A maior desgraça da nação alemã, contudo, é com certeza o empréstimo a juros: se este não existisse, muitos teriam que deixar de comprar sua seda, seu veludo, joias, especiarias e toda sorte de ostentação. Ele não existe há muito mais de 100 anos e já levou à pobreza, à miséria e à perdição quase todos os príncipes, fundações, cidades, nobres e herdeiros. Se continuar por mais 100 anos, é impossível que a Alemanha fique com um centavo sequer. Com certeza teremos que nos devorar uns aos outros. Foi o diabo que o inventou, e com a sua aprovação o papa fez sofrer o mundo inteiro. Por isso conclamo e peço aqui que cada um encare sua própria perdição, a de seus filhos e herdeiros – ela não está às portas, mas já grassa dentro de casa – e que o imperador, os príncipes, senhores e cidades façam com que o empréstimo a juros seja proscrito o mais rápido possível e coibido doravante, não importa se o papa e toda a sua justiça ou injustiça se oponham, ou se há feudos ou fundações sobre ele embasadas. É melhor que seja instituído um único feudo com bens hereditários ou rendas honestas numa cidade do que uma centena deles à base do empréstimo a juros. Sim, um feudo baseado em empréstimo a juros é pior e mais pesado do que 20 deles baseados em bens hereditários. Na verdade o empréstimo a juros deve ser símbolo e sinal de que o mundo está vendido ao diabo com graves pecados, de sorte que só podemos mesmo ficar carentes de bens seculares e espirituais ao mesmo tempo. No entanto, ainda não estamos notando nada!
Neste ponto também se deveriam realmente por rédeas nos Fugger e nas companhias desse tipo. Como é possível que durante a vida de uma única pessoa se juntem tão imensos bens reais de acordo com a vontade de Deus e de maneira correta? Eu não conheço a conta. Mas não compreendo como se pode, com 100 florins, ganhar 20 por ano, sim, com um florim, ganhar mais outro, e tudo isso proveniente não da terra ou do gado, onde os bens não dependem do entendimento humano, mas da bênção de Deus. Deixo isso para os entendidos do mundo. Eu, como teólogo, não posso censurar mais do que a aparência maligna e escandalosa da qual diz São Paulo: “Acautelai-vos de todo aspecto ou aparência maligna” [1 Ts 5.22]. Isso eu sei muito bem: seria muito mais de acordo com a vontade de Deus fomentar a agricultura e reduzir o comércio, e que agem muito melhor aqueles que cultivam a terra, conforme a Escritura, e nela procuram seu sustento, como está dito a nós e a todos na pessoa de Adão: “Maldita seja a terra quando nela trabalhas; ela te produzirá cardos e abrolhos, e no suor do teu rosto comerás o teu pão” [Gn 3.17-19]. Ainda há muita terra não arada e sem cultivo.
(LUTERO, Martinho inÀ Nobreza Cristã da Nação Alemã, acerca da Melhoria do Estamento Cristão. 1520. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Tradução de Walter O. Schlupp. 2. ed. 2000. vol. 2, págs. 337-338)
Do apelo à preservação do meio-ambiente ao pedido de perdão aos indígenas pelos abusos cometidos pela igreja na colonização da América, sobrou para todo mundo (inclusive o Estado Islâmico) no discurso anticapitalista do papa ontem, 09/07/15, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, segundo informa a Folha de S. Paulo:
Em discurso anticapitalista, Francisco prega "mudança de estruturas"
FABIANO MAISONNAVE
No discurso mais político em pouco mais de dois anos de pontificado, o papa Francisco defendeu nesta quinta-feira (9) uma "mudança de estruturas" mundial, chamou o capitalismo de "ditadura sutil" e exortou os movimentos sociais a realizar "três grandes tarefas" na economia, na união entre os povos e na preservação do ambiente.
"Reconhecemos que este sistema impôs a lógica dos lucros a qualquer custo, sem pensar na exclusão social ou na destruição da natureza?", perguntou o papa a algumas centenas de representantes de movimentos sociais de vários países, entre os quais o MST, sem-teto, indígenas e quilombolas brasileiros,durante o 2º Encontro Mundial de Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia).
"Se é assim, insisto, digamos sem medo: queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema já não se aguenta, os camponeses, trabalhadores, as comunidades e os povos tampouco o aguentam. E tampouco o aguenta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia são Francisco", completou o papa no encontro, realizado no auditório da Expocruz (feira agropecuária de Santa Cruz).
Para o papa, a "globalização da esperança" nasce e cresce entre os pobres, mas até a elite econômica quer mudanças: "Dentro dessa minoria cada vez menor que acredita que se beneficia com este sistema reinam a insatisfação e especialmente a tristeza. Muitos esperam uma mudança que os libere dessa tristeza individualista que os escraviza."
Em outra dura crítica ao capitalismo, Francisco afirmou que, "atrás de tanta dor, tanta morte e destruição está o fedor disso que [são] Basílio de Cesareia (330-379) chamava de 'o esterco do Diabo' [dinheiro]". Segundo ele, o capitalismo é uma "ditadura sutil".
O líder católico atacou também "a concentração monopólica dos meios de comunicação social que pretende impor pautas alienantes de consumo e certa uniformidade cultural". Para ele, trata-se de "colonialismo ideológico".
Apesar da análise dura, Francisco advertiu contra o excesso de pessimismo e exortou os movimentos sociais a protagonizar as mudanças: "Eu me atrevo a dizer-lhes que o futuro da humanidade está, em grande medida, em suas mãos", afirmou. "Vocês são os semeadores das mudanças."
Em seguida, o pontífice propôs a realização de três tarefas aos movimentos sociais. A primeira é a "colocar a economia a serviço dos povos": A economia não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas "a administração correta da casa comum". O objetivo, diz, é assegurar os "três Ts: trabalho, teto e terra".
"A distribuição justa dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, a tarefa é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e aos povos o que lhes pertence."
A segunda tarefa, segundo o pontífice, é "unir nossos povos no caminho da paz e da justiça". Ele defendeu o conceito de "pátria grande", usado por movimentos de esquerda para pregar a união latino-americana.
Francisco afirmou que problemas como a violência não podem ser resolvidos sem cooperação entre os países e atacou o "novo colonialismo": "Interação não é sinônimo de imposição", afirmou. "Colocar a periferia em função do centro lhe nega o direito a um desenvolvimento integral. Isso é iniquidade, e a iniquidade gera tal violência que não haverá recursos policiais, militares ou de inteligência capazes de deter."
Por último, o líder católico pediu a preservação da "Mãe Terra", tema de sua encíclica mais recente: "Não se pode permitir que certos interesses –que são globais, mas não universais– se imponham, submetam os Estados e organismos internacionais e continuem destruindo a criação".
'3ª GUERRA EM PARCELAS
O papa também condenou o assassinato de católicos pelo grupo terrorista Estado Islâmico e disse que o mundo vive "uma Terceira Guerra Mundial em parcelas".
"Isto também deve ser denunciado: dentro desta Terceira Guerra Mundial em parcelas que vivemos, há uma espécie de genocídio em marcha, e ele deve cessar", declarou o pontífice.
Visitando um país de maioria indígena, Francisco pediu desculpas pelo atuação da Igreja Católica durante a colonização –momento do discurso em que ele foi mais aplaudido pelos fiéis.
"Digo-lhes com pesar: foram cometidos muitos e graves pecados contra os povos originários da América em nome de Deus", disse. "E quero dizer-lhes, quero ser muito claro, como foi são João Paulo 2°: peço humildemente perdão, não apenas pelas ofensas da própria igreja como pelo crimes contra os povos originários durante a chamada conquista da América."
Ao final do discurso, disse: "Digamos juntos de coração: nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem velhice digna. Sigam a sua luta e, por favor, cuidem muito da Mãe Terra."
Quando a economia se torna tema de debate teológico
A teologia pode se ocupar dos impostos? Pode parecer estranho, mas não é. Não é nos Evangelhos que se narra o episódio em que Jesus é questionado se é certo ou não pagar o tributo a César? "É uma pergunta antiga e é pertinente ainda hoje, especialmente quando pensamos na resposta de Jesus, segundo o qual se deve dar 'a César o que é de César e a Deus o que é de Deus'. Para a fé cristã, tudo pertence a Deus e à sua ideia de amor e de justiça. Por isso, os impostos deveriam ser definidos e pagos com base em princípios que garantam a justiça para todos."
