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domingo, 22 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 22


ENCARNAÇÃO E TRINDADE

E eu rogarei ao Pai. [João 14.16a]

“Portanto, se guardarem meus mandamentos, viverem juntos em harmonia e fraternidade, mostrando assim que me amam, então, devem resignar-se com o fato de o diabo os importunar. O mundo mostrará sua hostilidade e os afligirá e atormentará sem fim. Ademais, os falsos cristãos e as facções retribuirão o amor de vocês com todo tipo de maldade. Não permitam que isso os intimide, mas perseverem e permaneçam em meu amor. Vocês não passarão necessidade e não serão abandonados, pois não ficarei sentado, ocioso, lá em cima, no céu, e esquecerei vocês. Nada farei além de ser seu amado sacerdote e mediador; orarei e suplicarei por vocês ao Pai para que ele lhes dê o Espírito Santo, que os consolará, fortalecerá e preservará em todas as necessidades, para que vocês permaneçam em meu amor e possam suportar alegremente tudo que lhes acontecer por minha causa”.

Mas, como é possível reconciliar as palavras “Eu rogarei ao Pai” com aquelas ditas acima, de que “o que pedirdes em meu nome isso Eu farei”? Ali, Cristo mostra que é verdadeiro Deus e que ele mesmo quer conceder o que lhe pedirem. Aqui, porém, ele diz que rogará ao Pai para que este lhes mande um Consolador. Como se pode afirmar do verdadeiro Deus que ele pedirá algo de alguém outro? Pois, certamente, não é próprio de Deus estar sujeito a alguém outro e ser obrigado a receber algo dele. Não, Deus, mesmo é capaz de dar e fazer todas as coisas.

Por isso, quando a esperta razão e as mentes sagazes escutam tais palavras de Cristo, imediatamente exclamam: “Oh, essas não são palavras de Deus, mas de um simples ser humano. Pois se ele fosse Deus, teria de dizer: ‘Eu lhes mandarei o Consolador’”. Dessa maneira, querem mandar o Espírito Santo para a escola; bancam os espertos com sua gramática e sua lógica e nos ensinam que a palavra “rogar” não é própria de Deus e que, por conseguinte, Cristo não pode ser Deus. Então, ampliam e enfatizam isso com sua retórica, fazendo com que o Espírito Santo pareça uma criança, sim, um imbecil, que não sabe como falar. Independentemente do que o Espírito Santo faz e diz, deve estar errado. Portanto, criticam e sabem tudo melhor. Mas não são suficientemente piedosos para juntar os dois versículos, arrancando uma parte do contexto aqui e outra ali, e onde encontram uma palavra ou duas, lançam-se sobre elas e enganam as pessoas para que não vejam o que mais a Escritura tem a dizer sobre isso. Sim, se é válido tomar uma palavra ou duas de um contexto todo e ignorar o que vem antes e depois ou o que a Escritura afirma alhures, então, eu também poderia interpretar e torcer toda a Escritura e qualquer discurso da maneira como me aprouvesse.

Mas a regra é esta: olha o texto todo, inclusive as palavras que o precedem e as que o seguem. Então constatarás que Cristo fala tanto como Deus quanto como ser humano; com isso, evidenciar-se-á, poderosamente, como ensinamos e cremos, que Cristo é verdadeiro homem e, também, verdadeiro Deus. Pois, como se pode expressar em quaisquer palavras que ele fala como Deus e como homem ao mesmo tempo, visto que tem duas naturezas distintas? Se ele sempre falasse como Deus, não se poderia provar que ele [também] é verdadeiro homem. E se ele falasse sempre como homem, não se perceberia que ele também é verdadeiro Deus.

Por isso, Cristo precisa alternar, usando, às vezes, palavras que refletem sua natureza divina e, outras vezes, empregando aquelas que são próprias à sua natureza humana. Contudo, é a mesma pessoa que fala, às vezes, como se fosse tão-somente Deus e, outras vezes, como se fosse apenas ser humano. Pois, se Cristo é tanto Deus quanto ser humano em uma só pessoa, por que não deveria dizer também isso e aquilo de si mesmo sem fazer uma distinção? Mas, aqui, ele emprega ambas as maneiras de falar em rápida sucessão em um único sermão. Porque a mesma pessoa que disse há pouco “o que pedirdes em meu nome isso eu farei”, também declara aqui: “E eu rogarei ao Pai”. Isso acontece visando a tornar certo e claro este artigo: que, nessa pessoa, Cristo, não há somente divindade nem somente humanidade, mas que ambas, tanto a natureza divina quanto a humana, encontram-se indivisas em uma só pessoa.

Pois dissemos suficientemente que, na essência divina de Cristo e do Pai, há duas pessoas distintas. Por isso, quando falamos de Cristo, aqui, também é preciso ensinar claramente que ele é uma pessoa, mas que há duas naturezas distintas, a divina e a humana. De novo, exatamente como lá, a natureza ou a essência divina permanece não-misturada no Pai e em Cristo, assim, aqui, a pessoa de Cristo permanece indivisa. Por isso, os atributos de cada natureza, a humana e a divina, são atribuídos a toda a pessoa, e dissemos de Cristo: “O homem Cristo, nascido da virgem Maria, é onipotente e faz tudo que pedimos – não, contudo, de acordo com a natureza humana, mas de acordo com a natureza divina, não por causa de seu nascimento de sua mãe, mas, porque ele é o Filho de Deus”. E, mais, “Cristo, o Filho de Deus, roga ao Pai, não de acordo com sua natureza ou essência divina, segundo a qual ele é igual ao Pai, mas porque ele é verdadeiro homem e filho de Maria”. Portanto, é necessário juntar as palavras e compará-las de acordo com a unidade da pessoa. As naturezas sempre devem ser diferenciadas, mas a pessoa deve permanecer indivisa.

Assim como se crê nele como sendo uma pessoa, Deus e homem, também nos convém falar dele como o requer cada natureza. Algumas palavras indicam sua natureza humana; outras, sua natureza divina. Por isso, deve-se considerar o que Cristo diz de acordo com sua natureza humana e o que ele diz de acordo com sua natureza divina. Pois, onde isso não é observado e apropriadamente diferenciado, segue-se necessariamente todo tipo de heresia, como aconteceu em tempos passados, quando algumas pessoas afirmaram que Cristo não era verdadeiro Deus, e outras asseveraram que ele não era verdadeiro homem. Pois elas não foram capazes de seguir o princípio de diferenciar entre os dois tipos de discurso com base nas duas naturezas.

