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quinta-feira, 6 de julho de 2017

Teria sido um bispo inglês medieval o primeiro a ensinar o "big bang"?


A matéria é da BBC Brasil:

Como um bispo medieval adiantou a teoria do Big Bang no século 13

O livro bíblico do Gênesis, no capítulo 1, versículo 3, conta: "E Deus disse: faça-se a luz! E a luz foi feita".

Mas esse foi apenas o começo da criação do universo. Isso, de acordo com a Bíblia, é o que Deus fez depois da luz:

"E disse Deus: Haja luzeiros no firmamento do céu para dividir o dia e a noite, e para sinais e para estações, e para dias e anos;
e sirvam de luminares no firmamento do céu para alumiar a terra. E assim foi.
E fez Deus os dois grandes luminares, o luminar maior para governar o dia e a luz menor para governar a noite; fez também as estrelas.
E Deus os pôs no firmamento do céu para alumiar a terra, e para governar o dia e a noite, e para separar a luz das trevas. E Deus viu que isso era bom."

No século 13, um estudioso inglês da ordem dos franciscanos mergulhou nesse tema.

Robert Grosseteste trabalhou em um dos grandes centros de aprendizagem em Oxford, local que as pessoas já tinham começado a chamar de "faculdade".

Para Grosseteste, tudo tinha a ver com a luz, até o ato divino primordial da própria criação.

Mas como exatamente Deus fez a criação?

A resposta do religioso foi a primeira tentativa de descrever os céus e a Terra usando um conjunto de leis.

Do ponto de vista de Grosseteste, tudo começou com a luz e a matéria explodindo a partir de um centro: uma versão medieval do Big Bang.

Sua história mostrou como a fé em princípios científicos, combinada com a crença em um cosmos ordenado por Deus, resultou em uma ideia surpreendentemente profética. Inicia com luz...

Mas o que é a luz? Essa pergunta nunca foi simples.

Alguns dos primeiros escritores cristãos pensavam que havia dois tipos diferentes de luz.

A lux, como era chamado em latim, era o que Deus usou para fazer o cosmos, uma espécie de força criativa divina, quase uma manifestação do próprio Deus.

A outro era lúmen, luz comum que emana de corpos celestes e nos permite ver as coisas.

Essa visão fica evidente para qualquer pessoa que tenha estado em uma catedral gótica inundada pela luz que entra através dos vitrais das janelas.

Sacerdotes e teólogos pensavam que, ao contemplar a bela lúmen da igreja, os fiéis seriam atraídos pela lux bendita de Deus.

Religião e ciência

Embora hoje pareça haver um conflito entre ciência e religião, durante grande parte da história a religião foi uma grande motivação para a busca de conhecimento no mundo.

Nas escolas das catedrais dos séculos 11 e 12 - predecessoras das universidades - alguns estudiosos pensavam que era seu dever aprender mais sobre o universo que, para eles, havia sido criado por Deus.

Eles não consultavam apenas a Bíblia: liam os escritos dos antigos gregos como Platão, Aristóteles e Hipócrates, que tinham sido preservados em traduções feitas por escritores islâmicos.

O aprendizado sobre o mundo natural floresceu na era das grandes catedrais góticas, e muitos historiadores falam de um primeiro Renascimento no século 12.

A mais bela das entidades

No início do século 13, ele era um professor proeminente, erudito e, como todos os pesquisadores em Oxford, cristão devoto. Em 1235, tornou-se bispo de Lincoln, na Inglaterra.

Para ele, a luz era uma das mais maravilhosas criações de Deus.

"A luz física é a melhor, a mais deleitável, a mais bela de todas as entidades que existem. A luz é o que constitui a perfeição e a beleza de todas as formas físicas", escreveu.

Mas Grosseteste não se conformava com apenas apreciar a luz que entrava pelas grandes janelas da catedral gótica de Lincoln. Ele começou a estudá-la como um cientista. Analisou, por exemplo, a passagem da luz através de um copo de água.

Ele percebeu que lentes poderiam ampliar objetos, e quando alguém lê o que o bispo escreveu sobre o assunto, começa a se perguntar por que demorou mais de 300 anos para que telescópios e microscópios fossem inventados.

"Esta parte da ótica, quando bem compreendida, mostra-nos como podemos fazer as coisas que estão a uma distância muito grande parecerem como se estivessem muito próximas, e as coisas grandes que estão perto parecerem muito pequenas, e como podemos fazer as pequenas coisas que estão distantes parecerem de qualquer tamanho que queremos, de modo que poderia ser possível ler as letras mais pequenas a distâncias incríveis ou contar a areia ou sementes ou qualquer tipo de objetos minúsculos", escreveu Grosseteste.

Além disso, ele notou que a luz muda de trajetória ao passar do ar para a água, um efeito chamado de refração.

Como outros antes dele, Grosseteste viu que a luz poderia dividir-se em um espectro colorido como um arco-íris, e escreveu um tratado sobre o fenômeno, no qual chegou perto de explicar sua origem: pensou que as nuvens agiam como uma lente gigante que refratava a luz e a enchia de cor.

"De luce"

Em 1225, Grosseteste reuniu o que havia concluído sobre a luz em um livro chamado "De Luce" (Sobre a Luz).

Era uma mistura de teologia, ciência, metafísica e especulação cósmica.

Mas tratava, em particular, da questão de como Deus fez todo o cosmos usando a luz.

Em vez de tratar a criação como uma espécie de ato mágico, Grosseteste começou a transformá-la em um processo natural, algo que hoje chamaríamos de "estudo científico".

Como muitos de seus contemporâneos, ele acreditava que Deus trabalhava com princípios simples, baseados em regras que a humanidade poderia compreender pela lógica, geometria e matemática.

