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domingo, 10 de maio de 2015

Por que as pessoas fazem tatuagens idiotas?

Um artigo curioso e interessantíssimo publicado no Vice:

Um Psicólogo Explica Por Que as Pessoas Fazem Tatuagens Idiotas

Jules Suzdaltsev

Tatuagens dizem tudo que você precisa saber sobre a sociedade na qual elas foram feitas – e os EUA estão testemunhando uma epidemia de tatuagens escrotas. Não tenho números para sustentar essa afirmação, porque ninguém pensou em pesquisar isso, mas realmente parece que há mais tatuagens horríveis do que nunca. Por todo lado, você vê gente ostentando marcas clichês, citações idiotas, nomes de ex (lembra de "Winona Forever"?), frases mal traduzidas em outras línguas e, num caso muito bizarro, terríveis tatuagens faciais.

Mas por que as pessoas ainda estão tatuando arame farpado em volta do bíceps e borboletas no cóccix? Tentando entender melhor a questão, falei com Kirby Farrel, professor da Universidade de Massachusetts especializado em antropologia, psicologia e história relacionadas ao comportamento humano. Seu último livro, Berserk Style in American Culture, discute o vocabulário da cultura pós-trauma da sociedade norte-americana.

VICE: Qual é o seu interesse em tatuagens péssimas?
Kirby Farrel: Estou interessado principalmente no que você pode chamar de "a antropologia da autoestima e identidade". Penso nas tatuagens como um método que as pessoas usam para tentar se sentir significantes no mundo. Trabalho muito com Ernest Becker – você já ouviu falar do livro dele? Acho que ele ganhou um prêmio Pulitzer com esse livro chamado A Negação da Morte.

Sim, já ouvi falar.
Bom, ele argumenta que somos únicos entre os animais, porque somos sobrecarregados com a consciência do futuro, da futilidade, da morte e assim por diante. Estamos constantemente inventando defesas. A cultura é uma defesa contra o sentimento de opressão, futilidade e perdição. Culturas estão cheias de valores e belezas que te fazem sentir que sua vida é significativa e que tem um significado duradouro, mesmo que limitado. Então, você pode dizer que tatuagens são expressões culturais de heroísmo e individualidade.

Logo, isso se traduz numa epidemia de tatuagens idiotas?
Muitas pessoas dizem que fizeram uma tatuagem como uma lembrança de alguém ou algum evento. Por exemplo, tatuar a letra de uma música. As frases, claro, acabam sendo os maiores clichês. Mas elas estão te exortando a ser um indivíduo forte, imitando todos os outros animais que também pintam clichês na própria pele.

E onde esses caminhos se cruzam? Por um lado, a pessoa quer algo que lhe dê a sensação de significância e autoexpressão, mas acaba fazendo exatamente o oposto disso (o que consideramos uma "tatuagem ruim" ou uma "tatuagem clichê")?
Acho que a fantasia de ser especial, único, importante e heroico, que é do que estamos falando, é complicada quando vivemos numa cultura que celebra esses valores. Estamos sempre bombardeando outros países para preservar nossa "liberdade", o que presumivelmente significa individualidade. Mas, ao mesmo tempo, nossa cultura é intensamente conformista. Temos empresas constantemente tentando imprimir sua marca na consciência popular. Então, por exemplo, se você está tatuando algum clichê bobo de uma música pop, como "Vou te amar para sempre" ou "Não seja um imitador", na verdade você está se marcando com entretenimento industrial, porque grupos de rock, como sabemos, são basicamente máquinas de fazer dinheiro, empregando modelos financiados pela indústria do entretenimento.

