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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Advogado diz que Arruda está sendo crucificado

Não se discute que o advogado tem o direito de defender seu cliente, independentemente do crápula que está lhe pagando, mas tem que tomar um certo cuidado na sua argumentação, para não cair no ridículo de fazer declarações absurdas, como a noticiada pelo site G1:

O advogado do governador afastado José Roberto Arruda, Nélio Machado, disse que ainda não teve acesso integral ao inquérito e que só vai comentar a ação penal quando ela estiver instalada, e não as investigações.

Nélio Machado disse ainda que existe uma “perseguição ao governador” e que ele está sendo “crucificado”. A Globo News não conseguiu falar com o advogado do governador em exercício, Paulo Octávio.

Já a assessoria da Polícia Civil disse que os inquéritos correm em segredo de Justiça e que as conclusões obtidas até agora foram encaminhadas ao Ministério Público e ao Judiciário. A assessoria também negou ter qualquer conhecimento sobre vazamentos nas investigações.

Aliás, se é que vivemos num Estado de Direito, como dizem os juristas que elogiam o sistema judicial brasileiro, está mais do que na hora de garantir que ele funcione honestamente. Uma das medidas que poderiam ser adotadas para tornar o país mais justo e legal seria saber exatamente de onde vem o dinheiro que paga os advogados dos corruptos. Não há dúvida de que recebem muito dinheiro, mas a pergunta que não quer calar é: a origem deste dinheiro é lícita? Ou é o dinheiro roubado que financia este pagamento? Afinal, o seu direito de defesa deve ser garantido, como manda a Constituição, mas que seja ele próprio que pague, e não os cofres públicos que arrombou.

Se o Brasil fosse um país sério, deveria ser criado um mecanismo legal que deixasse essa questão transparente, como impor ao investigado o ônus de comprovar a origem lícita do dinheiro com o qual está pagando seu advogado, dinheiro este que deveria ser depositado em juízo até que se comprovasse efetivamente que ele não foi obtido ilegalmente. Talvez - com esta obrigação - a sociedade fosse brindada com dois benefícios: o advogado pensaria duas vezes antes de assumir um caso envolvendo corruptos, e ele seria o maior interessado em que a Justiça fosse rápida, mas - por enquanto - este é só o delírio de um cidadão indignado.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Pequenos delírios racionais



Sempre que alguém quer criticar a idéia de Deus, ou a religião, ou as crenças transcendentais em geral, é muito comum o apelo à racionalidade, como se ela fosse a solução para todos os males e a única forma de vida possível no planeta. Não raras vezes, se alega que podemos ser felizes apenas respeitando o próximo e as leis, que podemos aprender com os nossos próprios erros, que devemos amar e nos deixar ser amados, enfim, todo um discurso muito bonito, mas muito mais emocional do que racional, o que não deixa de ser contraditório. Afinal, evoca-se a emoção para enaltecer a razão.

Entretanto, os racionais que me desculpem, mas irracional é imaginar uma sociedade perfeita como esta que os racionalistas emotivos propõem. É belíssimo imaginar um mundo livre e harmonioso, mas, convenhamos, essa sociedade não existe, nunca existiu e provavelmente jamais existirá neste mundo. Basta verificar o argumento do "respeito à lei". A própria noção de lei depende de um consenso moral, e a criação de uma entidade imaginária (o "Leviatã" de Thomas Hobbes), o Estado, que regule a todos. Ora, a própria noção de Estado é, portanto, em sua origem, irracional, por mais racionais que sejam os desejos de institui-lo. Entretanto, com exceção dos anarquistas mais puristas, parece que a idéia de Estado é aceita por todos como absolutamente natural, sendo que - pasmem! - se trata de uma ficção jurídica do séc. XVIII. Nem por isso, saímos por aí chamando todos os cidadãos de irracionais por aceitarem obedecer as leis de um Estado.