"Todas as causas de efeitos naturais devem ser expressadas por meio de linhas, ângulos e figuras, porque caso contrário seria impossível ter conhecimento da razão destes efeitos", escreveu.

E como o universo era governado pela matemática, era também ordenado e racional - e seria possível deduzir suas regras.

Na verdade, a descrição de Grosseteste da criação divina é tão precisa, que pode ser expressada em um modelo matemático, algo que historiadores e cientistas da Universidade de Durham, no Reino Unido, fizeram com a ajuda de um computador.

A máquina do mundo

Para Grosseteste e seus contemporâneos, o universo consistia na Terra, que ficaria no centro, e todos os corpos celestiais - o Sol, a Lua, os sete planetas conhecidos e as estrelas que giravam ao seu redor em círculos perfeitos.

Mas, para ele, tudo começou com uma espécie de Big Bang, no qual uma explosão de luz - do tipo lux - fez com que uma densa esfera da matéria se expandisse, tornando-se cada vez mais leve e diluída.

"Essa expansão dispersaria a matéria 'dentro de uma esfera do tamanho da máquina do mundo', que é como ele chama o cosmos", diz Tom McLeish, um dos físicos da Universidade de Durham que traduziu a teoria cosmológica de Grosseteste para um modelo matemático.

"Mas logo encontra um problema: (a matéria) não pode se expandir infinitamente, porque nessa época o universo era enorme, mas finito. Como pará-lo? Com uma brilhante ideia científica. Pensando como um físico, recorre a algo simples para explicar não apenas como (o universo) deixa de expandir, mas como as esferas são formadas."

Uma luz brilhante na escuridão

"Se você não pode alcançar o vazio, porque a natureza tem aversão a ele", reflete Grosseteste, "deve haver uma densidade mínima, e quando chega-se a ela, a (matéria) tem que cristalizar".

Seguindo essa linha de raciocínio, isso ocorreria em primeiro lugar na parte mais distante: o firmamento. Esse se cristaliza primeiro e se aperfeiçoa, adquirindo luz - lúmen-, que também empurra a massa, neste caso, para dentro, e, portanto, são criadas as esferas nas quais residem os planetas, o Sol, a Lua e a Terra.

"Outro pensamento moderno que ele teve foi que, quando olhamos para o céu, o universo que vemos de alguma forma contém os rastros ou eco dos processos que o formaram", disse McLeish.

"Isso é precisamente o que os cosmólogos pensam hoje em dia. Lembre-se da busca por microondas no eco do Big Bang", acrescentou com entusiasmo.

"A única parte obscura da Idade das Trevas (entre a queda de Roma e o Renascimento) é a nossa ignorância sobre essa época. Grosseteste é um pensador impressionante", disse McLeish.

"A história que me contaram quando era jovem era que antes de 1600 não havia mais do que misticismo, teologia e dogmatismo. E de repente apareceram Galileu, Kepler, uau! Tudo é luz e iluminação, e voltamos a andar com a ciência ", diz o físico.

"Mas a verdade é que a ciência não funciona assim. Todos nós damos pequenos passos e, como disse Isaac Newton, todos nós subimos nos ombros de gigantes. E Grosseteste é um daqueles gigantes em cujos ombros subiram os primeiros cientistas modernos."



segunda-feira, 24 de outubro de 2016

STJ condena padre a pagar danos morais por impedir aborto que se consumou naturalmente

Este é um caso clássico de aborto permitido pela lei brasileira que merece ser divulgado e analisado para que alguém consiga responder a uma simples questão: - até que ponto uma pessoa leiga deve sofrer para satisfazer os dogmas religiosos de outros?

A notícia foi publicada pelo Superior Tribunal de Justiça:

Padre é condenado a pagar danos morais por impedir interrupção de gravidez

Em decisão unânime, a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenou um padre do interior de Goiás a pagar indenização de danos morais no valor de R$ 60 mil por haver impedido uma interrupção de gestação que tinha sido autorizada pela Justiça.

Em 2005, o padre Luiz Carlos Lodi da Cruz impetrou habeas corpus para impedir que uma mulher grávida levasse adiante, com auxílio médico, a interrupção da gravidez de feto diagnosticado com síndrome de Body Stalk – denominação dada a um conjunto de malformações que inviabilizam a vida fora do útero. No habeas corpus impetrado em favor do feto, o padre afirmou que os pais iriam praticar um homicídio.

Acompanhando o voto da relatora, ministra Nancy Andrighi, a Terceira Turma entendeu que o padre abusou do direito de ação e violou direitos da gestante e de seu marido, provocando-lhes sofrimento inútil.

Ao saber que o feto não sobreviveria ao parto, os pais, residentes na cidade de Morrinhos, a 128 quilômetros de Goiânia, haviam buscado – e conseguido – autorização judicial para interromper a gravidez.

Durante a internação hospitalar, a gestante, já tomando medicação para induzir o parto, foi surpreendida com a decisão do Tribunal de Justiça de Goiás, que atendeu ao pedido do padre e determinou a interrupção do procedimento.

A grávida, com dilatação já iniciada, voltou para casa. Nos oitos dias que se seguiram, assistida só pelo marido, ela agonizou até a hora do parto, quando retornou ao hospital. O feto morreu logo após o nascimento. O casal ajuizou uma ação por danos morais contra o padre, que preside a Associação Pró-Vida de Anápolis. Não obtendo sucesso na Justiça de Goiás, recorreu ao STJ.

Aterrorizante

Em seu voto, Nancy Andrighi classificou de “aterrorizante” a sequência de eventos sofridos pelo casal.

“Esse exaustivo trabalho de parto, com todas as dores que lhe são inerentes, dão o tom, em cores fortíssimas, do intenso dano moral suportado, tanto pela recorrente como pelo marido”, disse.

A ministra afirmou que o caso deve ser considerado à luz do entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 54, julgada em abril de 2012, quando se afastou a possiblidade de criminalização da interrupção de gestação de anencéfalos.

