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domingo, 15 de março de 2015

O que caracteriza alguém criativo?


A resposta talvez esteja neste artigo interessante de Renata Reps para o Brasil Post:

A exclusividade padronizada da criatividade

Em pesquisas e bates-papos com as mentes criativas que cruzam o meu caminho, já percebi alguns pontos em comum entre elas. Não estou dizendo que essas pessoas não sejam, de fato, pontos fora da curva. Tudo indica, porém, que dentre toda esta descentralização existem empatias, intervalos de encontro que parecem se reunir e formar uma outra massa: o grupo dos que não querem fazer as coisas como todo mundo faz.

A cada nova conversa, a luzinha laranja daquele canto do cérebro que conecta informações apitava quando alguém também me dizia que tinha viajado para longe antes de ter aquela ideia, ou que os amigos não compreendiam o que estava tentando fazer; ou que o dinheiro nunca havia sido sua primeira preocupação. E os pequenos pontos de congruência formavam, pouco a pouco, uma linha de características similares e que une até mesmo quem tenta e quer ser tão diferente. A criatividade tem, afinal, uma sequência natural.

Nada disso são regras e não quer dizer que valham para todo mundo. O que me foi alarmante foi apenas o grande número de pessoas que relatou estes três fatores que eu descrevo a seguir.

1. O ano sabático

Os judeus conhecem bem a importância deste período. A expressão "ano sabático" deriva, na verdade, do shabat, que é o dia do descanso sagrado para o Judaísmo, dia em que Deus repousou depois desta trabalheira que foi a criação do mundo. Bom, se até Ele precisou de uma folga para clarear as ideias, que dirá nós, selvagens mortais. É impressionante a presença deste ano de alívio das pressões quotidianas na vida dos empreendedores criativos. E isso é muito fácil de entender: para se chegar a uma ideia de negócio que tenha um real potencial disruptivo - ou seja, que tenha capacidade de desestabilizar a concorrência por seu conteúdo inovador - é preciso dar um tempo da rotina.

A rotina tem um papel importante na vida dos seres humanos. Ela cria uma noção de sentido, de organização dentro de todo o caos que podem ser nossa mente ou nosso quarto, por exemplo. Mas, infelizmente, ela tem o triste potencial de nos impedir de enxergar um palmo à frente de nossos narizes. É por isso que quando viajamos sentimos tanto, nos alegramos tanto, nos emocionamos tanto. É como se nos desnudássemos daquele véu que tapa as grandes excitações do dia a dia e que serve para nos permitir seguir o ritmo normal da vida, sem tantos questionamentos ou deslumbramentos a cada passo. Quando estamos em um lugar novo, percebemos mais. Até mesmo quando estamos de férias, ainda que na mesma cidade, conseguimos ver detalhes que se perdem dentro de um quotidiano comum.

Pois o ano sabático é isto: um grande encontro com os próprios desejos, sem freios ou bloqueios. É aquele tempo que tiramos para nos livrar dos problemas que nos prendem em nossa vida diária. Fazemos belos encontros, aprendemos novas línguas, descobrimos outras culturas. Tem quem precise de desculpas para isso - como fazer um curso no exterior, por exemplo. Mas o mais eficaz, pelo que tenho visto, é mesmo quem sai sem rumo, e também quem visita não só um, mas vários países. Na volta, há duas saídas: se encaixar à força à realidade precedente ou procurar novos caminhos. Mas ir embora, normalmente, é uma escolha sem volta: a vida nunca vai ser o que era antes. E é aí que os empreendedores tiram proveito.

2. A incompreensão dos amigos e da família

O empreendedor é um desbravador solitário. O paralelo que eu consigo fazer é com aqueles que estão construindo uma tese ou uma dissertação de um assunto muito específico, que só eles entendem. Não dá para sentar em uma mesa de bar e compartilhar aquilo com olhares ávidos e sorridentes de compreensão; as pessoas vão se entediar, ou duvidar, ou simplesmente não entender. E elas podem te desencorajar, fazendo perguntas que não são pertinentes àquela pesquisa, ou que vão te tirar do seu foco. É isso: você passa 24 horas por dia com um tema na cabeça e não pode dividi-lo com quase nenhum outro ser.

