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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Cuidadores e advogados são os profissionais que menos dormem


A informação foi publicada no portal Nação Jurídica:

Advogados estão em 2º lugar no ranking dos 10 profissionais que menos dormem

Um ranking americano elaborado pela rede de colchões Sleepy’s fez um levantamento dos dez profissionais que menos dormem. Em comum, as profissões lidam com situações de vida e morte ou são extremamente estressantes.

O ranking se baseia em quase 30 mil entrevistas à Pesquisa Nacional de Saúde Americana, feita pelo governo norte-americano. Os entrevistados declaram sua média de sono e suas ocupações. A pesquisa foi divulgada no site do jornal New York Times.

Confira abaixo os 10 profissionais que menos dormem:

1. Acompanhantes de pessoas doentes (6h57min)

2. ADVOGADOS (7h)

3. Policiais (7h1min)

4. Médicos e paramédicos (7h2m)

5. Economistas (7h3min)

6. Assistentes sociais (7h3min)

7. Programadores de computador (7h3min)

8. Analistas financeiros (7h5min)

9. Operadores de máquinas em fábricas (7hmin)

10. Secretárias (7h8min)

Por Amanda Previdelli
Fonte: Guia do estudante



sábado, 30 de dezembro de 2017

É muito provável que a sua percepção de mundo esteja equivocada. Saiba por quê.


Talvez você ache que 2016 foi melhor que 2017, e que não tem jeito de 2018 não ser pior.

Melhor rever esta percepção, de acordo com matéria que foi publicada na BBC Brasil:

Por que achamos que o mundo está pior do que realmente é

No Brasil, a taxa de homicídios hoje é bem mais alta do que no ano 2000, quase metade das meninas e mulheres de 15 a 19 anos engravidaram e quase metade dos adultos sofrem de diabetes.

Essas afirmações acima não correspondem à realidade do país, mas refletem o que pensa a maioria dos brasileiros, segundo a uma pesquisa recém-divulgada pela Ipsos-Mori chamada Perigos da Percepção.

A partir de quase 30 mil entrevistas conduzidas entre setembro e outubro passado em 38 países, a enquete testou a percepção das pessoas sobre 14 temas que causam precupação ou são de grande importância na mídia. Em resumo, a ideia era saber se o que as pessoas achavam sobre esses assuntos estava perto da realidade - "realidade" essa baseada em informações retiradas "de uma variedade de fontes verificadas", segundo a Ipsos-Mori.

A conclusão da pesquisa é de que pessoas no mundo inteiro estão bem equivocadas sobre questões-chave e características da população de seus próprios países.

E no ranking dos países cujas populações mais "erraram" - onde a média percentual obtida pelas respostas esteve mais distante do número "real" - o Brasil aparece em segundo lugar, atrás apenas da África do Sul.

Percepção x Realidade

Mas por que existe essa lacuna entre percepção e realidade? Por que muitos enxergam as coisas piores do que são?

"Nós sabemos de estudos anteriores que isso ocorre, em parte, porque superestimamos o que nos causa preocupação", diz Bobby Duffy, diretor gerente da Ipsos Public Affairs, em texto para apresentar os resultados da pesquisa.

Os pesquisadores afirmam que somos geneticamente programados para acreditar mais nas más do que nas boas notícias.

O estudo mostra, por exemplo, que a taxa de homicídios caiu na maioria dos países analisados, nos últimos 15 anos, mas que a maior parte das pessoas acredita que o quadro piorou.

No Brasil, 76% têm essa percepção, embora o índice tenha permanecido estável em relação ao ano 2000, usado como base de comparação.

A porcentagem de mulheres entre 15 e 19 anos que têm filhos também é superestimada. No Brasil, a média estimada pelos entrevistados foi de 47% - quase a metade das mulheres adolescentes do país. Mas o dado registrado no Brasil corresponde a apenas 6,7%. v O índice de mortes por ataques terroristas ao redor do mundo, que nos últimos anos diminuiu em relação aos 15 anos anteriores, também é percebido de forma equivocada. Apenas um quinto das pessoas entre todas as entrevistadas nos 38 países acredita que houve queda.

Reação é mais forte a imagens negativas

Nossos cérebros, segundo os pesquisadores, processam informações negativas de um jeito diferente e as armazenam de forma a estarem mais acessíveis que as positivas.

Um neurocientista comprovou isso mostrando a pessoas imagens de coisas conhecidas, como pizzas e Ferraris, para estimular sensações positivas, e outras, como um rosto mutilado e um gato morto, por exemplo, para despertar outro tipo de reação.

A partir desse experimento, ele mediu a atividade elétrica no cérebro e constatou que respondemos mais fortemente a imagens negativas.

Temer para sobreviver

A mídia, geralmente, leva a culpa por mergulhar as pessoas em um mar de desânimo e pessimismo.

Eles questionam: se somos alimentados com uma dieta tão implacavelmente negativa, é de admirar que acabemos pensando que o mundo é um lugar terrível?

Na prática, essa hipersensibilidade que temos a informações negativas - ou a más notícias - aparentemente desempenha uma função importante na evolução.

Um cérebro mais sensível a más notícias reage mais intensamente a informações sobre possíveis perigos - o que acaba pesando no instinto de sobrevivência.



sábado, 16 de setembro de 2017

Papa diz que quem nega aquecimento global é "estúpido"


E, cá entre nós, o papa pegou leve...

