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quarta-feira, 10 de maio de 2017

O ovo ou a galinha


Não costumo ser pessimista, mas tudo indica que o pior ainda está por vir.

É que a crescente (e trágica) polarização político-ideológica no Brasil prenuncia uma espécie de estado de horror sem fim.

Gerações futuras (se houver) poderão estudar com mais rigor metodológico e responder cientificamente a dúvida cruel: foram as redes sociais que provocaram esta situação ou se ela seria produzida de qualquer maneira, independentemente da força atômica da internet, para o bem e para o mal.

O fato é que o advento das tecnologias modernas de comunicação deu vez e voz a uma legião de ódios e preconceitos que agora podem destilar livremente seu veneno no fluxo incontrolável de verdades alternativas e mentiras aleatórias que singram os mares do desconforto coletivo de não saber em quem e no que acreditar.

Talvez o fato que nos roube mais a esperança de algo bom no horizonte seja a nossa incapacidade de dialogar e conviver com o diferente.

Parece que ninguém percebeu (ainda) que não temos outra opção se quisermos viver todos juntos no mesmo país.

Por isso, é particularmente triste ver que amigos não conseguem se ouvir, que a única resposta possível para uns é a exclusão de plano, com a pré-desqualificação dos outros para o debate, e que não existe mais um mínimo de empatia para tão somente sentar-se à mesa, incluir e discutir o bem comum.

No fundo, os afetos e discursos envenenados matam tanto o ovo como a galinha, e nada consegue nascer de novo.

Acorda, Brasil, ainda há tempo!



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Morre Zygmunt Bauman, o pai da "modernidade líquida"

Parece que 2017 já começou disposto a atropelar 2016 no quesito obituário...

Abaixo, matéria da revista Galileu que resume o legado de Zygmunt Bauman:

3 reflexões para entender o pensamento de Zygmunt Bauman

Sociólogo explora os efeitos do individualismo e da sociedade de consumo nas relações humanas modernas

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman faleceu em janeiro de 2017, aos 91 anos. Suas mais de 50 obras e diversos artigos se dedicam a temas como o consumismo, a globalização e as transformações nas relações humanas.

Após ter servido durante a Segunda Guerra Mundial, Bauman fez parte do Partido Comunista Polaco e anos mais tarde se formou em sociologia. Como professor na Universidade de Varsóvia, teve alguns de seus livros e artigos censurados e acabou afastado em 1968.

Após sofrer perseguições antissemitas na Polônia, partiu para a Grã-Bretanha e trabalhou como professor titular da Universidade de Leeds. De todas as suas contribuições, a obra Modernidade e Holocausto talvez tenha sido a mais emblemática e lhe rendeu, em 1989, o Prêmio Europeu Amalfi de Sociologia e Ciências Sociais. Conheça as principais conclusões de um dos pensadores mais influentes da atualidade:

A SOCIEDADE PÓS-MODERNA SOFRE MUDANÇAS EM RITMO INTENSO

Para definir as condições da pós-modernidade e discutir as transformações do mundo moderno nos últimos tempos, o sociólogo sempre preferiu usar o termo “modernidade líquida”, por considerar “pós-modernidade” um conceito ideológico.

Bauman escolhe o “líquido” como metáfora para ilustrar o estado dessas mudanças: facilmente adaptáveis, fáceis de serem moldadas e capazes de manter suas propriedades originais. As formas de vida moderna, segundo ele, se assemelham pela vulnerabilidade e fluidez, incapazes de manter a mesma identidade por muito tempo, o que reforça esse estado temporário das relações sociais.

Há 100 anos, ser moderno significava buscar um ponto de perfeição e hoje representa o progresso constante, sem um resultado final único prestes a ser conquistado.

A ESTRUTURA FAMILIAR MUDOU DRASTICAMENTE

Em entrevista ao canal Quem Somos Nós?, o professor Luís Mauro Sá Martino explica as transformações do conceito de “família” segundo Bauman: “A partir do século 19 ou 20, o afeto e amor surgem como elementos fundadores da família, mas nem sempre foi assim e não é por acaso que nosso imaginário sempre gostou de idealizar as histórias de amor”, observa.

“No passado, as pessoas casavam com quem os pais mandavam, mas os laços de uma família ainda eram algo sagrado. Hoje, por outro lado, constituímos várias “famílias”, assumindo as diferenças disso em relação ao mundo pré-moderno, com a independência e também as dificuldades que essa pluralidade de relacionamentos pode trazer.”

AS CONEXÕES NO MUNDO MODERNO FORAM INDIVIDUALIZADAS

Bauman observa que o século 20 sofreu uma passagem da sociedade de produção para a sociedade de consumo. Com isso, também passamos pelo processo de fragmentação da vida humana e deixamos de pensar em termos de comunidade — a qual nação, grupos ou movimento político pertencemos. A identidade pessoal, após essa transformação, restringiu o significado e propósito da vida e da felicidade a tudo aquilo que acontece com cada pessoa individualmente.

“A ideia de progresso foi transferida da ideia de melhoria partilhada para a de sobrevivência do indivíduo”, resumiu o sociólogo em entrevista para a Revista Cult. “O progresso é pensado não mais a partir do contexto de um desejo de corrida para a frente, mas em conexão com o esforço desesperado para se manter na corrida.”



segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Uma budista tenta acalmar Bolsonaro

A matéria foi publicada no Estadão de 20/11/16:

Media training ensina Bolsonaro a 'olhar para si'

Olga Curado agora dá aulas a deputado do PSC, políticos e empresários implicados na Lava Jato

Gilberto Amendola

Entre os políticos que já fora ajudados por Olga Curado estão nomes como o de Lula, Dilma e Aécio

Ensinar o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) a se ouvir, a compreender que tudo aquilo que ele diz pode ter consequências na vida de outras pessoas; ensiná-lo a olhar para dentro de si e a encontrar um ponto de equilíbrio – tudo isso, claro, usando técnicas do Aikidô, arte marcial que prega os princípios da não violência.

Parece uma missão impossível, mas esse já foi um dos trabalhos da especialista em media training, jornalista, poeta e budista Olga Curado. Sim, Bolsonaro foi um dos políticos nacionalmente conhecidos que, ao longo dos últimos 16 anos, procurou melhorar a própria comunicação tendo se socorrido dos serviços de Olga (o ex-presidente Lula, a ex-presidente Dilma Rousseff e o senador Aécio Neves também já foram ajudados por ela).

A ética profissional não permitiu que Olga contasse detalhes das sessões com o deputado linha dura. O que não impediu que a reportagem imaginasse o excelentíssimo se atirando e rolando no tapete macio do escritório da especialista – eventualmente utilizado para dinâmicas físicas. “É importante ensinar a cair para que a pessoa aprenda a se levantar. Proponho exercícios de equilíbrio físico. A pessoa tem que cair para perceber o seu ponto de equilíbrio. Cair no chão, rolar e perceber como é rígida. No filme O Discurso do Rei, o coach usa técnicas parecidas com essa para melhorar a comunicação do rei gago”, diz Olga.

