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sábado, 22 de abril de 2017

Sobre falar, engasgar e soltar pum


Alegre o seu feriadão com a leitura divertidíssima da crônica de Luis Fernando Verissimo, publicada no Estadão em 06/04/17:

Em comum

Uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais, sendo a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum

O homem é o único animal que fala pela mesma razão que é o único animal que se engasga. Algo a ver com a localização da laringe. Ou é da faringe? Enfim, algo no homem lhe dá o dom da expressão verbal que nenhum bicho tem, mas os bichos, em compensação, nunca se veem na situação embaraçosa de dizer o que não deviam ou se engasgar na mesa.

O fato também sugere uma questão: foi a necessidade que o homem — ou, mais provavelmente, a mulher — sentiu de falar que determinou a eventual localização privilegiada da laringe, ou foi o acaso da laringe humana evoluir como evoluiu que determinou a fala?

O ser humano desenvolveu a fala por um acidente anatômico e assim virou gente ou a linguagem foi uma etapa lógica da sua evolução, porque para ser gente só faltava falar?

O próprio Darwin chegou a especular que a fala começou com a pantomima, com os órgãos vocais inconscientemente tentando imitar os gestos das mãos.

A linguagem oral teria se desenvolvido porque, antes da invenção do fogo, a linguagem gestual não era vista no escuro e as pessoas, ou as pré-pessoas, não podiam se comunicar. A linguagem é filha da noite!

Teorias estranhas sobre a origem da linguagem não faltam.

No século XVII um filólogo sueco afirmou com certeza que no Jardim do Éden Deus falava sueco, Adão falava dinamarquês, e a serpente falava francês (Sempre a má vontade com os franceses).

Na sua infância — a palavra “infância”, por sinal, vem do latim “incapacidade de falar” — a humanidade não produzia palavras mas certamente produzia sons, e uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais para identificá-los e que esta foi a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum.

Foi chamada de “teoria bow-wow”, e o nome já a desmentia, pois “bow-wow” é como latem os cachorros anglo-saxões, enquanto os luso-brasileiros fazem “au-au” e os japoneses, segundo os japoneses, “bau-bau”.

A única linguagem comum a toda a humanidade é a dos ruídos involuntários do nosso corpo.

Toda a espécie humana espirra e tosse da mesma maneira, não há como variar a pronúncia de um arroto e nada simboliza melhor a nossa igualdade intrínseca do que o pum, que todos dão da mesma maneira, não importa o que digam do pum alemão.

Eis uma receita para o entendimento, inclusive entre os grupos e facções em choque no Brasil de hoje, esquerda x direita, políticos x Lava-Jato etc. Todos os confrontos entre partes litigantes deveriam começar com um coro de ruídos elementares, para enfatizar nossa humanidade em comum.



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Quem nos protegerá de Trump?

Marcelo Rubens Paiva tenta responder essa angustiante questão em coluna interessante publicada no Estadão de 14 de janeiro de 2017:

Aprender com o erro

Foi a ameaça de extinção em massa que freou a corrida armamentista da Guerra Fria

Os genes humanos cederam sua primazia na evolução dos homens a um agente completamente novo, inédito, não biológico, a cultura. Mas não devemos nos esquecer que tal agente novo e original é completamente dependente dos anciões genes humanos para existir. Aliás, foi feito pelos genes humanos, ser social que começou entre grupos de caçadores e colhedores coletivos, e que passou a pintar cavernas, compor músicas e contar histórias. Este é um dos pilares da sociobiologia de Theodosius Dobzhansky e Edward Wilson. Mas o que é cultura? Música, poesia, pintura, dança, esporte, folclore, festas familiares, jogos, religião, filosofia, narrativas e muito mais.

É culinária, confecção, decoração, previsão do futuro, contrato social, casamento, compreensão dos astros, calendário, divisão do ano em estações, meses, dias, horas, controle do tempo, ter noção do antes e depois, da vida e da morte.

É altruísmo (por incrível que pareça, poucas espécies o tem), tabu do incesto (aqui, há divergências, já que alguns acreditam que haja uma aversão natural de se afastar de alguém com quem conviveu na infância por mais de seis anos, o que aumenta a chance de diversificação genética do grupo), divisão entre infância e puberdade, rituais que celebram o princípio da fertilidade, cura pela fé, mitologia, divisão em castas, análise de sonhos, medicina, drogas psicoativas, educação.

Cultura é penteado, tatuagem, colares, cocares, fabricação de armas, utensílios para caça, cozinha, higiene pessoal. E ética, governos, Estado, nomes, nomes familiares, classificação das coisas, das cores, números, regras de convívio, rituais, leis, sanções penais, exílio ou banimento, superstições, correspondências, sinais e documentos.

Antropólogos e os pioneiros da sociobiologia costumam delimitar os avanços da humanidade como parte do alcance genético. Todas as particularidades da cultura humana têm explicações genéticas, fazem parte da evolução. Como entender Trump pela Teoria da Evolução, já que pode levar ao colapso das relações sociais.

É famosa a hipótese de Robin Fox. Que foi reproduzida em termos no clássico O Senhor das Moscas, de William Golding (Nobel de 1983), e recentemente no filme alemão A Onda, em que um professor de história prova que é possível, sim, que o nazismo possa voltar à Alemanha do novo milênio, numa experiência radical pedagógica que serve àqueles que não acreditam que tamanha insanidade coletiva um dia ocorreu.

Como seria se mandássemos bebês a um cenário isolado, uma ilha, um planeta, em que sobrevivessem sem contato conosco? Como seria a civilização criada por eles? Aprenderiam a se comunicar uns com outros? Teriam fala, escrita? Seus descendentes teriam inventado uma língua completamente diferente das existentes entre nós? Esta língua teria vários troncos? Seria possível nós entendermos esta ou estas línguas? Seria possível traduzi-las? Elas seguem os mesmos princípios de uma linguagem humana?

