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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O filho que não perdoa o pai pelo que ele fez durante a ditadura argentina


A matéria foi publicada na BBC Brasil:

A luta de argentino para denunciar o próprio pai por crimes da ditadura

Marcia Carmo

O advogado Pablo Verna, de 44 anos, fez um pedido ao Congresso Nacional do seu país, a Argentina: ele quer que a legislação em vigor, que impede familiares de denunciarem e prestarem depoimentos à Justiça contra seus parentes, seja modificada.

Seu objetivo é ter o direito de denunciar e depor contra o pai, que foi médico do Exército durante a ditadura argentina (1976-1983). Ele diz que Julio Alejandro Verna, hoje aos 70 anos, admitiu ter injetado sedativos em vítimas do regime militar antes que elas fossem lançadas dos chamados "voos da morte", que arremessavam os prisioneiros ainda vivos em rios ou no mar.

O pai dele está livre. Questionado certa vez por uma repórter, o médico negou ter sedado desaparecidos políticos para esse fim. "Não, senhora. De onde tiraram isso?"

Pablo Verna integra o Histórias Desobedientes, grupo que reúne 25 filhos de ex-repressores da ditadura argentina. Leia seu depoimento à BBC Brasil:

"Há muito tempo eu desconfiava que meu pai tinha cometido crimes na ditadura militar. Nas conversas em casa, ele demonstrava conhecer detalhes demais dos crimes cometidos naquele período horrível. Mas quando eu perguntava por que ele sabia tanto, respondia que eram as enfermeiras que lhe contavam.

Meu pai era médico do Exército argentino. E com o passar dos anos, baseado no que ele mesmo me dizia, passei a questioná-lo com tom mais critico, e de acusação.

Nossa relação foi ficando cada vez mais tensa. Duas conversas foram aos gritos. Em 2009, eu já tinha certeza de que ele tinha participado dos crimes. Mas não sabia como. Não tinha os fatos concretos. Além disso, como filho, acho que queria manter a dúvida diante de algo tão pavoroso.

Então, em meados de 2013, em mais uma conversa tensa, ele admitiu que tinha cometido os crimes. Não lembro as palavras exatas que usei para que admitisse isso. Mas naquele encontro lembrei o que meu pai tinha contado a um familiar e as respostas anteriores que tinha me dado cada vez que abordei o assunto. Foi impossível para ele negar o que tinha feito. E até que me disse: 'foi isso mesmo'.

Como médico, meu pai participava dos crimes da ditadura injetando sedativos nas pessoas que seriam jogadas vivas ao rio ou ao mar. Eram anestesias que as deixavam imediatamente paralisadas, mas respirando. E quando elas estavam assim, as jogavam dos 'voos da morte', como ficaram conhecidos.

Meu pai cometeu outros crimes. Ele também participava dos sequestros dos opositores, dos militantes sociais e políticos. Foram 30 mil desaparecidos no nosso país. A ditadura genocida sequestrava e fazia essas pessoas desaparecerem.

Depois daquela conversa em meados de 2013, ele disse a um familiar que não estava arrependido. E ainda acrescentou que tinha participado de um caso específico que teve muita repercussão aqui na Argentina.

Em 1979, quatro pessoas foram sequestradas e também receberam as injeções de anestesia. Elas foram jogadas em um riacho, uma simulação de um acidente de carro em uma ponte. As quatro morreram.

Como médico militar, meu pai estava sempre armado. Isso até passar para a reserva, em 1983, com o retorno da democracia no país. E além desses crimes genocidas, certa vez ele apareceu em casa com uma maleta de primeiros-socorros de médico que não era dele. Que era de uma das vítimas da ditadura. Eu perguntei porque estava com duas maletas, e me respondeu que tinha sido um presente. Que uma das maletas tinha sido de um subversivo.

Na minha casa, as palavras que ele usava eram chamativas, como 'subversivo'. Eram palavras de um genocida. Era um discurso ideológico para eliminar os que eram opositores ao regime militar. Uma vez, disse que os opositores eram mortos porque, quando eram presos e soltos, ficavam ainda piores.

A nossa relação foi rompida naquela conversa em meados de 2013, quando meu pai admitiu os crimes. Mas no dia seguinte ele me ligou para saber se eu tinha contado para minha mulher. Depois disso, ficamos sem nos falar até pouco tempo - dias atrás, ele me telefonou para, ao meu ver, fazer ameaças. Também faz isso por meio de conversas com parentes, cujos relatos chegam até mim.

Eu me afastei de muitos familiares. Primeiro, para evitar encontrá-lo, e ainda porque uma parte da minha família se recusa a saber, nega o que ocorreu. Acha que isso é um problema entre duas pessoas - no caso meu pai e eu. Mas isso não é um simples problema entre duas pessoas, é entre ele e a humanidade, na qual eles, os familiares, estão incluídos.

Hoje meu pai está livre, mas é investigado porque o denunciei na Secretaria de Direitos Humanos poucos meses depois daquela nossa conversa. Agora o caso dele faz parte de uma imensa apuração, levada adiante pelos defensores das vítimas na que ficou conhecida como 'megacausa contraofensiva', pela repressão e extermínio ocorridos no Campo de Mayo nos anos 1970 e 1980. O local foi um centro clandestino de prisão e extermínio horrível no nosso país.

Essa casa deixou poucos sobreviventes e provas. Meu problema hoje, como filho, é que, apesar de ter essas certezas contra meu pai, encontrei barreiras na legislação que me impedem de denunciá-lo penalmente. No Código de Processo Penal da Argentina, existem dois artigos que proíbem que familiares denunciem e deem depoimento, já no processo, contra outros familiares.

