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domingo, 20 de setembro de 2015

Desacelere a sua mente, elimine o excesso de informação e viva melhor!


É o que aconselha o neurocientista Daniel Levitin em entrevista concedida a Lúcia Guimarães e publicada no Estadão:

Contemplar o capim

Em livro, neurocientista desmonta o mito das multitarefas e mostra que descansar a mente libera espaço para as grandes ideias

Folgo e convido minha alma,
deito-me e folgo à vontade vendo
uma lança de capim no estio.
(CANÇÃO DE MIM MESMO, POEMA DE FOLHAS DE RELVA, DE WALT WHITMAN)

Quem tem tempo de se espalhar na grama e admirar a lança de capim em vez de conferir a tela do smartphone? Em 1855, o poeta Walt Whitman não sabia nem precisava saber o que era ser multitarefas, mas já ensinava, em seu poema clássico, que a mente precisa vadiar. Vivemos uma era de aceleração de fontes de informação como nenhuma outra na história da humanidade. Mas o nosso cérebro tem a mesma capacidade fisiológica de enfrentar esse ataque de dados que tinha o cérebro do poeta. Em um livro best-seller escrito para você e para mim, não para cientistas, o celebrado autor Daniel Levitin oferece recursos para impedir que o leitor seja soterrado pela avalanche diária de informação. A Mente Organizada combina a apresentação das descobertas recentes em estudos sobre o cérebro e sugere rotinas para assumir o controle do ecossistema de informação, e não ser controlado por ele. Levitin é um neurocientista, especialista em psicologia cognitiva e músico, autor de outro best-seller, A Música no Seu Cérebro.

Ele dirige um laboratório de percepção musical na McGill University, em Montreal, e é cofundador e diretor do programa de Ciências Sociais do Projeto Minerva, universidade fundada em 2012 em San Francisco. O Minerva é um programa de graduação com 120 alunos que visa a reformar a educação superior do século 21 para enfrentar as rápidas mudanças em vários campos de conhecimento. “Não achamos honesto cobrar altas anuidades de estudantes que, ao se formar em certos campos profissionais, não podem mais usar o que aprenderam porque seu conhecimento já está superado”, diz Levitin, em entrevista exclusiva ao Aliás. “Temos foco em pensamento crítico, solução de problemas e 25% do currículo é concentrado em promover a comunicação efetiva.” Engraçado: na era dos nerds esquisitões da tecnologia, uma escola de vanguarda privilegia o diálogo.

Em A Mente Organizada, Levitin observa o que têm em comum as pessoas bem-sucedidas e produtivas. Sugere estratégias de organizar a memória – esvaziá-la com exercício e instrumentos que chama de extensões do cérebro, como calendários eletrônicos, smartphones e cadernos de anotação. Curiosamente, ele notou, entre seus mais ocupados interlocutores, um apego físico a objetos analógicos, pequenos cadernos de anotação, fichas, canetas e lápis. E especula sobre as vantagens de manter esse hábito.

O cérebro precisa de resets neurais. São esses resets que nos tiram de situações como a de um carro atolado na lama. É frequente, depois de uma pausa de repouso, encontrar a solução para um problema que parecia fora de alcance. A neurociência, conta Levitin, comprova que contemplar a natureza oferece um poderoso reset – até mesmo olhar imagens da natureza.

A eficiência em organizar a informação nos torna mais do que produtivos. É um instrumento de libertação para o ócio, para os momentos em que podemos contemplar a grama e ter grandes ideias. Como ter inspiração para escrever o maior clássico da poesia norte-americana.

Por que falamos em sobrecarga de informações?

Para os cientistas, a sobrecarga é a diferença entre a quantidade de informação com que somos bombardeados e a capacidade do nosso cérebro de lidar com ela.

O que é a obsolescência evolucionária, que o senhor aponta como parte do obstáculo para lidar com o excesso de informação?

Todos os organismos vivos estão constantemente se adaptando ao meio ambiente. A seleção natural exerce influência sobre essa adaptação. Por exemplo, nós nos adaptamos à erosão da camada de ozônio e pessoas que adquirirem maior resistência aos raios ultravioleta transmitirão aos descendentes o gene de sobrevivência a eles. Mas é um longo e lento processo. Nosso cérebro evoluiu para lidar com um ambiente que existia há 10, 20 mil anos. O genoma humano precisa de tempo para se adaptar. Para você ter uma ideia, em 30 anos quintuplicou a quantidade de informação que recebemos a cada dia. Pense nisso como o equivalente a ler 175 jornais de ponta a ponta diariamente. Outro número extraordinário: em 1976, nos Estados Unidos, havia cerca de 9 mil produtos únicos à venda num supermercado. Hoje, há cerca de 40 mil. O consumidor americano, que compra uma média de 150 produtos, tem que navegar entre uma quantidade muito maior de escolhas.

Embora a evolução do cérebro esteja “atrasada”, há duas gerações essa obsolescência era muito menos sentida, certo?

Vamos considerar um aprendizado que foi necessário para nossos avós. Eles tiveram que aprender a usar o telefone uma ou duas vezes – tiveram que fazer chamadas com ajuda de telefonistas e depois aprenderam a discar. Hoje, os smartphones não param de mudar. Você troca de modelo e tem que aprender inúmeras funções, que daqui a poucos anos serão trocadas.

