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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Aumenta perseguição aos "não-religiosos" no mundo



Caso você não tenha percebido isto no ex-país em que habita, segundo informa a BBC Brasil:

Discriminação severa contra pessoas não religiosas está crescendo ao redor do mundo, diz ONG

Valeria Perasso

No Paquistão, em abril passado, um universitário acusado de blasfêmia contra o Islã teria sido espancado até a morte, segundo relatos, por uma multidão de colegas no campus.

Algumas semanas antes, nas Maldivas, um blogueiro conhecido por apoiar o secularismo e fazer graça com a religião foi encontrado morto, com sinais de apunhalamento, em seu apartamento.

E no Sudão, o ativista pelos direitos humanos Mohamed al-Dosogy foi preso depois de solicitar oficialmente que, na sua carteira de identidade, o registro de sua religião constasse como "ateu".

Estes são apenas três exemplos daquilo que a União Internacional Humanista e Ética (IHEU, na sigla em inglês) diz ser uma crescente tendência global de discriminação, pressão e ataques contra ateus e céticos quanto à religião em todo o mundo.

No seu relatório "Freedom of Thought" ("Liberdade de Pensamento") de 2017, a organização registrou casos de "discriminação grave ou severa" contra pessoas não religiosas em 85 países ao redor do mundo.

E em sete destes lugares - Índia, Malásia, Maldivas, Mauritânia, Paquistão, Sudão e Arábia Saudita - os não religiosos foram "ativamente perseguidos", segundo a organização.

A IHEU - um guarda-chuva para mais de 120 grupos humanistas, ateus e seculares de mais de 40 países - apresentou suas constatações ao Parlamento Europeu.

"[Esta] tendência preocupante vai contra um direito humano básico, que simplesmente não está sendo garantido pelos governos", afirmou à BBC o diretor-geral da IHEU, Gary McLelland.

O direito à liberdade de pensamento, religião ou crença está protegido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 - que inclui a liberdade de mudar de religião e expressar a fé, ou a falta dela.

"Muitos países estão fechando os olhos para esta norma internacional", acrescentou McLelland.





Violações 'graves'


Dos 85 países listados como perigosos para aqueles que não se identificam com as religiões, 30 estão na pior situação no ranking, com "violações graves" relatadas nos últimos 12 meses.

Esses incidentes variam de execuções extrajudiciais à pressão apoiada pelo governo, incluindo também o desaparecimento de supostos blasfemos.

Em 12 desses países, a apostasia - termo que denomina a troca ou o abandono de religião - é punível com a morte, afirma o relatório.

No nível seguinte, há 55 países onde a discriminação é considerada "severa".

Isto pode ocorrer com o controle religioso por meio de leis e tribunais, doutrinação fundamentalista em escolas públicas ou da prisão por críticas a certas crenças - embora vários países, como a Alemanha ou a Nova Zelândia, pertençam a essa categoria por manter ativas leis arcaicas para a blasfêmia e delitos afins, ainda que raramente as apliquem.

"Muitos dos países com as manifestações mais graves de discriminação têm maioria muçulmana (ou regiões de maioria islâmicas dentro de nações multirreligiosas, como o norte da Nigéria)", diz McLelland.

"A discriminação tem maior probabilidade de acontecer onde as regras têm motivação religiosa e a liberdade de expressão é muito restrita. Isto é um reflexo da situação, e não um julgamento por parte do relatório".

A situação do Brasil

O relatório recém-divulgado especifica a situação em apenas alguns países - não é o caso do Brasil. Mas, em 2016, o Brasil foi descrito no levantamento como um país "soberano e secular".

"Além de ter a maior população católica do mundo (130 milhões de pessoas, ou 64,6% da população), o Brasil também aparece como um dos dez países mais religiosos do mundo (...) O protestantismo é a segunda maior crença religiosa, cujos adeptos representam aproximadamente 22% da população.

Há também uma comunidade não religiosa relativamente grande que compõe cerca de 8% da população, com o pequeno restante dividido entre o espiritismo, o islamismo e o judaísmo", diz o site do relatório.

Entre as quatro grandes áreas avaliadas (Justiça e governo, educação, interações sociais, e liberdade de expressão), o Brasil aparece com a melhor classificação ("Livre e igualitário") no item "interações sociais".

O relatório destaca que, ainda que a Constituição garanta que o ensino religioso nas escolas seja opcional, quase metade das escolas fazem deste ensino obrigatório.

Na categoria de "discriminação sistêmica", recaem duas áreas avaliadas: Justiça e governo e liberdade de expressão. No primeiro caso, o relatório aponta que, embora a lei brasileira garanta a liberdade religiosa e o Estado laico, há registros de repressão policial desproporcional a ativistas dos direitos humanos e uma forte influência de setores religiosos na política.

Já no que diz respeito à liberdade de expressão, o relatório aponta que o Código Penal brasileiro criminaliza a blasfêmia, mas, diz o documento, "embora esta lei esteja nos livros, na prática, ela não parece ter sido usada para proibir ou obstruir críticas às religiões".

Em 2012, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) concedeu uma liminar determinando que o YouTube retirasse do ar o vídeo que promoveria islamofobia e gerou uma série de protestos e até mortes ao redor do mundo.

Um problema ocidental também

No entanto, casos de discriminação contra pessoas não religiosas também foram registrados em países europeus e nos Estados Unidos.

Este é o caso em lugares onde o nacionalismo conservador e o populismo estão em ascensão.

"Nos Estados Unidos, a discriminação e a aversão às pessoas não religiosas se tornaram comuns", diz Lois Lee, pesquisador em estudos religiosos da Universidade de Kent.

"Em pesquisas recentes, os ateus aparecem entre os grupos que geram mais desconfiança".

Em áreas com forte presença religiosa e caráter social conservador no sudeste dos Estados Unidos - o chamado "Cinturão da Bíblia" - a hostilidade contra indivíduos não religiosos aumentou, de acordo com relatos locais.

Em um exemplo recente, uma escola no Kentucky foi investigada após queixas de que alguns professores estariam perseguindo estudantes não-cristãos.

Lee diz que o que está acontecendo pode ser explicado pelo fato de que um número crescente de pessoas agora define sua identidade por meio de suas crenças religiosas - e isso inclui o ateísmo.

"A política de identidades mudou parcialmente de nações e etnias para a religião", disse à BBC.

"Esta é agora uma questão mais sensível e, portanto, um alvo mais frequente para a discriminação".

Ateísmo em expansão

É claro que a perseguição a ateus ao redor do mundo não é um fenômeno novo.

