 25:32-46. 

Para o Pregador, o tolo pode até tentar parecer sábio (como geralmente acontece), mas chega um determinado momento em que toda a sua estultícia é exposta publicamente, conforme diz o v. 3. 

Controlá-la, dominá-la, escondê-la, exige um esforço gigantesco que geralmente não resiste às pressões da vida. Nela se pode transitar de gênio para "jênio" (com "j") em questão de milímetros ou segundos.

Salomão ainda dá um conselho prático para aqueles que se deparam com alguém em posição superior (v. 4), dizendo que a serenidade aplaca a ira do governador. 

Isto não o impede de ver que, como também costuma acontecer, muitas vezes o tolo está em posição de honra, enquanto o rico (que pode ser entendido tanto em sentido literal como figurado) está colocado em posições mais baixas (vv. 5-7). 

O v. 8, que diz que "quem abre uma cova nela cairá, e quem rompe um muro, mordê-lo-á uma cobra", pode ser interpretado no mesmo sentido, por exemplo, de Provérbios 26:27 ("O que faz uma cova cairá nela; e a pedra voltará sobre aquele que a revolve").

Desta maneira, quem faz o mal, o mal receberá, o que nos leva a comparar este ensinamento com aquele que Paulo escreveu em Gálatas 6:8 - "Porque quem semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção; mas quem semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna". 

Os versos seguintes seguem a mesma linha. Quem arranca pedras, provavelmente para uma briga (v. 9), pode ser atingido por elas, e é possível ligar esta ideia aos "tempos" de Eclesiastes 3:5, "tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar". 

O v. 10 chama a atenção para as pessoas que se fiam no seu conhecimento acumulado, que nem sempre é sabedoria. Assim como o ferro embotado, que não tem o corte afiado, é a sabedoria daquele que acumulou conhecimento mas não se preocupou em colocá-lo em prática, nem em revisitá-lo constantemente e desenvolvê-lo. 

O v. 11 revela que, como toda cidade importante daquela época, em Jerusalém também havia "encantadores" de serpente, que não eram propriamente bruxos ou feiticeiros, mas artistas populares que ganhavam a vida divertindo o povo nas ruas com suas técnicas de domar as cobras. 

De nada adiantaria exibir esta habilidade e ser mordido por elas. Por analogia, de nada adianta a sabedoria se ela não serve para instruir, prevenir, planejar, construir, e, principalmente, se defender dos perigos da vida. 

É interessante constatar que, alguns séculos depois, diante da destruição iminente de Jerusalém (e do reino de Judá) pela Babilônia, Jeremias profetizava da parte de Deus: "Porque eis que envio para entre vós serpentes, áspides contra as quais não há encantamento, e vos morderão, diz o SENHOR" (Jeremias 8:17).

A partir do v. 12, o Pregador volta a criticar a estultícia com mais veemência. "Nas palavras do sábio, há favor", ou seja, há graça, pois o sábio, numa visão neotestamentária, pode ser comparado ao homem que segue o conselho de Paulo: "Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que seja boa para a necessária edificação, a fim de que ministre graça aos que a ouvem" (Efésios 4:29). 

Salomão valoriza as palavras do sábio e reprova as do tolo, chamando-as de "loucura perversa" (v. 13). 

Conforme a experiência da vida nos ensina, geralmente o tolo "multiplica as palavras", ou seja, age como os gentios quando oravam, criticados por Jesus, que disse que eles pensavam que "pelo seu muito falar, serão ouvidos" (Mateus 6:7). 

Não só na oração, mas na vida, em geral, as pessoas tolas, que se esforçam em parecer sábias, se metem a falar de tudo freneticamente, na esperança de que suas bobagens não sejam percebidas no meio da sua verborragia, e possam passar uma imagem de sabedoria que não têm. 

Ao dizer que o tolo "nem sabe ir à cidade" (v. 15), além de mostrar o excesso de trabalho que a falta de sabedoria acarreta ao homem iletrado e incauto do campo daquela época, mostra que o tolo não procura se instruir. 

Naquele tempo, não havia escolas, e as cidades eram os locais onde se encontravam os sábios, geralmente discutindo em praça pública ou no templo. 

O tolo sequer se interessava em dirigir-se às cidades e ouvir os debates na praça, pois a sabedoria estava longe dele em todos os sentidos da palavra "longe". 