Fox vai longe. Esses exilados autônomos, se sobrevivessem ao isolamento, construiriam uma sociedade que teria governo, leis de propriedade, regras sobre o casamento, costumes sobre tabus, métodos para resolver conflitos sem derramamento abusivo de sangue, crenças no transcendente e sobrenatural (religião), práticas religiosas, mitos e lendas, narrativas orais, educação, sistema de status social, cerimônia para iniciação dos jovens, práticas de corte como enfeites para homens e mulheres, pinturas corporais, jogos, regras, disputas, prêmios, indústria de fabricação de ferramentas, armas, adultério, suicídio, psicoses, neuroses, curandeiros, família, guerras e pacificação.

Se a roda não tivesse sido inventada, seja lá onde ela foi inventada, outro povo a inventaria. Se Gutenberg não tivesse inventado a prensa mecânica, alguém a inventaria. Se o tear mecânico não tivesse sido inventado, alguém o inventaria. O avião foi inventado ao mesmo tempo por Santos Dumont e pelos irmãos Wright. Assim como a Teoria da Evolução.

O mundo está assustado. Procura nos manuais de ciência política explicações para a eleição de Trump. Ele é uma releitura de Silvio Berlusconi, o empresário não político, que admira Nixon e Reagan, do ideário republicano radical, somado ao ódio histérico fomentado pelo macarthismo, que o desencanto com a política e com a elite liberal levou ao poder.

Trump é perigoso. Escolheu os imigrantes como o senador Joseph McCarthy escolheu os comunistas, para numa caça às bruxas governar sem projeto. É uma aberração política? É explicado pelo darwinismo social?

As crianças isoladas inventariam a República e a paz entre cidades, o reino e a promessa de estabilidade, a guerra total de Hitler e depois a paz, Trump, o conflito extremo, e a democracia e o Estado de bem social.

Trump é a razão para a existência de Trump: é preciso identificar e entender o ódio, eventualmente, para explicar como é fundamental para a sobrevivência da espécie a tolerância, a ética e o altruísmo.

Foi a ameaça de extinção em massa que freou a corrida armamentista da Guerra Fria. Foram as bombas de Hiroshima e Nagasaki que impediram a detonação rotineira de outras em cidades habitadas.



domingo, 13 de abril de 2014

Todo ser humano nasce prematuro

A pretexto de falar sobre cólicas em bebês, o Dr. Moises Chencinski (pediatra e homeopata) escreve um interessante artigo para o Guia do Bebê que vai mais além, conforme você pode conferir abaixo:

Cólicas em Bebês - parte 2

Para compreender as cólicas nos bebês é preciso primeiro entender que todo ser humano nasce prematuro e por isso precisa de cuidados especiais

Nesse “capítulo” e no próximo, quero levar vocês comigo em uma viagem muito diferente, mas muito legal (pelo menos, em minha opinião) e gostaria que vocês pudessem, por algumas linhas, ter a mente aberta para novas informações e sensações.

Depois disso, poderemos ter novas “ferramentas” e novos caminhos a trilhar para compreender não só as cólicas, mas o choro e o desenvolvimento dos nossos bebês e não teremos mais medos, preocupações ou noites sem sono e sim uma fase linda da vida da família, da qual teremos saudades.

Vamos lá?

Todo ser humano nasce prematuro

Muitos estudos e muita observação mostra que independente de nosso tempo de gestação (9 meses – quase 270 dias), se de termo ou não, todas as crianças da “raça humana” nascem antes do tempo, quer seja avaliada a questão clínica, física, social ou psicológica.

Após uma gestação inteira de preparação, a criança quando nasce não sabe se alimentar sozinha, não enxerga adequadamente, escuta mal, não fala, não anda, não senta, não sustenta nem a cabeça, não se relaciona com os seus semelhantes e leva muito tempo para atingir um patamar próximo ao do recém-nascido de qualquer outra raça do reino animal. Isso significa que, se esse bebê fosse deixado para se virar por conta própria e não tivesse a sorte de ser um Tarzan (o rei da selva -1918) ou um Mowgli (o menino lobo), ele certamente não sobreviveria.

Isso mostra sua necessidade e até dependência dos adultos da sua família para seus cuidados, alguns dos quais só pode ser suprido pela mãe.

Mas, se por um lado, ser prematuro significa que o bebê não está pronto ao nascer, como grande parte dos animais que dependem de habilidades para sobreviver desde muito cedo, por outro lado, ele está aberto para se desenvolver de forma única, podendo ser mais flexível em suas adaptações e tem constante necessidade e capacidade de inovar e aprender. E esse meio ambiente influencia diretamente o desenvolvimento da criança.

Com poucas horas de vida, boa parte dos animais está preparada para andar, correr, buscar seu alimento, se esconder e se defender. Um “bebê da raça humana” pode levar anos para se desenvolver a esse nível. Essa é uma das razões pelas quais a infância é tão longa até chegarmos à adolescência.

Somos inteligentes e racionais

Ou quase isso.

Vamos a uma sessão você sabia?

- Você sabia que um bebê nasce com um cérebro de 25% do tamanho do cérebro do ser humano adulto?

Ao nascer, nosso cérebro pesa cerca de 350 gramas (no adulto chega a 1.400 gramas) e tem um volume 4 vezes menor do que o do adulto. Após um mês, ele pesa 420 gramas, ao final de um ano 700 gramas (metade do tamanho do adulto).

Passamos apenas 2% de nosso tempo de vida na infância, mas 80% de nosso cérebro cresce até os 2 anos de idade e 90% aos 3 anos.

Essa lentidão do desenvolvimento do cérebro e do nosso desenvolvimento (comparada ao de outros animais) pode ser vista como uma vantagem porque possibilita a influência do meio em que ele vive em seu desenvolvimento ao longo da vida, permitindo uma maior capacidade de aprendizagem e uma adaptação ao meio. Mas, isso também mostra uma maior necessidade da presença de outros seres humanos, de preferência da família e, sempre que possível dos pais, nesse processo.