Pois novas ideias são assim. Elas incomodam. O universo parece criar estratégias bem delineadas para manter o status quo e o sucesso já adquirido da espécie humana. Assim, ameaças à paz são cortadas pela raiz. Você pode pensar em inúmeros exemplos em que essa máxima seja válida, e o empreendedorismo criativo é apenas mais uma delas. Como explicar aos seus pais que você vai abandonar um emprego que te rende sustento e uma posição bem delimitada no status social para criar um blog, ou para abrir um negócio que muitas vezes você não vai nem conseguir fazê-los entender o que é?

A estrutura econômica hoje é bem diferente da época em que eles aprenderam o que se devia fazer para ganhar a vida. O problema é que este modelo está em fase de constituição, e ainda há numerosos representantes do velho paradigma econômico vivendo à moda antiga; e eles podem ser tão jovens quanto você. São eles, inclusive, que vão te fazer repensar seus planos e se questionar: nossa, mas será que vale a pena mesmo? São eles, com seus salários fixos e sem correr riscos, que sinalizarão que o seu caminho não faz sentido, ou que você deveria deixar essa bobagem de lado e parar de sonhar. Então, acredite: a maioria dos seus amigos não vai te entender ou te oferecer suporte. Esta luta, amigo, vai ser travada por você sozinho - ou com poucas companhias de verdade.

3. O dinheiro como conseqüência - e não objetivo

É este mesmo pessoal, com a cabeça no modelo econômico passado, que faz os empreendedores parecerem loucos desvairados quando eles dizem que sua preocupação principal não é o dinheiro. É batata: a maioria esmagadora dos criativos que conheci buscavam, acima de tudo, criar algo em que acreditassem e que lhes desse prazer. Eles queriam sair de um paradigma de viver para os fins de semana, mesmo que isso significasse trabalhar muito mais do que em seus empregos fixos de antes, para inventar algo que não existia. Ou apenas para ser feliz mais vezes por semana.

A maior parte deles, também, tinha uma vontade vascular de empreender. E isso desde sempre. E um grande número sabia que queria criar o próprio negócio, mas não tinha certeza do que deveria criar. Algumas dessas pessoas juntaram dinheiro durante muito tempo em seus empregos tradicionais antes de se aventurar na própria empresa; outras delas, conseguiram vender suas ideias e obter financiamentos; algumas poucas, ainda, contaram com suporte familiar. Mas para todas, sem exceção, ganhar muito dinheiro não era o objetivo principal. Eles tinham objetivos nobres, queriam mudar o mundo, melhorar as coisas - nem que fosse a própria vida.

É claro que isso não impede a boa estruturação do modelo de negócios para que ele dê certo; a fase de testes para conferir se o mercado aceita e está preparado para aquele novo conceito e a preparação para um primeiro ano que é, normalmente, decisivo. E os números são implacáveis: ¼ das startups brasileiras morre antes do término deste ano inicial, segundo um estudo da Fundação Dom Cabral realizado em outubro de 2014. E daí tudo bem, né, a pessoa vai ter tentado - e se forçar a sair da inércia para tentar construir grandes coisas e ser feliz já é um grande mérito. Mas aqueles que têm sucesso, mesmo, podem até ficar milionários - como eu tenho visto com certa freqüência. Ricos e felizes, como num conto de fadas. E olha que a ideia inicial era apenas ser feliz.

Portanto, um brinde à criatividade, e a quem arregaça as mangas para fazer um plano abstrato sair do papel, mesmo fazendo força contra a ventania que tenta empurrar para o sentido oposto. Se você é uma dessas pessoas, acredite: tem mais desbravadores por aí parecidos com você, e enfrentando o mesmo tipo de perrengue.

Encontre-os.



domingo, 12 de outubro de 2014

Aprenda a evitar o bloqueio criativo


Dicas interessantes de Adriana Scarabelli, publicadas na Oficina da Net:

Como evitar o bloqueio criativo?

Acho que não tem algo pior para qualquer Design que o Bloqueio Criativo. Ele pode chegar em qualquer momento, pode durar um tempo indefinido, e pode te trazer muitos atrasos nos projetos em andamento.

O bloqueio criativo é o pior dos momentos que um designer pode passar. A sensação é bem desagradável e momentaneamente muito desconfortável. Para evitarmos o bloqueio criativo, no mínimo temos que termos uma boa noite de sono. Nada melhor do que acordar de bem com a vida, para acordarmos com a criatividade aflorada.

