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sábado, 30 de dezembro de 2017

É muito provável que a sua percepção de mundo esteja equivocada. Saiba por quê.


Talvez você ache que 2016 foi melhor que 2017, e que não tem jeito de 2018 não ser pior.

Melhor rever esta percepção, de acordo com matéria que foi publicada na BBC Brasil:

Por que achamos que o mundo está pior do que realmente é

No Brasil, a taxa de homicídios hoje é bem mais alta do que no ano 2000, quase metade das meninas e mulheres de 15 a 19 anos engravidaram e quase metade dos adultos sofrem de diabetes.

Essas afirmações acima não correspondem à realidade do país, mas refletem o que pensa a maioria dos brasileiros, segundo a uma pesquisa recém-divulgada pela Ipsos-Mori chamada Perigos da Percepção.

A partir de quase 30 mil entrevistas conduzidas entre setembro e outubro passado em 38 países, a enquete testou a percepção das pessoas sobre 14 temas que causam precupação ou são de grande importância na mídia. Em resumo, a ideia era saber se o que as pessoas achavam sobre esses assuntos estava perto da realidade - "realidade" essa baseada em informações retiradas "de uma variedade de fontes verificadas", segundo a Ipsos-Mori.

A conclusão da pesquisa é de que pessoas no mundo inteiro estão bem equivocadas sobre questões-chave e características da população de seus próprios países.

E no ranking dos países cujas populações mais "erraram" - onde a média percentual obtida pelas respostas esteve mais distante do número "real" - o Brasil aparece em segundo lugar, atrás apenas da África do Sul.

Percepção x Realidade

Mas por que existe essa lacuna entre percepção e realidade? Por que muitos enxergam as coisas piores do que são?

"Nós sabemos de estudos anteriores que isso ocorre, em parte, porque superestimamos o que nos causa preocupação", diz Bobby Duffy, diretor gerente da Ipsos Public Affairs, em texto para apresentar os resultados da pesquisa.

Os pesquisadores afirmam que somos geneticamente programados para acreditar mais nas más do que nas boas notícias.

O estudo mostra, por exemplo, que a taxa de homicídios caiu na maioria dos países analisados, nos últimos 15 anos, mas que a maior parte das pessoas acredita que o quadro piorou.

No Brasil, 76% têm essa percepção, embora o índice tenha permanecido estável em relação ao ano 2000, usado como base de comparação.

A porcentagem de mulheres entre 15 e 19 anos que têm filhos também é superestimada. No Brasil, a média estimada pelos entrevistados foi de 47% - quase a metade das mulheres adolescentes do país. Mas o dado registrado no Brasil corresponde a apenas 6,7%. v O índice de mortes por ataques terroristas ao redor do mundo, que nos últimos anos diminuiu em relação aos 15 anos anteriores, também é percebido de forma equivocada. Apenas um quinto das pessoas entre todas as entrevistadas nos 38 países acredita que houve queda.

Reação é mais forte a imagens negativas

Nossos cérebros, segundo os pesquisadores, processam informações negativas de um jeito diferente e as armazenam de forma a estarem mais acessíveis que as positivas.

Um neurocientista comprovou isso mostrando a pessoas imagens de coisas conhecidas, como pizzas e Ferraris, para estimular sensações positivas, e outras, como um rosto mutilado e um gato morto, por exemplo, para despertar outro tipo de reação.

A partir desse experimento, ele mediu a atividade elétrica no cérebro e constatou que respondemos mais fortemente a imagens negativas.

Temer para sobreviver

A mídia, geralmente, leva a culpa por mergulhar as pessoas em um mar de desânimo e pessimismo.

Eles questionam: se somos alimentados com uma dieta tão implacavelmente negativa, é de admirar que acabemos pensando que o mundo é um lugar terrível?

Na prática, essa hipersensibilidade que temos a informações negativas - ou a más notícias - aparentemente desempenha uma função importante na evolução.

Um cérebro mais sensível a más notícias reage mais intensamente a informações sobre possíveis perigos - o que acaba pesando no instinto de sobrevivência.



domingo, 11 de junho de 2017

Como a pobreza afeta o cérebro


A BBC Brasil responde essa questão:

Quatro maneiras como a pobreza pode afetar o cérebro

O nosso cérebro pode ser afetado pela pobreza?

Crianças que vivem em condições menos favorecidas apresentam, em geral, pior desempenho na escola.

A explicação pode estar na má alimentação, em situações de estresse no ambiente familiar ou na falta de atenção que recebem dos pais, entre outros fatores.

Um número cada vez maior de cientistas sugere, no entanto, que pode haver algo mais. Será que a pobreza pode mudar a nossa forma de pensar?

A BBC discutiu o tema a partir de quatro perspectivas com diferentes especialistas.

1. Sobrecarga mental

"Peça a um grupo de pessoas que memorize uma série de sete dígitos. Conseguem se lembrar da sequência 7, 4, 2, 6, 2, 4, 9?", propõe Eldar Shafir, professor de ciência comportamental e políticas públicas da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos.

"Enquanto você guarda os números em sua memória de curto prazo, tentando não esquecer, sua mente está literalmente cheia. Você tem menos espaço cognitivo para outras coisas", explica.

Grande parte do trabalho desenvolvido por Shafir sugere que viver em situação de pobreza, tendo que fazer malabarismo com os poucos recursos que se tem e constantemente preocupado em como pagar as contas no fim do mês, tem efeito semelhante a guardar sete dígitos na cabeça o tempo todo.

"Isso faz com que você se esqueça de outras coisas, você fica com uma atenção limitada", explica.

Para provar a ligação direta entre a pobreza e o funcionamento do cérebro, o professor realizou vários experimentos.

Em um deles, disse tanto a pessoas menos favorecidas quanto em boa situação de vida o que teriam que fazer para consertar o carro.