- Você sabia que um macaco nasce com 50% do tamanho do cérebro do macaco adulto?

Isso mostra que um macaco recém-nascido (após 237 dias de gestação se for um chimpanzé) já nasce com condições de um desenvolvimento e uma adaptação muito mais rápida que a do bebê humano, até porque precisa disso para sobreviver em seu meio ambiente natural.

Estudos de 1944, por Adolf Portmann (zoólogo - 1897-1982) já mostravam que para um bebê humano recém-nascido atingir a fase do desenvolvimento de um macaco recém-nascido, a gestação teria que ter 21 meses. Será que alguma mãe estaria disposta a esperar assim?

Outro autor (Bostok) dizia que para que um recém-nascido pudesse “pensar em se cuidar sozinho”, tentando escapar de perigos por conta própria, ele precisaria pelo menos engatinhar (ficar “quadrúpede”) e isso acontece por volta de 266 dias após seu nascimento (9 meses), ou seja, o mesmo tempo de uma gestação dentro do útero.

Assim os macacos, assim como outros “animais irracionais” nascem prematuros, mas permanecem imaturos por menos tempos do que os bebês de “animais racionais” (nós).

- Você sabia que é o tamanho da cabeça do bebê e da pelve estreita da mãe que determina a hora de nascer?

No último trimestre de gestação, o cérebro do bebê cresce demais. Se os bebês não nascessem após 266 dias de gestação, e ficassem mais tempo dentro do útero, e se seus cérebros continuassem a crescer na mesma velocidade, a cabeça não passaria pelo canal vaginal e colocaria em risco a sua vida e a de sua mãe. Dessa forma, mesmo sem estar “completamente pronto”, o bebê precisa nascer e nasce por conta própria, ao seu próprio tempo.

Isso mostra a necessidade do cuidado do nascimento ao tempo certo, sem nada nem ninguém para apressá-lo. Ele já está nascendo antes do que deveria para estar pronto. Tirar um bebê do útero sem respeitar seu próprio tempo de desenvolvimento (cérebro, sistema digestório, circulatório, respiratório) pode acarretar grandes riscos para sua sobrevivência após o corte do cordão umbilical.

Já consegui convencer vocês que nosso bebê nasce antes do que devia (prematuro), que precisaria de pelo menos mais 9 meses de gestação para nascer “mais pronto”, que demora a se desenvolver e precisa da presença mais constante de seus pais e familiares para que esse processo ocorra da forma mais satisfatória e completa possível?

Vamos devagar, tá? Sem pressa. Vou dar um tempo para se digerir melhor essas informações e voltamos na semana que vem, pode ser? Aguardo vocês aqui de novo.



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Na luta Malafaia x Eli Vieira quem apanha é a genética


Na controvérsia da semana, entre Silas Malafaia e Eli Vieira, que debatem a hereditariedade e o determinismo da homossexualidade, quem melhor analisa a questão (e de maneira mais isenta) é Pedro Burgos, em brilhante artigo publicado no portal OƎNE:

Malafaia “perdeu” e a ciência ganhou? Não tão rápido

“Me parece que o único motivo pelo qual o álcool é legal no Brasil, um dos motivos políticos é que simplesmente o cristianismo é dominante, e a religião dos Citas não teve esse privilégio de dominar e convencer um líder do Império Romano a adotar uma religião e forçá-la ao resto da população”. “Algumas hipóteses, de certos historiadores e arqueólogos, é sobre como a droga é tratada na própria Bíblia. Dizem que Jesus aplica um certo tipo de emplastro de ervas medicinais, pra ajudar num milagre, numa cura. É muito irônico, mas é possível, não sei qual é a probabilidade disso, que o próprio Jesus Cristo utilizou na narrativa bíblica a maconha como erva medicinal. Outra hipótese, o que também foi dito por historiadores e arqueólogos, é que é possível que todas aquelas visões e relatos de Moisés podem ter tido a influência de um cogumelo que cresce na área (risos).”

O autor da aula de hipóteses históricas é o geneticista Eli Vieira. Procurei a origem da história levantada por Eli e defendida no último Bulecast, e todas elas remetem a uma pesquisa publicada em 2003 na High Times, revista americana não muito acadêmica sobre o consumo de drogas. No seguimento da conversa sobre a Descriminalização da Maconha, o interlocutor Edward MacRae, pesquisador da UFBA e do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas, arremata: “Essa teoria que você está falando pra algumas pessoas é absolutamente estapafúrdia, mas não é.”1.

Corta para uma semana depois. Hoje o geneticista Eli Vieira já é uma certa estrela da internet. Lá de Cambridge, onde faz o doutorado na prestigiosa instituição britânica, ele coleciona curtidas, menções e visualizações do vídeo assistido por quase 1 milhão de pessoas. Suas explicações científicas sobre a homossexualidade agora são elogiadas por celebridades, jornalistas e deputados. Dias depois de conversar sobre teorias de uso da maconha na Bíblia (assunto bastante delicado para os cristãos) sem citar fontes ou com estudos não muito confiáveis, Eli, graças às ferramentas da internet, agora tinha cacife e audiência para bater de frente com Silas Malafaia, o milionário e influente pastor da Assembléia de Deus Vitória em Cristo.

A discussão, que começou na desastrada entrevista de Marília Gabriela com Silas Malafaia no domingo, se concentrou em um ponto. Nela, o pastor fala: “Quem pode dizer se alguém nasce gay ou não? Não é a psicologia, é a genética”. Eli Vieira usa isso como fio condutor para mostrar o seu lado científico, e começa o vídeo com uma explicação (meio pedante, se me permite) diferenciando o que é “inato” e o que é predisposição genética – como se deveríamos entender tudo que um pastor fala literalmente. E diz: “Posso garantir que, sim, há uma contribuição dos genes. Isso não é passível de ser discutido.” Não é o que pensa Silas Malafaia, que levou a discussão para o Twitter:

Veja os melhores momentos aqui.