“É inegável que ambas as condições, anencefalia e síndrome de Body Stalk, redundam, segundo o conhecimento médico atual, na inviabilidade da vida extrauterina”, comparou a ministra.

Embora o julgamento da ADPF tenha sido posterior ao caso, a ministra assinalou que a orientação manifestada pelo STF não tem limites temporais, e já em 2005 era a mais consentânea com as normas constitucionais, inclusive pela reafirmação do caráter laico do Estado brasileiro e pelo reconhecimento da primazia da dignidade da gestante em relação aos direitos de feto sem viabilidade de vida extrauterina.

Ação temerária

A relatora avaliou ainda que o padre agiu “temerariamente” quando pediu a suspensão do procedimento médico de interrupção da gravidez, que já estava em curso, e impôs aos pais, “notadamente à mãe”, sofrimento inócuo, “pois como se viu, os prognósticos de inviabilidade de vida extrauterina se confirmaram”.

De acordo com a ministra, o padre “buscou a tutela estatal para defender suas particulares ideias sobre a interrupção da gestação” e, com sua atitude, “agrediu os direitos inatos da mãe e do pai”, que contavam com a garantia legal de interromper a gestação.

Andrighi refutou ainda a ideia de que a responsabilidade não seria do padre, que apenas requereu o habeas corpus, mas, sim, do Estado, pois foi a Justiça que efetivamente proibiu a interrupção da gestação.

Segundo ela, “a busca do Poder Judiciário por uma tutela de urgência traz, para aquele que a maneja, o ônus da responsabilidade pelos danos que porventura a concessão do pleito venha a produzir, mormente quando ocorre hipótese de abuso de direito”.

A turma condenou o padre ao pagamento de R$ 60 mil como compensação por danos morais, valor a ser acrescido de correção monetária e juros de mora a partir do dia em que a recorrente deixou o hospital.



terça-feira, 27 de agosto de 2013

Maria e o jejum na tradição ortodoxa


Amanhã, dia 28 de agosto, é o dia da "Dormição da Deípara" na tradição ortodoxa oriental. "Deípara" é uma palavra de origem latina que significa "aquela que deu à luz a Deus", atribuída como epíteto a Maria no sentido de "Mãe de Deus", ou "Theotokos", como já tivemos oportunidade de comentar nesse artigo de novembro de 2008.

Para os ortodoxos, Maria passou pela morte natural, à qual eles chamam de "dormição" porque, segundo a sua tradição ensina, a sua alma teria sido imediatamente recebida por Cristo no paraíso, enquanto o seu corpo teria sido ressuscitado ao terceiro dia e imediatamente elevado aos céus para se juntar ao seu espírito.

Os católicos romanos também têm essa crença, transformada no dogma da Assunção de Maria pelo papa Pio XII em 1950, declarando que ela teria subido de corpo e alma ao céu, mas não fica claro (propositalmente, ao que tudo indica) se a mãe de Jesus teria ou não passado pela morte natural.

Repare também na sutil diferença terminológica. Como relatam brevemente os evangelhos (Marcos 16:19; Lucas 24:50-53) e o livro de Atos dos Apóstolos (1:9-11), Jesus "ascendeu" ao céu ("Ascensão", portanto) enquanto Maria foi "assumida" no céu ("Assunção").

A festa católica da Assunção de Maria também se dá em agosto, no dia 15, enquanto os ortodoxos a celebram no dia 28. A diferença entre as datas se dá porque os primeiros seguem o calendário gregoriano para suas festas religiosas, enquanto os últimos adotam o calendário juliano.

Feitos esses breves comentários sobre como as duas tradições abordam a morte e o, digamos, "traslado" de Maria, é interessante ver como os ortodoxos celebram a data festiva com jejum, e o que eles pensam a respeito da abstenção de alimentos.

O artigo abaixo é de autoria do Diácono Marcelo Paiva, do excelente blog ortodoxo "O Cetro Real", ao qual agradecemos a especial gentileza de ter-nos autorizado sua reprodução aqui:



Esforço Ascético : O Jejum da Dormição da Deípara.

Queridos irmãos, prezados amigos,

Nesta Quarta Feira (14 de Agosto), os filhos das jurisdições da Santa Igreja Ortodoxa que guardam o calendário juliano durante todo o ano, dão inicio ao período de jejuns e abstinências, em razão da preparação espiritual para a Festa da Dormição da Deípara, que se dará no dia 28 de Agosto.

O "Jejum da Dormição", mantido por duas semanas, tem as mesmas características do Jejum da Grande Quaresma : Abstenção de alimentos de origem animal, bebidas alcoólicas, e para os casados, das relações maritais.

Vinho e Azeite são permitidos aos Sábados e Domingos.

Em meio ao Jejum, será celebrada a Grande Festa da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo (dia 19 de Agosto). Neste dia, em razão da Grande Festa, se permite consumir peixe.

Vamos ver o que os Santos dizem a respeito do jejum :

São Serafim de Sarvov - "O jejum não consiste apenas em reduzir o número de refeições, mas também de comer pouco quando realizar estas. E se você faz apenas uma refeição, que se coma pouco nesta também. Insensato é o jejum em que o fiel conta as horas para poder comer a sua refeição, e quando a realiza a consome com voracidade, consumindo assim o corpo e a mente , de forma insaciável. Na medida em que a forma do corpo, em razão do jejum, vai se tornando mais fina e leve, assim também a vida espiritual vai alcançando a perfeição, se revelando de maneira maravilhosa. Então a alma age como se livre do corpo, pois os sentimentos carnais vão sendo desligados, e o espírito assim se libera do mundo, sobre ao céu e mergulha na contemplação da realidade espiritual. Então, durante todos os dias devemos recorrer apenas a quantidade de alimento necessário para manter o corpo são, para que ele seja um amigo e auxiliar da sua alma, na realização das virtudes. Caso contrário, com o corpo fraco, a alma também pode fraquejar."

