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domingo, 10 de maio de 2015

Por que as pessoas fazem tatuagens idiotas?

Um artigo curioso e interessantíssimo publicado no Vice:

Um Psicólogo Explica Por Que as Pessoas Fazem Tatuagens Idiotas

Jules Suzdaltsev

Tatuagens dizem tudo que você precisa saber sobre a sociedade na qual elas foram feitas – e os EUA estão testemunhando uma epidemia de tatuagens escrotas. Não tenho números para sustentar essa afirmação, porque ninguém pensou em pesquisar isso, mas realmente parece que há mais tatuagens horríveis do que nunca. Por todo lado, você vê gente ostentando marcas clichês, citações idiotas, nomes de ex (lembra de "Winona Forever"?), frases mal traduzidas em outras línguas e, num caso muito bizarro, terríveis tatuagens faciais.

Mas por que as pessoas ainda estão tatuando arame farpado em volta do bíceps e borboletas no cóccix? Tentando entender melhor a questão, falei com Kirby Farrel, professor da Universidade de Massachusetts especializado em antropologia, psicologia e história relacionadas ao comportamento humano. Seu último livro, Berserk Style in American Culture, discute o vocabulário da cultura pós-trauma da sociedade norte-americana.

VICE: Qual é o seu interesse em tatuagens péssimas?
Kirby Farrel: Estou interessado principalmente no que você pode chamar de "a antropologia da autoestima e identidade". Penso nas tatuagens como um método que as pessoas usam para tentar se sentir significantes no mundo. Trabalho muito com Ernest Becker – você já ouviu falar do livro dele? Acho que ele ganhou um prêmio Pulitzer com esse livro chamado A Negação da Morte.

Sim, já ouvi falar.
Bom, ele argumenta que somos únicos entre os animais, porque somos sobrecarregados com a consciência do futuro, da futilidade, da morte e assim por diante. Estamos constantemente inventando defesas. A cultura é uma defesa contra o sentimento de opressão, futilidade e perdição. Culturas estão cheias de valores e belezas que te fazem sentir que sua vida é significativa e que tem um significado duradouro, mesmo que limitado. Então, você pode dizer que tatuagens são expressões culturais de heroísmo e individualidade.

Logo, isso se traduz numa epidemia de tatuagens idiotas?
Muitas pessoas dizem que fizeram uma tatuagem como uma lembrança de alguém ou algum evento. Por exemplo, tatuar a letra de uma música. As frases, claro, acabam sendo os maiores clichês. Mas elas estão te exortando a ser um indivíduo forte, imitando todos os outros animais que também pintam clichês na própria pele.

E onde esses caminhos se cruzam? Por um lado, a pessoa quer algo que lhe dê a sensação de significância e autoexpressão, mas acaba fazendo exatamente o oposto disso (o que consideramos uma "tatuagem ruim" ou uma "tatuagem clichê")?
Acho que a fantasia de ser especial, único, importante e heroico, que é do que estamos falando, é complicada quando vivemos numa cultura que celebra esses valores. Estamos sempre bombardeando outros países para preservar nossa "liberdade", o que presumivelmente significa individualidade. Mas, ao mesmo tempo, nossa cultura é intensamente conformista. Temos empresas constantemente tentando imprimir sua marca na consciência popular. Então, por exemplo, se você está tatuando algum clichê bobo de uma música pop, como "Vou te amar para sempre" ou "Não seja um imitador", na verdade você está se marcando com entretenimento industrial, porque grupos de rock, como sabemos, são basicamente máquinas de fazer dinheiro, empregando modelos financiados pela indústria do entretenimento.

Então por que as pessoas fazem isso?
Uma resposta é que somos animais incrivelmente sociais. Você tem de ter em mente que o eu não é uma coisa. É um evento. Se você está em sono profundo, o eu realmente não existe. A neuroquímica do eu não está ali. Desse ponto de vista, nos sentimos mais reais quando outras pessoas nos afirmam, reasseguram e reforçam nossa identidade. Nos rituais sociais pelos quais passamos, como dizer "Oi, como vai? Bem, e você?", você não espera ouvir qualquer informação pessoal. É só uma confirmação de que vocês dois existem e reconhecem um ao outro. De certa maneira, tatuagens também funcionam assim. Elas chamam atenção para você e fazem você se sentir real, mesmo se essa atenção fizer você se sentir membro de um grande grupo. Uma tatuagem te diz que você é parte de uma tribo de colegas tatuados, uma tribo linda e significativa. Você pode até compartilhar símbolos com outra pessoa! Ao mesmo tempo, por causa do fenômeno das marcas, isso faz você se sentir mais esperto do que o cara ao lado, que não sabe o suficiente para comprar seu produto em particular ou sua moda em particular.

Parece que você está dizendo que a própria cultura é clichê. Assim, tentando emular essa cultura social, fazemos essas tatuagens ruins.
A cultura está constantemente nos tentando com fantasias de singularidade e heroísmo. Você é tentado a comprar uma nova BMW, porque isso promete te fazer sentir heroico nas ruas. Você vai se destacar na multidão. A multidão é formada de pessoas comuns, elas vão morrer um dia e serão esquecidas. Mas todo mundo está olhando para você, você está sob os holofotes, você é o herói. E, ao mesmo tempo, se você ajustar a perspectiva sutilmente, eles estão fazendo as pessoas comuns acharem que é OK adorar heróis. Você é convidado a identificar e admirar o rico, o heroico, o prestigioso – e, se você os admira, isso se torna "minha música", "meu cabelo" ou "meu produto". Na verdade, você compartilha o glamour com o poder fetichista das coisas que admira.

Você está dizendo que isso é ser enganado por um movimento social de adoração ao herói?
Bom, se você está ou não sendo "enganado", depende de como você se sente sobre a validade e o pertencimento dos clichês. Quando você quer se tatuar com um verso da sua música favorita, você certamente está sentindo um tipo de excitação emocional e admiração por essa música. Um tipo de êxtase romântico. Você ouve as pessoas dizerem "Isso tem um significado especial para mim". É como uma auréola emocional em torno desse objeto.

Por que esse sentimento é significativo para nossa identidade própria?
Acho que, no geral, as pessoas estão com medo do futuro e se agarram a um ritual, um lema, um clichê familiar que elas acham significativo. É como um cobertor de segurança para dar sentido à sua vida, principalmente quando sua moral está sob pressão ou você está realmente empolgado com algo bom. Mas a questão é que, em qualquer um desses eventos, o clichê não parece ser um clichê. Isso parece ter um significado especial.