Não existem regras e nem um método correto para ter criatividade. A inspiração não é algo que possamos ligar e desligar quando precisamos. Mas nem sempre temos a melhor ideia, ou talvez nenhuma dela. Acho que não tem algo pior para qualquer Design que o Bloqueio Criativo. Ele pode chegar em qualquer momento, pode durar um tempo indefinido, e pode te trazer muitos atrasos nos projetos em andamento.

Para quem trabalha com criação, sabe que não tem como trabalhar no automático o tempo todo. Mas nem sempre todos os diretores e nem mesmo os clientes são capazes de entender ou aceitar o Bloqueio Criativo. Nesta matéria cito 9 dicas que eu criei para ajudar a Vencer o Bloqueio Criativo, e abrir a mente para ideias brilhantes. Lembrando que, não existe fórmula certa para a inspiração, siga as dicas para aprender elevar a sua criatividade. Mais não siga a risca nenhum delas.

Alegre o seu Ambiente de Trabalho

O local de trabalho de um criativo nunca pode ser nada parecido com uma clinica. Nada de cores únicas, abuse nas cores. Dê vida ao seu Ambiente de Trabalho, assim a inspiração vai estar por toda parte.

Anote Tudo

Papel e Lápis é um acessório que deve estar sempre a mão. Além de rabiscar as ideias, não se esqueça de anotar tudo o que vier em sua mente. Num processo de criação, qualquer detalhe vai fazer toda a diferença, e você pode ter ela a qualquer momento. Anote tudo em linhas separadas e depois tente juntar tudo, a grande ideia pode estar na junção das pequenas.

Não Siga Regras

A criatividade, assim como tudo na vida, não tem regra e nem mapa para ser seguido. Nunca tente recriar algo que deu certo uma vez. E nem tanto, refazer todo o processo já feito para chegar em um ótimo resultado. Inove e ignore passos dados no passado.

Mude a Rotina

Vá a lugares diferentes, rabisque um projeto num bar, restaurante, parque ou metro. Novas ideias podem estar em qualquer lugar, se permita encontra-lás. Conheça novos tipos de artes e culturas. Assim ficará mais fácil encontrar fontes de inspiração inusitadas.

Termine Tudo o que Começou

Nenhum ideia pode ser considerada ruim. Algumas são excelentes, outras simples, porém agradáveis. Então nunca desista de um processo criativo pela metade, de qualquer forma ele já faz parte do projeto.

Consulte Outras Áreas

Pesquise e tente tirar o melhor que puder de projetos de áreas diferentes da sua. Fotografia, moda, cinema, decoração, entre outros. A inspiração que você procura, pode estar em qualquer lugar.

Mude de Ponto de Vista

Se nada esta dando certo, tente olhar de uma maneira diferente. Mude o angulo, olhe de cabeça para baixo ou até mesmo recortados e misturados.

Relaxe

Ninguém é um poço de criatividade, após trabalhar em muitos projetos seguidos de uma pausa. Pare e dedique um tempo a você.

Faça no Dia Seguinte

Separe as ideias boas das ruins. Para isso, não tente resolver tudo no mesmo dia. Quando o projeto começar dar um engasgada pare. Vá passear ou dormir e volte o projeto no dia seguinte.

Espero que as dicas ajudem, aceito sugestões então comentem abaixo Beijos e até a próxima matéria :)



domingo, 19 de janeiro de 2014

Como conciliar ciência, razão, criatividade e intuição?

Entrevista interessante do francês Michel Paty, físico e filósofo da ciência, concedida ao Ciência Hoje:

A ciência criativa

Físico-filósofo francês aborda discussão sobre o papel da criatividade e da intuição, orientadas pela racionalidade, na produção científica. Para ele, entender o processo da descoberta pode ser o maior desafio da filosofia da ciência.

Marcelo Garcia

Como surge a descoberta científica? Qual a sua origem? E qual o papel da criatividade nesse processo, no próprio avanço da ciência? Tais indagações, que inquietam e instigam a filosofia da ciência, certamente não têm respostas fáceis ou definitivas, mas podem ajudar a expandir nosso entendimento sobre o próprio fazer científico e sobre a trajetória da ciência nos últimos séculos. Para o físico, filósofo e historiador da ciência francês Michel Paty, diretor de pesquisa emérito do Centro Nacional para a Pesquisa Científica (CNRS, do francês), há na ciência lugar para a invenção e a intuição, orientadas pela racionalidade.