O Capítulo Inteiro do Manual de Genética do Comportamento que Eli tuita tem as tabelas que ele cita no vídeo, triunfante – e vale a leitura, por ter linguagem bem acessível para quem entende o inglês. Aprendo por ali que desde os anos 50 foram feitas dez (e não dezenas) de pesquisas importantes com gêmeos para verificar se há, como ele sugere, uma prova cabal da influência genética na definição da homossexualidade.

Os estudos trazem, de fato, com graus bastante variáveis de concordância, o mesmo achado: há uma chance consideravelmente maior de um gêmeo monozigóticos ser homossexual quando o outro é, se compararmos com os gêmeos dizigóticos (chamados “fraternos”). Mas há problemas nessas pesquisas, que o próprio estudo citado por Eli pontua. Há o problema de os participantes da maior parte dos estudos terem sido selecionados a partir de chamadas em revistas para gays e lésbicas, a possibilidade de gêmeos idênticos terem tido a mesma criação (o que dificulta o isolamento do fator ambiental), a falta de variedade das amostras, basicamente nos EUA, e a absoluta falta de evidências quando falamos de homossexuais mulheres.

A revisão dos estudos citada pelo geneticista termina exatamente com este parágrafo, que eu prefiro traduzir na íntegra:

A essa altura, poucas conclusões podem ser atingidas com certeza no que diz respeito às determinantes genéticas e ambientais para a orientação sexual. Importantes inovações de metodologia de pesquisa têm o maior potencial para aprofundar o nosso conhecimento nas origens e desenvolvimento da orientação sexual humana. Pesquisas futuras deverão tentar também integrar outras abordagens biológicas, para prover informações valiosas sobre os caminhos específicos pelos quais os genes exercem a sua influência em orientação sexual e seus correlacionários.

É bastante diferente de “isso não é passível de ser discutido” ou “A genética está dizendo que quando um gêmeo é homossexual o outro também é. E a chance é maior quanto maior é o grau de parentesco entre eles. Então como a genética não tem a ver, Malafaia?”, algumas das frases proferidas no vídeo.

Em declarações posteriores, parece que o geneticista baixou o tom, deixando claro que o ambiente era igualmente importante, e falando que de fato a principal razão de ser do vídeo, era a “causa” da promoção da igualdade das pessoas independente da orientação sexual. Agora, enquanto escrevo, estamos em um terceiro momento do imbróglio, quando começam a vir outras pessoas da própria Academia questionando a validade da argumentação. No que ele responde:



O que me leva ao real problema, na minha visão, dessa história toda.



Ontem, acompanhando o Twitter e o Facebook, pareceu que a Ciência ganhou de goleada. Foi “uma aula da razão sobre o obscurantismo”, que deveria colocar um ponto final no assunto. Era “o cara que fez fortuna com a fé de muitos”, que não acredita na evolução das espécies, sendo derrotado pelos fatos por alguém razoavelmente como a gente que fala termos bonitos como monozigóticos e desfilava tabelas que pouquíssima gente tinha visto antes mas que, hey, seems legit. Não que eu não tenha vibrado um pouco no primeiro momento. Afinal, acho que o Eli, eu e boa parte dos leitores estamos todos aqui na mesma causa: também sou contra a ideia de Silas Malafaia de achar que seria algo desejável “consertar” homossexuais, de tratar uma opção sexual como doença. Isso, sim, tem que ser combatido de alguma forma.

Mas não sei se usar a ciência como algo infalível, com uma fé não muito diferente da fé na Bíblia, como solução. Eu sou apenas um jornalista, mas, de novo, encorajaria qualquer pessoa que sabe razoavelmente inglês e tiver algum tempo sobrando para dissecar as conclusões dos estudos apresentados por Eli Vieira. Até onde eu chequei, as pesquisas apresentadas ali fazem o que boas pesquisas em um campo relativamente novo deveriam fazer: dizem o que os estudos indicam e quais os próximos passos que merecem ser atacados para um entendimento melhor do assunto. Nenhuma pesquisa fala “é o que a ciência fala, se liga aí Pastor bbk”2.

Eu até entendo que muita gente tenha se sentido incomodada com as coisas que Silas Malafaia falou no domingo[^preconceito]. Mas o problema não é só o tom da revanche, mas a confiança cega em “estudos”. Quando é conveniente para Eli Vieira, como no podcast narrado lá no início, ele cita hipóteses3. Quando Silas cita livros e outros estudos que contradizem a sua visão, que tem até mais base, isso é “charlatanice”.

Isso pode soar “anti-ciência” e não, não é o caso – mas bem o contrário. Temos que adotar uma postura, na falta de um termo melhor, cientificista, de achar que um estudo X valida qualquer ideia, e pensarmos na floresta e menos nas árvores. Veja o que aconteceu na maior parte dos últimos 10 anos no debate sobre o impacto humano no aquecimento global, especialmente nos EUA. Há basicamente um consenso sobre as causas – e certamente sobre as consequências que vemos –, mas a virulência com que muitos dos proponentes dessa tese estava impondo a noção aos “céticos” ajudou a politizar o debate, e deixou a real questão (o que vamos fazer?) em segundo plano4.