Além disso, quem é que vai definir o que é erro? Erro é apenas a desobediência à lei ou está ligado a valores morais? Quem é que vai definir o que é amor? Não é o amor indefinível, apenas experimentado ou "experimentável"? Quem é que vai obrigar o outro a "se deixar ser amado"? Não tem ele o direito de recolher-se em seu exílio auto-imposto? Não são - tudo isso - valores subjetivos, que dependem das circunstâncias de cada pessoa? Então, ninguém é obrigado a crer em nada, mas deixe que creiam, que não queiram ser amados, que errem à vontade, deixe que sejam apenas humanos, demasiadamente humanos, mesmo naquilo que transcende a humanidade.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Grandes delírios eleitoreiros

Soninha Francine, não contente em ser péssima apresentadora de televisão e crer-se comentarista de futebol, parece querer empobrecer ainda mais as idéias políticas. Em entrevista ao UOL (clique aqui para ler), a atual vereadora e candidata a prefeita pelo PPS propõe instalar o pedágio urbano na cidade de São Paulo, sob o singelo argumento de que se trata de uma correção de injustiças, "porque todo mundo paga pelo efeito do automóvel na cidade, a construção de vias, os custos da poluição e do estresse". Primeiramente, se a idéia principal da nobre candidata é essa, já estamos diante de um caso de alguém que não tem propostas nem a mínima idéia do que seja um programa de governo para a cidade. A exemplo de César Maia, prefeito do Rio, quer apenas lançar factóides na mídia. Em segundo lugar, a demagogia de Soninha se assemelha à de Mário Covas quando defendia os pedágios nas marginais da Rodovia Castello Branco em Alphaville. Dizia o finado governador que "quem paga pedágio é rico", esquecendo-se (convenientemente) de que pobre também passa por lá, e até a sua passagem de ônibus é majorada pelos custos adicionais que ele dizia infligir aos ricos. Estes, por sua vez, repassam aos pobres os seus custos, e todo caminhão de chuchu que passe por esse pedágio vai repassar aos fregueses dos feirantes o pedágio do Covas (e da Soninha também, se ela tivesse alguma esperança de vencer a eleição), transformando tudo num passe-e-repasse sem fim.

Algo, entretanto, não deve nos escapar: toda vez que vemos algum político, seja ele governante ou candidato, dizer que vai instalar pedágios, ou adicionar algum encargo público aos nossos já combalidos bolsos, ele está confessando que não sabe administrar a coisa pública, nem vai coibir a corrupção. O que ele (ou ela) está dizendo, com outras palavras, é o seguinte: "olha, gente, eu não vou impedir a roubalheira nos cofres públicos, pois não sei administrar nem ter idéias ou impor respeito; então, quem vai pagar o pato é o povão, ou seja, vocês!". E dá-lhe outra taxa, tarifa ou imposto. E vamos nos conformando, achando que isto é normal. A cada dia que passa, valores supremos como ética, decência, honestidade, vão se parecendo mais e mais com histórias da carochinha, recordações esmaecidas de um passado que não existe mais. Pelo jeito, Soninha quer adaptar a frase originalmente atribuída a Osvaldo Aranha, transformando São Paulo num deserto de carros, mulheres e idéias.

