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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Para os restaurantes, clientes paulistanos são os mais chatos do mundo



Finalmente, alguém conseguiu colocar em palavras algo que eu já havia percebido nos meus muitos anos em que fui um feliz habitante da capital bandeirante, e que eu já havia comentado sob outro ângulo no texto intitulado "A síndrome do turista paulista".

O artigo foi publicado no blog Cozinha Bruta do portal da Folha de S. Paulo:

Cliente paulistano é o mais chato do mundo – e paga caro por isso no restaurante

POR MARCOS NOGUEIRA

Mimado, exigente, arrogante e rude, o cliente de restaurantes paulistano é o mais chato do mundo. É por isso que ele paga caro pela comida.

Eu, tão paulistano quanto a estátua do Borba Gato, estou no balaio. Ouso dizer que já fui mais chato do que a maioria dos chatos – depois de medicado corretamente pela minha psiquiatra, melhorei bastante.

Claro que existem chatos de muitos tipos (caso você tenha interesse em se aprofundar no assunto, sugiro a deliciosa leitura do “Tratado Geral dos Chatos”). Em algumas partes do país, é corriqueiro o tipo de cliente que chega ao restaurante e se comporta como se fosse dono do lugar. Fala alto para caramba e deixa as crianças quicando pelo salão. Se a mesa estiver perto da entrada, estaciona o carro em frente e liga o som. Em geral, fala com os funcionários como se fosse seu melhor amigo. E não estressa com a lentidão do serviço.

Essa modalidade não é muito comum em São Paulo. Não nos lugares que eu costumo frequentar.

O cliente paulistano é folgado à sua própria maneira. Por ser pagante, ele julga merecer tratamento de realeza.

O indivíduo – gênero neutro, repare – chega ao restaurante e pede uma mesa. Caso haja espera, a pessoa supõe que haja também uma área em que ela possa esperar sentada. Se a espera não permitir o consumo de bebidas e petiscos, o sujeito fica contrariado. A espera muito longa irrita sobremaneira essa gente.

(Reservar mesa não é para o paulistano médio. Ele presume que a mesa estará à sua disposição em qualquer hora e situação.)

Uma vez acomodado, trata os garçons como serviçais particulares.

O cliente exige disponibilidade total. O atendente anota as bebidas e, quando as entrega, comanda o suco de acerola da Valentina, que a mamãe esqueceu de pedir antes. Ao trazer o suco, é instado a substituir o copo do pequeno Enzo, que queria apenas gelo, não gelo e limão. Com o copo em mãos, alguém na mesa resolve pedir lula frita. O garçom anota. Assim que ele entrega a comanda na cozinha, é chamado de volta porque deve trocar a lula por mandioca – o João Vítor é alérgico a frutos do mar, mas o tio não sabia. Então, eu um ato audaz, ele sugere que a mesa peça os pratos principais: todos entram em pânico e solicitam o cardápio novamente, numa clara manobra protelatória.

E assim vai até o pagamento da conta.

Quando viaja dentro do país, o paulistano quase enlouquece nos restaurantes. Especialmente se o destino é Salvador. No estrangeiro, se comporta bem. Porque sabe que vai tomar uma bela invertida de quem serve a mesa – e porque não tem repertório linguístico para encarar uma discussão.

Em países mais, hum, desenvolvidos, os restaurantes informais costumam ser familiares. Os pais são donos e os filhos servem as mesas, ou algo do tipo. Mesmo quando o negócio é um pouco maior, o número de garçons é muito limitado. A pessoa tem pouco tempo de atenção a dispensar para cada mesa. Então, ela supõe que o freguês peça tudo ao mesmo tempo – a cozinha se encarrega de soltar primeiro as entradas, depois os principais.

Menos funcionários no salão, menos custo. Matemática elementar.

Em São Paulo, esperamos que o botequim tenha o mesmo padrão de serviço do Fasano. Essa pressão faz com que as casas contratem mais gente. E o custo, é evidente, aparece na dolorosa.



quinta-feira, 4 de julho de 2013

Meditando no prédio onde a síndica é monja budista

Matéria interessante publicada no Estadão de 30 de junho de 2013:

Síndica monja une vizinhos em meditação semanal

'O ambiente de paz deve ajudar todo o quarteirão', diz morador participante

TIAGO QUEIROZ

Todas as noites de quarta-feira são de meditação no salão de um prédio residencial de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Uma pausa na rotina estressante da cidade. Para sentir "o sangue passando pelas veias", segundo as palavras de um praticante.

A sessão, denominada zazen, é conduzida pela monja budista Sandra Degenszajn, de 49 anos, que por acaso também é a síndica do prédio. Como todos os síndicos, Sandra distribui vagas de garagem, calcula o valor do condomínio e ajuda a resolver conflitos (externos e internos) de moradores. Além disso, está sempre vestida com o samuê, a roupa de trabalho dos monges.

A monja síndica iniciou a meditação no prédio há dois anos. Desde o começo já eram muitos os interessados. "Na primeira vez, almofadas do salão tiveram de ser improvisadas para acomodar tanta gente", diz Sandra. Mas pouco a pouco os praticantes foram minguando, até que em uma quarta-feira se viu sozinha. "As pessoas buscam experiências e resultados mirabolantes. Isso a meditação não pode proporcionar." Ela não desistiu. "Descia e via que ninguém viria. Fazia a meditação sozinha. Para mim também foi um teste de persistência." Hoje, o grupo voltou a crescer. São de oito a doze pessoas de diversas profissões e credos.

Comunidade. A ideia para iniciar o zazen surgiu do dia a dia participativo do condomínio. Arquiteta e moradora do local há 14 anos, Sandra ajudou a construir um banheiro na guarita. Depois percebeu que podiam montar uma academia em um espaço inutilizado com custo zero, graças a doações dos condôminos. "Um morador doou uma bicicleta, outro alguns pesos, conseguimos uma esteira e assim montamos uma academia de modo colaborativo. Hoje também temos uma horta comunitária com hortelã, alecrim, manjericão..."

Discípula da monja Coen, Sandra - ou Waho, seu nome budista (que significa "harmonia dos ensinamentos") - conduzia as meditações para iniciantes nas noites de terça-feira em um templo perto do prédio. "Quando o templo teve de mudar de endereço, pois estava pequeno para tanta gente, algumas pessoas da região e do prédio me sugeriram continuar com o zazen por aqui."

No início levava incenso, um pequeno altar e a imagem de Buda. Falava algumas palavras e ensinamentos da religião. Isso incomodou um morador católico que gostava de participar. "Quando esse rapaz veio falar comigo, percebi que não devia mais trazer o altar e a figura de Buda. Só levava o incenso, que também acabei deixando de trazer porque tinha uma moça alérgica no grupo. O que eu quero mesmo é que as pessoas meditem, descubram seus benefícios. Não quero tornar ninguém budista. Existe meditação cristã, judaica, é algo inerente ao ser humano."

Prática. A meditação começa entre as 19h e as 22h. Quem pode chega antes e toma o chá oferecido pela monja síndica. Os praticantes sentam-se virados para a parede em almofadas pretas chamadas de zafu. Outros usam cadeiras. São 20 minutos imóveis. Depois, pratica-se o kinhim - 10 minutos de lenta caminhada em círculo, onde todos procuram andar na mesma intensidade. Após o kinhim, mais 20 minutos de zazen.

A editora de vídeo Priscila Bellotti, de 41 anos, disse que ficou surpresa ao flagrar uma sessão de meditação. "Estava pegando o elevador e me intrigou ver aquelas pessoas sentadas. Entrei e perguntei: 'O que acontece aqui?' Quando me explicaram, na semana seguinte estava participando."

Priscila não mora mais no prédio, mas continua frequentando as sessões. "Aqui é um espaço para observar a linha de meu pensamento."

O casal Regina Pinheiro, de 50 anos, e o subsíndico do prédio, Jair de Andrade, de 45, ainda estão nos primeiros encontros com a meditação. "Tenho muita dificuldade de me concentrar. Achei o silêncio barulhento, mas gostei", disse Regina. Jair conta que apesar de nunca ter participado antes, sentia uma "energia efervescente que emanava do salão". "As pessoas estão muito desequilibradas, mas esse ambiente de paz deve ajudar todo o quarteirão."