E o que vimos no caso “Malafaia x Geneticista” foi basicamente isso. Alguém levantando o cedro mágico de “artigos peer reviewed” para provar algo que ainda não está provado. Não desmereço a didática de Eli Vieira, e certamente ele escreve coisas bem interessantes, como uma crítica bem fundamentada (ainda que eu discorde em alguns pontos fundamentais) sobre o livro de Miguel Nicolelis5. Para os otimistas, o vídeo serviu para refrescar alguns conceitos de genética que eu aprendi no Ensino Médio. Mas há um risco de reduzir excessivamente a questão, como pontuou Regina Facchini socióloga do Núcleo dos Estudos de Gênero da Unicamp em seu Facebook:

Todos já ouvimos sobre estudos que procuram demonstrar que o “comportamento sexual humano” sofre infuências genéticas ou biológicas de modo mais amplo. Não há novidade nisso. Esses estudos pipocam na mídia há décadas. O novo é assumir e procurar difundir, de uma perspectiva da genética, que há demonstrações científicas dessa influência, mas também há o fato de que o comportamento humano NÃO É DETERMINADO geneticamente.

Lamento o uso que se tem feito na rede desse vídeo pra dizer que “vejam, que bom, a gente nasce assim!”. Além de simplificação absurda da questão e distorção do que o autor do vídeo diz, há uma acomodação a um olhar reducionista em relação ao “comportamento humano”, que desconecta a questão de seu norte político mais profícuo: trata-se de reconhecimento ou não dos direitos humanos (e, portanto, do status humano) de um contingente de pessoas que se identificam ou são identificadas a partir de desejos e afetos não direcionados para pessoas do “sexo oposto”.

Observando tudo isso, meu primeiro impulso é um olhar bastante pessimista sobre as possibilidades e limites da articulação entre ciência e luta política. Tendo a pensar que as pessoas, inclusive ativistas por direitos LGBT, não estão prontas ou dispostas a ver complexidade alguma e que de fato esperam que alguém aponte uma origem única e bem simples do “comportamento humano”. O que mais pode explicar que Malafaia tenha tantos ouvidos e que a difusão do vídeo de Eli Vieira tenda a aquipará-lo a um determinista de quinta categoria? Infelizmente, me parece que esse desejo de simplificação é nosso maior inimigo político e – o pior! – ele mora dentro de nós mesmos.




1. Costumo assinar embaixo das ideias de Denis Russo a favor da legalização de algumas drogas, mas os argumentos mostrados no podcast são meio malucos, com base científica bastante discutível: em um momento, o professor convidado ao programa defende que “não há dúvidas que o crack tem de ser legalizado”. ↩

2. A busca pela determinação genética da sexualidade já tem mais de 20 anos, e volta e mai anunciam “achados definitivos” que são posteriormente desprovados. Em 1993, em artigo publicado na Science, cientistas afirmaram ter descoberto o “gene gay”. O Council of Responsible Genetics tem um bom resumo disso aqui. ↩

3. Para ser justo, são hipóteses “de humanas”, que não são comprováveis como algumas das ciências biológicas. ↩

4. Quando estava na Superinteressante escrevi uma matéria sobre os céticos do aquecimento global. Naquela época, entre 2006 e 2007, havia de fato uma cruzada contra esses cientistas e alguns estudos que ajudavam a sustentar teorias céticas – é possível lê-la na íntegra aqui. Eu terminava com uma frase de Michael Crichton: “A ciência não tem a ver com consenso. Consenso é coisa de política. Os maiores cientistas da história são grandes justamente porque desafiaram o consenso”. ↩

5. Eli resenhou, em 2011, o livro Muito Além do nosso eu de maneira tão crítica que mereceu briga pública e block no Twitter. Nicolelis achou que ele não tinha credenciais para discutir aquilo. ↩






Atualização de 21 de março de 2013

Nota divulgada pela Sociedade Brasileira de Genética:

Manifesto da Sociedade Brasileira de Genética sobre bases genéticas da orientação sexual

7 de março de 2013

A Sociedade Brasileira de Genética endossa as informações fornecidas pelo biólogo Eli Vieira em resposta ao pastor e psicólogo Silas Malafaia acerca das bases genéticas da orientação sexual.

A orientação sexual humana é uma característica multifatorial, influenciada tanto pelos genes como também pelo ambiente. Há fortes evidências de que o substrato neurobiológico para a orientação sexual já está presente nos primeiros anos de vida. Não há evidência de nenhuma variável ambiental controlável capaz de modificar de maneira permanente a orientação sexual de um indivíduo. Assim, essa faceta do comportamento humano é resultado de uma interação complexa entre genes e ambiente, em que nenhum dos dois tem efeito determinante por si só. Alegar que a genética nada tem a contribuir na compreensão da origem deste comportamento é ignorar meio século de avanços na nossa área.

Entendemos, também, que os fatos acerca dessa questão são desvinculados do debate ético sobre os direitos das pessoas que manifestam orientações sexuais e identidades de gênero.

No entanto, neste momento histórico em que o físico Stephen Hawking faz campanha para que o governo britânico se retrate pelos males que causou a Alan Turing, homossexual e pai do computador, expressamos que nós, como cientistas, desejamos um mundo mais igualitário, em que as pessoas não sejam julgadas pela sua orientação sexual ou identidade de gênero, mas apenas pela firmeza de seu caráter. Um mundo assim é um mundo mais receptivo ao pensamento científico, que se constrói de forma humilde e tentativa, em vez de dogmática e impositiva.



terça-feira, 30 de outubro de 2012

Inventário do invisível

Então... você acha que sabe tudo? Mad afinal, o que é o "invisível", por exemplo?

Essa é a pergunta que John Lloyd tenta responder de maneira absolutamente instigante, para deleite de todos aqueles que não se conformam em ver (e tentar entender) apenas a superfície das coisas.

O primeiro vídeo abaixo é a participação de John Lloyd na conferência TED, com legendas em português.

O segundo vídeo é um resumo muito bem humorado de sua preleção.






quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Alegre-se: você é único!

O salmo 139 é o mais belo hino bíblico sobre o cuidado de Deus na formação de cada ser humano, "entretecido" (v. 13) e "esmeradamente tecido" (v. 15) no ventre da mãe.