Há um site chamado “Deixe eu googlar isto pra você” inspirado na exasperação que muitos sentem quando alguém faz uma pergunta que pode ser respondida online. Qual a importância de ter tanta informação disponível em poucos segundos?

Quando eu cursava a Universidade Stanford, na Califórnia, gostava de estudar dentro da enorme biblioteca principal. Havia ali respostas para tudo o que eu queria saber. Mesmo se eu me distraísse e quisesse conferir algo que não tinha ligação direta com o trabalho em questão, era preciso levantar, localizar um livro ou publicação num sistema de classificação. Hoje, a nossa atenção é desviada o tempo todo para novas fontes e isso afeta a possibilidade de recuperar o foco inicial. Há enorme variação na nossa capacidade de virar a chave da atenção. Mulheres e jovens tendem a ser mais rápidos do que homens e idosos. Mas varia muito. Se me distraio de algo, demoro uns cinco minutos para retomar a concentração.

A palavra multitarefas, executar várias tarefas ao mesmo tempo, é indissociável da rotina do século 21. Mas o senhor diz que multitarefas não passam de ficção.

Não existem multitarefas, é um mito. O cérebro simplesmente não comporta isso. A pessoa pensa que está lidando com várias coisas ao mesmo tempo quando, de fato, o cérebro está experimentando rápidas mudanças de foco que mal percebemos, o que resulta numa atenção fragmentada a várias coisas e nenhuma atenção sólida a uma que seja. Recentemente ficou provado que conseguimos prestar atenção a, no máximo, três ou quatro coisas de uma vez. O cérebro é eficaz em provocar autoilusão. Achamos que estamos no controle das coisas. Mas executar várias tarefas ao mesmo tempo libera um hormônio de estresse, o cortisol. O cortisol tem um papel evolucionário, mas também provoca ansiedade, nervosismo e afeta a clareza de pensamento. Comparo o ato de fazer várias tarefas ao mesmo tempo com uma espécie de embriaguez. Há trabalhos que exigem essa capacidade, como tradutor simultâneo ou controlador de tráfego aéreo. E não é à toa que, nessas funções, as pessoas são obrigadas a fazer várias pausas de descanso para recuperar a capacidade de se concentrar.

No entanto, há uma noção de que as pessoas bem-sucedidas, e o senhor entrevistou mais de 100 para escrever o livro, são as que têm o poder de acumular mais tarefas do que os outros.

Exato, mas a história e a ciência de laboratório nos provam o contrário. Estudos mostram que o trabalho de quem mantém o foco numa tarefa é mais criativo. Isso vale tanto para grandes empresários, atletas e inovadores como para artistas. Valia para Da Vinci e Michelangelo. Olhe para o alto na Capela Sistina, considere grandes conquistas como o cubismo, a 5ª Sinfonia de Beethoven, a obra de William Shakespeare – tudo é resultado de atenção sustentada ao longo do tempo.

Por que o senhor diz que as crianças devem aprender na escola, já aos 10 anos, a enfrentar a sobrecarga de informação?

Qualquer criança alfabetizada sabe que pode encontrar uma informação em segundos. Mas a maior parte do que está online é desinformação. Ficções mascaradas de fatos. Até estudantes universitários se deixam confundir. Recolhem informações sem perguntar quem está por trás. Como saber que a fonte é confiável? Na escola, os professores devem ensinar, para começo de conversa, que websites não são iguais. Devem incutir um questionamento crítico na pesquisa. À medida que os alunos crescem, vão adquirindo mais nuances para se informar. Por exemplo, se a criança quer um brinquedo, pode-se ensinar a ela que o website do fabricante não é a fonte mais confiável sobre a segurança do brinquedo. Antes, no ecossistema analógico, tínhamos curadores de informação, era mais fácil distinguir a credibilidade de fontes.

O senhor diz que as pessoas mais produtivas são as que melhor estabelecem prioridades.

A maioria de nós chega ao trabalho hoje em dia e é bombardeada com o “por fazer”. É como entrar cambaleando num ambiente em que há muitas exigências e começamos a atacar o que passa pela frente. Não fazemos um esforço consciente e deliberado de evitar que o ambiente em volta nos domine. Isso aumenta o cansaço e diminui a produtividade. Todas as pessoas altamente bem-sucedidas com quem converso têm em comum o fato de que elas anotam o que há por fazer e já começam a trabalhar cientes de prioridades.

O senhor diz que uma ferramenta útil para priorizar são os chamados exercícios de limpeza da mente.

Sim. O David Allen, um guru da produtividade e autor de A Arte de Fazer Acontecer, aponta para a importância de externalizar a informação. Recomenda anotar tudo o que está se passando na sua cabeça, coisas que têm a ver com a tarefa em questão e preocupações que podem distrair a pessoa. É um processo neurológico, porque o cérebro teme esquecer o que é importante. Quando o cérebro sabe que a informação foi arquivada externamente, nas anotações, e o efeito é de nos acalmar, é libertador. Retira o entulho mental que prejudica a atenção.

A sobrecarga de informação se estende ao excesso de objetos. Por que o senhor defende uma gaveta de bagunça?