São Hierarca Basílio, o Grande : "Há tanto um jejum físico quanto um jejum espiritual.

No jejum físico, o corpo se abstém de comida e bebida. No jejum espiritual, o jejuador se abstém das más intenções, palavras e ações.

Aquele que verdadeiramente jejua se abstém da raiva, ódio, malícia e vingança.

Aquele que verdadeiramente jejua se abstém da conversa fiada e inútil, da retórica vazia, da maledicência, da condenação, da bajulação, da mentira e de todo o tipo de conversa rancorosa. Em uma palavra, um verdadeiro jejuador é aquele que se afasta de todo o mal.

Tanto quanto você subtrai do corpo será o quanto você vai contribuir para o fortalecimento da alma. Pelo jejum é possível tanto nos precaver sobre os males futuros quanto desfrutar das coisas boas que virão. Sofremos doenças por causa do pecado; e receberemos a cura através do arrependimento, que não será frutífero sem a prática do jejum.

O verdadeiro jejum consiste em rejeitar o mal, no controle da língua, na supressão do ódio , no banimento da própria luxúria e das palavras más, da mentira e da traição dos votos afirmados."

Santo Hierarca João Crisóstomo : "Você jejua? Agora também alimente os famintos, de de beber aos sedentos, visite os doentes, não se esqueça dos presidiários, tenha piedade dos torturados, console os que sofrem e choram, seja misericordioso, bondoso, humilde, calmo, paciente, simpático, tolerante, reverente, verdadeiro e piedoso para que Deus possa então aceitar o seu jejum e possa conceder-lhe abundantemente os frutos do arrependimento.

O jejum do corpo é o alimento para a alma.

É necessário, acima de tudo para aquele que está em jejum conter a raiva, para assim acostumar-se com a mansidão e a condescendência, para ter um coração contrito, para repelir os pensamentos e desejos impuros, para examinar sua consciência, para colocar sua mente à prova e ao verificar o que afinal tem sido feito de bom por nós nesta semana e na semana que passou, e para que aquelas deficiências que tenhamos verificado em nós mesmos, possa ser corrigida na semana atual. Este é o verdadeiro jejum.

O ponto aqui não é apenas que devemos ir à igreja todos os dias possíveis, e que devemos sempre ler e ouvir sobre os ensinamentos espirituais ou que devemos nos abster destes ou aqueles alimentos durante toda a quaresma.Não!

Se nós, continuamente vamos a Igreja e ouvimos e lemos as palavras de ensino e espiritual, mas não adquirimos nada de positivo e nada de bom frutifica deste tempo de jejum, ao contrário de nos beneficiar, tudo isso nos conduz a própria condenação, pois apesar de toda a preocupação dos padres e da Igreja em nosso favor, nós insistimos em continuar a viver a mesma vida que antes vivíamos.

Não diga então para mim que você jejuou por muitos dias, que não comeu isso ou aquilo, que não bebeu vinho... Mas ao contrário, me diga se tu tens deixado de ser um homem irritadiço para ser um homem suave, se tens deixado de ser um homem cruel para se tornar benevolente, se tens deixado de ser um homem dominado de raiva, tudo isso em razão do jejum.

Pois se o ódio e a avareza estão dentro de ti, qual é o benefício que você retira do jejum ?

O jejum por si só não o levará para o céu, se ele não der fruto.

O jejum é maravilhoso porque atropela os nossos pecados como se estes fossem uma erva daninha, ao mesmo tempo que cultiva e eleva a verdade como uma flor."

São João de Kronstadt :

"Todo aquele que rejeita os jejuns, priva a si mesmo de se armar contra a sua própria carne, e de tal descuido favorece a ação do diabo, que assim passa a ter poder sobre nós, especialmente em razão da nossa intemperança.

Então nos dizem : Não importa se você come isso e deixa de comer aquilo durante as Quaresmas, e também não há nada de errado se você durante o Jejum usa roupas caras, vai ao teatro, a festas, compre móveis refinados, aposte em corridas de cavalo, e continue a desejar acumular e acumular coisas..." É o que nos dizem.

Contudo, o que é afinal que se transforma o nosso coração quando estamos longe de Deus, quando estamos longe da Fonte da Vida?

Afinal como é que perdemos a vida eterna ? Não é justamente por causa da gula, das roupas caras (como aquelas que o homem rico da Parábola do Evangelho), dos teatros e de todas as outras diversões que colocamos acima de Deus?

O que torna endurecidos os nossos corações para com os pobres, até mesmo para com os nossos parentes ? Não é justamente essa nossa paixão por satisfazer os nossos luxos?

É possível servir a Deus e às riquezas ao mesmo tempo ? É possível ser amigo do mundo e um amigo de Deus ao mesmo tempo ? É possível servir conjuntamente a Cristo e Belial?

Não, isso não é possível.

Por que Adão e Eva perderam paraíso ? Por que eles caíram em pecado e obtiveram a morte? Qual foi o mal que eles escolheram ? Vamos considerar atentamente tal questão, e veremos o que o não se preocupar com a salvação de nossa alma custa, quanto custou ao Filho de Deus.

Por que nós insistimos em viver uma vida composta de pecado sobre pecado, em uma queda sem fim, sempre em oposição a Deus, em uma vida de puro cultivo da vaidade?Não é justamente em razão de nossa paixão pelas coisas terrenas e, especialmente, para os prazeres terrenos? O que faz nossos corações se tornarem tão embrutecidos?