A reportagem procurou Bolsonaro para que o próprio comentasse as aulas, mas o pedido parou na assessoria do deputado que, automaticamente e sem ouvi-lo, avisou que ele não falaria sobre o assunto.

Ainda sobre Bolsonaro, Olga comenta que ele é um personagem curioso – com crenças que ela não discute. “Ele tem o público dele. O importante é que políticos como Bolsonaro tenham a medida clara do que falam. Às vezes, políticos falam sem a noção das consequências. Falam e se surpreendem com o efeito nocivo do ódio. Se surpreendem com a interpretação que fazem do que eles dizem. É preciso cuidado com a força bruta da inconsciência”, diz.

‘Água no pescoço’. Sem revelar especificidades de seus clientes, Olga conta como muitos dos políticos chegam em seu escritório. “Normalmente me procuram quando a água já está batendo no pescoço”, fala. Não à toa, citados na Operação Lava Jato (políticos e empresários) estão entre os seus clientes mais recentes. “Claro, o meu trabalho acontece antes do caso chegar em Curitiba”, avisa. “Mas eu preparo, por exemplo, quem vai dar algum depoimento em CPI ou explicações públicas. Tento passar técnicas para que eles tenham autocontrole mesmo diante das perguntas mais duras. Até para dizer que não vai responder é preciso algum preparo”, lembra.

Mas existiria alguma dica básica que poderia ser aplicada para a maioria dos políticos em maus lençóis? “Não adianta querer ser simpático, seduzir os interlocutores ou fingir ser íntimo demais. Não precisa cometer suicido público, mas não se deve enrolar. Não ajudo políticos a se esconderem. Eles precisam assumir responsabilidades por aquilo que pensam ou querem. Não ensino a mentir. Não faço teatro”, afirma Olga.

Para ela, o que faz muitos homens públicos apresentarem problemas de comunicação é a falta de clareza em seus propósitos. “Quando pergunto por que determinado político quer ser prefeito ou governador, ele me diz que é pra ‘melhorar a vida das pessoas’. Ok, tudo bem. Isso é mais ou menos verdade porque muitos não têm uma agenda concreta. A qualidade da comunicação tem a ver com coerência. Não adianta exercício de retórica. Ou o político explica como ele pretende ajudar as pessoas ou o eleitor percebe. O eleitor tem uma sensação quando o que se diz é verdadeiro ou apenas um exercício artístico, uma elaboração artificial”, diz.

Segundo Olga, a nossa “cultura do líder” faz com que muitos tenham vergonha de dizer coisas como ‘não sei’. “O mais fácil é a gente ouvir: ‘isso eu não sei, mas na minha opinião...’ Essa é a síndrome da opinião sobre assuntos que as pessoas não sabem. Políticos sofrem disso e, por isso, sofrem com a exposição pública”, conta. “Tento confrontá-los para que não assumam os dois personagens mais manjados do comportamento político: o da vítima ou o do super-herói. Nenhum funciona. Quando se escondem atrás desses personagens, só falam para convertidos. Portanto, não ganham eleições majoritárias.”

Além das questões conceituais, a especialista trata de problemas bastante concretos, como o de ensinar como um político deve respirar, como olhar para as pessoas, segurar um olhar sem constrangimento, como não parecer arrogante, usar as mãos de uma maneira correta, manter a postura e ter a consciência do próprio corpo. “Muitos tomam um susto quando se olham. Dizem: ‘ eu não sabia que era assim. Trata-se de um processo de educação não verbal”, afirma.

Questionada sobre políticos que teriam o domínio da arte da comunicação, Olga cita dois que não foram seus alunos: “Tem um que é bastante óbvio: o Obama. Ele sabe criar um ambiente empático, sabe dar a atenção devida aos seus interlocutores, tem clareza e etc.”.

Cunha. O outro é um pouco mais surpreendente. “Eduardo Cunha. Ele não precisa de aula. Acho que já nasceu sabendo. Não é um julgamento de conteúdo, mas de forma. Ele tem a fala clara e sabe o que quer quando está se expressando. Na votação do impeachment, ele ouvia os maiores xingamentos contra ele e apenas repetia: ‘Excelência, por favor, o seu voto’”.



sábado, 17 de outubro de 2015

6 frases que todo chefe ruim adora dizer


Finalmente alguém confirmou aquilo que você suspeitava sobre o(a) seu(sua) chefe. A matéria é do Pequenas Empresas Grandes Negócios:

6 frases que chefes ruins adoram dizer

As palavras podem mostrar se um gestor é bom ou ruim. Saiba quais sentenças podem indicar um comportamento incorreto

As palavras podem revelar mais do que realmente querem dizer. No trabalho, algumas frases podem mostrar, inclusive, se um chefe é bom ou ruim, se é esforçado ou preguiçoso, se assume os erros ou bota a culpa sempre nos outros.

Em artigo originalmente publicado no site da revista "Inc.", o especialista em empreendedorismo Jeff Haden lista algumas frases que podem mostrar a você se seu chefe está sendo correto com você e seus colaboradores. Se você já é empreendedor, saiba o que não dizer à sua equipe:

1. "Não era para ser assim"

Essa frase, de acordo com Haden, é normalmente usada por quem quer dizer que o fracasso foi uma obra do destino. Mas muito provavelmente o erro não aconteceu por azar, mas por culpa de alguém – muitas vezes, o próprio chefe em questão.

O ideal é tentar extrair algo positivo do fracasso. Ou seja: falhou? Tudo bem. Veja o que não aconteceu como o planejado e faça o possível para não cair no mesmo erro novamente.

2. "Isso não é o que você gostaria de ouvir"

Esta é muito usada na hora de "enrolar" alguém e não entrar em um assunto delicado. Mas o efeito da frase é muito ruim, pois só aumenta o suspense. Por isso, o melhor é falar logo o que você tem que falar. Sem rodeios.

3. "Não trabalhe mais. Trabalhe melhor"

A intenção da frase é até nobre. É dizer que, ao priorizar algumas tarefas e eliminar processos burocráticos, um funcionário será mais produtivo. No entanto, segundo Haden, tais palavras podem passar a impressão de o chefe acha que seu interlocutor é burro. Ao invés de dizer essa frase pronta, ajude sua equipe a encontrar os processos mais eficientes no trabalho.

4. "Não existe 'eu' em uma equipe"

Claro que existe. São vários "eus", aliás. Cada membro de um time têm suas individualidades, bem como seus pontos fortes e fracos. Um bom chefe não tenta suprimir as características de seus funcionários. Pelo contrário: é importante conhecer o que os empregados fazem de melhor e delegar tarefas condizentes com essas habilidades.

5. "Falhar não é uma opção"

Haden afirma que, por melhor que seja uma equipe, haverá falhas. Ele diz que, naturalmente, ninguém gosta de errar e nenhum chefe deve ser complacente frente a uma meta difícil, por exemplo. Só que não é legal usar esse tipo de frase, que só mostra que você é um patrão autoritário. Tais palavras, de quebra, colocam ainda mais pressão sobre seus colaboradores.