Pois Cristo falou, muitas vezes, como o homem mais humilde da terra quase não deveria falar. Por exemplo, quando ele diz: “Eu não vim para ser servido, mas para servir” [Mt 20.28]. Com essas palavras, ele se torna completamente servo entre todos os seres humanos, embora seja verdadeiro Deus e Senhor sobre todas as criaturas, ao qual todos devem servir e adorar. Igualmente, Salmo 41[.4], ele faz de si um pecador e afirma que está sendo punido por causa do pecado. Isso, naturalmente, está fora de cogitação segundo a natureza divina. Por outro lado, ele, frequentemente, emprega o discurso da majestade enaltecida, que nenhum anjo ou criatura deveria usar, embora estivesse na forma e figura mais humilde enquanto vivia neste mundo, como, por exemplo, Jo 6[.62]: “Que será, pois, se virdes o Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava?”

(LUTERO, Martinho. Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado. 1537-1538. Tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 139-142)

(este comentário de Lutero sobre João 14:16a 
continua no excerto ao qual se chega clicando aqui)



sábado, 22 de abril de 2017

Sobre falar, engasgar e soltar pum


Alegre o seu feriadão com a leitura divertidíssima da crônica de Luis Fernando Verissimo, publicada no Estadão em 06/04/17:

Em comum

Uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais, sendo a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum

O homem é o único animal que fala pela mesma razão que é o único animal que se engasga. Algo a ver com a localização da laringe. Ou é da faringe? Enfim, algo no homem lhe dá o dom da expressão verbal que nenhum bicho tem, mas os bichos, em compensação, nunca se veem na situação embaraçosa de dizer o que não deviam ou se engasgar na mesa.

O fato também sugere uma questão: foi a necessidade que o homem — ou, mais provavelmente, a mulher — sentiu de falar que determinou a eventual localização privilegiada da laringe, ou foi o acaso da laringe humana evoluir como evoluiu que determinou a fala?

O ser humano desenvolveu a fala por um acidente anatômico e assim virou gente ou a linguagem foi uma etapa lógica da sua evolução, porque para ser gente só faltava falar?

O próprio Darwin chegou a especular que a fala começou com a pantomima, com os órgãos vocais inconscientemente tentando imitar os gestos das mãos.

A linguagem oral teria se desenvolvido porque, antes da invenção do fogo, a linguagem gestual não era vista no escuro e as pessoas, ou as pré-pessoas, não podiam se comunicar. A linguagem é filha da noite!

Teorias estranhas sobre a origem da linguagem não faltam.

No século XVII um filólogo sueco afirmou com certeza que no Jardim do Éden Deus falava sueco, Adão falava dinamarquês, e a serpente falava francês (Sempre a má vontade com os franceses).

Na sua infância — a palavra “infância”, por sinal, vem do latim “incapacidade de falar” — a humanidade não produzia palavras mas certamente produzia sons, e uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais para identificá-los e que esta foi a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum.

Foi chamada de “teoria bow-wow”, e o nome já a desmentia, pois “bow-wow” é como latem os cachorros anglo-saxões, enquanto os luso-brasileiros fazem “au-au” e os japoneses, segundo os japoneses, “bau-bau”.

A única linguagem comum a toda a humanidade é a dos ruídos involuntários do nosso corpo.

Toda a espécie humana espirra e tosse da mesma maneira, não há como variar a pronúncia de um arroto e nada simboliza melhor a nossa igualdade intrínseca do que o pum, que todos dão da mesma maneira, não importa o que digam do pum alemão.

Eis uma receita para o entendimento, inclusive entre os grupos e facções em choque no Brasil de hoje, esquerda x direita, políticos x Lava-Jato etc. Todos os confrontos entre partes litigantes deveriam começar com um coro de ruídos elementares, para enfatizar nossa humanidade em comum.



quinta-feira, 13 de abril de 2017

Discurso "ético" evangélico afunda junto com o Brasil


Política é um troço engraçado.

Não combina com religião e futebol, todos nós sabemos, mas certos indivíduos insistem em negar a sabedoria popular.

Depois reclamam....

Reclamam quando seu discurso empolado, todo bonitinho, supostamente "ético", termina na cadeia junto com o candidato que eles juraram que era honesto e tão, mas tão merecedor do seu voto que todos demais "irmãos" deviam segui-lo cegamente.

Se é que alguém vai terminar na cadeia.

Já que só os candidatos dos outros nunca prestaram.

Como se política no Brasil fosse algo sério...

Como se ninguém soubesse como se dão as negociações políticas nos bastidores imundos dos palácios municipais, estaduais e nacionais, aqui e alhures.

Atribui-se a Otto von Bismarck (1815-1898), o grande unificador da Alemanha, a famosa frase, muito apropriada ao nosso trágico momento, que diz que "os cidadãos não poderiam dormir tranquilos se soubessem como são feitas as salsichas e as leis". 

Como se cada eleição aqui fosse uma mísera tentativa de tentar tirar um pouco dos banquetes das oligarquias, transformá-lo em fubá, e repartir um tiquinho que fosse com quem tem fome.

Como se pudesse haver democracia com uma rede de televisão que domina e manipula a informação a seu bel prazer o tempo todo e um pouco mais.

Elege e derruba quem quiser...

Como se tudo não fosse um jogo de cartas marcadas.

Como se, longe do público, os políticos rivais e algozes não se confraternizassem e dividissem os despojos entre eles.

O episódio da delação premiada da Odebrecht coloca uma pá de cal no país como um todo.

Não sobrou ninguém para comer bola e arrotar ética.

"Ética" que serviu de desculpa para a imensa maioria dos evangélicos justificar seus votos nas últimas décadas eleitoreiras.

Lembro-me de como, em 2002, o evangélico que não votasse em Garotinho era considerado um filhote de satanás.

Assim foi também em 2006, com o "ungido" Geraldo Alckmin; 2010, com o "eleito" José Serra; e 2014, com o "messias" Aécio Neves.

Só para citar as eleições presidenciais..

Pois estão todos eles na lista da Odebrecht.

Inclusive o "pastor" Everaldo, candidato evangélico que não passou do primeiro turno em 2014, teria recebido R$ 6 milhões de caixa 2, inclusive para servir de "escada" para Aécio nos debates televisivos, segundo delatou um dos ex-diretores da Odebrecht.

E isso não é nenhum motivo de alegria. Quebramos o país, afundamos todos juntos. Nada sobrou.