Não por que justamente nos tornamos carne e não espírito, pervertendo a nossa natureza moral?Não é por causa de uma paixão desenfreada por comida, bebida e outros confortos terrenos? Como depois disso se pode dizer que não importa o que se come ou que não se come durante a Quaresma? O fato de pensarmos assim é apenas por orgulho , por um pensamento ocioso, por desobediência, em uma recusa consciente em se submeter a Deus, por buscarmos nos separar Dele."

Santo Hierarca Inácio Brianchaninov :

"A maior das virtudes é a oração, mas a sua base é o jejum. A razão disso é que o jejum tem um efeito sobre os espíritos malignos, que buscam exercer uma poderosa influencia sobre o nosso próprio espírito, através das fraquezas do nosso corpo. Um corpo subjugado pelo jejum traz a liberdade ao espírito humano, lhe concedendo força, sobriedade, pureza e um agudo discernimento."

Santo e Venerável Efreim, o Sírio:

"Se tu, ó homem, não desejar perdoar a todos que pecaram contra ti, então não te incomodes em fazer jejum. Se tu não deseja perdoar a dívida de teu irmão, com quem você se zangou por algum motivo, então você jejuará em vão, pois Deus não vai aceitar o seu jejum.O jejum não te ajudar até que tu se esforce no amor e na esperança da fé. Quem jejua e se torna irritado, abrigando qualquer tipo de inimizade em seu coração, tal pessoa odeia a Deus e a salvação está longe dela."

São Tikhon de Zadonsk:

"Um jejum excelente é aquele que nos ajuda a nos moderarmos de toda impureza, que impõe a abstinência de nossa língua e que impede a conversa fiada, linguagem chula, a calúnia, a condenação, bajulação e toda sorte de palavra malévola, que nos ajuda a evitar a raiva, o ódio, a maldade e a vingança, que nos afasta de todo o mal.

Que a tua mente então faça jejum, se abstendo de pensamentos vãos; que a tua memória jejue, de modo que você se lembre do mal que você mesmo fez. Que a sua vontade jejue, coibindo os desejos perversos. Que teus olhos jejuem para que você não possa fitar a vaidade. Que os teus ouvidos jejuem para que você não ouça canções vis ou sussurros de calúnia contra o seu próximo. Que a tua língua jejue, evitando toda a calúnia, condenação, blasfêmia, falsidade, engano, linguagem chula e toda a palavra ociosa e podre rápida de lembrar o mal. Que as tuas mãos jejuem , deixando de matar, de roubar. Que as tuas pernas jejuem, o desviando do mal caminho, se mantendo firmes na trilha da salvação.

Santo Atanásio, o Grande :

"Vês o que o jejum faz: ele cura doenças, expulsa demônios, remove maus pensamentos, faz com que o coração se torne puro. Caso alguém tenha sido tomado por um espírito impuro, que ele tal mal não se combate sem que faça oração e jejum, e isso sabemos de acordo com a palavra do Senhor (Mateus 17:21)".

Que Deus nos permita viver com piedade e verdadeiro fervor espiritual esses dias de esforço ascético.



quarta-feira, 1 de maio de 2013

Padre Beto volta a atacar a igreja católica após excomunhão

Depois da excomunhão provocada por sua recusa em se retratar das declarações polêmicas que irritaram o bispo de Bauru (SP), D. Caetano Ferrari, o ex-padre Beto, hoje o cidadão Roberto Francisco Daniel, não se fez de rogado e resolveu sair atirando da igreja.

Nas duas entrevistas publicadas abaixo, a primeira concedida ao UOL e a segunda ao Estadão, sobra tiro pra todo lado, desde a conhecida e criticada tolerância das autoridades católicas quanto aos casos de pedofilia dentro da igreja até compará-la a Marco Feliciano, a quem ele chama de "extremamente dogmático e fundamentalista.

O teor de suas declarações permite duvidar de sua afirmação de que ficou "indiferente" com a excomunhão que lhe foi aplicada. Confira:

Pedófilos não são excomungados, mas eu fui, desabafa padre de Bauru (SP)

Camila Neuman

Roberto Francisco Daniel, 48, mais conhecido como padre Beto, diz ver com incoerência sua excomunhão da Igreja Católica, já que sacerdotes que cometeram crimes de pedofilia, entre outros, não receberam a mesma punição.

O religioso que atuava na Diocese de Bauru (329 km de São Paulo) desde 2001 foi excomungado nesta segunda-feira (29) pela igreja, após um vídeo no qual ele se mostra favorável à união entre homossexuais ter sido publicado na internet.

Padre Beto conta ter sido recebido ontem pelo bispado da Diocese de Bauru em uma sala que se transformou rapidamente em um tribunal. Lá, ele deveria 'se desculpar pelos crimes contra a igreja', entre os quais o vídeo, que deveria ser retirado do ar.

O combinado, segundo ele, era ir à diocese somente para entregar seu pedido de afastamento, pois não havia aceitado pedir desculpas pelo conteúdo do vídeo. Ao questionar se estava "no banco dos réus", recebeu a afirmativa e, em seguida, abandonou a sala. Depois do episódio, recebeu a notícia da excomunhão.

"Foi com bastante indiferença [que recebi a notícia] porque eu já tinha me desligado. Mas, por outro lado, vejo com muita tristeza a incoerência dela [da Igreja], porque nós sabemos de casos que são notórios e públicos de pessoas, padres e bispos que erraram, que cometeram crimes de pedofilia, outros crimes também, que são punidos pela lei penal, mas não são excomungados. E a gente que simplesmente ajudou na reflexão sobre esses temas é excomungado. Vejo uma incoerência muito grande", disse ao UOL.

Impedido de celebrar missas a partir de então, Beto diz que manterá suas ações como teólogo e professor universitário na cidade, mantendo o diálogo sobre assuntos que envolvem a sexualidade.

"Pretendo continuar uma vida religiosa como teólogo. Sou teólogo formado, tenho doutorado e vou continuar contribuindo com a reflexão sobre Deus, sobre o mundo e como eu já comecei sobre a sexualidade humana, sobre o comportamento humano e sua relação com Deus", disse.