Um profissional precisa saber exatamente onde estão seus instrumentos. Pode ser um cirurgião, um dentista, um bombeiro. Este tipo de organização nos libera para pensar e tomar decisões. Mas excesso de organização é contraprodutivo, uma perda de tempo. O importante é deixar visíveis os objetos que utilizamos regularmente. Quantas vezes você encontra um parafuso, uma peça e não se lembra de onde vem? Jogue na gaveta de bagunça, a que tem objetos de utilidades diferentes. Isso é uma forma de fazer economia cognitiva, porque não é preciso classificar tudo.

O senhor aponta a correlação entre eliminar o excesso de informação e de pertences e a felicidade.

Se quiser destilar tudo o que se conhece sobre pessoas que se consideram felizes, a frase é a seguinte: elas se satisfazem com o que têm. E são as que querem conquistar algo, não receber prêmios e elogios. O que é diferente de não ter ambição pessoal ou criativa. O empresário Warren Buffett, o terceiro homem mais rico do mundo, com uma fortuna de mais de US$ 70 bilhões, mora na mesma casa há mais de cinco décadas. Ele inventou o neologismo “satisficing”, sobre as coisas que bastam. Não perde tempo com o que não lhe interessa e tem uma agenda diária de trabalho quase vazia, de poucas reuniões, que o deixa livre para ser produtivo.



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Papa diz que falar com Jesus é melhor que fofocar e ver novelas


A matéria é do UOL:

Papa diz que falar com Jesus é melhor que ver novela e fofocar com vizinhos


O papa Francisco afirmou nesta terça-feira (3) que "escutar Jesus" é melhor que "assistir a telenovelas" e "fofocar com os vizinhos".

Francisco fez a declaração durante a tradicional missa matinal na residência de Santa Marta, no Vaticano. Na ocasião, ele discursou sobre uma passagem do Evangelho em que Jesus se encontra no meio de uma multidão e pediu para que os católicos mantivessem o olhar e os ouvidos fixos nas palavras de Jesus.

O papa orientou os fiéis a fazerem "orações de contemplação" a Jesus e criticou os que dizem "não ter tempo para isso".

"Em sua casa, por 15 minutos, pegue o Envangelho, uma passagem curta. Imagine o que aconteceu e fale com Jesus. Dessa forma, seu olhar estará fixo em Jesus, e não nas telenovelas. O seu ouvido estará fixo nas palavras de Jesus, e não nas fofocas dos vizinhos", afirmou Francisco.

Quase todas as manhãs, o papa celebra missa para funcionários e para o público em geral da residência de Santa Marta.



sexta-feira, 11 de março de 2011

O poder do silêncio

Excelente artigo de Marta Barcellos, publicada no caderno Eu & Fim de Semana do jornal Valor Econômico da última sexta-feira antes do Carnaval, dia 04/03/11:

O PODER DO SILÊNCIO

Silêncio, por favor. Nos próximos quatro dias, o pedido soará rabugento ou excêntrico para quem vive próximo à ruidosa festa popular brasileira. O silêncio reflexivo estará confinado em retiros espirituais, que por contraste se tornam mais atrativos nesta época do ano. O silêncio que se contrapõe ao carnaval e o silêncio religioso são modalidades do artigo que vem se tornando luxuoso como uma alegoria de escola de samba. Há várias modalidades de silêncios, todos eles cada vez mais escassos. Em uma sociedade multitarefa e transbordante de comunicação, conseguir ler esta reportagem sem a distração de sons ou a interrupção de barulhos pode ser considerado uma proeza.

Mas o silêncio para a leitura não chega a ser unanimidade: há quem alegue melhor concentração com música ao fundo ou mesmo de alguma balbúrdia. Para a criação, porém, há consenso sobre a necessidade de alguma espécie de silêncio, ao menos internamente. “O silêncio é o lugar das articulações”, afirma o maestro Ricardo Prado, lembrando que o fluxo musical precisa do silêncio para não se tornar um ruído ininterrupto. “O silêncio serve para se construir qualquer coisa a partir dele”, diz o escritor português Miguel Sousa Tavares, que lembrava dos versos de Chico Buarque na canção “Cálice” enquanto escrevia o seu livro “Rio das flores”: “Esse silêncio todo me atordoa; atordoado permaneço atento.”

Recentemente, o escritor protestou em um programa de TV português contra o excesso de comunicação e defendeu que as pessoas deveriam ficar pelo menos meia hora em silêncio diariamente, com todos os aparelhos, incluindo computador, desligados. Pensando. Meia hora, contada no relógio, porém, pode revelar-se torturante para muitos. Quem, no auge do estresse com os barulhos da vida contemporânea, opta por um retiro de carnaval, sem ter a prática anterior da meditação, às vezes enfrenta dificuldades para seguir as regras nos locais mais rígidos.

