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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O antipetismo batista de Curitiba e a Lava-Jato


Artigo publicado no Diário do Centro do Mundo:


Como o antipetismo fanático das igrejas batistas de Curitiba fez a cabeça de Dallagnol.


Por Kiko Nogueira

Ninguém duvida que o coordenador da força tarefa da Lava Jato, Deltan Martinazzo Dallagnol, é um homem de convicções. Mais do que isso, é um homem de fé.

No ano passado, Dallagnol fez uma peregrinação por igrejas evangélicas em busca de apoio às suas 10 medidas de combate à corrupção.

Num culto, respondeu a uma espectadora que queria saber sobre seus planos, de acordo com o Estadão: “Eu descartaria poucas coisas em relação a meu futuro, cogito talvez até virar pastor. Mas nós focamos no presente”.

Dallagnol é membro da Igreja Batista de Bacacheri, bairro de Curitiba, onde costuma ministrar palestras com seu indefectível powerpoint.

Lança mão de imagens fortes para impactar as plateias. O mesmo sujeito que apontou Lula como “comandante máximo” e “grande general” da “propinocracia” gosta de lembrar que “a corrupção é uma assassina sorrateira, invisível e de massa”, uma “serial killer que se disfarça de buracos de estradas, de falta de medicamentos, de crimes de rua e de pobreza.”

A retórica e as técnicas do show de Dallagnol foram influenciadas pesadamente pelas lideranças religiosas de sua terra. Não só a forma: o moralismo, o maniqueísmo e o antipetismo vieram dali.

“Dentro da minha cosmovisão cristã, eu acredito que existe uma janela de oportunidade que Deus está dando para mudanças”, disse ele no Rio em sua turnê religioso-política.

Repetiu essa sentença numa entrevista ao pastor Paschoal Piragine Júnior, da Primeira Igreja Batista de Curitiba, dono de um programa meia boca de bate papos que ele chama de talk show (assista abaixo).

Piragine é uma referência para esse povo. Ganhou fama em 2010 ao pedir a seus fieis que não votassem em candidatos do PT por causa do posicionamento do partido em relação a temas como aborto, criminalização da homofobia e divórcio.

O mote da pregação era “iniquidade”. Piragine denunciou o Programa Nacional de Direitos Humanos. “Se você olhar, vai ver como a máquina estatal está mobilizada. Se os ministros de Estado que estão ligados a esse governo não trabalharem assim, perdem o seu cargo”, falou. O vídeo da peroração tem, hoje, mais de 3 milhões de visualizações.

Uma das admiradoras mais entusiasmadas de Dallagnol é Marisa Lobo, autodenominada “psicóloga cristã”, campeã de causas como a da cura gay. Marisa faz conferências na mesma igreja do amigo sobre sua nova obsessão, a ideologia de gênero, tema de seu último livro.


Depois da apresentação da denúncia contra Lula num hotel curitibano de luxo, postou uma mensagem de solidariedade ao “irmão”: “Dallagnol congrega na mesma igreja que eu e é nosso orgulho. Deus está usando a Lava Jato para limpar o Brasil”.

A Igreja Batista do Bacacheri foi fundada em 1959. O site da empresa informa que L. Roberto Silvado, que serve ali desde 1988, é o atual coordenador geral do colegiado de pastores.

Silvado tem uma atuação mais discreta que fanáticos desmiolados como Marisa, mas deixa claras suas preferências e intenções no Facebook. Milita intensamente pelas célebres medidas de Dallagnol.

“Nossa Igreja participou ativamente na coleta de assinaturas. Ao todo foram mais de 2 milhões em todo Brasil. (…) Nós fazemos parte disso, vamos continuar manifestando apoio até que sejam aprovadas. Artistas e líderes de todo país precisam se manifestar, como o fez a atriz Maria Fernanda Cândido no vídeo abaixo”, diz numa de suas postagens.

Dallagnol, registre-se, não está sozinho. O procurador Roberson Pozzobon palestrou num templo em 2015 durante o Fórum Batista de Ação Social. Foi anunciado como “nosso irmão em Cristo, Procurador da República e colaborador do Juiz Sergio Moro que coordena a Operação Lava Jato”.

Pozzobon é o autor da seguinte frase: “Não teremos aqui provas cabais de que Lula é o efetivo proprietário, no papel, do apartamento, pois justamente o fato de ele não figurar como proprietário é uma forma de ocultação.”

Há seis anos, André Egg, professor da UNESPAR e da UFPR, escreveu um artigo na revista Amálgama sobre Piragine e os evangélicos do Paraná que ainda soa atual. “Em que lugar neste caminho o protestantismo brasileiro se perdeu?”, perguntava.
“Suspeito que em algum momento durante os anos 1950-60, quando missionários fundamentalistas norte-americanos implantaram diversas instituições para-eclesiásticas no Brasil, organizando acampamentos, fundando editoras, livrarias, conjuntos musicais, trazendo uma fé irracional, trabalhando com crianças e jovens (APEC, Palavra da Vida, MPC, JOCUM, Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo) para formar gerações de abestalhados/alienados que perderam o compromisso com o país, com a fé, com o exame das Escrituras, com a liturgia, com a tradição não-conformista do protestantismo.

Os luteranos e anglicanos parece que restaram como únicos oásis diante do domínio absoluto do fundamentalismo, que tragou todos os grupos oriundos do calvinismo (batistas, presbiterianos, congregacionais) e suas dissidências pentecostais. (…)

O pastor incita os fiéis a não votarem no PT, por ele ser contra a “fé bíblica”. Curiosamente, isso é feito sem apoio em nenhum versículo bíblico (…)

Assembleias batistas viraram instâncias de homologação de pastores show-men que trazem as decisões prontas para o pessoal levantar a mão. Batistas de igrejas como a Primeira Igreja Batista de Curitiba e a Igreja Batista do Bacacheri não se dão nem ao trabalho de conferir a autenticidade dos diplomas de doutorado que seus pastores apresentam como credencial. Preferem ser enganados (…).”
É desse caldo que estão saindo os vingadores que vão salvar o Brasil. Deus nos proteja.




quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Batistas do Sul são maiores apoiadores do livre porte de arma nos EUA


A matéria foi publicada no Estadão:

Análise: Evangélicos se opõem a controle de armas

Batistas do sul são os mais propensos a se opor a leis mais rigorosas para o porte de armas do que outros americanos que professam uma religião 

Sarah Pulliam Bailey / W. Post

O massacre de domingo foi o pior ocorrido em uma igreja na história moderna dos EUA. Para muitos evangélicos conservadores, políticas adotadas especificamente para o porte e uso de armas não estão detalhadas na Bíblia e eles não acham que medidas nesse sentido são constitucionais e poderiam resolver o problema dos assassinatos em massa, foi o que disse Russel Moore, presidente do braço político da Convenção Batista do Sul.