O Pregador critica ainda a terra cujo rei é uma criança (v. 16) e cujos príncipes festejam já de manhã (ou ainda pela manhã), o que revelava a ociosidade do seu povo inconsequente. 

Não tem nada a ver com Salomão o provérbio popular que diz que "Deus ajuda quem cedo madruga".

 Já feliz era a terra em que seu rei era filho de nobres, ou seja, tinha tido boa educação, e os seus príncipes faziam tudo no seu devido tempo, sem se dedicar a bebedeiras (v. 17). 

A preguiça é criticada (v. 18), num contraste com o que o Pregador vinha dizendo até então, ou seja, que tudo era vaidade, e que de nada adiantava trabalhar. 

Obviamente, isto deve ser entendido dentro do equilíbrio que ele passa a propor, ou seja, o trabalho é bom, a preguiça deve ser evitada, mas tudo deve ser feito com equilíbrio e temperança, reservando tempo, inclusive, para não pensar em trabalho. 

O dinheiro pode atender a tudo na vida (v. 19), mas este versículo deve ser lido em conjunto com Eclesiastes 7:12, ou seja, "a sabedoria protege como protege o dinheiro; mas o proveito da sabedoria é que ela dá vida ao seu possuidor". 

Por fim, o Pregador pede cuidado com as palavras. Naquela época, as casas das cidades e das vilas eram pegadas umas às outras, e geralmente havia pátios internos ou espaços públicos externos interligando-as.

Era inevitável, portanto, que tudo o que alguém falasse dentro do seu quarto pudesse muito bem ser ouvido pela vizinhança ou por algum transeunte. 

Logo, era aconselhável que cada um guardasse os seus pensamentos para si, principalmente aqueles contrários aos ricos e poderosos (v. 20). 

A meu ver, a conclusão do capítulo 10, em relação ao sábio, pode muito bem ser relacionada a Filipenses 4:8 – "Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai".





Leitura seguinte: Revisitando Eclesiastes - capítulo 11



sábado, 4 de agosto de 2012

Cristão, um marginal

Artigo instigante publicado no IHU:

A marginalidade como paradigma da vida do cristão

Para o monge italiano Matteo Ferrari, do Mosteiro de Camáldoli, os discípulos de Jesus de hoje, assim como o seu mestre, devem ser homens e mulheres da aldeia e do deserto, habitando nas margens.

"Se percorrermos novamente os textos dos Evangelhos, podemos descobrir que o próprio Jesus viveu essa condição de "marginalidade" e escolheu no seu ministério aqueles que estavam às margens da sociedade da sua época".

O artigo foi publicado na revista Ricerca, 3/4 de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Sempre me chamou a atenção um texto de Dietrich Bonhoeffer no início de Sequela [Seguimento], em que ele fala da vida monástica. Ele afirma que o monaquismo consiste "pôr-sè às margens" para guardar "a graça cara", tornando-se "um protesto vivo contra a mundanização do cristianismo, contra a redução da graça a mercadorias baratas" [1]. Falando dos monges, Bonhoeffer afirma: "Às margens da Igreja se encontrava o lugar onde foi mantida desperta a cognição da graça cara e do fato de que a graça implica o seguimento" [2].

A partir do Novo Testamento, se poderia perguntar se o estar "às margens" não é precisamente uma condição do cristão que vive a sua fé de modo autêntico. De fato, se percorrermos novamente os textos dos Evangelhos, podemos descobrir que o próprio Jesus viveu essa condição de "marginalidade" e escolheu no seu ministério aqueles que estavam às margens da sociedade da sua época.

Um homem da aldeia e do deserto

Acima de tudo, tentemos considerar o espaço habitado por Jesus. Nos Evangelhos, Jesus é um homem sempre a caminho, que passa de vilarejo em vilarejo. Ele privilegia no seu contínuo caminho uma região marginal de Israel, a Galileia. Além disso, ele não entra em grandes cidades, mas sim em pequenas aldeias. Se levarmos em consideração unicamente os relatos evangélicos, podemos até mesmo pensar que, na época de Jesus, não havia, com exceção de Jerusalém, grandes centros habitados [3]. Mas, ao contrário, nós sabemos bem que, na realidade, não é assim. Trata-se, portanto, de uma escolha de Jesus o fato de privilegiar os vilarejos no seu ministério.