Em 2014, o blogueiro Mohamed Cheikh Ould M'khaitir recebou uma sentença de morte na Mauritânia por supostamente cometer apostasia. Sua sentença foi recentemente reduzida para dois anos de prisão.

Na Arábia Saudita, outro blogueiro, Raif Badawi, está preso desde 2012 por "insultar o Islã por meio de canais eletrônicos", apesar de existir uma mobilização internacional por sua libertação.

Um estudante de direito de Bangladesh que expressou seu ponto de vista secular na internet morreu após um ataque perpetrado por extremistas religiosos em 2013.

A lista continua.

No entanto, para muitos analistas, a razão para o aumento no registro destes casos é que, embora a religiosidade esteja aumentando no mundo, também é crescente o número de pessoas que não se identificam com crença alguma.

O centro de pesquisas Pew Research Center estima que o número absoluto de pessoas sem filiação religiosa (ateus, agnósticos e aqueles que não se identificam com nenhuma religião em particular) aumentará em todo o mundo para 1,2 bilhão em 2060, ante 1,17 bilhão hoje - embora o crescimento previsto não seja tão rápido como o de fiéis de algumas religiões.

"Os não religiosos são hoje a terceira maior população por categoria de crença no mundo", diz Lee. "E nem sequer temos um vocabulário específico para nomeá-los, apenas uma identidade negativa".

"Em alguns países, os governos frequentemente vêem os ateístas como pequenos grupos, mas é precisamente por conta das ameaças que eles podem sofrer que eles não se revelam como ateus. Então, há também um problema de invisibilidade", acrescenta McLelland.

Críticos ao relatório argumentam que a metodologia pode deixar a desejar ao tentar retratar uma realidade precisa.

Por exemplo, um país secular com uma divisão clara entre Igreja e Estado, e com leis que proíbem explicitamente a discriminação baseada na religião, pode ter um desempenho ruim por conta de apenas uma subcategoria (se o Estado patrocina escolas religiosas ou dá isenções fiscais às igrejas).

"As realidades em todo o mundo e o grau de infração variam enormemente, é difícil fazer uma comparação", diz Lee.

Em todo caso, os não religiosos tendem a não estar sozinhos nos países onde as violações graves são gritantes - os crimes contra ateus não são "eventos desconectados, mas parte de um padrão".

"Como podemos ver no relatório deste ano, os direitos humanos tendem a ficar em pé ou a cair juntos", escreveu o presidente da IHEU, Andrew Corpson.

"Quando os não religiosos estão sendo perseguidos, geralmente isto é um indicativo de que as minorias religiosas (ou outras minorias, como as de gênero) também são. Não é uma coincidência".



domingo, 20 de novembro de 2016

A arte de mentir em tempos de pós-verdade

Eleitores de Trump e o próprio em êxtase.
Quanto desta cena é verdade?
Ou pós-verdade...

Sim, é isto mesmo o que você leu no título, a mentira virou uma forma de "arte" nesses tempos em que a verdade não basta mais por si só, ela precisa de um "plus".

Qualquer semelhança com o discurso político único supostamente "ético" que ouvimos diariamente no Brasil não é mera coincidência.

Leia o artigo abaixo, publicado no The Economist, traduzido e reproduzido no Estadão, que você vai entender o porquê:

Arte da mentira

Na política, a verdade já não é mais é falseada ou contestada; tornou-se secundária no debate público

Os políticos sempre mentiram. Faz alguma diferença se resolverem deixar a verdade totalmente de lado?

A essa altura deve estar claro que Donald Trump habita um mundo onde os fatos são, quando muito, imigrantes indesejáveis. Nesse mundo de fantasia, Barack Obama usa uma certidão de nascimento falsa e é o fundador do Estado Islâmico (EI), os Clinton são assassinos e o pai de um dos adversários do magnata nas primárias esteve com Lee Harvey Oswald quando este distribuía panfletos pró-Cuba.

Trump é o principal expoente da política “pós-verdade”, um estilo de atuação na esfera pública que se distingue pelo uso frequente de afirmações aparentemente verdadeiras, mas sem qualquer respaldo na realidade. O descaramento do bilionário não é penalizado, sendo antes tomado como prova de que o eleitor está diante de alguém que não abaixa a cabeça para as elites no poder.

E Trump não é o único. Na Grã-Bretanha, um dos argumentos utilizados pela campanha que venceu o referendo de junho foi o de que, se não aprovassem a saída da União Europeia (UE), os britânicos seriam invadidos por uma horda de imigrantes, já que a Turquia estaria prestes a ingressar no bloco.

Se, como The Economist, o leitor acredita que a política deve se basear em fatos, isso é preocupante. As democracias mais sólidas dispõem de mecanismos de defesa para se proteger da pós-verdade. Países autoritários são vulneráveis.

Mas a pós-verdade é mais que uma simples invenção de elites que ficaram a ver navios. A expressão põe em evidência o cerne do que há de novo na política: a verdade já não é falseada ou contestada; tornou-se secundária. No passado, o objetivo das mentiras políticas era criar uma visão enganosa do mundo. As mentiras de homens como Trump não funcionam assim. Seu intuito não é convencer, e sim reforçar preconceitos.

São os sentimentos, não os fatos, que importam nesse tipo de discurso. A incredulidade dos adversários legitima a mentalidade “nós-contra-eles” que os candidatos anti-establishment exploram com sucesso. E se os oponentes tentam mostrar que as palavras não correspondem à realidade, veem-se obrigados a lutar no campo de batalha escolhido pelos líderes pós-verdade. Quanto mais os defensores da permanência da Grã-Bretanha na UE se esforçavam para mostrar que os partidários do Brexit usavam cálculos superestimados ao determinar os valores gastos pelo país por fazer parte do bloco europeu, por mais tempo mantinham a magnitude desses gastos sob os holofotes.

A política pós-verdade tem muitos pais. Alguns são dignos de louvor. Submeter as instituições e as autoridades a questionamentos é uma virtude democrática. Assumir uma atitude cética e desafiadora diante dos líderes é o primeiro passo para reformar uma sociedade. O colapso do comunismo foi acelerado graças a pessoas corajosas para contestar a propaganda oficial.

Acontece que há também forças corrosivas em ação. Muitos eleitores sentem que foram enganados e deixados para trás, ao passo que as elites continuam a viver no bem-bom. Detestam os tecnocratas que diziam que o euro contribuiria para melhorar suas vidas . Nas democracias ocidentais, as pessoas já não confiam como antes nos especialistas e nas instituições.