Aquilo que a Bíblia já dizia 3.000 anos atrás, agora é confirmado pela ciência, conforme você pode ler na interessante matéria abaixo, publicada na revista Galileu:

Por que somos seres únicos?

por Caroline Williams, da New Scientist

DNA é só o começo. Veja como o jeito de andar ou o formato da orelha são diferentes em cada um de nós e inspiram novas tecnologias de reconhecimento

Olhe ao redor e vai perceber como todas as pessoas são diferentes. Rostos, corpos, comportamentos e personalidades, todos parecem únicos e especiais. Agora pense na humanidade como um todo. Somos cerca de 7 bilhões, mas estimativas sugerem que 100 bilhões de pessoas viveram e morreram nos últimos 50 mil anos. Até onde sabemos, todas elas são, ou foram, totalmente únicas. O mesmo se aplica a todos os seres humanos que ainda estão por nascer.

Há na nossa espécie uma quantidade incrível de variação. Quanto mais buscamos tecnologias para confirmar identidades, mais descobrimos qualidades que tornam cada um de nós especial. Algumas, como DNA e digitais, são óbvias. Outras, nem tanto. Então, sim, sua mãe estava certa: você é muito, muito especial. Mas não confie apenas na palavra dela. Veja abaixo 10 traços que, de acordo com a ciência, são seus e de mais ninguém.

1 DNA

Uma parcela de apenas 0,5% do DNA dos humanos é distinto entre as pessoas e seria responsável pela infinidade de diferenças que vemos. Mas tão pouco seria suficiente para explicar todas as variações que encontramos? Na teoria, sim. E muito. Nosso genoma contém cerca de 3,2 bilhões de letras de código de DNA; 0,5% disso seria 16 milhões de letras. O código possui quatro letras, então o número de combinações possíveis é igual ao número 4 elevado a 16 milhões. O gigantesco resultado dá um número de possíveis genomas muitas e muitas vezes o suficiente para que todas as pessoas que já existiram tenham DNAs diferentes.

Assim, probabilidade de alguém ter exatamente o mesmo genoma que você é zero. Isso vale até para gêmeos idênticos. Apesar de serem 100% iguais no momento da concepção, os genomas dos gêmeos se diferenciam logo em seguida, fruto de pequenas mudanças e mutações aleatórias que ocorrem sempre que o DNA é copiado. E quanto mais velhos os gêmeos, mais diferentes eles são.

2 Digitais

O tamanho e formato delas são determinados, em grande parte, pelos genes. Mas a formação de impressões digitais no feto também é influenciada por fatores sutis, como a pressão das paredes uterinas e até os movimentos do fluido amniótico.

Assim, as digitais de gêmeos idênticos podem ser bastante parecidas, mas as diferenças são grandes o suficiente para serem detectadas. Na datiloscopia, essas distinções são conhecidas como “minúcias” e incluem variações como a bifurcação ligeiramente deslocada de uma linha em cada gêmeo ou uma presilha (um dos traços formados pela impressão) mais fechada. O mesmo vale para as marcas nos dedos dos pés.

Ninguém sabe para que as digitais servem. Estudos mostram que, ao contrário do que diz o senso comum, elas não tornam os dedos mais aderentes, pois reduzem a fricção em vez de aumentá-la. Independentemente de seu propósito, elas claramente não são essenciais para a sobrevivência. O único problema conhecido por pessoas com mutações que as faz nascer sem as impressões é passar pelo controle de imigração.

3 Modo de andar

Desde que nossos ancestrais ficaram de pé 1,5 milhão de anos atrás, os seres humanos sempre caminharam mais ou menos do mesmo jeito: um pé na frente do outro, gingando os quadris, encostando no chão primeiro o calcanhar e depois os dedos. O incrível é que, apesar da semelhança, todos nós andamos pelo planeta com um estilo ligeiramente diferente.

Estudos realizados desde a década de 1970 demonstram que as diferenças nos estilos é grande o suficiente para que reconheçamos as pessoas apenas pelo modo como andam no mínimo em 90% das vezes. Quando paramos de crescer, as diferenças no comprimento das nossas pernas e na largura dos quadris, combinadas com fatores ambientais como os músculos gerados pelo exercício físico, acabam gerando um estilo próprio.

É algo difícil de explicar, mas fácil de identificar, explica Mark Nixon, da Universidade de Southampton, Inglaterra. Computadores demarcam linhas traçadas pelos braços e pernas e transformam seus movimentos em número. Outra maneira de mensurar o modo de andar é fazer com que o indivíduo caminhe sobre um sensor de pressão e registrar suas passadas individuais. Sistemas desse tipo, desenvolvidos pelo grupo do pesquisador Todd Pataky na Universidade Shinshu do Japão, poderiam ser utilizados para acelerar o processo de check-in nos aeroportos.

Ainda há a ideia, em estágio inicial, de usar sensores de movimento semelhantes aos contidos em smartphones. Presos à perna, tais sensores poderiam medir a velocidade, aceleração e rotação. A técnica poderia ser usada como recurso de segurança em telefones celulares, de modo que os aparelhos não funcionariam quando fossem transportados por estranhos.

4 Batimentos cardíacos

Esqueça as músicas românticas dizendo que dois corações podem bater em uníssono. A realidade é que dois batimentos cardíacos nunca são iguais. Ninguém notaria a diferença encostando a orelha contra o peito, mas é possível diferenciá-los pelos seus impulsos elétricos.

Um eletrocardiograma registra 3 picos: a onda P, que é o impulso que contrai as câmaras superiores; o complexo QRS, que é a contração mais forte das câmaras inferiores; e a onda T, muito menor, que ocorre quando o coração relaxa.

Todo coração varia em termos de forma e tamanho, então a altura, largura e espaçamento dos picos varia entre os indivíduos. É verdade que o espaçamento entre esses marcadores muda com a aceleração dos batimentos em momentos de estresse ou durante exercícios, mas ainda assim é possível determinar uma assinatura individual.