A esse tema M. Pesce e A. Destro dedicaram algumas páginas sugestivas no seu livro L'uomo Gesù. Giorni, luoghi, incontri [4]. Referindo-se ao Evangelho de Marcos, eles afirmam que Jesus é "um homem de aldeia que olha para as grandes cidades e para todo o resto da Terra de Israel a partir de um ponto de vista periférico e marginal" [5].

O que pode significar essa preferência de Jesus pela aldeia? As tentativas de dar uma resposta a essa pergunta certamente poderiam ser múltiplas; a nós basta unicamente fazer um sublinhado. O vilarejo é um lugar marginal, mas nem por isso menos importante, da vida social. As cidades são o lugar onde se tomam as decisões, onde se governa a vida social e econômica. A aldeia, com a sua marginalidade, o seu apego às tradições, a sua natural resistência ao anonimato que a vida citadina pode trazer consigo, pode ser, de certo modo, uma "contestação" da cidade, um modo para se pôr às margens e chamar a atenção para uma outra possibilidade de vida.

Jesus, além disso, é não somente um homem da aldeia, mas é também um habitante do deserto. A missão de Jesus inicia no deserto, onde o Espírito o leva para lhe fazer viver a prova (Mc 1, 12). O deserto é lugar marginal por excelência. Os primeiros monges no antigo Egito também se retirariam no deserto para viver a prova e se tornar uma advertência para toda a Igreja para a radicalidade do seguimento do evangelho.

No deserto, Jesus é "posto à prova" por Satanás e ali ele se revela como o homem segundo o sonho de Deus, capaz de recuperar a harmonia com a criação (cf. Mc 1, 13). Ao deserto, Jesus também se retiraria no término da "jornada de Cafarnaum", que abre o segundo Evangelho (cf. Mc 1, 21-39). Marcos narra que, "de madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto" (Mc 1, 35). Estamos no término de uma jornada típica de Jesus, na qual ele realizou obras grandes: ensinou na sinagoga com autoridade, libertou um endemoninhado, curou a sogra de Pedro e muitos outros doentes da cidade. Mas, de manha cedo, Jesus se afasta da multidão e do sucesso para se retirar para um lugar deserto para rezar. Quando Simão, juntamente com os outros discípulos, o encontram e o convidar para retornar para o vilarejo para continuar a obra que lhe trouxera tanto sucesso e notoriedade, Jesus lhes diz: "Vamos para outros lugares, às aldeias da redondeza. Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim" (Mc 1, 38).

Dirigindo-se para um lugar deserto, às margens da aldeia, na oração, Jesus retorna ao sentido mais profundo e verdadeiro da sua missão – "Foi para isso que eu vim" – e reafirma a soberania de Deus sobre a sua própria vida. O deserto é para o próprio Jesus, para a sua vida, "o lugar marginal" para reencontrar o sentido das coisas.

Mais adiante no relato de Marcos, Jesus também vai convidar os seus discípulos, retornando da missão à qual ele os havia convidado, a se dirigirem para um lugar deserto para repousar (Mc 6, 31-32). É como se Jesus quisesse indicar aos seus discípulos a necessidade de viver a missão como ele, encontrando no deserto, isto é, nas margens, o sentido autêntico das suas atividades. No deserto, alcançados pela multidão faminta de palavra e de pão, eles terão que descobrir que o sucesso da sua missão não dependerá de grandes ações e meios poderosos, mas sim da disponibilidade de pôr à disposição a própria pobreza – cinco pães e dois peixes (Mc 6, 38; também cf. 8, 5) – para que, a partir dela, o Senhor possa saciar uma multidão imensa de modo superabundante.

Amigo de publicanos e pecadores

Do ponto de vista das relações, Jesus também se apresenta como alguém que "vive às margens". De fato, ele "se afasta da própria família e da própria aldeia, expondo-se a instabilidades, incertezas e críticas. Ele é contra a estabilidade e contra a certeza. Escolhe uma vida que não tende a se enraizar em um tecido seguro e confortável" [6].