Mídia. A evolução da mídia também ofereceu terreno fértil para que a pós-verdade florescesse. A fragmentação das fontes noticiosas criou um mundo atomizado, em que mentiras, rumores e fofocas se espalham com velocidade alarmante. Mentiras compartilhadas online, em redes cujos membros confiam mais uns nos outros do que em qualquer órgão tradicional de imprensa, rapidamente ganham aparência de verdade. Confrontadas com evidências que contradizem crenças que lhes são particularmente caras, as pessoas preferem fechar os olhos para a realidade. Práticas jornalísticas bem-intencionadas também têm culpa no cartório. A busca da “imparcialidade” na veiculação de notícias com frequência cria um falso equilíbrio, às custas da verdade. Os cientistas da Nasa dizem que Marte provavelmente é desabitado; o professor Zureta diz que pululam alienígenas no planeta. Opinião por opinião, cada qual que escolha a sua.

Quando a política começa a ficar parecida com um ringue de luta-livre, a sociedade arca com os custos. Ao insistir em dizer - para perplexidade de alguns dos conservadores mais empedernidos - que Obama fundou o EI, Trump impede a realização de um debate sério sobre como lidar com extremistas violentos. Governar é complicado; aos olhos da política pós-verdade, porém, a complexidade é só um truque ilusionista que os especialistas usam para levar todo mundo no bico.É tentador pensar que, quando ideias vendidas sem amparo na realidade começarem a soçobrar, os eleitores abrirão os olhos e perceberão que se deixaram levar por líderes que não se dão o trabalho nem de disfarçar as mentiras. A pior parte da pós-verdade, porém, é que não se deve contar com esse movimento de autocorreção. Quando as mentiras tornam o sistema político disfuncional, é possível que os resultados negativos acabem por realimentar a mesma alienação e o mesmo descrédito nas instituições que estão na própria origem da política pós-verdade.

Políticos “pró-verdade”, às armas. Para enfrentar essa situação, os políticos comprometidos com os fatos e com a democracia precisam partir para o contra-ataque e incorporar uma linguagem mais aguerrida . Assumir uma posição de humildade e reconhecer os equívocos a que foram levados pela arrogância e pelo excesso de confiança também ajudaria. A verdade conta com forças poderosas a seu lado.

As democracias também têm instituições que podem ajudar. Sistemas judiciários independentes dispõem de mecanismos para estabelecer a verdade. O mesmo se aplica a órgãos criados para orientar a implementação de políticas públicas - em especial os que têm laços com a comunidade científica.

Se Trump for derrotado em novembro, a política pós-verdade parecerá menos ameaçadora, muito embora o bilionário tenha feito sucesso demais nos últimos meses para que ela suma do mapa de uma hora para a outra. Bem mais preocupante é a situação de países como Rússia e Turquia, onde autocratas recorrem à pós-verdade para silenciar os adversários. Deixadas à deriva num oceano de mentiras, as pessoas não terão em que se agarrar. Embaladas pela novidade da política pós-verdade, correm o risco de se ver nas mãos da opressão à moda antiga. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER



Erasmo Carlos cantando "Pega na Mentira" em 1981. Premonitório?




segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Ateus e religiosos se parecem quando fazem julgamentos morais

Matéria publicada no Brasil Post:


Ciência: religiosos e ateus são igualmente propensos a fazerem coisas erradas, diz pesquisa


Macrina Cooper-White

Te cuida, bancada evangélica! A ciência comprova: ao contrário do que parece, religiosos não são mais certinhos que os céticos.

É o que revela uma nova pesquisa que deve criar polêmica: religiosos e ateus são igualmente inclinados a fazerem coisa errada.

“Pelo que sabemos, é o primeiro estudo que aborda diretamente como a moral afeta a experiência diária das pessoas”, disse por escrito Linda Skitka, psicóloga da Universidade de Illinois em Chicago e coautora de um artigo descrevendo a pesquisa.

Para a pesquisa, uma equipe de pesquisadores liderada pelo psicólogo Wilhelm Hofmann, professor da Universidade de Colônia, na Alemanha, recrutou 1.252 pessoas entre 18 e 68 anos.

Os participantes completaram um questionário para indicar seu nível de religiosidade – desde “nem um pouco” até “muito” religiosos. O levantamento também mostrou onde eles se posicionavam no âmbito político, desde “muito progressista” até “muito conservador”.

Em seguida, os entrevistados receberam questionários por sms cinco vezes ao dia, por três dias.

Nessas perguntas, homens e mulheres descreveram qualquer ato moral ou imoral cometido ou presenciado nos últimos 60 minutos – exemplos incluíam “dei um sanduíche extra que levava comigo a um mendigo”, ou “peguei meu filho adolescente olhando pornografia pesada.” Para cada ato, eles descreveram o que tinha acontecido e como se sentiram sobre o fato.

O que os pesquisadores descobriram? Pessoas religiosas e não-religiosas cometeram aproximadamente o mesmo número de atos imorais. Além disso, nenhuma diferença foi identificada entre progressistas e conservadores.

As pessoas revelaram ter praticado mais boas ações do que maldades, e disseram ter tido conhecimento de mais maldades do que boas ações.

Os pesquisadores também identificaram que as pessoas que se beneficiaram de boas ações frequentemente as “retribuíram”, fazendo algo bom para alguém em outro momento.

As únicas diferenças entre os religiosos e os não-religiosos foram notadas em como eles se sentiram e descreveram atos morais.

As pessoas religiosas se mostraram mais propensas em expressar orgulho quando praticavam atos morais, gratidão quando eram beneficiadas por atos morais, e culpa e desgosto em relação aos imorais.

Os conservadores e progressistas divergiram sobre os tipos de atos morais nos quais se concentravam.

“Os liberais mencionam mais frequentemente fenômenos morais relacionados à justiça e à honestidade”, disse à revista LiveScience o coautor do estudo Dan Wisneski, psicólogo e professor da Saint Peter’s University em Jersey City, Nova Jersey.

“Conservadores mencionam mais frequentemente fenômenos morais relacionados à lealdade e à deslealdade ou à santidade e degradação”.

Embora essas conclusões possam fornecer uma pequena pista sobre nosso nível de moralidade, os psicólogos esperam conduzir mais pesquisas via smartphones para descobrir mais sobre como interagimos uns com os outros no mundo real.