Envergonhemo-nos juntos, portanto.

O último que sair apague a luz. Se alguém tiver pago a conta, é claro.

Bem, não importa mais...

Como também disse certa vez Otto von Bismarck*, "o importante é fazer história, não escrevê-la".

Nem isso fomos capazes de fazer.




* Outras frases notáveis de Bismarck:

  • "A política é a arte do possível".
  • "A liberdade é um luxo a que nem todos se podem permitir."
  • "Com leis ruins e funcionários bons (juízes) ainda é possível governar. Mas com funcionários ruins as melhores leis não servem para nada."





terça-feira, 11 de abril de 2017

Sílvio Santos fez Rachel Sheherazade experimentar do próprio veneno


Na semana passada, por uma dessas lamentáveis infelicidades da vida, eu estava passando na sala quando a TV estava sintonizada no telejornal noturno do SBT, de cujo nome não me lembro nem pretendo lembrar.

Parei para observar a matéria que era tristemente interessante, a tortura aplicada a um jovem numa unidade militar do Rio de Janeiro, que teve, como um dos seus lamentáveis resultados, a perda de um testículo pela vítima.

Foram 2 ou 3 minutos de um excelente material jornalístico, deve-se reconhecer, e a câmara voltou para a apresentadora Rachel Sheherazade, que - impávida - passou para a própria notícia como se ninguém tivesse acabado de ouvir o relato de uma barbárie.

Foi inevitável comparar a reação da moça com aquela que ela teve em 2014, quando, ao ver a tortura de um rapaz negro amarrado a um poste, chamou-o de "marginalzinho" e lançou a campanha "adote um bandido!" num discurso fascista típico do seu raciocínio rasteiro e troglodita travestido de "evangélico", já que é assim que ela - religiosamente - se apresenta.

A repercussão foi tão negativa que até Silvio Santos, patrão e incentivador de Sheherazade, com medo de perder seu ganha-pão (a concessão de TV que ele ganhou bajulando a ditadura militar) fez a justiceira paraibana se calar a partir de então, e - parafraseando o jogador e senador Romário -, Rachel calada é uma poeta, não é mesmo?

Sheherazade se calou, o tempo passou, e no último domingo, na entrega do tal Troféu Imprensa, uma bobagem também patrocinada por Sílvio Santos e sua caricata rede de televisão, numa conversa ao vivo com a apresentadora, Silvio Santos disse, sem mais nem menos, que ela era paga por ser bonita, para ler notícias e não para dar opinião.

Foi o suficiente para que as redes sociais explodissem contra o discurso machista do magnata da TV, dito em tom de brincadeira, mas já invadindo as raias do escárnio, assim como as opiniões que a sua funcionária emitia quando ainda podia falar besteiras.

De fato, mesmo sendo alguém afeita aos mesmos arroubos fascistas, é muito constrangedor que Rachel Sheherazade seja exposta a este ridículo discurso retrógrado que reduz a mulher profissional a um objeto de prazer mórbido, um arremedo de subserviência, achincalhando-lhe a honra e a dignidade.

Quem sabe, ao experimentar do próprio veneno, Rachel não começa a pensar nos outros como seres humanos dignos de um mínimo de respeito, não é mesmo?



quarta-feira, 1 de março de 2017

A quarta-feira de cinzas do Malafaia


As idas e vindas das opiniões verborrágicas de Silas Malafaia (e seus fãs) ao sabor das marés quânticas do que acontece ou não com ele estão inspirando a análise comparativa de todos aqueles que, mesmo que não tenham lido as palavras de Jesus no sermão da montanha, "seja, porém, o vosso falar, sim, sim; não, não; pois o que passa daí vem do maligno" (Mateus 5:37), sabem que coerência é o mínimo que se espera do discurso religioso.

E coerência parece não ser o forte de Malafaia:





segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Discurso de ódio apertou gatilho da chacina de Campinas


Estamos vivendo tempos perigosíssimos.

A chacina da noite de Ano Novo, ocorrida em Campinas (SP), que vitimou treze pessoas, ainda terá capítulos que se desdobrarão para tentar explicá-la.

As investigações certamente envolverão questionamentos de insanidade mental, abuso sexual e alienação parental.

Entretanto, a julgar pela carta que o assassino deixou, há claros sinais de como o extremismo político-ideológico influenciou uma mente já perturbada e a levou a perpetrar o absurdo ato.

O discurso de ódio que é divulgado fartamente na imprensa e nas redes sociais (sobretudo nas cartas do leitor e caixas de comentários), por gente aparentemente "normal", seus amigos, parentes, irmãos da igreja, não é muito diferente da carta-testamento da infâmia que o atirador deixou.

Todo cuidado é pouco quando se está lidando com extremistas e fanáticos em geral.

Faça sua parte: melhor contar até 10 antes de compartilhar esse tipo de lixo tóxico.

A matéria é do Estadão:

Autor de chacina em Campinas escreveu carta sobre seu plano; veja trechos

Homem que matou a ex-mulher, o filho e mais dez pessoas em festa de réveillon enviou texto a amigos dizendo: "vou levar o máximo de pessoas daquela família comigo"

CAMPINAS - O técnico de laboratório Sidnei Ramis de Araújo, de 46 anos, deixou cartas e áudios gravados tentando justificar por que matou a ex-mulher, o filho e mais dez pessoas na noite de Réveillon. No material, obtido com exclusividade pelo Estado, ele afirma que as acusações de que teria abusado do menino são mentira, diz que foi vítima de uma injustiça e de uma “sacanagem” e que não conseguia mais “suportar tudo isso.”

Para se referir à ex-mulher, Isamara Filier, à mãe dela e a outras mulheres da família dela, ele só usa uma palavra, o tempo todo: “vadia”. E revela os planos de matá-las. “Quanto mais ela distanciar ele de mim, mais ódio eu fico dela e menos peso na minha consciência eu vou ter”, diz em um dos áudios, endereçado “aos policiais”, modificado pela última vez no dia 30.

Logo no começo deste arquivo, ele pede desculpas. “Quero pedir desculpa até mesmo para a polícia, para o resgate. Vou gerar muito transtorno para vocês.” O plano original, pelo que diz nos arquivos, era cometer o crime no Natal. “Eu tentei pegar a vadia no almoço do Natal e dia da minha visita, assim pegaria o máximo de vadias da família, mas como não tenho prática não consegui.”