Em palestra no Colégio Brasileiro de Altos Estudos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o francês abordou, em um português simpático e cheio de sotaque, as mudanças no entendimento filosófico sobre a ciência nos últimos 200 anos. Ele recordou as inovações da ciência que ainda no século 19 afrouxaram o laço entre matemática e natureza, mostrando a distância entre experiência e abstração teórica.

Naquela época, criações como a geometria não euclidiana, que não corresponde à ‘evidência’, e teorias físicas matematizadas e abstratas em eletricidade e magnetismo teriam tornado mais claro o papel da invenção na construção da ciência, segundo Paty. “Apesar disso, na segunda metade do século 20, a concepção da ciência continuava a se basear, de maneira dominante, nas ideias herdadas do empirismo lógico, e a filosofia não estudava, em geral, o processo de descoberta, que ainda parecia dominado pela subjetividade e alheio à racionalidade”, afirmou.

Apesar dessa predominância, o francês destacou que a aproximação entre criatividade e processo científico foi estudada por grandes cientistas e filósofos do século 20 – em especial dois deles, Henri Poincaré e Albert Einstein, cujos trabalhos estudou ao longo da carreira. “Ambos concebiam a descoberta de novidades relacionadas ao conhecimento objetivo como fruto da capacidade de invenção da mente, baseada numa intuição racional que escapa às formas usuais do raciocínio, como a dedução lógica”, disse. “Dessa forma, mesmo que nem sempre seja possível observar as linhas de raciocínio, chega-se a um resultado racional”, analisou.

Nesse contexto, a invenção teria seu lugar assegurado na ciência. Fundamental, a criatividade seria, sim, pessoal (relacionada ao pensamento de sujeitos individuais), mas orientada pela racionalidade – que, por sua vez, não se identifica com a pura e simples lógica. Segundo Paty, essa criatividade seria parte fundamental do processo de elaboração dos conhecimentos científicos e deve ser levada em conta tanto pela filosofia quanto pela história da ciência.

Confira uma entrevista concedida à CH On-line pelo físico e filósofo francês:

CH On-line: O senhor é físico e filósofo, duas áreas que buscam compreender o mundo. Há uma relação natural entre elas?
Paty: Esses dois campos sempre foram próximos. Desde a Antiguidade, muitos físicos, muitos cientistas também eram filósofos, se debruçavam sobre as questões do mundo pelas duas vias. Foi só a partir do século 18 que essa separação começou a aparecer de maneira nítida, aliás, proposital, para assegurar a autonomia da ciência e da filosofia. Mas ela não é total. Se tomarmos o exemplo da cosmologia contemporânea, é impossível negar as questões filosóficas que a área suscita. A constituição da matéria, a presença da vida no universo, o surgimento de uma inteligência como a nossa nesse universo tão grande, a dúvida sobre estarmos sozinhos nele... São questões naturais, que se originam da nossa própria capacidade de indagação, tão própria da ciência.

Houve uma época em que me dediquei totalmente à física, especialmente ao estudo dos neutrinos, que hoje são famosos, mas naqueles tempos eram novidade. E é lógico que eu me colocava questões de natureza filosófica, que o conhecimento objetivo não me permitia responder. Essa aproximação mais clara entre filosofia e ciência acontece intensamente nas áreas de fronteira, mas tais questionamentos podem surgir em qualquer campo de investigação – e mesmo da atividade humana em geral.

E como se dá, no seu entendimento, a conciliação da criatividade e da intuição com a ciência? Ela é realmente possível?
Sem dúvida é possível e necessário conciliar criação científica, racionalidade e objetividade. Um conceito científico considerado numa teoria não é isolado, mas solidário a outros conceitos, forma com eles um conjunto cujas relações são mais ricas do que puramente lógicas. A mudança científica se dá pela transformação do conjunto dos conceitos que fazem parte desse sistema.

A história da ciência deixa ver que tais movimentos não são casuais e têm consistência interna, têm uma razão – justificada posteriormente – ligada à exigência de objetividade. São movidos pela racionalidade e, ao mesmo tempo, têm um lado importante de subjetividade. Cada agente humano envolvido tem reações únicas na formulação e resolução dos problemas, o que resulta numa diversidade de 'estilos científicos'.

O conhecimento, então, avança graças a ampliações da própria racionalidade, muito mais do que pela pura lógica, pois elas permitem possibilidades inéditas de relacionar os elementos conceituais considerados. É como se mudássemos as regras do jogo: passamos a enxergar de forma racional o que antes era impensável, hipotético ou pertencia de forma vaga ao campo de ideologias. As mudanças no entendimento do mundo e na própria ciência despertam a intuição racional, que pode ser concebida como uma visão sintética intelectual dos cientistas daquela época para outras possibilidades, que levam a novas descobertas.