Então por que as pessoas fazem isso?
Uma resposta é que somos animais incrivelmente sociais. Você tem de ter em mente que o eu não é uma coisa. É um evento. Se você está em sono profundo, o eu realmente não existe. A neuroquímica do eu não está ali. Desse ponto de vista, nos sentimos mais reais quando outras pessoas nos afirmam, reasseguram e reforçam nossa identidade. Nos rituais sociais pelos quais passamos, como dizer "Oi, como vai? Bem, e você?", você não espera ouvir qualquer informação pessoal. É só uma confirmação de que vocês dois existem e reconhecem um ao outro. De certa maneira, tatuagens também funcionam assim. Elas chamam atenção para você e fazem você se sentir real, mesmo se essa atenção fizer você se sentir membro de um grande grupo. Uma tatuagem te diz que você é parte de uma tribo de colegas tatuados, uma tribo linda e significativa. Você pode até compartilhar símbolos com outra pessoa! Ao mesmo tempo, por causa do fenômeno das marcas, isso faz você se sentir mais esperto do que o cara ao lado, que não sabe o suficiente para comprar seu produto em particular ou sua moda em particular.

Parece que você está dizendo que a própria cultura é clichê. Assim, tentando emular essa cultura social, fazemos essas tatuagens ruins.
A cultura está constantemente nos tentando com fantasias de singularidade e heroísmo. Você é tentado a comprar uma nova BMW, porque isso promete te fazer sentir heroico nas ruas. Você vai se destacar na multidão. A multidão é formada de pessoas comuns, elas vão morrer um dia e serão esquecidas. Mas todo mundo está olhando para você, você está sob os holofotes, você é o herói. E, ao mesmo tempo, se você ajustar a perspectiva sutilmente, eles estão fazendo as pessoas comuns acharem que é OK adorar heróis. Você é convidado a identificar e admirar o rico, o heroico, o prestigioso – e, se você os admira, isso se torna "minha música", "meu cabelo" ou "meu produto". Na verdade, você compartilha o glamour com o poder fetichista das coisas que admira.

Você está dizendo que isso é ser enganado por um movimento social de adoração ao herói?
Bom, se você está ou não sendo "enganado", depende de como você se sente sobre a validade e o pertencimento dos clichês. Quando você quer se tatuar com um verso da sua música favorita, você certamente está sentindo um tipo de excitação emocional e admiração por essa música. Um tipo de êxtase romântico. Você ouve as pessoas dizerem "Isso tem um significado especial para mim". É como uma auréola emocional em torno desse objeto.

Por que esse sentimento é significativo para nossa identidade própria?
Acho que, no geral, as pessoas estão com medo do futuro e se agarram a um ritual, um lema, um clichê familiar que elas acham significativo. É como um cobertor de segurança para dar sentido à sua vida, principalmente quando sua moral está sob pressão ou você está realmente empolgado com algo bom. Mas a questão é que, em qualquer um desses eventos, o clichê não parece ser um clichê. Isso parece ter um significado especial.

OK. Mudando um pouco de assunto: tatuagem é uma coisa que existe há milhares de anos. Alguns dos primeiros humanos já tinham tatuagens. Você acha que existe algo inerente à natureza humana que nos faz querer nos tatuar?
Claro. O cadáver que foi encontrado congelado e preservado nos Alpes, que acho que tem uns 5 mil anos – ele está num museu na Itália, você pode passar para dar um oi –, a última pesquisa mostra que esse corpo tem várias tatuagens. Elas tendem a ter um desenho abstrato. Baseado na localização delas, a hipótese é que elas serviam para se distrair de coisas físicas desconfortáveis, como artrite. Ou elas provavelmente tinham algum tipo de significado mágico. Pensando nisso, de certa maneira, todos os nossos comportamentos tendem a ser muito mágicos. Imaginamos que há algum poder especial em nossos símbolos, em nossos lemas, em nossas marcas, que isso de alguma forma eleva nosso humor, nos faz sentir mais fortes, mais capazes e melhores sobre nós mesmos.

E você acha que isso é algo inerente à humanidade?
Claro. Como pessoas, estamos regularmente à beira do pânico existencial. Becker disse que, se você visse o mundo realisticamente (quão vulnerável e totalmente insignificante você é, considerando o cosmo), você ficaria louco. Então, você precisa constantemente de histórias que constroem sua autoestima e fazem você se sentir significante, o que é fornecido pela cultura.