Para a fotógrafa e artista plástica Cris Bierrenbach, de 48 anos, o mais importante é o encontro com os outros. "Você consegue fazer meditação mais tempo do que se estivesse sozinho. É como se as pessoas se ajudassem por estarem na mesma sintonia. Parece uma comunhão."

O fato de ser monja não atrapalha o trabalho de síndica, segundo Sandra. "Existem três preceitos do budismo: Buda, que é aquele que despertou, Dharma, que são os ensinamentos, e Sanga, que é a comunidade. E viver em um prédio não é uma relação de comunidade?"




quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Quando soltar pum vira processo criminal

Divirta-se com a crônica abaixo, do Desembargador Paulo Rangel (do TJRJ), que é um retrato fiel (e muito bem-humorado) de como o Judiciário brasileiro perde tempo com situações completamente descabidas. Vi no Blog do Daniel Motta:

A PIOR AUDIÊNCIA DA MINHA VIDA

Desembargador Paulo Rangel - TJRJ

A minha carreira de Promotor de Justiça foi pautada sempre pelo princípio da importância (inventei agora esse princípio), isto é, priorizava aquilo que realmente era significante diante da quantidade de fatos graves que ocorriam na Comarca em que trabalhava. Até porque eu era o único promotor da cidade e só havia um único juiz. Se nós fôssemos nos preocupar com furto de galinha do vizinho; briga no botequim de bêbado sem lesão grave e noivo que largou a noiva na porta da igreja nós não iríamos dar conta de tudo de mais importante que havia para fazer e como havia (crimes violentos, graves, como estupros, homicídios, roubos, etc).

Era simples. Não há outro meio de você conseguir fazer justiça se você não priorizar aquilo que, efetivamente, interessa à sociedade. Talvez esteja aí um dos males do Judiciário quando se trata de “emperramento da máquina judiciária”. Pois bem. O Procurador Geral de Justiça (Chefe do Ministério Público) da época me ligou e pediu para eu colaborar com uma colega da comarca vizinha que estava enrolada com os processos e audiências dela. Lá fui eu prestar solidariedade à colega. Cheguei, me identifiquei a ela (não a conhecia) e combinamos que eu ficaria com os processos criminais e ela faria as audiências e os processos cíveis. Foi quando ela pediu para, naquele dia, eu fazer as audiências, aproveitando que já estava ali. Tudo bem. Fui à sala de audiências e me sentei no lugar reservado aos membros do Ministério Público: ao lado direito do juiz.

E eis que veio a primeira audiência do dia: um crime de ato obsceno cuja lei diz:
Ato obsceno Art. 233 – Praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público: Pena – detenção, de três meses a um ano, ou multa.
O detalhe era: qual foi o ato obsceno que o cidadão praticou para estar ali, sentado no banco dos réus? Para que o Estado movimentasse toda a sua estrutura burocrática para fazer valer a lei? Para que todo aquele dinheiro gasto com ar condicionado, luz, papel, salário do juiz, do promotor, do defensor, dos policiais que estão de plantão, dos oficiais de justiça e demais funcionários justificasse aquela audiência? Ele, literalmente, cometeu uma ventosidade intestinal em local público, ou em palavras mais populares, soltou um pum, dentro de uma agência bancária e o guarda de segurança que estava lá para tomar conta do patrimônio da empresa, incomodado, deu voz de prisão em flagrante ao cliente peidão porque entendeu que ele fez aquilo como forma de deboche da figura do segurança, de sua autoridade, ou seja, lá estava eu, assoberbado de trabalho na minha comarca, trabalhando com o princípio inventado agora da importância, tendo que fazer audiência por causa de um peidão e de um guarda que não tinha o que fazer. E mais grave ainda: de uma promotora e um juiz que acharam que isso fosse algo relevante que pudesse autorizar o Poder Judiciário a gastar rios de dinheiro com um processo para que aquele peidão, quando muito mal educado, pudesse ser punido nas “penas da lei”.

Ponderei com o juiz que aquilo não seria um problema do Direito Penal, mas sim, quando muito, de saúde, de educação, de urbanidade, enfim… Ponderei, ponderei, mas bom senso não se compra na esquina, nem na padaria, não é mesmo? Não se aprende na faculdade. Ou você tem, ou não tem. E nem o juiz, nem a promotora tinham ao permitir que um pum se transformasse num litígio a ser resolvido pelo Poder Judiciário.

Imagina se todo pum do mundo se transformasse num processo? O cheiro dos fóruns seria insuportável.

O problema é que a audiência foi feita e eu tive que ficar ali ouvindo tudo aquilo que, óbvio, passou a ser engraçado. Já que ali estava, eu iria me divertir. Aprendi a me divertir com as coisas que não tem mais jeito. Aquela era uma delas. Afinal o que não tem remédio, remediado está.

O réu era um homem simples, humilde, mas do tipo forte, do campo, mas com idade avançada, aproximadamente, uns 70 anos. Eis a audiência:

Juiz – Consta aqui da denúncia oferecida pelo Ministério Público que o senhor no dia x, do mês e ano tal, a tantas horas, no bairro h, dentro da agência bancária Y, o senhor, com vontade livre e consciente de ultrajar o pudor público, praticou ventosidade intestinal, depois de olhar para o guarda de forma debochada, causando odor insuportável a todas as pessoas daquela agência bancária, fato, que, por si só, impediu que pessoas pudessem ficar na fila, passando o senhor a ser o primeiro da fila. Esses fatos são verdadeiros?

Réu – Não entendi essa parte da ventosidade…. o que mesmo?

Juiz – Ventosidade intestinal.

Réu – Ah sim, ventosidade intestinal. Então, essa parte é que eu queria que o senhor me explicasse direitinho.

Juiz – Quem tem que me explicar aqui é o senhor que é réu. Não eu. Eu cobro explicações. E então.. São verdadeiros ou não os fatos?

O juiz se sentiu ameaçado em sua autoridade. Como se o réu estivesse desafiando o juiz e mandando ele se explicar. Não percebeu que, em verdade, o réu não estava entendendo nada do que ele estava dizendo.

Réu – O guarda estava lá, eu estava na agência, me lembro que ninguém mais ficou na fila, mas eu não roubei ventosidade de ninguém não senhor. Eu sou um homem honesto e trabalhador, doutor juiz “meretrício”.

Na altura da audiência eu já estava rindo por dentro porque era claro e óbvio que o homem por ser um homem simples ele não sabia o que era ventosidade intestinal e o juiz por pertencer a outra camada da sociedade não entendia algo óbvio: para o povo o que ele chamava de ventosidade intestinal aquele homem simples do povo chama de PEIDO. E mais: o juiz se ofendeu de ser chamado de meretrício. E continuou a audiência.

Juiz – Em primeiro lugar, eu não sou meretrício, mas sim meritíssimo. Em segundo, ninguém está dizendo que o senhor roubou no banco, mas que soltou uma ventosidade intestinal. O senhor está me entendendo?

Réu ¬– Ahh, agora sim. Entendi sim. Pensei que o senhor estivesse me chamando de ladrão. Nunca roubei nada de ninguém. Sou trabalhador.

E puxou do bolso uma carteira de trabalho velha e amassada para fazer prova de trabalho.

Juiz – E então, são verdadeiros ou não esses fatos.

Réu – Quais fatos?

O juiz nervoso como que perdendo a paciência e alterando a voz repetiu.

Juiz – Esses que eu acabei de narrar para o senhor. O senhor não está me ouvindo? Réu – To ouvindo sim, mas o senhor pode repetir, por favor. Eu não prestei bem atenção.

O juiz, visivelmente irritado, repetiu a leitura da denúncia e insistiu na tal da ventosidade intestinal, mas o réu não alcançava o que ele queria dizer. Resolvi ajudar, embora não devesse, pois não fui eu quem ofereci aquela denúncia estapafúrdia e descabida. Típica de quem não tinha o que fazer.

EU – Excelência, pela ordem. Permite uma observação?

O juiz educado, do tipo que soltou pipa no ventilador de casa e jogou bola de gude no tapete persa do seu apartamento, permitiu, prontamente, minha manifestação. Juiz – Pois não, doutor promotor. Pode falar. À vontade.