Comparada à de alguns templos budistas, a austeridade nem é tanta no retiro de carnaval promovido pela Sociedade Taoísta do Brasil em um sítio em Camanducaia, Minas Gerais, desde 2003. Mesmo assim, os organizadores já tiveram problemas com um grupo feminino que não conseguiu respeitar, no primeiro dia, o período de silêncio imposto das 21h às 6h, entre a última e a primeira meditação da programação diária. “A mulherada conversou a noite inteira”, conta o sacerdote taoísta Wagner Canalonga, psicólogo e acupunturista, que no entanto não endossa o estereótipo de que o sexo feminino teria mais dificuldade em manter-se em silêncio. “O que existe, às vezes, é a dificuldade de olhar para dentro e encontrar os ruídos internos”, diz ele. No retiro, qualquer instrumento sonoro é proibido, assim como celulares. Mesmo assim, as 19 vagas são disputadas a cada ano, incluindo iniciantes, que nunca estiveram em retiros. “Muitos são executivos e profissionais com a vida agitada, que procuram o silêncio para encontrar o próprio equilíbrio.”

Na visão taoísta, o silêncio é a origem da energia e da consciência. Em outras religiões, a reverência a ele se repete, seja em rituais de meditação ou contemplação, diz o ex-reitor da PUC-Rio Jesus Hortal, teólogo e doutor em filosofia. “O exame de consciência é um exercício típico das religiões. Todas elas falam, também, do mistério”, afirma. Para mergulhar no mistério ou refletir sobre os próprios pensamentos, não haveria outra forma senão a de abdicar do “barulho contínuo da vida atual”. “O barulho é a fuga de si próprio. Ninguém quer tomar consciência das próprias limitações”, explica o padre, que anda incomodado com o volume da música nas festas de casamento. “Não se consegue conversar.”

A liturgia católica inclui pequenos momentos de silêncio cada vez mais difíceis de ser respeitados. Após a comunhão, por exemplo, o padre deve permanecer sentado enquanto os fiéis usufruem das benesses do silêncio: introspecção, atenção a si próprio e intimidade com deus. “Não se faz isso na base do ruído”, reclama Hortal. No extremo oposto, porém, não vigora a conclusão de que quanto maior o silêncio maior a devoção. A quietude da vida monástica das ordens religiosas dedicadas à contemplação também pode ser considerada perigosa do ponto de vista psicológico, a ponto de a Igreja Católica ter revisto regras em algumas delas. “Os cartuxos ficavam a vida toda sem falar, mas o papa impôs que passassem a sair em pequenos grupos, uma vez por semana, para conversar”, conta Hortal.

O silêncio pode levar à melancolia, confirma o padre e outros religiosos que cumprem votos e períodos estabelecidos por suas doutrinas. No caso dos jesuítas, são obrigatórios oito dias de retiro por ano, além de um mês inteiro dedicado à contemplação na época dos estudos para ingressar na ordem. “O voto de silêncio não pode ser extremo, pois se assemelha à saturação do barulho. Os extremos não levam ao equilíbrio”, diz Canalonga.

Entre a austeridade dos retiros e a percussão carnavalesca, porém, há uma multidão que busca no feriado apenas alguma quietude para poder usufruir do silêncio na criação artística. Trata-se do silêncio que comunica, seja na pausa de uma sinfonia ou no desconforto de um diálogo sem palavras nem trilha sonora, criado pelo cinema ou pelo teatro. Para que estes silêncios sejam “ouvidos”, porém, é preciso uma plateia calada e com celulares desligados, situação que se tornou rara em espaços culturais. “Este é um país de telespectadores, muito mais do que de espectadores”, diz Sérgio Rizzo, crítico de cinema e professor da pós-graduação em crítica cinematográfica e jornalismo cultural da Faap. “Os filmes e programas de TV estão cada vez mais barulhentos, o que provoca no espectador, diante do silêncio, a sensação de incômodo e estranhamento.”

O cineasta Eduardo Coutinho costuma contar um episódio emblemático sobre o impasse entre a cultura televisiva e o silêncio. Convidado para retornar ao programa “Globo Repórter”, da TV Globo, perguntou se teria autonomia completa como diretor. Ouviu que sim. Desconfiado, insistiu: “Posso deixar um rosto na tela, por um minuto, em silêncio?” Aí a conversa terminou. O que Coutinho buscava era a possibilidade de usar uma matéria-prima comum no cinema. O sueco Ingmar Bergman valeu-se de silêncios expressivos em sua obra, a ponto de realizar um longa-metragem perturbador chamado “O silêncio”. O italiano Michelangelo Antonioni também ficou conhecido por usar o recurso para reforçar o caráter existencialista de dramas e personagens. “Há o silêncio destinado a incomodar o espectador, e também o que procura simplesmente aproximar a narrativa do mundo que procura representar, em estratégia mais naturalista”, diz Rizzo.

O roteirista David França Mendes lembra que o silêncio não necessariamente está relacionado a “filmes-cabeça”: “Nas comédias, há o silêncio do constrangimento, que funciona muito bem”. Ele acredita que ainda existe, nos tempos atuais, espaço para algum silêncio no cinema independente, e cita como exemplo o recente sucesso do francês “Mademoiselle Chambon”, com boa bilheteria no circuito alternativo brasileiro e 550 mil espectadores na França. “Mas no cinemão americano é só barulheira mesmo: quando não tem gente falando, tem explosão.” Em contraste, na fita minimalista dirigida por Stéphane Brizé, o que mais se “ouve” é o silêncio dos personagens principais, um pedreiro e uma professora, que expressam o que sentem e querem ao não dizê-lo.