6. "As coisas funcionam assim"

Uma sentença dita normalmente por chefes que não querem mudar processos em seu negócio, por mais antiquados e ineficientes que sejam. Neste caso, diz Haden, não só a frase deve ser deixada de lado. Na verdade, essa postura é péssima para a empresa como um todo. Se alguém sugerir alguma mudança em sua empresa, analise-a. Se for boa, aplique-a.



segunda-feira, 12 de outubro de 2015

As redes sociais nos tornam menos humanos

Artigo instigante de Lara Brenner para a Revista Bula:

REDES SOCIAIS: O ESTRANHO UNIVERSO QUE NOS APROXIMA E AFASTA DOS OUTROS E DE NÓS

Por que divido minha intimidade com o resto do mundo a todo instante? Por que não consigo ficar em minha companhia por alguns minutos, sem que qualquer tecnologia se coloque entre mim e mim? Por que vivo a sonhar com a próxima viagem, quando sequer paguei pela anterior? Por que me privo do que gosto de comer e fazer em busca do corpo que alguém um dia definiu como ideal? Ora, a resposta não é óbvia?

Não é isso que todo mundo faz?

Às vezes, é preciso repensar o óbvio para se alcançar a verdade individual. “Óbvio”, essa palavra simples que carrega em si o perigo de afastar o questionamento e a inquietação e que, em sua nudez aparentemente despretensiosa, guarda o risco da dormência e da conformação. Afinal, se é tudo tão óbvio, por que pensar?

Bem, talvez nem todas as respostas sejam assim evidentes.

Quanto mais possibilidades o mundo oferece, mais determinista parece tornar-se o homem, vitimado pela infinidade de caminhos que ele próprio construiu. Esconder-se atrás de expressões da pós-modernidade, como “correria” e “networking”, tem levado a um movimento de incertezas absolutas que faz as ações humanas não saírem da superfície: nunca se viajou tanto, nunca se esteve presente em tantas redes sociais, nunca se compartilhou tanto a vida íntima com os iguais… Em contrapartida, nunca se esteve tão ausente das pessoas ao redor e do instante em que se vive. Em que se vive de verdade, diga-se de passagem, e não virtualmente. “Mundo líquido”, diria Bauman, “nada é feito para durar”.

As relações humanas, cada vez mais abundantes e menos sólidas, caminham em direção ao abismo. Tenho tantos amigos quanto minhas redes sociais apontam, mas sequer me recordo da última vez em que lhes perguntei, olho no olho, algo singelo como: “E a vida? Anda bem?”, para de fato ouvir com interesse sua resposta.

Não há como negar que a casca tem sido o lugar mais frequentado do fruto, num ato solene de esquecimento do básico: o que frutifica as relações são as sementes. É preciso dispor de terra fértil e ir fundo até se conectar a elas.

Rubem Alves certa vez escreveu sobre uma mulher que subitamente ganhou olhos de poeta. Passou a ver as cebolas como rosáceas de uma catedral gótica. De repente, todos os legumes lhe eram presentes aos olhos, tudo causava espanto. “Acho que estou ficando louca”, disse ela ao escritor. Analisando-a atentamente, concluiu ele sobre a saga que sua paciente acabara de vivenciar: “A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer”.

Talvez o mundo líquido esteja roubando-nos os olhos como órgãos de prazer, retirando-os da caixa de brinquedos para conformá-los à de ferramentas. Pelo jeito, tantas fotografias óbvias, vídeos previsíveis, felicidade forçada, corpos biônicos e risadas virtuais estão nos tornando menos gente, menos olhos. Talvez seja hora de começar a repensar o óbvio, como fez a mulher de Rubem Alves com sua cebola magnífica. E aí, somente aí, é provável que se possa começar a enxergar o mundo não mais com olhos falsos de quem vive sem viver, mas com aqueles sensíveis e honestos de um verdadeiro poeta.



sábado, 26 de setembro de 2015

"Mente vazia" na infância ajuda a lidar com frustrações na vida adulta


É o que afirma, entre outras informações igualmente interessantes, matéria publicada no R7:

Pais que mimam filhos estão criando geração de adultos deslocados e incapazes de lidar com frustração

Especialistas mostram como imediatismo dos pais causa graves consequências às crianças

À mesa do restaurante, João faz manha exigindo o celular da mãe para se divertir durante o almoço. Maria se joga no chão da loja de brinquedos porque quer que o pai compre aquela boneca agora. E, sentado no sofá de casa, Pedro se irrita com os pais porque quer uma resposta urgente sobre poder ou não ir à festa dos amigos no sábado à noite. Todos eles, não importa a idade, têm algo em comum: vão se tornar adultos mimados, incapazes de lidar com as frustrações do mundo.

A culpa do destino dos três, João, Maria e Pedro, é do imediatismo que rege as relações atualmente. Temos, como pais, dito muitos “sim” para os filhos, quando, na verdade, o ideal seria dizer mais “não sei” ou “vou pensar”. Como explica a psicóloga e educadora Rosely Sayão, essa atitude traz como maior prejuízo uma alienação em relação à realidade.

— O adulto que tem o imediatismo cultivado, ao invés de controlado, tem dificuldade de compreender e se inserir no mundo.

Pressionados a responder às demandas dos filhos imediatamente, os pais acabam soltando respostas impensadas, e a consequência, na visão da coach de vida e carreira Ana Raia, é a criação de jovens pouco preparados para lidar com a vida.

Segundo ela, os pais, atualmente, não aguentam não ser imediatistas. Se no passado eles se permitiam deixar os filhos insatisfeitos por mais tempo, hoje atitudes como essa se transformaram em um dos maiores desafios na educação das crianças e jovens.

Ana acredita que a tecnologia colabore para o imediatismo a partir do momento em que, ao toque de um dedo na tela do celular, a resposta para qualquer pergunta ou busca de informação podem ser obtidas em pouquíssimos segundos.

— Não conseguimos sustentar uma dúvida por muito tempo, um incômodo. Não sabemos lidar com um mal-estar neste mundo onde a felicidade é imperativa.

E a dúvida, explica Rosely Sayão, é preciosa, assim como a espera e o pensamento, porque eles ajudam a criança a crescer e a amadurecer. Crianças que não têm momentos de “mente vazia”, por exemplo, poderão sofrer graves consequências na vida adulta.

Alguém que está sempre entretido terá para sempre a necessidade de entretenimento constante, alerta o médico Daniel Becker, criador do projeto Pediatria Integral. Segundo ele, para ser criativo, o cérebro humano precisa da criatividade.

— São necessários momentos em que ele está engajado com algo externo, e também momentos em que está ocioso, em estado de contemplação. Quando uma criança tem seu tempo completamente tomado com atividades como escola, inglês, natação, Facebook, Instagram, WhatsApp, ela fica incapacitada de ter importantes processos interiores.

