“O último inimigo a ser destruído é a morte. Por que todas as coisas sujeitou debaixo dos pés.”
O cristão, entretanto, justamente pelo fato de ter-se tornado um cristão, está enfiado na morte e a carrega consigo a toda hora, onde quer que esteja, precisando esperá-la a todo o momento enquanto aqui viver, uma vez que o diabo, o mundo e sua própria carne não lhe dão sossego. Em contrapartida, ele tem a vantagem de já ter saído da sepultura com a perna direita e tem um poderoso assistente que lhe estende a mão, ou seja, seu Senhor Cristo, que, há muito, já saiu, dá-lhe a mão e já o retirou em mais da metade, de modo que não resta mais que o pé esquerdo. Isso, porque o pecado já lhe está perdoado e eliminado, a ira de Deus e o inferno, apagados, ele já vive totalmente em e junto a Cristo e sua parte melhor (que é a alma) participa da vida eterna; por isso, a morte não mais pode segurá-lo nem comprometê-lo, exceto que o resto, a velha pele, carne e sangue precisam decompor-se para, também, renovar-se e, também, poder seguir à alma. No mais, já chegamos totalmente à vida, porque Cristo e minha alma não mais estão na morte.
Desse consolo e obstinação, o mundo nada sabe, embora teimem e se gabem de muito dinheiro e posses, de grande prestígio, amizade e poder. Porém, diga-me uma só pessoa que, com tudo isso, pudesse depender-se da morte ou evitá-la. Ainda não houve um sequer que tivesse levado consigo a mínima coisa, um grãozinho ou um pingo d’água. Têm que ficar deitados ali, não conseguem ajudar-se com uma respirada sequer, ficando estirados eternamente em fedor insuportável, se não os enterrarem. E nenhum vermezinho seria tão inofensivo a ponto de não conseguir apoderar-se deles para devorar o cadáver. Nenhum rei jamais foi tão rico e poderoso que pudesse levar consigo toda a sua coroa e poder o equivalente a um centavo que fosse. Pelo contrário, tudo que já tiveram, eles têm que deixar aqui fora, deixando-se enterrar no túmulo, totalmente desprovidos.
Embora não muitos de nós já tenhamos saído com Cristo da morte e da sepultura de volta para a vida, temos um homem que da morte tudo levou consigo, nada perdendo por causa dela, mas tudo levou consigo, não deixando lá um fio de cabelo sequer; mas, justamente nela, ele puxou todas as coisas para si (como ele mesmo diz) e as sujeitou a si, de modo que, dele e por meio dele, também nós tenhamos que sair e, também, puxar conosco tudo o que aqui deixamos. Disso podemos nos gabar e isso, também, podemos defender contra o mundo inteiro, ainda que ridicularizem a fé e o cristianismo, fiando-se em que, agora, têm dinheiro e posses suficientes, vivendo como querem em sua ganância e toda sorte de prazeres. Mas o que vale é: vai acumulando, poupando e ajuntando numa boa, vê quem consegue desbancar o outro! Se tu tens dinheiro e posses, poder e tudo que desejas, tenta levar um centavo contigo! Mas eu quero te mostrar um Senhor que nada deixou atrás de si na morte, mas arrancou tudo [dela] e, também, me dá a mão para que eu possa arrancar também a mim. Mostra-me um homem desses em todo o mundo que, alguma vez, tenha levado consigo um fio ou o tenha trazido da morte!? Que adianta tua insistência em algo tão nulo, que não fica em teu poder sequer um momento ao chegar a morte, como se quisesses tê-lo eternamente ou levar tudo contigo?
(Martinho Lutero. O capítulo 15 da Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios, in MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas.. Tradução de Luís H. Dreher. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra. 2005. vol. 9, págs. 354-355)
Desse modo, quanto mais formos favorecidos com riquezas, tanto mais será necessário, para todos nós, algum defeito pelo qual nos tornemos humildes. Em segundo lugar, os ricos confiam nas riquezas. Ora, Deus quer que eles transformem os outros em pessoas ricas. As suas riquezas são sombras e sinais das verdadeiras riquezas. Se querem ser salvos, empenhem-se para que sejam "ricos em boas obras". "Que pratiquem o bem". [O apóstolo] não diz, apenas, que devem praticar boas obras, mas que devem fazê-lo em abundância, pois está ao alcance de suas mãos a capacidade de vestir os pobres e dar de beber aos que têm sede. Isso porque "a quem mais foi dado, dele mais será pedido" [Lc 12:48]. Que não façam, apenas, o bem, mas que o façam em maior profusão do que os outros, a fim de que não sejam ricos em ouro e prata, mas, sim, em boas obras. "Que repartam com presteza". Aqui ele fala de um ponto de vista específico ou de acordo com a "espécie", ao passo que, acima, falara em geral, ou de acordo com o "gênero" fazer boas obras. Que tenham presteza em partilhar. "[Que sejam] generosos". São "pessoas que repartem" com aqueles que passam necessidade e que se comportam com benevolência e disposição para compartilhar, de sorte que as pessoas possam obter algum benefício de sua parte. Assim como as coisas ou a caixa comum está disponível ao uso de todos os irmãos, o mesmo se dá com o rico. É difícil repartir, ser magnânimo. "Coinônico" (de koinonicos – generoso – em contraposição a canônico), pelo contrário, é que se gostaria de ser! "Que acumule tesouros" [6.19]. Isto explica a frase "nem depositem a sua esperança na incerteza [da riqueza]", etc. [1 Tm 6.17], pois é isso o que fazem os ricos. Aqui, porém, eles procuram um "fundamento" fiel, que dura para sempre. O mesmo diz Cristo: [Lucas 16.9]: "Fazei, para vós, amigos a partir da idolatria da riqueza" [Lc 16.9]. "Dai esmola e eis que tudo [vos será limpo]" [Lc 11.41]. Os ricos devem observar isso diante dos outros, daqueles que são atribulados pela penúria.