Ou seja, não podem ser testemunhas contra outros familiares. Por isso, entramos com esse projeto de lei pedindo que essas proibições não sejam aplicadas para os casos de crimes contra a humanidade. E assim nós, filhos de repressores, poderemos denunciar nossos pais judicialmente, além de prestar depoimento contra eles nos julgamentos.

Nós do coletivo Historias Desobedientes, que somos filhos e filhas de genocidas, vivemos nas nossas casas, com nossos pais, a imposição de um mandato de silêncio, de maneira implícita ou explicita.

Os genocidas fizeram um pacto de silêncio que cumprem até hoje. Eles não revelam o que fizeram e o que os outros militares fizeram. Mas depois de muitos anos, e de conscientização do que aconteceu, e da nossa própria ética, decidimos levar as acusações adiante. Mas aí nos deparamos com esses artigos da legislação argentina.

Apresentamos esse projeto de lei no dia 7 de novembro na mesa de entrada da Câmara dos Deputados. No nosso grupo, alguns já têm os pais mortos, outros condenados e outros, impunes.

No meu caso, espero que meu pai seja investigado. E que ele e os outros genocidas reflitam e tenham alguma dignidade em seus últimos anos de vida. Que deem um pouco de paz a tantos familiares que não sabem qual foi o destino de seus parentes desaparecidos. E paz até para eles, genocidas. Porque eles também devem viver um inferno em suas mentes e corações.

Nós, como coletivo, sabemos que nossa iniciativa, com esse projeto de lei, pode ajudar no contexto das investigações. Coisas que ouvimos nas nossas casas podem aportar no contexto em que os crimes foram cometidos. Inclusive os casos de roubo que as vítimas da ditadura sofreram.

Nossa iniciativa não dará resposta a tudo. Mas pode contribuir para acabar com a impunidade mantida pelos genocidas."



terça-feira, 19 de setembro de 2017

Deputados evangélicos viram fiscais de tudo

Quadro "Não matarás", de José Zaragoza. Não se sabe se os deputados evangélicos o compreenderam...






Para desgraça do Brasil, infelizmente.

Bons tempos aqueles em que Marco Feliciano era "só" "fiscal de fiofó", né...

Bem que meu pai me dizia que o primeiro sinal da contaminação irreversível pelo vírus da política é a perda do senso de ridículo.

Logo, logo, queimarão livros e quadros em praça pública (e o mundo já viu este filme antes).

A matéria é do Congresso em Foco:

Deputados evangélicos inspecionam mostra sobre ditadura, e não encontram o que censurar

EDSON SARDINHA E JOELMA PEREIRA

Uma comitiva de deputados federais evangélicos fez uma “inspeção” no Museu Nacional Honestino Guimarães, em Brasília, para saber se havia conteúdo impróprio para crianças na exposição “Não matarás”, mostra coletiva que faz uma releitura da ditadura militar. Mas eles não encontraram nada para censurar.

O grupo, capitaneado pelo coordenador da Frente Parlamentar Evangélica, Takayama (PSC-PR), e pelo Pastor Marco Feliciano (PSC-SP), decidiu visitar o museu depois de receber pelo WhatsApp “denúncia” de uma mãe que alegou ter ficado incomodada ao levar o filho menor de idade ao espaço cultural e se deparar com imagens de corpos nus. Depois de ver as obras e ouvir as explicações de um funcionário, os parlamentares concluíram que não havia qualquer motivo para contestar a exposição.

A inspeção dos parlamentares, feita nessa quarta-feira (13), ocorreu três dias após o banco Santander cancelar a exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, que abordava a diversidade sexual, para atender pedido do Movimento Brasil Livre (MBL), entre outros grupos. Eles acusaram os organizadores da mostra de incentivar a pedofilia, a zoofilia e a blasfêmia. O recuo, porém, gerou uma grande onda de indignação e protestos nas redes sociais contra o Santander e o MBL, acusados de censurar manifestações artísticas e culturais.

A visita dos deputados ao Museu Nacional, em Brasília, foi organizada por Takayama. Além dele e de Feliciano, também participaram os deputados Arolde de Oliveira (PSC-RJ), Lincoln Portela (PRB-MG), Marcos Soares (DEM-RJ) e Luciano Braga (PRB-BA).

Embora não tenham encontrado conteúdo impróprio, os parlamentares informaram ao Congresso em Foco, por meio de sua assessoria, que vão discutir a necessidade de apresentar um projeto lei fixando classificação etária indicativa para espaços que abriguem exposições artísticas.

Não censurarás

Para o diretor do Museu Nacional, o artista plástico Wagner Barja, o simples fato de uma comissão sair da Câmara para “inspecionar” um espaço cultural é preocupante. “No meu entender, um museu existe para as pessoas entrarem e saírem diferentes, pensando em alguma coisa, assim como num templo religioso, que tem o mesmo propósito. Os propósitos são distintos, mas temos em comum o objetivo de melhorar as pessoas. Museu tem linguagem subjetiva. A exposição tem caráter político, mas não acusamos ninguém, mostramos uma interpretação livre dos artistas de um tempo do país. Não trabalhamos com censura”, afirmou o artista plástico ao Congresso em Foco.

Barja diz que os deputados não seriam atendidos se pedissem o cancelamento da exposição ou tentassem censurá-la. “Nem por mim nem pela secretaria de Cultura do Distrito Federal, que é quem me respalda para fazer esse trabalho. É diferente de uma outra instituição financeira que tem dinheiro envolvido. Não é por descontentamento de um ou outro que se fecha uma exposição. O museu é um serviço público. A gente vive em uma democracia, pelo menos que eu saiba”, ressaltou.

O diretor do museu diz não acreditar que os parlamentares tivessem a intenção de censurar a exposição. “Eles também têm direito de ir ao museu e fazer avaliação crítica ou não de uma obra ou exposição. Agora, fechar ou censurar uma exposição não compete aos deputados.”

