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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Objeto aparece em praia inglesa e confirma que mundo está entrando pelo cano


É, meus amigos, tá complicado... talvez o destino deste mundo tenebroso seja um ralo gigante, vai saber...

A informação é da BBC Brasil, com vídeo mais abaixo:

Cano gigante trazido pelo mar é encontrado em praia britânica

Um cano de 480 metros de comprimento apareceu na costa de Norfolk, a três horas de Londres, na Inglaterra.

Ele se desprendeu de uma embarcação que se dirigia à Argélia para um projeto de infraestrutura.

Apesar do espanto com o surgimento do objeto gigante, a guarda costeira da região garantiu que ele não representa risco à população.

Ele será armazenado em um local no próprio mar até ser devolvido ao fabricante na Noruega, cujo nome não foi divulgado.

Onze desses objetos foram encontrados na costa da cidade.



terça-feira, 27 de junho de 2017

Religiões se unem para tentar salvar as florestas tropicais


Talvez o problema seja exatamente que tudo fica apenas na "tentativa".

A matéria é da versão brasileira do El País:

Um encontro ecumênico na Noruega para salvar as “florestas sagradas”

Religiosos e indígenas se reúnem em Oslo para unir esforços para frear desmatamento das matas tropicais

ALEJANDRA AGUDO

Enquanto você lê esta frase, 120 hectares de floresta tropical desapareceram. São 24 por segundo. Este alto ritmo de desmatamento significa, na prática, a destruição do lar da metade das espécies conhecidas do planeta, além de seres humanos e de um importante armazém de milhões de toneladas de carbono. A eficácia das florestas para absorver esse elemento é tão grande que “pode representar um terço da mitigação da mudança climática durante as próximas décadas”, segundo o ministro de Clima e Meio Ambiente da Noruega, Vidar Helgesen. Por isso, “é preciso lutar contra o desmatamento e reparar os danos causados”, completou Helgesen, na segunda-feira, durante a cerimônia de abertura da Iniciativa Ecumênica de Oslo para as Florestas Tropicais, que o Governo norueguês organiza em conjunto com a Rainforest Foundation Noruega e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Uma reunião – que termina nesta quarta-feira – de líderes religiosos e indígenas do mundo todo para enfatizar seu papel nesta batalha. O objetivo dos religiosos é aproveitar seu poder de influência para atrair os fiéis a essa causa. Já os indígenas mantêm o conhecimento ancestral para a proteção de sua casa, a natureza, que defendem todos os dias para o benefício de todos, arriscando sua vida.

“Os políticos e cientistas, que ocupam diversos cargos em outros âmbitos, não podem falar com a mesma autoridade moral que os líderes religiosos. A prática da religião é uma forma de se relacionar com os valores mais sagrados da vida”, afirmou Kusumita Pedersen, subdiretora do Parlamento das Religiões do Mundo. “A ciência, por si só, não muda o coração humano”, acrescentou Mary Evelyn Tucker, diretora do Fórum de Religião e Ecologia da Universidade Yale. Agora esse poder pode (e deve) se concentrar numa causa: salvar as florestas tropicais. “Cada lugar de oração deve ser um centro ecológico, oferecendo formas de mudar o mundo”, sugeriu William Vendley, secretário-geral das Religiões para a Paz. No momento, o plano é se reunir de novo numa cúpula global ecumênica em 2018, já com um programa de ação elaborado. As florestas tropicais, atualmente palcos de disputas pela propriedade e o uso de seus recursos, transformam-se também num lugar para o entendimento entre religiões e tradições espirituais, unidas para a sua salvaguarda. À espera de propostas concretas, os diálogos preliminares propiciaram um consenso entre os presentes sobre várias ideias.

“Se continuarmos desmatando, será um suicídio. Nós, como mensageiros de Deus e guardiões da criação, temos que promover a proteção de nossa casa comum.” O Arcebispo Marcelo Sánchez Sorondo, chanceler da Academia Pontifícia de Ciências do Vaticano, abriu a primeira mesa de debate com essa afirmação, que seria depois compartilhada por seus acompanhantes no palco do Nobel Peace Center da capital norueguesa. Indígenas, budistas, judeus, muçulmanos, hindus e católicos acreditam que a Terra é uma criação divina que deve ser cuidada. Um sentimento e um objetivo comuns numa época em que o entendimento entre as crenças parece pouco provável. Mas deve ser, afirmou o prelado. “Não é fácil rezar juntos, mas temos que agir unidos para conservar o planeta que Deus nos deu.”