OK. Mudando um pouco de assunto: tatuagem é uma coisa que existe há milhares de anos. Alguns dos primeiros humanos já tinham tatuagens. Você acha que existe algo inerente à natureza humana que nos faz querer nos tatuar?
Claro. O cadáver que foi encontrado congelado e preservado nos Alpes, que acho que tem uns 5 mil anos – ele está num museu na Itália, você pode passar para dar um oi –, a última pesquisa mostra que esse corpo tem várias tatuagens. Elas tendem a ter um desenho abstrato. Baseado na localização delas, a hipótese é que elas serviam para se distrair de coisas físicas desconfortáveis, como artrite. Ou elas provavelmente tinham algum tipo de significado mágico. Pensando nisso, de certa maneira, todos os nossos comportamentos tendem a ser muito mágicos. Imaginamos que há algum poder especial em nossos símbolos, em nossos lemas, em nossas marcas, que isso de alguma forma eleva nosso humor, nos faz sentir mais fortes, mais capazes e melhores sobre nós mesmos.

E você acha que isso é algo inerente à humanidade?
Claro. Como pessoas, estamos regularmente à beira do pânico existencial. Becker disse que, se você visse o mundo realisticamente (quão vulnerável e totalmente insignificante você é, considerando o cosmo), você ficaria louco. Então, você precisa constantemente de histórias que constroem sua autoestima e fazem você se sentir significante, o que é fornecido pela cultura.

Logo, essas tatuagens escrotas são uma representação desse mecanismo de defesa?
Sim, exatamente. São representações físicas e artísticas de valores com que você se identifica. Vivemos nesse mundo onde existe um tipo de racismo recorrente e repentino, que vemos desde os anos 60 ou até desde a Guerra Civil. As condições de trabalho são extremamente punitivas, exigentes e despersonalizantes para quem está na base. Você não sente que tem direito à própria identidade. Então, as pessoas se sentem especialmente pressionadas para tentar encontrar seu próprio reforço mágico, porque há coisas em que a cultura não pode te ajudar. Você vê dinheiro, morte e culpa quando as pessoas querem se sentir seguras e como se estivessem no comando em termos de autoestima e bem-estar.

Muitas tatuagens parecem um tanto inconsequentes. Como as pessoas racionalizam a permanência de uma tatuagem em relação à própria mortalidade?
Muitas pessoas, especialmente quando são jovens, imaginam que serão jovens para sempre. Afinal de contas, se a mágica de que estamos falando sobre a cultura realmente funcionar, então, você pode se sentir invencível e imortal, por assim dizer. E é um clichê adolescente achar que você vai viver para sempre – é por isso que eles se arriscam, usam drogas, etc. Eles não conseguem imaginar que vão crescer e parecer diferentes do ideal cultural. Você nunca teve de se preocupar em ficar doente nem nunca esteve em apuros. Você nunca teve de se preocupar em ficar velho e ter de aceitar diminuir suas perspectivas, seus poderes, suas fantasias.

Você acha que isso é uma reação ao medo, ou na verdade resultado da falta de experiência?
Bom, você não acha que são as duas coisas?

Acho que sim.
Você tem medo, mas não admite isso, porque poderia prejudicar sua moral frágil. Uma moral danificada te torna menos eficiente, menos seguro, menos produtivo, etc. Então, você nega que tem medo. Provavelmente, o mecanismo básico da cultura é fingir que tudo está bem e que você não está com medo.

Mas estamos com medo.
Sim, com certeza. Estamos vivendo um momento em que as pessoas estão tão famintas por autoestima, aprovação e confiança, que estão dispostas a dizer e fazer coisas realmente bizarras e idiotas, porque com isso elas se sentem diferentes. Assim, elas se sentem únicas, significativas e vivas.



sábado, 27 de dezembro de 2014

O Natal dos zumbis

consumismo natal
Crônica interessante de Eugênio Bucci sobre o moderno significado do Natal, sujeita a múltiplas interpretações ideológicas ao gosto do leitor, que foi publicada no Estadão de 25/12/14:

'Papai Noel, me dá um morto-vivo de Natal?'


Neste novo mundo em que as crianças aprendem inglês decorando o nome de tanques de guerra, morrer não é mais tão definitivo


Nos primórdios dessa história, as meninas pediam bonecas que abriam e fechavam os olhinhos e os meninos pediam um revólver com cinturão e coldre de couro marrom para brincar de mocinho. Nos primórdios dessa história, o emprego de Papai Noel era mais previsível. Uma cozinha em miniatura. Uma espada de plástico. Brincando, as meninas eram adestradas a ser donas de casa. Os meninos aprendiam que a hombridade pressupõe a habilidade de assassinar.

Nos primórdios, era mais fácil. Era mais fácil ser Papai Noel e, também, era mais fácil criticar o Papai Noel. Fácil até demais. O bom velhinho começou a ser contestado por vozes que não queriam que ele estivesse a serviço da mera reprodução do modo de vida viciado da mulherzinha oprimida e do macho homicida. Os ideais libertários da década de 1960 impuseram adaptações pedagógicas (e chatas) ao ofício de dar presentes. O Natal deveria ser, por que não?, um motor da construção do "mundo melhor". Surgiriam assim Papais Noéis meio de esquerda, engajados em causas como a solidariedade, a fraternidade e até mesmo a paz entre as nações.

Tudo ia bem até que, no bojo da chamada revolução tecnológica, viria uma mudança súbita para desorientar os pais que se recusavam a dar bonequinhas submissas às filhas e armas de brinquedo aos filhos. Pretensamente modernos, esses pais queriam dar presentes educativos. No dia de Natal, davam joguinhos eletrônicos embrulhados em papéis metálicos, crentes de que estavam abrindo os caminhos do futuro tecnológico para as novas gerações. Depois, vendo os filhos brincarem com as novíssimas invenções, ficavam estarrecidos. Viam que, em lugar de um reles "revolvinho" de espoleta, tinham presenteado seus herdeiros com gincanas de dizimar "terroristas árabes" com uma pistola 9mm numa mão e um AK47 na outra.

