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quinta-feira, 4 de maio de 2017

Cresce o número de padres propensos à depressão e ao suicídio


A informação foi publicada na BBC Brasil:

Depressão no altar: quando padres e sacerdotes precisam de ajuda

André Bernardo

No último dia 16 de novembro, o padre Rosalino Santos, de 34 anos, publicou no Facebook uma foto de quando era garoto.

O pároco da igreja de São Bartolomeu, em Corumbá (MS), parecia triste. Escreveu frases soltas na legenda, como "Dei o meu melhor" e "Me ilumine, Senhor".

O que parecia ser um desabafo se tornou um bilhete de despedida. Dois dias depois, o corpo do sacerdote foi encontrado, enforcado, dentro de casa.

O suicídio do padre Rosalino não foi um caso isolado. Oito dias antes, o padre Ligivaldo dos Santos, da paróquia Senhor da Paz, em Salvador (BA), já tinha colocado ponto final em sua história. Aos 37 anos, atirou-se de um viaduto.

Doze dias depois, outro caso. Pela terceira vez em menos de 15 dias, um sacerdote encerrava a própria vida. Renildo Andrade Maia, de 31 anos, era pároco da igreja de Jesus Operário, em Contagem (MG).

"A vida religiosa não dá superpoderes aos padres. Pelo contrário. Eles são tão falíveis quanto qualquer um de nós", diz o psicólogo Ênio Pinto, autor do livro Os Padres em Psicoterapia (editora Ideias e Letras).

"Em muitos casos, a fé pode não ser forte o suficiente para superar momentos difíceis", afirma Pinto, que atua há 17 anos no Instituto Terapêutico Acolher, em São Paulo (SP), voltado ao atendimento psicoterápico de padres, freiras e leigos em serviço à Igreja.

Desde a fundação, em 2000, o instituto estima ter atendido cerca de 3,7 mil pacientes, com média de permanência de seis meses a um ano.

Estresse ocupacional

O eventual comportamento suicida de sacerdotes intriga clérigos e terapeutas. Para especialistas consultados pela reportagem, há vários possíveis fatores: excesso de trabalho, falta de lazer, perda da motivação.

"O grau de exigência da Igreja é muito grande. Espera-se que o padre seja, no mínimo, modelo de virtude e santidade", afirma o psicólogo William Pereira, autor do livro Sofrimento Psíquico dos Presbíteros (editora Vozes).

"Qualquer deslize, por menor que seja, vira alvo de crítica e julgamento. Por medo, culpa ou vergonha, muitos preferem se matar a pedir ajuda", diz.

Pesquisa de 2008 da Isma Brasil, organização de pesquisa e tratamento do estresse, apontou que a vida sacerdotal é uma das profissões mais estressantes.

Naquele ano, 448 entre 1,6 mil padres e freiras entrevistados (28%) se sentiam "emocionalmente exaustos". O percentual de clérigos nessa situação era superior ao de policiais (26%), executivos (20%) e motoristas de ônibus (15%).

A psicóloga Ana Maria Rossi, que coordenou o estudo, afirma que padres diocesanos, que trabalham em paróquias, estão mais propensos a sofrer de estresse do que monges e frades que vivem reclusos.

"Um dos fatores mais estressantes da vida religiosa é a falta de privacidade. Não interessa se estão tristes, cansados ou doentes, padres têm que estar à disposição dos fieis 24 horas por dia, sete dias por semana."

Problemas terrenos

Em 8 de janeiro de 2008, o padre José Chitumba ingressou na fazenda Santa Rosa, em Garanhuns (PE), uma das unidades do projeto Fazenda da Esperança, de recuperação de dependentes químicos em mais de 15 países.

"Quando caí em depressão virei alcoólatra, pensei em suicídio, perdi o ânimo para rezar. Passei oito meses sem celebrar missa. Achei que aquela noite não teria fim", recorda Chitumba, de 62 anos, hoje pároco da Igreja de Santo Antônio, em Chiador (MG).

A vida sacerdotal é mais atribulada do que se costuma imaginar. Inclui celebração de batizados e casamentos, visita a doentes, sessões de confissão, aulas em universidades, presença em pastorais.

Dados de 2010 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ajudam a entender essa demanda: havia no Brasil naquele ano 22 mil padres para 123 milhões de católicos, uma média de um padre para cada 5,6 mil fiéis.

"Sobra trabalho e falta tempo. Se não tomar cuidado, o sacerdote negligencia sua espiritualidade e trabalha no piloto automático", adverte o padre Adalto Chitolina, um dos diretores do centro Âncora, casa de repouso em Pinhais (PR) que atende padres e freiras com diagnóstico de estresse, ansiedade ou depressão.

"Ao longo de 2016, nossa taxa de ocupação foi de 100%. Em alguns meses, tivemos lista de espera", afirma.

O padre Edson Barbosa, da paróquia Nossa Senhora das Graças, em Andradina (SP), foi um dos religiosos atendidos no centro paranaense.

Há dois anos, dormia pouco, comia mal, andava irritado. Mas o alarme soou quando começou a beber além da conta. Em julho de 2015, pediu dispensa de suas atividades paroquiais e passou três meses no centro Âncora, entre consultas médicas, palestras de nutrição e exercícios físicos.

"Não sei o que teria acontecido comigo se não tivesse dado essa parada. Demorei a perceber que não era super-herói", afirma. Sóbrio há um ano e nove meses, o padre, de 36 anos, trocou o álcool por caminhadas e trajetos diários de bicicleta.

Preocupação na cúpula

Reitor do seminário São José de Niterói, o padre Douglas Fontes diz estar atento à saúde mental dos colegas. Em pregações, costuma alertar os futuros sacerdotes para a necessidade de cuidarem mais de si mesmos.

"Jamais amaremos ao próximo se antes não amarmos a nós mesmos. E amar a si mesmo significa levar uma vida mais saudável. Tristes, cansados ou doentes não cumpriremos a missão que Deus nos confiou."

Dom Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre (RS) e presidente da comissão da CNBB que se ocupa da vida dos padres, diz que sacerdotes devem pedir ajuda ao bispo de sua diocese em caso de tensão psicológica ou esgotamento físicos.

"Os padres não estão sozinhos. Fazemos parte de uma família. E nesta família cabe ao bispo desempenhar o papel de pai e, como tal, zelar pelas necessidades dos filhos", afirma.

Outros locais do mundo também registram casos de padres com problemas psicológicos.

Uma pesquisa da Universidade de Salamanca, na Espanha, ouviu 881 sacerdotes de três países (México, Costa Rica e Porto Rico) e identificou incidência alta de transtornos relacionados à atividade.

"Três em cada cinco experimentavam graus médios ou avançados de burnout, a síndrome do esgotamento profissional", registrou a autora da pesquisa, Helena de Mézerville, no livro O Desgaste na Vida Sacerdotal (editora Paulus).