Os significados do silêncio foram explorados na experiência radical de John Cage, compositor de vanguarda e escritor americano que ficou célebre pela peça “4’33””. A partitura da obra contém três movimentos em que os músicos não devem executar nenhuma nota em seus instrumentos. Após a entrada no palco e os aplausos, a orquestra coloca-se em posição de execução e permanece assim durante toda o tempo: quatro minutos e trinta e três segundos. Considerado um esteta revolucionário, menos por suas composições e mais pelas ousadias conceituais, Cage ficou famoso pela mais extrema inclusão do silêncio na linguagem musical.

Sem silêncio não há música, seria uma das mensagens, entre muitas, da experimentação de Cage, datada de 1952. O maestro Ricardo Prado recorda-se de uma das definições de música que ouviu no início de seus estudos, de que seria a arte de combinar sons de maneira agradável. “É uma bobagem. Arte não precisa ser agradável, ‘Guernica’ não é agradável. A música é a arte da memória; som e silêncio são suas matérias-primas.” A pausa é tão importante para a música que uma das obras mais conhecidas do mundo é considerada pelo maestro uma “extensa reflexão sobre o silêncio”. “A 5ª Sinfonia de Beethoven explode de dentro do silêncio. Ela não começa de uma nota, mas de uma pausa”, observa.

O silêncio já teve significados diferentes ao longo da história, e muitos deles se refletiram na música de suas épocas. No período barroco, em que a ópera se tornou a forma artística mais popular, havia um uso dramático e exagerado do silêncio. “Era o uso magistral, o silêncio usado como suspense”, explica Prado. No período clássico, o maestro destaca Beethoven como o “mestre do silêncio”. Já no romantismo a pausa ganhou ares de suspiro. Às vezes reflexivo e delicado, o silêncio nesta fase também tinha um papel estruturador, que “organiza a tendência a um certo caos sonoro”. A crítica proposta por novas fronteiras musicais que eram ultrapassadas então deflagrou o modernismo, onde caberia o experimentalismo de Cage. “O silêncio voltou quase selvagem nesta fase”, diz Ricardo Prado. “Como se fosse um retrocesso.”

As execuções da famosa peça de Cage mostravam também a impossibilidade do silêncio. Sempre havia barulho. “O silêncio não há. É uma ideia. Se tento domar a humanidade por quatro minutos, alguém vai tossir, ou dormir e roncar”, diz Prado. Talvez pela constatação, o maestro surpreendentemente não compartilha da irritação comum aos artistas em relação às plateias ruidosas. “Tenho uma opinião de mão dupla em relação a este assunto”, explica. “Claro que a capacidade de se deixar tomar pela obra é favorecida pela atitude silenciosa. Mas o silêncio na sala de concerto é recente na história da música. Beethoven nunca teve uma plateia em silêncio.” Ao contrário, havia até balbúrdia nas apresentações de ópera, por exemplo. As pessoas comiam, bebiam e conversavam, mas também se calavam ao se emocionar com uma ária: então choravam e aplaudiam. “O hábito de escutar em silêncio começou quando as pessoas se acostumaram a ouvir música em casa, em seu som estéreo.”

A resistência de Prado em julgar o público barulhento vem da desconfiança de que as reclamações embutem alguma parcela de preconceito. “Não acho ofensivo o aplauso entre dois movimentos, por exemplo. Ninguém precisa conhecer todo o repertório para saber a hora certa de aplaudir. Essa irritação costuma se dirigir aos espectadores menos frequentes das salas de concerto.”

Não que o maestro não sofra com o excesso de ruídos em seu dia a dia. Principalmente porque, para ele, música também é ruído. “Não consigo abstrair da música, conviver com ela como música de fundo. Agora até shopping center tem sido complicado: as lojas disputam seus clientes com trilhas sonoras.” Da mesma forma que a música elevada incomoda o padre Jesus Hortal em casamentos, ou a conversa no cinema é insuportável para o roteirista David França Mendes, cada um sabe de quanto e de quais silêncios precisa para viver.

Para a romancista britânica Sara Maitland foram necessários dez anos de vivência pessoal e de pesquisa sobre o silêncio, seus significados e efeitos que provoca nas pessoas, experiência relatada em “A book of silence”, publicado pela Granta em 2008. Fascinada pelo silêncio, a escritora empreendeu uma viagem pelo deserto do Sinai, no Egito, no ano passado, e vai retornar ao tema na próxima obra. Em tempos de feiras e badalação literária, muitos escritores passaram a defender seu ritual de reclusão e inspiração no silêncio como fundamentais para a criação. Se escrever é usar as palavras que se pouparam, como advoga Miguel Sousa Tavares, nada mais natural.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Transformados pela contemplação

“E todos nós com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na sua própria imagem.”

(2 Coríntios 3:18)


A principal característica do cristão é essa total abertura diante de Deus, a fim de que sua vida se torne um espelho para outros. Quando somos cheios do Espírito, somos transformados; e pela contemplação, nos tornamos espelhos. Sempre é possível saber quando alguém esteve contemplando a glória do Senhor; sabemos no íntimo de nosso espírito que ele reflete o próprio caráter do Senhor. Cuidado com tudo aquilo que possa embaçar esse espelho em você; quase sempre é algo bom, o bom que não é o melhor.