A alguns informou que o reparo custaria US$ 150 e a outros que ultrapassaria US$ 1.500, independentemente do status social.

Em seguida, os submeteu a uma série de testes cognitivos.

Ao analisar os resultados, Shafir observou que os ricos tiveram desempenho semelhante, independentemente do valor que tiveram que pagar.

Já os mais pobres tiveram melhor desempenho quando a conta era menor.

A diferença chegou a ser de 12 ou 13 pontos de quociente de inteligência (QI).

"É um número muito significativo, que pode fazer a diferença entre estar dentro da média ou ser superdotado, por exemplo".

O experimento de Shafir sugere que a inteligência pode ser afetada a curto prazo pela pobreza.

Mas podemos dizer que a pobreza provoca alterações cerebrais a longo prazo?

2. Mal funcionamento geral

"Adoro interagir com pessoas mais velhas", diz à BBC Adina Zeki al Hazzuri, professora da Universidade de Miami que investiga o impacto da sociedade sobre a nossa saúde.

Hazzuri pesquisa o envelhecimento cerebral. Ela acaba de concluir um estudo de acompanhamento de 3.500 adultos que tinham entre 18 e 30 anos em 1985.

Por duas décadas, os participantes da pesquisa informaram suas rendas.

"Queríamos medir a influência de um rendimento baixo no funcionamento do cérebro a longo prazo", explica.

As pessoas foram submetidas a três testes confiáveis ​​para detectar envelhecimento cognitivo.

"Constatamos que pessoas que viveram em situação de pobreza o tempo todo durante esses 20 anos tiveram resultados muito piores do que aquelas que nunca passaram por essa experiência", diz.

Hazzuri admite que é difícil estabelecer o que acontece primeiro: se o cérebro não funciona bem e, em seguida, fica-se mais pobre ou o inverso.

Para tirar essa dúvida, os pesquisadores fizeram outra análise tomando como base uma amostra só de pessoas com alto nível educacional e que estavam saudáveis ​​no início do estudo.

"A associação entre a pobreza e a função cognitiva se manteve", explica a professora. "Eu diria que a pobreza muda, sem dúvida, a forma como pensamos."

3. Freio ao desenvolvimento

E o cérebro das crianças?

"Corta o coração ver o impacto que a pobreza tem em uma criança", lamenta Katie McLaughlin, professora de psicologia na Universidade de Washington.

McLaugvhlin é especialista no estudo de crianças em seus primeiros anos de vida, quando o cérebro apresenta um desenvolvimento maior.

Ela concentrou parte de seu trabalho em orfanatos na Romênia, onde a situação das crianças era devastadora.

"Se pudermos entender como essa forma extrema de pobreza afeta o desenvolvimento do cérebro, talvez possamos aprender algo sobre o que acontece no cérebro de crianças que crescem na pobreza", diz.

Em sua pesquisa, McLaughlin observou como os cérebros de crianças que vivem em condições de vida precária são debilitados, especialmente em áreas que processam a linguagem complexa.

"Os circuitos neurais e as conexões projetadas para processar a informação, se não forem utilizados, desaparecem", explica. "Se isso acontecer de forma contínua e em larga escala, contribui para um estreitamento do córtex".

McLaughlin acrescenta que o enfraquecimento da massa cinzenta externa do cérebro de crianças de orfanatos da Romênia também foi observado em crianças de áreas pobres dos Estados Unidos.

A pesquisadora acredita que os cérebros das crianças romenas foram prejudicados por não receberem estímulos suficientes - talvez não se tenha conversado ou brincado com elas o bastante.

E, de certa forma, ela afirma que o mesmo deve ter acontecido com os jovens americanos em bolsões de pobreza.

A especialista reconhece, no entanto, que não há como garantir com certeza que haja uma relação de causa-efeito entre a pobreza e a deterioração do cérebro.

4. Existe uma evidência clara?

"Acho que há cada vez mais evidências para estabelecer a relação entre pobreza e mudanças cerebrais, mas é um campo de estudo relativamente recente ", diz Charles Nelson, professor de pediatria e neurociência da Universidade de Harvard.

Mas alguém já demonstrou que a pobreza causa mudanças no cérebro das pessoas, ou simplesmente se associa a pobreza a essas mudanças?

"O simples fato de não ganhar uma certa quantia de dinheiro não causa nada", diz Nelson. "É o que está relacionado à ausência de uma certa quantidade de dinheiro que parece causar (danos). Por exemplo, a falta de comida ou o fato de não ter acesso a um bom sistema de saúde ou o estresse elevado na família que pode levar à falta de cuidados".

Não há dúvida de que está crescendo o interesse da ciência em decifrar a relação entre a pobreza e o cérebro, mas já sabíamos que a pobreza é ruim para a nossa saúde. Qual seria então a novidade?

"As ferramentas (de pesquisa) estão mais sofisticadas e nos permitem avaliar o cérebro, algo que não se podia fazer há 10 anos", diz Nelson.

E mesmo que as conclusões sejam parecidas ao que notávamos empiricamente, o estudo é válido para chamar a atenção ao tema.

"A bonitas imagens do cérebro parecem ter mais impacto do que imagens de crianças famintas. Acho que as pessoas estão vendo que há um preço biológico a ser pago por crescer na pobreza", conclui Nelson.

Para finalizar, você lembra da sequência de sete dígitos?



domingo, 25 de setembro de 2016

A estranha associação de boa memória com colesterol alto no seu cérebro


Matéria intrigante publicada no El País:

Colesterol, a arma secreta do cérebro para preservar a memória

Cientistas espanhóis comprovam em ratos que essa molécula poderia prevenir os sintomas da demência e o Alzheimer

NUÑO DOMÍNGUEZ

Uma de cada três pessoas sofrerá de demência ao longo de sua vida. A perda progressiva da memória é uma das consequências mais frequentes do envelhecimento e se deve a uma longa relação de alterações que ocorrem no encéfalo e que se acumulam com o passar do tempo. Entre elas está a morte de neurônios causada pelo Alzheimer, a variante mais comum de demência, a mais difícil de combater e uma das maiores ameaças enfrentadas pela nossa civilização.