Na Itália, o burnout é conhecido por alguns sacerdotes como a "síndrome do bom samaritano desiludido".

Naturalmente, sacerdotes católicos não são os únicos sob risco.

"A natureza do trabalho é a mesma. Logo, estamos sujeitos aos mesmos riscos", avalia o rabino Michel Schlesinger, da Congregação Israelita Paulista (CIP). O sheik Ahmad Mazloum, do Centro Islâmico de Foz do Iguaçu (PR), faz coro.

"É preciso satisfazer, de maneira lícita e correta, as necessidades básicas do espírito, mente e corpo. Caso contrário, estaremos sempre em perigoso desequilíbrio", alerta.



quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Como a religiosidade influi nos tratamentos de saúde


Matéria publicada na Folha de S. Paulo:

Religião é benéfica para tratamento psiquiátrico, diz associação

CLÁUDIA COLLUCCI

"É mole? Vou ao médico tratar da depressão e ele me manda rezar!". A recomendação que gerou surpresa na médica e professora universitária Maria Inês Gomes, 67, agora tem aval da Associação Mundial de Psiquiatria.

No mês passado, a entidade aprovou documento declarando a importância de se incluir a espiritualidade no ensino, pesquisa e prática clínica da psiquiatria. A SBP (Sociedade Brasileira de Psiquiatria) ainda não se posicionou sobre o assunto.

A proposta, obviamente, não é "receitar" uma crença religiosa ao paciente, mas conversar sobre o assunto. O indexador de estudos científicos PubMed, do governo americano, lista mais de mil estudos sobre o tema.

Os recursos espirituais avaliados nesses trabalhos variam bastante, desde acreditar em Deus ou um poder superior, freqüentar alguma instituição religiosa ou mesmo participar de programas de meditação e de perdão espiritual, mas a grande maioria conclui que há correlação entre espiritualidade e bem-­estar.

O maior impacto positivo do envolvimento religioso na saúde mental é entre pessoas sob estresse ou em situações de fragilidade, como idosos, pessoas com deficiências e doenças clínicas.

Não se trata, claro, da prova científica da ação de Deus –uma hipótese dos pesquisadores é que religiosidade sirva, por exemplo, para reforçar laços sociais, reduzindo a incidência de solidão e depressão e amenizando o estresse causado por doenças ou perdas.

Três meta­-análises (revisões científicas) já realizadas sobre o tema indicam que, após controle de variáveis como estado de saúde da pessoa, a frequência a serviços religiosos esteve associada a um aumento médio 37% na probabilidade de sobrevida em doenças como o câncer. O desafio é entender exatamente como isso acontece.

Uma das explicações propostas é a ativação do chamado eixo "psiconeuroimunoendócrino", em que uma emoção positiva seria capaz de alterar a produção de hormônios que, por exemplo, reduziriam a pressão arterial.

"O impacto da religião e espiritualidade sobre a mortalidade tem se mostrado maior que a maioria das intervenções, como o tratamento medicamentoso da hipertensão arterial ou o uso de estatinas", afirma Alexander Moreira-Almeida, professor de psiquiatria da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Um outro estudo recente publicado na revista "Cancer", da Sociedade Americana de Câncer, revisou dados obtidos com mais de 44 mil pacientes e concluiu que são os aspectos emotivos da espiritualidade e da religiosidade aqueles que mais trazem benefícios para a saúde física e mental de pacientes com a doença. O mesmo não acontece quando o paciente se dedica a meramente estudar ou pesquisar sobre a religião.

EFEITO NEGATIVO

Ao mesmo tempo, segundo Almeida, as crenças religiosas também podem atuar de modo negativo, quando enfatizam a culpa e a aceitação acrítica de ideias ou transferem responsabilidades.

"Piores desfechos em saúde são observados quando há uma ênfase na culpa, punição, intolerância, abandono de tratamentos médicos. A existência de conflitos religiosos internos ao indivíduo ou em relação à sua comunidade religiosa também está associada a piores indicadores de saúde."

Por essa razão, é importante que os profissionais tenham em conta a dupla natureza da religião e espiritualidade, segundo Kenneth Pargament, professor de psicologia clínica na Bowling Green State University (Ohio).

"Elas [religião e espiritualidade] podem ser recursos vitais para a saúde e bem­estar, mas eles também podem ser fontes de perigo", diz ele, que esteve no Brasil neste mês falando sobre o assunto no início do mês no Congresso Brasileiro de Psiquiatria.

Ele lembra que, por muitos anos, psicólogos e psiquiatras evitaram a religião e a espiritualidade na prática clínica. Entre as razões, estaria a antipatia pela religião que sempre houve entre os ícones da psicologia, como Sigmund Freud.

Para Pargament, é importante a compreensão de que a religião e a espiritualidade são entrelaçadas no comportamento humano e que os profissionais precisam estar preparados para avaliar e abordar questões que surjam no tratamento.

"Para muitas pessoas, a religião e a espiritualidade são recursos-­chave que podem facilitar o seu crescimento. Para outros, são fontes de problemas que precisam ser abordadas durante o tratamento. Isso precisa ser compreendidopelos profissionais de saúde."

Entre as técnicas que estão sendo estudadas para essa abordagem estão programas, por exemplo, para ajudar pessoas divorciadas a lidar com amargura e raiva, ou vítimas de abuso sexual e mulheres com distúrbios alimentares. ­

ESTUDOS SOBRE FÉ, ESPIRITUALIDADE E SAÚDE

Religião, espiritualidade e saúde física em pacientes com câncer
- Publicação: 2015, no periódico "Cancer"
- Resumo: A meta­-análise congregou resultados obtidos com mais de 32 mil pacientes para concluir que a saúde física dos pacientes com câncer melhora com a experiência de religiosidade ou de espiritualidade. Isso ocorre mais pela relação emotiva do que por aquela mais racional com a religião/espiritualidade.

Caminhos distintos entre Religiosidade, Espiritualidade e Saúde
- Publicação: 2014, no periódico "Circulation"
- Resumo: Os autores do estudo propõem separar os efeitos na saúde física que poderiam ser atribuídos à religião e os que poderiam ser atribuídos à espiritualidade. A proposta é que a religião poderia fomentar hábitos saudáveis, enquanto a espiritualidade traria melhor equilíbrio emocional

Doenças mentais, religião e espiritualidade
- Publicação: 2013, no periódico "Journal of Religion and Health"
- Resumo: A meta­-análise analisou 43 estudos do período entre 1990 e 2010 e viu que 72% deles mostram resultados positivos entre a dimensão espiritual/religiosa e a saúde física, especialmente para demência, depressão e dependência química. A Esquizofrenia e o transtorno bipolar não são afetados



domingo, 11 de outubro de 2015

Encontrar seus amigos pessoalmente ajuda a combater a depressão


A matéria é do Brasil Post:

Encontrar amigos pessoalmente reduz risco de depressão

Pessoas que encontram amigos e familiares pessoalmente pelo menos três vezes por semana correm um risco menor de desenvolver depressão, em comparação com aqueles que mantêm apenas contato virtual. É o que diz um estudo publicado recentemente no periódico científico American Geriatrics Society.