A reportagem é de Giuseppe Matarazzo, publicada no jornal Avvenire, 26-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Não é de se estranhar, portanto, que a Concilium, a revista internacional de teologia publicada pela Queriniana, no seu último número, aborde o assunto e reúna, com uma resenha, as sugestões e os temas lançados pelo discutido e feliz livro de do economista Thomas Piketty, O capital no século XXI (Ed. Intrínseca), detendo-se em particular sobre a "redistribuição das riquezas" e a ''justa taxação", como "soluções" para democratizar o capitalismo, capaz agora apenas de criar desigualdades, minando "a partir dos fundamentos os valores meritocráticos sobre os quais se regem as nossas sociedades democráticas".
Ao longo do tempo, a riqueza dos indivíduos mais ricos tiveram um índice de crescimento maior em relação à economia como um todo, de modo que os ricos se tornaram mais ricos, e os pobres tornaram-se mais pobres. Não se trata apenas de uma percepção de Piketty, mas também do resultado de um estudo sobre três séculos de dados em mais de 20 nações.
"O mais rico – apontam os teólogos Luiz Carlos Susin (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, Brasil) e Klaus da Silva Raupp (atualmente em formação em Boston), que comentaram o trabalho de Piketty – continuará aumentando a sua riqueza, e, no longo prazo, a desigualdade não se baseará mais apenas nas diferenças de renda, mas também nas riquezas herdadas." O garfo só pode aumentar. E interesse, inevitavelmente, às gerações posteriores.
Embora exista uma democracia formal, o abismo entre os mais ricos e os mais pobres é intransponível, e isso ofende as bases do humanismo. A economia brasileira, por exemplo, é um exemplo válido para ilustrar a disparidade entre riquíssimos e paupérrimos: segundo a ONU, relatam Silva Raupp e Susin, nos últimos 12 anos, 17 milhões de pessoas de um total de 20 milhões cruzaram a linha da pobreza extrema e da fome.
No entanto, segundo o Banco Central do Brasil, os lucros dos bancos e de outros atores do mercado financeiro alcançaram níveis sem precedentes na história do país.
A solução para colocar o capitalismo novamente na estrada democrática, para Piketty, está no sistema (justo) de taxação: "progressiva sobre a renda e, sobretudo, sobre a renda de capital (sobre os grandes patrimônios) como a melhor alternativa para regular o capital e diminuir a desigualdade".
Campo no qual se jogam elementos políticos, filosóficos. E teológicos: o bem comum e da justiça social, princípios da doutrina social católica moderna, presentes em todos os documentos da Igreja, da Rerum novarum de Leão XIII à Pacem in terris de João XXIII, até a Evangelii gaudium do Papa Francisco, que pede ao mundo católico que se posicione contra "uma economia da exclusão" e "um dinheiro que governa em vez de servir".
Na semana que passou, poucos se lembraram dos 30 anos da tragédia de Bhopal, na Índia, onde mais de 8.000 pessoas morreram em decorrência do vazamento de gases letais na fábrica da Union Carbide na noite de 2 para 3 de dezembro de 1984.
Triste noite em que uma morte silenciosa e instantânea vitimou milhares de pessoas (além dos animais) em poucas horas, numa espécie de revisitação moderna da última praga bíblica do Egito.
Em memória daquela que é considerada a maior tragédia da era industrial, que não puniu nenhum poderoso e jamais poderá ser esquecida, reproduzimos o artigo abaixo da BBC Brasil:
Como nuvem letal matou mais de 8 mil pessoas em 72 horas
Em apenas uma noite, entre 2 e 3 de dezembro de 1984, um vazamento em um tanque de armazenamento subterrâneo de uma fábrica de pesticidas na Índia lançou ao ar 40 toneladas do gás isocianato de metila e causou o mais grave acidente industrial da história.
Em questão de poucas horas, uma nuvem letal se dispersou sobre a densamente povoada cidade de Bhopal, com 900 mil habitantes, matando mais de 8 mil pessoas.
Y.P. Gokhale, diretor da fábrica, a americana Union Carbide, disse na época que o gás tinha escapado quando uma válvula no tanque quebrou, sob pressão.
Meio milhão de pessoas foram expostas ao gás. As doenças crônicas geradas pelo contato com a substância deixaram um assombroso legado para gerações futuras.
Mas como o desastre se desenrolou na noite fatal de 3 de dezembro de 1984? Veja abaixo a sequência dos trágicos acontecimentos daquela noite.
Meia-Noite
A cidade de Bhopal estava dormindo. Era como qualquer outra noite para os moradores que viviam no aglomerado de casas em volta da fábrica da Union Carbide.
A fábrica foi construída em 1969 para a produção de agrotóxicos que contêm um produto químico altamente perigoso - o isocianato de metila.
As favelas construídas junto à fábrica abrigavam muita gente.
Leia mais: 30 anos depois, adolescentes carregam marcas de gás tóxico
Cerca de 1h
Alguns moradores próximos à fábrica foram os primeiros a notar um cheiro forte - e seus olhos começaram a arder.
Alguns disseram que "parecia que alguém estava queimando um monte de pimenta''.
O cheiro ficou ainda pior e mais forte. As pessoas logo começaram a se queixar de falta de ar e a vomitar.
Caos e pânico eclodiram na cidade e em áreas vizinhas. Dezenas de milhares de pessoas tentaram escapar.
"As pessoas começaram a cair no chão, espumando pela boca. Muitos não podiam abrir os olhos", contou à BBC a moradora Hasira Bi.
''Acordei por volta da meia-noite. As pessoas estavam na rua vestindo o que usavam para dormir, algumas com apenas suas roupas íntimas."
Multidões de pessoas aterrorizadas começaram a fugir e inalaram ainda mais gás.
"O gás venenoso era mais pesado que o ar, por isso, quando vazou, estabeleceu-se em uma nuvem densa que se moveu silenciosamente pelos bairros pobres ao redor da fábrica", disse Swaraj Puri, chefe da polícia de Bhopal na época, em entrevista à BBC em 2009, recordando a noite fatídica.
02h30
A sirene da usina soou. "Gás está vazando da usina", gritavam pessoas nas ruas de Bophal.
"Nós estávamos tendo asfixia e os nossos olhos queimavam, mal podíamos ver a estrada em meio à neblina, as sirenes eram estridentes, não se sabia qual o caminho a ser seguido. Todo mundo estava muito confuso", disse à BBC Ahmed Khan, morador de Bhopal, pouco após o desastre em 1984.
"As mães não sabiam que filhos tinham morrido, crianças não sabiam que mães tinham morrido e homens não sabiam que tinham perdido suas famílias."
O correspondente da BBC Mark Tulley relata que o "hospital principal da cidade estava irremediavelmente superlotado, com pacientes que não paravam de chegar".
"Milhares de gatos mortos, cães, vacas e aves estavam espalhados pelas ruas e os necrotérios da cidade foram enchendo rapidamente".
Leia mais: Três irmãs e três destinos: esterilizações em massa na Índia matam 15
04h00
Swaraj Puri, ex-chefe de polícia de Bhopal, disse à BBC que, ao amanhecer, "coube a mim e aos meus homens começar a recolher os corpos. Havia mortos em quase todos os lugares".
"Minha reação foi 'Oh meu Deus! O que é isso? O que aconteceu?' Nós ficamos chocados, não sabíamos como reagir."
O número de mortos continuou subindo rápido. Em 72 horas, mais de 8 mil pessoas tinham morrido. Outros milhares morreram nos meses seguintes.
O governo declarou que 5.295 morreram no desastre, mas ativistas falam em mais de 20 mil vítimas fatais.
Ambientalistas dizem que a toxina vazada ainda contamina o solo e as águas subterrâneas. Mas o governo do Estado nega, insistindo que o abastecimento de água ao redor da planta é seguro.
Ativistas e grupos de apoio às vítimas alegaram mais de 150 mil sofreram sequelas e contraíram doenças como câncer, cegueira, danos no fígado e nos rins após a contaminação.