Chamar esses imbecis, para dizer o mínimo, de "estúpidos", até que ficou simpático.

A matéria é da BBC Brasil:

'O homem é um estúpido': a crítica do papa aos que negam mudanças climáticas

O papa Francisco citou a Bíblia para fazer duras críticas a líderes mundiais que se recusam a levar a sério as ameaças das mudanças climáticas.

"O homem é estúpido, é um teimoso que não vê", disse, atribuindo a frase a uma passagem do Antigo Testamento. Em seguida, emendou: "o homem é o único animal que tropeça duas vezes na mesma pedra".

O pontífice disse que os recentes furacões Harvey e Irma mostraram que os efeitos das mudanças climáticas podem ser vistos "com seus próprios olhos".

"Quem nega as mudanças climáticas tem de perguntar aos cientistas. Eles são claros e precisos", assinalou o líder da Igreja Católica em conversa com a imprensa na sua viagem de volta a Roma, após uma visita à Colômbia.

Ele disse ainda que a história julgará os líderes mundiais que nada fazem para minimizar os danos causados ao meio ambiente.

Apesar de o papa associar o aquecimento global às tempestades que provocaram prejuízo milionário a ilhas do Caribe e aos EUA nas últimas semanas, nem todo mundo concorda com essa visão.

Momento inapropriado

O chefe da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, em inglês), Scott Pruitt, disse ser um momento inapropriado para discutir a relação entre aquecimento global e a passagem dos furacões pelo Caribe e EUA.

Pruitt, que anteriormente declarou não concordar que emissões de dióxido de carbono fossem uma das principais causas do aquecimento global, afirmou à rede de televisão CNN que a especulação sobre "as causas e efeitos dos furacões...são descabidas".

O chefe da agência americana disse que as discussões, nesse momento, deveriam focar nos esforços de limpeza.

O prefeito de Miami, Tomás Regalado, que viu a própria cidade ficar parcialmente submersa depois da passagem do furacão Irma, discorda. Ele declarou ao jornal Miami Herald que "agora é a hora de falar sobre aquecimento global". "É a hora do presidente (Trump), da EPA e de quem mais toma decisões de falar sobre mudança climática".

Podemos associar furacões mais devastadores às mudanças climáticas?

Matt McGrath, analista da BBC para assuntos de meio ambiente, afirma que furacões são fenômenos complexos, difíceis de prever, mesmo com ou sem o aquecimento global como pano de fundo das discussões.

Ligar a incidência e a gravidade do impacto dos furacões a mudanças climáticas, diz McGrath, também é difícil de provar, simplesmente porque são eventos raros e não existe uma quantidade significativa de dados históricos para serem analisados e comparados.

Mas o especialista pondera que há algumas certezas. A equação de Clausius-Clapeyron nos permite afirmar que atmosfera mantém mais umidade, diz ele. Para cada grau Celsius extra no clima, a atmosfera pode conter 7% mais de água. Isso tende a tornar as chuvas ainda mais fortes, quando ocorrem.

McGrath diz que outra certeza é que a temperatura dos mares está mais alta - e cita o cientistas Brian Hoskins, do Instituto de Mundanças Climáticas Grantham, que disse que "as águas do Golfo do México estão 1,5 graus mais quentes que a temperatura registrada entre 1980 e 2010".

O debate sobre mudanças climáticas saiu da pauta oficial do governo dos EUA depois que Donald Trump assumiu a Casa Branca.

O presidente dos EUA reverteu algumas leis de proteção ambiental - muita delas implementadas por Barack Obama. Trump também anunciou a intenção de retirar os EUA do Acordo de Paris, assinado em 2015 por 195 países, como resposta global à ameaça da mudança do clima.

No entanto, não se sabe ao certo o que Trump pensa hoje sobre o aquecimento global. Em 2012, ele escreveu no Twitter que "o conceito de aquecimento global foi criado pela China" para prejudicar a competitividade da indústria norte-americana.

Responsabilidade de todos

O papa Francisco, por sua vez, não tem dúvidas sobre essa ameaça. Ele disse temer que o impacto será maior sobre os mais pobres, e critica abertamente quem não se disponha a agir contra o problema.

Suas declarações recentes foram vistas como críticas veladas a líderes como Trump.

"Eu não acho que seja algo para brincar. Cada pessoa tem sua responsabilidade, os políticos têm as suas."

- Desculpe, Sua Santidade, mas eu não acredito.
- Há esperança para todos, meu filho.
- Eu estou falando sobre mudança climática...
- Então, acho que não há esperança para você...




domingo, 23 de julho de 2017

Sobre magia, auto-ajuda e graça de Deus

Coluna de Leandro Karnal publicada no Estadão de 19/07/17:

A magia do amor

A política absorveu parte do que era a teologia antiga na promessa da felicidade

Existe um livro extraordinário de Sir Keith Thomas: Religião e o Declínio da Magia – Crenças Populares na Inglaterra, Séculos XVI e XVII (Companhia das Letras, 1991). A pergunta básica do professor de Oxford ao lançar o livro, em 1971, foi saber por qual motivo a crença no pensamento mágico declinou na Idade Moderna. O livro é repleto de trechos memoráveis e é daquelas leituras que lamentamos terminar. Qual o motivo para um livro tão fundamental estar esgotado há mais de 25 anos? Trata-se de insondável mistério editorial brasileiro.