Os pesquisadores, da Universidade do Michigan, nos Estados Unidos, acompanharam 11.000 adultos, com mais de 50 anos, ao longo de dois anos.

Os resultados mostraram que indivíduos que encontravam amigos e parentes apenas uma vez por semana tinham 11,5% de chance de ter sintomas de depressão após dois anos.

Em compensação, aqueles que encontravam os entes queridos pelo menos três vezes por semana corriam um risco de 6,5%.

De acordo com os autores, a regularidade e frequência do contato virtual, por telefone, e-mail ou redes sociais não afetaram o risco descoberto.

"Nós descobrimos que as formas de socialização não são iguais. Ligações ou comunicação digital com amigos e familiares não têm o mesmo poder das interações pessoais para ajudar a afastar o risco de depressão", afirmou Alan Teo, principal autor do estudo.

Apesar do contato pessoal reduzir o risco de depressão independente da idade do participante, os pesquisadores descobriram que pessoas entre 50 e 69 anos se beneficiam mais do contato com amigos, enquanto para aquelas com mais de 70 anos, o contato com crianças e familiares terá maior impacto.

"Outras pesquisas já haviam mostrado que fortes laços sociais fortalecem a saúde mental. Mas esse é o primeiro trabalho que analisa o papel de tipos específicos de comunicação como protetores da depressão", disse Teo.

Embora o estudo tenha sido realizado com pessoas com mais de 50 anos, os autores acreditam que os resultados beneficiam a população em geral. "O contato pessoal pode ser considerado medicina preventiva, assim como tomar vitaminas regularmente", ressaltou o autor, à revista americana Time.



sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Ricardo Boechat e a depressão



Ontem, 27/08/15, o jornalista Ricardo Boechat deu um depoimento contundente e revelador sobre a depressão que o vitimou, na sua página no facebook:




Acho que devo uma explicação às centenas de pessoas que me escreveram nos últimos dias perguntando o que eu tinha e desejando minha pronta recuperação.

Pois bem, queridos amigos, o que eu tive foi um surto depressivo agudo. Minutos antes de começar o programa de rádio da quarta-feira retrasada eu simplesmente sofri um colapso, um apagão aqui no estúdio. Nada na minha cabeça fazia sentido. Nenhum texto era compreensível. Os pensamentos não fechavam e uma pressão insuportável dava a nítida sensação de que o peito ia explodir. Fiquei completamente desnorteado e achei melhor me refugiar no meu camarim e esperar socorro médico. Quando finalmente minha doce Veruska me levou ao doutor e eu descrevi o que estava sentindo ele foi categórico em dizer que era depressão. Que o estado de pânico, a balbúrdia mental, a insegurança e tudo mais eram sintomas clássicos do surto depressivo.

Quem cai num quadro desses perde qualquer condição de continuar ativo, de pensar as coisas mais simples. A pessoa morre ficando viva.

E eu fiquei impressionado nestes dias com a quantidade de gente que sofre do mesmo problema. Quando contei a alguns ouvintes que me ligaram o que estava acontecendo, muitos disseram já ter passado por isso, ou conhecer alguém que ainda passa ou já passou.

O Barão me mostrou um vídeo produzido pela ONU indicando que esse fenômeno é global. Uma amiga minha citou números da Organização Mundial da Saúde afirmando que a depressão é a doença que mais cresce no mundo. E o Bruno Venditti me mandou um texto muito bom do pregador Élder Holland sobre o assunto.

Tanto o vídeo da ONU quanto esse texto deixam claro que é importante não esconder a doença, não esconder a depressão. Não tratá-la na clandestinidade. É importante aceitá-la para combatê-la - e todo o silêncio, do próprio doente ou de quem está à sua volta, dificulta a recuperação. Essa necessidade de não fazer segredo, além da sinceridade que faço questão de manter na relação com os ouvintes, é a razão deste depoimento pessoal.

O texto que eu li fala do “transtorno depressivo maior” lembrando que isso não significa apenas um dia ruim, ou um contratempo, ou momentos de desânimo ou ansiedade, que são coisas que todos temos normalmente.

A depressão é muito mais que isso e muito mais séria. É uma aflição tão severa que restringe a capacidade de uma pessoa funcionar plenamente, um abismo mental tão profundo que ninguém pode achar que vai se safar apenas endireitando os ombros ou pensando coisas positivas.

Não, minha gente, essa escuridão da mente e do estado de espírito é mais do que um simples desânimo. É um desequilíbrio da química cerebral, algo tão físico quanto uma fratura óssea, ou um tumor maligno. É um fenômeno que atinge todo mundo: quem perde um ente querido, mães jovens com depressão pós-parto, estudantes ansiosos, militares veteranos, idosos de uma maneira geral e pais preocupados com o sustento da família.

A depressão não escolhe vítimas por seu grau de instrução ou situação econômica. Castiga sem piedade e da mesma forma pobres e ricos, anônimos e famosos.

Os médicos que estão me tratando disseram que eu estiquei a corda demais, que fiz mais coisas do que deveria fazer e em menos tempo do que seria razoável. Eu fui além dos limites que minha saúde permitia e ignorei todos os sinais físicos e avisos domésticos. Quantas vezes a minha doce Veruska me disse: "Você vai pifar! Você vai pifar!"...

O texto que eu li ensina que para prevenir a doença da depressão é preciso estar atento aos indicadores de estresse em sua própria vida. Assim como fazemos com nosso carro, é fundamental observar a temperatura do nosso motor interno, os limites de nossa velocidade, ou o nível de combustível que temos no tanque. Quando ocorre a “depressão por exaustão”, que foi o meu caso, é preciso fazer os ajustes necessários. A fadiga é o inimigo comum e recuperar forças passa a ser uma questão de sobrevivência.

A experiência mostra que, se não reservarmos um tempo para nos sentirmos bem, sem dúvida depois teremos que dispender tempo passando mal. E foi o que aconteceu. Mas a cura existe. Às vezes requer tratamentos demorados. Mas, como está no texto que eu li, "mentes despedaçadas também podem ser curadas, assim como corações partidos".

Eu sei que quem liga o rádio numa estação de notícias quer receber informações de interesse geral, quer saber da política, da economia, dos acidentes, do engarrafamento nosso de cada dia.

Então peço desculpas por não entregar nada disso a vocês neste papo inicial no dia de minha volta. Nada de impeachment, de renúncia, de Cunha, de Renan, de inflação, do ajuste fiscal e de tantas outras coisas que só têm feito infernizar nossas vidas mas que são as manchetes do momento.

Não falei neste bate papo nem mesmo das abobrinhas de que eu gosto tanto e que nos ajudam a cumprir a jornada diária sofrendo menos.