Eles têm publicado relatos que mostram que Bhopal tem uma incomum - e alta - incidência de crianças com problemas congênitos e deficiência de crescimento, assim como tipos de câncer e outras doenças crônicas.
O local da antiga fábrica de agrotóxicos está agora abandonado. O governo do Estado de Madhya Pradesh assumiu o controle sobre a instalação em 1998.
Nenhum funcionário de primeiro nível da Union Carbide foi julgado sobre o que aconteceu em Bhopal.
O ex-presidente da Union Carbide Warren Anderson foi preso pela polícia indiana durante uma visita à fábrica após o desastre, mas foi libertado sob fiança e prontamente deixou o país.
Ele foi oficialmente classificado como "fugitivo", mas o governo indiano jamais seriamente pressionou por sua extradição dos Estados Unidos. Anderson morreu em setembro passado.
Como representante legal dos sobreviventes, o governo indiano pediu por US$ 3,3 bilhões (R$ 8,4 bilhões) de indenização, mas, em um acordo na Justiça, a empresa concordou em pagar US$ 470 milhões, o que os ativistas consideram totalmente insuficiente.
"O Papa critica o utilitarismo, não o capitalismo"
Cardeal Turkson fala sobre doações governamentais, a reforma da Cúria, a possível viagem do Papa à África e a opinião do Papa sobre a economia
Deborah Castellano Lubov
O cardeal ganês Peter Turkson disse que a visita do Papa a África não é totalmente absurda. Em uma longa entrevista concedida a Zenit, o presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz discute se o departamento será reformado e se o Papa vai visitar a África, e esclarece as críticas do Papa contra o "sistema". O cardeal também explica o papel do seu Conselho no incentivo a empreendimentos comerciais nos países em desenvolvimento e expressa sua opinião sobre o apoio financeiro dos governos na cooperação para o desenvolvimento.
Antes de ser entrevistado por ZENIT, o cardeal apresentou um seminário no Vaticano sobre Um bem comum global: rumo a uma economia mais inclusiva, organizado pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz, em colaboração com a Secretaria de Estado, realizado nos dias 11 e 12 de julho.
Zenit: Quando o Papa critica o "sistema" está se referindo ao capitalismo? Ou quer dizer um sistema desprovido de valores e ética cristãos?
Cardeal Turkson: O Papa realmente não quer criticar o capitalismo; prova disso é a sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Na mesma exortação ele deixa claro [que não está escrevendo] uma doutrina social como a Caritas in Veritate, Centesimus Annus, ou a Populorum Progressio. O Papa deixa claro que este não é seu objetivo.
Acabamos de ter um Sínodo sobre a Nova Evangelização, e depois de cada sínodo, o papa normalmente escreve uma exortação. Por exemplo, o sínodo da evangelização traz a alegria de Cristo às pessoas. O Papa explica que esta alegria não é encontrada em qualquer lugar e que existem problemas e obstáculos na experiência desta alegria. O Papa identifica alguns dos obstáculos à pregação do Evangelho e expõe a alegria como uma condição necessária para os crentes em sua experiência religiosa.
Então, não é e não pode ser um ataque ao capitalismo, porque essa palavra não aparece nenhuma vez neste documento. Embora os economistas digam que o mercado é o agente do capitalismo, o Papa, no entanto, fala estritamente do mercado. O Papa não fala de um mercado que deve acrescentar os valores cristãos em sua ideologia; mas refere-se ao sentido antropológico, ou seja, que o ser humano foi criado para ser o centro da Criação. Quando algo substitui ou nos leva para longe do centro, então, significa que nós nos tornamos escravos do outro. E se, neste caso, é o mercado ou as finanças, então algo está errado. Esta é a questão fundamental do Papa.
A declaração mais forte do Papa é que os mercados devem estar a serviço do ser humano e não vice-versa. Para o Papa, o ser humano não pode ser reduzido a um estado de servidão e não deve ser obrigado a sustentar servilmente as forças de mercado, o que pode levá-lo a centrar-se exclusivamente na produção de mais dinheiro.
Quando isso acontece, o Papa diz que algo não está no caminho certo. O sentido fundamental da antropologia na Criação é que a humanidade está no centro. É a glória de tudo o que Deus criou. Se esta glória for substituída por outra coisa, significa que esta está fadada ao outro. Muitos pobres, abandonados, excluídos são substituídos do centro de Deus pelas forças do mercado. O Papa defende aqueles que se tornam vítimas de um sistema econômico (qualquer quer que seja), que perdem o seu papel central.
Várias pessoas concordam com esta tese. Por exemplo, muitos de vocês recordam que no ano passado Obama citou a Evangelii Gaudium em seu discurso no Congresso. Em 2009, no discurso de posse, o presidente Obama fez comentários semelhantes a estes, ou seja, a necessidade de um mercado que serve o povo, e suas últimas palavras para o Congresso foram que se os Estados Unidos, com todos os seus recursos, fosse incapaz de ajudar os pobres a sair dessa situação, isso significaria que o Estado estaria falhando com muitas pessoas. Portanto, trata-se de um conceito que não é compartilhado apenas pelo Papa, apesar do Papa ter sido capaz de expressá-lo de tal forma que todos agora estão começando a pensar sobre isso.
Em nosso seminário sobre "bem comum global" e uma sociedade mais inclusiva, discutimos a forma de evitar uma visão redutiva da pessoa humana, ou seja, quando a pessoa humana é reduzida no caráter, no estado, e na natureza, e de outras formas, a qualquer coisa.
Zenit: Qual é o papel do Conselho na promoção de iniciativas empresariais nos países em desenvolvimento?
Cardeal Turkson: É um trabalho difícil. Este é o segundo seminário sobre economia que fizemos este ano. O primeiro aconteceu em meados de junho junto com o CRS (Catholic Relief Services) nos Estados Unidos e com a Mendoza Business School na Universidade de Notre Dame, e foi sobre o impacto do investimento.
O impacto do investimento é uma forma mais ampla dos serviços financeiros que foi introduzida para mais e mais pessoas. No contexto da Igreja esta prática ocorre quando o capital de congregações religiosas ou fundos de pensão é utilizado para algo social que produza um bom resultado para a humanidade concretamente e, ao mesmo tempo, um retorno econômico justo. Portanto, não é dinheiro perdido ou subsidiado. Pelo contrário, é o dinheiro utilizado como capital de forma equilibrada para alcançar ambos os benefícios econômicos e sociais, de modo a suprir as necessidades da nossa população, mas com a possibilidade de um lucro com o qual serão realizados novos investimentos.
Após o seminário, a nossa intenção é fornecer ideias para as comunidades eclesiais locais. Nossa sugestão é que com tudo que está acontecendo no mundo hoje, as formas mais tradicionais que as Igrejas locais se esforçam para financiar seus projetos fiquem cada vez mais no passado. Neste sentido, quero dizer que o pedido de ajuda financeira a governos ou a outras partes da Igreja está diminuindo rapidamente. Vários bispos realizam viagens e fazem apelos de missão nos Estados Unidos ou para algumas paróquias da Europa, e, após receberem, eles querem começar a trabalhar da melhor maneira. Muitas vezes, porém, com esse dinheiro não se torna capital de risco (venture capital). Isso significa que temos que mudar a forma de apoiar e manter viva as nossas Igrejas locais. Precisamos pensar em como reconsiderar o capital disponível para investir e gastar parte da renda gerada a partir dele para apoiar as igrejas locais, em direção a certa autossuficiência. Se este for o caso, o que as igrejas vão precisar é um acesso fácil e conveniente ao capital.
Queremos convidar os presidentes de empresas e administradores financeiros , e descobrir como podemos contribuir para tornar essa ideia uma realidade. Eu conversei com alguns dos delegados do Banco Mundial para delinear as ideias que podem ajudar, mesmo que através das igrejas locais, já estejamos explorando todas as possibilidades.
Zenit: O Papa Francisco planeja visitar a África?
Cardeal Turkson: Como qualquer Papa gostaria de visitar cada parte da Igreja. Mas até agora não há nenhum anúncio sobre a África. O Papa tem agendada uma visita à Coreia do Sul e Filipinas. Quem sabe o próximo país será a África. Só porque não foi mencionado, não significa que não vai acontecer.