Becker acrescenta que crianças que não interagem com seus pares ou com os adultos, porque passam o dia com eletrônicos na mão, terão menos inteligência emocional, menos empatia e menos capacidade de se comunicar com os outros quando crescerem.

Se este já não fosse um bom argumento, ainda haveria a opinião de outros especialistas, que enxergam o hábito dos pais de entregar celulares e tablets às crianças como algo benéfico apenas para os adultos.

Na opinião de Rosely Sayão, oferecer um eletrônico em momentos em que se espera que os filhos se socializem com a família e amigos não é um carinho, mas, sim, um comodismo.

— O celular e o tablet nestas situações têm a função do “cala a boca”, nada além disso.

Mas, então, o que fazer quando a conversa no restaurante está boa, mas os pequenos não param de dar chilique e pedir para ir embora? O pediatra Daniel Becker dá uma boa dica.

— As pessoas se esquecem que as crianças sabem conversar e que podem fazer pequenos contratos. Mesmo as menorzinhas têm essa capacidade de compreensão. Basta dizer ao filho que, nos momentos em que estiverem conversando em família, ele não terá o tablet, mas que, quando a mamãe e o papai estiverem falando só com seus amigos, ele poderá pegar o tablet emprestado por 15 minutos. Assim, se alcança um equilíbrio.

Soluções como esta são recursos para que os pais lidem não só com o imediatismo das crianças, como também o deles próprios, que pode, mesmo que de maneira não intencional, servir como exemplo negativo aos filhos, que acabam copiando as atitudes da família.

Para o pediatra presidente do Congresso Brasileiro de Urgências e Emergências Pediátricas, Hany Simon, a ansiedade e a angústia na adolescência e na vida adulta podem ser resultados do imediatismo paterno presenciado na infância. E, como reforça Rosely Sayão, viver de maneira urgente só traz impactos emocionais negativos nas crianças.

— Somos imediatistas desde que nascemos. Choramos para manifestar desconforto, somos atendidos e temos nossas necessidades básicas saciadas. Com isso, vem também uma sensação de prazer, que vamos desejar para sempre. No entanto, precisamos entender que não é o princípio do prazer que vai reger a nossa vida, e, sim, o princípio da realidade. O papel dos pais é, aos poucos, mostrar aos filhos a realidade do mundo.



sábado, 29 de agosto de 2015

Já existe tratamento para viciados em celular


A matéria foi publicada na versão brasileira do El País:

Viciados em celular

EUA, China e Espanha oferecem centros de desintoxicação tecnológica

Andrés Aguayo

“Durante os próximos quatro dias só estaremos nós e as árvores”. Esse cartaz, no meio de um bosque em Mendocino, Califórnia (EUA), delimita a divisa de Camp Grounded, um acampamento para adultos viciados em tecnologia. Assim que chegam, os participantes depositam seus celulares, tablets e computadores em uma cabana. Só são permitidas câmeras analógicas ou Polaroids. Como entretenimento, eles praticam yoga, arco e flecha, fazem pão ou participam em uma oficina de redação... com máquinas de escrever. Desde 2013 foram realizados 17 encontros que atraíram 300 pessoas em cada um. O lema deles: “Desconectar para reconectar”.

A iniciativa não é uma exclusividade dos Estados Unidos, países como a Espanha, a China e o Brasil também têm centros para tratar pessoas viciadas em internet. Depois do surgimento dos smartphones, em 2007, foi criado o termo phubbing (juntando as palavras phone e snubbing, de esnobar), que significa ignorar alguém para ficar olhando o celular. Outra palavra recém-criada é nomofobia, medo de ficar sem celular. Em média olhamos para o smartphone cerca de 150 vezes por dia. Entre os espanhóis, 87% andam com ele durante as 24 horas do dia e 80% confessam que a primeira coisa que fazem ao despertar é olhar o celular, segundo relatório da Sociedade da Informação na Espanha, da Telefônica.

“Os norte-americanos já descreveram uma síndrome de abstinência do celular”, afirma Sergi Vilardell, diretor terapêutico da Clínica Cita. “A reação fisiológica do corpo de um viciado quando não está com o celular é similar à de quem precisa das drogas ou necessita apostar num cassino: Fica nervoso, sofre de taquicardia, começa a suar”, acrescenta Vilardell, que considera que iniciativas como Camp Grounded “servem para descansar um pouco, mas não resolvem o problema completamente”.

“Se tiver necessidade de subir uma foto ao Instagram, faça um desenho. Se quiser tuitar algo, conte a quem está a seu lado”, são alguns dos conselhos dados em Camp Grounded aos participantes que dormem em barracas ou em cabanas separados por sexos, como nos acampamentos infantis. O fundador do Camp Grounded, Levi Felix, era vice-presidente de uma start-up californiana até terminar no hospital por exaustão. Tirou um tempo sabático, sem tablets ou celulares, para viajar pelo mundo com sua mulher. Durante dois anos e meio visitaram 15 países e abriram uma pousada em uma ilha do Camboja onde tiravam os celulares dos visitantes. Quando voltaram à Califórnia, montaram a Digital Detox. Atualmente ajudam 300 pessoas que pagam entre 500 e 650 dólares.

A Espanha é o país da União Europeia com maior número de smartphones (23 milhões). Só 24% dos espanhóis preferem se comunicar pessoalmente; 35% optam por mensagens instantâneas; e 33,5% ligam por telefone. Apesar disso, o movimento de desintoxicação digital não prosperou muito. Em Mallorca, Melissa del Cerro e Miguel Lluis Mestre começaram Desintoxicación-digital.com em 2014. “Hoje em dia, quando chega o fim de semana ou as férias, muitos continuam hiperconectados. A desintoxicação implica desligar-se por uns dias, recarregar as pilhas e tornar mais produtiva a volta ao mundo digital”, explicam.

Duas redes de hotéis espanhóis oferecem pacotes de desintoxicação digital nos quais é obrigatório deixar o celular trancado na recepção. No Barceló Santi Petri de Chiclana (Cádiz) existe a proposta de 7 noites de estadia: “Em geral, 90% termina sua estadia sem revisar o celular, mas 10% não aguenta e termina pedindo a chave de onde guardamos seus gadgets”, conta María Casado, empregada do hotel. Já a rede Vincci tem duas opções de desintoxicação digital em Marbella (três noites, 359 euros) e Tenerife (120 euros por noite).