A princípio, parecia que não tinha a intenção de também matar o filho, já que ele direciona cartas a ele e também fala diretamente com o menino nos áudios. Mas em um dado momento, no final da gravação “aos policiais”, parece ter outra ideia, ao se comparar a Deus. “Filho, papai te ama muito. Julguem o que quiser julgar, cada um tem seu jeito de amar. Deus não crucificou o filho dele por amor aos outros filhos, como fala na Bíblia? Eu não vou deixar você sofrer na mão dessa vadia mais não, filho”, diz.

Antes, alega inocência e acusa Isamara e a mãe dela, já morta, de mentirosas. Diz que quer ir para o inferno para “buscar essa velha maldita”, em relação à ex-sogra. “Até peço para meus amigos... eles sabem que eu não acredito mais em Deus porque Deus sabe da verdade. Existem quatro seres que sabem da verdade. Deus, o diabo, a vadia e a mãe dela. Elas sabem que eu nunca fiz mal para o João Victor. Se me garantir que eu vou para o inferno me enterrar de ponta-cabeça, eu peço para me enterrarem de ponta-cabeça.”

Veja abaixo alguns trechos de duas cartas. Foram excluídas citações que ele faz de outras pessoas e acusações sem comprovação. Foram deixadas apenas as partes em que ele relata seu plano de matar a família e comentários políticos. Também foi mantida a sua própria grafia.
"Não tenho medo de morrer ou ficar preso, na verdade já estou preso na angustia da injustiça, além do que eu preso, vou ter 3 alimentações completas, banho de sol, salário, não precisarei acordar cedo pra ir trabalhar, vou ter representantes dos direito humanos puxando meu saco, tbm não vou perder 5 meses do meu salário em impostos.

Morto tbm já estou, pq não posso ficar contigo, ver vc crescer, desfrutar a vida contigo por causa de um sistema feminista e umas loucas. Filho tenha certeza que não será só nos dois quem vamos nos foder, vou levar o máximo de pessoas daquela família comigo, pra isso não acontecer mais com outro trabalhador honesto. Agora vão me chamar de louco, más quem é louco? Eu quem quero justiça ou ela que queria o filho só pra ela? Que ela fizesse inseminação artificial ou fosse trepar com um bandido que não gosta de filho.

No Brasil, crianças adquirem microcefalia e morrem por corrupção, homens babacas morrem e matam por futebol, policiais e bombeiros morrem dignamente pela profissão, jovens do bem (dois sexos) morrem por celulares, tênis, selfies e por ídolos, jornalistas morrem pelo amor à profissão, muitas pessoas pobres morrem no chão de hospitais para manter políticos na riqueza e poder!

Eu morro por justiça, dignidade, honra e pelo meu direito de ser pai! Na verdade somos todos loucos, depende da necessidade dela aflorar! A vadia foi ardilosa e inspirou outras vadias a fazer o mesmo com os filhos, agora os pais quem irão se inspirar e acabar com as famílias das vadias. As mulheres sim tem medo de morrer com pouca idade.

Aproveitando, peço aos amigos que sabem da minha descrença, que não rezem e por mim, se fazerem orações façam por meu filho ele sim irá precisar! Quero ser enterrado com a cabeça para baixo se garante que assim posso ir pro inferno buscar a velha vadia (que era até ministra de comunhão na igreja) que morreu antes da hora. Demorei pra matar ela pq me apaixonei por um anjo lindo!

(...)

Ela não merece ser chamada de mãe, más infelizmente muitas vadias fazem de tudo que é errado para distanciar os filhos dos pais e elas conseguem, pois as leis deste paizeco são para os bandidos e bandidas. A justiça brasileira é igual ao lewandowski, (um marginal que limpou a bunda com a constituição no dia que tirou outra vadia do poder) um lixo!

Se os presidentes do país são bandidos, quem será por nós?

Filho, não sou machista e não tenho raiva das mulheres (essas de boa índole, eu amo de coração, tanto é que me apaixonei por uma mulher maravilhosa, a Kátia) tenho raiva das vadias que se proliferam e muito a cada dia se beneficiando da lei vadia da penha!

Não posso dizer que todas as mulheres são vadias! Más todas as mulheres sabem do que as vadias são capazes de fazer!

Filho te amo muito e agora vou vingar o mal que ela nos fez! Principalmente a vc! Sei o qto ela te fez chorar em não deixar vc ficar comigo qdo eu ia te visitar. Saiba que sempre te amarei! Toda mulher tem medo de morrer nova, ela irá por minhas mãos!"

"(...) eu ia matar as vadias (eu já tinha a arma e raspei a numeração pra não prejudicar quem me vendeu, ela precisava de dinheiro). Família de policial morto não recebe tantos benefícios com a família de presos. Cadê os ordinários dos direitos humanos? Estão sendo presos por ajudar bandidos né? Paizeco de bosta.

Sei que me achava um frouxo em não dar uns tapas na cara dela, más eu não podia te dizer as minhas pretensões em acabar com ela! Tinha que ser no momento certo. Quero pegar o máximo de vadias da família juntas.

A injustiça campineira me condenou por algo que não fiz! Espero que eles sejam punidos de alguma forma. Chega!! Ela tem que pagar pelo que fez."




segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Uma budista tenta acalmar Bolsonaro

A matéria foi publicada no Estadão de 20/11/16:

Media training ensina Bolsonaro a 'olhar para si'

Olga Curado agora dá aulas a deputado do PSC, políticos e empresários implicados na Lava Jato

Gilberto Amendola

Entre os políticos que já fora ajudados por Olga Curado estão nomes como o de Lula, Dilma e Aécio

Ensinar o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) a se ouvir, a compreender que tudo aquilo que ele diz pode ter consequências na vida de outras pessoas; ensiná-lo a olhar para dentro de si e a encontrar um ponto de equilíbrio – tudo isso, claro, usando técnicas do Aikidô, arte marcial que prega os princípios da não violência.

Parece uma missão impossível, mas esse já foi um dos trabalhos da especialista em media training, jornalista, poeta e budista Olga Curado. Sim, Bolsonaro foi um dos políticos nacionalmente conhecidos que, ao longo dos últimos 16 anos, procurou melhorar a própria comunicação tendo se socorrido dos serviços de Olga (o ex-presidente Lula, a ex-presidente Dilma Rousseff e o senador Aécio Neves também já foram ajudados por ela).