Após examinar astrologia, bruxas, fantasmas e outros, ele encerra a obra com um capítulo sobre o recuo das crenças mágicas. Por qual motivo ocorreu o declínio mágico? Para o autor, o avanço do pensamento científico, dos seguros (que diminuem a insegurança) e da própria reforma protestante colaborou para o processo. Porém, uma nova atitude pessoal de confiança em si foi anterior ao processo de crescimento científico. Para Thomas, a magia declinou um pouco antes de um domínio real do pensamento científico. “Na medicina, como em outras áreas, as teorias sobrenaturais saíram de cena antes que entrassem técnicas eficazes” (pág. 537); “Somos, portanto, forçados a concluir que os homens se emanciparam das crenças mágicas sem terem, necessariamente, criado quaisquer tecnologias eficazes para pôr no lugar delas” (pág. 540).

Há, na primeira modernidade, a ascensão de um modelo de confiança e segurança do valor de cada um, que excede o campo do avanço técnico. Os séculos 18 e 19 viram emergir a crença otimista no indivíduo, que tem uma ponta, simbólica, no Iluminismo. Keith Thomas trata do tema da autoajuda, da ideia de autonomia de cada consciência de promover uma melhora efetiva na sua vida e no seu meio. Com certos recuos, a curva ascensional da autoajuda é o sintoma do mundo que substituiu ou transformou as crenças mágicas.

Vejamos três exemplos. Um dos grandes sucessos editoriais do século 19 foi o livro Self-Help, de Samuel Smiles (1812-1904). O livro do escocês é do mesmo ano da Origem das Espécies, de Charles Darwin: 1859. O texto é um louvor ao modelo do empreendedor, citando grandes nomes dos negócios e dando conselhos muito úteis sobre o uso de dinheiro e progresso. Acima de tudo, espalha a ideia de que você é gestor da sua vida. O tímido igarapé de Samuel Smiles viraria um caudaloso rio no mundo atual. Até a morte do autor, o livro tinha atingido a cifra de quase um quarto de milhão de exemplares vendidos e era admirado por quase todos no Império Britânico.

O processo de ascensão do realizador individual que se orienta rumo ao sucesso cresceu. Ele é contemporâneo de duas outras criações. O segundo exemplo é o crescimento da questão do amor materno e da certeza do amor incondicional. A Idade Moderna é a lenta ascensão da figura da mãe e da devoção aos filhos que aparecem no Emílio (1762) de Rousseau ou nas pinturas de madame Vigée LeBrun (1755-1842). O século 19 é o triunfo da criança e do amor materno, consagrado, no início do 20, com a instituição do Dia das Mães.

O amor materno torna-se incondicional e assim será representado. A mãe desnaturada é um monstro e a literatura vai torná-la uma caricatura. As crianças passam a ouvir que são lindas, que podem contar sempre com o auxílio materno e que tudo será perdoado. Mudamos a psicologia do indivíduo ocidental.

O último ponto a transformar é a customização do Deus do Juízo Final, do deus vingativo do Dies Irae e do capítulo 25 de Mateus para um deus de pleno amor e inesgotável perdão. O deus definido como amor (como no apóstolo João) substituiu o Deus do afresco de Michelangelo. Nada de um Jesus juiz, mas um Jesus todo amor. A ascensão do culto católico ao Sagrado Coração, sempre aberto e receptivo, sempre acolhedor e que me ama incondicionalmente é um salto imagético. Os protestantes, com mau humor, chamaram o culto ao Coração de Jesus como “idolatria cardíaca católica”.

Um Deus julgador e terrível condenando almas ao inferno aparece nas visões das crianças de Fátima, mas representam uma voz camponesa e pouco culta de um mundo antigo. A vitória era do misericordioso coração do qual emanam graças incessantes sobre todos. Claro que o tema de Deus-amor é bíblico e a misericórdia divina é milenar. Porém, basta comparar um catecismo antigo cheio de pecados e punições com um atual, cheio da beleza de um Deus sorridente e amigão.

Livros de autoajuda, mães incondicionais e Deus misericordioso expondo seu coração a uma humanidade pecadora são três exemplos (há centenas) de uma nova concepção de um indivíduo otimista e feliz, cheio da ideia de que o mundo o ama e que deve estar à sua disposição. A nova crença em si substituiu (ou sublimou) a crença mágica de outrora. A política absorveu parte do que era a teologia antiga na promessa da felicidade. Relendo a obra de Keith Thomas, interrompia o livro para pensar nos novos deuses humanos, o Homo Deus de Yuval Harari. Terminei o livro no sábado pensando: acho que ainda teremos saudades do pensamento mágico que colocava o mal em bruxas que podiam ser queimadas. O novo homem feliz e realizado é um deus terrível. Boa semana a todos!



quinta-feira, 6 de julho de 2017

Teria sido um bispo inglês medieval o primeiro a ensinar o "big bang"?


A matéria é da BBC Brasil:

Como um bispo medieval adiantou a teoria do Big Bang no século 13

O livro bíblico do Gênesis, no capítulo 1, versículo 3, conta: "E Deus disse: faça-se a luz! E a luz foi feita".

Mas esse foi apenas o começo da criação do universo. Isso, de acordo com a Bíblia, é o que Deus fez depois da luz:

"E disse Deus: Haja luzeiros no firmamento do céu para dividir o dia e a noite, e para sinais e para estações, e para dias e anos;
e sirvam de luminares no firmamento do céu para alumiar a terra. E assim foi.
E fez Deus os dois grandes luminares, o luminar maior para governar o dia e a luz menor para governar a noite; fez também as estrelas.
E Deus os pôs no firmamento do céu para alumiar a terra, e para governar o dia e a noite, e para separar a luz das trevas. E Deus viu que isso era bom."

