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terça-feira, 18 de setembro de 2012

Surge mais um papiro antigo que sugere que Jesus era casado


Dia sim, dia não, aparece uma nova descoberta que traz alguma “revelação” sobre a vida de Jesus, especialmente quanto a textos apócrifos que falam sobre detalhes não canônicos de sua vida.

Desnecessário dizer que tem gente que ganha muito dinheiro com isso. Basta lembrar Dan Brown e seu livro “O Código Da Vinci” que requentava velhas estórias sobre o romance (e casamento) de Jesus com Maria Madalena.

Pena que só depois de ver o filme baseado no livro é que as pessoas se deram conta da bobagem paranoica de mais essa teoria da conspiração pseudobíblica (e do dinheiro que perderam e que poderia ter comprado livros melhores).

A bola da vez vem através de Karen L. King, professora da Harvard Divinity School, que alega ter encontrado um fragmento de papiro do século IV d. C., que – segundo ela – sugere que Jesus teria sido casado.

Mal foi lançado o novo boato extrabíblico, e os costumeiros teóricos da conspiração já estão chamando o novo manuscrito de “o evangelho da esposa de Jesus”, expressão que você certamente ouvirá muito nos próximos dias, talvez meses.

Escrito em copta, antiga língua egípcia, o fragmento (do tamanho de um cartão de visita) diria algo traduzido como “Jesus disse a eles, ‘minha esposa’”. “Eles”, no caso, seriam os discípulos a quem Jesus estaria se dirigindo na ocasião.

O tal “cartão de visita” ainda não foi datado cientificamente, embora King e outros eruditos (não se sabe quais) aleguem não ter dúvidas de sua autenticidade.

A professora King não é novata na função da, digamos, “polêmica escritural”, já que já publicou livros sobre outros apócrifos, como os evangelhos de Judas e Maria Madalena.

O anúncio do novo “evangelho” foi feito em Roma esta semana, durante a reunião do Congresso Internacional para Estudos Coptas.

Alega King, conhecida combatente das análises sexistas da Bíblia, que “faz tempo que a tradição cristã sustenta que Jesus não foi casado, ainda que não exista nenhuma evidência histórica para dar suporte a essa afirmação”.

Acrescenta que “esse novo evangelho não prova que Jesus era casado, mas nos diz que toda a questão só surgiu como parte de um debate acirrado sobre sexualidade e casamento. Desde o começo, os cristãos discordaram sobre se era melhor não se casar, mas só depois de um século depois da morte de Jesus é que eles começaram a apelar para o estado conjugal de Jesus para apoiar suas posições”.

Como se percebe, muita água ainda vai rolar debaixo dessa ponte. Inutilmente, diga-se de passagem, mas fornecerá combustível gratuito à fervura requentada e recalcada das paixões anticristãs e antiortodoxas que grassam no mundo de hoje.

Ficou curioso? Pelo menos, você não vai precisar gastar dinheiro comprando o livro. Alguém certamente te dará um "Código Da Vinci" usado com muito gosto.

Nada de novo no front.

A fonte das informações aqui repassadas é o The Huffington Post.



quarta-feira, 13 de junho de 2012

Descobertos textos de Orígenes no idioma original



Quando se fala de história da Igreja, é muito difícil não se falar de Orígenes. Certamente um personagem muito controverso, ele no entanto deixou para a posteridade um enorme legado. No site e-cristianismo se encontra uma biografia deste que foi um dos grandes Pais da Igreja cristã, que nos mostra como ele era famoso em sua época:
Tudo indica que Orígenes tenha nascido em uma família cristã em Alexandria, por volta do ano 185, tendo recebido sólida formação religiosa (sob Clemente) e também secular, completada na escola do filósofo Amônio Sacas, pai do neoplatonismo, o que lhe permitiu ter uma erudição filosófica incomparável entre os Pais da Igreja. No ano 202, seu pai Leônidas foi martirizado durante a perseguição do imperador Sétimo Severo, e os bens da família foram confiscados. O jovem Orígenes incentivou seu pai a ser fiel até a morte e diz-se que sua mãe teve que esconder suas roupas para que ele não saísse de casa e fosse preso. Para poder manter a mãe e seis irmãos menores, Orígenes abriu uma escola de gramática (literatura) e, pouco depois, diante da ausência de quadros qualificados, já que muitos haviam fugido ou sido mortos pela perseguição, o bispo Demétrio de Alexandria incumbe a Orígenes, então com 18 anos de idade, a dirigir a escola de catecúmenos, enquanto procurava enfrentar a forte perseguição aos cristãos. Por algum tempo, seguiu com as duas escolas, mas quando a família teve condições de se sustentar por si própria, dedicou-se exclusivamente à catequese e, nesse particular, opera-se um verdadeiro milagre para a época: sua reputação entre os alexandrinos era tão alta que muitos pagãos e gnósticos passaram a frequentar a escola de catecúmenos para aprender diretamente do jovem mestre.