Padre Beto nunca foi um padre 'comum'. Com aparência jovial, vista no piercing em uma das orelhas, na tatuagem aparente e na calça jeans e camiseta, ele atraía jovens universitários e católicos não praticantes para as missas bauruenses. Em muitas delas, as mulheres eram maioria. O motivo? A simpatia e os olhos claros do religioso também costumeiramente chamado de 'padre galã'.

Beto repudiou ainda o discurso da igreja que diz que seus atos provocam escândalo.

"Quando ela [a Igreja Católica] fala em atos, isso é muito grave. Não são atos, são reflexões, é uma grande diferença. Tenho uma vida íntegra, dou a cara para bater. Reflito claramente porque não tenho o que esconder. Tudo o que eu faço é da linha da igreja, nunca feri o celibato, sempre levei a vida na moral cristã. Reflito a igreja, mas ela tem que revisar o conceito", diz.

Para ele, falta a Igreja Católica abrir espaço para a reflexão de temas atuais, como o uso de métodos anticoncepcionais.

"É claro que a maioria dos casais da Igreja Católica usa camisinha, faz laqueadura e ninguém fala. É aquela hipocrisia e não se esclarece que temos que ter uma boa educação sexual, planejar nossas famílias. Agora se isso é escandaloso em pleno século 21, eu não sei em que sociedade estou vivendo", diz.




Igreja se assemelha a Feliciano, diz padre excomungado

CHICO SIQUEIRA

O padre Roberto Francisco Daniel, o padre Beto, de Bauru (SP), disse que, pelo fato de ter sido excomungado, a Igreja Católica tem comportamento que pode ser comparado ao do pastor Marcos Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, conhecido por suas declarações preconceituosas contra os homossexuais e negros. Daniel foi excomungado pela Igreja depois de postar na internet entrevistas defendendo o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo e bissexuais.

"Essa comparação pode ser feita. Acredito que a Igreja, com essa excomunhão, se equipara ao pastor Feliciano, alguém extremamente dogmático e fundamentalista, que está num cargo onde deveria fazer com que os direitos humanos fossem respeitados, mas ao contrário, ele exclui os direitos das pessoas", comentou. Segundo padre Beto, tanto a Igreja Católica quanto Feliciano "deveriam exercer o diálogo e não a exclusão". Para ele, a Igreja foi contra a própria essência do evangelho ao condená-lo por ter defendido os homossexuais.

"A essência do evangelho possui Jesus Cristo como modelo e o evangelho de Jesus Cristo foi exercido com liberdade de expressão e respeito; ele amou as pessoas sem preconceito algum e nunca condenava ou excluía alguém por ser diferente dos outros", disse padre Beto. Segundo o religioso, pelo comportamento da Igreja em relação à sua excomunhão e às declarações de Feliciano, "as pessoas com tendências diferentes dos heterossexuais, como bissexuais e homossexuais, além de serem vistas com preconceito, são consideradas pecadoras".

"Cristo não falou nada sobre sexualidade. As expressões sobre os temas sexuais na bíblia representam a mentalidade de uma época em que as pessoas não tinham condições de analisar a bissexualidade ou a homossexualidade. A ciência evoluiu e a Igreja não pode fechar os olhos para o conhecimento humano, não pode ignorar a realidade da existência de uma diversidade sexual", diz. "A Igreja não pode achar que duas pessoas que se amam, que se respeitam e querem construir um mundo juntos, são pecadoras só porque são do mesmo sexo", completou. Beto diz que vai conversar com um advogado especializado em direito canônico para se defender.

Em nota distribuída nesta terça-feira, 30, pela assessoria do bispado de Bauru (SP), o juiz-instrutor da excomunhão diz que o ato se deu porque padre Beto não obedeceu aos superiores e insistiu em manter um comportamento em desacordo com as regras do sacerdócio. Embora o bispo de Bauru, d. frei Caetano Ferrari, tenha exigido que o padre retirasse da internet os vídeos em que critica a postura da Igreja em relação aos temas sexuais, a nota afirma que o sacerdote não foi excomungado por defender os interesses dos homossexuais porque "isso não é matéria para excomunhão na Igreja"



domingo, 9 de setembro de 2012

Teria sido Rousseau o pai do individualismo religioso?

É esta a questão que tenta - pelo menos - começar a responder um artigo interessante publicado no IHU:

Rousseau. O precursor de uma religião “à la carte”

Jean-Jacques Rousseau não encontra o seu Deus nos livros, mas na contemplação de uma primavera que reverdece, de uma plantação ou de uma colheita. Sua espiritualidade nasce de seu entusiasmo pela natureza que ele desvela com uma precisão sincera em seu livro VI de Confissões: “Aí, tudo em mim passeia, eu faço a minha oração que não consiste em um vazio balbucio dos lábios, mas em uma sincera elevação do coração ao autor desta amável natureza, cujas belezas estão diante dos meus olhos”. “Uma tentação panteísta”, segundo Michel Lacroix, que explica: “Com Rousseau, a religiosidade se emancipa da teologia erudita, dos dogmas, de um aspecto muito institucional, para tomar uma forma de misticismo”.

A reportagem é de Pascale Senk e publicada pela revista francesa La Vie, edição n. 3489, 12 a 18 de julho de 2012. A tradução é do Cepat.

Até mesmo a sua maneira de rezar escapa dos modelos estabelecidos, assim como ele revela em Confissões: “Posso dizer que minhas orações eram puras e, por isso, dignas de serem satisfeitas. Eu só pedia para mim, e para aqueles cujos desejos nunca me separam, uma vida inocente e tranquila, isenta do vício, da dor, das penosas necessidades, a morte dos justos, e sua sorte no futuro. Ademais, este ato acontece mais em admiração e contemplação do que em pedidos”. Ele louva mais do que teme, pratica mais do que pensa.