Logo, essas tatuagens escrotas são uma representação desse mecanismo de defesa?
Sim, exatamente. São representações físicas e artísticas de valores com que você se identifica. Vivemos nesse mundo onde existe um tipo de racismo recorrente e repentino, que vemos desde os anos 60 ou até desde a Guerra Civil. As condições de trabalho são extremamente punitivas, exigentes e despersonalizantes para quem está na base. Você não sente que tem direito à própria identidade. Então, as pessoas se sentem especialmente pressionadas para tentar encontrar seu próprio reforço mágico, porque há coisas em que a cultura não pode te ajudar. Você vê dinheiro, morte e culpa quando as pessoas querem se sentir seguras e como se estivessem no comando em termos de autoestima e bem-estar.

Muitas tatuagens parecem um tanto inconsequentes. Como as pessoas racionalizam a permanência de uma tatuagem em relação à própria mortalidade?
Muitas pessoas, especialmente quando são jovens, imaginam que serão jovens para sempre. Afinal de contas, se a mágica de que estamos falando sobre a cultura realmente funcionar, então, você pode se sentir invencível e imortal, por assim dizer. E é um clichê adolescente achar que você vai viver para sempre – é por isso que eles se arriscam, usam drogas, etc. Eles não conseguem imaginar que vão crescer e parecer diferentes do ideal cultural. Você nunca teve de se preocupar em ficar doente nem nunca esteve em apuros. Você nunca teve de se preocupar em ficar velho e ter de aceitar diminuir suas perspectivas, seus poderes, suas fantasias.

Você acha que isso é uma reação ao medo, ou na verdade resultado da falta de experiência?
Bom, você não acha que são as duas coisas?

Acho que sim.
Você tem medo, mas não admite isso, porque poderia prejudicar sua moral frágil. Uma moral danificada te torna menos eficiente, menos seguro, menos produtivo, etc. Então, você nega que tem medo. Provavelmente, o mecanismo básico da cultura é fingir que tudo está bem e que você não está com medo.

Mas estamos com medo.
Sim, com certeza. Estamos vivendo um momento em que as pessoas estão tão famintas por autoestima, aprovação e confiança, que estão dispostas a dizer e fazer coisas realmente bizarras e idiotas, porque com isso elas se sentem diferentes. Assim, elas se sentem únicas, significativas e vivas.



quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Fuzil AK-47 e o sentimento de culpa de Kalashnikov


Mikhail Kalashnikov faleceu em dezembro de 2013, aos 94 anos de idade, com sentimento de culpa por ter criado o fuzil AK-47 (que não lhe rendeu dinheiro, ao contrário da vodka que leva seu nome), segundo matéria publicada na Folha de S. Paulo de 13/01/14:

Kalashnikov mostrou arrependimento por mortes causadas por fuzil

O russo Mikhail Kalashnikov, que criou o fuzil AK-47, enviou uma carta ao chefe da Igreja Ortodoxa da Rússia manifestando seu temor por ser o responsável por criar uma arma que matou milhões de pessoas em todo o mundo, informou nesta segunda-feira o jornal "Izvestia".

Kalashnikov morreu em 23 de dezembro aos 94 anos. Durante sua vida, ele nunca havia manifestado seu arrependimento em relação à invenção. Em diversas ocasiões, ele disse que havia inventado a arma para defender seu país e não tinha culpa se os políticos e guerrilheiros a usaram para atrocidades.

Na carta publicada pelo "Izvestia", no entanto, ele afirmou ao patriarca da Igreja Ortodoxa russa, Kirill, que sentia uma dor espiritual insuportável.

"Me faço sempre a mesma pergunta que não posso responder: 'Se meu rifle terminou com a vida de tantas pessoas, pode ser que eu seja culpado pelas mortes, ainda que fossem inimigos?'".

O documento foi enviado em maio de 2012 em papel timbrado da organização chefiada pelo criador da arma e assinada por ele, que se descreveu como "um servo de Deus, o designer Mikhail Kalashnikov".

O secretário de imprensa do Patriarca, Alexander Volkov, declarou ao "Izvestia" que o chefe da Igreja ortodoxa russa recebeu esta carta e escreveu uma resposta pessoal.

"A Igreja tem uma posição muito clara: quando as armas servem para proteger a pátria, a Igreja apoia tanto seus criadores quanto os soldados que as utilizam", disse Volkov. "Ele desenhou este fuzil para defender seu país, não para que os terroristas pudessem utilizá-lo na Arábia Saudita", acrescentou.