Os batistas do sul são os mais propensos a se opor a leis mais rigorosas para o porte de armas do que outros americanos que professam uma religião. Muitos americanos pertencentes a grandes grupos religiosos defendem leis mais rígidas, incluindo os protestantes negros (76%), os católicos (67%), os protestantes brancos (57%), de acordo com pesquisa realizada em 2013 pelo Public Religion Research Institute. Mas os evangélicos – que constituem um quarto da população --, são os menos inclinados a apoiar leis mais rigorosas a respeito (38% são a favor e 59% contra).

Para Jen Hatmaker, escritor e orador conhecido de Austin, o direito às armas se tornou um tema central de debate enraizado na política evangélica. “Conheço perfeitamente mulheres cristãs sensatas, amáveis, que não possuem armas que dirão que ‘não se trata de armas, mas do coração’. É espantoso”, disse ele. “Isso tem raízes profundas e inalteráveis no coração dos evangélicos conservadores, e é tão sagrado quanto a Trindade”.

Depois de o evangelista Franklin Graham ser convidado a rezar durante um café da amanhã da Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês), em 2014, ele sugeriu no Facebook que não estava de acordo com a exigência de verificação de antecedentes de todo mundo. Por outro lado, defendeu a verificação de antecedentes no caso de imigrantes muçulmanos.

As armas estão incorporadas na estrutura e na psique da cristandade americana desde sua fundação, afirma Karen Swallow Prior, professora de inglês na Liberty University, que escreveu por que carrega uma arma durante suas idas a áreas rurais da Virgínia. “O país foi fundado para escapar da perseguição religiosa. Os EUA se expandiram como um experimento em individualismo e adentraram fronteiras que exigiam armas para a sobrevivência, para autodefesa e para conseguir alimento”.

Os evangélicos também enfatizam muito mais o individualismo e a responsabilidade pessoal do que outros grupos religiosos.

Algumas pessoas acham que a razão pela qual os evangélicos não desejam leis mais rígidas no campo das armas é simples. Os evangélicos votam nos republicanos e os republicanos têm aversão por políticas mais rígidas para as armas. Muitos evangélicos também se opõem porque acham que elas podem acabar infringindo a liberdade religiosa.

“Acho que eles são totalmente partidários. Os evangélicos votam com base nas linhas do partido, tenham elas sentido teológico ou não. Os que são contra o aborto apoiariam qualquer coisa que fosse parte de uma agenda liberal, o que significaria, no final, endossar o aborto, se for parte dessa agenda”.

Em sua análise de dados de uma ampla pesquisa de 2016 chamada CCES Common Content Dataset, o cientista político Ryan Burge comparou as respostas de evangélicos, protestantes brancos e católicos à seguinte pergunta: Você apoia ou se opõe à uma proibição dos rifles de assalto?”. Ele encontrou diferenças que dependiam mais da filiação partidária do inquirido, se era democrata ou republicano, do que da sua identidade religiosa.

Joe Carter, editor da Gospel Coalition, acredita que os evangélicos são mais avessos a mais regulamentos porque são mais adeptos às armas. Os evangélicos brancos são os mais propensos a possuir uma arma, segundo estudo do Pew Research Center, publicado no Christianity Today. Segundo o estudo, 41% dos evangélicos brancos possuem uma arma, em comparação com 33% dos protestantes brancos (33%), indivíduos sem uma religião definida (32%), protestantes negros (29%) e católicos (24%).

Os evangélicos brancos (44%) também se mostram satisfeitos com as leis sobre armas. Por outro lado, pouco mais da metade dos americanos que professa uma religião (52%) acham que a legislação deve ser mais rígida. Segundo Joe Carter, muitos evangélicos apoiariam leis mais rigorosas se acreditassem que elas seriam eficazes para conter os assassinatos. “Mas eles não acreditam que um criminoso que mata pessoas inocentes irá atender a regras estabelecidas para a compra de armas de fogo”, disse ele. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Igreja batista atacada no Texas pode ter sido primeira vítima do programa "Igreja com partido"


Ainda é cedo para fazer uma análise profunda da barbárie que acometeu ontem a Primeira Igreja Batista de Sutherland Springs, uma pequena comunidade de 400 habitantes situada a cerca de 56 km de San Antonio, a metrópole mais próxima, e a cerca de 123 km de Austin, outra metrópole não tão longe assim.

O ataque à pacífica Igreja em questão deixou 26 fiéis mortos, 8 da mesma família, segundo as informações mais recentes, com uma faixa etária das vítimas entre 5 e 72 anos de idade, deixando ainda 20 feridos em estado grave.

O acusado do massacre é Devin Patrick Kelley, americano branco (infelizmente, esta referência é necessária dada as circunstâncias atuais dos episódios racistas nos Estados Unidos) de 26 anos de idade, que terminou morto ainda não se sabe se por suicídio ou por ter sido alvejado por alguém das forças de segurança que acudiram imediatamente a igreja que estava sendo atacada.

Dado o pouco tempo transcorrido desde o incidente terrorista de domingo à noite, o  que se sabe até agora é que Devin Patrick Kelley teria se identificado em uma rede social como professor de estudos bíblicos para crianças e, ainda que as informações estejam desencontradas a essa altura dos acontecimentos, parece que ele chegou a frequentar a igreja batista de Sutherland Springs até algum tempo atrás.

É cedo demais, portanto, para entender o que levou Kelly a perpetrar o ato de terror, mas já começam a surgir algumas pistas.

O fato é que a Primeira Igreja Batista de Sutherland Springs não é exatamente uma igreja conservadora no sentido mais estrito da palavra, o que pode ser um pecado mortal no atual estado de coisas que impera no meio evangélico fundamentalista norte-americano, todo ele alinhado com Donald Trump, o atual (e polêmico) presidente do país.