A regra áurea para a sua vida e para a minha é, com um esforço consciente, mantermos nossa vida sempre aberta para Deus. Abandone tudo o mais – trabalho, roupas, alimento, tudo na terra – exceto essa atitude. A corrida atrás de outras coisas tende sempre a quebrar nossa concentração em Deus. Temos que manter-nos em contemplação; temos que manter a vida toda completamente espiritual. Deixe que as outras coisas venham e vão, como sempre acontece; deixe que outras pessoas façam as críticas que quiserem; mas nunca permita que nada obscureça a vida que está oculta com Cristo em Deus (Colossenses 3:3). Nunca permita que a pressa o faça sair da posição de permanência nele, que, embora não o devesse, é a coisa mais propensa a oscilar. A mais severa disciplina da vida cristã consiste em aprendermos a nos manter “contemplando, como por espelho, a glória do Senhor”.

(“Tudo para Ele”, Oswald Chambers, Ed. Betânia, meditação de 23 de janeiro)

sábado, 14 de novembro de 2009

Como Deus nos vê

por Philip Yancey:

No final da vida, Henri Nouwen disse que a oração se tornou para ele principalmente um momento de "ouvir a bênção". "A verdadeira "obra" da oração", disse, "é ficar em silêncio e ouvir a voz que fala coisas boas a meu respeito". Isso pode parecer auto-satisfação, admitiu, mas não é quando significa se ver como o Amado, alguém em quem Deus escolheu habitar. Quanto mais ele ouvia essa voz, menos inclinado ficava a julgar seu valor pela forma como os outros o tratavam ou pelo que já havia conquistado. Ele orava para que a presença interior de Deus se expressasse em sua vida diária, enquanto comia e bebia, falava e amava, brincava e trabalhava. Buscava a liberdade radical de uma identidade ancorada em um lugar "acima de todos os elogios e acusações humanas".

Também descobri que a oração significa muito mais que dizer a Deus o que quero que faça. Significa, principalmente, colocar-me num lugar em que Deus possa "renovar minha mente", em que eu possa absorver minha nova identidade como o Amado de Deus, a qual Deus insiste ser minha porque creio.

Numa analogia audaciosa, Kathleen Norris inverte o ponto de vista que normalmente atribuímos a Deus:

"Certa manhã de primavera, vi um jovem casal com uma criança no portão de embarque do aeroporto. O bebê olhava intensamente para as outras pessoas e tão logo reconhecia um rosto humano, não importava de quem fosse, se jovem ou velho, bonito ou feio, aborrecido, alegre ou preocupado, ele reagia em total deleite.

Era lindo de se ver. Nosso monótono portão de embarque tinha se transformado no portão do céu. Enquanto observava essa criancinha brincando com qualquer adulto que assim permitisse, senti-me como Jacó tomado de assombro, porque percebi que é assim que Deus olha para nós, fixamente em nosso rosto para se deleitar, para ver as criaturas que ele criou e chamou de boas, junto com o resto da criação. E, como diz o salmo 139, as trevas não são nada para Deus, que consegue olhar através de qualquer mal que tenhamos feito em nossa vida e enxergar a criatura feita à imagem divina.

Desconfio que apenas Deus e as crianças amadas conseguem enxergar dessa maneira."

(Philip Yancey, em “O Deus (In)Visível”, Ed. Vida, pág. 158)

domingo, 1 de novembro de 2009

O que é a contemplação?

por Thomas Merton:

A contemplação é a mais alta expressão de vida intelectual e espiritual do homem. É a própria vida do intelecto e do espírito, plenamente despertada, plenamente ativa, plenamente consciente de que está viva. É um espanto espiritual, uma admiração. Um temor espontâneo, reverencial, diante do caráter sagrado da vida, do ser. É gratidão pelo Dom da vida, pela consciência despertada, pelo ser. É a consciência viva do fato de que, em nós, a vida e o ser procedem de uma Fonte invisível, transcendente e infinitamente abundante. A contemplação é, acima de tudo, a consciência da realidade dessa Fonte. Ela conhece a Fonte, obscuramente, de modo inexplicável, mas com uma certeza que vai além, tanto da razão como da simples fé. Pois a contemplação é uma espécie de visão espiritual a que, pela sua própria natureza, tanto a razão como a fé aspiram, porque sem ela permanecem forçosamente incompletas. A contemplação, entretanto, não é a visão, pois vê “sem ver” e conhece “sem conhecer”. É fé em maior profundidade, conhecimento demasiadamente penetrante para poder ser aprendido em imagens, palavras ou mesmo conceitos claros. Pode ser sugerida por palavras, por símbolos, mas, no próprio momento em que procura indicar o que conhece, o espírito contemplativo retira o que disse e nega o que afirmou. Pois na contemplação conhecemos “não conhecendo”. Ou, melhor, conhecemos além de todo conhecer ou “não conhecer”.

A poesia, a música e a arte têm algo em comum com a experiência contemplativa. Mas a contemplação vai além da intuição estética, da arte, da poesia. Vai, em realidade, além da filosofia e da teologia especulativa. A contemplação resume, transcende e realiza tudo isso e, contudo, parece, ao mesmo tempo pôr de lado e negar tudo. A contemplação vai sempre além de nosso conhecimento, nossas luzes, nossos sistemas, nossas explicações, nosso discursar; vai além do diálogo e além do nosso próprio ser. Para entrar no mundo da contemplação, em certo sentido, temos de morrer. Mas tal morte é, na verdade, passagem para uma vida mais elevada. É morte por causa da vida; deixa atrás de si tudo o que podemos conhecer ou ter em apreço sob forma de vida, pensamento, experiência, alegria, ser.