FUZIL

Estima-se que a arma, que desenhou em 1947, quando era oficial do Exército Vermelho e se recuperava de ferimentos sofridos durante a Segunda Guerra (1939-1945), vendeu 100 milhões de exemplares.

O fuzil logo se tornou o rifle de assalto padrão da infantaria soviética e, nos anos seguintes, passou a ser adotado por exércitos de mais de 80 países, por guerrilheiros radicais e até por terroristas como Osama bin Laden.

Ele nunca cobrou regalias ou recebeu direitos relativos à criação do fuzil AK-47. Curiosamente, a sua maior fonte de renda provinha da venda de uma vodca que também leva seu o nome.



domingo, 3 de março de 2013

Procrastinação pode ser positiva

Nossa leitura de domingo procura sempre ser um pouco diferente, como a matéria abaixo, publicada na Folha Equilíbrio de 17/01/13:

Procrastinação pode ser produtiva; conheça estratégias

John Tierney

Nos últimos cinco anos --ou talvez até mesmo nos últimos dez-- fiquei pensando em publicar uma coluna de Ano Novo com uma resolução ousada para o ano que se inicia: "O poder da procrastinação positiva".

Bem, ainda estamos bem no início do ano e podemos tocar nesse assunto --especialmente se você ainda não pensou nas suas resoluções para 2013. Sim, você pode parar de se sentir culpado por procrastinar. Agora há argumentos científicos que confirmam isso.

Pesquisadores identificaram de modo independente o fenômeno da procrastinação positiva, embora não haja consenso quanto a essa denominação. "Procrastinação estruturada" é o termo preferido por John Perry, filósofo da Universidade de Stanford que publicou um livro sobre o tema no ano passado. É certo que não se trata de um livro longo (92 páginas com pouco texto), mas ele merece crédito: ele o escreveu, e apenas 17 anos depois de ter identificado o conceito.

Perry sentia raiva de si próprio porque procrastinava, o que é algo típico. Até que lhe ocorreu, em 1995, que ele não era totalmente preguiçoso. Enquanto adiava a correção de artigos, não ficava simplesmente de braços cruzados; ele apontava lápis, cuidava do jardim ou jogava pingue-pongue com os alunos. "Os procrastinadores", conta ele, "raramente ficam sem fazer nada".

Pode-se dizer que o ponto de vista de Perry é modesto, talvez, mas deixou a sua consciência mais leve e o fez deixar para trás a antiga ideia de que os procrastinadores devem assumir menos compromissos. A chave para a produtividade, afirma ele em "A Arte da procrastinação", é assumir mais compromissos --mas ser metódico ao fazê-lo.

No topo da sua lista de coisas a fazer, coloque tarefas difíceis, se não impossíveis, que soem vagamente importantes (mas que não o sejam de fato) e que pareçam ter prazos (mas que na verdade não tenham). Depois, em posições inferiores da lista, inclua algumas tarefas exequíveis que realmente importem.

"Cumprir essas tarefas se torna uma forma de não fazer as coisas que estão em posições mais altas na lista", escreve Perry. "Com esse tipo de estrutura apropriada de tarefas, o procrastinador se torna um cidadão útil. Na verdade, o procrastinador pode até mesmo adquirir, como eu, a fama de ser bastante produtivo".

Perry reconhece generosamente que se apoiou nos ombros de gigantes, em especial Robert Benchley, membro da Távola Redonda de Algonquin. Em 1930, Benchley revelou como reuniu força de vontade suficiente para ler revistas científicas e montar uma estante quando deveria estar escrevendo um artigo.

"O segredo de tanta energia e eficiência na execução de um trabalho é simples", escreveu ele. "O princípio psicológico é o seguinte: qualquer pessoa pode cumprir qualquer meta de trabalho, desde que não seja o trabalho que ela tem que fazer naquele dado momento".

Também podemos chamar isso de "procrastinação produtiva", o termo usado por Piers Steel, psicólogo da Universidade de Calgary. Essa é a sua técnica preferida entre as dezenas que ele catalogou enquanto pesquisava para escrever seu livro de 2011, "A Equação da Procrastinação".