O teatro da guerra que horrorizava os adultos tinha se tornado o passatempo mais excitante das crianças. Nesse embalo, a indústria dos games virou uma febre transnacional, suplantou a indústria do cinema, transformou o mundo inteiro num cassino (em que os impúberes apostam em dinheiro), estetizou a violência, violentou a estética e revogou a noção que tínhamos da morte. Neste novo mundo em que as crianças aprendem inglês decorando o nome de tanques de guerra, morrer não é mais tão definitivo. Se o jogador leva um tiro na cara, ele vai lá e "compra" novas vidas. A vida é uma mercadoria. Os inimigos também contam com o mesmo recurso. Depois de exterminados, ressurgem das trevas, ainda mais ameaçadores. Saídos das profundezas da feitiçaria imemorial, os mortos-vivos ingressaram na indústria do entretenimento para dar vida nova, e múltipla, ao cassino infanto-juvenil em que o planeta se converteu.

Os mortos-vivos são o ideal de beleza e de rentabilidade da indústria do entretenimento. São eles também que ensinam a arte bélica de viver. Graças aos zumbis, as crianças aprenderam que morrer é uma intercorrência descartável, como esfolar o joelho. A morte não é mais uma fronteira simbólica. O zumbi se afirma, agora, como a síntese perfeita de um tempo que se crê inesgotável e invencível. O morto-vivo materializa a condição humana que nos resta.

Já tivemos outros mitos igualmente macabros para animar as fantasias modernas. O Frankenstein de Mary Shelley, por exemplo, produziu com pedaços de cadáveres a criatura viva que o destruiu, na mais célebre metáfora da ciência como força destrutiva. Nascido como ficção na 1.ª Guerra, Frankenstein antecipou o pesadelo da 2.ª Guerra, que traria a inauguração da bomba atômica e as doutrinas que pregavam o genocídio. O monstro de Frankenstein, é claro, também virou máscara de brinquedo de criança e fantasia de carnaval.

Outro mito moderno é o Conde Drácula, de Bram Stocker. O mais famoso vampiro da literatura, Drácula perdura até hoje como a melhor tradução dos que se fartam da energia alheia sem ter de trabalhar. Drácula é aquele a quem o dinheiro nunca falta, aquele que dorme durante o dia e ataca suas vítimas durante noitadas de gozo letal. Também virou brinquedo de criança e adorno carnavalesco.

O interessante é que os dois mitos, o nobre Drácula e a criatura de Frankenstein, são, eles também, precursores do morto-vivo. Um e outro estão além da morte. Não podem morrer, simplesmente. Parecem condenados a não morrer jamais. Também como os zumbis, não existem para assombrar, mas apenas para divertir a humanidade carente de divindades que não seja o Papai Noel (que, aliás, também pode ser visto como uma espécie abobada de morto-vivo).

Os zumbis, contudo, não têm a aura do Drácula ou do monstro de Frankenstein. Não têm uma personalidade individual. Não têm sequer nome e sobrenome. São a massa indiscriminada, o populacho, o proletariado. São mendigos, porteiros, prostitutas, marginais. Em campeões de bilheterias nos cinemas, os zumbis extasiam os adolescentes. Depois, viram games cultuados em todos os continentes. Outras vezes, são os games que inspiram longas-metragens, como no já "clássico" Resident Evil.

Em produções cada vez mais requintadas, os mortos-vivos são o nosso melhor paradigma. Em forma de um game ou de um DVD, chegaram hoje a milhões de lares, trazidos no saco do Papai Noel. Agora, em vez de aprender a ser dona de casa passiva (no caso das meninas) e a ser rápido no gatilho para matar os adversários (no caso dos meninos), as crianças brincam de estar vivas e mortas ao mesmo tempo, como se entre viver e morrer não houvesse mais uma diferença substantiva. Numa era em que o passado é uma obra de ficção e o futuro é necessariamente pior do que os dias atuais, o presente se expande numa embriaguez vazia, tendo a diversão como o único denominador comum. Viver para se divertir é o quanto basta. E só para se divertir vale a pena morrer.

Os mortos-vivos desbancaram a Barbie e o Durango Kid e nos proporcionam um feliz Natal.


zumbi papai noel




terça-feira, 29 de abril de 2014

"Cinderelas" modernas fazem plástica nos pés para calçar sapatos de grife


Pois é, o consumismo e psiquiatria estão cada dia mais próximos, segundo a matéria da Marie Claire:

Médico se especializa em cirurgia nos pés para sapato de grife calçar melhor

Procedimento estético que muda o formato e o tamanho do pé se populariza nos EUA. Pacientes levam o sapato que querem usar após operação ao cirurgião

O conto de fadas de Cinderela poderia não ter um final feliz, se dependesse de uma nova moda em cirurgias plásticas. Segundo reportagem do jornal "The New York Times", operações para deixar os pés mais bonitos e fazê-los calçarem melhor sapatos de grife estão se popularizando nos EUA. O foco sobretudo são os dedos dos pés.

Há até nomes para os procedimentos: Perfect 10 para encurtar os dedos; Model T para crescer os dedos; e o mais radical de todos, Cinderela, no qual o pé é remodelado para o formato de um sapato que se deseja usar. Nesse caso, as irmãs invejosas não teriam problema algum para fazer o sapatinho perdido entrar em seus pés.

Os termos foram criados por Ali Sadrieh, médico de Beverly Hills, que há 13 anos deu início a uma clínica especializada em pés. Não se trata apenas de corrigir joanetes ou deformidades reais, suas pacientes querem caber em saltos de estilistas famosos.

No início, Sadrieh até achou um excesso de vaidade as pacientes que pediam para se submeter a cirurgias porque seus pés doiam ao usar sapatos de grife. Mas acabou mudando de ideia.

"As pacientes me traziam os sapatos que elas sonhavam em usar", contou ao jornal. "A princípio, parece algo superficial, mas percebi que esses sapatos são armas para se ter maior confiança, eles são parte da pele dessas mulheres. Isso é o mundo real", argumenta.



sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Natal: a identidade perdida

Crônica de Claudio Lembo, ex-governador de São Paulo, no Terra:

Identidade perdida

Mudou o Natal. Já não é esperada com ansiedade a Missa do Galo, aquela realizada na noite de vinte e cinco de dezembro.

As famílias dirigiam-se piedosamente aos templos para assistir a cerimônia religiosa. Caminhavam com fé e ansiosas pela mesa farta que iriam encontrar no retorno aos lares.

Poucos, hoje, têm coragem de se apresentar nas ruas das grandes cidades brasileiras à meia noite. É tentativa de suicídio. No mínimo se sujeitará a um furto, quando não a um latrocínio.