(Martinho Lutero, "Apontamentos do Dr. M.[artinho] à Primeira Epístola a Timóteo", in Martinho Lutero. Obras Selecionadas – Interpretação do Novo Testamento – Mateus 5-7 – 1 Coríntios 15 – 1 Timóteo, tradução de Luís H. Dreher. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2005, vol. 9, p. 594)
Isto é: considerarás somente a mim como teu Deus. Que significa isso e como se deve entendê-lo? Que significa ter um Deus, ou, que é Deus? Resposta: Deus designa aquilo de que se deve esperar todo o bem e em que devemos refugiar-nos em toda apertura. Portanto, ter um Deus outra coisa não é senão confiar e crer nele de todo coração. Repetidas vezes já disse que apenas o confiar e crer de coração faz tanto Deus como ídolo. Se é verdadeira a fé e a confiança, verdadeiro também é o teu Deus. Inversamente, onde a confiança é falsa e errônea, aí também não está o Deus verdadeiro. Fé e Deus não se podem divorciar. Aquilo, pois, a que prendes o coração e te confias, isso, digo, é propriamente o teu Deus.
Por isso, o sentido desse mandamento é exigir fé genuína e confiança de coração, que vai certeiramente ao verdadeiro e único Deus e se apega exclusivamente a ele. Isso quer dizer tanto como: toma cuidado no sentido de, apenas, eu ser o teu Deus e de forma nenhuma procures outro. Isto é: o que te falta em matéria de coisas boas, espera-o de mim e procura junto a mim, e se sofres desdita e angústia, arrasta-te para junto de mim e apega-te comigo. EU, eu quero dar-te o suficiente e livrar-te de todo aperto. Tão-só não prendas a nenhum outro o coração, nem o deixes em outro descansar.
Devo explanar isso algo mais claramente, a fim de que se entenda e perceba a coisa à luz de exemplos cotidianos de comportamento oposto. Há muito quem pensa que tem Deus e o bastante de tudo quando possui dinheiro e bens. Tão inabalável e confiadamente deles se fia e jacta que ninguém lhe vale coisa nenhuma. Eis que tal homem também tem um deus, Mamon, de nome, isto é, dinheiro e bens, em que põe o coração todo. Esse, aliás, é o ídolo mais comum na terra. Quem possui dinheiro e bens sabe-se em segurança, e é alegre e destemido como se estivesse assentado no meio do paraíso. Por outro lado, quem nada possui, duvida e desespera, como se de nenhum Deus tivesse notícia. Pois a gente vai encontrar bem poucas pessoas que estejam de bom ânimo e não se lastimem nem se queixem quando não têm Mamon. Isto se gruda e adere à natureza até a sepultura.
Assim, também, aquele que se vangloria de grande erudição, inteligência, poder, apreço, parentela e honra, e nisso põe sua confiança: esse também tem um deus; não, porém, o Deus verdadeiro e único. Isso, por sua vez, o percebes, quando se torna aparente, quão presunçoso, seguro e orgulhoso se é em razão desses bens, e quão pusilânime quando inexistem ou deles se é privado. Repito, por isso, que a explicação correta desse ponto é: ter um Deus significa ter algo em que o coração confia inteiramente.
Considera, outrossim, o que praticamos e fizemos até agora na cegueira sob o papado. Se alguém estava com dor de dente, jejuava em honra de Santa Apolônia; se temia incêndio, fazia de São Lourenço seu padroeiro; se pestilência, fazia votos a São Sebastião ou São Roque, e número incontável de semelhantes abominações, cada qual escolhendo o seu santo, adorando-o e invocando-lhe a ajuda em aperturas. Para cá também pertence a atividade excessivamente grosseira daqueles que fazem pacto com o diabo, a fim de que lhes dê dinheiro a rodo, ou lhes ajude em amores, proteja-lhes o gado, recupere-lhes bens perdidos, como fazem, por exemplo, os magos e os bruxos. Pois todos esses põem seu coração e confiança em outra coisa que não no Deus verdadeiro. Nada de bom esperam dele, nem junto a ele o procuram.
Assim entenderás com facilidade o que e quanto esse mandamento requer, a saber, o coração todo do homem e a confiança inteira, exclusivamente para Deus e mais ninguém. Para ter Deus – fácil te será inferi-lo – não se pode pegar e contê-lo com os dedos, nem é possível metê-lo em bolsa ou encerrá-lo em cofre. Quando o coração o alcança e lhe adere, isto sim, chama-se apreendê-lo. Mas aderir-lhe com o coração outra coisa não é senão confiar inteiramente nele. Por isso quer desviar-nos de tudo o mais, fora dele, e atrair-nos para si, visto ser o único e eterno bem. É como se dissesse: O que anteriormente procuraste junto aos santos ou confiaste receber do Mamon ou de qualquer outra coisa, espera-o tudo de mim e considera-me como aquele que te quer ajudar e derramar copiosamente sobre ti tudo o que é bom.