A ética profissional não permitiu que Olga contasse detalhes das sessões com o deputado linha dura. O que não impediu que a reportagem imaginasse o excelentíssimo se atirando e rolando no tapete macio do escritório da especialista – eventualmente utilizado para dinâmicas físicas. “É importante ensinar a cair para que a pessoa aprenda a se levantar. Proponho exercícios de equilíbrio físico. A pessoa tem que cair para perceber o seu ponto de equilíbrio. Cair no chão, rolar e perceber como é rígida. No filme O Discurso do Rei, o coach usa técnicas parecidas com essa para melhorar a comunicação do rei gago”, diz Olga.

A reportagem procurou Bolsonaro para que o próprio comentasse as aulas, mas o pedido parou na assessoria do deputado que, automaticamente e sem ouvi-lo, avisou que ele não falaria sobre o assunto.

Ainda sobre Bolsonaro, Olga comenta que ele é um personagem curioso – com crenças que ela não discute. “Ele tem o público dele. O importante é que políticos como Bolsonaro tenham a medida clara do que falam. Às vezes, políticos falam sem a noção das consequências. Falam e se surpreendem com o efeito nocivo do ódio. Se surpreendem com a interpretação que fazem do que eles dizem. É preciso cuidado com a força bruta da inconsciência”, diz.

‘Água no pescoço’. Sem revelar especificidades de seus clientes, Olga conta como muitos dos políticos chegam em seu escritório. “Normalmente me procuram quando a água já está batendo no pescoço”, fala. Não à toa, citados na Operação Lava Jato (políticos e empresários) estão entre os seus clientes mais recentes. “Claro, o meu trabalho acontece antes do caso chegar em Curitiba”, avisa. “Mas eu preparo, por exemplo, quem vai dar algum depoimento em CPI ou explicações públicas. Tento passar técnicas para que eles tenham autocontrole mesmo diante das perguntas mais duras. Até para dizer que não vai responder é preciso algum preparo”, lembra.

Mas existiria alguma dica básica que poderia ser aplicada para a maioria dos políticos em maus lençóis? “Não adianta querer ser simpático, seduzir os interlocutores ou fingir ser íntimo demais. Não precisa cometer suicido público, mas não se deve enrolar. Não ajudo políticos a se esconderem. Eles precisam assumir responsabilidades por aquilo que pensam ou querem. Não ensino a mentir. Não faço teatro”, afirma Olga.

Para ela, o que faz muitos homens públicos apresentarem problemas de comunicação é a falta de clareza em seus propósitos. “Quando pergunto por que determinado político quer ser prefeito ou governador, ele me diz que é pra ‘melhorar a vida das pessoas’. Ok, tudo bem. Isso é mais ou menos verdade porque muitos não têm uma agenda concreta. A qualidade da comunicação tem a ver com coerência. Não adianta exercício de retórica. Ou o político explica como ele pretende ajudar as pessoas ou o eleitor percebe. O eleitor tem uma sensação quando o que se diz é verdadeiro ou apenas um exercício artístico, uma elaboração artificial”, diz.

Segundo Olga, a nossa “cultura do líder” faz com que muitos tenham vergonha de dizer coisas como ‘não sei’. “O mais fácil é a gente ouvir: ‘isso eu não sei, mas na minha opinião...’ Essa é a síndrome da opinião sobre assuntos que as pessoas não sabem. Políticos sofrem disso e, por isso, sofrem com a exposição pública”, conta. “Tento confrontá-los para que não assumam os dois personagens mais manjados do comportamento político: o da vítima ou o do super-herói. Nenhum funciona. Quando se escondem atrás desses personagens, só falam para convertidos. Portanto, não ganham eleições majoritárias.”

Além das questões conceituais, a especialista trata de problemas bastante concretos, como o de ensinar como um político deve respirar, como olhar para as pessoas, segurar um olhar sem constrangimento, como não parecer arrogante, usar as mãos de uma maneira correta, manter a postura e ter a consciência do próprio corpo. “Muitos tomam um susto quando se olham. Dizem: ‘ eu não sabia que era assim. Trata-se de um processo de educação não verbal”, afirma.

Questionada sobre políticos que teriam o domínio da arte da comunicação, Olga cita dois que não foram seus alunos: “Tem um que é bastante óbvio: o Obama. Ele sabe criar um ambiente empático, sabe dar a atenção devida aos seus interlocutores, tem clareza e etc.”.

Cunha. O outro é um pouco mais surpreendente. “Eduardo Cunha. Ele não precisa de aula. Acho que já nasceu sabendo. Não é um julgamento de conteúdo, mas de forma. Ele tem a fala clara e sabe o que quer quando está se expressando. Na votação do impeachment, ele ouvia os maiores xingamentos contra ele e apenas repetia: ‘Excelência, por favor, o seu voto’”.



domingo, 20 de novembro de 2016

A arte de mentir em tempos de pós-verdade

Eleitores de Trump e o próprio em êxtase.
Quanto desta cena é verdade?
Ou pós-verdade...

Sim, é isto mesmo o que você leu no título, a mentira virou uma forma de "arte" nesses tempos em que a verdade não basta mais por si só, ela precisa de um "plus".

Qualquer semelhança com o discurso político único supostamente "ético" que ouvimos diariamente no Brasil não é mera coincidência.

Leia o artigo abaixo, publicado no The Economist, traduzido e reproduzido no Estadão, que você vai entender o porquê:

Arte da mentira

Na política, a verdade já não é mais é falseada ou contestada; tornou-se secundária no debate público

Os políticos sempre mentiram. Faz alguma diferença se resolverem deixar a verdade totalmente de lado?

A essa altura deve estar claro que Donald Trump habita um mundo onde os fatos são, quando muito, imigrantes indesejáveis. Nesse mundo de fantasia, Barack Obama usa uma certidão de nascimento falsa e é o fundador do Estado Islâmico (EI), os Clinton são assassinos e o pai de um dos adversários do magnata nas primárias esteve com Lee Harvey Oswald quando este distribuía panfletos pró-Cuba.

Trump é o principal expoente da política “pós-verdade”, um estilo de atuação na esfera pública que se distingue pelo uso frequente de afirmações aparentemente verdadeiras, mas sem qualquer respaldo na realidade. O descaramento do bilionário não é penalizado, sendo antes tomado como prova de que o eleitor está diante de alguém que não abaixa a cabeça para as elites no poder.

E Trump não é o único. Na Grã-Bretanha, um dos argumentos utilizados pela campanha que venceu o referendo de junho foi o de que, se não aprovassem a saída da União Europeia (UE), os britânicos seriam invadidos por uma horda de imigrantes, já que a Turquia estaria prestes a ingressar no bloco.