Quando os programas voluntários não funcionam é possível recorrer ao modelo chinês, que combina modernas técnicas de psicoterapia com uma férrea disciplina militar. Existem cerca de 300 clínicas inspiradas no Centro de Tratamento para o Vício à Internet Daxing (China), fundada pelo psiquiatra e Coronel do Exército Vermelho Tao Ran em 2006. Cerca de 6.000 jovens já foram internados por seus pais em Daxing depois de pagar o equivalente a 83 mil reais. Durante três ou seis meses vão usar camisetas de camuflagem, não terão acesso à tecnologia, nem ao mundo exterior e deverão seguir todas as ordens dadas pelos monitores-soldados que podem incluir inumeráveis flexões e marchas sob o sol. É outra forma de se reconectar desconectando-se.




sábado, 13 de junho de 2015

Umberto Eco diz que redes sociais dão voz a uma "legião de imbecis"


Matéria do UOL Notícias:

Redes sociais deram voz a legião de imbecis, diz Umberto Eco

Crítico do papel das novas tecnologias no processo de disseminação de informação, o escritor e filósofo italiano Umberto Eco afirmou que as redes sociais dão o direito à palavra a uma "legião de imbecis" que antes falavam apenas "em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade".

A declaração foi dada nesta quarta-feira (10), durante o evento em que ele recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim, norte da Itália.

"Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel", disse o intelectual.

Segundo Eco, a TV já havia colocado o "idiota da aldeia" em um patamar no qual ele se sentia superior. "O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade", acrescentou.

O escritor ainda aconselhou os jornais a filtrarem com uma "equipe de especialistas" as informações da web porque ninguém é capaz de saber se um site é "confiável ou não".



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Oi condenada por "10 mandamentos da telefonia"

A informação é do Valor Econômico:

TST condena Oi por divulgar “dez mandamentos da telefonia"

SÃO PAULO - A Oi S.A. foi condenada pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST) a pagar solidariamente com a Telecomunicações e Engenharia Ltda. (Telenge) indenização de R$ 5 mil a um instalador/reparador de linhas por assédio moral porque a empresa fixou várias vezes, em mural, os "dez mandamentos da telefonia", com frases como "não terás vida pessoal, familiar ou sentimental" e "não verás teu filho crescer".

Condenada na segunda instância, a Oi recorreu à Corte superior, que, em decisão da 2ª Turma, rejeitou examinar o mérito do recurso de revista da companhia.

Segundo o instalador, contratado pela Telenge para prestar serviços à Brasil Telecom S.A. (hoje Oi), um e-mail impresso com os "mandamentos da telefonia" foi afixado no mural do ambiente de trabalho frequentemente durante os dois anos e meio de contrato. Várias vezes o documento foi retirado do mural por empregados, mas ela "insistia em manter o e-mail ao alcance dos olhos de seus empregados", afirmou o trabalhador.

Os "mandamentos" prosseguiam com "não terás feriado, fins de semana ou qualquer outro tipo de folga" e "a pressa será teu único amigo e as tuas refeições principais serão os lanches, as pizzas e o china in box". Havia ainda "dormir será considerado período de folga, logo, não dormirás".

Embora a Oi tenha negado a prática, os fatos narrados pelo empregado foram ratificados por testemunhas. A Telenge, por sua vez, alegou que se tratava de "uma piada, uma história, não para ofender os funcionários e, sim, para a empresa ter um clima de descontração e amizade".

O Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 9ª Região (Paraná) considerou que a divulgação do texto em rodas de amigos ou na internet é diferente de se buscar institucionalizar os "mandamentos". Para o TRT, a realização desses atos incutia no empregado a sensação de que o conteúdo da mensagem era o correto e o esperado.

No recurso ao TST, a Oi alegou que não foram demonstrados os requisitos que caracterizam o dano moral. Para o ministro José Roberto Freire Pimenta, relator do recurso, houve "evidente afronta à imagem e à dignidade da pessoa humana". O relator disse ainda que, para se concluir de maneira diversa do TRT, seria necessário reexaminar o conjunto fático-probatório, procedimento que é vedado na fase recursal de natureza extraordinária, nos termos da Súmula nº 126 do TST.



sexta-feira, 20 de junho de 2014

Como se comunicar com extraterrestres


A premissa é um tanto esquisita, mas vai que - de repente - você se depara com um extraterrestre por aí... neste caso, siga as instruções recomendadas pela NASA, conforme indica a Folha de S. Paulo:

O que você diria a um ET?

SALVADOR NOGUEIRA

Se você anda sem leitura, e na sua casa #nãovaitercopa, fica uma sugestão do Mensageiro Sideral: a Nasa, agência espacial americana, acaba de publicar um livro que é basicamente um guia sobre como estabelecer comunicação com alienígenas.

O volume foi editado por Douglas Vakoch, especialista em formulação de mensagens interestelares do Instituto SETI, organização que concentra suas atividades na busca por sinais de inteligência extraterrestre.

A premissa do livro é interessante. Ela transcende a famosa discussão “estamos sós no Universo?” e se concentra na pergunta seguinte: “e se descobrirmos que não estamos sós e estabelecermos contato com outra civilização no cosmos, como faremos para trocar informações com ela?”.

Daí o título “Arqueologia, Antropologia e Comunicação Interestelar”. O livro tenta emprestar dessas disciplinas voltadas para problemas mais “mundanos” — como a decifração de linguagens escritas antigas ou a compreensão do modo de pensar de povos que nunca tiveram contato direto conosco — possíveis lições aplicáveis ao futuro contato com alienígenas.

POLÊMICO

Naturalmente, com esse tema e a abordagem escolhida, o livro acabou instantaneamente envolvido em controvérsia. Uma citação pinçada de um dos capítulos e divulgada na internet fez parecer que a obra defende certas teorias conspiratórias segundo as quais sociedades humanas da antiguidade teriam recebido visitas de astronautas alienígenas, e que marcações em rochas seriam obras extraterrestres.

Veja a citação que circulou por aí: “Podemos dizer pouco, se é que podemos dizer alguma coisa, sobre o que esses padrões significam, por que foram cortados nas rochas e quem os criou. Para todos os efeitos e propósitos, eles poderiam ter sido feitos por alienígenas.”

O autor do capítulo em questão é William H. Edmondson, especialista em ciências cognitivas e inteligência artificial da Universidade de Birmingham, no Reino Unido. Mas uma leitura atenta revela que ele jamais sugeriu que há sinais de visitas alienígenas no passado terrestre. Sua passagem se refere à dificuldade inerente na interpretação de mensagens produzidas por povos (no caso em questão, humanos) separados culturalmente de nós. É uma maneira de dizer que, se tentarmos compreender mensagens alienígenas, teremos dificuldade ainda maior.

Se lido pela perspectiva certa, o livro agrega muito valor à reflexão sobre vida inteligente no universo, ao tentar avançar numa questão pouco discutida: o que esperamos de um contato com outra civilização?

O saudoso astrônomo Carl Sagan defendeu que encontrarmos uma sociedade alienígena mais avançada nos ajudaria a superar nossa “adolescência tecnológica”. Ele sugeriu que esses extraterrestres poderiam estar transmitindo uma versão da “Enciclopédia Galáctica” para nós, por meio de sinais de rádio. Até agora, todos os esforços de detecção de transmissões interestelares obtiveram, na melhor das hipóteses, resultados duvidosos e inverificáveis. Mas, se um dia eles tiverem sucesso, a pergunta que vem a seguir é: conseguiremos interpretar o significado contido na transmissão alienígena? E outra: devemos responder? Se sim, o que devemos dizer a eles, e como?