Zenit: Agora, sobre a reforma da Cúria Romana. O seu Dicastério mudará?
Cardeal Turkson: A história mostra que o nosso Dicastério passou por alguns processos de mudança. Imediatamente após o Concílio Vaticano II foi instituído uma comissão simples, e também uma comissão de leigos, de modo que, o presidente dos leigos poderia cuidar do nosso escritório. Foi assim no pontificado de Paulo VI. Com João Paulo II a comissão evoluiu e tornou-se um conselho. E a partir de então, o conselho permaneceu por conta própria, com o seu próprio presidente e os requisitos típicos de um conselho.
Ao longo da história houve momentos em que o presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz cuidava dos migrantes. O Cardeal Etchegaray foi presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz e também do Cor Unum. O Cardeal Martino, meu antecessor, em um determinado momento era o presidente de ambos, dos migrantes e da justiça e paz. Atualmente, cada setor tem seu próprio presidente.
Tudo isso tem a ver com o documento que rege as operações dos escritórios, conselhos e congregações da Cúria Romana. No caso de João Paulo II, agora São João Paulo II, foi o Pastor Bonus. O Pastor Bonus é o documento que se tornou a constituição apostólica que tem dirigido a existência desses escritórios. Se o papa Francis quiser rever o documento e reconfigurar a Cúria ou encontrar uma nova maneira de realizar, ele tem a liberdade de fazê-lo.
Se tal Constituição Apostólica for alterada de alguma forma, então, a estrutura de certos escritórios ou conselhos da Cúria podem ser mudados. Depende de como o papa Francisco, ou qualquer futuro Papa queira configurar a forma com que governa a Igreja.
Zenit: Qual é o seu ponto de vista sobre as doações governamentais nos países em desenvolvimento? Funcionam ou deveriam sofrer alguma mudança?
Cardeal Turkson: A ajuda do governo pode ser visto de duas maneiras. Em primeiro lugar, a ajuda do governo poderia ser ajuda entre governos ou poderia ser uma ajuda de outro lugar para os governos. Para algumas organizações internacionais, os governos locais e nacionais são seus parceiros naturais.
Se estivermos falando sobre o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional, ou outros, todos têm a ver com os governos. Raramente vemos a interação com uma instituição que não seja governamental. Esta é uma de várias situações que acontecem, e quando este for o caso, podemos "fazer esse tipo de coisa com uma mão?" "Depende" parece ser a resposta. A ajuda não vem apenas do Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional, mas também do governo britânico, através do DFID, do Congresso dos Estados Unidos através da USAID, e o Canadá também tem seus próprios programas de ajuda. Portanto, há muitas agências e diferentes tipos de ajuda externa, que pode ajudar em várias partes do mundo. Sendo ganês, eu sei que em certo ponto o Ministro da Educação de Gana pediu a entidades estrangeiras para financiar o orçamento e o processo educativo no país, o que eu acho triste. 'Triste' se, como um governo, você precisa de alguém para ser capaz de entender como se forma e como se educar a sua população.
O sucesso destes programas de ajuda depende das condições que acompanham esses programas ou das subvenções provenientes destas agências. Às vezes, os doadores, ou aqueles que fazem a concessão, parecem mostrar suas garras. Por exemplo, se eu não estou satisfeito com as políticas locais ou nacionais, mostram as garras e querem tomar uma posição - como parte das condições de financiamento do programa.
Como agora, Uganda, por causa de sua posição sobre a legislação ‘anti-gay’. O apoio financeiro de países estrangeiros pode ser reduzido ou retirado, embora sejam fundos para programas de saúde. Então, quando esses programas não são acompanhados de neutralidade, mas estão vinculados às condições, perdem o objetivo de servir para o bem comum. Com relação à pergunta, "o apoio ajuda os governos locais? O apoio pode ser útil, no sentido de possibilitar a liberdade de agir de alguns governos locais. Pode ser útil se os programas assegurarem a transparência, regras anti corrupção e os fundos não forem dispersos para outras áreas. Pode ser útil se a contribuição econômica, conhecida como "ajuda", não for dissipada no movimento de uma conta bancária para o país beneficiário.
Artigo interessante sobre os rumos da economia e da sociedade modernas, publicado originalmente no The Guardian, traduzido e reproduzido no IHU:
“O Capital” de Thomas Piketty: tudo o que você precisa saber sobre o surpreendente best-seller
Que o capitalismo é injusto já foi dito antes. Mas é a forma como Thomas Piketty o diz – sutilmente mas com uma lógica implacável – o que levou os economistas da direita a um frenesi, tanto aqui [na Inglaterra] quanto nos Estados Unidos.
O comentário é de Paul Mason, editor cultural e digital do Channel 4 News, em artigo publicado pelo The Guardian, 28-04-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
O seu livro – intitulado “Capital in the Twenty-First Century” [O capital no século XXI] – disparou na lista entre os mais vendidos no site Amazon. Tê-lo consigo, em alguns ambientes de Manhattan, se tornou a mais nova ferramenta para se conectar socialmente com jovens progressistas. Ao mesmo tempo, seu autor vem sendo condenado como neomarxista por comentaristas de direita. Afinal, qual a causa de tudo isso?
O argumento de Piketty é que, numa economia onde a taxa de rendimento sobre o capital supera a taxa de crescimento, a riqueza herdada sempre crescerá mais rapidamente do que a riqueza conquistada. Assim, o fato de que filhos ricos podem passar de um ano sabático sem rumo a um emprego no banco, na rede de televisão, etc., do pai – enquanto os filhos pobres continuam transpirando dentro de seus uniformes – não é acidental: é o sistema funcionando normalmente.
Se se tem um crescimento lento junto de rendimentos financeiros melhores, então a riqueza herdada irá, na média, “superar a riqueza acumulada de uma vida toda de trabalho por uma ampla margem”, diz Piketty. A riqueza irá se concentrar em níveis incompatíveis com a democracia, irá abandonar a justiça social. Em suma, o capitalismo cria automaticamente níveis de desigualdade que são insustentáveis. A crescente riqueza daquele 1% não é um episódio isolado nem mera retórica.
Para entender por que o sistema dominante acha esta proposição um tanto desagradável, é preciso compreender que se pensava ser o assunto “distribuição” – termo bonito para se referir à desigualdade – um tema acabado. Simon Kuznets, o bielorrusso emigrado que se tornou uma figura importante da economia americana, fez uso das informações disponíveis à época para mostrar que, embora as sociedades se tornassem mais desiguais nos primeiros estágios da industrialização, esta desigualdade diminuiria na medida em que elas alcançassem a maturidade. Tal “curva de Kuznets” fora aceita pela maioria dos profissionais de economia até Piketty e seus colaboradores produzirem as provas para mostrar que isso era falso.
Na verdade, a curva vai exatamente na direção oposta: o capitalismo começou desigual, achatou a desigualdade durante grande parte do século XX, mas atualmente está voltando em direção aos níveis dickensianos de desigualdade no mundo.
Piketty aceita a ideia de que os frutos da maturidade econômica – aptidões, formação e educação da força de trabalho – promovem, de fato, uma maior igualdade. Mas eles podem ser neutralizados por uma tendência mais fundamental no sentido da desigualdade, que é desencadeada onde quer que a demografia, a baixa taxação ou a fraca organização trabalhista permita. Grande parte das 700 páginas do livro são gastas mobilizando as provas de que o capitalismo do século XXI percorre um trajeto só de ida em direção à desigualdade – a menos que façamos alguma coisa.
Se Piketty estiver certo, haverá enormes implicações políticas, e a beleza do livro é que ele nunca se abstém de apontá-las. O pedido feito por Piketty de um imposto global “confiscatório” sobre a riqueza herdada faz outros economistas, em princípio radicais, parecerem familiares. Ele propõe um imposto de 80% sobre os rendimentos acima de 500 mil dólares ao ano nos EUA, assegurando a seus leitores que não haveria nem uma fuga de grandes executivos para o Canadá tampouco uma desaceleração do crescimento, uma vez que o resultado seria simplesmente suprimir tais rendimentos.