Um novo estudo de pesquisa básica acaba de descobrir uma outra possível causa para a perda da memória e aponta um aliado que poderia ser capaz de resgatá-la: o colesterol.

O excesso de colesterol ruim (LDL) no sangue faz aumentar o risco de infarto e outras doenças cardiovasculares fatais. Mas o cérebro produz o seu próprio colesterol, e, dentro desse órgão, ele é essencial para manter os neurônios vivos e saudáveis.

Cada vez que uma recordação é formada, os neurônios acionam determinados genes para fixá-la. Para isso, precisam ter colesterol o suficiente na parte exterior de sua membrana. Como um óleo que lubrifica uma máquina, o colesterol funciona como um transmissor dos sinais externos necessários para ativar os genes. A presença dessa molécula no encéfalo tende a diminuir com a idade, e as pessoas idosas, sejam saudáveis ou atingidas pelo Alzheimer, costumam apresentar taxas de colesterol cerebral inferiores ao normal.

Nesse novo estudo, publicado em Cell Reports, a equipe de Carlos Dottino, pesquisador do Centro de Biologia Molecular Severo Ochoa, de Madri, demonstra o papel fundamental desempenhado por essa molécula para a manutenção da memória em bom estado. Os ratos mais velhos possuem taxas de colesterol baixas demais no hipocampo, uma área do cérebro relacionada à memória. Os cientistas demonstram que, quando se aplica uma substância que impede a perda de colesterol no encéfalo, a memória dos roedores mais velhos melhora significativamente. Isso poderia abrir um novo caminho para a melhora da memória em pessoas idosas.

“Acreditamos que essa descoberta pode avançar para a clínica”, explica Dotti ao EL PAÍS. “Normalmente, seriam necessários muitos estudos” sobre a substância utilizada no trabalho, mas, neste caso, “muitas delas já estão disponíveis, pois a droga em questão já foi aprovada, e se trata do voriconazol”. Esse medicamento, que leva o nome comercial de Vfend e é produzido pela Pfizer, é usado para combater infecções por fungos em pessoas com o sistema imunológico muito fragilizado, como as que acabam de receber um transplante ou que contraíram aids.

Por acaso, a equipe acabou por descobrir que essa substância também inibe uma enzima responsável pela eliminação do colesterol dentro do cérebro e cuja atividade é acelerada com o passar dos anos. Nos animais estudados, o medicamento inibe esse efeito negativo da idade e permite que todo o colesterol necessário seja preservado, e, com ele, a memória. O próximo passo, comenta Dotti, “seria testar o medicamento em animais mais parecidos com os humanos, cães ou macacos”, e comprovar se também nesses casos a capacidade cognitiva é resgatada.

O risco das estatinas

“Trata-se de um estudo em ratos. Por isso, é preciso vê-lo com cautela. Mas, de todo modo, é uma demonstração de que o colesterol não é o inimigo público número um”, avalia Félix Viñuela, coordenador do Grupo de Estudos de Neuropsicologia da Sociedade Espanhola de Neurologia. O pesquisador destaca a importância dos estudos de ciência básica com ratos, como neste caso. A grande maioria acaba não sendo reproduzível em humanos, admite ele, mas alguns são, como ficou evidenciado recentemente com um anticorpo que poderia combater o Alzheimer em pacientes e que começou a ser testado em ratos há vários anos.

Outro aspecto importante do estudo está relacionado a um tipo de medicamento que é consumido diariamente por milhões de pessoas na Espanha. Hoje em dia, os medicamentos mais utilizados para diminuir o chamado colesterol ruim são as estatinas. Esses compostos são eficazes, mas poderiam ser responsáveis também por efeitos colaterais não previsto inicialmente. Recentemente, a agência de medicamentos dos EUA alertou para o fato de que certos pacientes que ingerem estatinas podem sofrer perda de memória e uma deterioração cognitiva por razões desconhecidas.

“Existem estatinas que são capazes de passar da corrente sanguínea para o cérebro”, explica Dotti, destacando que é possível que essas drogas estejam diminuindo os níveis de colesterol normais no encéfalo e danificando, assim, a memória dos pacientes.

Viñuelas, que não participou diretamente do estudo, mas que irá coordenar um teste com o anticorpo experimental contra o Alzheimer no Hospital Universitário Virgem de Macarena, em Sevilha, concorda: “As estatinas salvaram vidas controlando o colesterol patológico, mas também podem ter um lado negativo”. “Talvez devêssemos nos colocar a possibilidade do uso de estatinas que não sejam capazes de cruzar a barreira de proteção hemato-encefálica”, sugere.



quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Como se formam, são arquivadas e acessadas as nossas memórias?

Artigo interessante publicado no Estadão de 27/08/16:

Como são datadas nossas memórias

'Cada lembrança está associada a um conjunto de neurônios responsável por sua manutenção'

Fernando Reinach*

Passei vergonha no dia em que soube do assassinato de John Lennon. Ainda iniciando meu doutoramento, dividia o apartamento com Benjamin, um judeu ortodoxo. Era de manhã. Estava no banho quando Benjamin descobriu que na noite anterior eu havia fritado bacon na sua frigideira. Sem graça, abatido pela bronca, caminhei até o laboratório. Lá descobri que enquanto eu fritava bacon Lennon havia sido assassinado. Depois disso, essas duas memórias estão intimamente associadas no meu cérebro. A novidade é que agora os cientistas descobriram a razão.