As crianças – ponto essencial do Natal – já não se debruçam encantadas perante os presépios. A singeleza das pequenas figuras de terracota já não sensibilizam. Optam por um bom “game”.

É melancólico. Na internacionalização dos costumes, os valores autênticos de nosso passado foram superados. Venceram figuras estranhas. Alheias aos nossos antepassados.

Os meios de comunicação de massa produziram uma grande erosão nas tradições pátrias. As festas religiosas, na sua espontaneidade, foram substituídas por espetáculos de duvidosa qualidade.

Em resumo, “avacalharam” os bons e antigos hábitos do Natal brasileiro. Pode ser saudosismo. Talvez, seja. É preciso, contudo, apontar para a degradação do tempo presente.

Dirão ser as mudanças de costumes próprios das sociedades. Estas estão sempre em evolução. Esta, porém, deve ser para melhor. Não é certamente o que acontece com o Natal.

Tornou-se apenas um acontecimento comercial. A obrigação de presentear. A essência da comemoração foi inteiramente esquecida. Poucos se refugiam nos valores intrínsecos desta festa religiosa.

Retornou-se a velha Roma, nos tempos de Constantino, quando a Festa do Sol, comemorada pelo paganismo, por simbiose, converteu-se na Festa do Sol da Justiça, como se referia o profeta Malaquías ao nascimento do futuro Messias.

A vida contemporânea perdeu seus aspectos espirituais. Uns poucos conservam as práticas de seus ancestrais. A maioria – imensa maioria – encontra-se vocacionada para um materialismo sem causa.

É um materialismo sem qualquer especulação filosófica. É a mera transformação da pessoa em agente de consumo e da utilização do corpo para alcançar todas as formas de prazer.

Avança-se assim para o desenfreado consumo de drogas e bebidas alcoólicas. O corpo humano torna-se mero objeto de consumo. O bom é infringir todas as regras de comportamento.

Neste cenário, tudo se transforma em uma arena sem normas. Perderam-se os valores históricos. Foram transformados em simples hábitos de consumo.

É claro que os reflexos desta situação, na vida política do País, são inevitáveis. Os agentes públicos – com honrosas exceções – avançam sobre o erário sem qualquer escrúpulo.

Querem se locupletar. Ninguém mais pretende servir à comunidade. Os cargos públicos, antes lugar ocupado pelos homens de bem, agora, por vezes, neles se instalam malfeitores.

A situação preocupa. Não é só brasileira. Esta presente, em graus variados, em muitas sociedades. Aqui, pela perda da identidade comum, as coisas se agravam.

O Natal já não é mais o mesmo. Transformou-se em mero “shopping center” de consumidores paganizados.



sábado, 14 de dezembro de 2013

Por uma velhice mais significativa

Knud Romer Jørgensen é um escritor e publicitário dinamarquês que ficou relativamente famoso no mundo por ter produzido um documentário sobre o período final da vida de seu pai, acometido do mal de Alzheimer, além de todos os problemas tradicionalmente relacionados à velhice.

No vídeo abaixo, com legendas em português, você poderá ver a crítica contundente que Jørgensen faz aos sistemas familiar, social, previdenciário e de saúde da Dinamarca, que - apesar de ser do assim chamado "primeiro mundo" - guarda profundas semelhanças com os seus equivalentes no Brasil.

A grande mensagem do vídeo, entretanto, é a maneira como a sociedade isola crianças e idosos com o único fim de privilegiar a idade produtiva, entendendo-se por "produção" aí a condição de consumir, consumir, consumir...

No fim, somos todos consumidos sem perdão:




terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Chinês se suicida após acompanhar namorada no shopping por 5 horas

A notícia correu rapidamente o mundo feito rastilho de pólvora, e tem toda pinta de ser falsa, apenas uma pegadinha mais no mundo da informação instantânea, mas não deixa de ser curiosa, mesmo que não seja verdadeira.

A informação é da InfoExame:

Homem se suicida após namorada continuar comprando sapatos

Marcelo Venceslau

Um homem de 38 anos se suicidou em um Shopping Center em Xuzhou, leste da China, após sua namorada continuar comprando sapatos. A tragédia aconteceu no último sábado (7).

Depois de mais de 5 horas no shopping, o homem não aguentou continuar entrando em lojas de sapato e acabou pulando sete andares até a morte. A namorada, que não foi identificada, disse ao homem para dar mais uma volta à procura de sapatos.

Segundo uma testemunha, Tao Hsiao disse a sua namorada que eles já tinham sapatos o suficiente e sacolas demais para carregar, mas ela insistia em entrar em mais uma loja que tinha uma oferta especial para sapatos. “Ela começou a gritar, disse que ele era muito avarento e que estava destruindo o Natal“, disse a testemunha ao Daily Mail. Em seguida o chinês largou suas sacolas no chão e pulou pela sacada até se chocar com os enfeites natalinos do shopping e, em seguida, com o chão.

Segundo o porta-voz do Shopping, o serviço de emergência chegou rapidamente para socorrer o homem, mas ele já estava morto devido ao impacto da queda. “Este é um trágico acidente, mas essa época do ano pode ser muito estressante para muitas pessoas”, disse o porta-voz.

*Com informações do Daily Mail



quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O alto preço do materialismo


Um vídeo muito interessante sobre os males provocados pelo consumismo desenfreado e pela exposição massiva à propaganda do "compre! coma! faça!":




sexta-feira, 22 de novembro de 2013

50 anos sem C. S. Lewis, Aldous Huxley e John F. Kennedy


O dia 22 de novembro de 1963 ficou marcado na História da humanidade como a data em que o então presidente americano John Fitzgerald Kennedy foi assassinado em Dallas, Texas.

Entretanto, JFK foi apenas o personagem histórico mais famoso que faleceu naquele fatídico dia, que também levou os britânicos Aldous Huxley e C. S. Lewis.

Huxley foi um escritor prolífico e visionário, que deixou obras como "Admirável Mundo Novo", um retrato do autoritarismo do Estado sobre as liberdades individuais, inspirado na experiência que ele próprio teve ao viver na Itália fascista dos anos 1920.

No premonitório "Admirável Mundo Novo" de Huxley, publicado em 1932, tudo é pré-condicionado pelo Estado para fazer as pessoas viverem em harmonia na nova sociedade, sem necessidade de valores familiares, religiosos ou morais.

Se alguém se desviasse desse padrão pré-fabricado de comportamento, seria reconduzido a ele mediante uma droga social chamada "soma".