No século 13, um estudioso inglês da ordem dos franciscanos mergulhou nesse tema.

Robert Grosseteste trabalhou em um dos grandes centros de aprendizagem em Oxford, local que as pessoas já tinham começado a chamar de "faculdade".

Para Grosseteste, tudo tinha a ver com a luz, até o ato divino primordial da própria criação.

Mas como exatamente Deus fez a criação?

A resposta do religioso foi a primeira tentativa de descrever os céus e a Terra usando um conjunto de leis.

Do ponto de vista de Grosseteste, tudo começou com a luz e a matéria explodindo a partir de um centro: uma versão medieval do Big Bang.

Sua história mostrou como a fé em princípios científicos, combinada com a crença em um cosmos ordenado por Deus, resultou em uma ideia surpreendentemente profética. Inicia com luz...

Mas o que é a luz? Essa pergunta nunca foi simples.

Alguns dos primeiros escritores cristãos pensavam que havia dois tipos diferentes de luz.

A lux, como era chamado em latim, era o que Deus usou para fazer o cosmos, uma espécie de força criativa divina, quase uma manifestação do próprio Deus.

A outro era lúmen, luz comum que emana de corpos celestes e nos permite ver as coisas.

Essa visão fica evidente para qualquer pessoa que tenha estado em uma catedral gótica inundada pela luz que entra através dos vitrais das janelas.

Sacerdotes e teólogos pensavam que, ao contemplar a bela lúmen da igreja, os fiéis seriam atraídos pela lux bendita de Deus.

Religião e ciência

Embora hoje pareça haver um conflito entre ciência e religião, durante grande parte da história a religião foi uma grande motivação para a busca de conhecimento no mundo.

Nas escolas das catedrais dos séculos 11 e 12 - predecessoras das universidades - alguns estudiosos pensavam que era seu dever aprender mais sobre o universo que, para eles, havia sido criado por Deus.

Eles não consultavam apenas a Bíblia: liam os escritos dos antigos gregos como Platão, Aristóteles e Hipócrates, que tinham sido preservados em traduções feitas por escritores islâmicos.

O aprendizado sobre o mundo natural floresceu na era das grandes catedrais góticas, e muitos historiadores falam de um primeiro Renascimento no século 12.

A mais bela das entidades

No início do século 13, ele era um professor proeminente, erudito e, como todos os pesquisadores em Oxford, cristão devoto. Em 1235, tornou-se bispo de Lincoln, na Inglaterra.

Para ele, a luz era uma das mais maravilhosas criações de Deus.

"A luz física é a melhor, a mais deleitável, a mais bela de todas as entidades que existem. A luz é o que constitui a perfeição e a beleza de todas as formas físicas", escreveu.

Mas Grosseteste não se conformava com apenas apreciar a luz que entrava pelas grandes janelas da catedral gótica de Lincoln. Ele começou a estudá-la como um cientista. Analisou, por exemplo, a passagem da luz através de um copo de água.

Ele percebeu que lentes poderiam ampliar objetos, e quando alguém lê o que o bispo escreveu sobre o assunto, começa a se perguntar por que demorou mais de 300 anos para que telescópios e microscópios fossem inventados.

"Esta parte da ótica, quando bem compreendida, mostra-nos como podemos fazer as coisas que estão a uma distância muito grande parecerem como se estivessem muito próximas, e as coisas grandes que estão perto parecerem muito pequenas, e como podemos fazer as pequenas coisas que estão distantes parecerem de qualquer tamanho que queremos, de modo que poderia ser possível ler as letras mais pequenas a distâncias incríveis ou contar a areia ou sementes ou qualquer tipo de objetos minúsculos", escreveu Grosseteste.

Além disso, ele notou que a luz muda de trajetória ao passar do ar para a água, um efeito chamado de refração.

Como outros antes dele, Grosseteste viu que a luz poderia dividir-se em um espectro colorido como um arco-íris, e escreveu um tratado sobre o fenômeno, no qual chegou perto de explicar sua origem: pensou que as nuvens agiam como uma lente gigante que refratava a luz e a enchia de cor.

"De luce"

Em 1225, Grosseteste reuniu o que havia concluído sobre a luz em um livro chamado "De Luce" (Sobre a Luz).

Era uma mistura de teologia, ciência, metafísica e especulação cósmica.

Mas tratava, em particular, da questão de como Deus fez todo o cosmos usando a luz.

Em vez de tratar a criação como uma espécie de ato mágico, Grosseteste começou a transformá-la em um processo natural, algo que hoje chamaríamos de "estudo científico".

Como muitos de seus contemporâneos, ele acreditava que Deus trabalhava com princípios simples, baseados em regras que a humanidade poderia compreender pela lógica, geometria e matemática.

"Todas as causas de efeitos naturais devem ser expressadas por meio de linhas, ângulos e figuras, porque caso contrário seria impossível ter conhecimento da razão destes efeitos", escreveu.

E como o universo era governado pela matemática, era também ordenado e racional - e seria possível deduzir suas regras.