Essa valorização da criatividade significa um reforço da figura do gênio, excêntrico, especial, inigualável, tão presente na opinião comum?
Na verdade, não. Esse estereótipo do gênio é fruto de uma visão superficial da ciência. Claro, nem todos, mesmo os mais famosos e bem-sucedidos cientistas, eram criativos como Einstein e Poincaré. As descobertas estão ligadas também a outros fatores, como o pioneirismo num campo ou a momentos sociais bem aproveitados pelo pesquisador. Precisamos tomar cuidado para não cair em certo ‘relativismo’ e ‘reducionismo’ sociológico a respeito do pensamento científico, mas também é inegável a importância de fatores culturais e sociais de cada época. A ciência do século 21 não teria o aspecto que tem não fosse a sua organização social específica. A pesquisa está inserida na história e na história social, não faz sentido separar homem e sociedade.

Em seu trabalho, o senhor já explorou muito as ideias de Einstein e Poincaré a respeito da criatividade, do estilo científico e do papel da invenção na ciência. Fazendo um paralelo com os dias atuais, qual o papel da criatividade e da invenção na ciência contemporânea?
A grande dificuldade para responder a essa pergunta está na forma que a pesquisa científica tomou a partir da segunda metade do século 20. No tipo de ciência que temos hoje em domínios importantes, a big science, o trabalho é muito coletivo e as experiências são de alta tecnologia, tanto na física, na química e na astrofísica quanto na biologia e na neurociência. Há uma enorme mobilização de pesquisadores, instituições, equipamentos e recursos. Parece ser mais difícil perceber aqui uma originalidade de contribuição dos pesquisadores tomados individualmente.

Porém, se olharmos os conhecimentos produzidos por esse tipo de pesquisa, eles não deixam de ter a mesma natureza de quando o trabalho científico era mais individual: são exprimidos como formas simbólicas organizadas racionalmente, como conceitos e teorias, que são inteligíveis não para um coletivo, mas para sujeitos individuais. Ou seja, somos levados a pensar que a produção de ideias também continua a ser individual. Não é o meio coletivo e sua tecnologia que as gera, mas o trabalho mental individual dos participantes. E isso acontece de forma variada, com mais ou menos originalidade e criatividade, e certamente com um ritmo mais intenso de trocas de ideias entre os pesquisadores, de assimilações e de transformações.

Mas há, sem dúvida, um impacto do trabalho coletivo.
Sim, e há eventualmente um reverso da medalha, que seria a eliminação de ideias menos atraentes pela maioria, direções de pesquisas que são, ao menos provisoriamente, esquecidas. Num regime mais individual e lento, essas ideias tinham mais tempo para maturação. O risco aqui é que certo conformismo leve a privilegiar exageradamente uma das direções possíveis. Isso pode ser constatado na minha antiga linha de estudo, a física das partículas, na procura de teorias unificadas onde muitos jovens optam pela mesma direção de pesquisa – aliás, favorecida pelos critérios sociais que orientam as carreiras de pesquisador. É sem dúvida um assunto complexo que merece estudo adequado.

Nesse contexto, a filosofia da ciência tem dedicado a atenção que deveria ao processo criativo na ciência?
De maneira predominante, desde a segunda metade do século 20, a filosofia da ciência se desinteressou do processo criativo do pensamento científico e o rumo atual da pesquisa socializada não vai ajudar muito a retomar esse tema. Mas acredito que os criadores com ideias originais, mais sensíveis a respeito da natureza do pensamento científico e da forma como ele é capaz de reinventar o mundo e incorporá-lo à cultura dos homens, vão continuar a contribuir com suas reflexões nessa área, como fizeram Poincaré e Einstein em seu tempo. E espero que os filósofos da ciência se abram mais a essa dimensão, levando em conta a realidade da ciência tal como ela é e se apresenta.