Não só isto, mas Orígenes influenciou toda a geração de teólogos orientais depois dele. A mesma biografia fala sobre as obras de Orígenes.
Orígenes deixou uma obra gigantesca, sendo que o catálogo compilado por Eusébio dá conta de 2.000 escritos, enquanto Epifânio diz que Orígenes escreveu impressionantes 6.000 obras. O historiador Paul Johnson diz que “parece que trabalhava o dia inteiro e a maior parte da noite e era um escritor compulsivo. Até o intrépido Jerônimo, mais tarde, reclamaria: ‘alguém já leu tudo que foi escrito por Orígenes?’. Seus comentários às escrituras eram tão vastos que nenhum foi transmitido na íntegra. Alguns foram perdidos, outros sobrevivem como paráfrases drásticas”. Eusébio justifica essa alta produtividade com o fato de que “sete estenógrafos que se revezavam em intervalos definidos, e outros tantos escreventes de livros e mulheres calígrafas” (“Histórica Eclesiástica”, VI, 23, 2), provavelmente patrocinados por Ambrósio. De qualquer maneira, 800 desses escritos chegaram até nossos dias. Poucos, entretanto, trazem os textos originais, já que a maioria foi expurgada pelas controvérsias origenistas posteriores, e outra parte sobreviveu apenas por meio de traduções sofríveis.
A história no entanto nos reserva sempre grandes surpresas. Isto aconteceu recentemente, quando a professora Marina Molin Pradel foi preparar um novo catálogo dos manuscritos gregos da Bayerische Staatsbibliothek, em Munique (Alemanha) 

Enquanto examinava o conteúdo do Codex Monacensis Graecus 314 (do século 11 a 12), uma coleção anônima de 29 homílias (supostamente inéditas) dos Salmos, ela descobriu que os manuscritos incluíam 4 das 5 homílias de Orígenes sobre o Salmo 36 traduzidos por Rufino. 

Além disto, a pesquisadora descobriu que a lista de homílias corresponde em uma larga extensão àquela apresentada por Jerônimo em sua carta 33 a Paula, sendo o grupo mais importante aquele de 7 homílias no Salmo 77. 


A descoberta já está sendo chamada nos circuitos bíblicos eruditos de "o achado do século".

A auspiciosa notícia nos chega através de Lorenzo Perrone, o maior especialista em Orígenes na atualidade, e que já está trabalhando na transcrição dos textos. Parece haver inclusive textos considerados perdidos. Sua carta à comunidade pode ser lida em inglês, aqui.

Esta é sem dúvida uma descoberta fantástica, já que não tínhamos textos de Orígenes em seu idioma original. O que uma visita ao "arquivo morto" de uma biblioteca não pode ressuscitar e nos revelar, não é mesmo?



segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O que Jesus disse e não disse?

Em 2005, Bart D. Ehrman lançou um livro intitulado Misquoting Jesus, que em português soaria como algo parecido com "Citando Errado Jesus", mas foi traduzido por "O Que Jesus Disse? O Que Jesus Nao Disse? Quem Mudou A Biblia E Por Quê", publicado aqui em 2006 pela Ed. Prestígio. A obra trata, basicamente, de alguns problemas de interpolação e adulteração de textos bíblicos, como Hebreus 2:8-9, Marcos 1:41, Mateus 24:36 e João 1:18, entre outros. Teve ampla repercussão na época e, além de servir de munição para céticos que preferem despir o santo sem nem contar o milagre, continua plantando dúvidas naqueles crentes que pouco ou nada entendem de crítica textual, ou que acham que os problemas na transmissão das cópias dos manuscritos originais do Novo Testamento tenham acarretado algum dano às doutrinas fundamentais do cristianismo.

A quem possa interessar, não há nenhuma novidade no livro, já que esses problemas são conhecidos e debatidos há dois séculos pelo menos, e nenhuma doutrina central da Bíblia ficou chamuscada pela investigação. Todos os iniciados sabem que nenhum dos manuscritos originais do Novo Testamento resistiu aos primeiros séculos da Igreja cristã, e eles eram constantemente reproduzidos à mão por copistas que, não raras vezes, introduziam, erravam ou retiravam acidentalmente alguma letra ou palavra das cópias que estavam copiando. A ortodoxia cristã entende que apenas os manuscritos originais foram diretamente inspirados pelo Espírito Santo. Isto não invalida, entretanto, o fato de que Deus agiu inclusive nesta transmissão humana falha para permitir que o essencial dos evangelhos e das cartas dos apóstolos chegassem até nós.