O estudo foi publicado em 12 de setembro pela revista Science.




domingo, 6 de julho de 2014

O ateísmo religioso entre Dawkins e Dworkin

Artigo publicado no IHU:

O ateísmo religioso de Ronald Dworkin

O último livro do filósofo Ronald Dworkin (1913-2013) foi publicado na Itália pela editora Il Mulino, com o título Religione senza Dio. Publicamos aqui o comentário do cientista político italiano Sebastiano Maffettone, professor da Libera Università Internazionale degli Studi Sociali Guido Carli de Roma.

O artigo foi publicado no blog Sperare per Tutti, 25-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Correndo o risco de cansar os meus 25 leitores, assinalo o lançamento do livro póstumo de Ronald Dworkin, Religion without God. Eu já tinha falado a respeito dele antes que o livro saísse, por ocasião da publicação de um artigo de Dworkin sobre o mesmo tema.

O lançamento do livro, porém, permite uma melhor exposição das ideias do autor e, acima de tudo, as apresenta em um marco geral mais claro. O principal problema discutido continua sendo o "ateísmo religioso". A tese central defende que a religião é mais profunda e importante do que Deus.

A religião de que fala Dworkin corresponde kantianamente à ética. Não qualquer tipo de ética, contudo, serve para essa tarefa. Deve-se tratar de uma ética baseada na ideia de valor objetivo. O valor, nessa ótica, permeia o universo e nos leva a pensar que a vida humana tem um sentido, e o mundo, uma ordem.

Segue-se daí que a divisão clássica entre pessoas religiosas e não religiosas é grosseira demais. Seria melhor dividi-las em crentes e não crentes, em que os crentes também incluem aqueles que compartilham de uma ética baseada no valor objetivo. Estes podem muito bem não acreditar em um Deus pessoal como o da Capela Sistina, mas acreditam em uma espécie de força espiritual que permeia a nós e ao mundo.

Depois de um primeiro capítulo introdutório, em que se apresenta a tese principal com os seus adiantamentos na literatura e na ciência, há três capítulos: o primeiro, dedicado ao universo, à física e ao sublime; o segundo, à liberdade religiosa; o terceiro, à morte e à imortalidade.

A tese central do capítulo introdutório afirma que as religiões teístas – como judaísmo, cristianismo e Islã – sempre têm dois aspectos, um científico e um valorial. A parte científica refere-se ao nascimento do universo e à origem da vida. A parte valorial nos diz como deveríamos viver e por quê. Dworkin argumenta – seguindo Hume – que a parte científica de uma religião não pode fundar a valorial, e que alguns ateus e os religiosos podem compartilhar a parte valorial.

Desse ponto de vista, o livro é mais uma crítica ao ateísmo militante – o que segue o estilo de um Dawkins, para que nos entendamos – do que à religiosidade teísta.

O segundo capítulo busca uma explicação teórica, ligada à física – o livro tem origem nas Einstein Lecturas, proferidas por Dworkin em Berna, em dezembro de 2011 –, da beleza do universo, do sublime que vemos no fundo da pesquisa. Depois de um virtuoso excursus entre arte e física teórica, Dworkin chega a defender que o sublime consiste na inevitabilidade do que acontece.

O terceiro capítulo trata da liberdade religiosa, dizendo que, mesmo do ponto de vista legal, os ateus crentes devem ser assimilados aos religiosos.

O último capítulo, sobre morte e imortalidade, tem um caráter especial se considerarmos que Dworkin o escreveu durante um período em que a leucemia que o levaria à morte, em fevereiro de 2013, se agravava. Não há a necessidade de um deus pessoal – sugere Dworkin – para dar um sentido a vida após a morte. Basta que acreditemos realmente na vida e no valor objetivo da nossa experiência, comportando-nos de uma maneira coerente com isso.

Dworkin certamente era um grande estudioso, mas não um especialista em teologia. Pessoalmente, sou fascinado pela sua tese central sobre o valor e acredito com convicção que ser ateu não envolve ceticismo moral. Espero também que alguns teólogos de valia levem a sério a sua tese e a discutam.





quarta-feira, 19 de junho de 2013

Descendente de Darwin se torna apologista católica

Laura Keynes, descendente direta de Charles Darwin, quem diria, se tornou uma apologista católica. Ela é tetraneta (da 4ª geração de netos) do renomado cientista britânico.

Laura se juntou recentemente ao projeto Catholic Voices, que se propõe a fazer a voz da igreja católica ser ouvida na mídia.

Na edição desta semana da revista Catholic Herald, ela conta como retornou à fé católica de sua infância após um longo período de agnosticismo.

Seu pai era ateu e sua mãe havia passado um curto período no catolicismo, embora posteriormente tenha se tornado budista. Mesmo assim, Laura foi batizada como católica.

Na adolescência, Laura se tornou agnóstica e se afastou de qualquer contato com a igreja de Roma.

Bem mais tarde, quando fazia um doutorado em Filosofia na Universidade de Oxford ela sentiu a necessidade de voltar a pensar naqueles valores quando teve que enfrentar questões sobre relacionamentos, feminismo, relativismo moral e a santidade e a dignidade da vida humana.

Curiosamente, no artigo em questão, Laura revela que suas reflexões sobre o livro "Deus, Um Delírio", de Richard Dawkins, a fizeram seguir o caminho contrário ao proposto pelo conhecido líder ateu.

Ela afirma que "o neoateísmo parece ter a semente da intolerância e do desprezo por pessoas, o que poderia somente minar os clamores humanistas por liberalismo".

Prossegue a tetraneta de Darwin dizendo que "se o apelo do ateísmo ao alto nível intelectual é fundado na habilidade característica do meu ancestral em explorar e analisar inconsistências na evidência, essa mesma característica familiar me leva a ter uma abordagem cética do que pode e do que não pode ser conhecido como absoluto"

Antecipando-se à provável pergunta sobre como seus parentes receberam sua decisão, Laura disse que "o fato de que eu escolhi livremente ser uma católica após muita reflexão e análise, e de não ter sofrido lavagem cerebral para tanto, desconcertou meus amigos e minha família".

Acrescenta que chegou a ouvir um comentário sussurrado entre eles: "Mas ela parecia uma garota tão inteligente". Ter o sobrenome Darwin e ser católica, segundo ela, confunde as expectativas das pessoas a seu respeito.