Eis que aqui tens o que é a verdadeira honra e culto divino agradável a Deus e por ele ordenado sob pena de ira eterna, a saber, que o coração não conheça outro consolo e confiança senão a ele. E disso não se deixará arrebatar, mas, sim, há de, sobre isso, arriscar e pospor tudo quanto existe na terra. Fácil te será compreender e julgar, em contraste com isso, como o mundo pratica apenas falso culto a Deus e idolatria. Porque jamais um povo foi tão ímpio que não instituísse e observasse algum culto divino. Cada um erigiu em deus especial aquele de quem fiava coisas boas, ajuda e consolo.
Assim, por exemplo, aqueles gentios que punham sua confiança em poder e domínio erigiram o seu Júpiter em deus supremo; os outros, que aspiravam a riqueza, felicidade ou prazer e dias bons, a Hércules, Mercúrio, Vênus ou outros; as mulheres grávidas a Diana ou Lucina, e assim por diante. Cada qual erigia em deus para si aquilo a que o atraía o coração. De sorte que, realmente, também na opinião de todos os pagãos ter um deus quer dizer confiar e crer. O erro, porém, está em que seu confiar é falso e errado, porquanto não se dirige ao único Deus, além do qual, na verdade, não há Deus, nem no céu, nem na terra. Por isso, os gentios, efetivamente, transformam sua própria fantasia e sonho a respeito de Deus em ídolo e fiam no puro nada. É o que se dá com toda a idolatria. Pois ela não consiste apenas em erigir uma imagem e adorá-la, mas, principalmente, num coração que pasma a vista em outras coisas e busca auxílio e consolo junto às criaturas, santos ou diabos, e não faz caso de Deus, nem espera dele este tanto de bem: que ele queria ajudar. Também não crê que procede de Deus o que de bem lhe sucede.
Existe, além disso, outro culto falso. Trata-se da maior idolatria que até agora praticamos, e ela ainda impera no mundo. Nela, também se fundamentam todas as ordens religiosas. Diz respeito apenas à consciência, quando essa procura ajuda, consolo e salvação em suas próprias obras e presume de forçar a Deus a lhe abrir as portas do céu, e calcula quantas doações fez, o número de vezes que jejuou, rezou missa, etc. Nessas coisas põe sua confiança e delas se abona, como se nada quisesse receber gratuitamente de Deus, mas obtê-lo por esforço próprio ou merecê-lo de modo supererrogatório [supérfluo], exatamente como se Deus estivesse de estar a nosso serviço e ser nosso devedor, nós, porém, os seus senhores feudais. Que é isso senão fazer de Deus um ídolo, sim um deus-maçã, e a si mesmo reputar-se Deus e em tal se erigir? Mas isso aí é um tanto erudito demais, impróprio para alunos de pouca idade.
Todavia, a fim de notarem e reterem bem o sentido desse mandamento, diga-se aos simples este tanto: deve confiar-se exclusivamente em Deus e dele prometer-se e esperar apenas coisas boas. Pois é ele quem nos dá corpo, vida, comida, bebida, nutrição, saúde, proteção, paz e todo o necessário em bens temporais e eternos. Além do que nos preserva de infortúnios e, quando algo nos sobrevém, ele nos salva e liberta. De forma que só Deus – conforme bastantemente se disse – é aquele de quem se recebe todo o bem e por quem se é livrado de todo infortúnio. A meu ver, essa também é a razão por que nós, alemães, desde tempos antigos, designamos a Deus precisamente com esse nome – mais fina e apropriadamente que qualquer outra língia – da palavra “gut”, por ser ele fonte eterna que transborda de pura bondade e do qual mana tudo o que é e se chama “bom”.
Pois, ainda que, de resto, muita coisa boa nos venha de homens, todavia, é receber de Deus tudo quanto se recebe por seu mandado e ordem. Nossos pais e todas as autoridades e, a mais disso, cada um relativamente ao seu próximo têm ordem de nos fazerem toda sorte de bem. De maneira que não o recebemos deles, senão de Deus, por intermédio deles. As criaturas são apenas a mão, o canal e o meio através de que Deus tudo concede, assim como dá seios e leite à mãe para dá-los à criança e dá grãos e toda espécie de frutos da terra para alimentação. Criatura nenhuma pode produzir, por si mesma, um só que seja desses bens. Homem algum se atreva, por isso, a tomar ou a dar algo, a menos que Deus o haja ordenado, a fim de reconhecermos que são dádivas de Deus e que também não se rejeitarão esses meios de receber bens através das criaturas, nem se procurarão, presunçosamente, maneiras e caminhos diversos dos que Deus ordenou. Isso não seria receber Deus, senão procurar de si mesmo.