Como os batimentos cardíacos não são controlados de forma consciente, são praticamente à prova de falsificação. Algumas empresas especializadas em biometria estão desenvolvendo aparelhos que usam essa característica para verificar identidades. A Apple também está trabalhando no uso dos nossos batimentos cardíacos como senha para proteção de informações privadas. E aonde a Apple vai, outros com certeza vão atrás.

5 Voz

A voz é a soma de muitas partes: o barulho do ar quando vibra pela laringe, o modo como interage com a boca e o nariz e a maneira como é moldada pelo palato, língua, lábios e bochechas.

Como é altamente improvável que duas pessoas tenham a mesma laringe, boca, nariz, dentes e músculos, com os mesmíssimos tamanhos e formatos, as vozes são especiais e fáceis de reconhecer.

Mas, ao contrário de outras características, temos a capacidade de alterar nossas vozes conscientemente, mexendo com o jeito que usamos os músculos do rosto e da laringe para mudar o volume, a altura e o tom. De acordo com Sophie Scott, neurocientista do University College de Londres, isso significa que a maioria das pessoas pode mudar sua voz quando quer e até quando não quer (reagindo a situações sociais sem que se dê conta).

Sophie estuda como imitadores produzem vozes tão parecidas com as de outras pessoas. O que se sabe é que os melhores profissionais têm excelentes habilidades para emular com perfeição trejeitos alheios, não apenas a voz. Por causa disso não existe uma maneira confiável de identificar uma voz apenas pela comparação das ondas de áudio ou por altura e tom. Até há sistemas que usam reconhecimento de voz, mas eles são combinados com outras senhas para se proteger de imitadores.

6 Cheiro

Os cães sempre souberam e agora a ciência comprova: não existem duas pessoas com o mesmo cheiro. Mas será que a variação é suficiente para que 7 bilhões tenham cheiros diferentes? “Com certeza”, diz George Preti, do Monell Chemical Senses Center, nos EUA. “Só a axila tem pelo menos algumas dúzias de odorantes, talvez mais, e as concentrações e quantidades relativas podem variar bastante.”

Nós não temos apenas um cheiro, é claro, mas vários. Cada pedacinho do nosso corpo possui diferentes tipos e quantidades de secreções e hospeda diferentes tipos de bactérias, que por sua vez transformam nossas secreções, geralmente inodoras, em um cheiro.

Uma análise recente de compostos orgânicos voláteis do suor de 200 voluntários austríacos demonstrou que dessa mistura de quase 5.000 ácidos, álcoois, cetonas e aldeídos, 44 deles variam o suficiente para produzir um perfil químico capaz de ser lido da mesma forma que uma digital. Preti diz que os compostos podem influenciar a maneira como identificamos uns aos outros. Não há ainda como capturar o cheiro total de um indivíduo e usar os dados para identificá-lo, mas há rumores de que o governo dos EUA está interessado numa tecnologia do tipo e Preti diz já estar trabalhando na ideia.

7 Microbioma

Essa característica especial nasce de 100 trilhões de bactérias que vivem dentro e fora do seu corpo. Há 10 bactérias para cada célula do seu corpo e, em termos genéticos, elas são ainda mais dominantes: os micróbios representam 3,3 milhões de genes, comparados com os meros 23 mil do seu corpo. “Você é apenas 0,7% humano”, brinca Jeremy Nicholson, bioquímico do Imperial College London.

Das mais de mil espécies de bactérias que costumam viver dentro e fora do corpo humano, cada um de nós hospeda apenas cerca de 150, a maioria delas dentro do intestino. O elenco dessa população microscópica é diferente em cada um dos seres humanos.

As bactérias da pele também variam de uma pessoa para a outra. Um estudo recente publicado na prestigiada revista científica Proceedings of the National Academy (PNAS) descobriu que uma impressão digital bacteriana única e exclusiva é transferida pelos nossos dedos para os objetos nos quais encostamos, como mouses e teclados, e permanece nessas superfícies por cerca de duas semanas. Mesmo os gêmeos idênticos, difíceis de diferenciar com testes de DNA, são identificados com facilidade quando analisamos os traços que são deixados por seus companheiros microscópicos.

8 Olhos

A íris de cada olho é especial o suficiente para que diversos países, como Reino Unido, Canadá e EUA aceitem uma imagem digital dela como prova de identidade. Mas a aparência das íris é hereditária. Então, como olhos que são iguais aos de toda a família podem, ao mesmo tempo, serem totalmente únicos?

A resposta está na complexidade da estrutura da íris, uma grande mistura de músculos, tendões, vasos sanguíneos e células pigmentadas que produzem cor, profundidade, sulcos, cristas e manchas. A cor e a textura geral da íris é determinada geneticamente, o que explica as semelhanças hereditárias. Mas o reconhecimento de íris usado em aeroportos ignora a cor e concentra-se nos detalhes dos sulcos, cristas e pintas. Essas características dependem da localização exata dos tendões, músculos e células pigmentadas à medida que a íris se desenvolve antes do nascimento, fatores aleatórios e não são controlados pelos genes.

9 Orelhas

Se olhar no espelho e puxar suas orelhas, vai perceber que uma é ligeiramente diferente da outra. Mais do que isso, cada uma delas é diferente das orelhas de todas as outras pessoas.

A orelha humana se desenvolve a partir de 6 calombos minúsculos que surgem na lateral da cabeça cerca de 5 semanas após a concepção e se fundem gradualmente. A genética define a forma geral, mas o ambiente dentro do útero, incluindo a posição do feto, influencia o resultado final. Depois de formadas, as orelhas praticamente não mudam de formato.