No Evangelho de Lucas, Jesus é chamado de "amigo de publicanos e pecadores" (Lucas 7, 34). O fato de que quem vê Jesus em ação possa dizer algo semelhante nos diz algo de muito significativo sobre as relações de Jesus. Se percorrermos o início do Evangelho de Marcos – o mais antigo dos evangelhos –, essa impressão é confirmada. Basta pensar que o primeiro gesto público que Jesus realiza não é nem um milagre, nem um grande discurso inaugural, mas sim o de entrar na fila com aqueles que iam ao encontro de João para serem batizados (Mc 1, 9-11). João no deserto, e portanto ele também às margens da vida social, "proclamava um batismo de conversão para o perdão dos pecados" (Mc 1, 4). Aqueles que iam até ele, portanto, se sentiam necessitados de ser perdoados e de mudar de vida.

Em Lucas, sabemos que iam até João diversas categorias de pessoas, dentre as quais os publicanos, considerados pecadores públicos. Não é por acaso que Jesus inaugura a sua missão com esse gesto e que, justamente nesse momento, uma voz do céu o chama de "meu filho" e proclama a complacência divina para com ele (cf. Mc 1, 11).

Continuando a percorrer o Evangelho de Marcos, encontramos a jornada de Cafarnaum. Como já dissemos, nesse dia, Jesus encontra um endemoninhado, uma mulher com febre e muitos outros doentes. Pessoas, portanto, que vivem uma situação limite e, muitas vezes, se pensarmos na sociedade da época, marginalizadas. Posteriormente, Jesus cura uma pessoa afetada pela lepra (Mc 1, 40-45), a pessoa marginalizada por excelência (cf. Lv 13, 45-46), à qual era proibido entrar nos centros habitados. Um homem que vivia às margens por constrição, e não por escolha.

Por fim – mas os episódios poderiam ser outros –, lembremos o chamado de Levi e o posterior banquete com os pecadores (Mc 2, 14-17). Nesse episódio, emerge, na comunhão à mesa, a solidariedade de Jesus com as pessoas mais marginalizadas da sua época. Notemos que não se trata de justificar "de forma barata" a conduta equivocada de algumas categorias de pessoas, mas sim de assumir a atitude do médico que veio para curar (Mc 2, 17).

Fora da porta da cidade

A Carta aos Hebreus lembra que Jesus foi crucificado "fora da cidade" (Hb 13, 12), ou seja, às margens do lugar santo. O próprio Jesus, portanto, além de ser "solidário" na sua vida, principalmente com aqueles que estão às margens, na sua Páscoa, sofre o destino dos malfeitores, como um marginalizado. Na paixão e morte de Jesus, emerge do modo mais forte e provocante a sua escolha de habitar às margens e de ser o amigo dos marginalizados.

Nos eventos pascais, se revela o que caracterizou toda a sua existência, isto é, a escolha dos últimos e dos marginalizados. No fundo, a sua própria morte é o fruto de tal escolha. De fato, a decisão de matar Jesus em Marcos 3, 6 por parte dos fariseus e dos herodianos se coloca precisamente no término de uma série de episódios que evidenciam o comportamento provocativo de Jesus com o qual ele revela o rosto do Pai.

Homens e mulheres da aldeia e do deserto

Qual pode ser o sentido dessa escolha de marginalidade vivida por Jesus para os seus discípulos hoje? Estes, como o seu mestre, devem ser homens e mulheres da aldeia e do deserto, habitando nas margens. Esse seu chamado deve se traduzir em escolhas concretas não para se tornar uma "seita de puros", mas sim para lembrar com o seu testemunho o alegre anúncio sobre Deus que Jesus trouxe e foi. Viver a marginalidade não significa se separar da sociedade ou se erguer como juízes dos outros, mas sim permitir que todos possam olhar com olhos diferentes, se distanciar de uma vida que flui sem se interrogar mais sobre a bondade e a beleza das escolhas que são feitas.

Das margens, de fato, pode-se chamar a atenção para as coisas que verdadeiramente importam e que muitas vezes se corre o risco de perder de vista.

Notas:

1 – D. Bonhoeffer. Sequela (= Obras de Dietrich Bonhoeffer 4). Bréscia: Queriniana, 20012,31.
2 – Bonhoeffer, Sequela, pp.30-31.
3 – Cf. A. Destro; M. Pesce. L’uomo Gesù. Giorni, luoghi, incontri di una vita. Milão: Mondadori, 2008, p.19.
4 – Cf. Destro; Pesce. L’uomo Gesù, pp.19-25.
5 – Destro; Pesce. L’uomo Gesù, p.22.
6 – Destro; Pesce, L’uomo Gesù, p.45.