Este papo de hoje é sobre depressão. Um mal que afeta milhões de pessoas, milhares delas no Brasil, um mal sobre o qual é preciso estar informado e não fazer segredo.

Como eu agora me descobri fazendo parte dessa população doente, pensei muito nas noites sem dormir dos últimos dias e tomei a decisão de dividir essa experiência com vocês. Se com isso eu conseguir ajudar algum ouvinte a prevenir a depressão ou a curá-la, já me dou por satisfeito.

E toca o barco.



domingo, 23 de agosto de 2015

Após trauma do hino, Vanusa diz que "isso tudo é frescura"


Entenda o porquê na interessante entrevista que ela deu ao Estadão de 21/08/15.

Leia até o final, vale a pena:

Depois do trauma, Vanusa anuncia disco novo e tem obra relançada

Seis anos depois de ser ridicularizada por uma interpretação do Hino Nacional, a cantora comemora retorno e diz que ainda sofre da Síndrome do Pânico que desenvolveu depois do episódio

Julio Maria

Aos 2 minutos e 27 segundos do Hino Nacional, Vanusa procurou por uma palavra na folha de papel à sua frente e não encontrou. Sentia-se mal, sob o efeito de remédios, e insegura por não saber os versos de cor. Depois de “és belo, és forte” vacilou, trocou “impávido colosso” por “és risonho” e a Assembleia Legislativa que a assistia em continência petrificou. Na sequência, a cantora perdeu também o controle da melodia e seguiu um calvário por cinco minutos e meio como se caminhasse lentamente para a própria execução.

Vanusa ainda luta para se recuperar do que ela chama de um de seus maiores sofrimentos. Quando percebeu o devastador alcance de um vídeo de sua performance colocada no YouTube, decidiu não cantar nunca mais. Entrou em profunda depressão, ficou internada por seis meses com quadro de Síndrome do Pânico e, mesmo depois da alta, seguiu em fases de total reclusão, seções de terapia e muitos medicamentos.

Aos 67 anos, seis depois do episódio, ela sente que a virada está próxima. Seu primeiro disco em 20 anos, com produção de Zeca Baleiro, será lançado no próximo mês e duas caixas com oito CDs resgatados pelo selo Discobertas, do produtor Marcelo Fróes, com o que ela fez de melhor em sua carreira, entre 1967 e 1979, já estão sendo distribuídas. Vanusa abriu a porta de seu apartamento na Avenida Rio Branco para o Estado. Fumando bastante, mas tranquila, parecia desarmada de rancores e leve para concluir até mesmo que o Hino Nacional que quase a enterrou viva tem sido uma porta de entrada para que outras gerações a conheçam.

Não atrapalha o fato de verem você ainda como uma integrante da Jovem Guarda?

Pois é, me chamaram agora mesmo para uma festa dos 50 anos da Jovem Guarda. Gente, esse povo não coloca na cabeça que eu não fiz parte da história da Jovem Guarda! Havia dois grupos. O do Roberto Carlos na TV Record e o do Eduardo Araújo, Carlos Imperial e Os Incríveis na Excelsior. Eu fazia parte desse último. Um dia, recebi o convite para fazer o programa do Roberto e fui. Mas foi o último programa do Roberto. Eu não era da Jovem Guarda, não usava aquelas roupas, tinha um estilo próprio. E minhas músicas eram diferentes.

Havia muito rock and roll naqueles seus discos dos anos 70...

Olha aqui (mostra que veste uma camiseta de Janis Joplin). Eu ouvia Bob Dylan, Janis, Doors. Meu pai era técnico de eletrônica e recebia LPs de clientes que não tinham dinheiro para pagar o trabalho dele. Você já ouviu minha What To Do?

Sim.

Então, disseram até que ela foi uma cópia da música do Black Sabbath (Sabbath Bloody Sabbath), mas pedi uma pesquisa e concluíram que eles lançaram a música depois de mim (os dois álbuns saíram em 1973). Se alguém copiou alguém, então, foram eles.

A música que você fez nesta época não deveria tê-la aproximado mais da MPB?

Era essa a minha ideia, eu queria exatamente isso. Eu adorava letras, fui a primeira pessoa a gravar Zé Ramalho (Avohai).

Mas o que a impediu de fazer parte desse cenário?

O preconceito, o fato de me enxergarem como cantora de iê-iê-iê. Mas eu não dava muita bola para isso, consegui passar, subir alguns patamares, mesmo assim. Quando eu estava casada com o Antonio Marcos, ele chegou em casa dizendo que havia feito uma música linda em parceria com o Sérgio Sá para ser gravada pela Elis Regina. Eu comecei a ouvi-la e, quando acabou, eu disse: “Não, essa música não é para a Elis, essa música é minha”. Ele disse que era a chance de ser gravado pela Elis, mas eu bati o pé: “Não me interessa, essa música é minha, é a minha cara”. Ele insistiu e eu disse: “Ah é? Você vai dormir no sofá da sala enquanto não resolver”. Ele dormiu no sofá até o dia em que bateu na porta: “Tá bem, eu dou a música que você quer, mas me deixa dormir na cama”. A música era Sonhos de Um Palhaço.

Você teve algum confronto com Elis Regina?

Foi catastrófico. Uma vez fomos fazer um show no Recife, em um ginásio imenso. Eu, ela, Wanderley Cardoso e Nelson Ned. Eu, que estava prevista para cantar por último, só escutava ela gritando: “Eu não quero saber, eu quero encerrar a noite”. O empresário tentou explicar que meu show era muito para cima, que depois de mim ficaria difícil, mas ela gritou, bateu o pé. Eu chamei o empresário e disse: “Deixe ela encerrar”. E então, entramos em sequência o Nelson Ned, o Wanderley Cardoso e eu. Aí arrebentei mesmo, rolava no chão no final da música Era Um Garoto.... Depois de acabar, saímos todos, não ficamos para o último show, e quando já estávamos no carro, ouvimos o povo vaiando muito Elis. Mas o erro partiu do empresário, porque ali não estava o público dela. Imagine ela ali, só com o Baden Powell ao violão?

Pode ter sido a única vaia na vida de Elis.

Pergunte ao Wanderley Cardoso, ele deve se lembrar. Elis era muito arrogante, mas eu tenho que dizer uma coisa: quando ela cantava, eu prestava atenção. Ela era perfeita, era um instrumento.

Você nunca tentou imitá-la?

Não, pelo contrário. Quando gravei Sonhos de Um Palhaço, fui para casa ouvir e, quando acabou, liguei para o produtor e pedi para refazer a voz. Achei que estava muito parecido com a voz da Elis.

Você fala de Antonio Marcos de forma carinhosa. Foi ele o amor da sua vida? (Ela foi casada também com o diretor de TV da Globo, Augusto César Vanucci)?