Veja também: Um basta! aos pedágios abusivos

Pequenos delírios olímpicos

Faltam alguns dias para mais uma maratona começar, a da paciência para agüentar mais uma Olimpíada. Ao contrário do espírito natalino, de freqüência anual, o espírito olímpico reaparece de 4 em 4 anos, e aí somos expostos a uma overdose de histórias supostamente inspiradoras sobre pessoas que vencem seus próprios limites, e alcançam a tão sonhada medalha dourada, contra tudo e contra todos. Nada contra os atletas que vivem em função desta meta; o problema é a embalagem em que esses sonhos são acondicionados. Certamente houve espírito olímpico um dia, na Grécia Antiga, quando não havia ninguém querendo vender refrigerantes nem sanduíches. O Barão de Coubertin deve ter tido os motivos mais nobres para restabelecer os Jogos Olímpicos na era moderna. Só que o tal espírito olímpico foi sendo morto aos poucos, consumido pela ideologia, pelo marketing e pela química, e talvez ele hoje sobreviva apenas no coração dos atletas que preservam esta santa ingenuidade alentada pelo lema do barão, "o importante é competir", hoje em desuso, já que vivemos em tempos em que "os fins justificam os meios". Afinal, as Olimpíadas são sustentadas por patrocínios gigantescos das empresas americanas, na sua maioria, que garantem o retorno de subsídios ao esporte dos EUA, ao contrário do que manda a lógica desportiva, ou seja, que os países mais carentes possam preparar melhor seus atletas para garantir algum nível de competitividade. Entretanto, o dinheiro destinado a esses países é, muitas vezes, aproveitado por outros "atletas" espertalhões, recordistas em fazê-lo desaparecer.

Houve tempo em que os Jogos Olímpicos eram bem mais ideológicos, na famosa guerra fria entre o mundo capitalista e o comunista. Até hoje a imprensa diz que o Brasil nunca ganhou a medalha de ouro no futebol, mas convenientemente se esquece de dizer que por décadas os países comunistas competiram com seus times principais, enquanto os capitalistas não podiam fazer isso, devido a um espírito amadorista (filho do espírito olímpico) que dizia que atletas profissionais não podiam participar dos Jogos, onde o futebol era um jogo de cartas marcadas. Os boicotes às Olimpíadas de Moscou - 1980 e de Los Angeles – 1984 mostram como a política contaminou o tal espírito olímpico. O marketing se encarregou de contaminar os Jogos de Atlanta - 1996, que deveriam ter sido destinados a Atenas, pelo centenário da 1ª Olimpíada da era moderna (1896). Não por acaso, Atlanta é sede de grandes corporações americanas patrocinadoras do Comitê Olímpico Internacional. Na época, a programação das competições foi muito criticada, pois os interesses das televisões americanas impuseram que as disputas que envolviam atletas masculinos fossem exibidas no horário americano da tarde, para agradar as donas-de-casa do país. Além da ideologia e do marketing, o terceiro monstro que ajudou a devorar o espírito olímpico foi a química, muito em decorrência dos dois primeiros. Afinal, por muitos anos, a Alemanha Oriental dopou seus atletas (principalmente as mulheres) para promover sua ideologia. E muitos atletas americanos, como Marion Jones, se doparam para conseguir os contratos milionários com seus marketeiros. Então, mais do que recordes, o espírito olímpico é que foi pulverizado nesses anos todos. Talvez tenha ido embora com o ursinho Misha em 1980, em sua viagem com balões à la Padre Aldenir.

Agora, nos resta sermos torturados por duas semanas inteiras de patriotadas de Galvão Bueno, poemas lacrimosos sobre o nada - à la Lya Luft - de Pedro Bial, repórteres da Globo tentando produzir emoção com os acontecimentos mais banais. Invadiremos as próximas madrugadas esperando que algum brazuka ganhe alguma coisa, e, durante o dia, dormiremos na rua e no trabalho, embalando os nossos sonhos de um mundo melhor. Se bem que a paz mundial parece ser monopólio dos concursos de miss.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Pequenos delírios ideológicos

No Forum Atos, estamos debatendo sobre essa circunstância atual, bem pós-moderna, de ateus defenderem uma ideologia de direita, contra todo o passado esquerdista do grupo. 

O Jeanioz rebateu dizendo que "os ateus nunca vão se unir sob uma mesma ideologia (seja de esquerda, de centro ou de direita). É um dos efeitos colaterais do pensamento-livre."

Respondi que não estou falando de união de ideologia, até porque "pensamento livre" não funciona só para ateu, mas para todo ser humano. 