Na verdade, a descrição de Grosseteste da criação divina é tão precisa, que pode ser expressada em um modelo matemático, algo que historiadores e cientistas da Universidade de Durham, no Reino Unido, fizeram com a ajuda de um computador.

A máquina do mundo

Para Grosseteste e seus contemporâneos, o universo consistia na Terra, que ficaria no centro, e todos os corpos celestiais - o Sol, a Lua, os sete planetas conhecidos e as estrelas que giravam ao seu redor em círculos perfeitos.

Mas, para ele, tudo começou com uma espécie de Big Bang, no qual uma explosão de luz - do tipo lux - fez com que uma densa esfera da matéria se expandisse, tornando-se cada vez mais leve e diluída.

"Essa expansão dispersaria a matéria 'dentro de uma esfera do tamanho da máquina do mundo', que é como ele chama o cosmos", diz Tom McLeish, um dos físicos da Universidade de Durham que traduziu a teoria cosmológica de Grosseteste para um modelo matemático.

"Mas logo encontra um problema: (a matéria) não pode se expandir infinitamente, porque nessa época o universo era enorme, mas finito. Como pará-lo? Com uma brilhante ideia científica. Pensando como um físico, recorre a algo simples para explicar não apenas como (o universo) deixa de expandir, mas como as esferas são formadas."

Uma luz brilhante na escuridão

"Se você não pode alcançar o vazio, porque a natureza tem aversão a ele", reflete Grosseteste, "deve haver uma densidade mínima, e quando chega-se a ela, a (matéria) tem que cristalizar".

Seguindo essa linha de raciocínio, isso ocorreria em primeiro lugar na parte mais distante: o firmamento. Esse se cristaliza primeiro e se aperfeiçoa, adquirindo luz - lúmen-, que também empurra a massa, neste caso, para dentro, e, portanto, são criadas as esferas nas quais residem os planetas, o Sol, a Lua e a Terra.

"Outro pensamento moderno que ele teve foi que, quando olhamos para o céu, o universo que vemos de alguma forma contém os rastros ou eco dos processos que o formaram", disse McLeish.

"Isso é precisamente o que os cosmólogos pensam hoje em dia. Lembre-se da busca por microondas no eco do Big Bang", acrescentou com entusiasmo.

"A única parte obscura da Idade das Trevas (entre a queda de Roma e o Renascimento) é a nossa ignorância sobre essa época. Grosseteste é um pensador impressionante", disse McLeish.

"A história que me contaram quando era jovem era que antes de 1600 não havia mais do que misticismo, teologia e dogmatismo. E de repente apareceram Galileu, Kepler, uau! Tudo é luz e iluminação, e voltamos a andar com a ciência ", diz o físico.

"Mas a verdade é que a ciência não funciona assim. Todos nós damos pequenos passos e, como disse Isaac Newton, todos nós subimos nos ombros de gigantes. E Grosseteste é um daqueles gigantes em cujos ombros subiram os primeiros cientistas modernos."



domingo, 28 de maio de 2017

Crianças não vacinadas preocupam saúde pública no Brasil



Enquanto não se resolver a intrincada poção mágica que inclui liberdades individuais, saúde pública, prerrogativas e direitos das crianças, terapias alternativas, fanatismo religioso e poder do Estado, estamos correndo sérios riscos.

A matéria é do Estadão:

Grupos contrários à vacinação avançam no País e preocupam Ministério da Saúde

Movimento, disseminado principalmente nas redes, é apontado como causa de surto de sarampo na Europa

Fabiana Cambricoli e Isabela Palhares

Embora o Brasil tenha um dos mais reconhecidos programas públicos de vacinação do mundo, com os principais imunizantes disponíveis a todos gratuitamente, vêm ganhando força no País grupos que se recusam a vacinar os filhos ou a si próprios. Esses movimentos estão sendo apontados como um dos principais fatores responsáveis por um recente surto de sarampo na Europa, onde mais de 7 mil pessoas já foram contaminadas. No Brasil, os grupos são impulsionados por meio de páginas temáticas no Facebook que divulgam, sem base científica, supostos efeitos colaterais das vacinas.

O avanço desses movimentos já preocupa o Ministério da Saúde, que observa queda no índice de cobertura de alguns imunizantes oferecidos no Sistema Único de Saúde (SUS). No ano passado, por exemplo, a cobertura da segunda dose da vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, teve adesão de apenas 76,7% do público-alvo.

“Isso preocupa e causa um alerta para nós porque são doenças imunopreveníveis, que podem voltar a circular se a cobertura vacinal cair, principalmente em um contexto em que temos muitos deslocamentos entre diferentes países”, diz João Paulo Toledo, diretor do Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, que ressalta que todas as vacinas oferecidas no País são seguras.

A disseminação de informações contra as vacinas ocorre principalmente em grupos de pais nas redes sociais. O Estado encontrou no Facebook cinco deles, reunindo mais de 13,2 mil pessoas. Nesses espaços, os pais compartilham notícias publicadas em blogs, a maioria de outros países e em inglês, sobre as supostas reações às vacinas – por exemplo, relacionando-as ao autismo.

Os pais também trocam informações para não serem denunciados, como não informar aos pediatras sobre a decisão de não vacinar os filhos, e estratégias que eles acreditam que garantiram imunização das crianças de forma alternativa, com óleos, homeopatia e alimentos.