Atente, pois, cada qual em si mesmo, para que esse preceito seja magnificado e exaltado acima de todas as coisas e não seja levado de galhofa. Inquire e esquadrinha o teu próprio coração miudamente. Descobrirás, então, se se apega ou não com Deus apenas. Se tens um coração que é capaz de esperar somente coisas boas de Deus, especialmente em aflições e penúria, e que, a mais disso, sabe renunciar e abandonar tudo o que não é Deus, então tens o único e verdadeiro Deus. Se, inversamente, o coração se apega em outra coisa, de que se promete, a título de consolo, mais bem e socorro que de Deus, e se, ao se encontrar situação desesperadora, foge dele em vez de para ele refugir, então tens um outro deus, um ídolo.
A fim de que se advirta, por conseguinte, que Deus não quer ver isso tratado de resto, porém, seriamente, quer velar no seu cumprimento, juntou ao preceito, primeiro, uma terrível ameaça, em seguida, uma bela e confortadora promessa, que também se devem inculcar bem e, nelas, martelar junto à mocidade, para que as tome a peito e as lembre.
(Catecismo Maior de Martinho Lutero, in “Livro de Concórdia – As Confissões da Igreja Evangélica Luterana”, Editoras Concórdia/Sinodal/Ulbra, 6ª ed., 2006, pp. 394-399)
O artigo da advogada e pastora Taís Amorim de Andrade Piccinini foi publicado no portal Migalhas:
Igrejas fora da lei
Sigo torcendo (e intercedendo) para que "vire moda no Brasil as igrejas estarem legais diante da lei".
Atuo na área de direito eclesiástico desde 2002. O início dessa jornada - como todo início costuma ser, era ainda limitado e mais focado em análises e estudos do movimento cotidiano de uma entidade religiosa, a fim de conseguir dirimir as necessidades das igrejas e poder relacioná-las e adequá-las à nossa legislação pátria.
Por volta do ano de 2008 minha atividade profissional passou a ser quase que exclusiva para essa área. Comecei a escrever artigos específicos e em 2010 surgiu a ideia de publicar um livro com todo o conteúdo que eu vinha reunindo e aplicando no meu dia a dia, em prol das entidades que atendia. Esse livro (manual prático de direito eclesiástico) foi publicado, já está em sua segunda edição (revisada) e até o momento vendeu por volta de 4000 exemplares.
Desde então, venho ministrando cursos e palestras, dando assessoria a igrejas e entidades que entendem a importância de estarem regulares diante da lei.
São, portanto, 15 anos estudando e aplicando esse tema e questões atinentes, na minha rotina profissional. Ao longo desses anos, foram diversos os atendimentos feitos, incontáveis perguntas respondidas, um sem-número de orientações dadas. Nos 18 capítulos do meu livro, aponto questões práticas e necessárias para o bom e correto funcionamento de uma entidade religiosa: desde o estabelecimento de um estatuto adequado, a forma de lidar com voluntários, pastores, funcionários, membros… até orientação no âmbito tributário, para regularização de fluxo financeiro e contábil.
Mas, por mais que muitos e muitos pastores acessem essas informações, participem dos cursos, busquem assessoria jurídica, fazendo um panomorama destes anos de trabalho até aqui, confesso que me sinto triste: uma boa parte das igrejas atendidas limitam-se a apenas ajustar seu estatuto (muitas vezes visando apenas a proteção da igreja ou da própria diretoria), sem, contudo, observar outros necessários ajustes, tão importantes quanto, como: organização contabil, relação com voluntários e funcionários, remuneração pastoral e por aí vai…
Sim, há ainda aquelas igrejas que erram pela falta de conhecimento, mas há também aquelas que, mesmo conhecendo, não colocam em prática. E isso, nem sempre é porque a igreja nao é idônea. É porque, simplesmente, não dão a devida importância para tal questão.
E nesse cenário, como advogada mas também pastora evangélica, me pergunto: onde a igreja no brasil pretende chegar??? Reclamamos de uma "perseguição", nos manifestamos nas redes sociais pedindo para o povo votar contra a consulta pública que pretende estabelecer um projeto de lei para acabar com a imunidade tributária nas igrejas, mas sequer cuidamos da regularização legal das nossas igrejas!!!!
Quer saber?
Temos liberdade em excesso no nosso país.
Não há controle, não há fiscalização suficiente para pressionar as entidades para que mantenham uma boa e ajustada administração. A verdade é que poucas (muito poucas) sofrem as consequências de uma gestão indevida e nesse ambiente de impunibilidade, eu vejo cada vez mais igrejas desajustadas diante da lei!
Dia desses, uma estagiária que trabalha em meu escritório enviou no grupo de WhatsApp da equipe uma matéria que citava que uma igreja tinha sido condenada a pagar 10 mil reais de indenização a um vizinho, por ter causado incômodo pelo excesso de barulho. E ela (que atua na nossa área de abertura e regularização/alvarás/licenças) mandou a matéria com o comentário: "…se a moda pega…"
Aquela menção me incomodou! Se a moda pega, quantas igrejas seriam condenadas? Ora, "se a moda pega" me parecia dizer: são muitas igrejas que excedem o barulho e seriam muitas as condenações!!
E minha reação foi responder: "deveria virar moda as igrejas se regularizarem e se manterem em ordem diante da lei!"
Amo meu trabalho.