Eu – É só para dizer para o réu que ventosidade intestinal é um peido. Ele não esta entendendo o significado da palavra técnica daquilo que todos nós fazemos: soltar um pum. É disso que a promotora que fez essa denúncia está acusando o senhor.

O juiz ficou constrangido com minhas palavras diretas e objetivas, mas deu aquele riso de canto de boca e reiterou o que eu disse e perguntou, de novo, ao réu se tudo aquilo era verdade e eis que veio a confissão.

Réu – Ahhh, agora sim que eu entendi o que o senhor “meretrício” quer dizer. O juiz o interrompeu e corrigiu na hora.

Juiz – Meretrício não, meritíssimo.

Pensei comigo: o cara não sabe o que é um peido vai saber o que é um adjetivo (meritíssimo)? Não dá. É muita falta de sensibilidade, mas vamos fazer a audiência. Vamos ver onde isso vai parar. E continuou o juiz.

Juiz – Muito bem. Agora que o doutor Promotor já explicou para o senhor de que o senhor é acusado o que o senhor tem para me dizer sobre esses fatos? São verdadeiros ou não?

Juiz adora esse negócio de verdade real. Ele quer porque quer saber da verdade, sei lá do que.

Réu – Ué, só porque eu soltei um pum o senhor quer me condenar? Vai dizer que o meretrício nunca peidou? Que o Promotor nunca soltou um pum? Que a dona moça aí do seu lado nunca peidou? (ele se referia a secretária do juiz que naquela altura já estava peidando de tanto rir como todos os presentes à audiência).

O juiz, constrangido, pediu a ele que o respeitasse e as pessoas que ali estavam, mas ele insistiu em confessar seu crime.

Réu – Quando eu tentei entrar no banco o segurança pediu para eu abrir minha bolsa quando a porta giratória travou, eu abri. A porta continuou travada e ele pediu para eu levantar a minha blusa, eu levantei. A porta continuou travada. Ele pediu para eu tirar os sapatos eu tirei, mas a porta continuou travada. Aí ele pediu para eu tirar o cinto da calça, eu tirei, mas a porta não abriu. Por último, ele pediu para eu tirar todos os metais que tinha no bolso e a porta continuou não abrindo. O gerente veio e disse que ele podia abrir a porta, mas que ele me revistasse. Eu não sou bandido. Protestei e eles disseram que eu só entraria na agência se fosse revistado e aí eu fingi que deixaria só para poder entrar. Quando ele veio botar a mão em cima de mim me revistando, passando a mão pelo meu corpo, eu fiquei nervoso e, sem querer, soltei um pum na cara dele e ele ficou possesso de raiva e me prendeu. Por isso que estou aqui, mas não fiz de propósito e sim de nervoso. Passei mal com todo aquele constrangimento das pessoas ficarem me olhando como seu eu fosse um bandido e eu não sou. Sou um trabalhador. Peidão sim, mas trabalhador e honesto.

O réu prestou o depoimento constrangido e emocionado e o juiz encerrou o interrogatório. Olhei para o defensor público e percebi que o réu foi muito bem orientado. Tipo: “assume o que fez e joga o peido no ventilador. Conta toda a verdade”. O juiz quis passar a oitiva das testemunhas de acusação e eu alertei que estava satisfeito com a prova produzida até então. Em outras palavras: eu não iria ficar ali sentado ouvindo testemunhas falando sobre um cara peidão e um segurança maluco que não tinha o que fazer junto com um gerente despreparado que gosta de constranger os clientes e um juiz que gosta de ouvir sobre o peido alheio. Eu tinha mais o que fazer. Aliás, eu estava até com vontade de soltar um pum, mas precisava ir ao banheiro porque meu pum as vezes pesa e aí já viu, né?

No fundo eu já estava me solidarizando com o pum do réu, tamanho foi o abuso do segurança e do gerente e pior: por colocarem no banco dos réus um homem simples porque praticou uma ventosidade intestinal.

É o cúmulo da falta do que fazer e da burocracia forense, além da distorção do Direito Penal sendo usado como instrumento de coação moral. Nunca imaginei fazer uma audiência por causa de uma, como disse a denúncia, ventosidade intestinal. Até pum neste País está sendo tratado como crime com tanto bandido, corrupto, ladrão andando pelas ruas o judiciário parou para julgar um pum.

Resultado: pedi a absolvição do réu alegando que o fato não era crime, sob pena de termos que ser todos, processados, criminalmente, neste País, inclusive, o juiz que recebeu a denúncia e a promotora que a fez. O juiz, constrangido, absolveu o réu, mas ainda quis fazer discurso chamando a atenção dele, dizendo que não fazia aquilo em público, ou seja, ele é o único ser humano que está nas ruas e quando quer peidar vai em casa rápido, peida e volta para audiência, por exemplo.

É um cara politicamente correto. É o tipo do peidão covarde, ou seja, o que tem medo de peidar. Só peida no banheiro e se não tem banheiro ele se contorce, engole o peido, cruza as perninhas e continua a fazer o que estava fazendo como se nada tivesse acontecido. Afinal, juiz é juiz.

Moral da história: perdemos 3 horas do dia com um processo por causa de um peido. Se contar isso na Inglaterra, com certeza, a Rainha jamais irá acreditar porque ela também, mesmo sendo Rainha… Você sabe.

Rio de Janeiro, 10 de maio de 2012.



quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Prazer e religião em Nelson Rodrigues

Hoje, 23 de agosto de 2012, se vivo fosse, o escritor, jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, comemoraria 100 anos de idade.

Criou frases imortais como "o dinheiro compra até amor verdadeiro", "se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém",  "toda unanimidade é burra", "só o inimigo não trai nunca" e "Deus está nas coincidências".


Por mais "óbvio ululante" (outra criação dele) que seja dizer isso, o grande observador do cotidiano brasileiro do século XX continua atual e polêmico como sempre foi.

Muitos eventos celebram o seu centenário, e recomendamos a leitura do ótimo artigo "O anjo pornográfico: religião e prazer em Nelson Rodrigues", de Élton de Oliveira Nunes, publicado na revista (metodista) Caminhando, que pode ser lido na íntegra em .pdf clicando aqui.

Abaixo, um pequeno excerto do artigo em questão:




Mas, que vida é essa que leva para a morte? E por que mortes violentas e, em um sentido, punitivas e autopunitivas? Podemos buscar uma resposta no drama cristão de sentido e negação. Mais precisamente na fórmula cristã do sofrimento para a redenção: desejo, pecado, punição (Cf. uma leitura pietista de Tg 1.13-15). Sábato (1992/p. 30) vê claramente isso quando comenta:
A falta de auto-estima não transparece apenas nos atos extremos do suicídio. A cada momento, uma personagem necessita de punição.
A nós, torna-se claro aqui que Nelson revive em suas tramas o calvário do ser humano no drama da vida cristã. Ao desejar, comete o ser humano pecado. Ao pecar, vem a punição. Mas, em Nelson, a punição é também uma forma de redenção. Ao ser punido, de alguma forma, o ser se redime. Mas esta redenção não termina, pois novo ciclo de desejo irrompe e o drama recomeça. Por isso, novamente a peça se reinicia com outros nomes e situações, mas sempre o mesmo drama. Falando sobre isso, Francisco Carneiro da Cunha (2000/p. 15), citando Nelson Rodrigues, diz:
A ficção para ser purificadora tem de ser atroz. O personagem é vil para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós. E no teatro que é mais plástico, direto e de um impacto tão mais puro esse fenômeno de transparência torna-se mais válido. Para salvar a platéia é preciso encher o palco de assassinos, adúlteros e insanos, em suma, de uma rajada de monstros. São os nossos monstros íntimos dos quais eventualmente nos libertamos para em seguida recriá-los em cena novamente.
O drama de Nelson é o drama cristão. Nelson busca a redenção, pois vida é desejo (sexual) e desejo é intolerável na sociedade (expressa na família cristã-burguesa). O outro é objeto sempre proibido. Sábato (1992/p. 67) comenta: Tendo recebido a formação cristã de classe média urbana brasileira, o dramaturgo preservou até o fim a crença na divindade e em preceitos morais básicos. A dificuldade de observar esses preceitos aguça a loucura. Na terra o homem vive o desregramento de uma unidade perdida, inconsolável órfão de Deus. Há um deblaterar insano em terreno hostil. Resta o sentimento permanente de logro. A vida prega uma peça em todo mundo.