Exemplos. A doula Gerusa Werner Monzo, de 33 anos, participa de um desses grupos. Ela afirma que há anos começou a ler sobre as vacinas e, por isso, sempre foi contrária a imunizar os filhos, hoje com 6 e 9 anos. “Tomaram as que são dadas nos primeiros meses de vida porque fui obrigada, mas não foram todas. O caçula, por exemplo, não tomou reforços da tríplice viral e a da poliomielite”, disse. Gerusa diz ser contra vacinar seus filhos por achar a imunização desnecessária em crianças saudáveis e por medo de possíveis reações.

“Meus meninos nunca tomaram vacinas como a da gripe ou febre amarela, mas são mais saudáveis que muitas crianças porque têm boa alimentação, fazem tratamento com homeopatia. As vacinas atrapalham essa imunização natural que desenvolveram.”

Ela conta, no entanto, que os dois já tiveram catapora – doença que pode ser evitada com a vacina tetra viral.

A designer Fátima (nome fictício), de 39 anos, é mãe de um menino de 3 anos que só foi vacinado, pelo calendário oficial, até os 15 meses. Ela pediu para não ser identificada, por medo de ser denunciada e porque o pai do menino não sabe que o filho não tomou todas as vacinas.

“Quando ele tinha quatro meses, tomou as vacinas tetravalente e rotavírus e dias depois seu comportamento mudou, ficou agitado, não conseguia comer, teve alergia por todo o corpo. Na época, eu não entendia o que tinha acontecido, mas, depois de conhecer os grupos que falam sobre as verdadeiras reações das vacinas, tenho certeza de que foi uma consequência delas.”

Foi depois de entrar nos grupos que ela decidiu não dar as vacinas seguintes no menino, mesmo sem ter o apoio de familiares e do pediatra. “Não comento com ninguém sobre isso, nem com o meu marido, só a minha mãe sabe que eu parei de dar as vacinas. Não vou dizer nada para o médico nem na escola para evitar qualquer problema. Essa é uma decisão minha e sei que estou cuidando bem do meu filho de outra forma, com uma alimentação saudável e tratamento homeopático”, disse.

Risco. Especialistas ressaltam que a decisão de Fátima, Gerusa e de outros pais contrários à vacinação não traz consequências apenas individuais: a queda na cobertura vacinal pode causar problemas de saúde pública. “Imagine se 5% da população deixar de tomar a vacina a cada ano. Isso forma um nicho de pessoas suscetíveis a doenças que, caso contaminadas, podem infectar mais gente”, alerta Guido Carlos Levi, da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).



terça-feira, 16 de maio de 2017

Universidade Presbiteriana Mackenzie abre centro criacionista


A informação é da revista Exame da Abril:

Mackenzie abre núcleo de estudos que contesta teoria da evolução

O Núcleo Discovery-Mackenzie tem como objetivo promover os estudos de fé, ciência e sociedade

Marina Demartini

São Paulo – A Universidade Presbiteriana Mackenzie abriu um novo espaço para que professores e alunos discutam a origem da vida e questionem uma das principais teorias da biologia: o evolucionismo. O chamado Núcleo Discovery-Mackenzie é uma parceria entre a instituição brasileira e o Discovery Institute, um instituto americano que promove o estudo da Teoria do Design Inteligente (TDI).

Para os estudiosos do TDI, certas características do universo e dos seres vivos são tão complexas que só podem ser explicadas por uma causa inteligente. Assim, células e moléculas precisaram passar pela intervenção de algum tipo de inteligência para existir “e não por um processo não direcionado, como a seleção natural”, como aponta o site oficial do Discovery Institute.

A seleção natural é um dos mecanismos básicos da teoria da evolução proposta por Charles Darwin em seu livro A Origem das Espécies, de 1859. Segundo ela, indivíduos melhores adaptados à determinada condição ecológica têm mais chance de sobreviver e deixar descendentes.

Até hoje, a teoria da evolução é uma das mais aceitas entre os membros da comunidade científica para explicar a origem da vida e a evolução humana. Além disso, ela é amplamente ensinada em escolas de diversas partes do mundo.

O Discovery Institute, aliás, já tentou colocar o TDI dentro da grade de escolas públicas dos EUA. Um dos casos mais conhecidos é o de Kitzmiller contra o Distrito Escolar da área de Dover, na Pensilvânia, em 2005. Na época, o distrito mudou seu currículo de ensino da matéria de biologia para exigir que o TDI fosse apresentado como alternativa ao evolucionismo.

Onze pais de alunos da região processaram o distrito sob a alegação de que o design inteligente não passava de um tipo de criacionismo (crença religiosa de que os seres vivos foram criados por um ser superior).

O juiz John E. Jones III chegou ao veredito de que o ensino do design inteligente viola a Cláusula de Estabelecimento da Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos. Segundo ele, o TDI não é ciência e “não pode desacoplar-se do seu criacionista, portanto religioso, antecedente”.

O teólogo e pastor presbiteriano Davi Charles Gomes, chanceler da universidade, ressalta em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo que o Núcleo Discovery-Mackenzie não é um espaço de TDI, mas de estudos de fé, ciência e sociedade. “Nossa instituição é confessional, o que significa que ela tem uma visão segundo a qual o mundo tem um significado transcendente. E não existe ciência que, no fundo, não reflita também sobre coisas transcendentes.”

Quem faz afirmação parecida é Marcos Eberlin, presidente executivo da Sociedade Brasileira do Design Inteligente e futuro coordenador do núcleo da Mackenzie. “Tem gente que acha que o design vem dos ETs, outros falam de um Grande Arquiteto do Universo, como os maçons, ou um espírito evoluído, como os espíritas”, disse em entrevista à Folha.