Recebi essa missão; entendo como um chamado e cumpro, profissionalmente, esse árduo mister por que Deus assim me ordenou.
Confesso que é mais fácil (e muito mais rentoso!) Advogar para bancos, empresas (que era o que eu fazia antes).
Mas aceitei a missão, porque sei da minha responsabilidade no reino.
Ele me mandou "espalhar" meu conhecimento, aumentar meu leque de atuação para sarar outras igrejas também. (Porque eu sempre atendi a igreja da qual faço parte e por que ela cresce muito, eu poderia ficar apenas com ela como cliente). Deus me falou (e ainda me fala) de forma muito clara: “a igreja no brasil não sabe o que é perseguição". E é verdade. E o que eu concluo é que, antes que viva isso de fato, a igreja no Brasil precisa aprender o que é estar legal diante da lei.
E eu posso garantir: falta muito!
Tenho muita alegria e orgulho de ser filha, pastora e advogada de uma igreja que há anos atrás entendeu essa importância e investe para manter incólume sua administração. Mas minha alegria será ainda maior quando eu puder vislumbrar mais e mais igrejas vivendo essa mesma realidade.
Num misto entre a vontade de desistir dessa área e a convicção de que Deus me quer insistindo em ser instrumento para ajudar a ajustar legalmente a igreja brasileira, sigo torcendo (e intercedendo) para que "vire moda no Brasil as igrejas estarem legais diante da lei" e para que os versículos 13 a 16 de Pedro capítulo 2, então, passem a ser, de fato, observados:
"Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior;
Quer aos governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem.
Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo bem, tapeis a boca à ignorância dos homens insensatos;
Como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus."
E que Deus tenha misericórdia de nós!
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*Taís Amorim de Andrade Piccinini é advogada especialista em Direito Eclesiástico e pastora da Igreja Bola de Neve Vila Velha/ES.
Os países onde o dinheiro vivo está prestes a ser extinto
Lauren Comiteau
Em tempos de turbulência econômica, não é de se espantar que algumas pessoas prefiram guardar seu dinheiro à moda antiga: em espécie, em algum cofre ou em algum esconderijo. Pelo menos até a tempestade passar.
Mas em alguns países do mundo, como a Holanda, o dinheiro em espécie está praticamente em vias de extinção - a ponto de alguns estabelecimentos simplesmente recusarem cédulas ou moedas.
Da badalada rede de lojas de comida natural Marqt à padaria do bairro, todos preferem receber pagamentos em cartão de débito ou crédito. Alguns dos varejistas chegam a definir essa prática como "mais limpa" e "mais segura".
Eu fiz uma experiência: deixei o cartão em casa e tentei ver até onde poderia chegar com um punhado de dinheiro vivo em Amsterdã.
Espanto e resistência
Como era de se esperar, fui recebida com expressões de espanto e com resistência quando quis pagar meu aluguel em dinheiro.
"Não me lembro da última vez que recebemos pagamento em dinheiro", conta Marielle Groentjes, contadora da imobiliária que administra meu apartamento, há dez anos no cargo.
"Não gostamos de ter dinheiro aqui na agência. Não temos cofre e os bancos nos cobram para fazer um depósito."
Mas são itens menores e mais baratos que dão mais dor de cabeça. Se não sou impedida de fazer compras em lojas que só aceitam cartões, sou obrigada a ficar em uma fila enorme de pessoas pagando em dinheiro, enquanto vejo outras resolvendo suas vidas rapidamente nos caixas automáticos.
Os euros no meu bolso não servem para eu comprar um sanduíche nem para que eu estacione o carro em Amsterdã.
"Dinheiro em espécie é um dinossauro, mas ele ainda não vai ser extinto", afirma Michiel van Doeveren, conselheiro sênior no Banco Central holandês, o DNB.
Segundo ele, é a logística que está encarecendo as transações em dinheiro, uma vez que ele precisa ser transportado, vigiado, contado e registrado. "É importante que a economia eletrônica ganhe mais espaço porque queremos adotar pagamentos mais eficientes."
Como ganhar mais
Os pagamentos eletrônicos nas lojas e supermercados da Holanda ultrapassaram as transações em dinheiro pela primeira vez em 2015, por uma margem estreita: 50% delas em cartões de débito, 49,5% em dinheiro e 0,5% em cartões de crédito.
Um movimento conduzido por um grupo de bancos e varejistas holandeses quer que essa proporção suba para 60%-40% até 2018. Eles argumentam que pagamentos eletrônicos são mais baratos, mais seguros e mais convenientes.
Assim como a Holanda e seus vizinhos na Escandinávia, a Suécia está entre os primeiros na corrida pela erradicação do dinheiro vivo. Mas nem todo o mundo simpatiza com a ideia.
"Trata-se de um problema enorme. Para pequenas empresas, é muito caro depositar dinheiro no banco", afirma Guido Carinci, diretor da associação de pequenos empresários TOMER. Ele diz que tem que pagar uma taxa de 300 coroas suecas por mês (cerca de R$ 120) para uma empresa que está autorizada a fazer depósitos em sua conta.
Segundo ele, os bancos lucram bastante com a cobrança de taxas sobre transações eletrônicas, enquanto não faturam com o dinheiro vivo. Isso tira o incentivo para que eles aceitem cédulas ou moedas.