O Estado do Texas, com 38 votos no colégio eleitoral que elege o presidente, é o segundo maior nos Estados Unidos, atrás apenas da California (com 55 votos), e foi maciçamente pró-Trump nas eleições de 2016.

E foi exatamente neste meio fundamentalista que a Primeira Igreja Batista de Sutherland Springs ousou postar em sua página no facebook - em maio de 2016 - um artigo que defendia o direito da rede varejista Target (uma gigante do porte do Walmart, para você ter uma ideia) de autorizar pessoas transgênero a utilizarem o banheiro com o qual se identificassem nas suas lojas, fato que gerou uma comoção entre os mais conservadores (em sua maioria evangélicos fundamentalistas), que se opõem a qualquer iniciativa que vise a reconhecer o direito dos transgêneros em, digamos, existir.

A igreja de Sutherland Springs criticou o boicote organizado pelos evangélicos e disse, através do artigo em questão, que isto causava mais danos ao evangelho do que tolerar a prática institucional da Target.

Ao fazer isto, ela se colocou na contramão da maioria dos evangélicos norteamericanos que creem piamente que o conservador Donald Trump é inspirado por Deus a comandar a nação, conforme a gravura abaixo, que circula nos meios fundamentalistas:



Teria esta atitude maleável e tolerante da igreja acionado o gatilho que perpetrou o abominável ato terrorista?

Ainda não é possível responder afirmativamente a esta questão, mas nestes tempos bicudos em que os evangélicos de todo lugar estão mais preocupados em combater ideologias que não são as suas (sim, eles têm partido...), e defender o programa "Escola Sem Partido" para que seus filhos não sejam educados a conviverem com o diferente, talvez a barbárie ocorrida no Texas seja um símbolo trágico do risco que estão correndo mesmo aqueles evangélicos que ousam discordar da guinada ideologicamente conservadora e partidária que suas igrejas estão seguindo. 

O fim realmente está próximo.

Quem viver, responderá...

First Baptist Church of Sutherland Springs, uma igreja pacífica de gente querida que merece ser lembrada.




sábado, 5 de agosto de 2017

TJPE solta por liminar líder batista acusado por "estupro corretivo" de lésbica


A informação é da Agência Brasil:

Líder religioso de Olinda acusado de "estupro corretivo" é solto; MP contesta

Sumaia Villela

A 22 dias do julgamento final, um líder religioso de Olinda (PE) acusado de estupro “corretivo” foi solto por meio de uma liminar. A decisão é questionada pela promotora da 3ª Vara Criminal do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), Henriqueta de Belli, autora da denúncia. O acusado respondia à ação em liberdade até que a vítima, uma jovem de 20 anos, relatou que ela e seus familiares estavam recebendo ameaças, fato que levou à prisão preventiva do réu no dia 17 de julho. No entanto, ele foi solto na quarta-feira (2).

A liminar que concedeu a liberdade ao líder religioso foi concedida pelo desembargador Fábio Eugênio Oliveira Lima. A promotora questiona o motivo de Oliveira não ter levado em conta as ameaças sofridas pela vítima, o que prejudicaria o bom andamento do processo e a colocaria em risco.

“O desembargador, mesmo sem pedir informações à juíza que decretou a preventiva dele, o liberou. E agora ele respondeu ao feito em liberdade”, diz Henriqueta. “Enquanto ele estiver solto, o Ministério Público acredita que ele não vai deixar de direcionar ameaças [à vítima], e não é possível nem justo que a vítima de um crime sexual dessa ordem continue sendo submetida ao sofrimento porque o acusado não se conforma com o fato de estar sendo processado”, aponta a promotora.

O desembargador Fábio Eugênio Oliveira Lima informou, por meio da assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), que não vai se pronunciar a respeito da decisão porque o processo está em segredo de Justiça.

Entenda o caso

O acusado tem 31 anos e era membro da Igreja Batista da Primeira Etapa do bairro de Rio Doce. Ele era responsável por ações relacionadas ao público jovem. A vítima e sua família – que não falaram com a imprensa - frequentavam a igreja e também cresceram na mesma vizinhança, em Jardim Atlântico, cidade de Olinda.

A garota deixou de frequentar o templo religioso e, motivado por rumores de que ela estaria em um relacionamento homoafetivo, o homem foi até o apartamento da família. Aproveitando que ela estava sozinha, cometeu o abuso. A promotora relatou que, durante o ato, ele afirmava que cometia o crime para que “ela passasse a gostar de homem e deixasse de ficar com meninas”.

O crime ocorreu no dia 28 de dezembro de 2015, e foi denunciado pela vítima em março do ano seguinte. Inicialmente, segundo a promotora, a jovem teve vergonha de falar sobre o ocorrido, mas ao saber que uma outra garota havia sido abusada pela mesma pessoa, resolveu formalizar a denúncia. “É importante ressaltar que a versão dela é bastante coerente e consistente”, diz Henriqueta.

A promotora relata que, neste ano, foi procurada pela família da vítima e pela própria para relatar que o acusado, ao saber que a denúncia havia resultado em ação penal, começou a constrangê-la, tanto diretamente como mandando recado por outras pessoas, “Ela já estava com dificuldade de ir à padaria, à escola. Ele começou a criar situações em prejuízo da vítima, inclusive houve uma situação específica em que ele estava conduzindo um veículo, avistou ela e colocou o carro para cima dela, que conseguiu desviar”, relata a promotora.

Henriqueta de Belli espera que a soltura seja revertida no julgamento do mérito do habeas corpus pela Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), ainda sem data definida. “Esse tipo de demanda, que envolve a violação de vários direitos, uma possível homofobia, machismo, misoginia, são crimes que precisam de fato ser coibidos pela Justiça de forma muito objetiva, para justamente incentivar que outras vítimas também denunciem”.

O acusado foi expulso da Igreja Batista. Oa pastor responsável pela igreja foi procurado para comentar as acusações, mas disse que não falaria a respeito. Entidades de defesa da população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) também acompanham o caso e ofereceram assistência à vítima.