segunda-feira, 9 de abril de 2012

9 de abril de 1945: Dietrich Bonhoeffer é enforcado

Todo dia 9 de abril deve ser um dia para relembrar um dos maiores mártires cristãos do século XX: Dietrich Bonhoeffer. Foi na madrugada de um dia como esse, em 1945, um mês antes de encerrar a Segunda Guerra Mundial, que ele foi enforcado nu por ter ousado se contrapor à loucura perpetrada por Hitler. Abaixo, um trecho do seu ensinamento sobre o que ser significa ser discípulo de Cristo:
Quando as Escrituras Sagradas falam do discipulado de Jesus, proclamam a libertação do homem de todos os preceitos humanos, de tudo quanto oprime, sobrecarrega, provoca preocupações e tormentos à consciência. No discipulado, o ser humano sai de sob o jugo de suas próprias leis, e submete-se ao jugo suave de Jesus Cristo. Seria isso menosprezo da seriedade dos mandamentos de Jesus? Não. Antes, somente onde permanece de pé o mandamento integral de Jesus, o chamado ao discipulado sem restrições, é que se torna possível a plena libertação do homem para a comunhão em Jesus. Quem segue indiviso ao mandamento de Jesus, quem se sujeita sem resistência ao jugo de Jesus, a este se lhe torna leve o fardo que tem de levar, recebendo, na suave pressão desse jugo, a força necessária para percorrer o caminho certo sem cansaço. O mandamento de Jesus é duro, desumanamente duro para aquele que se lhe opõe. O mandamento de Jesus é suave e fácil para aquele que voluntariamente se lhe sujeita. “Os seus mandamentos não são penosos” (1ª Pedro 5:3). O mandamento de Jesus nada tem que ver com curas psicológicas violentas. Jesus nada nos exige sem nos dar forças para o realizar. O mandamento de Jesus jamais destruirá a vida, mas a conservará, fortalecê-la-á e a sanará.

(Dietrich Bonhoeffer, em “Discipulado”, Ed. Sinodal, pág. 4)




domingo, 17 de julho de 2011

Um tributo a Dietrich Bonhoeffer


Em meio a toda a insanidade que acometeu a Alemanha nos tempos de Hitler, a maior parte dos cristãos se manteve calada ou concordou (e colaborou) abertamente com as atrocidades perpetradas pelo regime nazista. 

Alguns, entretanto, não se deixaram enganar pelo discurso do ódio e trataram de se rebelar, ainda que camufladamente, contra a ideologia dominante. 

Um deles foi Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), pastor e teólogo luterano, que pagou com a própria vida o preço de desafiar o Führer, honrando com o seu sangue o cálice dos mártires cristãos de todas as épocas. 

Muitas vezes, na história da Igreja, ser cristão significa ir contra aquilo que pessoas que se dizem cristãs aprovam. 

O vídeo abaixo é um pequeno documentário de pouco mais de 13 minutos, que faz um breve resumo da vida e obra de Bonhoeffer. 

Apesar de ter sido editado em polonês, com legendas em inglês, permite que quem o desconhecia tenha uma ideia de quem ele foi, e aqueles que sabem quem ele é, certamente se sentirão felizes com a homenagem. 

O vídeo conta sobre seu nascimento (tinha uma irmã gêmea), seus estudos teológicos na Alemanha, em Barcelona e em Nova Iorque, onde cooperou na Igreja Batista Etíope do Harlem. 

Desde cedo, teve que enfrentar o racismo, como quando se recusou a ficar num restaurante novaiorquino que não quis servir seu amigo e irmão em Cristo que era negro. 

Não conseguiu, entretanto, ficar longe de sua família e de seus irmãos enquanto a Alemanha ardia no caminho do mal absoluto. 

Retornou e participou ativamente da resistência antinazista, ajudando judeus a fugirem e admoestando - clandestinamente - os irmãos. 

Foi preso em 6 de abril de 1943, mas as provas definitivas contra ele só foram descobertas depois do atentado fracassado de Claus von Staffenberg contra Hitler na Toca do Lobo, em 20 de julho de 1944. 

Um dos últimos atos de Hitler, antes de seu suicídio, foi determinar a execução de Bonhoeffer, enforcado nu na madrugadada de 9 de abril de 1945. 

Era a sua alvorada, como ele próprio afirmou pouco antes de morrer. 

Para o mundo, a sua vida terminava ali; mas para ele se tratava apenas do começo...

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