(Silêncio). Sim. Eu estava na RCA e o vi na sala de espera. Nós nos olhamos e foi aquela coisa. Eu namorava o cantor Fábio na época. Saí de lá, peguei o carro e fui ver o Fábio: “Eu vim aqui terminar com você”. E ele: “Como assim, o que eu fiz?”. “Nada, mas eu conheci o homem da minha vida. Não conversamos ainda, mas eu o vi e, se ele me quiser, quero estar livre para ficar com ele.” Um mês depois, fui a uma festa na casa do Antonio Marcos e fiquei lá para sempre.

E o que pode dizer que aprendeu com ele?

A dar entrevistas, por exemplo (risos). Ele falava muito bem, e eu era tímida. Um dia, perguntei o que ele fazia? “Vanusa, o segredo é o seguinte: se você não quiser responder a alguma pergunta, desvie o assunto antes que o jornalista chegue ao fim dela.” Eu apaguei as coisas ruins e só guardei as boas. O sofrimento acontece, brigas de casal, esqueci isso tudo. Quando recebi a caixa dele (lançada também pelo selo Discobertas), eu chorei. Tenho que tirar um dia inteiro para ouvir, porque eu choro do início ao fim (Antonio Marcos morreu em 1992).

Você chegou à Globo, gravou trilha para o ‘Fantástico’, esteve no auge. O que houve para esse sucesso escapar da sua mão?

Antes mesmo de me casar com o Vanucci, eu ia ao Globo de Ouro, ao Fantástico, estava na Globo toda semana. Então nos casamos e todo mundo dizia que eu estava na Globo por causa dele. Quando ele morreu (em 1992), eles simplesmente me cortaram da emissora. A filha da Débora Duarte faz novela, a Luiza Possi (filha de Zizi Possi) canta na Globo, e canta muito bem, mas eu fui cortada. Não sei explicar como.

O episódio do ‘Hino Nacional’ enterrou sua carreira?

Foi uma maldade de quem fez, de quem retirou aquela gravação da Assembleia. Eles cortaram a parte inclusive em que eu desmaiei depois de cantar. Eu comecei a cantar e não sabia mais o que estava fazendo, e pouca gente sabe ainda que eu desmaiei. Mas olha só: com essa história do Hino Nacional, até as crianças de 5 anos passaram a me conhecer. Os pais colocam a imagem para elas darem risada de mim.

E isso não perturba você?

Meu Deus, eu tive de ser internada, não queria ver ninguém. “Como pode?”, me perguntava. Eu fiz tudo certinho, cuidei do meu trabalho, fiz os discos que fiz, e, de repente uma coisa dessas joga tudo, no chão. Eu não queria mais cantar. Fiquei seis meses internada em uma clínica e fiz terapia todos os dias. Quando voltei, o meu filho Rafael veio me dizer que uma empresa de cartões de crédito gostaria de fazer um comercial comigo. Eu comemorei até ele dizer: “Só que tem uma coisa: eles querem que você cante o Hino Nacional”. Eu fiquei p... da vida. “Será que esse Hino não vai sair da minha vida!” Ele voltou e disse: “Mãe, se não for pela grana, que é uma baita grana, tem que ser pelo menos para tirar esse Hino da cabeça da senhora antes que a senhora morra com isso”. Eu topei. Fiz o comercial e não deu outra. Nada melhor do que quando você consegue dar risada de si mesmo.

E o Hino saiu de você?

Ainda faço terapia. Eu entrei em uma depressão total por causa desse episódio e ela evoluiu para Síndrome do Pânico. Quando estava internada, o Zeca Baleiro me ligou – o único artista que me ligou foi ele. Queria saber como eu estava. Um dia, disse que queria fazer um disco meu. Eu quase desmaiei, não gravava há 20 anos. O disco está para sair.

E como está hoje?

Quando fui internada, eu só queria andar no carro se fosse deitada no banco de trás para ninguém me ver. Foi uma das coisas mais sofridas da minha vida. Quando via TV, as zoações que as pessoas faziam, eu dizia “gente, trabalhei tanto para isso?”. Mas ter ido para a clínica foi bom porque eu convivi com garotos de 14 anos que fumavam crack, meninos que tinham de tomar remédio para dormir por três dias, que tinham de vencer crises de abstinência terríveis. Eu conversava com uma garota de 25 anos que a mãe foi buscar na rua, tirar das drogas. Um senhor que era viciado em sexo pegou até a irmã da mulher dele. Até que um dia ajoelhei no meio da sala, coloquei as mãos para o céu e disse: “Senhor, me perdoa porque eu não tenho problema. Não tenho problema nenhum, Senhor. Isso tudo é frescura”.



quarta-feira, 12 de agosto de 2015

TJSP anula desclassificação de candidata em concurso público por depressão


A informação é do próprio Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo:

ANULADA DESCLASSIFICAÇÃO EM CONCURSO POR HISTÓRICO DE DEPRESSÃO

A 3ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo determinou a anulação de ato que desclassificou candidata ao cargo de defensora pública na etapa de perícia médica em razão de histórico de depressão.

A mulher passou nas primeiras etapas, mas foi eliminada após avaliação no Departamento de Perícias Médicas do Estado de São Paulo. Inconformada, apresentou atestados e laudo do Instituto de Medicina Social e de Criminologia de São Paulo que confirmaram o histórico de depressão, a posterior cura e atual aptidão para exercer a função. O juiz de primeira instância acolheu o pedido da candidata.

A Fazenda recorreu do TJSP sob o argumento de que compete exclusivamente ao Departamento de Perícias determinar a aptidão dos candidatos. Para o desembargador Amorim Cantuária, relator do recurso, a sentença foi correta. “O histórico de quadro depressivo, inclusive já superado, não pode ser considerado para efeito de inaptidão, eis que já foi tratado e não apresenta qualquer sequela ou incapacidade mental na autora”, afirmou o magistrado. “Podem ser feitas exigências ou restrições, desde que pertinentes à atividade que será prestada. Essa, contudo, não é a hipótese dos autos”, ponderou ele.

Os desembargadores Marrey Uint e Camargo Pereira participaram do julgamento e seu voto foi o mesmo do relator.



domingo, 14 de junho de 2015

Depressão pode estar relacionada a bullying na adolescência


Matéria publicada no Brasil Post:

Bullying na adolescência pode estar relacionado à depressão quando adulto

Uma pesquisa publicada nesta semana no The BMJ, um dos mais influentes jornais de medicina do mundo, sugere que bullying na adolescência está fortemente associado com depressão no início da idade adulta. De acordo com o estudo, jovens frequentemente assediados moral e fisicamente têm duas vezes mais chances de ter a doença, em comparação com aqueles que nunca foram intimidados.

A equipe de cientistas, liderada por Lucy Bowes, professora do Departamento de Psicologia Experimental da Universidade de Oxford, realizou um dos maiores estudos sobre a associação entre intimidação na adolescência e depressão na idade adulta. A pesquisa examinou a relação entre o bullying aos 13 anos e a depressão a partir dos 18.