Edição: Amanda Cieglinski



terça-feira, 13 de junho de 2017

Da Cracolândia à faculdade de Direito, passando pela Cristolândia


O título acima é um brevíssimo resumo da história contada pela BBC Brasil:

Como deixei a cracolândia e entrei na faculdade de Direito

Gabriela Di Bella e Gui Christ

"Acharam que eu estava derrotado, quem achou estava errado, eu voltei, tô aqui, se liga só, escuta aí."

É na forma de rap que Tiago Ideal Nogueira, de 35 anos, conta a história de sua sobrevivência a quatro anos na cracolândia, na região central de São Paulo.

O ex-"noia" - forma como os usuários de crack costumam ser chamados na cidade - atualmente é missionário, ajudando dependentes a deixarem a droga, produziu o seu primeiro CD de rap e, em 2016, foi o melhor aluno do curso na faculdade de Direito privada que frequenta na zona leste de São Paulo.

Ele lembra exatamente o momento em que decidiu mudar de vida.

"Entrei pela porta da Cristolândia (ONG que auxilia usuários do crack a deixarem a droga) no dia 8 de maio de 2012, às 15h30, após quatro anos vivendo no fluxo", diz Nogueira à BBC Brasil na praça Princesa Isabel, onde ele foi conversar com usuários da nova cracolândia que se formou no centro paulistano após a mais recente ação policial no local anterior, perto dali.

Agora, após dois anos de tratamento nas fazendas da ONG e um ano como missionário - ouvindo, ajudando no banho, servindo comida e convencendo usuários a aceitarem o tratamento -, ele quer trabalhar no setor público, mas com foco justamente em viciados.

"Meu sonho é ser defensor público", afirma.

Bolsista na faculdade graças a um acordo com a ONG, Nogueira tem notas altas em quase todas as disciplinas. "A matéria que mais gosto de estudar é Direito Civil, e tirei nove notas 10. Estou no segundo ano e luto para manter esse ritmo."

A coordenadora do curso, Eliana Berta Fernandes Corral, afirma que Tiago é destaque em meio aos 600 alunos de seu corpo discente.

"As notas dele são realmente acima da média, e ele sempre participa das aulas e das nossas atividades. Temos orgulho dele na faculdade."

Diálogo

Nascido na zona norte de São Paulo, Nogueira perdeu a mãe aos 12 anos e o irmão mais velho aos 15 - ambos tinham HIV. Sua avó morreu de câncer quando ele tinha 20 anos.

Ele vivia com o tio e diz que nunca lhe faltou nada em termos materiais. "Eu morava bem, trabalhava com meu tio e andava com carrão, bem vestido e perfumado", lembra.

Entretanto, o que mais faltava era diálogo, conta. "Não tive pai, nunca soube quem ele era, e sentia falta de uma orientação, de alguém com quem conversar. Meu tio me dava tudo, menos isso."

Nogueira começou a usar drogas na adolescência, quando saía à noite. "Comecei a usar cocaína na balada, (junto com) bebida. Para um adolescente, estava tudo legal", conta. Até que provou o crack.

"Ele (o crack) seguia sempre comigo. Eu trabalhava e ia para as baladas com ele junto, até o momento em que ele pede exclusividade. E, em 2009, eu fui morar nas ruas por causa disso."

Nessa mesma época começou a se envolver com a pichação, o que envolvia escalar prédios altos - "subi e pichei diversos prédios famosos de São Paulo".

Em 2010, caiu e quebrou vários ossos quando grafitava um edifício da avenida Brigadeiro Luís Antonio, na região central da cidade. Quase morreu. Apesar disso, não abandonou o gosto pela atividade - mas hoje faz grafites pedindo autorização dos donos dos muros.

Sonho

Foi um sonho com a avó que mudou sua vida.

"Um dia sonhei que tomava um refrigerante com a minha vó e conversei muito com ela. Acredito que ela me mandou uma mensagem. Na época, andava de muleta. Acordei, me olhei no espelho e percebi que tinha me tornado um farrapo humano. Estava muito magro, 'noia' e de muleta, tinha passado quatro dias fumando crack direto", lembra. Foi nesse momento que decidiu buscar ajuda na Cristolândia.

Nogueira diz que o período mais difícil foram os primeiros seis meses.

"O corpo pede a droga e você tem que lutar para se manter na abstinência. Tinha muito desejo de fumar, muita fome, e dormir era complicado."

Ainda assim, conta que não teve nenhuma recaída.

Ele se tornou evangélico dentro da Cristolândia. "No começo foi difícil. Eles falavam que Deus é bom, eu só pensava que havia perdido toda minha família - e isso era Deus sendo bom? Eu ficava revoltado", explica. Depois de 15 dias de tratamento, diz ter tido "um encontro com Deus". Hoje se considera um missionário.

Já o rap surgiu dentro das atividades de música durante o tratamento, e hoje ele o utiliza para transmitir apoio aos usuários de crack. Nogueira compõe e canta em igrejas e nos cultos da ONG e gravou um CD que se chama Divinamente Rap.

Também quer desenvolver, com ajuda de um amigo, um aplicativo para agilizar a busca de vagas para tratamento de dependentes químicos, organização da internação e sistemas de logística da ONG que o resgatou.

Abordagens

Nogueira vê com ceticismo a operação policial realizada pelo governo na cracolândia.

"Sabemos que há interesse imobiliário em revitalizar a área, mas é preciso cuidar das pessoas. Só agir com autoritarismo não resolve. Assim, a cracolândia nunca vai deixar de existir", opina.

Ele se queixa de ter sido abordado "a vida inteira" por policiais e ter sido tratado como "negão e bandido".

Em uma viagem recente à praia, foi parado por um policial e retrucou: "Olha o constrangimento que o senhor está me fazendo eu passar. Eu sou missionário, eu dou banho em noia, eu faço aquilo que o senhor não faz".

Sobre a vida na cracolândia, recorda que cada dia era "uma guerra".

"Você levanta de manhã, começa a batalha. Onde você vai comer, e como vai conseguir dinheiro. É impossível não entrar no esquema, você é obrigado a aprender as táticas - sempre ter um cigarro ou uma cachaça na mão para vender."

Do ponto de vista das estatísticas, Nogueira é um sobrevivente: segundo pesquisa da Unifesp, 30% dos usuários de crack morrem antes de cinco anos de consumo da droga. Ele credita sua sobrevivência ao medo "de levar facada", que o fazia evitar dormir na rua - pagava por uma cama nos albergues baratos da região.