sábado, 15 de outubro de 2011

Como o orkut e o facebook explicam o mundo

Quem acompanha as redes sociais percebe que ultimamente existe um movimento curioso de decepção com a, digamos, “ascensão” de uma multidão de pessoas do orkut para o facebook, como se tratasse de mundos diversos e houvesse uma gigantesca gradação de qualidade entre as duas redes. Lembro-me do frisson causado pelo surgimento do orkut ali por volta de 2005, e como as pessoas disputavam a tapa um mísero convite para acessá-lo e, uma vez logrado o objetivo, se sentiam parte de um mundo exclusivo de glamour virtual. O facebook também era um novato na época, e nos últimos anos, conseguiu ter mais sucesso no Brasil enquanto o orkut era vencido pelo cansaço, mas agora parece sofrer do mesmo mal à medida que mais pessoas, por assim dizer, “invadem” o clube privê que os já iniciados acreditavam ser só seu, fenômeno conhecido no meio pelo singelo nome de “orkutização do facebook”. A rigor, não existem diferenças muito significativas entre as duas redes, a não ser pelo volume de amigos e serviços que estão sendo canalizados ao facebook, e a tendência é que este último venha também a se desgastar até que a tribo dos (ex-)pioneiros encontre uma rede nova para aportar a sua fantasia vip.

No fundo, toda esta situação virtual guarda profunda semelhança com a nossa realidade. A recente ascensão social das classes C e D tem incomodado muita gente na classe média brasileira, que se sentia privilegiada no seu pequeno nicho, sem se preocupar com os milhões entregues à miséria, à pobreza e à falta de oportunidades, enquanto eles não invadiam o seu espaço. Dois episódios recentes em São Paulo são sintomáticos. Primeiro, a “higienização de Higienópolis”, em que moradores do bairro se manifestaram contrariamente à instalação de uma estação de metrô na área, alegando que isto traria “gente diferenciada” para as redondezas. Por sua vez, há alguns dias cerca de 1.200 moradores de Pinheiros fizeram um abaixo-assinado (encaminhado ao Ministério Público Estadual) para que um albergue de moradores de rua não fosse transferido para uma área mais nobre da conhecida Rua Cardeal Arcoverde. O tiro saiu pela culatra, entretanto, já que promotor Maurício Antonio Ribeiro Lopes, corajosamente, indeferiu o pedido afirmando textualmente que "e de provocar inveja a qualquer higienista social do Terceiro Reich a demonstração de tal insensibilidade. A ideia - ou que ocupa o que deveria ser o seu lugar - associando pobreza e criminalidade e violência não tem guarida teórica e ética... esse pedido é muito revoltante" (segundo declarou ao Estadão). Além disso, o representante do Ministério Público determinou a abertura de inquérito policial para averiguar a intolerância social dos seis síndicos que assinaram a petição.

É claro que há muitas variáveis (principalmente econômicas) envolvidas, mas o grande traço comum entre as situações acima é o mórbido desejo humano de exclusividade, que importa no privilégio de poucos e na exclusão de muitos das benesses que o uso e o gozo de certas circunstâncias sociais propiciam. Esta vocação humana para reter e isolar o que deveria ser dividido e compartilhado – e ainda se gabar disso - é típica de toda a futilidade e maldade que grassa no mundo. Esta (tristemente rotineira) tentativa de monopolizar a felicidade às custas da desgraça alheia explica desde os atritos virtuais tolos por causa de uma rede social até os genocídios praticados em nome de uma “raça superior”. Todo aquele que se crê portador de uma posição ou mensagem (a seu ver) “iluminada” quer afastar de todos os outros a possibilidade de também alcançá-la, nem que seja a socos, pontapés e tiros de bala. Isto quando não aproveita seu “exclusivismo” para manipular os outros. Como esta característica existe desde que o mundo é mundo, não há esperança de que venha a morrer tão cedo, mas pelo menos a gente pode despertar o adormecido senso de ridículo em muitos deles e ajudá-los a descobrir o que é ser solidário e – verdadeiramente – feliz.




terça-feira, 11 de outubro de 2011

Bento XVI ataca "mutação antropológica" da juventude

O papa geralmente fala, por assim dizer, com um linguajar intelectual muito complicado, mas seja lá o que ele entenda por "mutação antropológica", parece pertinente a queixa que ele faz sobre a virtualidade que domina o mundo atual. Para, digamos, "decodificar" a sua mensagem, é preciso verificar, primeiro, o contexto em que ele fez a crítica, já que falava da importância que os mosteiros europeus tiveram na organização da sociedade e na exploração econômica sustentável das terras durante a Idade Média, com um estilo de vida muito mais lento, real e solidário do que o dos tempos modernos. Deve ser por aí que se chega a este "viés" da "mutação antropológica" que ele aponta na juventude de hoje. A matéria é do Diário de Notícias de Portugal:

Bento XVI denuncia "mutação antropológica" nos jovens

O papa Bento XVI denunciou hoje as mentalidades "dominadas por interesses económicos" e uma "mutação antropológica" dos jovens, cativos do mundo virtual sem o saberem.

"Na Idade Média, os mosteiros estiveram no centro da bonificação da zonas pantanosas. Hoje servem para melhorar o ambiente de outra maneira", disse o papa, que falava na praça e no convento de Serra San Bruno.

"Por vezes, o clima que se respira nas sociedades não é saudável: está poluído por uma mentalidade que não é cristã, que não é também humana, porque é dominada por interesses económicos, preocupada somente por coisas terrestres e privada de uma dimensão espiritual", referiu Bento XVI.

"Neste clima, marginaliza-se não só Deus, mas também o próximo, e não nos esforçamos pelo bem comum", denunciou.

Referindo-se ao barulho das cidades, o papa sublinhou que "o desenvolvimento dos 'media' trouxe a virtualidade que arrisca passar a realidade".

"Sem se aperceberem, as pessoas mergulharam numa dimensão virtual, devido às mensagens audiovisuais que acompanham a sua vida, de manhã à noite", acrescentou Bento XVI.




sábado, 8 de outubro de 2011

Mau humor até que é bom

Você é uma daquelas pessoas que, assim que levanta xingando tudo e todos logo cedo, pisa no cachorro, bate com o joelho na quina da cama, escorrega no tapete e ainda tem que encarar o chefe mala e os colegas invejosos e carreiristas naquele trampo que você odeia? Pois fique sabendo que nem tudo está perdido, o seu mau humor não tem só aspectos negativos, como mostra a pesquisa de uma universidade australiana divulgada pela revista Super Interessante:

Mau humor faz bem para o cérebro

Quem não acorda achando a vida uma droga e as pessoas todas muito chatas de vez em quando, né? Mas se preocupe não — de acordo com pesquisadores australianos, até essa negatividade toda tem seu lado bom: faz a gente raciocionar melhor.

Em comparação aos tipos irritantes alegrinhos, os mal humorados são mais atentos, menos influenciáveis e especialmente cuidadosos na hora de tomar decisões.

É o que aponta um estudo feito na Universidade de New South Wales (Austrália), que colocou voluntários para assistir a filminhos especialmente escolhidos para deixá-los de bom ou mau humor, e depois observou como eles se saíam em uma série de testes de raciocínio lógico.