Além de físico e filósofo, o senhor já atuou como divulgador da ciência. Qual o papel da divulgação e da educação científicas na nossa sociedade?
Como disse, mais do que nunca a ciência impacta diretamente a cultura, a tecnologia e a sociedade, e isso não pode ser ignorado. A educação e a comunicação científicas são fundamentais para que possamos problematizar os avanços atuais. Essa é uma responsabilidade de todos nós. Os cientistas, filósofos, historiadores e sociólogos da ciência precisam promover essa reflexão lúcida e crítica sobre o conhecimento. O conhecimento científico está centrado na racionalidade, visa à objetividade e, por isso, tem vocação à universalidade, pode ser entendido por qualquer um, em princípio. As gerações que estão por vir dependem disso e a miséria e outros fatores que impedem essa disseminação são crimes contra a humanidade.

Uma questão importante é que a divulgação científica nem sempre é bem feita. Se o objetivo é apenas maravilhar o público, isso não necessariamente aproxima a ciência de suas vidas. É preciso que ela seja uma divulgação crítica, que se indague, que estimule a curiosidade e que ensine os porquês das coisas, desfazendo a imagem dogmática da ciência. Outro aspecto que precisa ser problematizado e abordado é que a ciência e a tecnologia no mundo atual estão integradas num sistema econômico e social específico, o que tem suas consequências.

De fato alguns dos mercados mais lucrativos do mundo hoje envolvem diretamente produtos tecnológicos...
Sem dúvida. Primeiro temos que considerar que o acesso à tecnologia ainda é regido por fatores econômicos e a tecnologia não é para todos. Além disso, vamos pensar nas regras que orientam esse mercado, nas motivações que norteiam o desenvolvimento de novos produtos: será que elas se baseiam no esforço pelo avanço da ciência ou no lucro, na concorrência selvagem, responsável por muitos de nossos problemas atuais? O conhecimento sobre a natureza nos dá o poder de transformá-la, mas como orientar esse poder para o bem da humanidade, e não para o lucro de uma minoria? É, sem dúvida, uma questão atual, de grande importância social e ética.



sábado, 23 de novembro de 2013

A natureza pode te ajudar a ser criativo

Matéria publicada no Sicnoticias, com grafia lusitana:

Estudo prova que passar quatro dias na natureza sem tecnologias aumenta criatividade em 50%

Psicólogos de duas universidades norte-americanas concluíram que passar quatro dias imerso na natureza e sem contacto com equipamentos eletrónicos aumenta a capacidade criativa e de resolução de problemas em 50%. "Isto mostra que a interação com a natureza tem benefícios reais e mensuráveis para a resolução criativa de problemas que ainda não tinham sido demonstrados", disse um dos autores do estudo, David Strayer, professor de psicologia na Universidade do Utah.

Para o investigador, estes resultados provam que "enterrar-se em frente a um computador 24 horas por dia, sete dias por semana, tem custos que podem ser remediados com um passeio na natureza".

O estudo de Strayer e dos cientistas Ruth Ann Atchley e Paul Atchley da Universidade do Kansas é publicado na revista científica PLOS ONE, da Public Library of Science, e resulta de uma experiência realizada com 56 pessoas, 30 homens e 26 mulheres, com uma média de 28 anos.

Os participantes estiveram, durante quatro a seis dias, em passeios na natureza nos estados do Alasca, Colorado, Maine e Washington, nos quais não era permitida a utilização de aparelhos eletrónicos.

Dos 56, 24 fizeram um teste de criatividade com dez perguntas antes de iniciarem o passeio e os outros 32 realizaram o mesmo teste na manhã do quarto dia de passeio.

Os resultados foram claros: as pessoas que já estavam há quatro dias na natureza tiveram uma média de 6,08 perguntas certas, enquanto os outros tiveram apenas 4,14.

"Demonstrámos que quatro dias de imersão na natureza, e o correspondente desligamento da tecnologia, aumenta o desempenho em tarefas criativas e de resolução de problemas em 50%", concluíram os investigadores, sem esclarecer se o efeito se deve à natureza, à ausência de tecnologia ou à combinação de ambos os fatores.

Os investigadores recordaram estudos anteriores segundo os quais as crianças passam hoje apenas 15 a 25 minutes por dia em atividades de exterior e desportivas, que as atividades recreativas na natureza têm estado em declínio há 30 anos e que, em média, as crianças dos oito aos 18 anos passam mais de 7,5 horas por dia a usar o computador, a televisão ou o telemóvel.

"Há séculos que os escritores falam da importância de interagir com a natureza (...), mas não sabíamos bem, cientificamente, quais os benefícios", disse Strayer.



segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Melhor não contar a ninguém os seus objetivos até que eles se concretizem


Manja aquela ideia brilhante que você teve, mas não deu certo?