Aliás, "pensamento livre" é mais um daqueles jargões que todo mundo fala e ninguém define, porque é indefinível por natureza. O dia em que o definirem, ele será escravizado.

O mundo das idéias e dos confrontos ideológicos, tais como os conhecemos hoje, é produto do século XIX, e, ao que parece, é um artigo em extinção. 

Ideologia é um conceito do século XIX, também, e esses conceitos de "direita" e "esquerda" também são frutos da Revolução Francesa, assim como o Terceiro Mundo, ou Terceiro Estado, abaixo da nobreza e do clero (os dois primeiros Estados pré-Revolução). 

Até então, e por muito tempo depois, a realeza sempre esteve ligada à Igreja, e o rompimento com a Igreja foi uma das conseqüências da Revolução Francesa. 

O ateísmo sempre existiu, mas ganhou força a partir de então, seja com o materialismo dialético de Marx-Engels, seja com as muitas tendências de esquerda que se formara. 

O próprio conceito (também vago) de humanismo sempre se identificou com as propostas de esquerda, proletárias, socialistas e anti-capitalistas. 

A Guerra Civil espanhola, da década de 1930, é um exemplo triste de como essas forças se confrontaram. De um lado, a direita religiosa capitaneada por Franco e a esquerda materialista espanhola, ajudada pelos voluntários esquerdistas do mundo todo. 

É claro que havia gatos pingados de todos os matizes envolvidos em ambos os lados, mas foi nesse contexto que surgiu a Opus Dei, de direita, contra os ateus comunistas. 

Este "alistamento compulsório" de religiosos na direita e de ateus na esquerda perdurou por quase todo o século XX, e hoje eu confesso que fico tremendamente surpreso ao ver como existem ateus defendendo posições que ficariam muito mais "adequadas" na boca da Opus Dei.

domingo, 25 de maio de 2008

Pequenos delírios religiosos

Dentre as muitas características do cristianismo, uma das que mais se destacam e são menos percebidas é a sua permanência ou, se preferirmos outro nome, a sua perpetuidade. Desde os tempos de Jesus, a Sua mensagem vem se propagando, sujeita a todos os tipos de abusos, desvios e intempéries. Apesar dos muitos erros que foram cometidos em seu nome, o cristianismo permanece já há quase 2000 anos influenciando o mundo. A história da Igreja cristã é repleta de idas e vindas, altos e baixos, momentos melhores e piores, mas ela se mantém, permanece e se perpetua, sempre acompanhando a própria história da humanidade neste planeta. Assim, a Igreja cristã se estabeleceu, a princípio, dentro das fronteiras do Império Romano. A nossa moderna necessidade de racionalização das idéias e dos fatos, esse misterioso poder de síntese que o homem atual reclama, faz com que muita gente imagine que foi um início tranqüilo, e que num estalar de dedos lá estava a Igreja cristã instalada no mundo romano, ignorando as extremas dificuldades que os primeiros cristãos enfrentaram para levar sua mensagem ao mundo.

Eles não eram poderosos nem tinham qualquer influência social, cultural ou econômica, mas a mensagem do evangelho, que levaram aos mais distantes rincões do mundo conhecido de então, teve um impacto tal que a História não pôde mais ser contada sem levar em consideração a presença decisiva de um certo carpinteiro nascido em Belém e morto em Jerusalém, que havia ressuscitado e animado seus discípulos a compartilharem o que haviam visto e ouvido. Aqui há mais um perigo de racionalização: imaginar que os discípulos decidiram começar a contar o calendário a partir de Jesus numa reunião qualquer em Jerusalém naqueles dias. Como o próprio evangelho relata (Atos 1:7), eles não estavam preocupados com tempos e estações, mas havia uma necessidade premente de levar as boas novas ao mundo, e eles não mediram riscos nem calcularam o preço dessa empreitada, apenas pregaram o evangelho e deixaram os resultados com Deus.