Segundo o líder da pesquisa, Joe Forgas, os ranzinzas cometeram menos erros e se comunicaram melhor — especialmente quando escreviam. Tudo indica que o mau humor potencializa as estratégias de processamento de informações do cérebro. Ponto pra ele.



terça-feira, 27 de setembro de 2011

Pastor quer manter zona de prostituição aberta na Bahia

A notícia é daquelas que seguem o figurino tragicômico. No ringue, dois evangélicos duelam pelo prêmio, que é o destino da zona de prostituição em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, popularmente conhecida como "os bregas". De um lado, o delegado evangélico que quer fechar o meretrício para combater a insegurança. Do outro, o pastor que acabou de fundar uma Igreja do Evangelho Quadrangular perto do brega da Cabeluda, que advoga por manter a zona aberta porque "o evangelho deve ser pregado onde o pecado está", um argumento - cá entre nós - forte e bíblico. No meio do tiroteio gospel estão as prostitutas, temerosas do seu destino, como ele já não fosse por si só difícil de encarar. A notícia é do Correio da Bahia numa reportagem muito bem escrita (coisa rara hoje em dia) por Jorge Gauthier, no melhor estilo do já antigo e esquecido "novo jornalismo" de Gay Talese ("Gay" é o nome dele, gente!), que vale a pena ler de cabo a rabo:

Polícia quer fechar tradicional rua de prostituição do Recôncavo baiano

A caça à Rua do Brega

Jorge Gauthier | Redação CORREIO
jorge.souza@redebahia.com.br

As paredes, mesmo sujas e com infiltração, guardam suas histórias. A cerveja, mesmo servida em copos engordurados, está sempre gelada. As mulheres, mesmo com os corpos castigados pela ação do tempo, exibem curvas que atiçam a imaginação masculina. Nas vitrolas, serestas e arrochas embalam os corpos nas camas, mesmo que velhas e sebosas. Mas a libertinagem da Rua do Brega, em Cachoeira, no Recôncavo baiano, mesmo tendo surgido há mais de 150 anos, está perto do fim.

Se depender do delegado da cidade, Laurindo Neto, evangélico, as três casas da rua onde funcionam os prostíbulos serão fechadas nos próximos meses. Segundo ele, não é por moralismo, mas por insegurança.

O delegado afirma que os prostíbulos servem como ponto de encontro para traficantes. Inclusive, um dos clientes assíduos é Edmilson Bispo dos Santos Júnior, o Júnior, 27 anos, fundador do Primeiro Comando do Interior (PCI), facção inspirada no grupo criminoso paulista Primeiro Comando da Capital (PCC).

“Vou entrar com representação na Justiça para fechar esses bregas, pois eles servem de abrigo para traficantes. No entorno dessas casas de brega circula todo tipo de delinquente”, justifica o delegado.

Prostitutas ouvidas pelo CORREIO, que preferiram não se identificar, confirmaram que Júnior frequenta as casas. “E paga bem, viu! Tem vezes que paga R$ 100”, contou uma das mulheres que já trabalha na rua há sete anos.

A violência, no entanto, elas confirmam que é uma constante. “Aqui tem muito vagabundo. Traficante? Tem às pencas, mas só vêm aqui para brincar de ser feliz na cama com a gente”, destaca uma. O delegado contesta. “Eles usam os bregas como esconderijo não é só pra sexo”, diz.

Temor

Vera Lúcia, 44 anos, conta que chegou na rua ainda menina e não vê futuro caso fechem seu negócio. “Sou puta e com muito orgulho. Tem 29 anos que vendo meu corpo nessa rua. Se fechar o brega eu vou pra onde? Para a casa do delegado?”, brinca.

A irreverente Verinha, como é conhecida, chegou na rua quando a quantidade de bregas era bem maior do que as três atuais - o brega de Cabeluda, o Point das Morenas e a Casa Rosa.

“Há 20 anos tinha mais casa de brega nessa rua do que gente. Hoje, tem muito menos gente, mas essa rua sempre vai ser o lugar da putaria nessa cidade. Se fechar os bregas, o povo vai fazer sexo em todo lugar”, conta Verinha, que aos 14 anos abandonou a casa da família, em Maragogipe, para se prostituir nos bregas de Cachoeira.

Poder de Deus

E não são só as prostitutas que não querem o fechamento dos bregas. O pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular, Jailton Santos, que há três meses fundou a igreja evangélica ao lado do brega de Cabeluda, um dos mais antigos da cidade, defende que os prostíbulos permaneçam funcionando.

“O ensinamento divino é que se pregue a palavra de Deus onde o pecado está e por esse motivo preferimos que os bregas continuem abertos para que essas mulheres tenham a chance de encontrar o conforto na palavra de Deus”, defende o pastor, que trabalha como operário da construção civil em Cachoeira.

Para o delegado, o fechamento dos bregas é necessário. “Júnior e seus comparsas usam essas casas de brega com regularidade. Manter esses bregas abertos é facilitar a ação do crime na nossa cidade. Quem quiser fazer sacanagem vai ter que ir para outra cidade”. O pastor acredita que, caso os bregas sejam fechados, o ‘poder do evangelho’ vai se enfraquecer. “Temos a intenção de estar onde as pessoas que precisam de ajuda estão. Por isso, resolvemos abrir a igreja na rua onde estão os bregas da cidade”.

Tempos Áureos

Natural do Ceará, uma das prostitutas que trabalha na Rua do Brega, já está no local desde a década de 90. “Vim aqui por causa da fama, mas nos últimos anos caiu muito. Mesmo assim ainda vale a pena trabalhar aqui. Tirando essa onda de violência, o lugar é muito tranquilo. A gente respira um ar que é único nesse mundo. O clima de sexo aqui tem outro sabor”, relata a prostituta, entre um cigarro e um gole na cerveja gelada.

Frequentador assíduo da casa, o comerciante J.S., 64 anos, teve sua primeira relação na Rua do Brega - e muitas outras depois. Para ele, fechar os bregas é acabar com a alegria. “Metade dos homens de Cachoeira conheceu o prazer nessa rua. Se os paralelepípedos e as paredes dessas casas falassem o nome de cada pessoa que já transou aqui ...Ah, o mundo ia ficar surdo”, brinca. Religiosa, a dona de casa Elisabete Lima de Jesus, que é moradora na rua há mais de 50 anos, atualmente é vizinha da igreja e dos prostíbulos. Ela conta que muita coisa mudou na rua ao longo dos anos.

Meu filho, isso aqui era um celeiro de mulher da vida. Todas vinham pra cá aprender como fazer as coisas. Hoje tem muito menos. Aqui na rua agora tem muita casa de família. Por mim, pode ficar tudo aí. Acho até que diverte por causa da música que eles tocam”, comenta.

artimanhas Uma relação sexual na Rua do Brega tem preço: R$ 40. O valor, segundo as profissionais do sexo, inclui todas (e mais variadas) posições sexuais. “R$ 10 a menina paga pelo aluguel do quarto.

O programa depende muito de duração. Se a menina souber mexer faz o cara se aliviar em cindo minutos. Daí acaba e está pronta para outra. Cada menina, no final de semana chega a ter uns 4 a 5 clientes”, conta a gerente de uma das casas.

Durante a semana, o movimento é escasso. “Vem os meninos das escolas, marido que não tem alegria do bate coxa em casa. Entregadores de bebidas, que vêm abastecer a casa e também se abastecem com a gente”, comenta uma prostituta natural do Piauí que trabalha na Rua da Brega há três meses.

Em poucos minutos de conversa, enquanto bebericam dos copos de clientes nos salões dos bregas à meia luz, as mulheres contam as mais variadas estratégias para satisfazer o cliente. Infelizmente, a maioria tem palavras impublicáveis. Mas, elas afirmam que o prazer é garantido.

Policial aposentado manteve brega na rua por 30 anos Quando se aposentou da Polícia Militar, há 35 anos, o sargento Eduardo Conceição resolveu abrir um brega em Cachoeira, que virou um dos mais tradicionais redutos do sexo na cidade. “Chegou épocas de ter 12 meninas trabalhando aqui”. Hoje, Eduardo mantém apenas um bar na rua.

Decidiu fechar o brega e vender o imóvel para “descansar da agonia de muita mulher falando ao mesmo tempo”. Na casa de paredes verdes, cheia de equipamentos eletrônicos, Eduardo abrigou muitos sonhos de mulheres que abandonaram as famílias para viver do sexo. “Já vi muito sofrimento nessa rua. Mulher sendo espancada por marido que descobriu que ela fazia vida. No brega tudo é mais difícil”.

Simpático com a parca freguesia, Eduardo se orgulha dos tempos de Rua do Brega. “Lembro do dia que cheguei aqui pela primeira vez. Me encantei com as luzes, o som e o cheiro das putas perfumadas. Aquilo me encantou”, lembra.

Vocação centenária para prostituição na rua

Nem os carteiros de Cachoeira lembram com facilidade o real nome da Rua do Brega. Registrada como rua Sete de Setembro, o local é conhecido por todos pela referência das casas de prostituição. A vocação da rua, segundo os moradores mais antigos surgiu em função de Cachoeira ser uma cidade portuária.