Metropolitan Emmanuel, vice-presidente da Conferência Europeia de Igrejas, aceitou o desafio: “O cuidado da Terra deve nos unir. Isso vai além das diferenças doutrinarias”. “A Bíblia nos diz: mesmo quando é preciso defender o próprio país , não tem sentido destruir a fonte de sua própria sobrevivência”, agregou o rabino David Rosen, diretor internacional de assuntos inter-religiosos do Comitê Judaico Americano em Israel. “Quando Deus criou o primeiro ser humano, levou-o entre as árvores do Éden e lhe disse: ‘Olha minha obra, quão maravilhosa e digna de reconhecimento. E tudo o que criei é para teu benefício. Tem cuidado para não saquear nem destruir meu mundo, porque, se o fizeres, não haverá quem o recupere depois”, prosseguiu, lendo o Eclesiastes Rabá para ressaltar que não há desculpas para causar um prejuízo irreparável ao planeta. Ainda assim, é isso o que ocorre na prática: todos os anos, é desmatada uma área de floresta tropical do tamanho da Áustria. E, tal como a adverte a Rainforest Foundation Noruega com evidências científicas, os danos podem levar décadas, séculos ou até milênios para serem sanados (se é que isso é possível).

A destruição das florestas tropicais significa não apenas um ataque contra a criação de Deus, tal como descrevem os líderes religiosos, mas também contra a fonte de vida das pessoas. Isso porque essas matas absorvem carbono. Evitam que milhões de toneladas de gás acabem na atmosfera e contribuam para o aquecimento global. Também regulam os ciclos da água, razão pela qual seu desaparecimento altera as chuvas de maneira negativa. Acima de tudo, são o lar e o sustento de 1,6 bilhão de pessoas.

Phra Paisal Vongvoravisit, membro do Comitê Consultivo da Rede Internacional de Budistas, na Tailândia, recordou que “nossa existência só é possível graças ao ar, à água, aos alimentos e às outras espécies da natureza.” Por isso, “o fato de quebrar o galho de uma árvore é o mesmo que causar um dano a um amigo que nos ajuda”, explicou. Se for assim, grandes indústrias extrativistas, produtores de óleo de palma e soja, mineradoras, construtores de rodovias e represas de água estão massacrando nossos amigos, transformando-os literalmente em terra queimada. “É muito preocupante. A natureza é destruída em nome do desenvolvimento”, disse Paisal.

Essa realidade tem consequências. A ciência demonstrou a relação causa-efeito entre o desmatamento e a elevação das temperaturas, assim como de fenômenos climáticos adversos. Para Nanditha Krishna, presidenta da Fundação Ramaswami Aiyar, a explicação está no carma: “Toda ação tem uma reação.”

Alguns participantes afirmaram que tais empresas não fazem outra coisa a não ser satisfazer uma demanda crescente dos produtos que conseguem na floresta. “Nos preocupa o sentimento de perda. Acreditamos de forma errônea que as aquisições materiais preencherão nossas vidas, e por isso compramos de forma desmedida. Quanto mais, melhor. Não somos conscientes de que o sentimento de perda desaparecerá quando vivermos em paz, em vez de acumular cada vez mais”, advertiu Paisal. “E todas as religiões podem ajudar as pessoas a viver em paz. A cooperação entre os cultos é fundamental para lutar contra o materialismo e, desse modo, contra o desmatamento.” O monge tem pelo menos um aliado nessa missão:

Din Syamsuddin, diretor do Centro para o Diálogo e a Cooperação entre Civilizações, da Indonésia. “Os seres humanos são integrantes da comunidade da natureza e devem basear seu consumo na moderação. Temos que mudar nossa maneira de viver, protegendo as gerações futuras.” Para isso, disse o representante do islã na mesa, “é necessária a colaboração entre cientistas, empresários, religiões e a sociedade.” E concluiu seu discurso com uma citação. “Como disse o profeta, embora se aproxime o dia da destruição, se alguém tiver uma semente na mão, que a semeie.”

A Noruega plantou uma semente há uma década: decidiu converter a preservação das florestas tropicais em uma de suas prioridades internacionais. A partir de então, não só investiu com essa finalidade mais de 3 bilhões de dólares (10 bilhões de reais), estima o ministro do Clima e Meio Ambiente norueguês, como também tomou medidas para a redução do consumo do óleo de palma (azeite de dendê) e da importação de madeiras de procedência tropical. Em benefício do desenvolvimento sustentável e da mitigação do aquecimento global também estimula a paulatina substituição de veículos de combustão fóssil por elétricos – cerca de 30% dos vendidos em 2016 são assim. Desse modo, o país reduz suas emissões. No entanto, exporta o problema: sua principal indústria (40% do PIB) ainda é a da produção de petróleo. Algo que o ministro Helgesen reconhece que precisa ser mudado nos próximos anos, seguindo os conselhos de Nanditha Krishna: “A teologia hindu diz que devemos tomar da Terra somente o que necessitamos. Mas devemos simplificar nossos desejos, nos submetermos a uma transformação pessoal”.