Pode ser que a principal dificuldade dela se concretizar foi o fato de que você tê-la "cacarejado" antes de colocá-la em prática.

Muitas vezes, as pessoas têm planos sensacionais, mas perdem tempo e motivação contando-os aos outros antes de trabalharem com afinco para que eles deem certo.

Resultado: dão com os burros n'água.

Portanto, quando você tiver aquele insight, aquela ideia luminosa sobre o que fazer da sua vida, seja em que área for, não conte com o ovo antes da galinha. Guarde-a para si e, antes de mais nada, mãos à obra para implementá-la.

É o que ensina Derek Silvers em mais uma miniconferência TED, no vídeo de 3 minutos com transcrição abaixo. Aprenda:



Todos vocês, por favor, pensem em seus maiores objetivos pessoais. De verdade. Levem um segundo. Vocês precisam sentir isso para aprender. Levem alguns segundos e pensem de seu maior objetivo pessoal. Pronto? Imaginem que estão decidindo agora mesmo que vocês vão realizar isso. Imaginem que vocês contarão a alguém hoje o que fazerão. Imaginem os elogios deles e a boa impressão que terão de vocês. Não é agradável falar disso em voz alta? Vocês não sentem que estão um passo mais próximos desde já, como se isso já se tornasse parte da identidade de vocês?

Pois bem, uma má notícia: vocês deveriam ter ficado de boca fechada, porque aquele sentimento agradável, o torna menos propício a alcançar seus objetivos. Repetidamente, testes psicológicos provaram que contar a alguém a sua meta faz que a realização dela se torne menos provável. Sempre que vocês têm uma meta, existem alguns passos que precisam ser tomados, alguns trabalhos que precisam ser feitos no sentido de realizá-la. Idealmente, vocês não deveriam sentir-se satisfeitos enquanto não tivessem feito o trabalho. Mas quando vocês contam a alguém a meta de vocês, e eles reconhecem isso, os psicólogos descobriram que isso se chama uma realidade social. É como se a mente fosse iludida a sentir que ela já está feita. E então, como vocês sentiram essa satisfação, vocês ficam menos motivados a fazer o trabalho duro que é realmente necesssário. Assim, isso contradiz a sabedoria convencional de que deveríamos contar nossas metas a nossos amigos, certo? -- então, vamos guardar isso conosco, isso mesmo.

Então, vamos olhar as evidências. 1926, Kurt Lewin, fundador da psicologia social, chamou isso de "substituição." 1922, Vera Mahler descobriu, quando alguma coisa era reconhecida pelos outros, ela parecia real na mente. 1982, Peter Gollwitzer escreveu um livro inteiro sobre isso, e em 2009, ele realizou alguns novos testes que foram publicados.

Foi assim: 163 pessoas através de quatro testes separados -- cada um escreveu sua meta pessoal. Metade deles anunciaram seus compromissos com as metas à sala, e metade não anunciou. Então eles tiveram 45 minutos para fazer um trabalho que os levaria diretamente à realização das metas deles, mas disseram a eles que poderiam parar a qualquer momento. Pois bem, aqueles que ficaram com as bocas fechadas trabalharam todos os 45 minutos, em média, e quando perguntaram a eles depois, disseram que sentiam que tinham um longo caminho a percorrer até atingirem as metas deles. Mas aqueles que tinham anunciado largaram depois de apenas 33 minutos, na média, e quando perguntaram a eles depois, disseram que se sentiam bem mais próximos de atingirem suas metas.

Então, se isso for verdade, o que podemos fazer? Bem, a gente poderia resistir à tentação de anunciarmos nossas metas. A gente pode retardar a gratificação que o reconhecimento social proporciona. E podemos entender que nossas mentes confundem o falar com o fazer. Mas se a gente precisa mesmo falar sobre alguma coisa, a gente pode falar de modo que não nos proporcione satisfação, algo como, "Eu realmente quero correr essa maratona, portanto preciso treinar cinco vezes por semana, e chutem meu traseiro se eu não fizer isso, certo?"

Portanto, pessoal, na próxima vez que vocês ficarem tentados a contarem suas metas a alguém, o que vocês vão dizer? Exatamente. Muito bem.

(Aplausos)



terça-feira, 18 de outubro de 2011

Como surgem as boas ideias



Um ótimo vídeo de Steven Johnson, pra fazer você pensar:




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