Hoje, diz que sua maior luta é contra si mesmo.

"Nunca posso achar que estou bem, sempre estou em progresso. Ajudar as pessoas me faz bem, porque todos os dias me deparo com a realidade que vivi."



terça-feira, 30 de maio de 2017

Primeira Igreja Batista de SP ganha novo vizinho: a Cracolândia


A informação foi publicada no Estadão:

Fiéis vigiam igreja na nova Cracolândia

Primeira Igreja Batista de SP perdeu frequentadores com megaoperação que levou viciados à Praça Princesa Isabel

Felipe Resk

SÃO PAULO - José Carrasco é um senhor de 65 anos, estatura mediana e com a cabeleira mais para branca do que grisalha. Religioso, ele frequenta há 15 anos a Primeira Igreja Batista de São Paulo, que fica na Praça Princesa Isabel, no centro da capital. Foi lá onde se instalou uma nova Cracolândia, após operação policial na semana passada dispersar os usuários de droga do antigo quadrilátero da droga. Foi quando Carrasco assumiu uma nova função no templo: segurança voluntário.

Com medo de circular mais perto do fluxo, ao menos 30% dos fiéis faltaram aos cultos na semana anterior, segundo cálculos da Igreja. Por isso, Carrasco foi um dos membros da comunidade religiosa que aceitou vestir um colete e ficar com os olhos atentos na movimentação da Praça Princesa Isabel. “Como eu faço parte, conheço bem quem frequenta”, diz. “Então, a ideia é identificar quem é quem e fazer com que as pessoas se sintam acolhidas, se sintam seguras, ao me ver.”

Carrasco conta que já trabalhou como vigilante. Segundo ele, o trabalho tem sido tranquilo. “É sossegado. Se a gente não mexe com eles (usuários), eles não mexem com a gente”, diz.

“Os membros fazem trabalho voluntário, com reforço principalmente em horários de culto”, admite o pastor Reinaldo Junior, de 35 anos, segundo quem, também foi pedido reforço de policiamento ao 13.º Batalhão da Polícia Militar, responsável pela área. A Igreja também pôs à disposição dos fiéis, no domingo, uma van para levá-los ao Metrô Santa Cecília e ao Terminal Princesa Isabel. “No domingo da operação ficou bem vazio”, relata.

A Primeira Igreja Batista é conhecida pelo trabalho social realizado com usuários de drogas da Cristolândia. O projeto oferece café da manhã, banho e almoço aos usuários. “Depois da operação, o fluxo na Cristolândia cresceu de 300 para 450 pessoas por dia”, diz Junior.

O projeto faz, ainda, internação voluntária em quatro comunidades terapêuticas. As cerca de 120 vagas, no entanto, já estão preenchidas. “Não é só a gente: todos os lugares estão cheios”, afirma. “Por isso que, antes de se falar em internação compulsória, como está sendo discutido, tem de saber se há vagas disponíveis. Não há.”

Violência. Nesta segunda-feira, 29, por volta das 16 horas, quatro equipes da AES Eletropaulo foram à Praça Princesa Isabel para fazer reparos nos postes. O motivo é que os fios haviam sido furtados, deixando boa parte da região às escuras. “De manhã já estava sem luz”, diz o comerciante Antônio Ferreira, de 59 anos. “Já é a terceira vez só de quinta-feira (dia 25) para cá. A gente tenta trabalhar, mas não consegue vender nada”, conta.

Segundo Ferreira, os furtos de fiação começaram depois que os usuários passaram a concentrar-se na praça, cujo número de barracas tem crescido dia a dia. Na sexta, eram 15. Nesta segunda, mais de 35. “Em 30 anos aqui eu nunca vi nada parecido com essa situação.” Para Devarlei Splendore, de 53 anos, os moradores estão “sitiados”. “Os assaltos estão acontecendo à luz do dia. Ontem (domingo, 28) mesmo eu vi um à mão armada. Depois, o meliante foi se esconder na nova Cracolândia.”



terça-feira, 9 de maio de 2017

Templos compartilhados: uma ideia canadense


Sim, irmãos e amigos, eu sei que existem igrejas bastante grandes que apresentam cultos em distintos horários para comunidades específicas que existem no seu seio, como acontece com hispânicos em algumas igrejas de São Paulo, por exemplo.

O que eu nunca tinha visto até dois anos atrás era um templo dividido por duas denominações.

Em abril de 2015 eu passava pela Rodovia Trans-Canadá, a Highway 1, por uma pequena cidade chamada Salmon Arm, na província da Colúmbia Britânica, quando me deparei com uma cena no mínimo curiosa: um templo com duas denominações: uma presbiteriana e outra batista.


O templo compartilhado por batistas e presbiterianos, visto a partir da Trans-Canadá (Hwy 1)

Como não havia tempo para parar e investigar mais a fundo, apenas registrei mentalmente o fato e o local, e isso ficou me "encucando" por dois anos e agora resolvi localizar no Google Earth onde estava este templo.

Aparentemente, são duas pequenas comunidades religiosas, já que há poucos registros de suas atividades na internet.

Um pequeno mapa com a localização do templo em Salmon Arm, BC

Uma igreja é a St. Andrew's Presbyterian Church e a outra é a Mountain View Baptist Church.

Os batistas são madrugadores, têm seu culto às 9 da manhã no domingo. Já os presbiterianos começam seus serviços às 10:45 h., conforme mostra a foto da placa na entrada lateral do terreno:




Essa mesma foto, que tem baixa resolução, permite ver que há uma indicação de telefone para aluguel do templo, que é o mesmo número de telefone da igreja presbiteriana.

Provavelmente, numa cidade com uma pequena população, como é comum no interior da British Columbia, qualquer fonte de renda é muito bem vinda, não é mesmo?


A parte de trás do templo, com a Trans-Canadá passando lá no fundo da foto.

Perdão, amigos canadenses, demorou dois anos para eu reportar essa curiosidade de um brasileiro que passou rapidamente por Salmon Arm (BC) a caminho de Calgary (Alberta), mas fica registrada a sua criatividade e boa convivência com diferentes denominações.

Salmon Arm, BC em destaque entre Vancouver, BC e Calgary, AB, com destaque também para Kamloops, ali perto.