A contemplação, pois, parece invalidar e desfazer-se de qualquer outra forma de intuição e experiência – seja na arte, na filosofia, na teologia, na liturgia ou nas áreas comuns do amar e do crer. Essa rejeição é, está claro, apenas aparente. A contemplação é e tem de ser compatível com todas essas coisas, pois é a sua mais alta realização. Todavia, na experiência concreta da contemplação perdemos, momentaneamente, todas as outras experiências. Elas “morrem” para nascerem de novo, num plano de vida mais alto.

Em outras palavras, portanto, a contemplação atinge o conhecimento e mesmo a experiência do Deus transcendente e inexprimível. Conhece a Deus parecendo tocá-lo. Ou melhor, conhece-o como se fora por ele tocado... Tocado por Aquele que não tem mãos, mas é a pura Realidade e a fonte de tudo que é real! Daí ser a contemplação um dom, uma tomada de consciência repentina, um despertar à infinita Realidade que existe dentro de tudo que é real. Uma consciência viva do Ser infinito nas raízes de nosso próprio ser limitado. Uma consciência de nossa realidade contingente como algo de recebido, um presente de Deus, um dom gratuito de amor. Esse é o contato existencial de que falamos, quando empregamos a metáfora: “somos tocados por Deus”.

A contemplação é também a resposta a um chamado. Um chamado daquele que não tem voz e no entanto se faz ouvir em tudo que existe, e que, sobretudo, fala nas profundezas de nosso próprio ser, pois nós somos palavras dele. Mas somos palavras que existem para responder a ele, atendê-lo, fazer-lhe eco e mesmo, de certo modo, para estarem repletas dele, contê-lo e significá-lo. A contemplação é esse eco. É uma profunda ressonância no mais íntimo centro de nosso espírito, onde nossa própria vida perde sua voz específica e ecoa a majestade e a misericórdia daquele que é oculto mas Vivo. Ele responde a si mesmo em nós, e essa resposta é vida divina, criação divina, fazendo novas todas as coisas. Nós próprios nos tornamos eco e resposta dele. É como se, ao criar-nos, Deus fizesse uma pergunta e, ao nos despertar para a contemplação, ele mesmo respondesse a pergunta, de modo que o contemplativo é, ao mesmo tempo, pergunta e resposta.

A vida de contemplação implica dois planos de tomada de consciência: primeiro, estar consciente da pergunta e, segundo, estar consciente da resposta. Conquanto sejam esses dois planos distintos e tremendamente diferentes, são, todavia, uma tomada de consciência da mesma coisa. A pergunta é, ela mesma, a resposta. É nós mesmos somos ambas. Entretanto, ignoramos esse fato enquanto não penetramos na segunda espécie de tomada de consciência. Despertamos, não para encontrar uma resposta absolutamente distinta da pergunta, mas para compreender que a pergunta já é a própria resposta. E tudo se resume numa única tomada de consciência – não uma proposição, mas uma experiência: “EU SOU”.

A contemplação de que falo aqui não é filosófica. Não é a tomada de consciência estática de essências metafísicas apreendidas como objetos espirituais, imutáveis e eternos. Não é a contemplação de idéias abstratas. É o aprender religioso de Deus, através de minha vida em Deus, ou através da “filiação”, como diz o Novo Testamento. “Pois todos os que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus... O próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus...” A contemplação de que falo é pois um dom religioso e transcendente. Não é algo a que possamos atingir sozinhos pelo esforço intelectual e o aperfeiçoamento de nossas potências naturais. Não é uma espécie de auto-hipnose, resultando da concentração, sobre o nosso próprio ser íntimo, espiritual. Não é fruto de nosso próprio esforço. É o dom de Deus que, em sua misericórdia, completa o trabalho oculto e misterioso da criação em nós, iluminando nosso espírito e nosso coração, despertando em nós a consciência de que somos palavras proferidas em sua Única Palavra, e que o seu Espírito Criador (Creator Spiritus) habita em nós e nós nele. Que estamos “em Cristo” e que Cristo vive em nós. Que a vida natural foi completada, elevada, transformada e plenamente realizada em nós in Christo, pelo Espírito Santo. A contemplação é a consciência e a compreensão, e mesmo, em certo sentido, a experiência daquilo que cada cristão crê obscuramente: “Agora não sou mais eu que vive; é o Cristo quem vive em mim”.

Por isso, a contemplação é mais do que mero considerar de verdades abstratas sobre Deus; mais, até, do que a meditação afetiva das coisas em que cremos. É um despertar, uma iluminação, e a apreensão intuitiva, espantosa, com que o amor se certifica da intervenção criadora e dinâmica de Deus em nossa vida cotidiana. A contemplação, portanto, não “encontra” simplesmente uma idéia clara sobre Deus, confinando-o dentro dos limites dessa idéia, retendo-o como um prisioneiro a quem se pode sempre voltar. Pelo contrário, a contemplação é que é por ele arrebatada e transportada ao próprio domínio dele, seu mistério, sua liberdade. É um conhecimento puro e virginal, pobre em conceitos, mais pobre ainda em raciocínios, mas capaz, por sua própria pobreza e pureza, de seguir a Palavra “aonde quer que vá”.