Talvez os genes que mais influenciaram Laura não tenham sido os do tetravô Charles Darwin, mas aqueles de outro ascendente mais antigo, do século XVII, o padre jesuíta John Keynes, que escreveu "Um compêndio racional para convencer sem qualquer menosprezo todas as pessoas que por qualquer razão se desviam da verdadeira religião".



sábado, 8 de junho de 2013

As muitas dimensões da mentira

Interessante entrevista com o filósofo Newton Bignotto, professor de filosofia política da UFMG, em que ele discorre sobre as distintas dimenções da mentira no nosso cotidiano. A matéria foi publicada no Estadão em 25/05/13:

Pega na mentira

Num mundo onde não é possível ter certezas absolutas, certa dose de ceticismo combina bem com a vida nas democracias, diz filósofo

Presidente do Supremo, Joaquim Barbosa soltou o verbo na universidade dias atrás: “Temos partidos de mentirinha. Diria que o grosso dos brasileiros não vê consistência ideológica e programática em nenhum dos partidos. E tampouco seus partidos e os seus líderes partidários têm interesse em ter consistência programática ou ideológica. Querem o poder pelo poder”. E disse alguma mentira?

No paralelo, o estilo “mentirinha” – fábula, farsa, ficção, lorota, tró-ló-ló e afins – pipocou noutras páginas nessa semana: os ruidosos rumores sobre o fim do Bolsa Família, atribuídos por outrem a intriga da oposição; o grampo na conversa do jornalista venezuelano Mario Silva, amigo do finado Hugo Chávez, sobre um possível golpe no país – no fim, o jornalista não negou que a voz fosse sua, mas culpou Mossad e CIA pela “falsificação” do diálogo; a morte do imigrante checheno Ibragim Todashev, suspeito de envolvimento no atentado em Boston, durante interrogatório no FBI – que diz que o suspeito estava armado no bureau. E por aí vão as tantas labirínticas questões da verdade e da mentira na arena política. Nessas curvas, o ceticismo. Afinal, no que dá para acreditar?

“É inegável que uma certa dose de ceticismo combina bem com a vida nas democracias. De fato, estamos mais céticos. E isso não é uma especificidade brasileira. O fenômeno ocorre em várias democracias atuais”, diz Newton Bignotto, professor de filosofia política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Mas se não pudermos acreditar em nada, isso leva ao desespero ou a uma visão apocalíptica da realidade. Desconfiar de tudo e de todos acaba tornando impossível a vida política”, pondera o autor de As Aventuras da Virtude (2010) e Maquiavel (2003). Pós-doutor pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, é um dos organizadores de Dimensões Políticas da Justiça (2013). A seguir, a entrevista.

No Brasil, a política é realmente um jogo com partidos ‘de mentirinha’?

Todos ficamos incomodados com a maneira como os partidos políticos brasileiros se formam e se comportam. Mesmo partidos que já tiveram um perfil ideológico mais nítido, como o PT e o PSDB, hoje parecem ter perdido o eixo e disputam o poder como se não se importassem com a afirmação de suas diferenças. Outros partidos parecem existir somente para disputar eleições e ocupar espaços nas esferas de poder. Mas é preciso tomar cuidado para não trocar a análise da vida política brasileira concreta por aquilo que deveria ser idealmente. Em primeiro lugar, mesmo que semelhantes, há diferenças entre os partidos, as quais impactam na vida de milhões de brasileiros quando são transformadas em políticas públicas. Nesse sentido, não são exatamente “de mentirinha”. Em segundo lugar, é preciso ver que os partidos existentes refletem a sociedade em muitos de seus aspectos. A existência de partidos sem perfil ideológico definido se deve também ao grau de despolitização de franjas importantes da população. Por outro lado, pequenas formações partidárias defendem ferozmente os interesses de grupos particulares. Veja, por exemplo, a resistência de certas formações políticas a temas como o casamento gay. Assim, não podemos falar de acaso, ou de algo anedótico. Essa é a posição de uma parte da população brasileira e alguns partidos refletem isso de forma muito explícita. Talvez esse não seja o melhor dos mundos, mas se quisermos compreender o Brasil, ou mesmo mudá-lo, teremos de olhar para esse tecido político dividido e corrompido. Essa é a matéria da política brasileira e, em alguma medida, podemos dizer, sua verdade.

Outra ‘mentira’ foi o fim do Bolsa Família. Como uma sociedade pode acreditar em rumores até agora não rastreados?

Boatos fazem parte da vida pública desde a Antiguidade. Na Roma antiga, era comum a pichação de muros com afirmações referentes a personagens importantes da cidade, o que impactava diretamente a vida política. Um rumor é um acontecimento político. Só se espalha porque toca num ponto sensível da sociedade. A questão central não é a veracidade ou a falsidade, mas o impacto que o boato causa na cena pública. E o que ele revela. No fundo, identificar a origem do boato não é tão importante quanto descobrir o que ele esconde. O rumor sobre a suspensão do Bolsa família revela não apenas a importância para grandes parcelas da população, mas as resistências que o programa suscita em alguns atores políticos. O boato provocou um efeito real – o pânico, no caso – e uma disputa em torno de uma prática política e de uma visão da realidade brasileira.

Hannah Arendt diz que a política envolve, essencialmente, a produção e a dispersão de narrativas ‘convincentes’. Mentir está na essência da política?

Arendt não quer dizer que a mentira “define” a política – isto é, sua essência –, e sim que a disputa entre verdadeiro e falso na arena pública não é um problema de lógica. Concerne aos fatos, mas também à percepção desses fatos. Por isso, a política é o terreno onde competem narrativas. A realidade não desaparece pelo simples fato de que construímos discursos sobre ela. Criar um discurso é uma maneira de interferir no real. O uso intensivo da propaganda pelos regimes totalitários mostra isso perfeitamente. Por isso, a defesa de um regime de liberdades não pode ser apenas uma defesa da coerência lógica de seus princípios. É preciso partir desse ponto para propor a um país uma narrativa sobre sua história e seus desafios capaz de sustentar uma escolha pela liberdade. A verdade é matéria para uma luta de natureza política. A mentira não vai desaparecer da cena pública por ser eticamente condenável. Terá de ser combatida. Esse combate se dá com as mesmas armas que nos levam a construir discursos que queremos verdadeiros sobre nosso tempo.

Immanuel Kant também se debruçou sobre a mentira. As ideias do filósofo ainda valem para os dias atuais?

No texto Sobre um Pretenso Direito de Mentir por Amor à Humanidade, Kant investiga se há casos nos quais podemos mentir por razões “humanitárias”. Sem entrar nos detalhes, podemos dizer que o filósofo nega que se possa mentir e continuar fiel a seus princípios e à razão. Dizer a verdade é uma obrigação moral absoluta, que não pode ser quebrada. Essa posição radical contra toda forma de mentira foi muito influente em seu tempo e continua a ser discutida por pensadores atuais.