Embora supere a agenda macroeconômica, os golpes colaterais do livro contra a moda microeconômica, muitas vezes trazidas em notas de rodapé, parecem uma piada interna contra a geração para a qual todos os problemas pareciam resolvidos, com exceção dos preços da cocaína vendida nas ruas de Georgetown.
Além disso, o livro hipnotizou os profissionais da economia por causa da forma como Piketty cria teoricamente o seu próprio mundo. Ele define as duas categorias básicas, riqueza e renda, de forma ampla e assertiva como ninguém antes tinha se preocupado em fazer. Os termos e as explicações da obra são extremamente simples; com uma infinidade de dados históricos, Piketty reduz a história do capitalismo a um claro arco narrativo. Para se desafiar a sua argumentação, é preciso rejeitar suas premissas e não sua elaboração.
Desde a primeira página ele, ilustra com observações viscerais, o mundo injusto no qual vivemos: começa com o massacre de Marikana e não esmorece. Ele apresenta não só os índices de juros do século XVIII como provas, mas também as obras de Jane Austen e Honoré de Balzac. Usa estes dois escritores para ilustrar como, no início do século XIX, era lógico desdenhar o trabalho a favor do casamento pela riqueza. Isso se tornou tão presente que fortaleceu o mito central do capitalismo e sua justificativa moral: aquela de que a riqueza é gerada pelo esforço, pela criatividade, pelo trabalho, pelo investimento correto, pelo risco assumido, etc.
Para Piketty, o período de meados do século XX marcado pelo aumento da igualdade foi um pontinho produzido pelas exigências da guerra, do poder do trabalho organizado, da necessidade de uma tributação alta, por fatores demográficos e pela inovação técnica.
Dito de forma direta, se o crescimento for alto e o rendimento do capital for suprimido, poder-se-á ter um capitalismo mais igualitário. Mas, diz Piketty, uma repetição da era keynesiana é improvável: o trabalho está enfraquecido, a inovação tecnológica está demasiado lenta, o poder global do capital está demasiado forte. Além disso, a legitimidade deste sistema desigual é alta, isso porque ele encontrou formas de estender a riqueza à classe empresarial de uma forma que não se conseguiu fazer no século XIX.
Se o autor estiver certo, as implicações para o capitalismo são bastante negativas: estamos diante de um capitalismo com baixo crescimento, combinado com altos níveis de desigualdade e baixos níveis de mobilidade social. Se o sujeito não nascer na riqueza, será bastante difícil enriquecer.
Seria Piketty o novo Karl Marx? Qualquer um que tenha lido este último saberá que ele não o é. A crítica de Marx ao capitalismo não era sobre a distribuição, mas sobre a produção: para Marx não seria o aumento da desigualdade, mas sim uma ruptura no mecanismo de lucro o que levaria o sistema a seu fim.
Onde Marx via relações sociais – entre trabalhadores e gerentes, proprietários de fábricas e a aristocracia rural –, Piketty vê apenas categorias sociais: riqueza e renda. A economia marxista vive num mundo onde as tendências interiores do capitalismo são contrariadas por sua experiência de superfície. O mundo de Piketty é feito somente de dados históricos concretos. Então, as acusações de um marxismo suave estão completamente equivocadas.
Mais precisamente, Piketty colocou uma bomba não detonada dentro da economia clássica, dominante. Se a causa subjacente da catástrofe bancária de 2008 foi a queda na renda ao lado de uma crescente riqueza financeira, então – diz Piketty – estas coisas não foram por acaso: não foram produtos de uma regulação frouxa ou de uma ganância simples. A crise é o produto do sistema funcionando normalmente, e devemos esperar mais.
Um dos capítulos mais interessantes é o debate proposto por Piketty do aumento quase universal daquilo que ele chama de “Estado social”. O crescimento contínuo na proporção da renda nacional consumida pelo Estado, gasto nos serviços universais, em pensões e benefícios, sustenta o autor, é uma característica irreversível do capitalismo moderno. Ele observa que tal distribuição se tornou uma questão de “direito” às coisas – de saúde e pensões – em lugar de simplesmente ser um problema dos índices de tributação. A sua solução é uma taxa específica, progressiva, sobre a riqueza privada: um imposto excepcional sobre o capital, possivelmente combinado com o utilização ostensiva da inflação.
A lógica política para a esquerda está clara. Durante grande parte do século XX a redistribuição fora feita através de imposto sobre os rendimentos. No século XXI, qualquer partido que queira redistribuir precisará confiscar a riqueza, e não somente a renda.
O poder da obra de Piketty é que ela também desafia a narrativa de centro-esquerda da globalização, que acreditava que a requalificação da força de trabalho, combinada com uma redistribuição amena, iria promover a justiça social. Isso, demonstra Piketty, é um engano. Tudo o que a social-democracia e o liberalismo podem produzir, com suas atuais políticas, é o iate do oligarca coexistindo com o banco de alimentos para todo o sempre.
A obra de Piketty, “Capital in the Twenty-First Century” (diferentemente de “O Capital”, de Marx) contém soluções no próprio terreno do capitalismo: os 15% de impostos sobre o capital, os 80% de impostos sobre os altos rendimentos, uma transparência obrigatória em todas as transações bancárias, uma utilização ostensiva da inflação para a redistribuição da riqueza. Ele considera algumas destas soluções “utópicas”, e está certo nisso. É mais fácil imaginar um colapso do capitalismo do que uma elite consentir com estas ideias.
Nos últimos 20 anos, todos os dias, duas vezes por dia, o executivo encarregado de aplicar dezenas de bilhões de dólares do fundo soberano de investimentos de Cingapura não pensa em nada. Ele faz isso sentando-se em silêncio e repetindo algo em sua cabeça. Depois de alguns minutos, sua respiração fica mais calma, os músculos de seu rosto relaxam e suas pálpebras param de tremer.
Sei disso porque estou sentado diante de Peter Ng. Mas, ao contrário dele, sou amador em meditação. Na metade de nossa sessão de 20 minutos, abri meus olhos após me ocupar com um pensamento: será que isso é mesmo compatível com o mundo cruel das finanças? A pergunta faz sentido, uma vez que Ng está sentado em uma almofada com uma propaganda do Chartered Financial Analysts Institute (CFA), um organismo definidor de normas para gestores de fundos e analistas financeiros.
Ao longo da última década, a meditação - a prática de se libertar dos pensamentos e emoções que representam nosso fluxo de consciência - deixou de ser algo esotérico para se transformar em uma atividade quase tão onipresente quanto os exercícios físicos ou o uso do fio dental. O Google e a General Mills, por exemplo, encorajam a prática para tornar seus funcionários mais produtivos.
Agora, a meditação também está entrando na área de finanças. Ray Dalio, fundador do Bridgewater, o maior fundo de hedge do mundo, com US$ 150 bilhões em ativos, não tem dúvidas quanto aos seus efeitos. "A meditação, mais do que qualquer outra coisa, é responsável por todo sucesso que já tive", garante. "Quando medito, adquiro uma tranquilidade que me permite ver as coisas de uma perspectiva mais elevada e, assim, tomar decisões mais sábias."
Lord Myners, ex-presidente do conselho de administração da Marks & Spencer e ministro do Tesouro britânico, também busca na prática uma ajuda para se concentrar. "A meditação faz com que eu me acalme e consiga ver as coisas de forma mais clara e abrangente", afirma. "Provalmente eu seja mais eficiente por causa dela, embora não vá dizer que a meditação me tornou uma pessoa melhor. Isso seria medonho!"
A ideia de que a meditação pode proporcionar uma sensação maior de tranquilidade já foi provada em testes clínicos e é conhecida pela neurociência. O CFA Institute ministra aulas de meditação e as escolas de negócios cada vez mais oferecem cursos sobre suas "vantagens comportamentais". No ano que vem, como parte de seu programa de MBA, a Universidade Georgetown terá um módulo liderado por Laurence Freeman, um monge beneditino que preside a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.
Embora faça proselitismo dos benefícios da prática, Freeman é ciente de que seu componente espiritual pode afugentar muitas pessoas. "A meditação é um aspecto de uma tradição cristã muito antiga e universal que pode ser compartilhada com qualquer um", diz. "A distância que ela mantém das religiões formais proporciona uma zona de conforto."