É de Aldous Huxley a conhecida frase que diz:
"A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão."
Qualquer semelhança com a sociedade em que vivemos hoje em dia, como você percebe, não é mera coincidência.

Já C. S. Lewis é a abreviatura pela qual ficou conhecido Clives Staples Lewis, que ficou mais conhecido pelas suas monumentais "Crônicas de Nárnia", contos fantásticos através dos quais ele mostrou ao mundo a sua crença cristã.

Outro livro extraordinário de C. S. Lewis é "Cristianismo Puro e Simples", resultado da compilação de uma série de palestras radiofônicas que ele fez pela BBC de Londres entre 1942 e 1944, com o fim de dar esperança aos britânicos enquanto bombas enviadas por Hitler caíam sobre as suas cabeças.

Publicado na forma definitiva em 1952, "Cristianismo Puro e Simples" (ou "Mero Cristianismo" em outra versão) faz a defesa dos dogmas centrais da religião cristã, numa maneira que teve enorme acolhida de católicos, ortodoxos e protestantes.

Clicando na tag C. S. Lewis deste blog, você terá oportunidade de conhecer as principais ideias da sua obra, embora seja impossível - para o nosso propósito - dar a dimensão exata da vastidão do que esse grande homem pensou e escreveu. 

Entretanto, destacamos seu comentário sobre bondade e maldade, que pode ser lido clicando aqui, e um trecho de sua autobiografia, "Surpreendido pela Alegria", em que Lewis conta o seu percurso do ateísmo até a fé cristã, concluindo assim:
“Quando estamos perdidos na mata, a visão de um marco tem grande importância. Quem o vê primeiro, grita: “Olhem lá!” Todo o grupo se reúne e tenta enxergar. Mas depois de encontrar a estrada, passando pelos marcos a cada poucos quilômetros, não mais paramos para olhar. Eles nos encorajam e devemos mostrar-nos gratos pela autoridade que os erigiu. Mas não paramos para olhar, ou pelo menos não lhes damos importância excessiva; não nesta estrada, embora os marcos sejam de prata e as inscrições, de ouro: “Nós seguimos para Jerusalém”.
Não é, claro, que eu não me surpreenda muitas vezes parando à margem da estrada para olhar objetos de importância ainda menor.”

(C. S. Lewis, “Surpreendido pela Alegria”, Mundo Cristão, 1998, p. 243)
Por fim, John Fitzgerald Kennedy foi o primeiro presidente católico dos Estados Unidos, o jovem milionário e boa pinta que, ao lado da esposa Jacqueline, deu à Casa Branca um ar de corte inglesa medieval, que veio a ser conhecida popularmente como "Camelot".

A família Kennedy, por si só, gerou uma saga americana com as tragédias que a envolveram, como a morte do irmão de JFK, Robert F. Kennedy, em 1968 e o acidente aéreo que vitimou John Fitzgerald Kennedy Jr. em 1999, apenas para citar dois exemplos.

JFK governou numa época conturbada da Guerra Fria, em que o envolvimento americano no caos do Vietnã, o início do programa espacial da NASA e a crise dos mísseis em Cuba marcaram as disputas com a então União Soviética, deixando o mundo a um mísero fio da Terceira Guerra Mundial.

No campo interno, deu todo o apoio possível na época ao movimento dos direitos civis liderado por Martin Luther King, Jr., que vivia a sua efervescência na luta contra a discriminação racial.

Para ficar apenas no campo das frases, entre as muitas que ele proferiu e ficaram famosas, uma delas é a que diz: "Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país!"

Por essas e outras razões, o seu assassinato por Lee Harvey Oswald naquele fatídico 22/11/63 nunca foi aceito - pelo imaginário popular - como a obra de um homem só.

Cinquenta anos de teorias da conspiração depois, entretanto, não foram suficientes para incriminar mais ninguém do que o próprio Oswald.

Talvez o grande susto que a humanidade tomou naquele dia foi saber que até o homem mais poderoso do mundo era vulnerável a um ato tresloucado qualquer.

Definitivamente, somos todos mortais!

O que poderia nos diferenciar, então, seria o que vem após a morte, ou seja, o nosso destino eterno.

De certa maneira, os três homens que morreram exatos 50 anos atrás nos mostraram, cada um à sua maneira, as mais diversas facetas da humanidade, da humildade passando pela manipulação ideológica até o supremo poder que se pode atingir neste mundo.

Por sinal, o filósofo cristão Peter Kreeft lançou em 1982 o livro "Between Heaven and Hell" ("Entre Céu e Inferno"), em que imagina um diálogo entre os três personagens se encontrando logo após a morte naquele dia, em que eles debatem as suas visões de mundo antes de saberem o que a eternidade lhes reservava.

O livro foi lançado no Brasil pela Editora Mundo Cristão com o título "O Diálogo - Um debate além da morte entre John F. Kennedy, C. S. Lewis e Aldous Huxley", já esgotado, infelizmente.

Huxley nasceu em 1894; Lewis, em 1898; Kennedy em 1917. Três vidas que, por essas estranhas coincidências do destino, se apagaram neste mesmo dia em 1963.

Três jornadas que marcaram o século XX e explicam, mesmo com suas deficiências e contradições, o mundo atual em que vivemos.



domingo, 29 de setembro de 2013

O discurso de Pepe Mujica na ONU



José "Pepe" Mujica, presidente do Uruguai, não é só o mandatário mais pobre do mundo, como já comentamos aqui no blog, mas também alguém que foge aos chavões dos discursos dos grandes líderes políticos globais.

O seu discurso na Assembleia Geral da ONU, na semana passada, alcançou repercussão mundial, maior do que as falas de Barack Obama, Dilma Rousseff, e tantos outros chefes de governo e de Estado que usaram a tribuna no mesmo evento.

O que não é pouca coisa para um presidente de um país com 3,5 milhões de habitantes. Mujica mostrou a veracidade do ditado popular que diz que tamanho não é documento.

A repercussão do discurso de Mujica foi tanta que até virou graffiti nas ruas de São Paulo:


via twitter @lucasrohan

Abaixo, o vídeo e a íntegra do discurso épico de Mujica, traduzido, obviamente, para o português:





Amigos, sou do sul, venho do sul. Esquina do Atlântico e do Prata, meu país é uma planície suave, temperada, uma história de portos, couros, charque, lãs e carne. Houve décadas púrpuras, de lanças e cavalos, até que, por fim, no arrancar do século 20, passou a ser vanguarda no social, no Estado, no Ensino. Diria que a social-democracia foi inventada no Uruguai.