O sr. é um estudioso de Maquiavel. Que ideias o italiano traz sobre a ‘verdade’?

Maquiavel se preocupa em fundar um saber sobre a política na “verdade efetiva das coisas”. Assim se distancia de toda filosofia política que quer pensar o real a partir de modelos abstratos – que pretendem nos ensinar a viver, mas são incapazes de dizer como vivemos de fato. Essa guinada realista não o conduziu, no entanto, a acreditar que haja uma verdade na política que possa ser expressa de forma absoluta. O problema é que, no cenário da política, não podemos nos guiar por ideais irrealizáveis, por “utopias” diríamos hoje. Isso pode nos conduzir a simplesmente destruir as bases sobre as quais se funda um poder. Ao mesmo tempo, é preciso notar que o real é composto por vários elementos, entre os quais o simbólico e o imaginário ocupam lugares de destaque. Por isso, a política é tão fascinante e tão difícil de entender. Para além da posição realista, Maquiavel nos legou uma compreensão da complexidade da cena pública, que pode ser um bom remédio para os dogmatismos e as ideologias totalitárias.

Os bastidores venezuelanos também marcaram a semana. Teorias da conspiração entram no jogo político?

Essas teorias são parte da realidade política, porque constroem um discurso que se pretende verdadeiro. Assim fazem ao sugerir explicações que parecem mais profundas do que as que muitas vezes podem ser formuladas por cientistas sociais, filósofos ou jornalistas. Operam calcadas na ideia de que toda realidade pode ser explicada por uma lógica que apenas alguns são capazes de conhecer. Teorias da conspiração não são propriamente teorias políticas, mas seu uso no combate político é muito real. O essencial é que, ao veicular a ideia de que há uma causa escondida para tudo, essas teorias negam que ações políticas sejam frutos da liberdade dos homens e que por isso podem ser contingenciais. Como só alguns conhecem as verdadeiras articulações do real, apenas eles podem reivindicar o poder.

Na política americana, o FBI deu ‘frágeis’ justificativas para a morte de um suspeito.

Não tenho como saber o que aconteceu nos Estados Unidos, mas é possível observar que a morte do suspeito desencadeou uma disputa sobre seu significado que só é possível numa sociedade democrática. Se essa disputa caminhar é um sinal de que as instituições ainda garantem os valores essenciais da república. Se forem varridas para debaixo do tapete é um sinal de que não se trata apenas de um problema de credibilidade, mas de garantias constitucionais. E isso pode ser muito grave.

Como diz o filósofo Oswaldo Porchat, ainda é preciso ser cético?

Porchat deu uma grande contribuição para a filosofia, com sua visão renovada do ceticismo. Em sua versão antiga, o ceticismo põe em dúvida a possibilidade de que proposições possam conter toda a verdade sobre uma coisa. Assim, elimina a ideia de que o papel da filosofia é explicitar a verdade em todas suas formas. Muitos céticos insistem não apenas sobre o fato de que o ceticismo introduz um elemento importante para a compreensão das ciências como processo de busca da verdade, mas altera nossa forma de olhar o cotidiano. Uma das consequências pode ser o afastamento da vida pública e o desenvolvimento de uma certa apatia, que seria adequada às sociedades atuais. É possível, no entanto, pensar o ceticismo como uma vacina contra todas as formas de dogmatismo. Nesse caso, continuamos a participar da vida pública sem, no entanto, acreditar deter a verdade sobre elas. Valores como tolerância e respeito às diferenças passam a nos orientar em um mundo no qual não é possível ter certezas absolutas. Talvez não possamos falar propriamente de uma filosofia política cética, mas é inegável que uma certa dose de ceticismo combine bem com a vida nas democracias. De fato, estamos mais céticos. E isso não é uma especificidade brasileira. O fenômeno ocorre em várias democracias atuais.

Com instituições tão abaladas, como uma sociedade resiste e não se desmantela? Quer dizer, em que ou em quem se pode confiar?

Realizamos no Centro de Referência do Interesse Público (Crip-UFMG) pesquisas de opinião sobre a corrupção. Ali constatamos que a população pensa que as instituições políticas são corrompidas, mas é possível confiar em amigos e familiares. Isso mostra que há uma certa consciência da população brasileira de que a corrupção é um fenômeno importante de nossas vidas, mas não é absoluto. De fato, se não pudermos acreditar em nada, isso leva ao desespero ou a uma visão apocalíptica da realidade. Para vivermos em uma república, é preciso algum grau de confiança nas pessoas e mesmo nas instituições. Por isso, a corrupção é tão ameaçadora para um Estado de Direito. Desconfiar de tudo e de todos acaba tornando impossível a vida política, no lugar de propor um entendimento correto do que se passa e de como lutar contra as ameaças muito reais que corroem nossas vidas em comum.

É possível manter relações sociais sem mentiras? Tipo ‘supersinceridade’?

É diferente ao se tratar da vida privada ou da vida pública. Não que a sinceridade não seja um valor nas duas esferas. Mas não pode ser vivida da mesma maneira em uma relação amorosa e em uma relação política. Na dimensão particular, é preciso lembrar que o desejo de ser absolutamente sincero e transparente esbarra no fato de que nem sempre somos transparentes para nós mesmos. Ora, na esfera pública, nem sempre a transparência é o melhor caminho para se preservar outros valores como a liberdade individual ou o direito à privacidade. Transformar a sinceridade em valor absoluto pode acabar comprometendo a sobrevivência das instituições democráticas. Ser totalmente “sincero”, por exemplo, sobre os meios de defesa de um país pode colocá-lo em risco diante de seus inimigos. Se tudo tiver de ser transparente, acaba a separação entre vida privada e vida pública e, como já mostrou Arendt, acaba também a política como expressão da liberdade.

E rompantes de franqueza, como mostrou o ministro Joaquim Barbosa, são levados a sério? No fim, que bem faz a verdade?