A necessidade de crer que o anima é um apelo interior plenamente afetivo. “O culto que Deus quer é o culto do coração”, escreve em Emílio. É uma experiência pessoal que Rousseau invoca, como observa Michel Lacroix. Independente das instituições humanas, afastado dos deveres do catecismo, sua fé sincera e poderosa permite-lhe viver, como escreveu, “uma religião ao meu modo”. Eis um filósofo que não é “teologicamente correto” em sua época e o anuncia com uma certa audácia.

Com Rousseau é o individualismo moderno que irrompe no campo religioso. Afinal, não falamos hoje de religião “à la carte” de não poucos contemporâneos? Uma modernidade que se exprime em suas oscilações: primeiro, protestante, depois convertido ao catolicismo, Rousseau rejeitará o catolicismo no fim de sua vida, sem nunca ter sido tentado pelo ateísmo, que seduzia alguns outros filósofos. Ele diz estar muito comovido com a figura de Jesus e, ao longo de seus escritos, ele enaltece o que chamava de “sublime moral do Evangelho”.



sexta-feira, 6 de julho de 2012

Teria a tradição católica definido a doutrina da Trindade?

A doutrina da Trindade é comumente atacada por modalistas e unitaristas com base em uma suposta imposição do dogma pelo imperador Constantino ao Concílio de Niceia, em 325 d.C., o que revela um profundo desconhecimento da história, conforme já demonstramos aqui nos artigos:




É de se estranhar, portanto, que uma ala ultraconservadora da Igreja Católica, para defender a sua doutrina da autoridade da tradição oral contra a "Sola Scriptura", venha dizer que foi a tradição que definiu a doutrina da Trindade, e não as Escrituras.

Ao fazer isso, eles contrariam o que ensina a própria Igreja Católica, tema que o Gustavo, co-editor deste blog, aborda no seu artigo:

Foi a Tradição católica que definiu a doutrina da Trindade?

A doutrina da Trindade é uma doutrina fundamental da fé cristã e desde os primórdios do cristianismo, vem sendo atacada por vários grupos distintos. Por um lado, arianos, unitarianos, muçulmanos, espíritas, judeus, etc., questionam a divindade de Cristo e do Espírito Santo. Por outro lado, modalistas questionam o próprio conceito de hipóstase, fazendo Pai, Filho e Espírito Santo serem totalmente idênticos. O mais surpreendente, no entanto, é encontrar pessoas que deveriam defender a doutrina se alinhando aos críticos dela.

Tal é a posição de alguns católicos romanos, que resolveram concordar com todos estes grupos, declarando que a doutrina da Trindade não é claramente ensinada nas Escrituras, e que seu estabelecimento se deu unicamente por causa da tradição católica romana.

continue lendo no e-cristianismo



sexta-feira, 13 de abril de 2012

Padre italiano nega comunhão a menino deficiente

Aparentemente, num mundo em que o dogma é idolatrado, não há espaço para a inteligência nem para a compreensão e gentileza, e muito menos para a humanidade. A notícia vem do IHU:

Padre nega a comunhão a menino deficiente

Comunhão negada a um menino de dez anos que sofre de uma grave deficiência mental. O menino não seria, segundo o sacerdote, capaz de compreender o mistério da Eucaristia.

A nota é de Giacomo Galeazzi, publicada no blog Oltretevere, 11-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A decisão de Piergiorgio Zaghi, pároco de Porto Garibaldi, em Ferrara, na Itália, que havia falado sobre isso em uma homilia, dividiu os paroquianos e provocou um forte debate. Os leigos da cidade condenaram o comportamento do sacerdote, enquanto os paroquianos se dividiram entre aqueles que se dizem próximos à escolha do pároco (lembrando também o fato de que os pais estão divorciados e não o acompanham continuamente à missa e à catequese) e aqueles que estão mais perplexos, referindo-se também ao apelo do papa para garantir a Eucaristia, na medida do possível, mesmo aos deficientes mentais.

"É incrível que essas coisas aconteçam". O Pe. Andrea Gallo não usa meias palavras ao comentar a notícia do pároco da província de Ferrara que pulou na fila da Eucaristia um menino com retardo mental. A comunhão é um "momento altíssimo", em que "o corpo de Jesus é 'partido' para todos, em que se diz do sangue 'bebam todos'", explica Pe. Gallo. "Tomemos o exemplo das primeiras comunidades cristãs: naquela época não havia a hóstia, mas sim o pão que justamente se partia para todos. Nesse gesto, as migalhas que restavam eram também dadas a todos os presentes. E, depois, este menino também havia participado da catequese".

Segundo o Pe. Gallo, "mesmo que o menino tivesse dificuldade para engolir, esse problema poderia ser superado, imagine... Ele andava em um corpo martirizado, sofredor. Quem pode dizer qual é a verdadeira linguagem real de um deficiente? Às vezes, eles falam com um gesto, com os olhos".

O Pe. Gallo encontra "deficientes mentais todos os dias. Eles falam com os olhos, com pequenos gestos. O pároco diz que era importante entender se o menino intuía a dimensão do sacramento? Eu só estou dizendo que não se podia excluí-lo com esse gesto. Quem me diz, ao contrário, que aqueles que fazem a comunhão a entendem? Pode acontecer, até mesmo comigo, que a fé possa vacilar: mas depois eu me confio a Jesus, porque o amor não exclui ninguém. Como reparar este dano? dando-lhe o pão, pondo-o no centro, fazendo-o entender que ele não está excluído de nada".