Referência metafórica

Segundo Barja, a exposição “Não matarás” estimula a reflexão sobre a ditadura militar e não faz menção a qualquer presidente ou outro personagem especificamente. “Há uma referência de forma metafórica a um período em que a censura predominou”, explicou.

A exposição reúne um conjunto das obras pintadas e doadas ao museu pelo publicitário José Zaragoza, espanhol radicado no Brasil que faleceu em 2013. Também foram incluídas peças de outros 45 artistas com releitura sobre a ditadura militar. “Uma frase que nos inspirou é do grande crítico de arte e pensador Mário Pedrosa: em tempos de crise, o bom é ficar do lado dos artistas”, disse Barja.

Queermuseu

A polêmica em torno da censura a exposições artísticas ganhou força no início da semana. Ao anunciar o cancelamento da “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, o Santander Cultural pediu desculpas àqueles que se sentiram ofendidos por alguma obra da mostra.

“Ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana”, destacou trecho da nota. A exposição só seria encerrada em 8 de outubro. O banco anunciou que vai devolver os R$ 800 mil captados por meio da Lei Roaunet, de incentivo à cultura.

“Rumo ao passado. E que vergonhosa a nota do Santander, querendo justificar, valendo-se de hipócrita retórica corporativa, o ato de censura que cometeu. Viva a diversidade!”, protestou no Facebook o crítico de arte Moacir Dos Anjos, ex-curador da Bienal de São Paulo. Na quarta-feira, duas pessoas foram detidas em frente ao Santander Cultural, na capital gaúcha, após confronto entre grupos defensores e contrários à exposição.



quinta-feira, 22 de junho de 2017

Cristãos se unem contra ditador da Zâmbia


A informação é da Radio Vaticano:

Zâmbia: duro ataque das Igrejas 
ao Presidente Edgar Lungu

Alarmados por uma deterioração rápida dos direitos humanos e do clima político na Zâmbia, as três principais Igrejas cristãs, conhecidas na Zâmbia como as "três Igrejas Mãe", publicaram nesta sexta-feira (16/06) uma duríssima declaração pública, numa conferência de imprensa, criticando a liderança do presidente zambiano Edgar Lungu. Os líderes da Igreja na Zâmbia pediram a libertação imediata do principal líder político da oposição da Zâmbia, Hakainde Hichilema (popularmente conhecido por HH) que o presidente Lungu lançou numa prisão de máxima segurança máxima, mesmo antes do julgamento por uma alegada acusação de traição.

Os três Organismos-mãe da Igreja na Zâmbia compreendem a Conferência dos Bispos Católicos da Zâmbia (ZCCB); a Comunidade Evangélica da Zâmbia (EFZ) que representa as Igrejas Carismáticas e Pentecostais, bem como o Conselho das Igrejas na Zâmbia (CCZ). CCZ é o ‘corpo guarda-chuva’ para as Igrejas Protestantes e as organizações relacionadas com a Igreja que tradicionalmente também são membros do Conselho Mundial das Igrejas (CMI).

A declaração dos líderes da Igreja é um severo ataque ao Presidente Lungu e demonstra uma clara manifestação de solidariedade que recentemente não se via entre os líderes da Igreja na Zâmbia. Ela também ressalta a frustração com o presidente da Zâmbia e o estilo vingador da liderança de Edgar Lungu.

"Sim, nós na Liderança da Igreja não estamos arrependidos, a Zâmbia eminentemente se qualifica para ser marcada como uma ditadura. O facto é que apenas uma liderança que não tem a vontade do povo ao seu lado ou pensa que não tem a vontade do povo do seu lado usa as instituições do Estado para suprimir a mesma vontade do povo", disseram os Líderes da Igreja. Em síntese, eles estavam a apoiar uma declaração anterior dos Bispos católicos zambianos que chamavam o presidente Lungu como um ditador. A Zâmbia tem sido conhecida no passado como uma democracia relativamente pacífica e estável.

Não há muito amor perdido entre o presidente Lungu e o líder do principal partido da oposição UPND, Hichilema. Quando este último não cedeu prioridade à comitiva do presidente em abril deste ano, Lungu desencadeou toda a força da maquinaria estatal da Zâmbia contra Hichilema. E desde então ele aprisionou o líder da oposição acusando-o de traição. É um crime que acarreta uma sentença de morte. Amnesty International diz que as acusações de traição contra o presidente da UPND na oposição, Hichilema, têm a finalidade de perturbar, intimidar e dissuadi-lo de fazer o seu trabalho político.

A declaração conjunta apresentada aos órgãos de informação, e emitida pelos líderes da Igreja é assinada pelo Arcebispo de Lusaka e Presidente da Conferência dos Bispos Católicos da Zâmbia (ZCCB), Telesphore Mpundu; o Presidente do Conselho das Igrejas na Zâmbia (CCZ), o Bispo Alfred Kalembo; e o Presidente da Comunidade Evangélica da Zâmbia, o Bispo Paul Mususu. O arcebispo Mpundu informou aos órgãos da comunicação que todos os esforços para a diplomacia dos bastidores falharam quando o presidente Lungu recusou-se a receber os clérigos.

Na declaração dos líderes da Igreja, o Serviço da Polícia da Zâmbia é destacado pela sua falta de profissionalismo e pela brutalidade. "A acusação do Serviço da Polícia como não profissional não foi inventada pelos três Organismos-Mãe da Igreja; encontra-se em preto e branco no julgamento do Magistrado Greenwell Malumani, que nos diz que a conduta da Polícia neste caso não estava em conformidade com a lei e a ética Profissional da Polícia! Citando o bem formado juiz, o episódio "expôs a incompetência da Polícia, a falta de profissionalismo e o comportamento criminoso na maneira como geriram a prisão de Hakainde Hichilema", lê-se na declaração.