Já Maria Cátira Bortolini, geneticista da UFRGS, disse ao jornal que a teoria descarta evidências, fatos e provas científicas. “O que importa é a narrativa, construída de forma que se coadune com a ideologia ou a crença do sujeito.”



segunda-feira, 24 de abril de 2017

Marcha pela Ciência movimenta o mundo contra Trump


Parece que a Marcha para Jesus está ganhando uma concorrente, segundo noticia o Estadão:

Marcha em prol da Ciência une diversos países

Organizado em resposta ao discurso anticientífico do presidente americano Donald Trump, ato visa conscientizar lideranças políticas a levar em consideração evidências científicas antes de elaborar e colocar em prática políticas públicas

Mais de 600 cidades espalhadas por quase 70 países tiveram suas ruas tomadas neste sábado, 22, por milhares de cientistas e apoiadores num protesto internacional em defesa da Ciência. Organizada em resposta ao discurso anticientífico adotado pelo presidente americano Donald Trump, que já classificou o aquecimento global como uma farsa, a Marcha da Ciência teve por objetivo conscientizar as lideranças políticas a levar em consideração evidências científicas antes de elaborar e colocar em prática suas políticas públicas. No Brasil, 24 cidades aderiram ao ato.

No Rio, ainda pela manhã e sob chuva, cerca de 150 pessoas participaram da manifestação em frente ao Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Elas protestaram contra os cortes no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações, que chegam a 44% e resultam na redução de bolsas acadêmicas e de investimentos em pesquisas e em laboratórios.

Estudantes e professores de universidades do Estado, como a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), além da UFRJ, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da Academia Brasileira de Ciências (ABC), e de entidades de pesquisa, como a Fundação Oswaldo Cruz, levaram cartazes com dizeres como "Ciência não é gasto, é investimento" e tesouras gigantes, numa crítica aos cortes.

Eles gritaram palavras de ordem contra o presidente Michel Temer (PMDB) e o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) e destacaram em suas falas os riscos da falta de financiamento, no longo prazo, para o desenvolvimento da ciência no País. Citaram também o desestímulo para as novas carreiras representado pelas reformas trabalhista e da previdência do governo federal, e pelas novas regras para a terceirização.

"Os cortes já vinham desde 2013, sempre com a alegação da crise, e se aprofundaram. Não há justificativa, é uma política equivocada, e que pode provocar um retrocesso grande. Ciência é algo que não se constrói da noite para o dia, mas que é fácil de destruir", disse o vice-presidente da SBPC, o físico Ildeu Moreira. "O auge dos investimentos foi em 2010, mas nunca chegamos a ter 1,2% do Produto Interno Bruto, quando países como Coreia do Sul e Israel têm 4%".

"Temos que reagir. Mostrar à sociedade brasileira que a ciência está de pé, afirmar o valor da educação. Se não há bolsas, se os laboratórios estão desconstruídos, damos uma sinalização objetiva para que os jovens se afastem da ciência", disse o reitor da UFRJ, Roberto Lerer. A instituição acumula déficit de R $ 160 milhões.

"Esperamos que este não seja um projeto de desmonte da ciência, que seja algo conjuntural e reversível", afirmou o diretor do Instituto Oswaldo Cruz, Wilson Savino. O MCTIC informou que está avaliando o impacto da redução orçamentária e pediu aos seus institutos que apresentassem prioridades e necessidades para 2017, na expectativa de que parte dos recursos seja descontingenciada ao longo do ano.

Mundo. Em Sidney, na Austrália, cientistas vestidos com túnicas brancas afirmavam que, numa época de tantas notícias falsas, o que o mundo precisa é de pensadores, não de negadores. Em cartazes, diziam ainda que “sem ciência é só ficção”. Na Áustria, o protesto lotou o Parque Sigmund Freud, em Viena, onde cientistas ressaltavam que “ciência não é opinião”. Em Bogotá, na Colômbia, o protesto teve o mesmo tom, reafirmando que a ciência é “indispensável”.

Em Washington, nos EUA, a marcha estava marcada para começar no entorno da Casa Branca e terminar em frente ao Capitólio, a sede do Congresso americano. De manhã, antes do início do ato, manifestantes já protestavam contra Trump, com os dizeres: “Tornar a América Inteligente de Novo”, em paródia ao slogan de campanha de Trump, “Tornar a América Grande de Novo”.

A administração Trump é cética em relação à contribuição da ação humana para o aquecimento global e ameaça abandonar o Acordo de Paris sobre o clima. O presidente americano também determinou cortes no financiamento à pesquisa científica e revogou uma série de regulamentações de caráter ambiental. “Esse governo nega o aquecimento global, o que contraria toda a evidência científica nesse sentido”, disse a cirurgiã veterinária Allison Haley, presente na marcha.

Muitos dos participantes da marcha eram cientistas, como o químico ambientalista Barnabas Vandevender. “Parece que integrantes da atual administração dizem coisas que não são baseadas em fatos”, afirmou. “A ciência é importante para todos e cria melhorias que beneficiam todo mundo.”