Algo tipicamente canadense, por sinal. Um lindo país onde as pessoas não têm problemas em conviver com gente das mais variadas procedências.

Será que este exemplo "pegaria" no Brasil?

Você conhece algo parecido por aqui? Se sim, por favor compartilhe conosco nos comentários abaixo.

Um templo simples e funcional acolhe as duas comunidades.



domingo, 7 de maio de 2017

Índios isolados estão ameaçados, denuncia pastor ex-presidente da FUNAI


O pastor batista Antonio Fernandes Costa foi demitido esta semana, conforme informamos ontem aqui no blog.

A matéria é do Estadão:

Índios isolados correm risco de virar 'catástrofe internacional', alerta ex-presidente da Funai

Exonerado, Toninho Costa critica esvaziamento de postos de fiscalização da fundação em região ameaçada por sucateamento da fundação

BRASÍLIA – Os povos indígenas que vivem em áreas isoladas da Amazônia estão com existência ameaçada pelo sucateamento da Fundação Nacional do Índio (Funai), alertou o ex-presidente do órgão Antônio Fernandes Toninho Costa ao tratar das causas de sua exoneração nesta sexta-feira, 5. Reportagem publicada pelo Estado mostrou, na semana passada, que a região de maior concentração de índios isolados do planeta sofre com sucessivas invasões e abandono.

Segundo Toninho, os postos de fiscalização da Funai na região, chamados de Frentes de Proteção, foram esvaziados. “As Frentes de Proteção me preocupam muito, porque isso poderá causar uma grande catástrofe internacional se esses índios ficarem desprotegidos. É isso o que me preocupa. Os que estão aldeados podem ter acesso às políticas públicas. Os que estão isolados estão desprotegidos”, disse Toninho. “A Funai corre risco sim de ser extinta, se continuar esses ataques parlamentares e cortes de orçamentos.”

Governos de todo o mundo já cobram do Brasil uma resposta aos crimes contra povos indígenas, a garantia de recursos para a Funai e um processo acelerado das demarcações de terras. Recentes críticas foram feitas durante a sabatina realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em Genebra nesta sexta-feira, 5, sobre as políticas de direitos humanos do País.

“Mais do que acabar com a Funai, querem acabar mas com as políticas públicas de demarcação de terras. O governo não tem neste momento um sentimento para compreender o que é a Funai”, afirmou Toninho, que responsabilizou o ministro da Justiça, Osmar Serraglio, pelo esvaziamento da instituição. “Com a posição do atual ministro, esses conflitos poderão ser acirrados, porque há proteção por parte de alguns segmentos políticos que estão dando cobertura a isso.”

Exoneração. Segundo o ex-presidente da Funai, Serraglio teve atuação direta em sua saída. “A ideologia dele (Serraglio) é uma, a minha é outra. É um ministro contra as políticas indígenas. A bancada (ruralista) não só assumiu o controle das questões indígenas, mas de todo o Congresso Nacional". Por outro lado, Serraglio afirma que a instituição necessita uma "atuação mais ágil" da que vinha sendo implementada. "O recém iniciado contingenciamento de recursos foi estabelecido para todos os órgãos do governo e não afetou o início da gestão de Costa", afirmou. O ministro acrescentou ao Estado que "há várias questões que demandam soluções e ações urgentes, como o desbloqueio de rodovias em várias partes do país e as demarcações de terras".

A Funai precisa de cerca de R$ 9 milhões por mês para pagar suas contas e manter suas operações, mas em abril recebeu apenas R$ 4 milhões. Na última semana, enquanto indígenas se manifestavam em Brasília durante o evento Terra Livre, Serraglio reduziu o orçamento da fundação para este ano em 44%. O montante que estava aprovado em gastos obrigatórios, como contas administrativas, era de R$ 107,9 milhões, mas foi reduzido para R$ 60,7 milhões.

Dados reunidos pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) mostram que R$ 27,8 milhões já foram gastos nos primeiros quatro meses deste ano com manutenção, despesas administrativas e programas. Com isso, sobram apenas R$ 22 milhões até o final do ano.



sábado, 6 de maio de 2017

Pastor batista demitido da presidência da FUNAI culpa pressões políticas

Cacique Raoni com pastor Antônio Fernandes: parceria que alguns "homens brancos" não gostaram. 

Conforme havíamos comentado aqui em janeiro deste ano, o pastor havia sido nomeado por indicação do PSC, partido que abriga, ao que parece, tudo o que há de pior no governo Temer, inclusive ruralistas e militares seguidores de Bolsonaro.

Parece também que o pastor Antônio Fernandes era uma rara e decente exceção.

O portal G1 da Globo, por exemplo, destaca que ele afirmou que "não compactua com os malfeitos do governo federal em relação às causas indígenas". 

É tão raro - hoje em dia - ver um evangélico preocupado com os pobres, os fracos e os oprimidos, que a gente até se assusta, não é mesmo?

A informação é da Agência Brasil:

Ex-presidente da Funai diz que foi exonerado por rejeitar “ingerência política"

Alex Rodrigues

Exonerado hoje (5) da presidência da Fundação Nacional do Índio (Funai), Antônio Fernandes Toninho Costa atribuiu sua saída do cargo à “ingerência política” e à incompreensão de setores do governo sobre o papel institucional da fundação. Em entrevista coletiva, Costa criticou o ministro da Justiça e Segurança Pública, Osmar Serraglio, e o líder do governo na Câmara dos Deputados, André Moura (PSC-SE), e disse que foi impedido de executar o que estabelece a Constituição.

“Há uma incompreensão por parte do Estado, que não entende que o papel do presidente [da Funai] é defender as políticas indígenas. Foi isso que eu fiz desde meu primeiro momento no cargo. Creio que isso deve ter contrariado alguns setores”, afirmou Costa na entrevista, concedida na calçada em frente à sede da fundação, em Brasília.

Costa disse que foi pressionado para contratar pessoas sem a devida qualificação técnica, por indicação do líder do governo, André Moura. mas que não aceitou as indicações. "A Funai é composta por cargos técnicos, por servidores concursados”, afirmou Costa. Ele considerou preocupante a situação dos povos indígenas e disse que há risco de a Funai ser extinta.