Os líderes da Igreja criticam ainda a diminuição das liberdades na Zâmbia: uma crescente cultura de intimidação por parte dos agentes estatais; o piorar da situação dos direitos humanos e, em particular, a erosão da liberdade de imprensa. Papa apoiar as suas afirmações, eles dão como um exemplo o fechamento do jornal independente líder na Zâmbia, 'The Post'. Eles pediram ao governo do presidente Lungu para iniciar o diálogo nacional como uma saída para o impasse político.

Como era de prever, os apoiantes do presidente Lungu contactaram os meios da comunicação social para desabafar a sua ira contra os líderes da Igreja, embora a maioria dos cidadãos tenha ficado aliviada por ver que a Igreja estava a assumir uma forte posição moral contra a injustiça e o estilo autoritário do governo do presidente Lungu. (BS)



domingo, 21 de maio de 2017

A segunda morte de Tancredo Neves


Coluna de Juca Kfouri no seu blog no UOL, de leitura obrigatória para todos aqueles que acompanharam em tempo real a agonia de Tancredo Neves naquele longínquo ano de 1985:

A segunda morte de Tancredo Neves

Tancredo Neves, o presidente que foi sem nunca ter sido, teve dos mais gloriosos enterros já vistos no Brasil.

Menos pelo que era, mais pela esperança que despertou depois de 21 anos de ditadura.

Conservador, malicioso, frasista, dava nó em pingo d’água.

Democrata, posicionou-se a todo risco pessoal tanto contra o golpe que levou Getúlio Vargas ao suicídio quanto contra o que derrubou João Goulart.

Pagou o preço de suas escolhas e certamente jamais apoiaria nem Lula nem Dilma Rousseff.

Do mesmo modo que desaprovou os golpes contra dois presidentes legítimos nos anos 1950 e 1960, provavelmente não aprovaria outro golpe mesmo contra adversários.

E, sem dúvida, não merece que sua história seja pisoteada de maneira tão vil e tão burra como está sendo por dois netos como Aécio e Andrea, um afastado do Senado depois de pego em gravações criminosas, e de baixíssimo calão, outra presa por cumplicidade depois de, hipocritamente, jurar inocência em nome da filha e da mãe.

Aécio e Andrea não honram a memória do avô.

Nem a teoria de Darwin.



terça-feira, 11 de abril de 2017

Sílvio Santos fez Rachel Sheherazade experimentar do próprio veneno


Na semana passada, por uma dessas lamentáveis infelicidades da vida, eu estava passando na sala quando a TV estava sintonizada no telejornal noturno do SBT, de cujo nome não me lembro nem pretendo lembrar.

Parei para observar a matéria que era tristemente interessante, a tortura aplicada a um jovem numa unidade militar do Rio de Janeiro, que teve, como um dos seus lamentáveis resultados, a perda de um testículo pela vítima.

Foram 2 ou 3 minutos de um excelente material jornalístico, deve-se reconhecer, e a câmara voltou para a apresentadora Rachel Sheherazade, que - impávida - passou para a própria notícia como se ninguém tivesse acabado de ouvir o relato de uma barbárie.

Foi inevitável comparar a reação da moça com aquela que ela teve em 2014, quando, ao ver a tortura de um rapaz negro amarrado a um poste, chamou-o de "marginalzinho" e lançou a campanha "adote um bandido!" num discurso fascista típico do seu raciocínio rasteiro e troglodita travestido de "evangélico", já que é assim que ela - religiosamente - se apresenta.

A repercussão foi tão negativa que até Silvio Santos, patrão e incentivador de Sheherazade, com medo de perder seu ganha-pão (a concessão de TV que ele ganhou bajulando a ditadura militar) fez a justiceira paraibana se calar a partir de então, e - parafraseando o jogador e senador Romário -, Rachel calada é uma poeta, não é mesmo?

Sheherazade se calou, o tempo passou, e no último domingo, na entrega do tal Troféu Imprensa, uma bobagem também patrocinada por Sílvio Santos e sua caricata rede de televisão, numa conversa ao vivo com a apresentadora, Silvio Santos disse, sem mais nem menos, que ela era paga por ser bonita, para ler notícias e não para dar opinião.

Foi o suficiente para que as redes sociais explodissem contra o discurso machista do magnata da TV, dito em tom de brincadeira, mas já invadindo as raias do escárnio, assim como as opiniões que a sua funcionária emitia quando ainda podia falar besteiras.

De fato, mesmo sendo alguém afeita aos mesmos arroubos fascistas, é muito constrangedor que Rachel Sheherazade seja exposta a este ridículo discurso retrógrado que reduz a mulher profissional a um objeto de prazer mórbido, um arremedo de subserviência, achincalhando-lhe a honra e a dignidade.

Quem sabe, ao experimentar do próprio veneno, Rachel não começa a pensar nos outros como seres humanos dignos de um mínimo de respeito, não é mesmo?



quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

D. Paulo Evaristo Arns morre aos 95 anos de idade

A notícia vem do Estadão:

Morre d. Paulo Evaristo Arns, o homem que a ditadura não silenciou

Último dos grandes líderes da Igreja Católica dos anos 1970, o cardeal dedicou a vida aos pobres e à defesa dos direitos humanos

SÃO PAULO - Morreu em São Paulo nesta quarta-feira, 14, aos 95 anos o cardeal d. Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo. Ele estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Santa Catarina desde 28 de novembro com um quadro de broncopneumonia e nos últimos dias apresentou piora do sistema renal.

Quinto dos 14 filhos que Gabriel Arns e Helena Steiner tiveram, Paulo Evaristo nasceu em 14 de setembro de 1921 na pequena Forquilhinha, na região de Criciúma, antiga colônia de imigrantes alemães em Santa Catarina.