“Tinha muito viajante no passado que passava por Cachoeira e tinha necessidade de encontrar uma mulher e acabou tudo se concentrando nessa rua”, conta a dona de casa Elisabete Lima de Jesus, que é moradora na rua há mais de 50 anos.

O fato de Cachoeira ser o último ponto navegável atrás da Baía de Todos os Santos colocou a cidade no século XIX como entreposto comercial do estado. Criou-se então, nas margens do Rio Paraguaçu várias casas ou cabarés de prostituição, mais conhecidos como bregas, para atender às necessidades sexuais dos viajantes.

Por ficar à beira do rio, a rua Sete de Setembro, hoje conhecida como Rua do Brega, acabou concentrando a maior parte dos prostíbulos. Hoje, a maioria das mulheres que trabalham na rua é do interior da Bahia, mas há prostitutas de quase todos os estados do Nordeste.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Religiosos são mais felizes quando a situação não é tão boa

Artigo do ScienceDaily, traduzido por Stephanie D'Ornelas e publicado no HypeScience:

Religiosos são mais felizes quando as circunstâncias são ruins

Uma nova pesquisa sugere que em sociedades com problemas sociais as pessoas religiosas são mais felizes do que os seus colegas não religiosos. Onde a paz e a abundância são normas, no entanto, a religiosidade é mais baixa, e todas as pessoas são mais felizes – sendo religiosas ou não.

O estudo foi o primeiro a analisar a religião e a sua relação com a felicidade em uma escala global. Foram levantados dados de pessoas de mais de 150 países, que incluíram perguntas sobre filiação religiosa, satisfação com a vida, respeito, apoio social e sentimentos positivos e negativos.

Estudos anteriores sugeriram que as pessoas religiosas tendiam a ser mais felizes do que as não religiosas. As novas descobertas indicam, no entanto, que a religiosidade e a felicidade estão intimamente ligadas às características das sociedades em que as pessoas vivem.

As circunstâncias acabam prevendo a religiosidade. Circunstâncias difíceis levam as pessoas a serem mais religiosas. Em sociedades com menos mazelas sociais, as pessoas religiosas – em menor quantidade – não são as únicas felizes: nessas localidades, todos são mais felizes.

De acordo com os pesquisadores, a religiosidade parece aumentar a felicidade e o bem-estar nas sociedades que não fornecem alimentação adequada, emprego, saúde, segurança e oportunidades educacionais. Além disso, as pessoas religiosas que vivem em sociedades também religiosas têm mais probabilidade de se sentirem respeitadas, receber mais apoio social e serem mais positivas.

Já nas sociedades laicas – que em muitos casos são ricas e têm mais suporte social – as pessoas religiosas e não religiosas relatam bem-estar maior e sentimentos positivos. Surpreendentemente, as pessoas religiosas relataram mais sentimentos negativos do que as não religiosas nessas sociedades.

sábado, 13 de agosto de 2011

Com Jesus no caminhão

De fato, aqueles que viajam pelas estradas do país podem reparar que, a cada dia que passa, é maior o número de caminhões que ostentam mensagens bíblicas e religiosas em seus parachoques, outrora um tradicional reduto de piadas curtas e ditados populares, muitos de gosto duvidoso, obviamente. O fenômeno se repete nos adesivos dos carros, e em geral está escrito "Deus é fiel" ou "Propriedade de Jesus", entre outros chavões evangélicos. Luiz Antonio Simas, no seu blog Histórias Brasileiras, chama essas frases de parachoque de caminhão de haicai, aqueles poemas mnemônicos japoneses, e se queixa de seu desaparecimento gradual e sua substituição cada vez mais visível por chavões evangélicos padronizados, dentro do que ele chama de "praga neopentecostal". Por um lado, a sua crítica faz sentido porque os parachoques sempre foram o repositório do imaginário popular brasileiro, na sua forma mais simples e bem-humorada, que nem sempre respeitava as regras da gramática e as raias do bom gosto. Por outro lado, a vida do caminhoneiro não deve ser nada fácil frente aos perigos de acidentes e assaltos que eles enfrentam crescente e diuturnamente, daí ser natural imaginar que eles busquem algum tipo de proteção espiritual na esperança de sempre poderem voltar pra casa. Fica a dúvida, entretanto: caminhoneiros de Cristo e bom humor são mesmo irreconciliáveis? Será que não dá para a espiritualidade e a espirituosidade conviverem sem se excluírem mutuamente? Abaixo, o texto de Luiz Antonio Simas. Se você eventualmente se ofender com palavras chulas não o leia, mas elas apenas desfilam o enorme repertório de cultura popular que (antes mais, agora menos) transitava pelas estradas do Brasil:



A MORTE DOS HAICAIS DO POVO

Um dos sintomas mais evidentes da praga neopentescostal que invadiu o Brasil é o surgimento dos inacreditáveis caminhoneiros de Cristo. As estradas tupiniquins estão tomadas por hordas de caminhões com mensagens evangélicas nos parachoques. Eu mesmo, que não sou de viajar muito de carro, já li coisas como Esse caminhão pertence a Jesus; Cristo me guia no caminho; Dirigido por mim e guiado pelo Senhor; Jesus, tome conta do teu rebanho nas estradas; É teu, Rei dos Reis, meu caminhão e um enigmático A bíblia disse que meu caminhão pertence ao homem da quarta fornalha. Não bastasse isso, temos as sentenças de louvação familiar. Numa viagem a Parati anotei a seguinte máxima: Cristo ensinou a melhor maneira de fazer sexo seguro: o casamento.

Essa evangelização rodoviária é criminosa e representa a morte da tradição, brasileiríssima, da frase de parachoque. Era fabuloso viajar observando as máximas que os caminhões ostentavam; sentenças sobre amor, mulheres, sogras, dinheiro, política, amizades e uma cacetada de outros temas. Mais que simples brincadeiras, as frases continham verdadeiras pérolas da cultura popular. Cito:

- Restaurante que serve farofa não liga ventilador de teto.
- Esperta é a mulher do saci, que toma um pé na bunda e quem cai é ele.
- Se dinheiro fosse merda eu nasceria sem cu.
- O homem que diz que as mulheres são frígidas tem má língua.
- Em briga de saci ninguém dá rasteira.
- A cal é virgem porque o pincel é brocha.
- Aqui jaz minha sogra; descanso em paz.
- Se ruga fosse velhice meu saco era pré-histórico.
- A primeira ilusão do homem começa na chupeta.
- Se a onça morrer, o mato é nosso.
- A mulher foi feita da costela, imagine se fosse do filé.
- Adoro as rosas, mas prefiro as trepadeiras.
- Marido de mulher feia tem raiva de feriado.
- Champanhe de pobre é sonrisal.
- Coceira de rico é alergia, coceira de pobre é sarna.
- Criança e tamanco, só se faz com pau duro.
- Em baile de cobra, sapo não dança.
- Quem dorme com morcego acorda de cabeça pra baixo.
- Gato que levou tijolada não dorme em olaria.
- Merdas cagadas não voltam ao cu.
- Urubu na guerra é frango.
- Pobre que sente cheiro de flor pergunta onde é o velório.
- O diabo não se casou e Cristo morreu solteiro.

São ditados cheios de uma auto-ironia repleta de sarcasmo, bom-humor e sacanagem, verdadeiros haicais do povão. Sem autores conhecidos, as sentenças de parachoques consagram o artista popular com o maior prêmio que um criador decente ousa alcançar: o completo anonimato. O que mais pode pretender um sujeito além de se diluir nos costumes de seu povo, como se as frases existissem desde tempos remotos?

É por isso que lanço desse meu coreto um protesto contra a praga dos caminhoneiros de Cristo, verdadeiros gafanhotos da cultura das estradas, mal-humorados, chatonildos e intolerantes. Tivesse eu um caminhão, escreveria conforme li no parachoque de uma lata velha cheia de dignidade :

- Jesus pode te amar, mas eu te acho um babaca.