Pesquisadores desenvolvem maneiras de reconhecer indivíduos pelo formato de suas orelhas. Uma análise feita pela Notre Dame University, nos EUA, mostra que a identificação pela orelha pode ser tão precisa quanto o reconhecimento facial. Tanto que pessoas já chegaram a ser condenadas com base em “impressões auriculares” deixadas na cena do crime nos EUA e na Holanda. Mas isso ainda é controverso porque a impressão deixada pode mudar de acordo com a pressão exercida sobre a orelha. Nos EUA, pelo menos um suspeito foi libertado após tribunais rejeitarem a confiabilidade desse tipo de análise.

10 Ondas cerebrais

Os seres humanos nascem com grande quantidade de neurônios, mas nossos cérebros podam 50% deles durante a infância. O que sobra desse processo, motivado pela experiência, deixa cada um com um cérebro único que realiza as mesmas tarefas de forma ligeiramente diferente. É possível enxergar essas diferenças sutis quando medimos a atividade elétrica do órgão.

Em 2001, um estudo da Universidade de Regina, no Canadá, descobriu que as atividades cerebrais chamadas ondas alfa têm diferenças suficientes em um grupo de 40 pessoas para que identifiquemos cada uma delas. Outro estudo mostrou que a força de um tipo diferente de onda cerebral, as oscilações gama, também varia.

Será que as diferenças cerebrais explicam por que cada um de nós possui personalidades diferentes? É possível, mas ainda não sabemos se as ondas elétricas de cada indivíduo seriam reconhecíveis caso fossem mensuradas em dias diferentes ou depois de alguns anos. Sem isso, é impossível saber se os traços são únicos e especiais apenas na medição de certo instante.

Fomos ao Centro de São Paulo e perguntamos para as pessoas que passavam: o que te torna único?

O resultado foi um vídeo quase poético. Assista!





sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Por que as mulheres vivem mais?

Matéria coligida e traduzida por Natasha Romanzoti para o HypeScience:

Por que as mulheres vivem mais que os homens?

Segundo dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida do brasileiro nascido em 2010 alcançou 73,4 anos. Em comparação com dados de 1960, a perspectiva de vida aumentou 25,4 anos (era de 48 anos).

Apesar desse aumento de vida ser geral, muitas pesquisas mostram que os homens vivem menos que as mulheres. No Brasil, por exemplo, a expectativa de vida dos homens era de 69,73 anos em 2010, e das mulheres, 77,32 anos, uma diferença de sete anos, sete meses e dois dias.

Os homens têm 4,5 mais chances de morrer na juventude do que as mulheres. A sobremortalidade masculina tem seu pico aos 22 anos de idade, quando a chance de um homem morrer é 4,5 vezes maior do que a de uma mulher. Conforme ficam mais velhos, essa diferença diminui, mas, aos 70 anos, a chance de um homem morrer é mais de 1,5 maior do que a chance de uma mulher da mesma idade morrer.

Por quê? Os homens não se cuidam? Alimentam-se pior? Não vão ao médico? Têm mais comportamentos de risco que as mulheres?

Pode ser que tudo isso seja verdade, mas um novo estudo da Universidade Monash (Austrália) indica que um componente genético pode favorecer as mulheres: mutações no DNA da mitocôndria. Elas podem explicar as diferenças na expectativa de vida de machos e fêmeas.

Sim, machos e fêmeas, porque essa expectativa de vida maior é vista nas fêmeas de várias espécies, não somente nos seres humanos.

As mitocôndrias, que existem em quase todas as células animais, são vitais para a vida porque convertem o que comemos em energia que alimenta nosso corpo. As mitocôndrias têm seu próprio DNA, separado do DNA que reside no núcleo da célula (que é o que pensamos quando falamos de genoma).

Os pesquisadores analisaram diferenças de longevidade e envelhecimento biológico em moscas machos e fêmeas que carregavam mitocôndrias de diferentes origens. Ou seja, as moscas da fruta (Drosophila melanogaster) tinham, todas, o mesmo DNA celular, mas possuíam DNA mitocondrial de 13 diferentes populações de moscas da fruta ao redor do mundo.

Eles descobriram que a variação genética entre estas mitocôndrias estava relacionada à expectativa de vida no sexo masculino, mas não no feminino.

Isso significa que as inúmeras mutações no DNA mitocondrial afetam o quanto os homens vivem e a velocidade com que envelhecem, mas não afetam em nada as mulheres.

Os cientistas especulam que as mutações podem ser totalmente atribuídas à forma como os genes mitocondriais são passados de pais para filhos. Enquanto as crianças recebem cópias da maioria de seus genes de ambos os pais e as mães, elas só recebem genes mitocondriais de suas mães.

Isto significa que o “controle de qualidade” da evolução, conhecido como seleção natural, apenas filtra a qualidade de genes mitocondriais em mães. Se uma mutação mitocondrial que prejudica apenas os pais ocorre, ela passa “sem querer” pelo olhar da seleção natural. Ao longo de milhares de gerações, muitas dessas mutações que prejudicam machos se acumulam.

Ou seja, normalmente, a seleção natural ajuda a manter mutações prejudiciais ao mínimo, garantindo que não sejam transmitidas para a prole. Mas, se uma mutação do DNA mitocondrial é perigosa apenas para os machos, mas não para as fêmeas, não há nada que impeça a mãe de passá-la para seus filhos e filhas.

Isso significa que os machos estão “ferrados” para sempre? Não, como é evidenciado pelo fato de que eles não foram extintos ainda. É possível que o genoma nuclear – o DNA que herdamos de nossos dois pais – esteja compensando a deficiência mitocondrial nos homens. Em outras palavras, os homens cujos genomas podem neutralizar os efeitos desagradáveis de mutações mitocondriais podem se sair melhor e transmitir seus genes de forma mais eficaz.

O próximo passo da pesquisa é investigar os mecanismos genéticos que podem ajudar os homens a anular os efeitos dessas mutações prejudiciais e se manterem saudáveis.



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