"Para a maioria de nós, a procrastinação pode ser abatida, mas não inteiramente derrotada", disse-me Steel, descrevendo como levou uma década para escrever um de seus trabalhos acadêmicos sobre procrastinação. "O truque que melhor funciona para mim é fazer com que meus projetos concorram um com o outro, procrastinando em relação a um enquanto trabalho no outro".

Steel diz que isso se baseia em princípios consistentes de psicologia comportamental: "Estamos dispostos a exercer qualquer tarefa vil desde que ela nos permita fugir de algo pior". Ele diz que deve créditos teóricos ao Sir Francis Bacon, filósofo do século 17 cuja estratégia autocontrole era "colocar uma emoção contra a outra e dominar uma a uma, mesmo que nós cacemos uma besta com a outra".

Steel, que entrevistou mais de 24 mil pessoas em todo o mundo, diz que 95% das pessoas confessam procrastinar pelo menos ocasionalmente. (Você pode verificar se é um procrastinador participando da pesquisa) Aproximadamente 25% dos entrevistados são procrastinadores crônicos, índice cinco vezes maior que o registrado em 1970.

Ele atribui esse aumento à natureza mutável do local de trabalho: quanto mais flexíveis os trabalhos se tornam, mais há oportunidades de evitar tarefas desagradáveis. Atualmente, quem trabalha normalmente gasta um quarto do dia procrastinando; quem estuda gasta um terço. Os homens têm mais propensão à procrastinação crônica do que as mulheres --especialmente os homens jovens.

Quantos deles estão realmente tornando isso algo produtivo? Infelizmente, os dados não são bons, e hoje muitos pesquisadores da temática do autocontrole têm dúvidas quanto à procrastinação positiva. Mesmo quando ela funciona, dizem eles, ainda estamos desperdiçando energia ao nos preocuparmos, consciente ou inconscientemente, com a tarefa que estamos evitando.

E embora Robert Benchley possa ter montado aquela estante, muitos especialistas acham que Raymond Chandler é um modelo melhor. Chandler usou a mesma percepção de Perry – a de que os procrastinadores raramente ficam totalmente ociosos – para desenvolver uma estratégia que Roy F. Baumeister, psicólogo social da Universidade Estadual da Flórida (com quem escrevi um livro sobre a força de vontade) chama de "Alternativa do Nada". Chandler se forçou a escrever histórias de detetive, dedicando-se à tarefa durante quatro horas por dia e seguindo duas regras:

a) Você não tem que escrever.

b) Você não pode fazer nenhuma outra coisa.

"É o mesmo princípio da manutenção da ordem nas escolas", explicou Chandler. "Se fizermos os alunos se comportarem, eles acabam aprendendo alguma coisa só para não ficarem entediados."

Mesmo Perry diz que muitas vezes faz sentido seguir esse conselho clássico para procrastinadores: basta começar o que se deve fazer. Ele sabe que a sua estratégia é complicada.

"A procrastinação estruturada exige certa dose de autoengano, porque costumamos perpetrar esquemas em pirâmide em nós mesmos", escreve ele. "Precisamos ser capazes de reconhecer e assumir tarefas de valor superdimensionado e prazos irreais para acreditar que essas tarefas são importantes e urgentes".

Felizmente, observa ele, os procrastinadores podem ser ótimos ao se autoenganar, uma habilidade também observada por Steel.

"A procrastinação produtiva envolve um pouco de faz-de-conta. É como adiantar o relógio em cinco minutos em relação ao horário real", disse-me ele. "Nós sabemos que fomos nós que adiantamos o ponteiro, mas ainda assim fingimos que isso não aconteceu".

"Nem todo mundo é capaz de fazer isso. Acho que é algo que funciona melhor para quem sente culpa por sua procrastinação e precisa amenizar isso. Se você é do tipo de pessoa que fica fazendo faxina no quarto na véspera de uma prova, é provável que isso funcione".

No mínimo, você pode usar essa estratégia para parar de sentir tão mal quanto a um problema que todo mundo enfrenta. Ela é certamente mais sã do que o lugar-comum de nunca deixar para amanhã o que se pode fazer hoje. Seguindo essa lógica, nunca pararíamos de trabalhar --há sempre algo que pode ser feito hoje.