Faz alguns anos, sabemos que a formação de uma memória ocorre quando um conjunto de neurônios aumenta sua atividade, reforçando a relação entre eles. Se essa atividade for bloqueada, a memória não se forma. Assim, cada memória está associada a um conjunto de neurônios responsável por sua manutenção. O conjunto de neurônios associado a uma memória é chamado de engram. Cada vez que nos lembramos de uma memória é porque seu engram está ativo.

Quando você ensina um camundongo a ter medo de um som, submetendo o bichinho a um choque elétrico cada vez que ouve o som, é possível demonstrar que um grupo específico de neurônios (o engram dessa memória) é ativado. E as relações entre esses neurônios permanecem fortes enquanto a memória persistir. Se você apagar essa memória, tocando o som sem aplicar o choque, a relação entre esses neurônios fica fraca e o engram desaparece.

Nesse novo experimento os cientistas estudaram a relação entre os engrams de duas memórias formadas sequencialmente. Primeiro, o camundongo ouvia um som (somA) e tomava um choque. Depois ouvia outro som (somB) e também tomava choque. Desse modo, eles ficavam com medo dos dois tipos de som (coitados). Os camundongos estavam divididos em quatro grupos, e a diferença entre os grupos era o tempo que separava o somA/choque do somB/choque durante o treino. Em um grupo o tempo que separava o primeiro do segundo estímulo era 1,5 hora; em outro, 6 horas; e nos outros dois grupos, 18 e 24 horas.

A primeira coisa que os cientistas descobriram é que nos camundongos treinados com intervalos curtos entre os sons A e B (1,5 e 6 horas), quando os cientistas “apagavam” o medo do primeiro som (sem dar o choque), o medo do segundo som também desaparecia. Em outras palavras, se me fizerem esquecer do bacon frito, vou esquecer da morte de Lennon. Mas nos camundongos em que as duas memórias haviam se formado com um intervalo de tempo longo (18 ou 24 horas), quando uma memória era apagada a outra permanecia intacta. Ou seja, se eu tivesse levado a bronca do bacon frito na semana anterior ao assassinato de Lennon, a memória da bronca não estaria associada à morte de Lennon. Esse resultado demonstra que o tempo entre a formação das memórias determina se existe ligação entre elas.

Em seguida, os cientistas estudaram os neurônios ativados por cada uma das duas memórias nos diversos grupos de camundongos (seus engrams). Para isso, eles precisam provocar o medo (som mais choque) e em seguida sacrificar o camundongo e identificar os neurônios que haviam sido ativados. O conjunto de neurônios ativados em cada caso é o engram daquela memória.

Os cientistas descobriram que nos casos em que as memórias haviam se formado com um espaçamento temporal longo (18 e 24 horas) os engrams das duas memórias (medo do som A e medo do som B) eram completamente independentes. Ou seja, os dois engrams não compartilhavam neurônios. Mas no caso dos camundongos em que as memórias haviam sido formadas uma logo após a outra (1,5 e 6 horas) havia uma sobreposição de células entre os dois engrams. Apesar de os engrams serem diferentes, existia um grupo de células que pertencia aos dois engrams.

Essa sobreposição dos engrams explica por que duas memórias ficam associadas em nosso cérebro quando são formadas uma logo depois da outra. Também explica por que a remoção de uma memória leva à perda da outra formada logo em seguida. Como seus engrams têm neurônios em comum, a perda de uma enfraquece a outra.

Esse experimento sugere como o tempo entre memórias é registrado no cérebro. Os engrams de uma memória se sobrepõem ao engram da memória anterior e ao engram da posterior, causando uma cadeia sequencial de engrams que registra o passar do tempo na memória.

Com o envelhecimento, e a perda gradual de neurônios, é de se esperar que a ligação temporal entre as memórias fique mais frágil e é isso que observamos em nossos cérebros ao longo dos anos. Vai chegar um dia em que comer bacon não me fará lembrar da morte de John Lennon. Aí meu colesterol vai subir.

MAIS INFORMAÇÕES: COMPETITION BETWEEN ENGRAMS INFLUENCE FEAR MEMORY FORMATION AND RECALL. SCIENCE VOL. 353 PAG. 383 2016 

* FERNANDO REINACH É BIÓLOGO



sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Para compreender a dislexia


Trecho do filme indiano "Como as Estrelas na Terra", que mostra as dificuldades que uma criança com dislexia tem que enfrentar:




quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Ciência investiga o que faz uma pessoa ser carismática

Matéria publicada no HuffPost Brasil:

Cientistas parecem ter descoberto o verdadeiro segredo do carisma

Eliza Sankar-Gorton


Se você consegue pensar rápido, um novo estudo sugere que você é sortudo.

Os cientistas parecem ter descoberto como o carisma – aquela característica indefinível daqueles que cativam as pessoas – funciona.

O carisma pode depender de um pensamento rápido, de acordo com uma nova pesquisa. Em outras palavras, as pessoas que conseguem responder com rapidez a questões de conhecimento geral ou ser ágeis ao realizar tarefas tendem a serem vistas como mais carismáticas pelos seus amigos.

"Nós esperávamos que a rapidez fosse um fator que pudesse prever o carisma, pois a velocidade parecia ser um elemento fundamental na capacidade que algumas pessoas têm de serem interessantes – e até mesmo um pouco imprevisível – nas interações sociais", disse o Dr. Bill von Hippel, pesquisador líder e professor de psicologia da Universidade de Queensland na Austrália, ao Huffington Post por email.

"Mas nós nos surpreendemos ao descobrir que a velocidade era mais importante do que o QI em prever carisma".

Os pesquisadores recrutaram grupos de amigos, no total 417 pessoas, para os testes de respostas rápidas que pretendiam medir a velocidade mental. Daí cada pessoa reportou o quão carismático eram seus amigos do grupo e logo cada um deles fez um teste de QI.