A escritora Mag Masey disse que estava na marcha para defender que o dinheiro de seus impostos seja investido em pesquisa científica. “Assim nós podemos ter um mundo melhor amanhã”, observou.



domingo, 25 de setembro de 2016

A estranha associação de boa memória com colesterol alto no seu cérebro


Matéria intrigante publicada no El País:

Colesterol, a arma secreta do cérebro para preservar a memória

Cientistas espanhóis comprovam em ratos que essa molécula poderia prevenir os sintomas da demência e o Alzheimer

NUÑO DOMÍNGUEZ

Uma de cada três pessoas sofrerá de demência ao longo de sua vida. A perda progressiva da memória é uma das consequências mais frequentes do envelhecimento e se deve a uma longa relação de alterações que ocorrem no encéfalo e que se acumulam com o passar do tempo. Entre elas está a morte de neurônios causada pelo Alzheimer, a variante mais comum de demência, a mais difícil de combater e uma das maiores ameaças enfrentadas pela nossa civilização.

Um novo estudo de pesquisa básica acaba de descobrir uma outra possível causa para a perda da memória e aponta um aliado que poderia ser capaz de resgatá-la: o colesterol.

O excesso de colesterol ruim (LDL) no sangue faz aumentar o risco de infarto e outras doenças cardiovasculares fatais. Mas o cérebro produz o seu próprio colesterol, e, dentro desse órgão, ele é essencial para manter os neurônios vivos e saudáveis.

Cada vez que uma recordação é formada, os neurônios acionam determinados genes para fixá-la. Para isso, precisam ter colesterol o suficiente na parte exterior de sua membrana. Como um óleo que lubrifica uma máquina, o colesterol funciona como um transmissor dos sinais externos necessários para ativar os genes. A presença dessa molécula no encéfalo tende a diminuir com a idade, e as pessoas idosas, sejam saudáveis ou atingidas pelo Alzheimer, costumam apresentar taxas de colesterol cerebral inferiores ao normal.

Nesse novo estudo, publicado em Cell Reports, a equipe de Carlos Dottino, pesquisador do Centro de Biologia Molecular Severo Ochoa, de Madri, demonstra o papel fundamental desempenhado por essa molécula para a manutenção da memória em bom estado. Os ratos mais velhos possuem taxas de colesterol baixas demais no hipocampo, uma área do cérebro relacionada à memória. Os cientistas demonstram que, quando se aplica uma substância que impede a perda de colesterol no encéfalo, a memória dos roedores mais velhos melhora significativamente. Isso poderia abrir um novo caminho para a melhora da memória em pessoas idosas.

“Acreditamos que essa descoberta pode avançar para a clínica”, explica Dotti ao EL PAÍS. “Normalmente, seriam necessários muitos estudos” sobre a substância utilizada no trabalho, mas, neste caso, “muitas delas já estão disponíveis, pois a droga em questão já foi aprovada, e se trata do voriconazol”. Esse medicamento, que leva o nome comercial de Vfend e é produzido pela Pfizer, é usado para combater infecções por fungos em pessoas com o sistema imunológico muito fragilizado, como as que acabam de receber um transplante ou que contraíram aids.

Por acaso, a equipe acabou por descobrir que essa substância também inibe uma enzima responsável pela eliminação do colesterol dentro do cérebro e cuja atividade é acelerada com o passar dos anos. Nos animais estudados, o medicamento inibe esse efeito negativo da idade e permite que todo o colesterol necessário seja preservado, e, com ele, a memória. O próximo passo, comenta Dotti, “seria testar o medicamento em animais mais parecidos com os humanos, cães ou macacos”, e comprovar se também nesses casos a capacidade cognitiva é resgatada.

O risco das estatinas

“Trata-se de um estudo em ratos. Por isso, é preciso vê-lo com cautela. Mas, de todo modo, é uma demonstração de que o colesterol não é o inimigo público número um”, avalia Félix Viñuela, coordenador do Grupo de Estudos de Neuropsicologia da Sociedade Espanhola de Neurologia. O pesquisador destaca a importância dos estudos de ciência básica com ratos, como neste caso. A grande maioria acaba não sendo reproduzível em humanos, admite ele, mas alguns são, como ficou evidenciado recentemente com um anticorpo que poderia combater o Alzheimer em pacientes e que começou a ser testado em ratos há vários anos.

Outro aspecto importante do estudo está relacionado a um tipo de medicamento que é consumido diariamente por milhões de pessoas na Espanha. Hoje em dia, os medicamentos mais utilizados para diminuir o chamado colesterol ruim são as estatinas. Esses compostos são eficazes, mas poderiam ser responsáveis também por efeitos colaterais não previsto inicialmente. Recentemente, a agência de medicamentos dos EUA alertou para o fato de que certos pacientes que ingerem estatinas podem sofrer perda de memória e uma deterioração cognitiva por razões desconhecidas.

“Existem estatinas que são capazes de passar da corrente sanguínea para o cérebro”, explica Dotti, destacando que é possível que essas drogas estejam diminuindo os níveis de colesterol normais no encéfalo e danificando, assim, a memória dos pacientes.

Viñuelas, que não participou diretamente do estudo, mas que irá coordenar um teste com o anticorpo experimental contra o Alzheimer no Hospital Universitário Virgem de Macarena, em Sevilha, concorda: “As estatinas salvaram vidas controlando o colesterol patológico, mas também podem ter um lado negativo”. “Talvez devêssemos nos colocar a possibilidade do uso de estatinas que não sejam capazes de cruzar a barreira de proteção hemato-encefálica”, sugere.



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