Essas e outras interessantes questões são todas investigadas minuciosamente no livro, que também apresenta um bom histórico da pesquisa SETI na Nasa. Se você estiver com o inglês afiado, recomendo a leitura. O livro pode ser baixado gratuitamente aqui, em diversos formatos, inclusive no universal PDF.



domingo, 18 de agosto de 2013

11 dicas para não permitir que a internet controle a sua vida

Artigo útil, interessante (e necessário) publicado no Gizmodo Brasil:

11 formas de criar uma relação saudável com a Internet

Michael Sacasas

Posso dizer desde já que sempre que escrevo sobre Internet e aparelhos digitais, meu tom de discurso caminha para o lado mais preocupado, para dizer o mínimo. Mas, como minha esposa pode atestar rapidamente, nem sempre eu pratico o que prego. Para mudar isso, eu criei uma lista de disciplinas digitais que eu tentarei levar a sério.

Claro, eu não acho que todos esses pontos são aplicáveis universalmente. Eles podem soar completamente inviáveis para seu estilo de vida, ou em alguns casos podem apenas parecer desnecessários. Tudo que eu quero com eles é simples: dadas minhas prioridades e minhas circunstâncias de vida, eu considero bem útil articular e implementar essas formas para deixar minha relação com a cultura da Internet bem mais saudável.

Eis a lista.

1. Não acorde direto na Internet. Tome um café da manhã, passeie com o cachorro, leia um livro/revista/jornal… Tanto faz, faça alguma coisa antes de ficar online. Pense nisso como uma forma de se preparar – fisicamente, mentalmente, emocionalmente, moralmente etc. – para o que lhe aguarda na rede.

2. Não fique conectado de forma natural e ambiental à sua conta de email. Feche o app ou a aba de seu email. Cheque-o duas ou três vezes por dia por pelo menos um tempo. O mesmo se aplica ao Facebook, Twitter e outras redes que usamos demais.

3. Fique com aquele link bacana na cabeça por algumas horas ou até um dia antes de compartilhá-lo por aí. Se depois de algum tempo de reflexão ele não tiver o mesmo impacto, ele não merece ser compartilhado. Não colabore com o excesso de ruído.

4. Não faça refeições junto com a Internet. Desligue, deixe os aparelhos para trás (ou no bolso), e aprecie a comida como uma forma de se regenerar, mental e fisicamente. Se você passa o dia dentro de algum lugar, leve seu almoço para fora. Aprecie a companhia de outras pessoas, ou aproveite o momento para sentir como alguns minutos de silêncio sepulcral podem ser bons.

5. Respire. Sério.

6. Faça uma coisa – uma só coisa, uma coisa completa – por vez, seja lá o que for. Se for para escrever um email, escreva-o de uma vez. Se for para ler um artigo, devore-o. Se uma tarefa não pode ser completada em uma temporada na frente do computador, pelo menos trabalhe um bom tempo suficiente nela, sem nenhuma interrupção. Em outras palavras, resista à tentação do mito do multitarefa. Ele é o canto da sereia de nossa geração, e pode transformar seu cérebro em um Titanic partido ao meio.

7. Limpe e zere seu feed de RSS no fim de cada dia. Se as coisas não foram lidas, vida que segue. Essa é difícil para mim: eu quero ler tudo, ficar sabendo de tudo etc. Mas se eu não limpar o feed, eu termino o dia com uma pilha de informação em proporções impossíveis de lidar. Além disso, eliminar potenciais e interessantes itens não lidos ou consumidos todos os dias é um gesto de felicidade, algo como uma libertação catártica.

8. Desligue todas as notificações que ameaçam lhe interromper ou distrair. Mentalmente, tendemos a responder às notificações com uma impulsão Pavloviana. Emocionalmente, elas são nossas pequenas versões do farol verde de Gatsby. De qualquer forma, é um hábito horrível.

9. Desligue seus aparelhos quando estiver com seus amigos. Além disso, abaixe a tela de seu laptop quando estiver falando com alguém. Isso pode soar exótico, antiquado, nostálgico, grosseiro, tanto faz. Mas eu vejo isso mais como uma forma de me manter minimamente civil e decente, mesmo que eu não esteja recebendo a mesma decência e civilidade em troca. Se você precisa atender uma ligação ou responder uma mensagem de texto, deixe isso claro de forma polida e educada. Muito melhor do que pegar seu aparelho de forma sorrateira e ficar olhando de canto de olho para a tela enquanto finge que ainda dá sinais de prestar atenção. Isso é inútil e feio, e todo mundo sabe disso.

10. Faça logoff nos sites de redes sociais após visitá-los. O passo extra de fazer login diminui sutilmente a facilidade em abri-los quando a sede por distração surge. Não subestime o poder dessas pequenas lombadas digitais.

11. Não vá para a cama com a Internet. De novo, sério.

Anos atrás, Umberto Eco disse: “Nós gostamos de listas porque nós não queremos morrer”. Talvez isso seja um pouco melodramático demais para essa lista. Certamente não há nenhum caso de vida ou morte nos 11 pontos, espero. Mas eu realmente acredito que seguir estas disciplinas digitais melhorarão meu uso de Internet, e farão com que eu tenha mais prazer vivendo nela.


Michael Sacasas é autor de um livro de ensaios sobre tecnologia e cultura chamado The Tourist and the Pilgrim (sem edição no Brasil). Ele escreve sobre tais assuntos no thefrailestthing.com e você pode encontrá-lo no Twitter no @FrailestThing.



segunda-feira, 29 de julho de 2013

Papa Francisco 10 x 0 Falastrões Gospel

O papa Francisco já foi embora depois de uma semana agitada no Brasil, e muitas conclusões já foram e continuarão sendo feitas a respeito de sua estada entre nós.

Limitaremos nossa análise preliminar, entretanto, a um quesito apenas: sua notória capacidade de se comunicar com os mais diferentes estratos da sociedade.

Nesse aspecto, o papa Francisco deu um show de comunicação, simpatia, empatia e simplicidade.

Sem abrir mão do dogmatismo católico inerente à fala do trono do Vaticano, o pontífice romano conseguiu fazer-se ouvir e ouviu com mansidão e brilhantismo.

Fez a sua mensagem compassiva ser recebida mesmo através do silêncio de seu olhar contemplativo.

Foi fiel, portanto, a pelo menos três preceitos neotestamentários (e paulinos) sobre como dialogar com um mundo não cristão:
Filipenses 4:5 Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. Perto está o Senhor.

Colossenses 4:6 A vossa palavra seja sempre com graça, temperada com sal, para saberdes como deveis responder a cada um.