Nos três séculos seguintes, após muita perseguição, o cristianismo venceu o Império Romano, absorveu-o (ou foi absorvido por ele) e institucionalizou-se. Mais 3 séculos e a invocação de supremacia hierárquica pela Igreja Romana passou a prevalecer, inobstante a resistência da Igreja Oriental (hoje conhecida por “Ortodoxa”), até o cisma do ano 1.054, em que o Papa e o Patriarca de Constantinopla se excomungaram mutuamente. Muito da mensagem inicial do evangelho se havia perdido no meio de tantas intrigas e vaidades, mas o, digamos, “fio condutor” do cristianismo continuava lá, latente e presente na vida e no trabalho de muitos discípulos que preservaram a sua essência em meio ao caos eclesiástico.

A partir do século VII, quando nascia na Arábia, o fator islâmico foi adicionado a essa equação. Dois séculos depois já havia se expandido por boa parte da Ásia, pelo Norte da África, chegando à Península Ibérica, herdando a maior parte da Igreja Cristã dessas regiões, gerando uma confrontação que levou às guerras religiosas conhecidas como Cruzadas, que serviu a interesses escusos e consumiu boa parte dos recursos e das idéias dos cristãos de então. Necessário dizer, entretanto, que esses conflitos atendiam a necessidades muito mais políticas e econômicas, sendo a religião apenas o pano de fundo do enfrentamento. Apesar das conquistas, o Islã tinha uma certa tolerância para com cristãos e judeus (os “adeptos do Livro”), como Sevilha e Toledo atestam e o profeta dizia: "E não disputeis com os adeptos do Livro, senão da melhor forma, exceto com os iníquos, dentre eles. Dizei-lhes: cremos no que nos foi revelado, assim no que vos foi revelado antes; nosso Deus e o vosso Deus são Um e a Ele nos submetemos" (Surata 29:46) e "pergunta-lhes: discutireis conosco sobre Deus, apesar de ser nosso e o vosso Senhor? Somos responsáveis por nossas ações assim como vós por vossas, e somos sinceros para com Ele" (Surata 2:139).

A coexistência das três grandes religiões floresceu pacificamente na Espanha moura, enquanto a vitória e unificação da Espanha católica expulsou quem não era cristão. Ainda que este período da História tenha passado à posteridade como a Idade das Trevas, a verdade é que foi uma era de profundo intercâmbio de idéias e produção intelectual, estabelecendo as bases e as condições do mundo moderno em que vivemos. A ciência, tal como a conhecemos hoje, não existiria não fossem as obras pensadas e escritas dentro dos mosteiros, como a lógica aristotélica ressuscitada no Ocidente por São Tomás de Aquino, que, curiosamente, havia se inspirado no trabalho do filósofo muçulmano Averrois, nascido em Córdoba.

No fim do século XV, inaugurou-se o período das grandes navegações e dos descobrimentos de novas terras. O mundo não se resumia mais aos continentes então conhecidos, África, Ásia e Europa. Havia um mundo novo, selvagem, inóspito, desafiador, uma América com povos misteriosos e, muitas vezes, mais evoluídos, a descobrir. Os oceanos domados abriam novas e infinitas possibilidades de comunicação. Aquilo que a Internet representa para os nossos dias, as navegações representaram para aquela época, talvez numa proporção muito maior. O Eldorado dos povos ameríndios foi conquistado (e massacrado) em nome de uma pretensa “catequese”, mas o choque do europeu com o mundo novo o convenceu de que não podia mais explicar o mundo a partir de um mosteiro nem regido a partir da cátedra romana.