Abraços



quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Como aumentar a produtividade do escritório


é batata...

domingo, 7 de agosto de 2011

Golpe do dinheiro benzido segue fazendo vítimas

Os estelionatários da fé sempre se aproveitam da concupiscência das pessoas para enganá-las. Bom seria se a polícia e a Justiça colocassem todos eles na cadeia. Agora, pelo jeito, o golpe do benzimento de dinheiro continua fazendo vítimas em São Roque (SP), segundo noticia o jornal local "O Democrata":

Golpe do “benzimento de dinheiro” fez mais uma vítima

Golpistas continuam agindo na área central da cidade aumentando o número de vítimas que, acreditando estar preservando sua saúde e seu dinheiro, acabam entregando todas suas economias para “benzedores”.

Na semana passada um aposentado perdeu R$ 13.400,00. Desta vez, foi uma mulher de 75 anos de idade, abordada na rua Rui Barbosa por uma mulher que disse trabalhar na mesma farmácia em que ela frequenta. A golpista chegou a levar a mulher para almoçar e, após conhecer em detalhes seus problemas, disse que conhecia um homem que benzia as pessoas e conseguia “retirar todas as coisas ruins” que estivessem atrapalhando a vida delas. Só que antes de deixarem o restaurante, a estelionatária, através do celular, conversou com seu parceiro e contou sobre a conversa que teve passando o máximo de informações.

O homem aguardava pelas duas dentro de um carro, sendo que a golpista se mostrou surpresa por encontrá-lo, dizendo que “o destino os tinha colocado juntos”.

A vítima entrou no carro e o homem começou a benzê-la, e de imediato passou a apontar seus problemas. A senhora se impressionou com a exatidão dos detalhes e, assim, aumentou ainda mais sua confiança no benzedor.

Em determinado momento, o homem disse que a mulher era vítima de macumba. Ela deveria comprar um ovo branco e levar para ele. Assim que senhora voltou e entregou o ovo, ele trocou por um outro que estava em seu bolso. Após benzer a mulher novamente, quebrou o ovo dentro de um copo e, ao invés da clara e da gema, saiu um líquido vermelho o qual o homem disse ser sangue. O estelionatário disse que tanto ela como todo seu dinheiro precisavam ser benzidos.

Acreditando na história, a mulher foi até o banco e sacou R$ 5.700,00 e o entregou, sendo que o homem embrulhou o montante numa folha de caderno. Enquanto a mulher se abaixa para benzer as pernas utilizando um crucifixo, o homem trocou o pacote com um que só continha papel recortado em forma de dinheiro. Ao entregar o pacote, recomendou que a vítima só o abrisse após cinco dias, caso contrário toda maldição cairia sobre ela e seu filho. Passado o prazo estipulado, a senhora constatou o golpe.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Youtube mostra avião da NOAR em treinamento


Hoje cedo houve o trágico acidente com um avião LET-410 da companhia aérea NOAR, pouco após decolar no voo Recife-Natal-Mossoró, vindo a cair na praia da Boa Viagem, matando 16 pessoas (2 tripulantes e 14 passageiros), lamentavelmente. A triste coincidência é que o Youtube tem um vídeo, postado há pouco mais de um ano, de treinamento de decolagem e aterrisagem desta mesma aeronave - de fabricação tcheca - no aeroporto dos Guararapes:

terça-feira, 28 de junho de 2011

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Um mendigo sociólogo

Não é que, de vez em quando, mendigos também leem livros de sociologia? É o caso de Márcio Pereira do Santos, sem-teto que foi filmado na esquina da Rua Irineu Marinho, no centro do Rio de Janeiro (RJ), lendo o livro "Biblioteca Geral de Sociologia", de Nello Doti. Será que é influência de um certo ex-presidente da República que ficou conhecido como "o príncipe dos sociólogos"?


sexta-feira, 27 de maio de 2011

Seriam "atos proféticos" os cadeados e a tinta rosa?

Duas cidades, uma do Estado do Paraná e outra de São Paulo, separadas por cerca de 420 km de distância, estão surpresas e um tanto quanto assustadas com ocorrências bizarras que se tornaram rotineiras, lamentavelmente. Paredes e muros de casas e estabelecimentos comerciais em Cornélio Procópio (PR) têm amanhecido com estranhas marcas de tinta cor-de-rosa, conforme matéria veiculada no Jornal Hoje da Rede Globo de 26/05/11 (veja o vídeo no site do noticiário), cujo trecho ora se destaca:
Agora o que está na boca do povo é um suposto código do crime. Ladrões teriam marcado com tinta as casas que pretendem roubar. A empresa de Edson sofreu uma tentativa de assalto logo depois de receber a marca na parede. “Eu tenho certeza que uma coisa tem a ver a outra”, declara o comerciante.

Por sua vez, Cravinhos (SP) tem enfrentado outro tipo de problema, também bastante esquisito. Quando as pessoas saem para trabalhar de manhã, elas se deparam com uma situação inusitada: os seus portões estão trancados com cadeado. O detalhe sórdido é que o cadeado não é deles, razão pela que obviamente não possuem a chave e têm que ficar trancados em casa enquanto aguardam a visita do serralheiro ou do chaveiro que vêm para socorrê-los. O UOL Notícias informa, em matéria também datada do dia 26/05/11, o seguinte:

Moradores da região central de Cravinhos (290 km de São Paulo) estão precisando da ajuda de serralheiros para sair ou entrar em suas casas e locais de trabalho. Os portões dos imóveis vêm sendo trancados por cadeados, por desconhecidos, isolando os donos dentro de casa ou fora dela.

Para abrir passagem, as vítimas precisam arrombar as fechaduras. A polícia não tem pistas dos autores da “brincadeira”, mas classificou o crime de perturbação do trabalho ou sossego alheio, cuja pena é de três meses de prisão. A suspeita é de que os cadeados usados pelos suspeitos tenham sido retirados dos portões de outros imóveis na cidade.

É muito provável que tudo não passe de uma brincadeira de mau gosto de pândegos espirituosos, mas talvez fosse o caso de se investigar outra possibilidade infelizmente não tão remota nos dias atuais. Considerando o número de indivíduos que se dizem "evangélicos" e saem pelas cidades urinando em postes e terrenos baldios para "marcar território espiritual" (além de outras práticas exóticas supostamente "cristãs" como enterrar coisas e tocar shofar), tudo isso na onda de "atos proféticos" que assola muitas igrejas, talvez algum "pastor" iluminado tenha tido a brilhante ideia de marcar as casas com tinta rósea para lembrar o sangue do cordeiro da Páscoa que sinalizava os umbrais das moradias dos judeus escravizados no Egito, evitando que o anjo da morte os visitasse e levasse seus primogênitos (Êxodo 12), ou ainda tenha apelado aos cadeados para promover um espetáculo fanfarrão de "tá amarrado", "tomo posse" ou coisa parecida, já que o que não falta é ritual, simpatia, jargão e mantra para tantas loucuras que se instalaram em muitas igrejas ditas "evangélicas". Não dá pra duvidar de mais nada...

terça-feira, 12 de abril de 2011

O perdão nem sempre é bom


Pelo menos é o que diz a ciência, na (até agora) vã tentativa de entender e mensurar as emoções, agora voltada ao estudo das ofensas e dos efeitos do perdão nas vidas de casais, segundo notícia do LiveScience, traduzida por Natasha Romanzoti e publicada no site HypeScience:

Porque o perdão pode ser ruim

O senso comum é de que o perdão faz bem. A ciência gostaria de discordar. Uma nova pesquisa sugere que, em alguns casos, pode ser melhor dar uma de Elizabeth Edwards, que deixou seu marido traidor John Edwards fora de seu testamento, do que de Hillary Clinton, que perdoou Bill Clinton por seus flertes com uma estagiária da Casa Branca.

Segundo o estudo, ouvir “está tudo bem, querida(o)”, pode ser apenas o combustível que seu parceiro estava esperando para transgredir as regras novamente. Os recém-casados que perdoaram o mau comportamento de seus parceiros eram mais propensos a enfrentar o mesmo comportamento no dia seguinte, em comparação com aqueles que ficaram bravos.

Porém, os pesquisadores alertam que os benefícios ou não do perdão ainda precisam ser pesados contra os riscos. Você pode se sentir melhor se perdoar. Mas a questão é: o que acontece mais tarde?

O perdão pode ter um efeito de longa duração. No estudo, os pesquisadores acompanharam os participantes durante uma semana. Portanto, é provável que os cônjuges não perdoados tenham se comportado melhor apenas em uma tentativa de sair daquela situação naquela semana.