Durante quase 50 anos, o mundo nos viu como uma espécie de Suíça. Na realidade, na economia, fomos bastardos do império britânico e, quando ele sucumbiu, vivemos o amargo mel do fim de intercâmbios funestos, e ficamos estancados, sentindo falta do passado.

Quase 50 anos recordando o Maracanã, nossa façanha esportiva. Hoje, ressurgimos no mundo globalizado, talvez aprendendo de nossa dor. Minha história pessoal, a de um rapaz — por que, uma vez, fui um rapaz — que, como outros, quis mudar seu tempo, seu mundo, o sonho de uma sociedade libertária e sem classes. Meus erros são, em parte, filhos de meu tempo. Obviamente, os assumo, mas há vezes que medito com nostalgia.

Quem tivera a força de quando éramos capazes de abrigar tanta utopia! No entanto, não olho para trás, porque o hoje real nasceu das cinzas férteis do ontem. Pelo contrário, não vivo para cobrar contas ou para reverberar memórias.

Me angustia, e como, o amanhã que não verei, e pelo qual me comprometo. Sim, é possível um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez, hoje, a primeira tarefa seja cuidar da vida.

Mas sou do sul e venho do sul, a esta Assembleia, carrego inequivocamente os milhões de compatriotas pobres, nas cidades, nos desertos, nas selvas, nos pampas, nas depressões da América Latina pátria de todos que está se formando.

Carrego as culturas originais esmagadas, com os restos de colonialismo nas Malvinas, com bloqueios inúteis a este jacaré sob o sol do Caribe que se chama Cuba. Carrego as consequências da vigilância eletrônica, que não faz outra coisa que não despertar desconfiança. Desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego uma gigantesca dívida social, com a necessidade de defender a Amazônia, os mares, nossos grandes rios na América.

Carrego o dever de lutar por pátria para todos.

Para que a Colômbia possa encontrar o caminho da paz, e carrego o dever de lutar por tolerância, a tolerância é necessária para com aqueles que são diferentes, e com os que temos diferências e discrepâncias. Não se precisa de tolerância com aqueles com quem estamos de acordo.

A tolerância é o fundamento de poder conviver em paz, e entendendo que, no mundo, somos diferentes.

O combate à economia suja, ao narcotráfico, ao roubo, à fraude e à corrupção, pragas contemporâneas, procriadas por esse antivalor, esse que sustenta que somos felizes se enriquecemos, seja como seja. Sacrificamos os velhos deuses imateriais. Ocupamos o templo com o deus mercado, que nos organiza a economia, a política, os hábitos, a vida e até nos financia em parcelas e cartões a aparência de felicidade.

Parece que nascemos apenas para consumir e consumir e, quando não podemos, nos enchemos de frustração, pobreza e até autoexclusão.

O certo, hoje, é que, para gastar e enterrar os detritos nisso que se chama pela ciência de poeira de carbono, se aspirarmos nesta humanidade a consumir como um americano médio, seriam imprescindíveis três planetas para poder viver.

Nossa civilização montou um desafio mentiroso e, assim como vamos, não é possível satisfazer esse sentido de esbanjamento que se deu à vida. Isso se massifica como uma cultura de nossa época, sempre dirigida pela acumulação e pelo mercado.

Prometemos uma vida de esbanjamento, e, no fundo, constitui uma conta regressiva contra a natureza, contra a humanidade no futuro. Civilização contra a simplicidade, contra a sobriedade, contra todos os ciclos naturais.

O pior: civilização contra a liberdade que supõe ter tempo para viver as relações humanas, as únicas que transcendem: o amor, a amizade, aventura, solidariedade, família.

Civilização contra tempo livre que não é pago, que não se pode comprar, e que nos permite contemplar e esquadrinhar o cenário da natureza.

Arrasamos a selva, as selvas verdadeiras, e implantamos selvas anônimas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com comprimidos, a solidão com eletrônicos, porque somos felizes longe da convivência humana.

Cabe se fazer esta pergunta, ouvimos da biologia que defende a vida pela vida, como causa superior, e a suplantamos com o consumismo funcional à acumulação.

A política, eterna mãe do acontecer humano, ficou limitada à economia e ao mercado. De salto em salto, a política não pode mais que se perpetuar, e, como tal, delegou o poder, e se entretém, aturdida, lutando pelo governo. Debochada marcha de historieta humana, comprando e vendendo tudo, e inovando para poder negociar de alguma forma o que é inegociável. Há marketing para tudo, para os cemitérios, os serviços fúnebres, as maternidades, para pais, para mães, passando pelas secretárias, pelos automóveis e pelas férias. Tudo, tudo é negócio.

Todavia, as campanhas de marketing caem deliberadamente sobre as crianças, e sua psicologia para influir sobre os adultos e ter, assim, um território assegurado no futuro. Sobram provas de essas tecnologias bastante abomináveis que, por vezes, conduzem a frustrações e mais.

O homenzinho médio de nossas grandes cidades perambula entre os bancos e o tédio rotineiro dos escritórios, às vezes temperados com ar condicionado. Sempre sonha com as férias e com a liberdade, sempre sonha com pagar as contas, até que, um dia, o coração para, e adeus. Haverá outro soldado abocanhado pelas presas do mercado, assegurando a acumulação. A crise é a impotência, a impotência da política, incapaz de entender que a humanidade não escapa nem escapará do sentimento de nação. Sentimento que está quase incrustado em nosso código genético.

Hoje é tempo de começar a talhar para preparar um mundo sem fronteiras. A economia globalizada não tem mais condução que o interesse privado, de muitos poucos, e cada Estado Nacional mira sua estabilidade continuísta, e hoje a grande tarefa para nossos povos, em minha humilde visão, é o todo.

Como se isto fosse pouco, o capitalismo produtivo, francamente produtivo, está meio prisioneiro na caixa dos grandes bancos. No fundo, são o vértice do poder mundial. Mais claro, cremos que o mundo requer a gritos regras globais que respeitem os avanços da ciência, que abunda. Mas não é a ciência que governa o mundo. Se precisa, por exemplo, uma larga agenda de definições, quantas horas de trabalho e toda a terra, como convergem as moedas, como se financia a luta global pela água e contra os desertos.