Se, como The Economist, o leitor acredita que a política deve se basear em fatos, isso é preocupante. As democracias mais sólidas dispõem de mecanismos de defesa para se proteger da pós-verdade. Países autoritários são vulneráveis.

Mas a pós-verdade é mais que uma simples invenção de elites que ficaram a ver navios. A expressão põe em evidência o cerne do que há de novo na política: a verdade já não é falseada ou contestada; tornou-se secundária. No passado, o objetivo das mentiras políticas era criar uma visão enganosa do mundo. As mentiras de homens como Trump não funcionam assim. Seu intuito não é convencer, e sim reforçar preconceitos.

São os sentimentos, não os fatos, que importam nesse tipo de discurso. A incredulidade dos adversários legitima a mentalidade “nós-contra-eles” que os candidatos anti-establishment exploram com sucesso. E se os oponentes tentam mostrar que as palavras não correspondem à realidade, veem-se obrigados a lutar no campo de batalha escolhido pelos líderes pós-verdade. Quanto mais os defensores da permanência da Grã-Bretanha na UE se esforçavam para mostrar que os partidários do Brexit usavam cálculos superestimados ao determinar os valores gastos pelo país por fazer parte do bloco europeu, por mais tempo mantinham a magnitude desses gastos sob os holofotes.

A política pós-verdade tem muitos pais. Alguns são dignos de louvor. Submeter as instituições e as autoridades a questionamentos é uma virtude democrática. Assumir uma atitude cética e desafiadora diante dos líderes é o primeiro passo para reformar uma sociedade. O colapso do comunismo foi acelerado graças a pessoas corajosas para contestar a propaganda oficial.

Acontece que há também forças corrosivas em ação. Muitos eleitores sentem que foram enganados e deixados para trás, ao passo que as elites continuam a viver no bem-bom. Detestam os tecnocratas que diziam que o euro contribuiria para melhorar suas vidas . Nas democracias ocidentais, as pessoas já não confiam como antes nos especialistas e nas instituições.

Mídia. A evolução da mídia também ofereceu terreno fértil para que a pós-verdade florescesse. A fragmentação das fontes noticiosas criou um mundo atomizado, em que mentiras, rumores e fofocas se espalham com velocidade alarmante. Mentiras compartilhadas online, em redes cujos membros confiam mais uns nos outros do que em qualquer órgão tradicional de imprensa, rapidamente ganham aparência de verdade. Confrontadas com evidências que contradizem crenças que lhes são particularmente caras, as pessoas preferem fechar os olhos para a realidade. Práticas jornalísticas bem-intencionadas também têm culpa no cartório. A busca da “imparcialidade” na veiculação de notícias com frequência cria um falso equilíbrio, às custas da verdade. Os cientistas da Nasa dizem que Marte provavelmente é desabitado; o professor Zureta diz que pululam alienígenas no planeta. Opinião por opinião, cada qual que escolha a sua.

Quando a política começa a ficar parecida com um ringue de luta-livre, a sociedade arca com os custos. Ao insistir em dizer - para perplexidade de alguns dos conservadores mais empedernidos - que Obama fundou o EI, Trump impede a realização de um debate sério sobre como lidar com extremistas violentos. Governar é complicado; aos olhos da política pós-verdade, porém, a complexidade é só um truque ilusionista que os especialistas usam para levar todo mundo no bico.É tentador pensar que, quando ideias vendidas sem amparo na realidade começarem a soçobrar, os eleitores abrirão os olhos e perceberão que se deixaram levar por líderes que não se dão o trabalho nem de disfarçar as mentiras. A pior parte da pós-verdade, porém, é que não se deve contar com esse movimento de autocorreção. Quando as mentiras tornam o sistema político disfuncional, é possível que os resultados negativos acabem por realimentar a mesma alienação e o mesmo descrédito nas instituições que estão na própria origem da política pós-verdade.

Políticos “pró-verdade”, às armas. Para enfrentar essa situação, os políticos comprometidos com os fatos e com a democracia precisam partir para o contra-ataque e incorporar uma linguagem mais aguerrida . Assumir uma posição de humildade e reconhecer os equívocos a que foram levados pela arrogância e pelo excesso de confiança também ajudaria. A verdade conta com forças poderosas a seu lado.

As democracias também têm instituições que podem ajudar. Sistemas judiciários independentes dispõem de mecanismos para estabelecer a verdade. O mesmo se aplica a órgãos criados para orientar a implementação de políticas públicas - em especial os que têm laços com a comunidade científica.

Se Trump for derrotado em novembro, a política pós-verdade parecerá menos ameaçadora, muito embora o bilionário tenha feito sucesso demais nos últimos meses para que ela suma do mapa de uma hora para a outra. Bem mais preocupante é a situação de países como Rússia e Turquia, onde autocratas recorrem à pós-verdade para silenciar os adversários. Deixadas à deriva num oceano de mentiras, as pessoas não terão em que se agarrar. Embaladas pela novidade da política pós-verdade, correm o risco de se ver nas mãos da opressão à moda antiga. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER



Erasmo Carlos cantando "Pega na Mentira" em 1981. Premonitório?




domingo, 18 de setembro de 2016

"Gringo é a mãe!"


É o que diz o artigo abaixo, do ótimo repórter e correspondente da BBC no Brasil, Tim Vickery*, publicado - não por acaso - na BBC Brasil:

Tim Vickery: Está na hora de os brasileiros deixarem de usar a palavra 'gringo'

O jornalista sacudiu a cabeça num gesto de decepção. Belga de raízes indianas, ele estava no Rio, uma cidade onde já tinha morado, para cobrir os Jogos Olímpicos. "A imprensa aqui", ele me contou, "ainda usa a palavra 'gringo'."

"Pois é," respondi. "Isso foi parar na capa de uma revista importante. Na capa! Parece que nem sediando os megaeventos a ficha caiu."

Lembro-me de uma gravação que tocava no metrô do Rio durante a Copa do Mundo de 2014, nas estações de Copacabana. "Levanta a torcida brasileira!", gritava o infeliz, "levanta a torcida gringa!" Bem, se só havia dois lados na disputa, então o desempenho da seleção brasileira, que terminou em quarto, foi pior do que eu pensava.