A exemplo do irmão mais velho, frei Crisóstomo, Paulo Evaristo entrou em um seminário franciscano, vocação que o pai agricultor apoiou com entusiasmo, embora tentasse adiar a matrícula o mais possível, só porque as despesas do internato pesavam no orçamento. Das sete irmãs moças, três optariam pelo convento.

“Paulo, nunca se envergonhe de dizer que você é filho de colono”, pediu Gabriel Arns. Muito depois, quando concluía os estudos na Sorbonne com uma tese sobre a técnica do livro segundo São Jerônimo, o frade mandou um telegrama para Forquilhinha. “O filho do colono é doutor pela Universidade de Paris e não se esqueceu da recomendação do pai.”

Sim, amiguinhos, houve uma época no Brasil em que cristãos lutavam contra o fascismo




segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Uma budista tenta acalmar Bolsonaro

A matéria foi publicada no Estadão de 20/11/16:

Media training ensina Bolsonaro a 'olhar para si'

Olga Curado agora dá aulas a deputado do PSC, políticos e empresários implicados na Lava Jato

Gilberto Amendola

Entre os políticos que já fora ajudados por Olga Curado estão nomes como o de Lula, Dilma e Aécio

Ensinar o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) a se ouvir, a compreender que tudo aquilo que ele diz pode ter consequências na vida de outras pessoas; ensiná-lo a olhar para dentro de si e a encontrar um ponto de equilíbrio – tudo isso, claro, usando técnicas do Aikidô, arte marcial que prega os princípios da não violência.

Parece uma missão impossível, mas esse já foi um dos trabalhos da especialista em media training, jornalista, poeta e budista Olga Curado. Sim, Bolsonaro foi um dos políticos nacionalmente conhecidos que, ao longo dos últimos 16 anos, procurou melhorar a própria comunicação tendo se socorrido dos serviços de Olga (o ex-presidente Lula, a ex-presidente Dilma Rousseff e o senador Aécio Neves também já foram ajudados por ela).

A ética profissional não permitiu que Olga contasse detalhes das sessões com o deputado linha dura. O que não impediu que a reportagem imaginasse o excelentíssimo se atirando e rolando no tapete macio do escritório da especialista – eventualmente utilizado para dinâmicas físicas. “É importante ensinar a cair para que a pessoa aprenda a se levantar. Proponho exercícios de equilíbrio físico. A pessoa tem que cair para perceber o seu ponto de equilíbrio. Cair no chão, rolar e perceber como é rígida. No filme O Discurso do Rei, o coach usa técnicas parecidas com essa para melhorar a comunicação do rei gago”, diz Olga.

A reportagem procurou Bolsonaro para que o próprio comentasse as aulas, mas o pedido parou na assessoria do deputado que, automaticamente e sem ouvi-lo, avisou que ele não falaria sobre o assunto.

Ainda sobre Bolsonaro, Olga comenta que ele é um personagem curioso – com crenças que ela não discute. “Ele tem o público dele. O importante é que políticos como Bolsonaro tenham a medida clara do que falam. Às vezes, políticos falam sem a noção das consequências. Falam e se surpreendem com o efeito nocivo do ódio. Se surpreendem com a interpretação que fazem do que eles dizem. É preciso cuidado com a força bruta da inconsciência”, diz.

‘Água no pescoço’. Sem revelar especificidades de seus clientes, Olga conta como muitos dos políticos chegam em seu escritório. “Normalmente me procuram quando a água já está batendo no pescoço”, fala. Não à toa, citados na Operação Lava Jato (políticos e empresários) estão entre os seus clientes mais recentes. “Claro, o meu trabalho acontece antes do caso chegar em Curitiba”, avisa. “Mas eu preparo, por exemplo, quem vai dar algum depoimento em CPI ou explicações públicas. Tento passar técnicas para que eles tenham autocontrole mesmo diante das perguntas mais duras. Até para dizer que não vai responder é preciso algum preparo”, lembra.

Mas existiria alguma dica básica que poderia ser aplicada para a maioria dos políticos em maus lençóis? “Não adianta querer ser simpático, seduzir os interlocutores ou fingir ser íntimo demais. Não precisa cometer suicido público, mas não se deve enrolar. Não ajudo políticos a se esconderem. Eles precisam assumir responsabilidades por aquilo que pensam ou querem. Não ensino a mentir. Não faço teatro”, afirma Olga.

Para ela, o que faz muitos homens públicos apresentarem problemas de comunicação é a falta de clareza em seus propósitos. “Quando pergunto por que determinado político quer ser prefeito ou governador, ele me diz que é pra ‘melhorar a vida das pessoas’. Ok, tudo bem. Isso é mais ou menos verdade porque muitos não têm uma agenda concreta. A qualidade da comunicação tem a ver com coerência. Não adianta exercício de retórica. Ou o político explica como ele pretende ajudar as pessoas ou o eleitor percebe. O eleitor tem uma sensação quando o que se diz é verdadeiro ou apenas um exercício artístico, uma elaboração artificial”, diz.

Segundo Olga, a nossa “cultura do líder” faz com que muitos tenham vergonha de dizer coisas como ‘não sei’. “O mais fácil é a gente ouvir: ‘isso eu não sei, mas na minha opinião...’ Essa é a síndrome da opinião sobre assuntos que as pessoas não sabem. Políticos sofrem disso e, por isso, sofrem com a exposição pública”, conta. “Tento confrontá-los para que não assumam os dois personagens mais manjados do comportamento político: o da vítima ou o do super-herói. Nenhum funciona. Quando se escondem atrás desses personagens, só falam para convertidos. Portanto, não ganham eleições majoritárias.”