“A Funai está fragilizada. Ela foi esquecida pelo Estado brasileiro, não só pelo atual governo, mas também pelos anteriores, que deixaram a instituição em uma situação caótica”, ressaltou Costa, que estava no cargo desde janeiro. Formado em odontologia, ele é especialista em saúde indígena. Entre 2010 e 2012, foi coordenador-geral de Monitoramento e Avaliação da Saúde Indígena na Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde.

Costa acusou o ministro Osmar Serraglio de representar os interesses dos ruralistas na pasta da Justiça, à qual a Funai está subordinada,. “Ele está sendo o ministro de uma causa que defende no Parlamento”, afirmou o ex-presidente. Como deputado pelo PMDB do Paraná, Serraglio foi relator de proposta que transferiria a atribuição de demarcar terras indígenas da Funai para o Congresso Nacional – o que, para o movimento indígena e entidades que o defendem, é uma forma de barrar a demarcação e o reconhecimento de novas áreas.

Pastor evangélico e ex-assessor parlamentar, Costa reagiu à avaliação do governo de falta de eficiência na Funai, criticando o recente corte no Orçamento federal, que afetou a fundação. Segundo ele, desde março, a Funai recebe os recursos previstos necessários para manter suas ações e projetos.

A presidência da Funai será ocupada interinamente pelo atual diretor de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável da Funai, general Franklimberg Freitas.

Outro lado

Em nota, o ministro Osmar Serraglio justificou a exoneração de Costa afirmando que a Funai precisa de uma atuação “mais ágil e eficiente” e destacando que todos os órgãos do governo foram impactados pelo contingenciamento de recursos federais. Ao citar exemplos de “questões que demandam soluções e ações urgentes”, Serraglio citou o desbloqueio de rodovias e a falta de providências, pela Funai, para permitir que uma linha de transmissão de energia elétrica seja instalada em terras indígenas na Amazônia para garantir o abastecimento à população de Roraima.

A Agência Brasil não conseguiu contato com o líder do governo na Câmara dos Deputados, André Moura.

Edição: Lidia Neves



sábado, 21 de janeiro de 2017

Temer nomeia pastor batista para presidência da FUNAI


A informação é do portal Amazônia Real:

Governo Temer nomeia pastor a presidente da Funai e inclui um general do Exército na equipe, ambos do PSC

Elaíze Farias
12/01/2017 20:56

A indicação do pastor Antônio Toninho Costa (de blusa branca) ocorre em meio a exigência do governo para acelerar obras do PAC paralisadas por causa de demarcação de terras (Foto: Reprodução Youtube)

O Ministério da Justiça anunciou nesta quinta-feira (12) a nomeação do dentista, assessor parlamentar e pastor evangélico Antônio Fernandes Toninho Costa para presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), cargo que estava sendo ocupado interinamente há sete meses após a exoneração do ex-senador João Pedro Gonçalves (PT). O nome do pastor Antônio, como é conhecido na Primeira Igreja Batista no Guará, em Luziânia, em Goiás, é uma indicação do Partido Social Cristão (PSC).

Em um rápido contato com agência Amazônia Real, o pastor Antônio Toninho Costa disse que tinha “25 anos de militância nas políticas indígenas” e destacou ser especialista em Saúde Indigenista. Disse ainda que daria entrevista após a publicação de sua nomeação no Diário Oficial da União (DOU).

O Ministério da Justiça disse que a nomeação de Antônio Toninho Costa, que já atuou na questão indígena pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, será publicada nesta sexta-feira (13) no DOU. Atualmente, ele trabalhava como assessor parlamentar do PSC na Câmara dos Deputados.

O nome de Antônio Toninho Costa foi anunciado pelo Ministério da Justiça menos de 24 horas após o presidente da República Michel Temer exigir do ministro Alexandre de Moraes que resolvesse a questão da Funai durante a reunião que discutiu a retomada do crescimento econômico nesta quarta-feira (11), em Brasília. Na reunião, Temer foi comunicado que haviam obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) inacabadas ou paralisadas por causa da demarcação de terras indígenas. Segundo a Globonews, nesta ocasião, Temer foi avisado que a Funai não tinha um presidente efetivo.

Tudo indica que o governo do presidente Temer escolheu o nome do pastor Antônio Toninho Costa por ser, aparentemente, mais técnico, já que a intenção sempre foi colocar um general do Exército na presidência da Funai, como queria o PSC. Ainda assim, um militar foi nomeado para um outro cargo da Funai. O Diário Oficial desta quinta-feira (12) publicou a nomeação pelo ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República, Eliseu Padilha, do general do Exército Franklimberg Rodrigues de Freitas para o cargo de Diretor de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável da Funai.

O general Franklimberg, que é assessor do Comando Militar da Amazônia, em Manaus, foi indicado, em agosto passado, para ser presidente da fundação pelo PSC, partido presidido pelo Pastor Everaldo Nascimento, que defende as bancadas ruralista e evangélica.

Desde a entrada de Temer no Planalto, o PSC lidera um movimento com indicações de militares para a Funai. Antes, o partido indicou o general Sebastião Roberto Peternelli, mas o governo acabou desistindo depois da reação do Movimento Nacional Indígena e de organizações que defendem os direitos indígenas e os direitos humanos. Lideranças indígenas também rejeitaram o nome do general Franklimberg.

Na Funai, o general Franklimberg vai ocupar o cargo no lugar de Antônio Nobre Mendes, funcionário de carreira e que foi exonerado pelo ministro Eliseu Padilha da Diretoria Promoção ao Desenvolvimento Sustentável. Entre os meses e junho a setembro, Nobre ocupou interinamente a presidência da fundação. Ele foi afastado da presidência, por decisão do ministro Alexandre de Moraes, após repudiar, em nota oficial da Funai, a organização dos Jogos Paraolímpicos Rio 2016 por promover ofensas aos povos indígenas do Brasil. No lugar de Nobre, assumiu a Funai o interino Agostinho do Nascimento Netto, assessor especial do Ministério da Justiça.

Em declaração à reportagem da Amazônia Real, o general Franklimberg Ribeiro de Freitas disse que vai viajar para Brasília (ele não disse a data) para saber os procedimentos de sua posse no cargo.