Os pesquisadores estudaram dados de bullying e depressão em 3 898 participantes do Estudo Longitudinal Avon de Pais e Filhos (ALSPAC), análise de um grupo de nascidos em 1991 e 1992, no ex-condado de Avon, na Inglaterra. Aos 13 anos, os participantes preencheram um questionário de autorrelato sobre bullying e, aos 18, completaram a avaliação que identificou os indivíduos com sintomas da depressão.

Dos 683 adolescentes que, aos 13 anos, relataram bullying frequente mais de uma vez por semana, 14,8% estavam deprimidos aos 18 anos. Já dos 1 446 adolescentes que, na mesma faixa etária, sofreram algum assédio físico ou moral, de uma a três vezes ao longo de seis meses, 7,1% estavam depressivos no início da fase adulta.

No geral, 2 668 participantes compartilharam informações sobre assédio moral e sintomas depressivos, bem como outros fatores que podem ter causado a depressão, tais como problemas mentais e de comportamento, conflitos familiares e eventos traumatizantes.

Além disso, para efeitos de comparação, apenas 5,5% dos adolescentes que não sofreram bullying estavam depressivos aos 18 anos.

O tipo mais comum de assédio moral foi o por xingamentos: 36% dos participantes eram agredidos verbalmente com frequência. Enquanto 23% tinham pertences furtados.

A maioria dos adolescentes nunca contou a um professor - de 41% a 74% dos entrevistados - ou para os pais - de 24% a 51% dos participantes. Mas 75% dos jovens disseram a um adulto ter sofrido bullying físico, como ser atropelado ou agredido.

Em um editorial que acompanhou o estudo, Maria Tofi, professora de psicologia criminal da Universidade de Cambridge, escreve que este artigo tem mensagens claras que devem ser endossadas pelos pais, escolas e profissionais.

Ela também pede maior investigação para estabelecer as relações causais entre assédio moral e depressão e ressalta a importância de intervenções antibullying nas instituições de ensino.



domingo, 7 de junho de 2015

Existe casamento sem sexo?

Matéria interessante (e polêmica) publicada no Brasil Post:

Até quando um casamento sem sexo pode sobreviver?

The Huffington Post | De Rebecca Adams

Se você perguntar a Heather*, ela vai dizer que, em geral, tem um bom casamento. Ela e seu esposo, com quem está há dez anos, se dão bem e se divertem juntos. A única coisa é que não têm relações sexuais — ou não têm há pelo menos quase um ano.

Heather, 32, disse ao The Huffington Post que, quando ela e seu marido se conheceram há 15 anos, faziam sexo sempre que podiam. Mas, depois de dois anos de casados, a vida sexual começou a minguar — de várias vezes por semana para uma vez a cada alguns meses, para uma vez por ano, sempre com Heather tomando a iniciativa. Heather não está satisfeita com isso, mas seu marido não está interessado em sexo e não quer falar sobre como consertar o que, para ela, é um grande problema. “Recebo uma variedade de respostas”, disse Heather. “Não está no clima; está cansado; tem dor de estômago.”

Ela acredita que ele tem níveis baixos de testosterona, mas se recusa a ir ao médico. Quando comenta a falta de sexo, seu marido ou se fecha ou fica na defensiva. Ela se queixou sobre como se sente pouco atraente, como sente que eles são apenas colegas de quarto. Mas Heather parece não receber nenhum tipo de retorno ou interesse, então simplesmente parou de tentar — está cansada de ser rejeitada.

Mulheres que querem que seus maridos sintam um tipo específico de vergonha

Atualmente as mulheres podem não depender dos homens para tomar a iniciativa na hora do sexo, mas isso não significa que estejam imunes à rejeição de um desejo sexual não correspondido, especialmente com as tradicionais normas de gênero ainda em voga. O estereótipo do marido com tesão versus “mulher que não está no clima” está entre os difíceis de eliminar.

Se os maridos estão conscientemente se opondo a ter relações sexuais, muitas esposas começam a se perguntar: O que há de errado comigo? Penny*, 43, que conheceu seu marido há 15 anos, disse que naquele tempo nutriam uma “atração instantânea”. Três anos após o casamento, no entanto, notou que ele perdeu o interesse por sexo. Em ocasiões nas quais Penny tinha a expectativa de ter relações sexuais, como no aniversário do relacionamento ou férias, seu marido a rejeitava, diz ela.

“Ficava arrasada”, diz Penny. “Nunca pensei ser a pessoa mais linda na sala, mas me sentia atraente e forte no sentido de quem eu era [antes disso].”

O marido de Penny não estava disposto a falar sobre o casamento sem sexo ou buscar aconselhamento profissional. Penny decidiu fazer terapia por conta própria, o que lhe permitiu perceber que o problema não tem a ver com ela ou com sua capacidade de atração. Penny abordou o marido com cuidado ao longo dos anos e o incentivou a buscar qualquer tipo de ajuda médica ou aconselhamento necessário, mas ele se recusava continuamente a falar sobre o assunto.

Quando não podia mais suportar ficar sem relações íntimas, Penny conversou com o marido sobre buscar um caso extraconjugal. Ela começou a ter relações sexuais com um conhecido; seu esposo consentiu e sabia de tudo. Mas aquilo não resolveu os problemas de comunicação sexual do casal e certamente não aliviou o desejo de Penny de estar mais próxima do marido. No momento estão separados.

Alguns pais podem não notar o declínio da vida sexual até que os filhos cresçam e exijam menos atenção. Esse foi o caso de Megan*, 30, mãe de três filhos. Megan sempre tomou a iniciativa quando queria ter relações sexuais, mas quando a atenção que tinha que dar aos filhos minou suas energias, ela parou de procurar. Disse que o marido não está mais interessado em sexo ou carinhos e nem sequer olha mais para ela.

Megan tentou conversar sobre o assunto — enviou artigos para o marido como ponto de partida e até propôs cirurgia plástica se isso fosse torná-la mais atraente —, mas rapidamente se sentiu muito desmoralizada para continuar insistindo na questão de estimular a vida sexual do casal.

“É como ter que pescar para receber um elogio”, disse. “Não parece sincero se você tem que pedir por isso.”

Claro, essas histórias refletem apenas uma parte da complicada dinâmica. Os homens sentem sua própria dose de humilhação quando falham, seja por um bloqueio psicológico ou um problema fisiológico. Causas fisiológicas comuns para a diminuição do desejo sexual em homens incluem disfunção erétil, medicamentos (como antidepressivos), questões químicas cerebrais e desequilíbrios hormonais (como baixa testosterona). No lado psicológico, o pouco interesse pode estar relacionado à depressão, estresse, ansiedade ou problemas no relacionamento propriamente dito.