Depois de comparar o QI e a velocidade mental deles, os pesquisadores descobriram que a velocidade mental poderia prever o carisma com precisão enquanto que o QI não. Os pesquisadores então concluíram que a velocidade mental pode permitir que um indivíduo oculte reações inapropriadas e mostram senso de humor na hora, fazendo com que a pessoa pareça carismática.

"A inteligência social é mais do que saber dizer a coisa certa", disse Hippel. "É também a capacidade de dizer isso no momento certo".

A pesquisa foi publicada na Revista Psychological Science, em 30 de novembro.



quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Como a religiosidade influi nos tratamentos de saúde


Matéria publicada na Folha de S. Paulo:

Religião é benéfica para tratamento psiquiátrico, diz associação

CLÁUDIA COLLUCCI

"É mole? Vou ao médico tratar da depressão e ele me manda rezar!". A recomendação que gerou surpresa na médica e professora universitária Maria Inês Gomes, 67, agora tem aval da Associação Mundial de Psiquiatria.

No mês passado, a entidade aprovou documento declarando a importância de se incluir a espiritualidade no ensino, pesquisa e prática clínica da psiquiatria. A SBP (Sociedade Brasileira de Psiquiatria) ainda não se posicionou sobre o assunto.

A proposta, obviamente, não é "receitar" uma crença religiosa ao paciente, mas conversar sobre o assunto. O indexador de estudos científicos PubMed, do governo americano, lista mais de mil estudos sobre o tema.

Os recursos espirituais avaliados nesses trabalhos variam bastante, desde acreditar em Deus ou um poder superior, freqüentar alguma instituição religiosa ou mesmo participar de programas de meditação e de perdão espiritual, mas a grande maioria conclui que há correlação entre espiritualidade e bem-­estar.

O maior impacto positivo do envolvimento religioso na saúde mental é entre pessoas sob estresse ou em situações de fragilidade, como idosos, pessoas com deficiências e doenças clínicas.

Não se trata, claro, da prova científica da ação de Deus –uma hipótese dos pesquisadores é que religiosidade sirva, por exemplo, para reforçar laços sociais, reduzindo a incidência de solidão e depressão e amenizando o estresse causado por doenças ou perdas.

Três meta­-análises (revisões científicas) já realizadas sobre o tema indicam que, após controle de variáveis como estado de saúde da pessoa, a frequência a serviços religiosos esteve associada a um aumento médio 37% na probabilidade de sobrevida em doenças como o câncer. O desafio é entender exatamente como isso acontece.

Uma das explicações propostas é a ativação do chamado eixo "psiconeuroimunoendócrino", em que uma emoção positiva seria capaz de alterar a produção de hormônios que, por exemplo, reduziriam a pressão arterial.

"O impacto da religião e espiritualidade sobre a mortalidade tem se mostrado maior que a maioria das intervenções, como o tratamento medicamentoso da hipertensão arterial ou o uso de estatinas", afirma Alexander Moreira-Almeida, professor de psiquiatria da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Um outro estudo recente publicado na revista "Cancer", da Sociedade Americana de Câncer, revisou dados obtidos com mais de 44 mil pacientes e concluiu que são os aspectos emotivos da espiritualidade e da religiosidade aqueles que mais trazem benefícios para a saúde física e mental de pacientes com a doença. O mesmo não acontece quando o paciente se dedica a meramente estudar ou pesquisar sobre a religião.

EFEITO NEGATIVO

Ao mesmo tempo, segundo Almeida, as crenças religiosas também podem atuar de modo negativo, quando enfatizam a culpa e a aceitação acrítica de ideias ou transferem responsabilidades.

"Piores desfechos em saúde são observados quando há uma ênfase na culpa, punição, intolerância, abandono de tratamentos médicos. A existência de conflitos religiosos internos ao indivíduo ou em relação à sua comunidade religiosa também está associada a piores indicadores de saúde."

Por essa razão, é importante que os profissionais tenham em conta a dupla natureza da religião e espiritualidade, segundo Kenneth Pargament, professor de psicologia clínica na Bowling Green State University (Ohio).

"Elas [religião e espiritualidade] podem ser recursos vitais para a saúde e bem­estar, mas eles também podem ser fontes de perigo", diz ele, que esteve no Brasil neste mês falando sobre o assunto no início do mês no Congresso Brasileiro de Psiquiatria.

Ele lembra que, por muitos anos, psicólogos e psiquiatras evitaram a religião e a espiritualidade na prática clínica. Entre as razões, estaria a antipatia pela religião que sempre houve entre os ícones da psicologia, como Sigmund Freud.

Para Pargament, é importante a compreensão de que a religião e a espiritualidade são entrelaçadas no comportamento humano e que os profissionais precisam estar preparados para avaliar e abordar questões que surjam no tratamento.

"Para muitas pessoas, a religião e a espiritualidade são recursos-­chave que podem facilitar o seu crescimento. Para outros, são fontes de problemas que precisam ser abordadas durante o tratamento. Isso precisa ser compreendidopelos profissionais de saúde."

Entre as técnicas que estão sendo estudadas para essa abordagem estão programas, por exemplo, para ajudar pessoas divorciadas a lidar com amargura e raiva, ou vítimas de abuso sexual e mulheres com distúrbios alimentares. ­

ESTUDOS SOBRE FÉ, ESPIRITUALIDADE E SAÚDE

Religião, espiritualidade e saúde física em pacientes com câncer
- Publicação: 2015, no periódico "Cancer"
- Resumo: A meta­-análise congregou resultados obtidos com mais de 32 mil pacientes para concluir que a saúde física dos pacientes com câncer melhora com a experiência de religiosidade ou de espiritualidade. Isso ocorre mais pela relação emotiva do que por aquela mais racional com a religião/espiritualidade.