A mudança no comando da Funai acontece em meio aos protestos que ocorrem desde o ano passado contra propostas do governo do presidente Michel Temer de alterar o processo de demarcação de terras indígenas e reestruturar a fundação. Na reestruturação, o governo prevê, conforme apurou a reportagem, um novo arranjo na fundação, que inclui uma eventual transferência do Departamento de Proteção Territorial, responsável pelo sistema de demarcação das terras indígenas, para a Casa Civil, hoje chefiada pelo ministro Eliseu Padilha.

Conforme o Ministério da Justiça, Antônio Fernandes Toninho Costa é graduado em Odontologia pela Universidade Federal de Alfenas (1995), com especialização em Saúde Indígena pela Universidade Federal de São Paulo (2010). Entre os anos de 2010 e 2012, foi coordenador-geral de Monitoramento e Avaliação da Saúde Indígena na Secretaria Especial de Saúde Indígena.

Desde maio de 2016, Antônio Toninho Costa era assessor parlamentar pelo PSC na Câmara dos Deputados, trabalhando como assistente técnico da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência, presidida pelo deputado Victório Galli (PSC/MT). Também foi assessor técnico na Comissão de Legislação Participativa da Câmara (2015) e na Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da Câmara (2014).

Costa atuou como Consultor da Organização Pan-americana para Saúde Indígena (2009) e do Departamento de Saúde Indígena da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (2002/2005). Entre 2005 e 2009, trabalhou na ONG Missão Evangélica Caiuá, na saúde indígena.

Conforme apurou a agência Amazônia Real, como pastor evangélico, Antônio Toninho Costa é dirigente da Primeira Igreja Batista no Guará em Jardim Bandeirante, no município de Luziânia, em Goiás, fundada em 2006. A igreja é uma congregação da PIBGuará, que foi fundada em 1963, em Brasília. Hoje tem membros nos municípios de Benjamin Constante, no Amazonas, e em Islândia, no Peru. A PIB trabalha com a Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista Brasileira, criada em 1907.

Repercussão entre indígenas

A nomeação do pastor Antônio Toninho Costa surpreendeu o Movimento Indígena Nacional. Estava sendo cotado para assumir o cargo de presidente da Funai o indígena Sebastião Manchineri, filiado ao DEM do Acre. Foi indicado também Noel Villas-Bôas, advogado do PSDB de São Paulo, filho do sertanista Orlando Villas-Bôas.

Nos últimos meses, Sebastião Manchineri recebeu apoio de várias organizações indígenas do país, que divulgaram notas em favor de sua nomeação, entre elas a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Em grupos de Whatsapp, lideranças se mostraram céticas em relação à nova gestão da Funai e já falam em intensificar as mobilizações.

Procurado pela reportagem, Sebastião Manchineri se mostrou frustrado com a decisão do governo de Michel Temer, apesar de todas as articulações que vinha realizando em Brasília e do apoio das lideranças indígenas, mas disse que não desistiu.

“Se vão nomear (Antônio Toninho Costa), não vamos desistir de tirar o que é nosso. Assim como eles acham que têm direito de impor, para nos intimidar, evangelizar, diminuir, oprimir, nós temos o direito à liberdade e a dignidade de defender a nossa autenticidade, princípios, valores e continuidade. Se é um jogo, vamos jogar. Se é para ser feito assim, vamos fazer”, disse Sabá.

Manchineri afirmou que nasceu com a missão de “lutar e buscar e defender aquilo que seja humano e digno” e que não vai apoiar “a exploração em detrimento da vontade e do interesse dos exploradores e das pessoas que vivem da miséria dos outros”.

Em entrevista à Amazônia Real, Nara Baré, vice-coordenadora da Coiab, afirmou que a decisão do governo confirma o retrocesso denunciado pelos indígenas nos últimos meses. Para ela, a governo Temer está tentando usar a Funai como manobra contra os próprios indígenas.

“Não vamos permitir que nosso próprio órgão indigenista, que existe para proteger e promover nossos direitos, venha contra nós”, disse Nara Baré.

Marcos Apurinã, representante dos povos indígenas de Rondônia no Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI), comentou a nomeação de Franklimberg Rodrigues de Freitas no cargo de diretor de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável.

“Conversamos com ele anteriormente e me pareceu despreparado. Ele nos disse que só assumiria um cargo na Funai se fosse como presidente. É estranho que agora ele tenha aceitado uma diretoria. O que me parece é que ele assumiu para complicar a vida dos povos indígenas”, disse Apurinã.

Segundo a liderança, no cargo de Diretor de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável, Franklimberg Ribeiro de Freitas terá poder de autorizar licenciamentos sobre grandes obras, como hidrelétricas e rodovias. Para Apurinã, somente alguém comprometido com os povos indígenas, como o caso de Sebastião Manchineri, poderia barrar qualquer decisão contrária ao direito dos indígenas.

“Colocaram uma pessoa que pode prejudicar nossos direitos, nosso acesso aos recursos e a nossa sustentabilidade. Está entrando para complicar a Funai nesse setor, para que pessoas de fora, não indígenas, tenham acesso aos recursos das terras indígenas. Pode prejudicar a situação das comunidades. Não queremos nem paternalismo, nem ditadura. Queremos acesso à sustentabilidade”, disse Apurinã.

Promessa de manifestações

Nara Baré disse que o movimento indígena não está quieto e vai responder e reagir a qualquer tentativa de ataque aos seus direitos.

“Ano passado fizemos mobilizações. O Ocupa Funai. O Ocupa Sesai. Vamos lutar sempre. A gente não está para brincadeira. Se conversando não está resolvendo, vamos partir para ações mais concretas. Estamos sempre de prontidão. Quando menos esperarem, a gente ataca, vamos partir para a guerra. O governo não sabe do que somos capazes. Deixo minha casa, enfrento aqueles ‘Robocops’ de Brasília, levo bala de borracha. É pelas futuras gerações que faço isso, pelos meus filhos e minha terra”, disse Nara Baré, indígena da região do Alto Rio Negro (AM).

Para Nara Baré, Sebastião Manchineri não foi escolhido porque ele não “baixaria a cabeça” aos interesses anti-indígenas. “Eles [governo] não querem uma Funai fortalecida, mas uma Funai marionete dos interesses contrários aos nossos”.

(Colaborou Alberto César Araújo, da Amazônia Real)



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