Como se recicla e se pressiona contra o aquecimento global. Quais são os limites de cada grande questão humana. Seria imperioso conseguir consenso planetário para desatar a solidariedade com os mais oprimidos, castigar impositivamente o esbanjamento e a especulação. Mobilizar as grandes economias não para criar descartáveis com obsolescência calculada, mas bens úteis, sem fidelidade, para ajudar a levantar os pobres do mundo. Bens úteis contra a pobreza mundial. Mil vezes mais rentável que fazer guerras. Virar um neo-keynesianismo útil, de escala planetária, para abolir as vergonhas mais flagrantes deste mundo.

Talvez nosso mundo necessite menos de organismos mundiais, desses que organizam fórums e conferências, que servem muito às cadeias hoteleiras e às companhias aéreas e, no melhor dos casos, não reúne ninguém e transforma em decisões…

Precisamos sim mascar muito o velho e o eterno da vida humana junto da ciência, essa ciência que se empenha pela humanidade não para enriquecer; com eles, com os homens de ciência da mão, primeiros conselheiros da humanidade, estabelecer acordos para o mundo inteiro. Nem os Estados nacionais grandes, nem as transnacionais e muito menos o sistema financeiro deveriam governar o mundo humano. Sim, a alta política entrelaçada com a sabedoria científica, ali está a fonte. Essa ciência que não apetece o lucro, mas que mira o por vir e nos diz coisas que não escutamos. Quantos anos faz que nos disseram coisas que não entendemos? Creio que se deve convocar a inteligência ao comando da nave acima da terra, coisas assim e coisas que não posso desenvolver nos parecem impossíveis, mas requeririam que o determinante fosse a vida, não a acumulação.

Obviamente, não somos tão iludidos, nada disso acontecerá, nem coisas parecidas. Nos restam muitos sacrifícios inúteis daqui para diante, muitos remendos de consciência sem enfrentar as causas. Hoje, o mundo é incapaz de criar regras planetárias para a globalização e isso é pela enfraquecimento da alta política, isso que se ocupa de todo. Por último, vamos assistir ao refúgio de acordos mais ou menos “reclamáveis”, que vão plantear um comércio interno livre, mas que, no fundo, terminarão construindo parapeitos protecionistas, supranacionais em algumas regiões do planeta. A sua vez, crescerão ramos industriais importantes e serviços, todos dedicados a salvar e a melhorar o meio ambiente. Assim vamos nos consolar por um tempo, estaremos entretidos e, naturalmente, continuará a parecer que a acumulação é boa, para a alegria do sistema financeiro.

Continuarão as guerras e, portanto, os fanatismos, até que, talvez, a mesma natureza faça um chamado à ordem e torne inviáveis nossas civilizações. Talvez nossa visão seja demasiado crua, sem piedade, e vemos ao homem como uma criatura única, a única que há acima da terra capaz de ir contra sua própria espécie. Volto a repetir, porque alguns chamam a crise ecológica do planeta de consequência do triunfo avassalador da ambição humana. Esse é nosso triunfo e também nossa derrota, porque temos impotência política de nos enquadrarmos em uma nova época. E temos contribuído para sua construção sem nos dar conta.

Por que digo isto? São dados, nada mais. O certo é que a população quadruplicou e o PIB cresceu pelo menos vinte vezes no último século. Desde 1990, aproximadamente a cada seis anos o comércio mundial duplica. Poderíamos seguir anotando dados que estabelecem a marcha da globalização. O que está acontecendo conosco? Entramos em outra época aceleradamente, mas com políticos, enfeites culturais, partidos e jovens, todos velhos ante a pavorosa acumulação de mudanças que nem sequer podemos registrar. Não podemos manejar a globalização porque nosso pensamento não é global. Não sabemos se é uma limitação cultural ou se estamos chegano a nossos limites biológicos.

Nossa época é portentosamente revolucionária como não conheceu a história da humanidade. Mas não tem condução consciente, ou ao menos condução simplesmente instintiva. Muito menos, todavia, condução política organizada, porque nem se quer tivemos filosofia precursora ante a velocidade das mudanças que se acumularam.

A cobiça, tão negatica e tão motor da história, essa que impulsionou o progresso material técnico e científico, que fez o que é nossa época e nosso tempo e um fenomenal avanço em muitas frentes, paradoxalmente, essa mesma ferramenta, a cobiça que nos impulsionou a domesticar a ciência e transformá-la em tecnologia nos precipita a um abismo nebuloso. A uma história que não conhecemos, a uma época sem história, e estamos ficando sem olhos nem inteligência coletiva para seguir colonizando e para continuar nos transformando.

Porque se há uma característica deste bichinho humano é a de que é um conquistador antropológico.

Parece que as coisas tomam autonomia e essas coisas subjugam os homens. De um lado a outro, sobram ativos para vislumbrar tudo isso e para vislumbrar o rombo. Mas é impossível para nós coletivizar decisões globais por esse todo. A cobiça individual triunfou grandemente sobre a cobiça superior da espécie. Aclaremos: o que é “tudo”, essa palavra simples, menos opinável e mais evidente? Em nosso Ocidente, particularmente, porque daqui viemos, embora tenhamos vindo do sul, as repúblicas que nasceram para afirmas que os homens são iguais, que ninguém é mais que ninguém, que os governos deveriam representar o bem comum, a justiça e a igualdade. Muitas vezes, as repúblicas se deformam e caem no esquecimento da gente que anda pelas ruas, do povo comum.

Não foram as repúblicas criadas para vegetar, mas ao contrário, para serem um grito na história, para fazer funcionais as vidas dos próprios povos e, por tanto, as repúblicas que devem às maiorias e devem lutar pela promoção das maiorias.

Seja o que for, por reminiscências feudais que estão em nossa cultura, por classismo dominador, talvez pela cultura consumista que rodeia a todos, as repúblicas frequentemente em suas direções adotam um viver diário que exclui, que se distância do homem da rua.

Esse homem da rua deveria ser a causa central da luta política na vida das repúblicas. Os gobernos republicanos deveriam se parecer cada vez mais com seus respectivos povos na forma de viver e na forma de se comprometer com a vida.

A verdade é que cultivamos arcaísmos feudais, cortesias consentidas, fazemos diferenciações hierárquicas que, no fundo, amassam o que têm de melhor as repúblicas: que ninguém é mais que ninguém. O jogo desse e de outros fatores nos retém na pré-história. E, hoje, é impossível renunciar à guerra cuando a política fracassa. Assim, se estrangula a economia, esbanjamos recursos.