Entretanto, a mensagem cristã estava lá, intocada, no meio de tantas crises seculares. O totalitarismo e o autoritarismo não podiam mais segurá-la, e a Reforma Protestante foi a conseqüência natural desse processo, que levou à Contra-Reforma, em que a própria Igreja Romana percebeu a necessidade de reformar-se para não sucumbir. Pela primeira vez, a autoridade de Roma havia sido contestada de forma contundente, e grande parte da sua influência (e de seu poder político) na Europa Ocidental havia se evaporado. Dentro desse período de relativa liberdade intelectual, longe dos tribunais da Inquisição, muito do pensamento moderno foi formado, estabelecendo as bases do que seria a modernidade. Após o forte anti-clericalismo dos séculos XVIII e XIX, do qual a Revolução Francesa e o surgimento do marxismo são os maiores expoentes, a Igreja começou a abrir-se para o mundo, procurando preservar, à sua maneira, aquilo que entendia como essência da mensagem cristã.

O século XX, com as suas Grandes Guerras, suas batalhas ideológicas e a explosão da tecnologia, encontrou um ser humano que, por um lado, estava chocado pela barbárie nazista e pelo holocausto judeu, e, por outro, sedento de novas descobertas e realizações. As novas e múltiplas possibilidades da comunicação e a ansiedade pelo novo geraram um inconformismo com a tradição, aquilo que era considerado “antigo”, e havia ainda a força do utilitarismo, não tão visível, que obrigava (como ainda obriga) o homem a maximizar o seu prazer, o seu lucro, a sua vida, com o mínimo de esforço possível. Os princípios éticos da religião passam a ser vistos como algo ultrapassado, um empecilho para que a modernidade se estabeleça e se desenvolva.

Diante de tais adversários, o cristianismo não pôde ficar imune. O século XX marca a propagação de uma série de tendências doutrinárias e teológicas dentro das Igrejas estabelecidas, em que a ansiedade utilitária por resultados práticos e rápidos parece ser a tônica. Pelo menos em muitos púlpitos, a paciência cristã é vencida pelo imediatismo. A par disso, toda forma de opressão tem que ser vencida. É preciso liberar a mulher, o negro, o pobre, o gay. A queda do muro de Berlim marca o que, para muitos, foi o “fim da História”, a vitória final do capitalismo e do liberalismo. Como não podia ser diferente, boa parte da Igreja cristã, já convulsionada pelo turbilhão de idéias conflitantes do século passado, se torna refém desse movimento, e procura desesperadamente encontrar meios de justificar sua adesão constrangida aos novos ventos utilitários.

Desta forma, modismos são criados, impostos e descartados, trocados pela mais nova tendência. A influência norte-americana, responsável em boa parte pela evangelização protestante do Brasil na virada do século XIX para o XX, se faz notar cada vez mais. Afinal, junto com cada nova tendência vem uma batelada de novos produtos que precisam ser comercializados. Basta uma “palavra profética” dita por alguém - sabe-se lá onde - que bibliotecas inteiras são reduzidas a pó, para que sejam substituídas por novas bibliotecas obviamente compradas a preço de ouro. Discursos conflitantes se repetem e se sucedem, aquilo que o Espírito Santo disse ontem não vale mais para hoje, e é provável que o que vale hoje não valha para amanhã. Se alguém não está na “visão”, está fora dela, e, portanto, deve ser descartado como imprestável. Qualquer semelhança com o consumismo moderno, infelizmente, não é mera coincidência.

Inimigos fictícios de ocasião são criados para justificar a pregação atual. Conforme se desgastam, são trocados por novos personagens e entidades de ficção. O inimigo oficial continua sendo o diabo, é verdade, mas ele recebe novos nomes e se traveste conforme a ocasião se apresenta. O fio condutor do cristianismo, a longa tradição apostólica, mantida inclusive pela Reforma Protestante em seu respeito aos Credos da Igreja Primitiva, precisa ser afastado. O evangelho da graça recebido dos apóstolos não basta mais. Novos inimigos são escolhidos conforme a ocasião. E, ao que parece, o inimigo atual se chama “religiosidade”.