Meu querido amigo e irmão Vítor Grando leu o livro e, apesar das críticas, gostou. Dê uma lida no artigo do blog dele, o Despertai, Bereanos!.

Para aqueles que quiserem se aprofundar no assunto, em resposta ao livro de Ehrman, Daniel B. Wallace escreveu um excelente artigo, "O Evangelho segundo Bart", que o Gustavo traduziu e disponibilizou no site E-Cristianismo, do qual destaco abaixo a introdução:




Para a maioria dos estudantes do Novo Testamento, um livro sobre crítica textual é uma real chatice. Os detalhes tediosos não são matéria para um bestseller. Mas desde a publicação em 1 de Novembro de 2005, Misquoting Jesus[2] tem circulado mais e mais alto até o pico de vendas da Amazon. E já que Bart Ehrman, um dos líderes da América do Norte em crítica textual, apareceu em dois programas da NPR (o Diane Rehm Show e Fresh Air com Terry Gross) - ambos em um espaço de uma semana - ele tem estado entre os primeiro cinquenta mais vendidos na Amazon. Em menos de três meses, mais de 100000 cópias foram vendidas. Quando a entrevista de Neely Tucker a Ehrman no The Washington Post apareceu em 5 de Março deste ano as vendas do livro de Ehrman subiram ainda mais. O sr. Tucker falou de Ehrman como um "estudioso fundamentalista que vasculhou tanto as orígens do Cristianismo que ele perdeu sua fé."[3] Nove dias depois, Ehrman era a celebridade convidada no The Daily Show de Jon Stewart. Stewart disse que vendo a Bíblia como algo que foi deliberadamente corrompida por escribas ortodoxos fez da Bíblia "mais interessante... quase mais divina em alguns aspectos." Stewart concluiu a entrevista declarando, "Eu realmente te parabenizo. É um baita de um livro!" Em menos de 48 horas, Misquoting Jesus chegou ao topo da Amazon, ainda que somente por um curto período. Dois meses depois e ainda está voando alto, ficando entre os 25. Ele "se tornou um de meus bestsellers mais improváveis do ano."[4] Nada mal para um tomo acadêmico em uma matéria "chata"!

Porque todo o alvoroço? Bem, por uma coisa, Jesus vende. Mas não o Jesus da Bíblia. O Jesus que vende é aquele que é saboroso ao homem pós-moderno. E com um livro entitulado Misquoting Jesus: The Story Behind Who Changed the Bible and Why, uma audiência disponível foi criada através da esperança que haveria novas evidências que o Jesus bíblico é uma imaginação. Ironicamente, quase nenhuma das variantes que Ehrman discute envolve palavras de Jesus. O livro simplesmente não entrega o que o título promete. Ehrman preferiu Lost in Transmission, mas a publicadora achou que tal livro seria percebido pelo pessoal de Barnes e Noble como relacionado a corridas de stock car! Mesmo que Ehrman não tenha escolhido o título resultante, ele foi uma jogada de marketing.

Mais importante, este livro vende porque ele apela ao cético que quer razões para não acreditar, que considera a Bíblia um livro de mitos. É uma coisa dizer que as histórias na Bíblia são lenda; outra bem diferente é dizer que muitas delas foram adicionadas séculos depois. Apesar de Ehrman não dizer bem isto, ele deixa a impressão que a forma original do Novo Testamento era bem diferente dos manuscritos que nós lemos agora.

De acordo com Ehrman, este é o primeiro livro escrito sobre a crítica textual do Novo Testamento - uma disciplina que tem circulado por quase 300 anos - para uma audiência leiga.[5] Aparentemente ele não conta os vários livros escritos por advogados da KJV Only, ou os livros que interagem com eles. Parece que Ehrman quer dizer que o seu é o primeiro livro sobre a disciplina geral do criticismo textual do Novo Testamento escrito por um crítico textual de boa fé para leitores leigos. Isto é muito provavelmente verdade.




[1] Agradecimentos são dados a Darrell L. Bock, Buist M. Fanning, Michael W. Holmes, W. Hall Harris, e William F. Warren por verificar um esboço preliminar deste artigo e oferecer sua opinião.

[2] San Francisco: HarperSanFrancisco, 2005.

[3] Neely Tucker, "The Book of Bart: In the Bestseller ‘Misquoting Jesus,' Agnostic Author Bart Ehrman Picks Apart the Gospels That Made a Disbeliever Out of Him," Washington Post, March 5, 2006. Acessado em http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/03/04/AR2006030401369.html.

[4] Tucker, "The Book of Bart."

[5] Misquoting, 15.

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