As palavras do ministro devem ser levadas a sério não por indicarem uma crise passageira entre os poderes da república brasileira, mas por mostrarem uma dimensão essencial da política contemporânea. Recentemente participei da organização do livro Dimensões Políticas da Justiça. Nele, pesquisadores procuram debater as diversas faces do conturbado relacionamento entre Justiça e política. O eixo desse trabalho é a ideia de que não se pode separar essas duas esferas da vida pública, sob pena de se deixar de lado um aspecto essencial da realidade atual. Talvez o fato mais importante seja a invasão da política pela lógica do Judiciário. Conflitos políticos são tratados como disputas jurídicas e perdem sua especificidade, alterando as regras que os guiam. Assim, quando o Congresso recorre repetidamente ao Judiciário para resolver suas querelas, abre mão de suas regras de embate para adotar aquela de um outro poder. Ora, o que Montesquieu já mostrou é que não buscamos o equilíbrio entre os poderes por uma razão moral, mas porque os poderes tendem a devorar os espaços dos outros. Por isso, precisam ser equilibrados para não levarem à perda do eixo de sustentação da vida republicana. No caso brasileiro, a judicialização da política implica o enfraquecimento do Poder Legislativo. Do outro lado, implica a politização do Poder Judiciário. Esse confronto é revelador de um processo muito mais amplo e profundo – e não apenas o sinal de uma crise envolvendo personalidades do momento.



sábado, 20 de abril de 2013

Ninguém mais vê fantasmas ou OVNI's. Por quê?

Já reparou que, a cada dia que passa, menos gente alega ter visto fantasmas ou discos voadores? Por que será? Stuart Walton resolveu investigar esse curioso "fenômeno ao contrário", em artigo publicado na Aeon Magazine, traduzido e adaptado parcialmente pelo Gizmodo brasileiro:

Por que paramos de ver OVNIs nos céus?

Stuart Walton

Em uma noite do começo do verão de 1981, acordado e deitado em minha cama no topo de uma casa em Manchester, eu encontrei umas luzes brilhantes piscando na parede. Tudo o que eu conseguia ver através da janela no lado oposto da sala era um pedaço do céu nublado. A luz piscante estava vindo de dentro, ou talvez por trás de um grupo de nuvens. Continuei observando e um objeto se materializou de dentro da nuvem, avançando até parar em uma visão plana do céu noturno.

Era algum tipo de nave surpreendentemente grande, achatada e com bordas arredondadas, como uma frigideira antiga, ou quem sabe um enorme muffin inglês. Era um prateado cintilante coberto por um padrão de luzes brancas piscantes. Após pairar por alguns segundos, começou a se mover pelo céu, e assim que chegou ao lado direito da minha janela, eu me inclinei para o lado da cama para continuar vendo. Em um certo momento ela parou seu progresso e, no mesmo ritmo calmo, rezes a rota de volta ao ponto de partida. Lá permaneceu por mais alguns segundos antes de se retirar para as nuvens até que suas efêmeras luzes piscantes tinham inteiramente desaparecido de vista.

Eu não estava bebendo nem usando drogas, não tinha cochilado e reacordado, e não estava em um estado de agitação. Era uma noite perfeitamente normal: eu tinha ido para a cama e estava esperando para cair no sono. Nada remotamente similar tinha acontecido antes, nem aconteceu depois. Se todo mundo pode passar por pelo menos uma experiência inexplicável ou paranormal, esta foi a minha.

Avistamento de OVNIs, assim como todas as outras formas de atividades paranormais, eram bem comuns ao redor do mundo. Stuart Walton, da Aeon Magazine, explica porque eles não acontecem mais.

Avistamentos de OVNIs atingiram seu ápice aproximadamente após uma década do lançamento do fascinante filme Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), de Steven Spielberg. Um bom motivo para acreditar que nunca existiu nenhum OVNI é que mais ninguém viu nenhum. Antes, os céus eram cheios de naves alienígenas, e agora eles voltaram a ser um vazio, retornando apenas estática para telescópios de rádio, e oferecendo chuvas de meteoro esporádicas para os olhos.

Não são apenas os discos voadores que sumiram na história. Eles foram acompanhados, mais gradualmente, por um declínio nas aparições de fantasmas, relatos de assombrações, afirmações de psicocinese e todo o resto. Muitas pessoas com interesse na indústria do supernatural resistem a admitir isso, mas existe menos credulidade entre o público para contos do extraordinário do que existia há algumas gerações. A explicação padrão atribui isso ao crescimento do ceticismo. Mas, como é apropriado para o paranormal, pode ter muitas forças misteriosas por trás disso.

Filmar agora é algo que está ao alcance de todos com smartphones. Circuito fechado de televisão (CFTV) agora observa o nada que está para acontecer em ruas desertas durante a noite. Câmeras de vídeo eram usadas para eventos significativos da vida (casamentos, aniversários), mas agora não são nada com o YouTube. No auge das histórias de fantasmas, o cálice elusivo era uma fotografia ou um filme com alguma emanação espectral. Não deve haver nenhum obstáculo técnico para oferecer isso, e ainda assim tudo o que vemos é um borrão estranho branco que pode ser uma marca na tela.

A dignidade das histórias assustadoras era que, diferentemente de mentiras comuns, elas conseguiam cruzar a linha que divide o altamente improvável com o crível. Se não podiam ser provadas, também não podiam ser desmentidas – exceto ao apontar as leis da física, em linguagem alienadora dita por especialistas que não conseguiam esconder o desprezo pela ingenuidade comum. Agora que muito da cultura do espetáculo evoca a mesma resposta, as leis da física não têm mais direito de dar um ponto final a vídeos mal produzidos no YouTube.

As câmeras de programas de história natural não perdem nada, nem mesmo a nível celular, mesmo na escuridão, e ainda assim tudo parece que é culpa do vídeo. Existem aqueles que continuam acreditando que a chegada do homem na Lua foi falsa só porque a evidência em filme parece fake, e poderia facilmente ser produzida em um estúdio. Em contraste, as imagens em preto-e-branco da autópsia de um alienígena em Roswell, Novo México, são uma fraude óbvia e ofensiva, e pessoas educadas tranquilizaram outras quando o filme surgiu em 1995, esquecendo por um momento que o absurdo não está na cinematografia, e sim na ideia de uma criatura espacial humanoide.

Na era da mídia de massa eletrônica, com tantos flashes ao redor do mundo instantaneamente, quando vídeos, em uma palavra comum, “se tornam virais”, não deve haver dúvida sobre o que é real e o que não é. Ainda assim a massa crítica não é mais crítica. Há um ar de aparência, de “facticidade”, sobre o que nos fazem olhar. O fato de gritar por atenção pública tende a se voltar contra ele.

Alguns anos atrás, eu vi um documentário sobre o declínio dos avistamentos de OVNIs no Reino Unido. Várias pessoas que relataram eles no passado foram convidadas para reviverem as experiências, frequentemente indo aos lugares onde os incidentes ocorreram. Alguns dos entrevistados ainda estavam convencidos da realidade concreta do que viram como estavam na época, embora a orientação do programa era para as explicações prováveis contra um fascínio cultural geral que existiu no passado na ideia de civilizações alienígenas. Um homem viu um misterioso objeto no céu, em algum momento dos anos 1980. Ele desenhou um rascunho logo depois. Por incrível que pareça, era idêntico ao meu.