Quer os homens decidam buscar ajuda ou não, no entanto, a maioria deles é “motivada pela parceira”, diz Irwin Goldstein, diretor do Programa de Medicina Sexual do Hospital Alvarado, em San Diego, Estados Unidos. Ele disse ao The Huffington Post que muitos de seus pacientes são bastante apáticos em relação à queda do desejo sexual, mas procuram tratamento por causa da parceira, que pode estar se sentindo rejeitada ou ignorada.

O problema nesses casamentos não é necessariamente sexo.

Em muitos casamentos sem sexo, o problema não é apenas sexo — é a falta de empatia do marido e sua incapacidade de resolver a questão com a esposa descontente.

“Se há algo que você realmente quer muito e seu parceiro não reserva um tempo para sequer conversar sobre o assunto, isso geralmente mostra uma disfunção muito maior do que apenas sexo”, disse ao HuffPost Rachel Sussman, psicoterapeuta licenciada e especialista em relacionamentos.

Dito isso, ela acrescenta que a maneira pela qual as mulheres abordam o assunto pode fazer toda a diferença. Em seu consultório, Sussman diz que há mulheres que atacam verbalmente os maridos dizendo coisas como “o que há de errado com você?” ou “que tipo de homem você é?”. Mas a agressividade, seja passiva ou ativa, não é a maneira de abordar a questão. “Quando você tem duas pessoas que estão com raiva uma da outra e com a autoestima ferida, essa [atitude] não é o tipo de receita para conseguir colocar a vida sexual de volta nos trilhos”, disse Sussman.

Ela recomenda que os casais conversem sobre o assunto em um ambiente descontraído, amoroso —, talvez tomando uma taça de vinho ou quando as crianças estiverem dormindo. Num relacionamento saudável, disse, o parceiro acabará respondendo.

Mas quando vale a pena terminar o casamento?

Muitas das mulheres com as quais o HuffPost conversou enfatizaram que, mesmo estando infelizes com a vida sexual, não estavam preparadas para terminar o casamento.

Mas Patty*, 49, disse ao HuffPost que a recusa de seu marido em lidar com o problema sexual entre eles é um sinal de imaturidade que está causando grandes dificuldades em outras áreas do relacionamento. Ela e o marido não fazem sexo há quase sete anos, apesar de ser “como coelhos” nos cinco primeiros anos do casamento. “Meu casamento está em perigo, e não tenho certeza sobre o quanto ele percebe isso”, disse Patty. “Estamos aqui para embarcar numa jornada juntos. O sexo faz parte dessa jornada.”

Não há via expressa, mas Sussman disse que, se depois de quatro a seis meses seu parceiro continua a ignorar o assunto, então pode ser o caso de se perguntar: Estou disposta a terminar meu casamento por causa disso?

Se alguém estiver disposto a melhorar o casamento, no entanto, é preciso começar com um diálogo calmo e aberto.

“Onde houver vontade, há um caminho”, Sussman disse. “É apenas questão de conseguir que alguém esteja disposto.”

*Os sobrenomes foram omitidos para proteger as identidades das mulheres entrevistadas para este artigo.



sábado, 2 de maio de 2015

Yoga contra depressão e ansiedade em idosos

Matéria publicada no Brasil Post:

Yoga evita depressão e ansiedade em idosos, diz pesquisa

Não é segredo que praticar Yoga faz bem. O corpo ganha flexibilidade, os músculos se fortalecem e a postura se aperfeiçoa. Além disso, a atividade previne os problemas cardíacos e doenças, como osteoporose e artrite. Mas a lista de benefícios não para de crescer. Recentemente, um grupo de pesquisadores um grupo de universidades, como Universidade Nacional de Singapura avaliou os efeitos da atividade em homens e mulheres com mais de 60 anos. O estudo foi feito com base em 15 trabalhos realizados ao longo das duas últimas décadas sobre a prática da Yoga.

A análise, publicada no jornal Aging and Mental Health chegou à conclusão de que a Yoga é extremamente eficaz para aliviar a ansiedade e a depressão entre os idosos.Há várias explicações para isso. Como a Yoga consiste na realização de movimentos lentos, aprende-se aos poucos a diminuir o ritmo da respiração e a controlar a ansiedade. A técnica também ajuda a treinar o equilíbrio e evitar quedas. Além disso, o fato da Yoga muitas vezes ser praticada em grupos, isso facilita a socialização entre os idosos. Diz Elisa Kozasa, neurocientista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. "Essa é uma maneira de interagir com outras pessoas que vivem a mesma fase e que também estão comprometidas em melhorar seu estilo vida".

As pesquisas na área de meditação e Yoga começaram a interessar a comunidade científica a partir da década de 70. Mas somente a partir de meados dos anos 90, sobretudo com o aperfeiçoamento dos exames de imagem, tornou-se possível observar os efeitos da técnica no organismo com mais detalhes. Pesquisadores da Universidade Harvard, por exemplo, estão conduzindo estudos que mostram os efeitos da Yoga na memória e cognição. Trata-se de uma excelente notícia para quem quer envelhecer de maneira mais saudável.



domingo, 26 de abril de 2015

Saber demais pode ser ruim

A matéria é da BBC Brasil:

O surpreendente lado ruim de ser inteligente

David Robson

Temos uma tendência a pensar em gênios como seres atormentados por angústias existenciais, frustrações e solidão – a escritora Virginia Woolf, o matemático Alan Turing e até a fictícia Lisa Simpson são estrelas solitárias, isoladas apesar de seu brilho.

A questão pode parecer um assunto que atinge apenas alguns poucos privilegiados – mas os conceitos e ideias por trás dessa impressão repercutem em quase todos nós.

Boa parte do sistema educacional ocidental é direcionada a melhorar a inteligência acadêmica. Apesar de suas limitações serem conhecidas, o Quociente de Inteligência (QI) ainda é a principal maneira de medir habilidades cognitivas. Cada vez mais gente gasta fortunas em atividades de treinamento do cérebro para tentar melhorar sua pontuação. Mas e se essa busca pela genialidade for uma tarefa para tolos?

As primeiras respostas para esses questionamentos surgiram há quse um século, no auge da Era do Jazz americana. Na época, o teste de QI ganhava popularidade após ter se provado útil nos centros de recrutamento de voluntários durante a Primeira Guerra Mundial.

Os altos e baixos de pequenos gênios

Em 1926, o psicólogo Lewis Terman decidiu usar a prova para identificar e estudar um grupo de crianças superdotadas. Ele selecionou 1,5 mil alunos da Califórnia com QI maior que 140 – 80 deles com mais de 170 de QI. O grupo ficou conhecido como os “Termites”, e os altos e baixos de suas vidas ainda são estudados hoje em dia.

Como era de se esperar, muitos dos Termites cresceram para fazer fama e fortuna. Nos anos 1950, eles ganhavam um salário médio que correspondia ao dobro do de pessoas “comuns”.