Tito 2:7-8 Em tudo te dá por exemplo de boas obras; na doutrina mostra integridade, sobriedade, linguagem sã e irrepreensível, para que o adversário se confunda, não tendo nenhum mal que dizer de nós.
Aos quais podemos acrescentar o sempre bem-vindo conselho de Pedro:
1ª Pedro 3:15 antes santificai em vossos corações a Cristo como Senhor; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós;
Sem querer entrar nas diferenças doutrinárias aparentemente irreconciliáveis entre católicos e protestantes, foi inevitável comparar a postura papal com aquela de alguns expoentes evangélicos que usam e abusam cotidianamente de todas as formas de mídia.

Os nomes desses nem precisam ser citados, pois a sua verborragia e seus interesses monetários invadem os lares brasileiros todos os dias pelas ondas do rádio e da TV.

Outra maneira pela qual os falastrões gospel são conhecidos é pela sua falta de compaixão e sua contundência em atacar os adversários e rebater as críticas, desqualificando os oponentes e partindo para a agressão verbal sem o menor pudor.

Qualquer pessoa minimamente versada na Bíblia já identificaria que lhes falta não só humildade e simplicidade, mas a moderação que deve caracterizar qualquer pessoa que diz professar o evangelho.

A julgar apenas por este critério, o papa Francisco deu de 10 x 0 nos pugilistas verbais que se dizem “evangélicos” e infestam nossos rádios e televisões.

Conclusão óbvia: considerando os líderes que aparecem na mídia, os católicos estão muito melhores de papa do que os evangélicos.



segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Melhor não contar a ninguém os seus objetivos até que eles se concretizem


Manja aquela ideia brilhante que você teve, mas não deu certo?

Pode ser que a principal dificuldade dela se concretizar foi o fato de que você tê-la "cacarejado" antes de colocá-la em prática.

Muitas vezes, as pessoas têm planos sensacionais, mas perdem tempo e motivação contando-os aos outros antes de trabalharem com afinco para que eles deem certo.

Resultado: dão com os burros n'água.

Portanto, quando você tiver aquele insight, aquela ideia luminosa sobre o que fazer da sua vida, seja em que área for, não conte com o ovo antes da galinha. Guarde-a para si e, antes de mais nada, mãos à obra para implementá-la.

É o que ensina Derek Silvers em mais uma miniconferência TED, no vídeo de 3 minutos com transcrição abaixo. Aprenda:



Todos vocês, por favor, pensem em seus maiores objetivos pessoais. De verdade. Levem um segundo. Vocês precisam sentir isso para aprender. Levem alguns segundos e pensem de seu maior objetivo pessoal. Pronto? Imaginem que estão decidindo agora mesmo que vocês vão realizar isso. Imaginem que vocês contarão a alguém hoje o que fazerão. Imaginem os elogios deles e a boa impressão que terão de vocês. Não é agradável falar disso em voz alta? Vocês não sentem que estão um passo mais próximos desde já, como se isso já se tornasse parte da identidade de vocês?

Pois bem, uma má notícia: vocês deveriam ter ficado de boca fechada, porque aquele sentimento agradável, o torna menos propício a alcançar seus objetivos. Repetidamente, testes psicológicos provaram que contar a alguém a sua meta faz que a realização dela se torne menos provável. Sempre que vocês têm uma meta, existem alguns passos que precisam ser tomados, alguns trabalhos que precisam ser feitos no sentido de realizá-la. Idealmente, vocês não deveriam sentir-se satisfeitos enquanto não tivessem feito o trabalho. Mas quando vocês contam a alguém a meta de vocês, e eles reconhecem isso, os psicólogos descobriram que isso se chama uma realidade social. É como se a mente fosse iludida a sentir que ela já está feita. E então, como vocês sentiram essa satisfação, vocês ficam menos motivados a fazer o trabalho duro que é realmente necesssário. Assim, isso contradiz a sabedoria convencional de que deveríamos contar nossas metas a nossos amigos, certo? -- então, vamos guardar isso conosco, isso mesmo.

Então, vamos olhar as evidências. 1926, Kurt Lewin, fundador da psicologia social, chamou isso de "substituição." 1922, Vera Mahler descobriu, quando alguma coisa era reconhecida pelos outros, ela parecia real na mente. 1982, Peter Gollwitzer escreveu um livro inteiro sobre isso, e em 2009, ele realizou alguns novos testes que foram publicados.

Foi assim: 163 pessoas através de quatro testes separados -- cada um escreveu sua meta pessoal. Metade deles anunciaram seus compromissos com as metas à sala, e metade não anunciou. Então eles tiveram 45 minutos para fazer um trabalho que os levaria diretamente à realização das metas deles, mas disseram a eles que poderiam parar a qualquer momento. Pois bem, aqueles que ficaram com as bocas fechadas trabalharam todos os 45 minutos, em média, e quando perguntaram a eles depois, disseram que sentiam que tinham um longo caminho a percorrer até atingirem as metas deles. Mas aqueles que tinham anunciado largaram depois de apenas 33 minutos, na média, e quando perguntaram a eles depois, disseram que se sentiam bem mais próximos de atingirem suas metas.

Então, se isso for verdade, o que podemos fazer? Bem, a gente poderia resistir à tentação de anunciarmos nossas metas. A gente pode retardar a gratificação que o reconhecimento social proporciona. E podemos entender que nossas mentes confundem o falar com o fazer. Mas se a gente precisa mesmo falar sobre alguma coisa, a gente pode falar de modo que não nos proporcione satisfação, algo como, "Eu realmente quero correr essa maratona, portanto preciso treinar cinco vezes por semana, e chutem meu traseiro se eu não fizer isso, certo?"

Portanto, pessoal, na próxima vez que vocês ficarem tentados a contarem suas metas a alguém, o que vocês vão dizer? Exatamente. Muito bem.

(Aplausos)



quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Retrospectiva e perspectivas do fenômeno evangélico brasileiro

Alguns dias atrás, destacamos aqui o evento realizado pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em que se discutiu a presença evangélica no Brasil.

Felizmente, a Revista de História da Biblioteca Nacional publicou um resumo muito interessante do que foi debatido lá, com vários comentários bastante pertinentes desde a etimologia da palavra "religião" até o fenômeno tipicamente nacional do "evangélico sem denominação" (o popular "turista de igreja"), passando pela influência muçulmana na formação do misticismo afrobrasileiro. Ou seja, é muito pano pra manga...

Eis a íntegra do artigo:

Religião se discute, sim

No Biblioteca Fazendo História deste mês, Silvia Patuzzi e Eduardo Refkalefsky debateram, na última segunda-feira (10), o crescimento das ideias protestantes na Europa pós-Idade Média e no Brasil do século XX

Mauro de Bias

“Hoje nós estamos aqui para quebrar o ditado de que política, futebol e religião não se discutem.” Assim Silvia Patuzzi, professora da UFF, iniciou o Biblioteca Fazendo História deste mês, com o tema “Evangélicos no Brasil: das origens às Igrejas atuais”, realizado nesta segunda-feira (10), na Biblioteca Nacional. “Mas aqui só vamos falar sobre religião. Se der tempo a gente discute um pouco de política e futebol no final”, completou, bem-humorada, a pesquisadora que esteve ao lado de Eduardo Refkalefsky, da UFRJ.