Antigamente, eu achava que o jornalista que fazia uso da palavra "gringo" deveria ser banido da profissão. Hoje em dia, sob o efeito de cordialidade tropical, já pensei numa punição mais branda: o sujeito deveria ser condenado a assistir à cerimonia de abertura dos Jogos Olímpicos, repetindo e sem parar - mas somente aquela parte interminável quando os atletas do mundo todo desfilam no estádio.

A gravação só pararia quando ele finalmente deixasse de ser o idiota da aldeia e descobrisse que a humanidade é feita de diversidade, de mais de 200 nações, e que a realidade é muito mais complexa e gostosa do que uma simples divisão entre brasileiros e "não brasileiros".

Estou ciente de que muitos estrangeiros no Brasil se referem a si mesmos como "gringos". Se o desespero de se enturmar é tão grande que eles estão dispostos a abrir mão de uma identidade mais completa, só posso sentir pena.

Também estou ciente de que, na grande maioria das vezes, a palavra é empregada sem intenções pejorativas. Não adianta. Tem coisas que você pode lavar quantas vezes quiser, mas não vão ficar novas.

Um par de anos atrás eu fiz um programa de televisão com o grande jornalista Alberto Dines. Toquei nesse assunto - defendendo que a imprensa brasileira deveria parar de usar uma palavra que, além de não trazer informações específicas, estava manchada. Dines concordou e se ofereceu a escrever um artigo para um jornal que, infelizmente, não levou a proposta adiante.

A posição de Dines se baseava no conhecimento e na sua própria história. Filho de imigrantes, Dines me contou que a palavra "gringo" o fazia chorar quando criança. Fora dita contra ele num contexto xenófobo - porque, como tantas coisas no Brasil, a maneira como se usa a palavra tem suas raízes no fascismo da década de 30.

Um fascismo relativamente benigno, com um líder com cara de tio em vez de um demagogo agressivo gritando para as massas. Mas, ainda assim, um projeto de fascismo, que implicava um projeto de modernização conservador, uma tentativa de desenvolver o país sem mudar a estrutura social. Ou seja, um parque industrial avançado aliado a uma noção de hierarquia quase feudal. Embraer no país do elevador de serviço.

Como vender esse projeto de capitalismo sem conflito de classes? Como conseguir o pacto nacional necessário? Fácil. Evocar o inimigo externo - aqueles gringos, que só querem saber de explorar o Brasil!

É por isso que, mesmo saindo da boca mais suave, a palavra muitas vezes vem com um toque de hostilidade. O gozado aqui é que estamos falando de um país de imigração. Falar em "brasileiro" tem muito mas a ver com profissão do que com nacionalidade; trata-se de alguém que chegou aqui para explorar o pau-brasil. O que quer dizer que, com a exceção dos povos indígenas, gringos são sua mãe, sua avó, sua bisavó...

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick



quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Como o nome "Deus" justifica (quase) tudo na política brasileira


Uma visão interessante de Ronilso Pacheco, em artigo publicado no The Intercept Brasil:

UM GOLPE (BEM) DADO EM NOME DE DEUS

ACABOU. DILMA ROUSSEFF está destituída do cargo de Presidente da República. Sem que Deus fosse usado como “fiador” de uma mudança necessária por exigência da ética, da moral, dos bons costumes e da ordem, muito provavelmente, todo o embate ético-político que se arrastou desde o auge do poder de Eduardo Cunha na presidência da Câmara até agora, com a queda definitiva de Dilma, não aconteceria – ou poderia ter outro fim.

Não esqueçamos que a advogada Janaína Paschoal, que junto com os juristas Hélio Bicudo e Miguel Realle Jr. protocolou o pedido de impeachment aceito contra a então presidente, disse, absolutamente segura de sua crença, que foi Deus quem iniciou o processo de impeachment. Na verdade, ela disse:

“Foi Deus que fez com que várias pessoas, ao mesmo tempo, cada uma na sua competência, percebessem o que estava acontecendo com nosso país e conferisse a essas pessoas coragem para se levantarem e fazerem alguma coisa a respeito.”

Por que é tão importante garantir que “Deus” esteja presente nas ações políticas tomadas numa disputa?

A esquerda política brasileira nunca fez questão de justificar suas escolhas, objetivos, programas e projetos a partir de “Deus”. A “presença de Deus” na esquerda no Brasil (assim como em toda a América Latina) sempre se deu via movimentos como a chamada Teologia da Libertação católica ou via teólogos protestantes progressistas. Para a direita e o campo conservador, Deus é central. Ele é o legitimador de todas as disputas que eles empreendem.

Quando Eduardo Cunha dizia que aborto era uma pauta que só passaria por cima do seu cadáver, ele não tinha preocupação em defender isso com ideias. Ele pressupunha que, ao barrar o aborto, ele estaria defendendo a vida, e quem dá a vida é Deus. E ele sabe que, para o senso comum, este argumento basta. Aqui, o “argumento Deus” é capaz de neutralizar, ou deixar em segundo plano, qualquer desvio de conduta, atitude desonesta ou, quiçá, criminosa, de qualquer parlamentar.

É preciso ter nítida a ideia de que se está “do lado de Deus” para, mesmo sabendo que se está tão comprometido na Lava Jato quanto qualquer parlamentar petista,condenar as ações de parlamentares do PT ou mesmo vociferar sobre ética e moral contra Dilma Rousseff – ainda que ela não esteja envolvida.

Se o parlamentar fala em nome de Deus (leia-se da sua relação com a igreja), é irrelevante que a sua trajetória política o desqualifique nitidamente para reivindicar a ética, a justiça e a moral. Quando você diz defender os valores “instituídos por Deus”, você pode dizer, por exemplo, que luta para que o Brasil não se torne uma Venezuela ou não seja tomado pelo “bolivarianismo” sem precisar explicar absolutamente nada sobre o que isso significa.

É certo que o debate do julgamento para o impeachment está quase restrito ao campo da gestão e da economia, mas parece ser mais fácil impedir que o acusado reaja quando quem acusa está blindado pela imagem de quem está “do lado de Deus”.

Complexo é pensar que, hoje, podemos usar o adjetivo “evangélico” (ou protestante, aqui tanto faz) tanto para parlamentares como Pastor Everaldo, Magno Malta e (também agora) Jair Bolsonaro e também para figuras como Martin Luther King Jr. E isso não é simples, porque é tão destoante que se torna quase um erro gramatical colocar o último na mesma frase que os outros três.