Muitas lojas suecas já despacharam suas caixas registradoras, incluindo a gigante das telecomunicações Telia, cujas 86 filiais pararam de aceitar dinheiro vivo em 2013. Os ônibus suecos já não aceitam pagamento em dinheiro há vários anos. E até os sem-tetos que vendem revistas na rua aceitam receber em cartão ou através de aplicativos de celular.
O problema se tornou tão grave que a maioria dos suecos enfrentam o dilema de o que fazer com a pilha de notas que os bancos não querem. Alguns estão até recorrendo a guardar tudo "embaixo do colchão", segundo Bjorn Eriksson, diretor da empresa de segurança Säkerhetsbranschen.
Laços culturais
Apesar disso, as atitudes variam bastante dentro da Europa e em outras regiões do mundo. Algumas culturas relutam firmemente em desistir do dinheiro em espécie. É o caso, por exemplo, da Alemanha, cujos consumidores acreditam que o dinheiro vivo os ajuda a controlar melhor seus gastos, segundo um estudo realizado recentemente pelo Banco Central alemão.
Na superpotência da Europa, mais de 75% dos pagamentos ainda são feitos em dinheiro. A Itália é ainda menos adepta das transações eletrônicas, com 83% dos pagamentos em dinheiro.
E por mais que os americanos adorem suas notas verdinhas, o país está começando a viver um movimento no sentido de se tornar mais eletrônico. No ano passado, eles adotaram cartões de crédito com chip - uma década depois de muitos países europeus.
Em janeiro passado, várias filiais da rede de lanchonetes Sweetgreen pararam de aceitar dinheiro vivo, inclusive em sua loja em Wall Street, onde a maioria dos jovens executivos usam aplicativos de "carteira" em seus celulares, como o Apple Pay, por exemplo.
Os avanços na tecnologia móvel também está mudando costumes em alguns países da África. No Quênia e na Tanzânia, o serviço digital M-Pesa permite que milhões de pessoas hoje paguem suas contas, cobrem seus salários e realizem pequenas transações em mercados locais através de suas contas em seus celulares.
Leia a sábia, divertida e profunda história de Fininho, o coveiro que se formou em Filosofia, segundo a entrevista que ele concedeu a Camila Appel e foi publicada na Folha.
Mais abaixo segue um vídeo que foi realizado pela Istoé em 2013:
Conheça Fininho, o surpreendente coveiro formado em filosofia
Conversei com Fininho, um homem que me tocou com a sua visão de mundo e sua forma de habitar um lugar tão incomum, o cemitério. Um ser invisível para a sociedade, ele passou 20 anos de sua vida fechando caixões, cavando espaços na terra para uma espécie de plantação repugnada, uma matéria orgânica e ao mesmo tempo inorgânica, com vida, mas sem a vida.
Osmair Camargo Cândido ganhou o apelido Fininho por ser esguio. Ele foi faxineiro na Universidade Presbiteriana Mackenzie e sonhava em estudar lá. Conseguiu cursar a graduação de filosofia com acesso a bolsa de estudos. Formou-se filósofo. Entrou para a profissão de coveiro por um concurso do Serviço Funerário do Munícipio de São Paulo. “Sou coveiro por escolha própria”, diz. Hoje, trabalha no Cemitério da Penha.
Gosta de ler teatro. Ao falar sobre a importância do teatro grego por tratar da essência do teatro como catarse, ganhou de presente um livro de peças que eu levava na bolsa. Fininho atentou para o autógrafo na segunda página, e eu dei uma titubeada, mas quando perguntou se eu já tinha lido Antígona, ganhou o livro de vez. “Se a pessoa não compreender o teatro grego, não compreendeu o teatro. Vai passar vergonha numa discussão. Se ele não leu Antígona, não vai entender a catarse, a interpretação que se pode ter da vida sem o uso da razão, apenas com o teatro. Não sou eu que digo isso. Quem falou foi um prussiano. E o nome dele é Nietzsche”, disse.
Ele alimenta uma ambição na vida: publicar um livro que escreveu sobre o dia a dia de um coveiro. E, no fundo, parece torcer para que a publicação dessa entrevista o ajude nesse sentido.
Casado com uma costureira e com filhos (não me contou quantos), diz que a morte nada mais é do que um ponto no tempo e a lembrança da existência do instinto.
O que é a morte para você?
Um ponto no tempo. Qualquer coisa é um ponto no tempo. A morte é a lembrança do instinto. O homem cria a civilização, a sociedade, a amizade, mas existe seu instinto. É por isso que ele quer copular o tempo todo. Para que sua vida continue. A morte não é outra coisa senão um ponto no tempo. Fora isso você vai ficar fantasiando, inventando…
O absurdo é a vida. Quem falou isso foi Albert Camus e eu concordo com ele. Você não sabe como nem por que começou, como nem por que acaba. A vida é o intervalo entre o nascimento e o desaparecimento. Agora a morte cada qual dá o sentido que quiser. Tem gente que diz que é renascer, tem quem diga que é o fim de tudo. Camus tinha essa impressão, do absurdo da vida. Já o conterrâneo dele, Diderot, dizia que era o vazio. Não é interessante?
Você prefere ser chamado de coveiro ou de sepultador?