A primeira ideia que Patuzzi pôs em xeque foi a de que religião significa religare, palavra latina que quer dizer "religar", o que levaria, seguindo o raciocínio, à ideia de "religar o homem a Deus". “Isso é um equívoco. Essa não é a única nem é a primeira ideia de religião”, disse. Ela contou que a definição surgiu no século IV, por meio do teólogo Lucio Lactâncio, em discordância ao filósofo romano Cícero. Este acreditava que religião significava relegere, do latim, "reler".

Patuzzi abordou ainda como a reforma luterana atraía fieis com certa facilidade em meio às sociedades europeias, especialmente entre os mais insatisfeitos com as imposições da Igreja Católica e sua interferência na vida pessoal. “‘Ora, se eu não preciso mais pagar impostos ao bispo e deixar de comer carne na sexta-feira, então sou luterana’”, exemplificou.

“Ser luterano significa o sentimento de liberdade em relação às imposições políticas e jurisdicionais que sustentavam a Igreja. Isso garante uma ampla difusão das ideias”, contou Silvia. Além disso, a tradução da Bíblia para os idiomas correntes era fundamental para uma aproximação dos fiéis. Segundo ela, Martinho Lutero (1483-1546) era visto por alguns teólogos de sua época como um excepcional crítico agostiniano.

Lutero propõe suas teses por não concordar com nenhuma das duas correntes dominantes no cristianismo de então. Uma delas, do cardeal Nicolau de Cusa (1401-1464), foi apresentada no livro A douta ignorância, em 1440, onde o religioso recorre à geometria como melhor forma de conexão entre o homem e Deus.

Sendo uma ciência com inserção das formas no infinito, a geometria mostra, interpreta Nicolau, uma tendência do homem à concepção da infinitude, portanto, de um Deus infinito. A professora simplifica: “É como a teologia platônica. É da natureza de todos os cães ladrar. Assim como todo cão ladra, todo homem tem dentro de si o sentimento do infinito. É da natureza do homem conceber o infinito. É a prova de que somos criaturas divinas.”

A teologia de De Cusa, com seu pensamento matemático e racional, era quase oposta à de São Francisco de Assis (1181-1226), onde Deus não podia ser tangido, mas contemplado através do total abandono. “Deus não é para ser explicado, é para ser sentido. São práticas místicas, onde você pode intuir o divino, aquilo te dá paz e tranquilidade. Mas para Lutero nada disso é satisfatório”, exemplificou Patuzzi.

Lutero afirmava, disse a professora, que não adianta reflexão e meditação se logo o homem vai pecar de novo. Deus, portanto, devia ser compreendido atráves do que tem de espetacular: a glória e os milagres. E vai além: “Ele apresenta a Teologia da Cruz, reforçando que Deus se fez homem para ser compreendido. E quem o homem contempla na cruz? A si mesmo.”

Do embrulho à TV

Na época de Lutero, suas ideias eram difundidas por diversos meios. Um deles, muito comum em Veneza, era embrulhar peixe e castanhas com seus escritos. No Brasil do século XX, foram usadas principalmente duas formas de comunicação que garantiram o crescimento do protestantismo. A primeira foi a TV, com a possibilidade de um alcance amplo, e a segunda foi o boca a boca, que traz credibilidade para o discurso, segundo explicou Eduardo Refkalefsky, professor de Comunicação da UFRJ.

“Existe uma estratégia midiática, especialmente para a TV. A internet não tem o mesmo poder porque tem interatividade, é mais anárquica, não é centralizada e industrial como o rádio e a TV, que são unidirecionais. Eu falo, você me escuta”, discorreu Refkalefsky. Já a evangelização boca a boca, segundo ele, faz o discurso ser mais fácil de acreditar. “‘A pessoa que está do lado é igual a mim. Então eu também posso viver assim’. As pessoas usam o próprio exemplo para evangelizar. E nossa cultura facilita essa estratrégia”, explicou.

O pesquisador citou ainda a grande miscigenação no Brasil como o fator primordial para a construção de uma religiosidade igualmente misturada no país. “Aqui é o único lugar onde teve miscigenação em larga escala de três etnias. Isso tem ligação com uma religiosidade profundamente sincrética”, destacou o professor. Refkalefsky disse que não foi um processo somente de misturar elementos, mas de juntar teorias opostas. Assim surgiram, por exemplo, os cristãos que acreditam em reencarnação e os “católicos não praticantes”, que se batizam na Igreja Católica, mas transitam entre outras crenças e rituais religiosos.

“Tem um panteão que não é nem africano nem brasileiro, é afrobrasileiro. Aí vêm até traços islâmicos. A principal divindade brasileira, Oxalá, é corruptela de Inshalá (que pode ser traduzido do árabe como “se Deus quiser”). Em Portugal, você tem um catolicismo menos reformado pelo Concílio de Trento. É mais medieval, com uma visão bastante franciscana do mundo, da natureza”, lembrou o professor. Essas culturas religiosas misturaram-se também às indígenas e surgiram figuras como profetas e rezadeiras.

Surgiu da plateia uma pergunta sobre o que se chama hoje de “umbandaime”, que mistura práticas da umbanda e do Santo Daime. Refkalefsky respondeu que alguns críticos dizem que tal união vai contra as doutrinas de ambas as práticas religiosas. “Mas que doutrinas?”, questiona o professor, dado que elas também se construíram sobre outras aglutinações.

“O brasileiro conseguiu inventar o evangélico sem denominação. Ele é praticante, mas não tem vínculo com ninguém, o que vai contra a comunicação das igrejas tradicionais. Às vezes ele faz até um trânsito religioso fora das igrejas evangélicas. Vai a um centro de mesa branca, tem hábitos esotéricos”, afirmou Refkalefsky. “Paulo Coelho, por exemplo, é um mago cristão. Para o cristianismo, é uma coisa contraditória, mas para o Brasil não”, disse.

Na questão da comunicação, Silvia Patuzzi abordou como Martinho Lutero construiu uma imagem para divulgar melhor suas ideias. Ela contou que Lucas Cranach, gravurista alemão, representou em figuras o pensamento do monge e a prática católica a que ele se opunha, deixando claras as diferenças entre as duas vertentes cristãs. “São imagens propagandísticas, dizem que a igreja não é um órgão jurisdicional, mas uma comunidade de adesão voluntária. Você não pode ser expulso nem sofrer retaliações. É quase um catecismo ilustrado”, afirmou.

Patuzzi demonstrou que a estratégia de comunicação inicial difundiu e construiu o que se conhece hoje das religiões de matriz protestante no mundo, enquanto Refkalefsky apresentou como essas imagens se formaram no Brasil de uma maneira muito propriamente brasileira. Após a sessão de perguntas, não sobrou tempo para discutir a política e o futebol, mas não ficaram dúvidas de que religião é um ótimo tema para a discussão.



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