Muitas igrejas hoje entendem que o inimigo a ser batido é a “religiosidade”, ou seja, aqueles que se preocupam em manter viva a essência do evangelho, a graça salvífica e redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo, que se revela simples e acessível ao ser humano, seja ele do século III ou do XXI. Não, isso não basta, dizem os novos pregadores do apocalipse. Curiosamente, dizendo-se “apóstolos”, negam a própria tradição apostólica. Dizendo-se resgatadores da verdade evangélica, se valem de novidades rituais e mercadológicas de ocasião. É preciso submeter-se aos seus complicados rituais e repetir os seus chavões, que querem dizer tudo, mas não dizem nada. Já que aquilo que eles chamam de “religiosidade” se preocupa com a essência do evangelho, nela não há lugar para correntes de prosperidade, novos apostolados, estranhas unções e atividades exóticas afins.

Chegamos, portanto, a uma nova fase, uma espécie de “inquisição às avessas”. Se o irmão ou a irmã se preocupam em estudar a Palavra, para conferir nela se os seus líderes estão realmente pregando a Verdade, logo eles são chamados de “religiosos” e devem ser combatidos e exterminados. O mesmo ocorre se eles ousam questionar os seus líderes e se preocupam em manter-se conectados à essência do evangelho, tal como nos foi legado ao longo de 2.000 anos de História da Igreja Cristã, e não se convertem ao novo “evangelho”, finalmente revelado aos líderes iluminados nos últimos 20 anos, os novos gnósticos portadores de uma revelação especial. O inferno não tolera a Sabedoria.

O tristemente curioso nisso tudo é que se esquece facilmente de que Jesus foi um bom religioso. Paulo se orgulhava de ser um fariseu no melhor sentido da palavra (Atos 26:5), hoje tão depreciada. Era aos religiosos que o evangelho era pregado inicialmente (Atos 2:5 e 13:43) nas reuniões festivas e sinagogas, e a palavra “religioso” aqui era usada no melhor sentido, exatamente para designar quem estava interessado em aprender e seguir os ensinamentos do Senhor. Para Tiago, “a religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo” (Tiago 1:27), mas provavelmente ele seria expulso da Igreja se dissesse uma coisa dessas em pleno século XXI, já que a palavra “religião” foi banida de muitos púlpitos por ser a nova inimiga de plantão.

Entretanto, outro fenômeno esvazia ainda mais o discurso da caça aos “religiosos”. Afinal, quem é que define o que é “religiosidade”? Atacá-la também não é outra forma de religião? O também tristemente curioso é que quem inicia essas campanhas anti-religiosas tem uma série de práticas muito mais religiosas, como o próprio nome “campanha” que faz tanto sucesso no meio gospel atual. O discurso anti-religioso é só mais uma sub-espécie (degenerada) do discurso religioso. Simples assim.

É certo que, num futuro próximo, a “religiosidade”, tal como é vista por alguns pregadores, deixará de ser a inimiga e novos espantalhos serão erigidos em seu lugar, uma espécie de “vodus evangélicos” que deverão ser alfinetados de todas as maneiras possíveis até que se esgotem e sejam novamente substituídos pelo mais novo vilão do imaginário “gospel”. Entretanto, o estrago já estará consumado na vida de muitas pessoas que foram atraídas por essa pregação perniciosa, que, conforme Paulo já dizia (2 Coríntios 11:3) e Davi já ensinava (Salmo 51:17), não consegue se contentar com a simplicidade de uma devoção sincera de um coração contrito.

Àqueles que foram tachados de “religiosos”, não resta ou alternativa senão manterem-se fiéis à sã doutrina. No meio de tanta ansiedade gerada pelo consumismo moderno, dentro e fora das igrejas, religiosos de todo o mundo, uni-vos! O melhor a fazer é continuar crendo no que Jesus disse: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mateus 11:29).
É melhor ser religioso no melhor sentido do termo, do que atacar a religiosidade, mas viver dela.


P.S.: Recomendo enfaticamente a leitura do artigo "Será que a religião é tão problemática como nós pensamos que é?", do blog Despertai, Bereanos!, do meu amigo e irmão Vítor Grando.

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