Para o Pe. Giovanni Ramonda, responsável da Comunidade João XXIII, fundada pelo Pe. Benzi, "diversos párocos dão desenvoltamente a comunhão a divorciados em segunda união, transgredindo uma clara indicação da Igreja, enquanto a uma criatura predileta pelo Senhor é negado o seu corpo e o seu sangue. Fiquemos atentos para não filtrar os mosquitos e engolir os camelos. Como dizia o Pe. Benzi, os deficientes são 'anjos crucificados'".

O episódio foi definido como "absurdo, não apenas no plano ético, mas principalmente no que diz respeito aos direitos fundamentais reconhecidos às crianças", diz o sociólogo Antonio Marziale, presidente do Observatório dos Direitos dos Menores. "Estou transtornado com o episódio – disse – que denuncia um estado de obscurantismo cultural digno do pior da Idade Média".

A decisão foi duramente criticada também pela associação de católicos progressistas Nós Somos Igreja. "Em Porto Garibaldi – disse o coordenador regional Giuliano Bianco – tem-se a impressão de que a Igreja perdeu de vista a presença real de Cristo na Eucaristia: quem sonharia em proibir a uma mãe e a um pai, que levam o seu filhinho, incapaz de entender e de querer, diante da presença de Jesus de se aproximar, de tocar e de receber o Salvador?".

A família se fechou na reserva. O seu interesse, neste momento, é principalmente o de proteger seu filho, que se tornou objeto de um debate do qual ele certamente abriria mão.



Não é a primeira vez que isso ocorre na Europa, entretanto. Há cerca de 3 anos, algo parecido aconteceu em Barcelona com uma menina portadora da síndrome de Down, em que o mais surpreendente foi o fato de que o padre não só lhe negou a possibilidade de comunhão como disse que se empenharia em "perseguir" a família caso eles procurassem outra paróquia para garantir à garota o sacramento. O caso catalão, ao que parece, teve um final feliz, segundo noticiou em junho de 2009 o Correio da Manhã de Portugal:

Padre nega comunhão a deficiente

Um padre negou a primeira comunhão a uma menina de Barcelona alegando que a menor, com síndrome de Down, é "um anjo de Deus" logo, não peca, e portanto não necessita do sacramento divino. Os pais da menor contestam o sacerdote e acusam-no de discriminação.

Tudo começou há três anos, quando a mãe, Lídia, levou a filha Carla e o seu irmão gémeo à Igreja de Sant Martí para começarem a frequentar a catequese. O pároco Josep Lluís Moles recusou a criança porque esta "teria de amadurecer" e poderia "prejudicar o desenvolvimento da catequização".

Os pais aceitaram a decisão. Um ano mais tarde, levaram novamente Carla para a catequese. Desta feita o padre decidiu fazer depender a primeira comunhão da capacidade da criança: se aprendesse o Pai Nosso em sete meses dar-lhe-ia a primeira comunhão. Só que, meses depois, mudou de ideias, e, quando a mãe foi confirmar a data da cerimónia, referiu que "não era necessário" que a criança comungasse, porque ao "ser um anjo de Deus não é uma pecadora".

Como o irmão gémeo queria fazer a primeira comunhão na mesma igreja que a irmã, a mãe procurou outro sítio em que a filha pudesse comungar. Mas, segundo ela, o sacerdote garantiu-lhe que interferiria para impedir o acto.

A família encontrou por fim uma igreja em Badalona disposta a dar a primeira comunhão aos dois irmãos gémeos. A cerimónia acontece hoje.



terça-feira, 5 de maio de 2009

Ceticismo e Revelação em Santo Agostinho

por Paul Tillich:



Depois que Agostinho abandonou o grupo maniqueu, caiu no ceticismo, como em geral acontece quando nos desiludimos de algum sistema de verdades. Passamos a duvidar de todas as possibilidades da verdade. Além disso, nessa ocasião, o ceticismo estava na moda. Até mesmo na escola platônica, conhecida pelo nome de Academia, o ceticismo sobre o conhecimento expressava-se com o nome de probabilismo. Somente as declarações prováveis eram possíveis; a certeza não era possível. Todos os primeiros escritos filosóficos de Agostinho estudam o problema da certeza. Trata-se de importante elemento em seu pensamento porque pressupõe o fim negativo da filosofia grega. A heróica tentativa grega de construir um mundo baseado na razão filosófica se acabava catastroficamente no ceticismo. A tentativa de criar um mundo novo, em termos da doutrina das essências, fracassou. É a partir daí que se deve entender a nova ênfase na revelação. O ceticismo, fim da filosofia grega, foi o pressuposto negativo da maneira como o cristianismo veio a receber a idéia da revelação. O ceticismo é, em geral, a base da doutrina da revelação. As pessoas que dão ênfase na revelação, em termos mais absurdos e supernaturalistas, são precisamente as que se comprazem em ser céticas sobre todas as coisas. O ceticismo e o dogmatismo, a respeito da revelação, se correlacionam. A maneira como o cristianismo valorizou a revelação até o Renascimento, relaciona-se com o tremendo choque com que a razão ocidental experimentou o fracasso de todas as tentativas filosóficas gregas de alcançar a certeza.

(TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão. São Paulo: 2000, 2. ed., p. 121)

sábado, 3 de janeiro de 2009

Dogma

"Toda a história do dogma cristão é um constante fechamento, mas ao mesmo tempo uma tarefa de criação de definições. A definição é importante, pois sem ela a igreja teria sido solapada por elementos estranhos que queriam negar a sua existência. O dogma, e portanto, o desenvolvimento dogmático, não é algo lamentável e mau. Foi a forma necessária por meio da qual a igreja manteve a sua identidade. O elemento trágico em toda a história é que quando coisas desse tipo precisam ser feitas, logo vêm as conseqüências de estreitamento e de exclusão de elementos também muito valiosos."

(TILLICH, Paul. Perspectivas da Teologia Protestante nos séculos XIX e XX, Ed. ASTE, 3ª ed., 2004, pág. 24)

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