Caminhos distintos entre Religiosidade, Espiritualidade e Saúde
- Publicação: 2014, no periódico "Circulation"
- Resumo: Os autores do estudo propõem separar os efeitos na saúde física que poderiam ser atribuídos à religião e os que poderiam ser atribuídos à espiritualidade. A proposta é que a religião poderia fomentar hábitos saudáveis, enquanto a espiritualidade traria melhor equilíbrio emocional

Doenças mentais, religião e espiritualidade
- Publicação: 2013, no periódico "Journal of Religion and Health"
- Resumo: A meta­-análise analisou 43 estudos do período entre 1990 e 2010 e viu que 72% deles mostram resultados positivos entre a dimensão espiritual/religiosa e a saúde física, especialmente para demência, depressão e dependência química. A Esquizofrenia e o transtorno bipolar não são afetados



terça-feira, 24 de novembro de 2015

Bilíngues se recuperam melhor de um AVC


É o que diz matéria da BBC Brasil:

Falar mais de uma língua pode evitar sequelas de AVC, sugere estudo

Falar mais de uma língua não traz apenas benefícios culturais. Segundo um estudo recente feito na Universidade de Edimburgo, na Escócia, ser bilíngue pode ajudar pacientes a se recuperarem melhor de um AVC (acidente vascular cerebral).

A pesquisa foi feita com 600 pessoas que foram vítimas de AVC – o resultado mostrou que 40,5% das que falavam mais de uma língua ficaram sem sequelas mentais; entre as que falavam apenas uma língua, só 19,6% ficaram sem sequelas.

Os pesquisadores acreditam que o estudo, que foi financiado pelo Conselho Indiano de Pesquisa Médica, sugere que o desafio mental de falar vários idiomas pode aumentar nossa reserva cognitiva – habilidade que o cérebro tem para lidar com influências prejudiciais, como AVC ou demência.

O estudo – divulgado na publicação científica American Heart Association - também levou em consideração idade dos pacientes, se eles eram fumantes ou não, se tinham pressão alta e se eram diabéticos.

Resultados

De acordo com os resultados da pesquisa, a habilidade bilíngue teria um papel "protetor" no desenvolvimento de qualquer disfunção cognitiva após um AVC.

É a primeira vez que se faz um estudo estabelecendo uma relação entre o número de línguas que um paciente fala e as consequências de um AVC para as funções cognitivas.

"A porcentagem de pacientes com funções cognitivas intactas depois de um AVC representava mais que o dobro em pessoas bilíngues em comparação com aquelas que só falam uma língua", diz a pesquisa.

"Em contraste, pacientes com disfunções cognitivas eram muito mais comuns entre os que só falavam uma língua."

Aprender outras línguas é algo que exige uma "ginástica" do cérebro, e vários estudos científicos já mostraram que falar muitos idiomas pode melhorar a atenção e a memória, formando uma "reserva cognitiva" que atrasa o desenvolvimento da demência, por exemplo.

"O bilinguismo faz com que as pessoas mudem de uma língua para outra, então quando eles inativam uma língua, eles precisam ativar a outra para poderem se comunicar", explicou Thomas Bak, um dos autores do estudo na Universidade de Edimburgo.

"Essa troca oferece um treinamento cerebral praticamente constante , o que pode ser um fator relevante para ajudar na recuperação de um paciente que teve um AVC", finalizou.



domingo, 20 de setembro de 2015

Desacelere a sua mente, elimine o excesso de informação e viva melhor!


É o que aconselha o neurocientista Daniel Levitin em entrevista concedida a Lúcia Guimarães e publicada no Estadão:

Contemplar o capim

Em livro, neurocientista desmonta o mito das multitarefas e mostra que descansar a mente libera espaço para as grandes ideias

Folgo e convido minha alma,
deito-me e folgo à vontade vendo
uma lança de capim no estio.
(CANÇÃO DE MIM MESMO, POEMA DE FOLHAS DE RELVA, DE WALT WHITMAN)

Quem tem tempo de se espalhar na grama e admirar a lança de capim em vez de conferir a tela do smartphone? Em 1855, o poeta Walt Whitman não sabia nem precisava saber o que era ser multitarefas, mas já ensinava, em seu poema clássico, que a mente precisa vadiar. Vivemos uma era de aceleração de fontes de informação como nenhuma outra na história da humanidade. Mas o nosso cérebro tem a mesma capacidade fisiológica de enfrentar esse ataque de dados que tinha o cérebro do poeta. Em um livro best-seller escrito para você e para mim, não para cientistas, o celebrado autor Daniel Levitin oferece recursos para impedir que o leitor seja soterrado pela avalanche diária de informação. A Mente Organizada combina a apresentação das descobertas recentes em estudos sobre o cérebro e sugere rotinas para assumir o controle do ecossistema de informação, e não ser controlado por ele. Levitin é um neurocientista, especialista em psicologia cognitiva e músico, autor de outro best-seller, A Música no Seu Cérebro.

Ele dirige um laboratório de percepção musical na McGill University, em Montreal, e é cofundador e diretor do programa de Ciências Sociais do Projeto Minerva, universidade fundada em 2012 em San Francisco. O Minerva é um programa de graduação com 120 alunos que visa a reformar a educação superior do século 21 para enfrentar as rápidas mudanças em vários campos de conhecimento. “Não achamos honesto cobrar altas anuidades de estudantes que, ao se formar em certos campos profissionais, não podem mais usar o que aprenderam porque seu conhecimento já está superado”, diz Levitin, em entrevista exclusiva ao Aliás. “Temos foco em pensamento crítico, solução de problemas e 25% do currículo é concentrado em promover a comunicação efetiva.” Engraçado: na era dos nerds esquisitões da tecnologia, uma escola de vanguarda privilegia o diálogo.