É melhor seguir a versão reescrita por Perry: nunca cumpra hoje uma tarefa que pode desaparecer amanhã.



Cá entre nós, a procrastinação básica (e bastante negativa) hoje funciona assim:






quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Garoto de 10 anos mata pai neonazista: quem é o culpado?

Uma sociedade enferma é capaz de produzir as maiores aberrações. E elas geralmente começam com pequenos incidentes, restritos a uma família desajustada ou um pequeno grupo social.

Por isso o mundo tem sua atenção chamada a um patricídio ocorrido em circunstâncias bastante improváveis num canto isolado de um país supostamente avançado.

Ali, um menino de 10 anos mata o pai neonazista, que o havia doutrinado dentro dos princípios de fascismo, violência e racismo que caracterizam o seu discurso.

Ao contrário do Brasil, nos Estados Unidos a legislação é até certo ponto omissa sobre maioridade penal. O juiz decidirá em cada caso se a criança ou adolescente tinha mínimas condições mentais e emocionais de avaliar a gravidade do seu ato infrator.

Como ficamos, então, diante de um garoto de 10 anos, exposto a uma ideologia deletéria desde a mais tenra idade, que mata o pai nazista? Como julgar a sua culpabilidade?

Bondade, maldade, vida, morte, como é que essa pequena cabeça foi formada? É desse dilema que trata a matéria abaixo, publicada no Terra:

Inicia nos EUA julgamento de menino que matou pai neonazista

Um menino de 12 anos de idade que matou seu pai, um líder de um grupo neonazista nos Estados Unidos, está sendo julgado a partir desta terça-feira no Estado da Califórnia. O incidente aconteceu em maio do ano passado, quando a criança ainda tinha 10 anos de idade.

Na madrugada do dia 1º, o menino foi à sala de estar, onde seu pai dormia, e o matou a tiros. Desde então, a criança está em um centro de detenção para menores aguardando o julgamento. O caso está provocando polêmica nos Estados Unidos, pois os juízes terão de decidir se, ao ser criado por um homem que pregava o nazismo, o jovem conseguia discernir entre o bem e o mal.

"Os fatos levantam diversas questões mais filosóficas que, dependendo de como forem levadas em consideração pelo juiz, poderão determinar o resultado do julgamento", afirma o jornal americano The New York Times. "Entre elas: se racismo virulento pode ser considerado uma espécie de abuso; se uma criança exposta a tanto ódio pode entender a diferença entre o certo e o errado, e se alguém que cresce em circunstâncias tão tóxicas pode ser culpada por querer uma saída".

Discussão e morte

O homem morto tinha 32 anos e era encanador, mas estava desempregado. Ele liderava na costa oeste o grupo neonazista Movimento Nacional Socialista, a maior organização do tipo nos Estados Unidos, com 400 integrantes em 32 Estados.

No dia anterior à sua morte, ele organizou um encontro em sua casa para discutir um plano para formar esquadrões armados na fronteira dos Estados Unidos com o México. Um repórter do New York Times, que escrevia um artigo sobre grupos neonazistas, esteve presente no encontro e testemunhou uma discussão do pai com o filho.

O promotor Michael Soccio diz que o filho foi espancado pelo pai após o encontro, e que a criança teria dito a um familiar que mataria seu pai. Soccio disse ao jornal americano que as ações do menino não têm nenhuma relação com nazismo, e que o caso é apenas um assassinato. "Se isso tivesse acontecido com qualquer pessoa, não haveria dúvida de que se trata de um assassinato. Foi planejado. Foi premeditado. Foi levado a cabo a sangue frio. É um assassinato", diz o promotor.

Já os advogados de defesa defendem que o menino tem problemas psicológicos agravados por sua exposição à ideologia nazista e às surras que recebia de tempos em tempos. "Este menino está condicionado à violência. É preciso se perguntar: este menino realmente sabia que esse ato era equivocado, baseado em todas essas coisas? Ele achou que estava fazendo o correto", disse o advogado Matthew Hardy.



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