Ouçam bem, queridos amigos: em cada minuto no mundo se gastam US$ 2 milhões em ações militares nesta terra. Dois milhões de dólares por minuto em inteligência militar!! Em investigação médica, de todas as enfermidades que avançaram enormemente, cuja cura dá às pessoas uns anos a mais de vida, a investigação cobre apenas a quinta parte da investigação militar.

Este processo, do qual não podemos sair, é cego. Assegura ódio e fanatismo, desconfiança, fonte de novas guerras e, isso também, esbanjamento de fortunas. Eu sei que é muito fácil, poeticamente, autocriticarmo-nos pessoalmente. E creio que seria uma inocência neste mundo plantear que há recursos para economizar e gastar em outras coisas úteis. Isso seria possível, novamente, se fôssemos capazes de exercitar acordos mundiais e prevenções mundiais de políticas planetárias que nos garantissem a paz e que a dessem para os mais fracos, garantia que não temos. Aí haveria enormes recursos para deslocar e solucionar as maiores vergonhas que pairam sobre a Terra. Mas basta uma pergunta: nesta humanidade, hoje, onde se iria sem a existência dessas garantias planetárias? Então cada qual esconde armas de acordo com sua magnitude, e aqui estamos, porque não podemos raciocinar como espécie, apenas como indivíduos.

As instituições mundiais, particularmente hoje, vegetam à sombra consentida das dissidências das grandes nações que, obviamente, querem reter sua cota de poder.

Bloqueiam esta ONU que foi criada com uma esperança e como um sonho de paz para a humanidade. Mas, pior ainda, desarraigam-na da democracia no sentido planetário porque não somos iguais. Não podemos ser iguais nesse mundo onde há mais fortes e mais fracos. Portanto, é uma democracia ferida e está cerceando a história de um possível acordo mundial de paz, militante, combativo e verdadeiramente existente. E, então, remendamos doenças ali onde há eclosão, tudo como agrada a algumas das grandes potências. Os demais olham de longe. Não existimos.

Amigos, creio que é muito difícil inventar uma força pior que nacionalismo chovinista das grandes potências. A força é que liberta os fracos. O nacionalismo, tão pai dos processos de descolonização, formidável para os fracos, se transforma em uma ferramenta opressora nas mãos dos fortes e, nos últimos 200 anos, tivemos exemplos disso por toda a parte.

A ONU, nossa ONU, enlanguece, se burocratiza por falta de poder e de autonomia, de reconhecimento e, sobretudo, de democracia para o mundo mais fraco que constitui a maioria esmagadora do planeta. Mostro um pequeno exemplo, pequenino. Nosso pequeno país tem, em termos absolutos, a maior quantidade de soldados em missões de paz em todos os países da América Latina. E ali estamos, onde nos pedem que estejamos. Mas somos pequenos, fracos. Onde se repartem os recursos e se tomam as decisões, não entramos nem para servir o café. No mais profundo de nosso coração, existe um enorme anseio de ajudar para que o homem saia da pré-história. Eu defino que o homem, enquanto viver em clima de guerra, está na pré-história, apesar dos muitos artefatos que possa construir.

Até que o homem não saia dessa pré-história e arquive a guerra como recurso quando a política fracassa, essa é a larga marcha e o desafio que temos daqui adiante. E o dizemos com conhecimento de causa. Conhecemos a solidão da guerra. No entanto, esses sonhos, esses desafios que estão no horizonte implicam lutar por uma agenda de acordos mundiais que comecem a governar nossa história e superar, passo a passo, as ameaças à vida. A espécie como tal deveria ter um governo para a humanidade que superasse o individualismo e primasse por recriar cabeças políticas que acudam ao caminho da ciência, e não apenas aos interesses imediatos que nos governam e nos afogam.

Paralelamente, devemos entender que os indigentes do mundo não são da África ou da América Latina, mas da humanidade toda, e esta deve, como tal, globalizada, empenhar-se em seu desenvolvimento, para que possam viver com decência de maneira autônoma. Os recursos necessários existem, estão neste depredador esbanjamento de nossa civilização.

Há poucos dias, fizeram na Califórnia, em um corpo de bombeiros, uma homenagem a uma lâmpada elétrica que está acesa há cem anos. Cem anos que está acesa, amigo! Quantos milhões de dólares nos tiraram dos bolsos fazendo deliberadamente porcarias para que as pessoas comprem, comprem, comprem e comprem.

Mas esta globalização de olhar para todo o planeta e para toda a vida significa uma mudança cultural brutal. É o que nos requer a história. Toda a base material mudou e cambaleou, e os homens, com nossa cultura, permanecem como se não houvesse acontecido nada e, em vez de governarem a civilização, deixam que ela nos governe. Há mais de 20 anos que discutimos a humilde taxa Tobin. Impossível aplicá-la no tocante ao planeta. Todos os bancos do poder financeiro se irrompem feridos em sua propriedade privada e sei lá quantas coisas mais. Mas isso é paradoxal. Mas, com talento, com trabalho coletivo, com ciência, o homem, passo a passo, é capaz de transformar o deserto em verde.

O homem pode levar a agricultura ao mar. O homem pode criar vegetais que vivam na água salgada. A força da humanidade se concentra no essencial. É incomensurável. Ali estão as mais portentosas fontes de energia. O que sabemos da fotossíntese? Quase nada. A energia no mundo sobra, se trabalharmos para usá-la bem. É possível arrancar tranquilamente toda a indigência do planeta. É possível criar estabilidade e será possível para as gerações vindouras, se conseguirem raciocinar como espécie e não só como indivíduos, levar a vida à galáxia e seguir com esse sonho conquistador que carregamos em nossa genética.

Mas, para que todos esses sonhos sejam possíveis, precisamos governar a nos mesmos, ou sucumbiremos porque não somos capazes de estar à altura da civilização em que fomos desenvolvendo.

Este é nosso dilema. Não nos entretenhamos apenas remendando consequências. Pensemos na causa profundas, na civilização do esbanjamento, na civilização do usa-tira que rouba tempo mal gasto de vida humana, esbanjando questões inúteis. Pensem que a vida humana é um milagre. Que estamos vivos por um milagre e nada vale mais que a vida. E que nosso dever biológico, acima de todas as coisas, é respeitar a vida e impulsioná-la, cuidá-la, procriá-la e entender que a espécie é nosso “nós”.

Obrigado.





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