Em A Mente Organizada, Levitin observa o que têm em comum as pessoas bem-sucedidas e produtivas. Sugere estratégias de organizar a memória – esvaziá-la com exercício e instrumentos que chama de extensões do cérebro, como calendários eletrônicos, smartphones e cadernos de anotação. Curiosamente, ele notou, entre seus mais ocupados interlocutores, um apego físico a objetos analógicos, pequenos cadernos de anotação, fichas, canetas e lápis. E especula sobre as vantagens de manter esse hábito.

O cérebro precisa de resets neurais. São esses resets que nos tiram de situações como a de um carro atolado na lama. É frequente, depois de uma pausa de repouso, encontrar a solução para um problema que parecia fora de alcance. A neurociência, conta Levitin, comprova que contemplar a natureza oferece um poderoso reset – até mesmo olhar imagens da natureza.

A eficiência em organizar a informação nos torna mais do que produtivos. É um instrumento de libertação para o ócio, para os momentos em que podemos contemplar a grama e ter grandes ideias. Como ter inspiração para escrever o maior clássico da poesia norte-americana.

Por que falamos em sobrecarga de informações?

Para os cientistas, a sobrecarga é a diferença entre a quantidade de informação com que somos bombardeados e a capacidade do nosso cérebro de lidar com ela.

O que é a obsolescência evolucionária, que o senhor aponta como parte do obstáculo para lidar com o excesso de informação?

Todos os organismos vivos estão constantemente se adaptando ao meio ambiente. A seleção natural exerce influência sobre essa adaptação. Por exemplo, nós nos adaptamos à erosão da camada de ozônio e pessoas que adquirirem maior resistência aos raios ultravioleta transmitirão aos descendentes o gene de sobrevivência a eles. Mas é um longo e lento processo. Nosso cérebro evoluiu para lidar com um ambiente que existia há 10, 20 mil anos. O genoma humano precisa de tempo para se adaptar. Para você ter uma ideia, em 30 anos quintuplicou a quantidade de informação que recebemos a cada dia. Pense nisso como o equivalente a ler 175 jornais de ponta a ponta diariamente. Outro número extraordinário: em 1976, nos Estados Unidos, havia cerca de 9 mil produtos únicos à venda num supermercado. Hoje, há cerca de 40 mil. O consumidor americano, que compra uma média de 150 produtos, tem que navegar entre uma quantidade muito maior de escolhas.

Embora a evolução do cérebro esteja “atrasada”, há duas gerações essa obsolescência era muito menos sentida, certo?

Vamos considerar um aprendizado que foi necessário para nossos avós. Eles tiveram que aprender a usar o telefone uma ou duas vezes – tiveram que fazer chamadas com ajuda de telefonistas e depois aprenderam a discar. Hoje, os smartphones não param de mudar. Você troca de modelo e tem que aprender inúmeras funções, que daqui a poucos anos serão trocadas.

Há um site chamado “Deixe eu googlar isto pra você” inspirado na exasperação que muitos sentem quando alguém faz uma pergunta que pode ser respondida online. Qual a importância de ter tanta informação disponível em poucos segundos?

Quando eu cursava a Universidade Stanford, na Califórnia, gostava de estudar dentro da enorme biblioteca principal. Havia ali respostas para tudo o que eu queria saber. Mesmo se eu me distraísse e quisesse conferir algo que não tinha ligação direta com o trabalho em questão, era preciso levantar, localizar um livro ou publicação num sistema de classificação. Hoje, a nossa atenção é desviada o tempo todo para novas fontes e isso afeta a possibilidade de recuperar o foco inicial. Há enorme variação na nossa capacidade de virar a chave da atenção. Mulheres e jovens tendem a ser mais rápidos do que homens e idosos. Mas varia muito. Se me distraio de algo, demoro uns cinco minutos para retomar a concentração.

A palavra multitarefas, executar várias tarefas ao mesmo tempo, é indissociável da rotina do século 21. Mas o senhor diz que multitarefas não passam de ficção.

Não existem multitarefas, é um mito. O cérebro simplesmente não comporta isso. A pessoa pensa que está lidando com várias coisas ao mesmo tempo quando, de fato, o cérebro está experimentando rápidas mudanças de foco que mal percebemos, o que resulta numa atenção fragmentada a várias coisas e nenhuma atenção sólida a uma que seja. Recentemente ficou provado que conseguimos prestar atenção a, no máximo, três ou quatro coisas de uma vez. O cérebro é eficaz em provocar autoilusão. Achamos que estamos no controle das coisas. Mas executar várias tarefas ao mesmo tempo libera um hormônio de estresse, o cortisol. O cortisol tem um papel evolucionário, mas também provoca ansiedade, nervosismo e afeta a clareza de pensamento. Comparo o ato de fazer várias tarefas ao mesmo tempo com uma espécie de embriaguez. Há trabalhos que exigem essa capacidade, como tradutor simultâneo ou controlador de tráfego aéreo. E não é à toa que, nessas funções, as pessoas são obrigadas a fazer várias pausas de descanso para recuperar a capacidade de se concentrar.

No entanto, há uma noção de que as pessoas bem-sucedidas, e o senhor entrevistou mais de 100 para escrever o livro, são as que têm o poder de acumular mais tarefas do que os outros.

Exato, mas a história e a ciência de laboratório nos provam o contrário. Estudos mostram que o trabalho de quem mantém o foco numa tarefa é mais criativo. Isso vale tanto para grandes empresários, atletas e inovadores como para artistas. Valia para Da Vinci e Michelangelo. Olhe para o alto na Capela Sistina, considere grandes conquistas como o cubismo, a 5ª Sinfonia de Beethoven, a obra de William Shakespeare – tudo é resultado de atenção sustentada ao longo do tempo.

Por que o senhor diz que as crianças devem aprender na escola, já aos 10 anos, a enfrentar a sobrecarga de informação?