Mas, inesperadamente, muitas crianças no grupo de Terman preferiram profissões menos glamorosas, como policial, marinheiro ou datilógrafo. Os Termites também não foram particularmente mais felizes do que o cidadão americano comum, com os níveis de divórcio, alcoolismo e suicídio semelhantes ao da média da população do país.

A moral da história é que, na melhor das hipóteses, um grande intelecto não faz diferença em relação à sua satisfação com a vida. Na pior, ele pode significar uma sensação maior de vazio.

Isso não quer dizer que todo mundo com um QI alto seja um gênio torturado, como a cultura popular nos faz crer. Mas ainda é assim, é algo intrigante. Por que os benefícios de ter uma inteligência abençoada não aparecem a longo prazo?

Fardo pesado e preocupação excessiva

Uma possibilidade é a de que a consciência de alguém sobre seus próprios talentos intelectuais tenha se tornado uma carga pesada. De fato, nos anos 1990, quando alguns dos Termites tinham quase 80 anos, eles olhavam para trás e, em vez de se vangloriar de seus sucessos, diziam ter sido perseguidos pela sensação de que não corresponderam ao que esperavam atingir quando jovens.

Essa sensação de fardo – principalmente quando combinada com as expectativas dos outros – é uma constante para muitas outras crianças superdotadas. Um dos casos mais famosos – e tristes – é o da britânica Sufiah Yusof. Admitida na prestigiada Universidade de Oxford aos 12 anos, ela abandonou os estudos na área de Matemática antes de se formar e começou a trabalhar como garçonete. Depois disso, tornou-se garota de programa e ficou conhecida por recitar equações para os clientes durante o sexo.

Outra reclamação comum é a de que pessoas mais inteligentes geralmente têm uma visão mais clara sobre os problemas do mundo. Enquanto o resto de nós se mantém distante das crises existenciais, os gênios perdem o sono sofrendo pela condição humana e pelos erros dos outros.

A preocupação constante, de fato, pode ser um sinal de inteligência – mas não da maneira que os filósofos de poltrona imaginaram. Alexander Penney, da MacEwan University, no Canadá entrevistou estudantes universitários sobre vários tópicos e descobriu que aqueles com o QI mais alto realmente se sentiam mais ansiosos.

Mas curiosamente, a maioria das preocupações era banal e cotidiana. “Eles não se inquietavam por coisas muito profundas, mas se preocupavam mais frequentemente sobre mais coisas”, diz Penney. “Se algo ruim acontecia, eles passam mais tempo pensando naquilo.”

Ao examinar com mais atenção, Penney também descobriu que isso se relaciona com a inteligência verbal, testada em jogos de palavras nos exames de QI. Ele acredita que uma maior eloquência pode ajudar o indivíduo a verbalizar suas ansiedades e remoer mais seus pensamentos. O que não é necessariamente uma desvantagem. “Eles tendem a solucionar problemas mais rapidamente do que a maioria das pessoas”, afirma.

Pontos ‘cegos’

A verdade nua e crua, no entanto, é que uma maior inteligência não equivale a tomar decisões mais sábias. Na realidade, a situação pode até tornar as decisões mais equivocadas.

Keith Stanovich, da Universidade de Toronto, passou a última década preparando testes de raciocínio e descobriu que decisões justas e independentes não estão nem um pouco relacionadas ao QI.

Segundo ele, os indivíduos que se saíam melhor em testes cognitivos padrão são na realidade um pouco mais vulneráveis a terem um “ponto cego de predisposição”. Ou seja, eles têm menos capacidade de enxergar seus próprios defeitos, mesmo quando são capazes de criticar os pontos fracos dos outros.

Eles também tendem a ser vítimas da “ilusão do apostador” – a ideia de que se uma moeda cai indicando “cara” dez vezes, ela terá mais chances de cair em “coroa” na 11ª vez.

Uma tendência a confiar mais nos instintos do que no pensamento racional pode explicar porque um número surpreendente de membros da associação britânica de superdotados Mensa acredita em atividades paranormais. Ou por que alguém com um QI de 140 têm duas vezes mais chances de estourar seu cartão de crédito.

Stanovich enxerga esses vieses em todas as camadas da sociedade. “Existe muita irracionalidade no mundo de hoje – pessoas fazendo coisas irracionais apesar de terem uma inteligência mais que adequada”, afirma. “Essas pessoas que ficam espalhando memes antivacinação para pais ou disseminando erros de informação na Internet são em geral pessoas com uma inteligência e uma educação acima da média.” Obviamente, pessoas inteligentes podem ser perigosamente, e bobamente, enganadas.

O lado bom

Portanto, se a inteligência não leva a decisões racionais ou a uma vida melhor, quais as suas vantagens? Igor Grossmann, da Universidade de Waterloo, no Canadá, acredita que temos que prestar mais atenção a um conceito antiquado: a sabedoria.

Sua abordagem é mais científica do que parece. “O conceito de sabedoria tem uma qualidade etérea”, admite. “Mas se olharmos para a pura definição de sabedoria, muitos vão concordar que se trata da ideia de alguém que pode fazer um julgamento bom e sem amarras”.

Em um experimento, Grossmann apresentou a voluntários vários dilemas sociais – que iam desde o que fazer sobre a guerra pela Crimeia a crises que leitores descrevem em colunas de aconselhamentos sentimentais de jornais.

Conforme os voluntários falavam, um painel de psicólogos julgava seus argumentos e sua tendência a uma ideia preconcebida.

Os que mais pontuaram acabaram predizendo maior satisfação com a vida, mais qualidade de relacionamento, e menos ansiedades e preocupações – todas as qualidades que parecem faltar a pessoas enquadradas no conceito clássico de inteligência.

Crucialmente, Grossmann descobriu que um alto QI não necessariamente significa maior sabedoria.

Aprender a saber

No futuro, empregadores podem começar a empregar testes como os de Grossmann para examinar outras capacidades intelectuais em vez do QI. A área de recursos humanos do Google, por exemplo, já anunciou que planeja avaliar candidatos com base em qualidades como “humildade intelectual”, em fez de pura proeza cognitiva.

Felizmente, a sabedoria pode vir do treino, segundo Grossmann. Ele ressalta que nós normalmente temos mais facilidade em deixar para trás nossas predisposições quando levamos outras pessoas em consideração em vez de nós mesmo.

Com isso, ele descobriu que simplesmente falar sobre seus problemas na terceira pessoa (“ele” ou “ela” em vez de “eu”) ajuda a criar a distância emocional necessária, diminuindo preconceitos e levando a argumentos mais sábios. Novos estudos devem gerar novos truques semelhantes.

O desafio vai fazer com que as pessoas admitam seus próprios defeitos. Mesmo se você conseguiu repousar sobre os louros da sua inteligência durante toda a vida, pode ser muito difícil aceitar que ela vem atrapalhando seu julgamento. Como disse o filósofo Sócrates, “o sábio é aquele que pode admitir que não sabe nada”.



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