(Thomas Merton, “Novas Sementes de Contemplação”, Fisus Editora, pág. 9-13)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Alegrias do silêncio


"O mundo dos homens vive esquecido das alegrias do silêncio, da paz desfrutada na solidão necessária, até certo ponto, a uma vida humana vivida em plenitude. Nem todos os homens são chamados à vida eremítica, mas todos necessitam de certa dose de silêncio e solidão, para permitir-lhes ouvir, ao menos ocasionalmente, a voz interior profunda do seu verdadeiro "eu". Quando essa voz não é ouvida, quando o homem não consegue atingir a paz espiritual que vem do fato de estarmos em perfeita união com o nosso ser verdadeiro, a vida se torna desgraçada e exaustiva. Pois o homem não pode por muito tempo ser feliz se não se mantiver em contato com as fontes de vida espiritual, ocultas nas profundezas de sua alma. Se vive constantemente alheio ao que em si possui de mais íntimo, exilado da própria morada interior, impossibilitado de se encontrar com a solidão espiritual, deixa de ser uma pessoa. Não vive mais como um ser humano. Nem é mesmo um animal sadio. Torna-se uma espécie de autômato; funciona sem alegria porque perdeu toda espontaneidade. Não é mais movido por dentro, mas apenas do exterior. Não toma as próprias decisões, deixa que os outros o façam. Não age sobre o mundo exterior, consente que este aja sobre ele. É empurrado, atravessando a vida por meio de uma série de choques com forças externas. Sua vida não é mais a de um ser humano, mas a de uma bola de bilhar passiva, de um ser sem finalidade e sem nenhuma correspondência profunda e válida para com a realidade."

(Thomas Merton, 1915-1968, em "A Vida Silenciosa", Ed. Vozes, pág. 153/154)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Compunção

por Thomas Merton:

"Na linguagem do ascetismo medieval, o reconhecimento clarividente e a aceitação madura de nossas próprias limitações chama-se "compunção". A compunção é uma graça espiritual, um conhecimento profundo das profundezas de nossa alma, que, num relance, penetra através das ilusões que temos sobre nós mesmos, põe de lado e varre as dissimulações e sonhos vãos que alimentamos a respeito de nossa pessoa, de maneira a nos vermos tais quais somos. Mas é, ao mesmo tempo, um movimento de amor e liberdade, uma libertação da falsidade, uma aceitação alegre e cheia de gratidão da verdade, com a resolução de viver em contato com a realidade profunda e espiritual que se abre diante de nós: a realidade da vontade de Deus em nossa vida."

(Thomas Merton, 1915-1968, em "A Vida Silenciosa", Ed. Vozes, pág. 108)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Começando a aprender

Meu Deus, é essa brecha, essa distância que me mata.

Eis o único motivo por que desejo solidão – estar perdido para todas as coisas criadas, morrer para elas e para o conhecimento delas, pois elas me lembram a distância que me separa de Ti. Elas me falam algo de Ti: que estás muito longe delas, embora nelas estejas. Tu as fizeste e a Tua presença lhes sustenta o ser, mas elas Te escondem de mim. Como gostaria de viver sozinho, fora delas! O beata solitude. Ó solidão abençoada!

Pois sabia que somente deixando-as eu poderia chegar a Ti; e por isso tenho me sentido tão infeliz quando parecia que Tu me condenavas a permanecer nelas. Agora a minha dor passou e a minha alegria está por começar: a alegria que se alegra na mais profunda dor. Pois estou começando a entender. Ensinaste-me e consolaste-me e recomecei a esperar e a aprender.

(Thomas Merton, “Diálogos com o Silêncio”, Fissus Editora, 2003, pág. 21)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Será isto contemplação?

Meu Deus, é somente a Ti que posso falar porque mais ninguém me compreenderá. Não posso trazer mais ninguém nesta terra para dentro da nuvem onde habito em Tua luz, isto é, em Tua escuridão, onde estou perdido e perplexo. Não posso explicar para ninguém a angústia que é desfrutar de Ti, nem a perda que é Te possuir, nem a distância de todas as coisas provocada pela chegada a Ti, nem a morte que é o nascimento em Ti, pois eu mesmo nada sei sobre isso. Tudo quanto sei é que desejaria que isso tivesse passado – e desejaria que tivesse começado.

Contradisseste tudo. Deixaste-me na terra de ninguém.

Fizeste-me andar de um lado para outro debaixo dessas árvores, repetindo sem parar: “Solidão, solidão”. Volveste e jogaste o mundo todo em meu colo. Disseste-me: “Largue tudo e Me siga”, e então amarraste a metade de Nova York como uma bola acorrentada a meus pés. Fizeste-me ajoelhar atrás deste pilar com a minha mente barulhenta como uma agência bancária. Será isto contemplação?

(Thomas Merton, em “Diálogos com o Silêncio”, Fissus Editora, 2003, pág. 15)

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