Uma igreja negra nos Estados Unidos foi determinante para forçar o fim da segregação racial, enfrentar o Estado e abrir caminho para a conquista dos direitos civis dos negros, e, consequentemente, ampliar o caminho em direção para a garantia dos direitos de outros grupos sociais. Uma igreja negra na África do Sul, com Desmond Tutu e Allan Boesak à frente, foi determinante para forçar o fim do apartheid e fortalecer a luta que tinha Nelson Mandela como a figura principal. Em ambos os países, a igreja se tornou o refúgio de negros perseguidos, sem direitos, local de sua formação, autonomia e empoderamento.

A escolha dos cristãos negros e negras do sul estadunidense era transitar entre a não violência, proposta e defendida pelo Dr. King, e o apoio integral às ações enérgicas do movimento Black Power, às ações dos Panteras Negras, libertação da ativista Ângela Davis. A igreja negra na África do Sul e seus teólogos apontavam para a violência de Estado em Soweto. Tanto nos Estados Unidos quanto na África do Sul, o “Deus” reconhecido pela Teologia Negra (bem como pelas igrejas alinhadas com a Teologia da Libertação na América Latina) era aquele do êxodo do povo vindo da escravidão no Egito, liberto na travessia do Mar Vermelho, que se identificava com os homens e mulheres negros escravizados pela Europa e nos Estados Unidos e com os todos os pobres na era pós-escravocrata.



domingo, 14 de agosto de 2016

Albert Camus, estrangeiro, estranhamento e fanatismo, por Leandro Karnal

Artigo de Leandro Karnal publicado no Estadão de 07/08/16:

Cordeiros de Deus

"Hoje, morreu mamãe. Ou talvez, ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.” Assim Albert Camus inicia O Estrangeiro, o curto romance símbolo de uma geração.

Nas primeiras linhas, define-se a indiferença da personagem Mersault, o protagonista que dizia “tanto faz” (ça m’est égal) para quase tudo. A frieza foi usada contra ele no julgamento. O conjunto The Cure citou o romance na música Killing an Arab. Mersault era um pied-noir, ou seja, um francês nascido na Argélia colonizada. Ele era estrangeiro porque habitava num país com cultura distinta da sua e era estranho porque se sentia diferente de todos. É a duplicidade em muitas línguas, das palavras estranho/estrangeiro; étranger, strange. Mersault era um francófono num país de maioria árabe. Os franceses de hoje temem virar minoria na própria França. Camus fala desse estranhamento diante de um mundo indiferente, povoado de seres sem paixões e que abandonaram as grandes explicações românticas e de redenção. Mersault perdeu a mãe física e perdeu o pai simbólico: a pátria. Porém, ele não é um misantropo de fato, pois a misantropia é uma forma de paixão por si ou pelo isolamento. Mersault é aquele que é obrigado a dizer coisas depois do Hamlet, ou seja, depois que o resto se torna silêncio. O franco-argelino vive além do horizonte sobre o qual o príncipe dinamarquês se calou. A indiferença não é mais uma opção, em 2016. O outro não está mais no litoral da Argélia, ele entra na sua pequena paróquia normanda e corta seu pescoço. Foi o caso trágico do padre Jacques Hamel, assassinado por dois jovens fundamentalistas. Testemunhas disseram que um fez uma espécie de sermão em árabe. Para quem eu prego, quando falo na língua que o outro não entende? Para mim mesmo, claro, porque somente admito meu monólogo. Talvez por isso, todo fanático fale muito alto e grite muito. A voz alta deve tentar calar todas as vozes e, acima de tudo, o imenso grito do contraditório.O mundo lida mal com a diferença. Formamos guetos há séculos. Criamos ônibus com lugares para brancos e negros nos EUA. Criamos legislação do apartheid na África do Sul. Dizemos aos diferentes que estejam com os diferentes e evitem contato com os outros.A política de gueto tem a sua eficácia. Afastando a convivência, impede o desafio da negociação. Trump promete erguer mais muros na fronteira com o México, como se os latinos já não fossem parte expressiva da população dos EUA e ainda fosse possível negar a diferença. Trump encarna esse medo ancestral da diferença. Mersault não entendia o que o árabe falava durante o crime. The Cure cantou: “Can see his open mouth but I hear no sound” (posso ver sua boca aberta, mas não ouço nada). Os reféns da igreja da Normandia não entenderam o que os fundamentalistas gritavam. Mersault/estrangeiro é uma tragédia ficcional. O fundamentalismo é uma tragédia real e ocorre em muitos campos religiosos e políticos. O discurso fundamentalista ocupa um pouco do niilismo da modernidade, demarcando fronteiras absolutas onde a liquidez deixou muita gente perdida. Não creio que seja possível uma comunicação com militantes do Estado Islâmico. Fundamentalistas encaram o diálogo como fraqueza e não buscam uma forma de convívio. É sempre doloroso afirmar a morte do diálogo, mas o contrário é ingênuo, perigoso até. Eu sinto em relação aos fundamentalistas um pouco o que se atribui a Golda Meir, que, referindo-se à violência do conflito israelo-palestino, afirmava que poderia até perdoar os árabes pela morte de crianças israelenses, mas não poderia perdoá-los por ter sido obrigada a matar crianças árabes. Eu o culpo pelo que você me obrigou a ser. Será que o Ocidente teria de se tornar fundamentalista para vencer o fundamentalista? Nós já não seríamos fundamentalistas na nossa crença sobre os valores corretos? O bombardeio “por engano” de aldeias sírias relativizaria o crime na França? Crianças afogadas no mar, cartunistas assassinados, hospitais destruídos, meninas com rosto deformado por ácido: é longa a lista de vítimas. Há um diálogo de surdos: o padre Hamel é chamado de mártir pelos católicos e seus assassinos são mártires para o Estado Islâmico. Haveria dois Paraísos? Os militantes fundamentalistas vivem como virtude aquilo que rejeitamos como defeito. Tornam-se, inclusive, os bárbaros necessários à nossa catarse civilizacional. Justificam Bush II e alimentam Trump. Esvaziam nossa racionalidade e nos tornam assassinos também, como acusava Golda Meir.

A Civilização já foi muitas coisas. Hoje é um debate sobre a sobrevivência de valores como democracia e convivência com diferentes num mundo que ri deste debate de relativismo cultural. No meio de discussões e práticas de barbárie, a imagem das vítimas é um desafio, na Europa e na Síria. O sacrifício de cordeiros de Deus sempre foi uma metáfora fundante da fé. Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, dai-nos a paz.



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