Mesmo assim, muitos se mostram céticos de que "executivos macho-alfa" possam deixar seus egos de lado enquanto meditam. Grande parte dos profissionais do mercado financeiro ainda veem a prática como uma atividade "new age" duvidosa. Lord Leitch, presidente do conselho de administração da Bupa, organização privada de serviços de saúde, diz que a meditação pode gerar reações negativas. "Às vezes recebo olhares estranhos quando menciono algo sobre isso. Definitivamente não é para todos, mas acho que deveríamos estar abertos para técnicas que possam ser úteis em nossa vida."
Um problema mais difícil é encontrar tempo. "É o maior desafio, e o motivo que mais leva as pessoas a parar", diz Dalio, que medita desde 1969 e garante que as pessoas que a praticam por seis meses nunca mais voltam atrás. "Não consigo dizer qual é a diferença entre as pessoas que meditam e as que não, mas é possível notar uma mudança de comportamento em alguém que faz isso regularmente."
Para Sean Hagan, conselheiro do Fundo Monetário Internacional (FMI), que começou a meditar há 30 anos quando era um advogado novato do J.P. Morgan, é preciso estabelecer prioridades. "Você chega ao escritório todas as manhãs e sempre há muitas coisas para fazer. Essa situação é opressiva e pode provocar uma sensação de pânico", afirma. A meditação, desse modo, o ajuda a manter o foco e a fazer, com calma, uma coisa de cada vez. "Como a prática me proporciona muitos benefícios, ela é uma prioridade para mim", diz.
Outros, como Philipp Hildebrand, vice-presidente do conselho de administração da BlackRock e ex-presidente do Swiss National Bank, que medita há sete anos, arrumam um espaço em suas agendas quando podem - o que inclui aeroportos ou quando estão em trânsito entre reuniões. "Em um mundo de telas, textos, celulares e informação por toda parte, passar 20 minutos sem pensar em nada é uma coisa maravilhosa", diz Hildebrand.
Dominar a mente pode ajudar gestores a ter mais energia na vida profissional diária, mas é particularmente útil durante uma crise, "quando mercados voláteis e suas implicações para os lucros e as perdas podem realmente desequilibrar você", enfatiza Ng.
Nenhum dos entrevistados sugeriu que a meditação é um passaporte para o nirvana, ou algo incrível que acontece quando você simplesmente desliga o iPhone. "Não se trata de mágica", diz Lord Leitch. Na verdade, embora pareça estranho que profissionais do mercado financeiro, sempre criticados pela falta de ética, estejam interessados em meditação na esteira da crise, pode ser exatamente por causa dos problemas na economia que muitos estejam se voltando para ela.
"Em períodos de turbulência, as pessoas, especialmente as mais jovens, procuram você não só em busca de conhecimento técnico", diz Hildebrand. Nesse contexto, a meditação parece ter aumentado a disposição de alguns executivos em explorar sua própria interioridade. Se isso fará alguma diferença na ética do mundo financeiro, porém, ainda não se sabe.
Hábito zen desperta certo preconceito
Por Letícia Arcoverde | De São Paulo
No Brasil, o operador de ações da BI&P Indusval Fabio Galdino de Carvalho tem como hábito meditar entre 30 e 40 minutos antes de começar o dia. Quando "o corpo pede", o executivo até repete a dose à noite, após o expediente. Para ele, a prática ajuda no condicionamento físico e mental, e especialmente no relacionamento com clientes e colegas de trabalho.
Hoje no cargo de "equity sales trader", Carvalho trabalha no mercado financeiro há 28 anos e sabe que esse ambiente pode ser muito estressante. "Tenho mais discernimento para reagir em uma situação adversa", diz. "A meditação diminui o conflito, e tento transmitir isso para quem estou atendendo durante o dia". O costume começou em 2008, quando participou de uma atividade de autoconhecimento por sugestão de um colega do banco onde trabalhava. Isso abriu portas para outros cursos - um deles sobre meditação.
No entanto, ele conta que nem todos entendem como o hábito zen se relaciona com o trabalho e diz que há até um certo preconceito. "A meditação é algo que não tem apelo material, e o ambiente do mercado é oposto. Esses caminhos alternativos não fa
José "Pepe" Mujica, presidente do Uruguai, não é só o mandatário mais pobre do mundo, como já comentamos aqui no blog, mas também alguém que foge aos chavões dos discursos dos grandes líderes políticos globais.
O seu discurso na Assembleia Geral da ONU, na semana passada, alcançou repercussão mundial, maior do que as falas de Barack Obama, Dilma Rousseff, e tantos outros chefes de governo e de Estado que usaram a tribuna no mesmo evento.
O que não é pouca coisa para um presidente de um país com 3,5 milhões de habitantes. Mujica mostrou a veracidade do ditado popular que diz que tamanho não é documento.
A repercussão do discurso de Mujica foi tanta que até virou graffiti nas ruas de São Paulo:
via twitter @lucasrohan
Abaixo, o vídeo e a íntegra do discurso épico de Mujica, traduzido, obviamente, para o português:
Amigos, sou do sul, venho do sul. Esquina do Atlântico e do Prata, meu país é uma planície suave, temperada, uma história de portos, couros, charque, lãs e carne. Houve décadas púrpuras, de lanças e cavalos, até que, por fim, no arrancar do século 20, passou a ser vanguarda no social, no Estado, no Ensino. Diria que a social-democracia foi inventada no Uruguai.
Durante quase 50 anos, o mundo nos viu como uma espécie de Suíça. Na realidade, na economia, fomos bastardos do império britânico e, quando ele sucumbiu, vivemos o amargo mel do fim de intercâmbios funestos, e ficamos estancados, sentindo falta do passado.
Quase 50 anos recordando o Maracanã, nossa façanha esportiva. Hoje, ressurgimos no mundo globalizado, talvez aprendendo de nossa dor. Minha história pessoal, a de um rapaz — por que, uma vez, fui um rapaz — que, como outros, quis mudar seu tempo, seu mundo, o sonho de uma sociedade libertária e sem classes. Meus erros são, em parte, filhos de meu tempo. Obviamente, os assumo, mas há vezes que medito com nostalgia.
Quem tivera a força de quando éramos capazes de abrigar tanta utopia! No entanto, não olho para trás, porque o hoje real nasceu das cinzas férteis do ontem. Pelo contrário, não vivo para cobrar contas ou para reverberar memórias.
Me angustia, e como, o amanhã que não verei, e pelo qual me comprometo. Sim, é possível um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez, hoje, a primeira tarefa seja cuidar da vida.
Mas sou do sul e venho do sul, a esta Assembleia, carrego inequivocamente os milhões de compatriotas pobres, nas cidades, nos desertos, nas selvas, nos pampas, nas depressões da América Latina pátria de todos que está se formando.
Carrego as culturas originais esmagadas, com os restos de colonialismo nas Malvinas, com bloqueios inúteis a este jacaré sob o sol do Caribe que se chama Cuba. Carrego as consequências da vigilância eletrônica, que não faz outra coisa que não despertar desconfiança. Desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego uma gigantesca dívida social, com a necessidade de defender a Amazônia, os mares, nossos grandes rios na América.
Carrego o dever de lutar por pátria para todos.
Para que a Colômbia possa encontrar o caminho da paz, e carrego o dever de lutar por tolerância, a tolerância é necessária para com aqueles que são diferentes, e com os que temos diferências e discrepâncias. Não se precisa de tolerância com aqueles com quem estamos de acordo.
A tolerância é o fundamento de poder conviver em paz, e entendendo que, no mundo, somos diferentes.
O combate à economia suja, ao narcotráfico, ao roubo, à fraude e à corrupção, pragas contemporâneas, procriadas por esse antivalor, esse que sustenta que somos felizes se enriquecemos, seja como seja. Sacrificamos os velhos deuses imateriais. Ocupamos o templo com o deus mercado, que nos organiza a economia, a política, os hábitos, a vida e até nos financia em parcelas e cartões a aparência de felicidade.