Além das questões conceituais, a especialista trata de problemas bastante concretos, como o de ensinar como um político deve respirar, como olhar para as pessoas, segurar um olhar sem constrangimento, como não parecer arrogante, usar as mãos de uma maneira correta, manter a postura e ter a consciência do próprio corpo. “Muitos tomam um susto quando se olham. Dizem: ‘ eu não sabia que era assim. Trata-se de um processo de educação não verbal”, afirma.

Questionada sobre políticos que teriam o domínio da arte da comunicação, Olga cita dois que não foram seus alunos: “Tem um que é bastante óbvio: o Obama. Ele sabe criar um ambiente empático, sabe dar a atenção devida aos seus interlocutores, tem clareza e etc.”.

Cunha. O outro é um pouco mais surpreendente. “Eduardo Cunha. Ele não precisa de aula. Acho que já nasceu sabendo. Não é um julgamento de conteúdo, mas de forma. Ele tem a fala clara e sabe o que quer quando está se expressando. Na votação do impeachment, ele ouvia os maiores xingamentos contra ele e apenas repetia: ‘Excelência, por favor, o seu voto’”.



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Bolsonaro dá uma "banana" aos "evangélicos" do PSC

Poxa, que chato, não adiantou nada aquela encenação chorosa do batismo do deputado defensor de torturador no rio Jordão, repercutida à exaustão por blogs e portais gospel como se fosse a última coca-cola do deserto.

Nada mais piegas...

Parece que a vocação messiânica recém-descoberta pelos "evangélicos" brasileiros no deputado saudosista da sanguinária ditadura militar brasileira vai ficar no nome do meio dele mesmo, Jair Messias Bolsonaro.

Os "evangélicos" e seus cabos eleitorais do PSC confiaram tanto no messiânico deputado que agora o partido corre o risco de desaparecer. 

De "batizado" como salvação do PSC, Bolsonaro pode representar mesmo é a perdição do agrupamento político.

Talvez vá para as cucuias, quem diria...

Justo agora que blogueiros "evangélicos" super-crentes haviam identificado e divulgado o retorno do "messias"... ficaram sem pai nem mãe, triste, viu!

A informação é do Congresso em Foco:

Bolsonaro deixará o PSC e negocia candidatura ao Planalto por outro partido

Deputado rompe com o presidente da legenda, Pastor Everaldo, após aliança com o PCdoB no Maranhão e pedido de doações para seu filho no Rio, e conversa com o PR, o PRB e até o DEM em busca de espaço para disputar a eleição presidencial de 2018

LEONEL ROCHA

O deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) está mesmo empenhado em concorrer à Presidência da República em 2018. Já faz campanha aberta, quase dois anos antes do prazo permitido por lei, e tem até slogan provisório: “Vamos endireitar o Brasil”, um trocadilho para reafirmar sua posição política. Mas sua candidatura não será mais pelo Partido Social Cristão. Ele rompeu com o presidente do PSC, pastor Everaldo Pereira, que foi candidato ao Planalto em 2014, assustou dirigentes da sigla com seu radicalismo político e já negocia sua filiação a outras legendas.

O parlamentar já conversou com dirigentes e parlamentares de várias siglas. Entre elas, o PR, o PRB do prefeito eleito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, e até o DEM, do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ). Os partidos estão de olho no potencial de votos do deputado para cumprir a cláusula de desempenho que um partido deve ter para poder existir, projeto que deve ser aprovado no Congresso para valer já na próxima eleição.

Há várias semanas Bolsonaro não conversa com a direção do PSC. Há um constrangimento no partido com o estilo agressivo do parlamentar e com o processo que ele responde no Supremo Tribunal Federal (STF) por apologia ao estupro. O próprio Everaldo reconhece que o deputado é difícil no trato pessoal e político, mas alega que Bolsonaro defende as mesmas ideias de gestão pública pregadas pelo PSC e por isso era bom para o partido e seu eleitorado conservador e religioso.

Majoritariamente evangélico, conservador quanto ao comportamento e liberal nas teses econômicas, o PSC apostava todas as suas fichas no potencial do polêmico parlamentar para melhorar seu desempenho eleitoral. Em uma jogada de marketing, o pastor Everaldo chegou a levar o deputado, que é católico, para ser batizado no Rio Jordão, em Israel. Mas nem mesmo o batismo no local histórico impediu o racha.

Treinamento

Para tentar domesticar o seu comportamento, o PSC pagou um curso de media training para Bolsonaro com a consultora de imagem Olga Curado. A mesma que cuidou da imagem eleitoral dos ex-presidentes Lula e Dilma, e de personalidades como o apresentador de TV Gugu Liberato. O deputado aprendeu várias técnicas para conceder entrevistas, fazer discursos mais compreensíveis e amenizar seu estilo excessivamente agressivo. Parecia tudo bem.

A gota d’água do rompimento de Bolsonaro com o PSC foi a aliança que o partido fechou com o PCdoB no Maranhão nas eleições municipais de outubro. Bolsonaro não pode nem sonhar com a palavra comunismo. Muito menos admite que seu partido apoie legendas deste segmento ideológico ou de esquerda. A aliança comuno-cristã em São Luiz possibilitou a eleição de três vereadores comunistas e um evangélico.

Quando soube do acordo eleitoral, Bolsonaro foi à sede da sigla no Rio de Janeiro e, aos gritos, disse que não admitia esse tipo de aliança. O deputado considera que o programa político do PCdoB, que defende bandeiras como a descriminalização do aborto e do consumo de maconha e apoia o casamento gay, são incompatíveis com o que ele prega.

A campanha do filho Flávio, deputado estadual e candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, também afastou o deputado do PSC. Bolsonaro foi repreendido pelo pastor Everaldo porque recusou, aos gritos, a ajuda da deputada Jandira Feghalli (PCdoB), que é médica, quando Flávio desmaiou durante um debate na TV e a concorrente foi ajudá-lo. A repreensão de Everaldo irritou Bolsonaro.