Este artigo foi reproduzido parcialmente com permissão da Aeon Magazine. Para ler a versão completa, clique aqui.

Aeon é uma nova revista digital de ideias e cultura, publicando uma versão original a cada dia da semana. Ela visa dinamizar conversas sobre visões do mundo, com bons escritores em vários gêneros, incluindo memórias, ciência e reportagens sociais.



quarta-feira, 7 de março de 2012

Veredito oficial sobre autenticidade de relíquias bíblicas sai no dia 14 de março

Quem nunca ouviu falar do ossuário de Tiago? Foi em 2002 que a notícia de sua descoberta causou grande alegria em cristãos, enquanto despertou a desconfiança em vários céticos. Afinal de contas, este ossuário que trazia as inscrições "Tiago, Filho de José, irmão de Jesus" era uma grande evidência da historicidade de Jesus Cristo, além de outras que possuímos (e que foram muito bem analisadas por Marcelo Berti, cujos textos estão disponíveis no site e-cristianismo). Não demorou muito, no entanto, para questionarem a autenticidade daquela inscrição. Desde então, o simples questionamento foi usado como argumento pelos ateus, como se a história deste ossuário tivesse terminado por ali mesmo.

Mas tal descoberta não poderia deixar de gerar controvérsias, chegando a proporções que não eram imaginadas até então. Foi em dezembro de 2004 que o IAA (Israel Antiquities Authority) e o Estado de Israel abriram processo contra Oded Golan e quatro judeus que vendem antiguidades. Três destes judeus foram retirados do processo logo no início, ficando apenas Golan e Robert Deutsch, o maior vendedor de antiguidades de Israel, e também especialista em epigrafia. Eles foram indiciados por produzir e vender artefatos antigos falsos, entre eles, o ossuário de Tiago. Outros dois artefatos muito importantes estão sendo investigados pelo tribunal: uma romã de marfim, com as inscrições "[Pertencendo] à Casa [Templo] de [Yavé]h; sagrado aos sacerdotes" e uma tábua de pedra conhecida como Tábua de Joás. Assim, para provarem sua inocência, Oded Golan e Robert Deutsch devem provar que estes artefatos são autênticos. E é por isto que uma discussão arqueológica está sendo conduzida por um tribunal de Israel.

Se a autenticidade destes três artefatos for demonstrada, teremos então três artefatos arqueológicos de valor inestimável. A romã de marfim é talvez a cabeça de um cetro de um sacerdote do primeiro templo de Salomão. Já a Tábua de Joás seria uma inscrição real com 15 linhas de texto hebraico, descrevendo a reforma no templo de Salomão conduzida por Joás. Seu texto é muito parecido com o texto de 2 Reis 12:5-13. O primeiro artefato comprovaria a existência do templo de Salomão, o segundo além de fazer isto, também é a primeira inscrição real que temos do reino de Judá (e um paralelo bíblico do ano de 900 a.C.).

É muito clara, portanto, a importância deste julgamento, não apenas para a arqueologia, mas também para a comprovação arqueológica de muitos dados bíblicos. E dada tal importância, não é de se surpreender que o julgamento tenha durado mais de 7 anos, tendo 116 audições onde 138 testemunhas foram ouvidas. Mais de 12000 páginas de transcrições foram escritas e centenas de opiniões de especialistas, relatórios científicos e outras exposições foram apresentadas à corte. A lista de testemunhas inclui 52 especialistas em vários campos (pátina de pedra, arqueometria, geologia, geoquímica, biogeologia, isótopos estáveis, datação de carbono, preservação de antigos objetos de pedra, inscrição em pedra, restauração, ciência forense, arqueologia, paleografia, epigrafia, linguagens semíticas, pesquisa bíblica, fotografia), além de 36 vendedores de antiguidades, colecionadores, conservadores, empregados de museus e empregados de leilões. Este não é um julgamento comum: há uma grande quantidade de especialistas e cientistas envolvidos nesta discussão.
E depois de todo este tempo, a Biblical Archaeology Society traz a notícia que o veredito deste julgamento finalmente será dado no próximo dia 14 de março. Qual será então este veredito? Há realmente grande expectativa de que os três itens sejam considerados autênticos.

Dos três itens, o ossuário de Tiago é o mais comentado. Antes do julgamento era consenso entre todos de que o ossuário em si era autêntico, ficando-se a dúvida apenas sobre a inscrição. O paleógrafo e arqueólogo, Prof. Andre Lemaire, especialista em inscrições hebraicas e aramaicas antigas, examinou a inscrição em 2002. Para ele a inscrição por completo é antiga e feita em um único evento. O Prof. Hagai Misgav que é especialista em inscrições de ossuários e fez seu doutorado com base neste ossuário, testificou que ele não encontrou nenhuma indicação de falsificação na inscrição. Ambos são testemunhas de acusação, e não são as únicas testemunhas favoráveis à autenticidade da inscrição entre elas.

Os resultados químicos são ainda mais interessantes. Orna Cohen que é arqueologista e química, testificou que analisou a inscrição do ossuário várias vezes e em várias condições de luz diferente, sob várias magnificações, quase examinando letra por letra. Ela testifica que ela achou bio-pátina natural em vários traços de letras da inscrição "irmão de Jesus" que se desenvolveu nos lados e no fundo durante séculos. Com isto ela chega à conclusão que as palavras "irmão de Jesus" foram inscritas em tempos bem antigos. Além disto, ela observa que a bio-pátina dentro das letras é idêntica à da parte de fora do ossuário, cuja autenticidade não era questionada. Uma lista extensa de especialistas também chegaram a pareceres favoráveis à autenticidade do ossuário, sendo eles testemunhas da acusação ou não.

Em resumo, a acusação não conseguiu apresentar uma simples testemunha que fosse especialista em itens de pedra antigos, que provasse que o ossuário não é autêntico. Foram necessários então mais de sete anos para chegar a um veredito sobre estes artefatos, depois de muito estudo e pesquisa, enquanto a militância ateísta considerou o ossuário falso assim que surgiram os primeiros questionamentos (o que é bem natural no campo da ciência). Se o veredito for favorável à autenticidade destes artefatos, o que farão estes ateus, sempre dispostos a defender a ciência quando a discussão é a evolução? Saberemos muito em breve...



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