Parece que nascemos apenas para consumir e consumir e, quando não podemos, nos enchemos de frustração, pobreza e até autoexclusão.
O certo, hoje, é que, para gastar e enterrar os detritos nisso que se chama pela ciência de poeira de carbono, se aspirarmos nesta humanidade a consumir como um americano médio, seriam imprescindíveis três planetas para poder viver.
Nossa civilização montou um desafio mentiroso e, assim como vamos, não é possível satisfazer esse sentido de esbanjamento que se deu à vida. Isso se massifica como uma cultura de nossa época, sempre dirigida pela acumulação e pelo mercado.
Prometemos uma vida de esbanjamento, e, no fundo, constitui uma conta regressiva contra a natureza, contra a humanidade no futuro. Civilização contra a simplicidade, contra a sobriedade, contra todos os ciclos naturais.
O pior: civilização contra a liberdade que supõe ter tempo para viver as relações humanas, as únicas que transcendem: o amor, a amizade, aventura, solidariedade, família.
Civilização contra tempo livre que não é pago, que não se pode comprar, e que nos permite contemplar e esquadrinhar o cenário da natureza.
Arrasamos a selva, as selvas verdadeiras, e implantamos selvas anônimas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com comprimidos, a solidão com eletrônicos, porque somos felizes longe da convivência humana.
Cabe se fazer esta pergunta, ouvimos da biologia que defende a vida pela vida, como causa superior, e a suplantamos com o consumismo funcional à acumulação.
A política, eterna mãe do acontecer humano, ficou limitada à economia e ao mercado. De salto em salto, a política não pode mais que se perpetuar, e, como tal, delegou o poder, e se entretém, aturdida, lutando pelo governo. Debochada marcha de historieta humana, comprando e vendendo tudo, e inovando para poder negociar de alguma forma o que é inegociável. Há marketing para tudo, para os cemitérios, os serviços fúnebres, as maternidades, para pais, para mães, passando pelas secretárias, pelos automóveis e pelas férias. Tudo, tudo é negócio.
Todavia, as campanhas de marketing caem deliberadamente sobre as crianças, e sua psicologia para influir sobre os adultos e ter, assim, um território assegurado no futuro. Sobram provas de essas tecnologias bastante abomináveis que, por vezes, conduzem a frustrações e mais.
O homenzinho médio de nossas grandes cidades perambula entre os bancos e o tédio rotineiro dos escritórios, às vezes temperados com ar condicionado. Sempre sonha com as férias e com a liberdade, sempre sonha com pagar as contas, até que, um dia, o coração para, e adeus. Haverá outro soldado abocanhado pelas presas do mercado, assegurando a acumulação. A crise é a impotência, a impotência da política, incapaz de entender que a humanidade não escapa nem escapará do sentimento de nação. Sentimento que está quase incrustado em nosso código genético.
Hoje é tempo de começar a talhar para preparar um mundo sem fronteiras. A economia globalizada não tem mais condução que o interesse privado, de muitos poucos, e cada Estado Nacional mira sua estabilidade continuísta, e hoje a grande tarefa para nossos povos, em minha humilde visão, é o todo.
Como se isto fosse pouco, o capitalismo produtivo, francamente produtivo, está meio prisioneiro na caixa dos grandes bancos. No fundo, são o vértice do poder mundial. Mais claro, cremos que o mundo requer a gritos regras globais que respeitem os avanços da ciência, que abunda. Mas não é a ciência que governa o mundo. Se precisa, por exemplo, uma larga agenda de definições, quantas horas de trabalho e toda a terra, como convergem as moedas, como se financia a luta global pela água e contra os desertos.
Como se recicla e se pressiona contra o aquecimento global. Quais são os limites de cada grande questão humana. Seria imperioso conseguir consenso planetário para desatar a solidariedade com os mais oprimidos, castigar impositivamente o esbanjamento e a especulação. Mobilizar as grandes economias não para criar descartáveis com obsolescência calculada, mas bens úteis, sem fidelidade, para ajudar a levantar os pobres do mundo. Bens úteis contra a pobreza mundial. Mil vezes mais rentável que fazer guerras. Virar um neo-keynesianismo útil, de escala planetária, para abolir as vergonhas mais flagrantes deste mundo.
Talvez nosso mundo necessite menos de organismos mundiais, desses que organizam fórums e conferências, que servem muito às cadeias hoteleiras e às companhias aéreas e, no melhor dos casos, não reúne ninguém e transforma em decisões…
Precisamos sim mascar muito o velho e o eterno da vida humana junto da ciência, essa ciência que se empenha pela humanidade não para enriquecer; com eles, com os homens de ciência da mão, primeiros conselheiros da humanidade, estabelecer acordos para o mundo inteiro. Nem os Estados nacionais grandes, nem as transnacionais e muito menos o sistema financeiro deveriam governar o mundo humano. Sim, a alta política entrelaçada com a sabedoria científica, ali está a fonte. Essa ciência que não apetece o lucro, mas que mira o por vir e nos diz coisas que não escutamos. Quantos anos faz que nos disseram coisas que não entendemos? Creio que se deve convocar a inteligência ao comando da nave acima da terra, coisas assim e coisas que não posso desenvolver nos parecem impossíveis, mas requeririam que o determinante fosse a vida, não a acumulação.
Obviamente, não somos tão iludidos, nada disso acontecerá, nem coisas parecidas. Nos restam muitos sacrifícios inúteis daqui para diante, muitos remendos de consciência sem enfrentar as causas. Hoje, o mundo é incapaz de criar regras planetárias para a globalização e isso é pela enfraquecimento da alta política, isso que se ocupa de todo. Por último, vamos assistir ao refúgio de acordos mais ou menos “reclamáveis”, que vão plantear um comércio interno livre, mas que, no fundo, terminarão construindo parapeitos protecionistas, supranacionais em algumas regiões do planeta. A sua vez, crescerão ramos industriais importantes e serviços, todos dedicados a salvar e a melhorar o meio ambiente. Assim vamos nos consolar por um tempo, estaremos entretidos e, naturalmente, continuará a parecer que a acumulação é boa, para a alegria do sistema financeiro.
Continuarão as guerras e, portanto, os fanatismos, até que, talvez, a mesma natureza faça um chamado à ordem e torne inviáveis nossas civilizações. Talvez nossa visão seja demasiado crua, sem piedade, e vemos ao homem como uma criatura única, a única que há acima da terra capaz de ir contra sua própria espécie. Volto a repetir, porque alguns chamam a crise ecológica do planeta de consequência do triunfo avassalador da ambição humana. Esse é nosso triunfo e também nossa derrota, porque temos impotência política de nos enquadrarmos em uma nova época. E temos contribuído para sua construção sem nos dar conta.
Por que digo isto? São dados, nada mais. O certo é que a população quadruplicou e o PIB cresceu pelo menos vinte vezes no último século. Desde 1990, aproximadamente a cada seis anos o comércio mundial duplica. Poderíamos seguir anotando dados que estabelecem a marcha da globalização. O que está acontecendo conosco? Entramos em outra época aceleradamente, mas com políticos, enfeites culturais, partidos e jovens, todos velhos ante a pavorosa acumulação de mudanças que nem sequer podemos registrar. Não podemos manejar a globalização porque nosso pensamento não é global. Não sabemos se é uma limitação cultural ou se estamos chegano a nossos limites biológicos.
Nossa época é portentosamente revolucionária como não conheceu a história da humanidade. Mas não tem condução consciente, ou ao menos condução simplesmente instintiva. Muito menos, todavia, condução política organizada, porque nem se quer tivemos filosofia precursora ante a velocidade das mudanças que se acumularam.
A cobiça, tão negatica e tão motor da história, essa que impulsionou o progresso material técnico e científico, que fez o que é nossa época e nosso tempo e um fenomenal avanço em muitas frentes, paradoxalmente, essa mesma ferramenta, a cobiça que nos impulsionou a domesticar a ciência e transformá-la em tecnologia nos precipita a um abismo nebuloso. A uma história que não conhecemos, a uma época sem história, e estamos ficando sem olhos nem inteligência coletiva para seguir colonizando e para continuar nos transformando.
Porque se há uma característica deste bichinho humano é a de que é um conquistador antropológico.