Ah, sepultador é fantasy. Eu sou coveiro mesmo. Quem faz cova é o quê?
O que diz na sua carteira de trabalho?
Diz que eu sou sepultador. Mas é fantasy.
Você gosta do que faz?
Apaixonado.
O que te cativa na profissão?
Acho que você poderia formular assim: o que há nas outras profissões que não há na minha atividade.
Se você pudesse ser qualquer coisa no mundo, o que seria?
A mesma coisa que sou hoje. Se eu pudesse renascer, eu pediria o favor de ter a mesma vida. É muito bom.
O que não é bom então?
O desconhecimento. O descaminho. Quem pelo dinheiro vive, é por ele mesmo que dedicará sua vida e perderá sua virtude, perderá sua coragem, perderá sua própria vida. Tem gente que vive a vida inteira, perde a juventude, correndo atrás do dinheiro, para quando estiver velho, gastar tudo tentando restabelecer a saúde.
Você acha que seu ofício interferiu na visão que você tem do dinheiro?
Evidente. Evidente que sim. Óbvio.
Você lembra de algum momento que isso te marcou?
Vários… Eu refleti bastante no sepultamento de Plínio de Arruda Sampaio. Eu via nele uma dedicação incomum. Ele tinha posses mas se dedicava de um modo à política que me pareceu muito tocante. Um dia eu o vi na avenida paulista, muito debilitado, já doente, distribuindo santinho do partido dele lá. Eu comentei que ele precisava descansar. Ele respondeu: “um homem deve chegar até a morte cumprindo aquilo que ele pensou, aquilo que o coração ordenou”. Eu fiquei muito emocionado. Aquilo que se acredita tem mais valor do que aquilo que se tem. Porque, na verdade, há a impressão de se ter as coisas. Mas é só uma impressão, porque ninguém tem nada. Não poderá transportar nada porque não se sabe para onde vai. Vamos a lugar nenhum. Viemos do nada, seguimos para lugar nenhum. Seguimos para hipóteses. Uns dizem que vão para o céu, outros para o inferno…
Como as pessoas reagem quando você conta que trabalha como coveiro?
Ah, todo mundo vê o coveiro como um fracassado. Um fracassado social. Porque o sucesso, o sucesso na América do Sul, está no dinheiro. Às vezes eu apelo um pouco né, falo ‘olha, fulano de tal foi coveiro’, como o Rod Steward – que foi coveiro também.
Quem é você?
Eu sou neto de Silvestre Camargo e da dona Albertina Camargo. Filho de Dirce Camargo, irmão do Odair, da Vera e da Iasmin. Esse cara sou eu. Eu sou bisneto de pessoas que foram escravizadas e, portanto, dado ao gosto popular. Gosto e leio toda a obra de Machado de Assis, com toda aquela pompa dele, mas sou dado também à literatura de Lima Barreto.
Sua profissão também faz parte de quem é você?
Sim.
Você gosta de trabalhar dentro de um cemitério?
Claro. Quem tem o privilégio de ouvir tanto passarinho cantando no serviço? A parede me tira a visão do horizonte. Eu não preciso da parede. Tem gente que precisa. Eu não preciso de parede, eu não preciso de gravata, preciso só do mínimo para viver. Porque assim eu não incomodo o outro. Eu não tiro o pão da boca de ninguém. E morro com a minha consciência tranquila, mesmo com a barriga vazia. O cemitério é um lugar dado à calma, à tranquilidade, ao sossego. É um lugar de vida (Fininho arranca uma pitanga da árvore e come).
Você já se emocionou em enterros ou costuma procurar se distanciar?
Ih, já chorei um bocado. Outro dia foi triste. Eu estava fazendo o sepultamento de um militar lá no Araçá (Cemitério do Araçá). Estava aquele clima, todo o comando da Polícia Militar lá. O cara tinha sido morto pelas costas. Estava muito calor e chovendo. Eu estava sentindo um negócio gelado e quente nas minhas costas enquanto eu fazia o sepultamento… achei que era a chuva. Aí eu escuto uma menina falar: moço, fala para meu pai levantar. Aí eu vi que aquilo nas minhas costas era o choro da menina.
Para você trabalhar com cemitério você tem que saber do trato humano, saber se comunicar, ou como não se comunicar, perceber os sinais da pessoa, procurar tratar da melhor maneira possível, senão você pode ser mal interpretado. Para lidar com a morte, você não pode ter mecanicismo, você não pode ser frio, indiferente.
As pessoas normalmente falam com você, ou você passa invisível?
Um coveiro tem que ser quase invisível. Porque a pessoa está em profundo desagrado com o mundo. Mesmo quando você vê aquele tom de resignação, a pessoa também está em profundo desagrado. Qualquer coisa que for feita que não for de seu agrado, pode causar imensa confusão. Tem que se tomar cuidado com qualquer gesto fora do ritual.
Você conta com o dia de amanhã?
Eu não. Hoje para mim está ótimo. Eu posso semear algumas coisas no dia de hoje. Mas pode ser para outra pessoa colher. Eu me alimento com o hoje. E curto o hoje. Se tiver amanhã, agradeço.
Como é esse “curtir o hoje”?