Qualquer criança alfabetizada sabe que pode encontrar uma informação em segundos. Mas a maior parte do que está online é desinformação. Ficções mascaradas de fatos. Até estudantes universitários se deixam confundir. Recolhem informações sem perguntar quem está por trás. Como saber que a fonte é confiável? Na escola, os professores devem ensinar, para começo de conversa, que websites não são iguais. Devem incutir um questionamento crítico na pesquisa. À medida que os alunos crescem, vão adquirindo mais nuances para se informar. Por exemplo, se a criança quer um brinquedo, pode-se ensinar a ela que o website do fabricante não é a fonte mais confiável sobre a segurança do brinquedo. Antes, no ecossistema analógico, tínhamos curadores de informação, era mais fácil distinguir a credibilidade de fontes.

O senhor diz que as pessoas mais produtivas são as que melhor estabelecem prioridades.

A maioria de nós chega ao trabalho hoje em dia e é bombardeada com o “por fazer”. É como entrar cambaleando num ambiente em que há muitas exigências e começamos a atacar o que passa pela frente. Não fazemos um esforço consciente e deliberado de evitar que o ambiente em volta nos domine. Isso aumenta o cansaço e diminui a produtividade. Todas as pessoas altamente bem-sucedidas com quem converso têm em comum o fato de que elas anotam o que há por fazer e já começam a trabalhar cientes de prioridades.

O senhor diz que uma ferramenta útil para priorizar são os chamados exercícios de limpeza da mente.

Sim. O David Allen, um guru da produtividade e autor de A Arte de Fazer Acontecer, aponta para a importância de externalizar a informação. Recomenda anotar tudo o que está se passando na sua cabeça, coisas que têm a ver com a tarefa em questão e preocupações que podem distrair a pessoa. É um processo neurológico, porque o cérebro teme esquecer o que é importante. Quando o cérebro sabe que a informação foi arquivada externamente, nas anotações, e o efeito é de nos acalmar, é libertador. Retira o entulho mental que prejudica a atenção.

A sobrecarga de informação se estende ao excesso de objetos. Por que o senhor defende uma gaveta de bagunça?

Um profissional precisa saber exatamente onde estão seus instrumentos. Pode ser um cirurgião, um dentista, um bombeiro. Este tipo de organização nos libera para pensar e tomar decisões. Mas excesso de organização é contraprodutivo, uma perda de tempo. O importante é deixar visíveis os objetos que utilizamos regularmente. Quantas vezes você encontra um parafuso, uma peça e não se lembra de onde vem? Jogue na gaveta de bagunça, a que tem objetos de utilidades diferentes. Isso é uma forma de fazer economia cognitiva, porque não é preciso classificar tudo.

O senhor aponta a correlação entre eliminar o excesso de informação e de pertences e a felicidade.

Se quiser destilar tudo o que se conhece sobre pessoas que se consideram felizes, a frase é a seguinte: elas se satisfazem com o que têm. E são as que querem conquistar algo, não receber prêmios e elogios. O que é diferente de não ter ambição pessoal ou criativa. O empresário Warren Buffett, o terceiro homem mais rico do mundo, com uma fortuna de mais de US$ 70 bilhões, mora na mesma casa há mais de cinco décadas. Ele inventou o neologismo “satisficing”, sobre as coisas que bastam. Não perde tempo com o que não lhe interessa e tem uma agenda diária de trabalho quase vazia, de poucas reuniões, que o deixa livre para ser produtivo.



terça-feira, 14 de julho de 2015

Justin Bieber tira foto do traseiro e faz tatuagem para apoiar filha de pastor

Justin Bieber tem uma dificuldade
crônica em manter o traseiro a salvo
dos fotógrafos.
O cantor e "enfant terrible" Justin Bieber continua aprontando das suas, apesar de fazer questão de se declarar cristão evangélico.

Dias atrás, o pop star canadense postou uma foto mostrando o bumbum no seu instagram, o que causou enorme repercussão mundial.

A foto - obviamente - viralizou rapidinho na rede, mas pouparemos os nossos leitores de vê-la aqui. Os mais curiosos poderão consultar o Google e a localizarão imediatamente.

Isto apesar do pedido de desculpas que Justin Bieber fez ontem, ao deletar a foto do seu instagram, alegando que - apesar de não ver maldade no ato - sentiu que tinha ofendido os seus fãs mais jovens.

No caso, foi a filha de uma pessoa próxima a ele, provavelmente criança, que se sentiu constrangida ao ver exposta a bunda "derrière" de seu ídolo.

Não se sabe se o fato tem alguma coisa a ver com o reportado acima, mas recentemente Bieber acrescentou uma letra "G" à sua coleção de tatuagens, desta vez no braço, em homenagem à garota Georgia, filha dos pastores Chad e Julia Veach, que dirigem a mega-igreja The City Church em Seattle, Estado de Washington.

[pausa para suspirar por Seattle, a cidade mais bonita, agradável e descolada que conheci em minha vida, ainda vou morar lá]

A menina Georgia sofre de uma doença rara e grave, chamada lisencefalia, que - numa definição assumidamente sofrível - é uma má formação do cérebro em que aquelas dobras tão características do tecido cerebral ficam lisas e não rugosas, como acontece na quase totalidade das pessoas, fazendo com que aquele complexo sistema de pregas e sulcos praticamente não exista, o que provoca uma série de consequências desde dificuldade para engolir até atraso mental e psicomotor, passando por deformação facial.

Justin Bieber assim justificou a tatuagem: "Esta é para o casal mais forte que eu conheço, Chad e Julia Veach! A filha deles nasceu com lisencefalia. Ela é incrível e tem a alma super doce. Vocês me fazem uma pessoa melhor e eu sou abençoado por tê-los em minha vida".

Resta saber de onde ele tirou a ideia de que mostrar as nádegas ao mundo seria algo bom...

A fonte das informações acima é o Christian Today.



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