Outro desentendimento entre o deputado e o PSC ocorreu quando Bolsonaro gravou um vídeo recusando as doações em dinheiro para a campanha do filho no Rio de Janeiro, pedida pelo partido. A direção da legenda se queixa que o parlamentar não aceita orientação partidária, não gosta de trabalhar em conjunto e é considerado personalista. Bolsonaro avisou que pretende criar um sistema pessoal de arrecadação para a campanha, o que é proibido por lei, mas o PSC é contra.

Doações

O deputado também é o sonho da bancada evangélica na Câmara para ser o puxador de votos nas eleições de 2018. Aliados do deputado no Congresso garantem que, se ele deixar o PSC, levará consigo vários outros colegas da legenda, entre eles o pastor Marco Feliciano (SP), líder da bancada de oito deputados na Câmara, e o líder do governo na Casa, André Moura (SE).

Militar da reserva, o deputado já foi vereador no Rio de Janeiro. Na década de 1980, quando era capitão, foi expulso do Exército por incitar os colegas a fazer uma rebelião por aumento do soldo. Ele está no sétimo mandato, atua como uma espécie de sindicalista da caserna e defensor da ditadura militar (1964-1985).

Bolsonaro deverá deixar o PSC ainda este ano e levará consigo os filhos Eduardo, deputado federal eleito por São Paulo, Carlos, vereador mais votado no Rio, e Flávio, deputado estadual fluminense derrotado na eleição municipal no Rio.

Com o fim das coligações proporcionais, proposta discutida pelo Congresso, e sem um puxador de votos, o PSC corre o risco de não cumprir a cláusula de desempenho a ser implantada e voltar a ser um partido nanico.



sábado, 16 de julho de 2016

Turquia vive noite de caos e povo resiste a golpe militar


A matéria é da BBC Brasil:

Governo declara ter impedido tentativa de golpe militar na Turquia

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, disse na manhã deste sábado que seu governo resistiu à tentativa de golpe militar que na noite de sexta-feira causou caos no país. Segundo informações da mídia local e da agências de notícias internacionais, mais de 2.300 militares foram presos e centenas dos soldados que tinham ocupado pontos estratégicos de Istambul e Ancara, as duas principais turcas, renderam-se.

Erdogan estava de férias em um resort no balneário de Marmaris e retornou a Istambul ainda na noite de sexta para combater a ação dos militares. Em uma entrevista por telefone ao serviço turco da rede CNN Ele afirmou que o ato foi uma "traição" e que fará uma "limpeza" no Exército. O governo anunciou ainda que estuda reinstaurar a pena de morte para punir os participantes da tentativa de golpe.

Por meio de sua conta no Twitter, o presidente pediu que "o povo continue nas ruas para defender a democracia". O uso da rede social não deixou ser der irônico, já que o presidente anteriormente tentou censurar comentários críticos a seu governo na internet.

Em um pronunciamento pela TV, o comandante interino das Forças Armadas, o generla Umit Dundar, disse que 104 pessoas, descritas como "conspiradoras", tinham sido mortas em confrontos. Informações extra-oficiais são de que 190 pessoas, incluindo civis, morreram em enfrentamentos nas ruas. Há relatos de que soldados atiraram contra um multidão de pessoas que protestavam na sexta-feira contra o golpe na Praça Taksim, em Istambul.

Tensão

O número de feridos passa de mil.

"O povo foi para as ruas e declarou seu apoio à democracia. A nação jamais esquecerá essa traição. A Turquia irreversivelmente encerrou o capítulo dos golpes militares", afirmou Dundar, que assumiu o cargo depois de o titular, o general Hulusi Akar, ter sido feito prisioneiro durante a tentativa de golpe.

Foi uma alusão aos quatro golpes militares ocorridos na Turquia entre as décadas de 60 e 90, em que as forças armadas exerceram o que chama de "defesa do secularismo". Dessa vez, porém, o exército turco não pareceu estar unido em torno da bandeira do golpe.

E tampouco pareceu esperar a reação dos adeptos de Edogan e de seu partido, o AKP, de linha conservadora e religiosa, e que desde 2004 domina a política turca - de maneira controversa, sob acusações de censura da mídia e de cerceamento da liberdade de expressão. Manifestantes foram às ruas, desafiando o toque de recolher imposto pelos golpistas.

E o governo turco acusou os militares revoltosos de estarem alinhados com o Hizmet, um movimento político-religioso liderado pelo clérigo Fethullah Gülen, radicado nos EUA, e crítico ferrenho do regime de Erdogan.

Mas porta-vozes do recluso Gülen afirmaram seu repúdio ao golpe, que classificaram como uma "irresponsabilidade" dos setores militares envolvidos.

Na sexta-feira, pontes foram fechadas em Istambul e aviões militares sobrevoaram a capital, Ancara, no momento em que o grupo iniciou a tentativa de golpe.

De acordo com a agência de notícias estatal Anadolu Agency, tiros vindos de helicópteros militares foram ouvidos próximos ao Complexo Presidencial, em Ancara.

O helicóptero do Exército - que pertenceria ao grupo que tenta tomar o poder na Turquia - acabou derrubado por um avião de combate turco, segundo informações da emisssora estatal NTV.

A agência Anadolu relatou que 17 policiais foram mortos em um ataque aéreo no departamento de operações especiais Golbasi em Ancara.

A mesma agência afirmou ainda que jatos do Exército sobrevoavam a capital para "neutralizar" os helicópteros usados pelo grupo militar.

'Regime democrático corroído'

Logo nas primeiras horas da tentativa de golpe, o grupo de militares declarou lei marcial e impôs um toque de recolher, segundo informações da emissora estatal de TV TRT.