Parece que as coisas tomam autonomia e essas coisas subjugam os homens. De um lado a outro, sobram ativos para vislumbrar tudo isso e para vislumbrar o rombo. Mas é impossível para nós coletivizar decisões globais por esse todo. A cobiça individual triunfou grandemente sobre a cobiça superior da espécie. Aclaremos: o que é “tudo”, essa palavra simples, menos opinável e mais evidente? Em nosso Ocidente, particularmente, porque daqui viemos, embora tenhamos vindo do sul, as repúblicas que nasceram para afirmas que os homens são iguais, que ninguém é mais que ninguém, que os governos deveriam representar o bem comum, a justiça e a igualdade. Muitas vezes, as repúblicas se deformam e caem no esquecimento da gente que anda pelas ruas, do povo comum.
Não foram as repúblicas criadas para vegetar, mas ao contrário, para serem um grito na história, para fazer funcionais as vidas dos próprios povos e, por tanto, as repúblicas que devem às maiorias e devem lutar pela promoção das maiorias.
Seja o que for, por reminiscências feudais que estão em nossa cultura, por classismo dominador, talvez pela cultura consumista que rodeia a todos, as repúblicas frequentemente em suas direções adotam um viver diário que exclui, que se distância do homem da rua.
Esse homem da rua deveria ser a causa central da luta política na vida das repúblicas. Os gobernos republicanos deveriam se parecer cada vez mais com seus respectivos povos na forma de viver e na forma de se comprometer com a vida.
A verdade é que cultivamos arcaísmos feudais, cortesias consentidas, fazemos diferenciações hierárquicas que, no fundo, amassam o que têm de melhor as repúblicas: que ninguém é mais que ninguém. O jogo desse e de outros fatores nos retém na pré-história. E, hoje, é impossível renunciar à guerra cuando a política fracassa. Assim, se estrangula a economia, esbanjamos recursos.
Ouçam bem, queridos amigos: em cada minuto no mundo se gastam US$ 2 milhões em ações militares nesta terra. Dois milhões de dólares por minuto em inteligência militar!! Em investigação médica, de todas as enfermidades que avançaram enormemente, cuja cura dá às pessoas uns anos a mais de vida, a investigação cobre apenas a quinta parte da investigação militar.
Este processo, do qual não podemos sair, é cego. Assegura ódio e fanatismo, desconfiança, fonte de novas guerras e, isso também, esbanjamento de fortunas. Eu sei que é muito fácil, poeticamente, autocriticarmo-nos pessoalmente. E creio que seria uma inocência neste mundo plantear que há recursos para economizar e gastar em outras coisas úteis. Isso seria possível, novamente, se fôssemos capazes de exercitar acordos mundiais e prevenções mundiais de políticas planetárias que nos garantissem a paz e que a dessem para os mais fracos, garantia que não temos. Aí haveria enormes recursos para deslocar e solucionar as maiores vergonhas que pairam sobre a Terra. Mas basta uma pergunta: nesta humanidade, hoje, onde se iria sem a existência dessas garantias planetárias? Então cada qual esconde armas de acordo com sua magnitude, e aqui estamos, porque não podemos raciocinar como espécie, apenas como indivíduos.
As instituições mundiais, particularmente hoje, vegetam à sombra consentida das dissidências das grandes nações que, obviamente, querem reter sua cota de poder.
Bloqueiam esta ONU que foi criada com uma esperança e como um sonho de paz para a humanidade. Mas, pior ainda, desarraigam-na da democracia no sentido planetário porque não somos iguais. Não podemos ser iguais nesse mundo onde há mais fortes e mais fracos. Portanto, é uma democracia ferida e está cerceando a história de um possível acordo mundial de paz, militante, combativo e verdadeiramente existente. E, então, remendamos doenças ali onde há eclosão, tudo como agrada a algumas das grandes potências. Os demais olham de longe. Não existimos.
Amigos, creio que é muito difícil inventar uma força pior que nacionalismo chovinista das grandes potências. A força é que liberta os fracos. O nacionalismo, tão pai dos processos de descolonização, formidável para os fracos, se transforma em uma ferramenta opressora nas mãos dos fortes e, nos últimos 200 anos, tivemos exemplos disso por toda a parte.
A ONU, nossa ONU, enlanguece, se burocratiza por falta de poder e de autonomia, de reconhecimento e, sobretudo, de democracia para o mundo mais fraco que constitui a maioria esmagadora do planeta. Mostro um pequeno exemplo, pequenino. Nosso pequeno país tem, em termos absolutos, a maior quantidade de soldados em missões de paz em todos os países da América Latina. E ali estamos, onde nos pedem que estejamos. Mas somos pequenos, fracos. Onde se repartem os recursos e se tomam as decisões, não entramos nem para servir o café. No mais profundo de nosso coração, existe um enorme anseio de ajudar para que o homem saia da pré-história. Eu defino que o homem, enquanto viver em clima de guerra, está na pré-história, apesar dos muitos artefatos que possa construir.
Até que o homem não saia dessa pré-história e arquive a guerra como recurso quando a política fracassa, essa é a larga marcha e o desafio que temos daqui adiante. E o dizemos com conhecimento de causa. Conhecemos a solidão da guerra. No entanto, esses sonhos, esses desafios que estão no horizonte implicam lutar por uma agenda de acordos mundiais que comecem a governar nossa história e superar, passo a passo, as ameaças à vida. A espécie como tal deveria ter um governo para a humanidade que superasse o individualismo e primasse por recriar cabeças políticas que acudam ao caminho da ciência, e não apenas aos interesses imediatos que nos governam e nos afogam.
Paralelamente, devemos entender que os indigentes do mundo não são da África ou da América Latina, mas da humanidade toda, e esta deve, como tal, globalizada, empenhar-se em seu desenvolvimento, para que possam viver com decência de maneira autônoma. Os recursos necessários existem, estão neste depredador esbanjamento de nossa civilização.
Há poucos dias, fizeram na Califórnia, em um corpo de bombeiros, uma homenagem a uma lâmpada elétrica que está acesa há cem anos. Cem anos que está acesa, amigo! Quantos milhões de dólares nos tiraram dos bolsos fazendo deliberadamente porcarias para que as pessoas comprem, comprem, comprem e comprem.
Mas esta globalização de olhar para todo o planeta e para toda a vida significa uma mudança cultural brutal. É o que nos requer a história. Toda a base material mudou e cambaleou, e os homens, com nossa cultura, permanecem como se não houvesse acontecido nada e, em vez de governarem a civilização, deixam que ela nos governe. Há mais de 20 anos que discutimos a humilde taxa Tobin. Impossível aplicá-la no tocante ao planeta. Todos os bancos do poder financeiro se irrompem feridos em sua propriedade privada e sei lá quantas coisas mais. Mas isso é paradoxal. Mas, com talento, com trabalho coletivo, com ciência, o homem, passo a passo, é capaz de transformar o deserto em verde.
O homem pode levar a agricultura ao mar. O homem pode criar vegetais que vivam na água salgada. A força da humanidade se concentra no essencial. É incomensurável. Ali estão as mais portentosas fontes de energia. O que sabemos da fotossíntese? Quase nada. A energia no mundo sobra, se trabalharmos para usá-la bem. É possível arrancar tranquilamente toda a indigência do planeta. É possível criar estabilidade e será possível para as gerações vindouras, se conseguirem raciocinar como espécie e não só como indivíduos, levar a vida à galáxia e seguir com esse sonho conquistador que carregamos em nossa genética.
Mas, para que todos esses sonhos sejam possíveis, precisamos governar a nos mesmos, ou sucumbiremos porque não somos capazes de estar à altura da civilização em que fomos desenvolvendo.
Este é nosso dilema. Não nos entretenhamos apenas remendando consequências. Pensemos na causa profundas, na civilização do esbanjamento, na civilização do usa-tira que rouba tempo mal gasto de vida humana, esbanjando questões inúteis. Pensem que a vida humana é um milagre. Que estamos vivos por um milagre e nada vale mais que a vida. E que nosso dever biológico, acima de todas as coisas, é respeitar a vida e impulsioná-la, cuidá-la, procriá-la e entender que a espécie é nosso “nós”.