Sabe o que é mais importante na vida? A própria. Lógico que eu não sou nenhum hedonista. Não vou ter aquela vida de mil prazeres. Cada qual que encontre seu melhor jeito de viver. O dinheólotra vive que nem um louco atrás de bolsa de valores, queda do dólar, política e não sei o que… eu não conseguiria viver assim.
Quais dicas você poderia dar para quem quer viver o hoje?
Acorde bem humorado. Humor é fundamental. Aproveite as delícias da vida, aquilo que você acha bom. Faça o que você gosta de fazer. Você tem que estar próximo daquilo que você deseja. Nem precisa ter aquilo que você deseja. Estar próximo é uma situação muito interessante. Você tem a expectativa. Na vida se pode ter expectativas, nunca certezas. Eu não tenho certeza do dia de amanhã, mas eu tenho a expectativa. A manutenção da própria vida… você já viu como é interessante um copo de água?
“Viver não é acumular dias”, como disse Antônio Penteado de Mendonça.
Como você sabe a hora certa de fechar o caixão?
É o timing. Não pode ser zé mané. Eu tenho que fazer com que você acorde para a hora. Você está embebida pela morte. Então eu tenho que dar um toque. Eu pego e seguro a tampa do caixão, sem pressa. Cada um tem uma técnica, a melhor é essa, porque você dá um sinal. Chegar e tampar o caixão é uma grosseria, uma estupidez. Pedir também é desagradável. Agora, quando eu pego a tampa, eu mostro. Quando você sepulta uma pessoa, não é só uma pessoa que você está sepultando. Você vai sepultar um sonho, você vai sepultar o amor, a ilusão, aquele apego. Não é só um corpo. Você tem que se colocar na posição do cara. O processo de morte, na minha profissão, é embrutecedor. A percepção da morte não é para todos.
Quais são as reações mais comuns?
Agressividade, riso, resignação, alguns assobiam. Já levei um soco que me tirou do chão. Era um político. Eu falei: já quase não tenho dente, você vem me tirar os que restam, mas que xarope! A filha me pediu para eu não brigar com seu pai. Fiz o sepultamento todo com gelo na boca. A esposa dele comentou depois que ele tinha bebido.
Você acredita em espíritos?
Nunca dei trela para isso não. Não tenho tempo para isso. Essa é uma falsa questão. Sabe o nome disso? Sofismo. É uma falsa questão. Leia um livro que se chama “De Anima” de Aristóteles, o pai da lógica formal. O primeiro livro que eu me apaixonei foi o do Newton (Isaac Newton), Aristóteles foi o segundo.
As coisas andam, se movem, você concorda comigo que a terra gira? Mas o que quer dizer que a terra gira? Oras, se uma coisa gira, logo tem que ter o primeiro giro, o motor. É aquela pergunta que seu filho vai te fazer: mamãe, por que a terra gira? Se ninguém ta empurrando, por que ela gira? De onde vem as forças? De onde vem a matéria? É daí que vem “De Anima” – a matéria é inanimada. Teve um que morreu pensando nisso, o Einstein. Fez “A Teoria do Tudo” e morreu.
Sobre os espíritos: pensar sobre eles não é uma questão, não é um problema. René Descartes vai falar: penso, logo existo. Agora o outro, um alemão o qual dediquei mais da metade da minha vida, vai falar assim (Fininho refere-se à Immanuel Kant): muito bem, quem é esse eu? Então, ele escreve uma nova metafísica. Ele vai dizer os seguinte: são acidentes. Ele não fala sobre Deus ou sobre a alma, porque de que adiantaria? Ele é racionalista, ele é um iluminista, ele é o pai da razão, um divisor da filosofia na Alemanha.
Então, eu digo que é um sofismo porque falar sobre a existência ou não de espíritos é a criação de um falso problema.
Vamos falar de causalidade. Essa árvore está aí porque um dia tinha uma sementinha aí – você vai buscar a causa da existência da árvore com a razão e por aí vai. Mas se a sua razão buscar as causas, logo você vai chegar numa causa não causal. Logo, a razão não encontra explicação. Aí entra a fantasia. Eu vou deixar isso aí como um postulado. Na visão de Kant, Deus é um postulado – porque a razão não alcança.
Você já pensou no que querem que seja feito com seu corpo quando você morrer?
Eu não. Eu vim de graça, vou embora de graça. Já ouviu aquela música? (cantarola) A bruta flor do querer… Então, é isso. (a música é “Querer” de Caetano Veloso).
Qual é a relação com essa música?
O querer! Mas minha música predileta é uma de Aldir Blanc: caía a tarde feito um viaduto, e um bêbedo trajando luto, me lembrou Carlitos… Ele fez músicas para a Elis Regina.
Você já pensou em compor?
Quê? Com tanto compositor bom por aí eu vou me meter com isso? Vou compor onde tem João Bosco? Não…
Você já fez amizade com alguém que conheceu num velório?
Eu já passei o Natal com uma senhora que vinha no Araçá (cemitério do Araçá, onde trabalhava) para conversar comigo. A família me pediu para levar todos meus netos lá no Natal. Levei. Ela me chamou no hospital para vê-la antes de morrer… Eu gostava muito dela. É importante isso no mundo, encontrar afinidades. (cantarola) É impossível ser feliz sozinho. Não é?