No entanto, em outro estudo, os pesquisadores seguiram casais durante quatro anos e os resultados mostraram um padrão semelhante. Eles mediram, basicamente, a tendência das pessoas de perdoar e as tendências dos parceiros em se envolver em agressões verbais e físicas.

As pessoas que perdoavam mais tinham parceiros que continuavam agindo agressivamente durante os quatro anos. Os pesquisadores também disseram que há uma linha tênue entre o perdão e se tornar um “capacho”.

Segundo eles, os cientistas sociais, teólogos e médicos têm elogiado as virtudes do perdão, muitas vezes sem perceber às suas desvantagens. Não há como manter a ideia simplória de que o perdão é sempre bom.

135 casais heterossexuais recém-casados preencheram diários de relacionamento individuais por uma semana. Os diários incluíam um questionário sobre se o cônjuge da pessoa fez algo para aborrecê-lo, e se eles tinham perdoado a transgressão.

Os pesquisadores analisaram dados de todos os entrevistados que informaram estarem chateados com seus parceiros em um dia e descreveram o comportamento dessa pessoa no dia seguinte.

165 indivíduos (76 homens e 89 mulheres) se encaixaram nesse perfil. Os maridos relataram o mau comportamento de suas mulheres em cerca de 29% dos dias, enquanto as mulheres relataram o mau comportamento de seus maridos em cerca de 34% dos dias.

Em geral, os cônjuges que perdoaram os seus parceiros eram quase duas vezes mais propensos a relatar que seu parceiro se comportou da mesma maneira no dia seguinte. As infrações mais comuns relatadas foram leves, tais como discordâncias, reclamações, ou um dos cônjuges ter falta de consideração com o outro.

Alguns, entretanto, foram mais graves: 9% dos homens e 5% das mulheres relataram abuso psicológico. Um homem relatou uma traição e uma mulher relatou coerção sexual pelo marido.

As descobertas não sugerem que o perdão é sempre ruim, apenas que nem sempre é bom. Há muita variação entre os casais, e o perdão tem maior probabilidade de ser maléfico quando o parceiro transgressor tem uma tendência a abusar da confiança de seu cônjuge. Quando se perdoa, não se dá nenhuma razão para a pessoa parar.

Segundo os especialistas, os casais devem se concentrar na resolução de problemas ao invés do simples perdão. Você não tem que condenar o seu parceiro por um comportamento descuidado. Em vez disso, você pode reconhecer que ambos são seres humanos falíveis, fazer o que é necessário para corrigir os problemas, e depois perdoar uns aos outros.

domingo, 10 de abril de 2011

Inseto: você ainda vai comer um...

Melhor ir preparando o seu paladar, a se confirmar a notícia do jornal Valor Econômico do dia 07/04/11:

Insetos poderão substituir as carnes

Bettina Barros | De São Paulo

Comer insetos deixará de ser uma excentricidade. A FAO, agência da ONU para alimentação e agricultura, passou a considerar esses animais como fonte alternativa de proteínas para consumo humano. Por trás da iniciativa está a preocupação de que as carnes não serão suficientes para fornecer as proteínas necessárias à população mundial de 9 bilhões de pessoas em 2050.

Cerca de 1,7 mil espécies de insetos já são consumidos no mundo. Mas eles entraram no foco dos cientistas pelo nível expressivo de proteínas que carregam, às vezes mais que a carne. Na Holanda, o Ministério da Agricultura ofereceu € 1 milhão para que um grupo de 70 pesquisadores, comandados por Arnold van Huis, da Universidade de Wageningen, transforme insetos em uma "iguaria" palatável. A ideia é extrair a proteína para industrialização. A criação de insetos produz menos gases nocivos ao ambiente do que os rebanhos bovinos, caprinos e suínos. "A barreira é cultural", disse Van Huis ao Valor.

O empresário Luiz Otávio Pôssas produz há três anos, em Betim (MG), na Nutrinsecta, 1.400 kg mensais de grilos, larvas e baratas para alimentar aves. Há seis meses, pediu autorização ao Ministério da Agricultura para comercializar insetos para alimentação humana.

sábado, 9 de abril de 2011

Matador do Realengo pode ser enterrado como indigente

O massacre de inocentes na escola de Realengo, no Rio de Janeiro, por mais inexplicável e injustificável que pareça (e seja) aos nossos olhos, desperta em nós os instintos mais primitivos, como diria um ex-deputado cassado, também carioca. À medida em que as horas e os dias passam, tentamos, entretanto, procurar explicações e nos deparamos com a gigantesca miséria humana à qual julgávamos estar imunes, e que nos afeta a todos, democrática e lamentavelmente. A notícia do jornal O Globo, de que o corpo do responsável pela barbárie, Wellington Menezes de Oliveira, permanece no Instituto Médico Legal sem que ninguém o reclame, acrescenta uma pitada de indigência ao enredo macabro, que mesmo assim não deixa de ter relevância.

Segundo os primeiros relatos, ao que tudo indica, Wellington era um rapaz tímido e desajustado socialmente embora este desajuste não se traduzisse em atos de rebeldia ou violência perceptíveis a olho nu. Filho adotivo de uma família humilde do subúrbio carioca, cuja mãe biológica já era esquizofrênica, foi criado e educado aparentemente com todo o carinho e cuidado possíveis a uma família nessas condições. ¡Que estranho desajuste emocional e social que é este que fica cozinhando em fogo brando por mais de 20 anos! As informações são desencontradas ainda, já que os familiares e amigos próximos, compreensivelmente, evitam aparecer e dar declarações sobre a história pregressa do hoje facínora. Fica difícil, portanto, traçar um perfil psicológico detalhado de Wellington, mas, a julgar pela carta que deixou (vide abaixo), ele teria tido sérios problemas de sexualidade e misticismo religioso que se juntaram no caldeirão de desgraças estruturais da sua personalidade, e resultaram no massacre do último dia 7 de abril.

O corpo de Wellington permanece no IML e, se ninguém reclamá-lo nos 15 dias seguintes à sua morte, ele será enterrado como indigente. O desejo de muitos hoje seria matá-lo tantas vezes quantas fosse possível antes de enterrá-lo, mas temos que aproveitar o momento para refletir sobre que tipo de sociedade estamos vivendo, com todas nossas carências e omissões. Muitos Wellingtons vivem à nossa volta sem que nós percebamos que são pessoas doentes que precisam de tratamento especializado. É claro que 99,9999% desses Wellingtons que conhecemos ou trombamos na rua jamais farão uma loucura como a do Wellington de Realengo, mas precisamos desenvolver uma maneira coletiva de identificar possíveis Wellingtons e cuidadosamente orientá-los e encaminhá-los a pessoas, psicólogos, psiquiatras, instituições, etc., que possam dar um pouco de coesão a essas personalidades tão fragmentadas e dissociadas de um sentimento comunitário razoavelmente solidário e significativo.

Ainda que as invocações cerimoniais religiosas de Wellington quanto ao seu sepultamento sejam apenas um fruto diletante dos seus delírios automistificadores - e agradasse ao nosso íntimo a ideia de que seu corpo fosse atirado num lixão qualquer -, a sociedade não pode permitir que ele seja enterrado como indigente. Ainda que nos cause náusea a sua figura, ele tem rosto, nome, RG, CPF e - principalmente - uma triste história de vida empanada pela morte inútil e trágica. Podia ter ido embora sozinho e anônimo, é o que todos nós pensamos agora, mas na sua insana busca de fama (e infâmia) levou crianças inocentes e traumatizou todo um país. Ao conceder a Wellington um enterro de gente, não só promovemos um ritual e a catarse de sua descida ao inferno (que começou em vida) como estamos nos comprometendo conosco mesmos, coletivamente, de que também somos gente e vamos tratar os muitos desajustados à nossa volta como gente, dentro do possível que cada um pode fazer, para evitar que tenhamos que descer a novos infernos como este. O momento exige coragem para enfrentarmos os novos fantasmas e exorcizarmos os nossos medos. Coragem para, apesar da dor, ainda cantar o refrão de "Divino, Maravilhoso", letra de Caetano Veloso e Gilberto Gil, na interpretação de Gal Costa: "é preciso estar atento e forte, não temos que temer a morte".


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