Uma nota oficial do grupo armado foi lida ao vivo na emissora. "O regime democrático e secular da Turquia foi corroído pelo atual governo. O país agora é administrado por um 'conselho de paz' que irá garantir a segurança da população", afirma a nota. "Uma nova Constituição será preparada o mais rápido possível."

O trânsito foi bloqueado para cruzar a ponte do Bósforo e a ponte Fatih Sultão Mehmet, duas das principais vias de Istambul.

A agência de notícias AFP relatou que houve uma explosão violenta em Ancara. Além disso, tiros foram ouvidos próximos ao quartel general militar na capital, segundo a Reuters.

Mais tarde, a emissora estatal TRT foi tomada pelo grupo armado, que invadiu os estúdios e tirou o canal do ar. Imagens do caos foram transmitidas na televisão, com homens armados no centro do estúdio, enquanto centenas de funcionários do canal estavam em volta pedindo calma.

A CNN turca também chegou a ser tirada do ar pelo grupo militar, que tomou os estúdios locais. A repórter da BBC Katy Watson, que está no país, compartilhou uma foto do canal de TV 'vazio'.

Tiros e explosões

Houve registros de tiros e explosões na capital Ancara e também em Istambul. Um dos locais mais violentos de conflito foi a ponte Bósforo, onde diversas pessoas ficaram feridas após confrontos com militares.

No aeroporto de Istambul, todos os voos foram cancelados e só começaram a ser retomandos na manhã deste sábado. Nas ruas, a tensão era visível pelos tanques militares que ocupavam as vias.

A mídia estatal na Turquia também noticiou que uma das explosões aconteceu no prédio do Parlamento, na capital turca.

'Golpe'

Segudo a agência de notícias Reuters, uma fonte da União Europeia disse que a ação na Turquia parece um "golpe muito bem orquestrado".

"Parece realmente um golpe relativamente bem orquestrado por partes importantes dos militares, não apenas alguns coronéis", afirmou.

O primeiro-ministro Binali Yildirim disse à NTV pelo telefone que o governo "não iria permitir nenhuma atividade que pudesse prejudicar a democracia".

"Houve um ato ilegal liderado por um grupo de militares que agiu de maneira independente do comando central do Exército. Nosso povo deve saber que não vamos permitir isso", afirmou.

Enquanto isso, a população passou a lotar lojas e supermercados para abastecer suas casas. Um repórter da BBC em Antália compartilhou imagens de filas imensas em postos de gasolina ou caixas eletrônicos e até lojas de conveniência - segundo relatos, sensação no país é de "golpe", e a população estáaria tentando se preparar para dias difíceis que estariam por vir.

Reação internacional

O presidente americano, Barack Obama, se manifestou por meio de nota sobre a situação e fez um apelo para todos os partidos da Turquia apoiarem "o governo democraticamente eleito e evitar qualquer violência ou derramamento de sangue".

No Brasil, o ministro das Relações Exteriores, José Serra, também soltou uma nota pedindo "respeito às instuições e à ordem constitucional".

"Em relação aos acontecimentos em curso na Turquia, o governo brasileiro insta todas as partes a se absterem do recurso à violência e recorda a necessidade de pleno respeito às instituições e à ordem constitucional."

O ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, disse que é importante "evitar um banho de sangue".



terça-feira, 1 de março de 2016

Pesquisa diz que religião avança sobre democracia no mundo


A matéria é da Agência Brasil:

Democracia retrocede e influência da religião na política aumenta, indica estudo

Um estudo da Fundação Bertelsmann, com sede em Gütersloh, Alemanha, constatou um retrocesso da democracia e da economia social de mercado em todo o mundo e um aumento da influência da religião sobre as instituições políticas e jurídicas.

“A democracia e a economia social de mercado encontram-se em retrocesso em todo o planeta”, diz um comunicado de imprensa da fundação, no qual se resumem as conclusões do estudo.

O projeto, que contou com a participação de 250 cientistas, analisa a situação de 129 países em vias de desenvolvimento e transformação, para avaliar a qualidade dos respectivos governos, a partir da consideração de um total de 17 critérios.

Desses 129 países, a apenas seis é atribuída boa qualidade de governança, o que representa o nível mais baixo desde 2006, quando se começou a realizar o estudo periodicamente.

Apesar de nos países analisados, as democracias terem aumentado ligeiramente (de 72 para 74) e as autocracias terem diminuído de 57 para 55, a situação geral piorou relativamente a cada uma das respectivas formas de governo.

Desde o mais recente estudo – há dois anos –, as autocracias consideradas “duras” aumentaram de 58% para 73% e apenas 15 das 55 consideradas protegem em parte os direitos civis e se outorgam direitos políticos limitados.

Nas demais 40 autocracias, as detenções arbitrárias de jornalistas e ativistas dos direitos humanos são frequentes, segundo o estudo.

Sobre as democracias, o estudo indica que uma em cada duas é qualificada como 'falha' e na grande maioria dos países da Europa Oriental existe atualmente mais restrições à liberdade de imprensa e de expressão do que dez anos atrás.

O presidente da Fundação Bertelsmann, Aart De Geus, manifestou especial preocupação com a situação nos países vizinhos da União Europeia.

“Os países vizinhos da Europa tornaram-se mais conflituosos, menos estáveis e mais autoritários. O que preocupa é, principalmente, a crescente incapacidade para o debate social e político”, observou.

Essa situação, segundo o estudo, ajuda ao crescimento do populismo que, em muito países, já encontra terreno fértil na pobreza, desigualdade e na falta de perspectivas econômicas para boa parte da população.

O documento lamenta que os anos de prosperidade econômica mundial não tenham sido aproveitados para investir em educação e saúde e na luta contra a desigualdade social.

O estudo destaca ainda que a influência da religião na política aumentou em 53 países nos últimos dez anos e recuou em apenas 12.



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