Indígenas, os guardiães da floresta

"Para nós que vivemos em florestas tropicais, as árvores, as plantas, animais e micro-organismos são membros de nossa comunidade. Temos, além disso, deidades que protegem as árvores e as águas. E temos árvores sagradas. Infelizmente, somos ameaçados por proteger as florestas, nossos direitos são violados e esmagados. Estamos em uma crise”, afirmou em sua intervenção Vicky Tauli-Corpuz, relatora das Nações Unidas para a defesa das pessoas indígenas. Ela, que vive no norte das Filipinas, sabe bem que aos riscos do desmatamento se somam os que correm aqueles que ousam defender a venerada, sagrada, divina, mas maltratada, casa de todos.

"Todos os dias lutamos contra os ataques do Estado brasileiro, as hidrelétricas, as empresas mineradoras, as madeireiras, contra a ampliação das ferrovias, as diferentes formas de pressão. O Brasil é o país que mais mata ativistas indígenas”, denunciou Sonja Guajajara, coordenadora nacional da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Apesar de defenderem seus territórios na selva amazônica, a líder enfatiza que sua luta não é local. “Não tem fronteiras, por isso temos de nos juntar e reunir todas as forças presentes”, disse, pedindo o apoio do grande público presente.

O saber tradicional dos povos indígenas está reconhecido no Acordo de Paris como uma potente ferramenta contra as mudanças climáticas. A evidência científica demonstra que onde eles vivem e fazem o manejo da floresta não há desmatamento, ocorrem menos incêndios e as árvores são ativamente (e não só em palavras) respeitadas. Sofrem, porém, constantes ataques, como descreveu Guajajara. Um recente relatório da Anistia Internacional revelou que, dos 281 ativistas assassinados no mundo em 2016, a metade atuava em problemas ligados à terra, território e meio ambiente.

“Os povos indígenas formam uma unidade com a Natureza, e a Natureza não ataca, mas dá respostas”, disse a líder brasileira ao justificar sua resistência à destruição de seu habitar em nome do progresso. Joseph Itongwa, membro do Comitê de Povos Indígenas da África, na República Democrática do Congo, aprofundou essa ideia: “Não me ensinaram o valor das árvores na escola. Desde crianças aprendemos seu valor para nossa sobrevivência. Produzem tudo de que precisamos: dão frutos, abrigam pássaros, são nossas guias... Temos uma relação de respeito com a Natureza. Assim, cortar árvores vai bem além do que se disse aqui. É uma perda de nossa identidade. Quando se derruba uma árvore é como se cortassem nossa identidade”.

Nesse sentido, Harol Jhony Rincon, secretário-geral da Organização Nacional dos Povos Indígenas da Amazônia Colombiana (OPIAC), perguntou: “Por que dizem que somos os guardiães da Natureza? ”Sem intenção de ofender”, disse, ele lançou sua resposta: “Porque os ambientalistas assumem que a preservação é o mesmo que a cosmovisão dos indígenas”. Uma equivalência que Rincon nega: “Nós não falamos de ambientalismo, mas de governo de nossos territórios porque o pai criador nos deu essa missão”,

O necessário reconhecimento real da titularidade das terras tem sido um dos assuntos mais debatidos atualmente, nos palcos, em grupinhos, cafés e encontros paralelos. Sem ele, a porta para que as grandes corporações e Governos se aproveitem dos recursos naturais em detrimento do bem comum está aberta. E passam por ela sempre que podem, sem se importar em muitas ocasiões que dentro da casa haja um indígena, milhares de espécies, árvores milenares, milhões de insetos... vivendo. Mas sua existência, luta e morte é invisível para a maioria dos habitantes do planeta. “Temos que nos tornar visíveis”, declarou Abdon Nabalan, vice-presidente do Conselho Nacional da Aliança de Indígenas do Arquipélago, na Indonésia. A iniciativa inter-religiosa para salvar as florestas tropicais, da qual tratou, tem sido uma oportunidade. “E que haja mais”, conclui.



sexta-feira, 28 de abril de 2017

TJSP suspende lei municipal que proibia sacrifício religioso de animais

Adeptos da umbanda e candomblé acompanham o julgamento por telão disponibilizado pelo Tribunal. 

A matéria é do Consultor Jurídico:

TJ-SP fica lotado em julgamento sobre sacrifício religioso de animais

Felipe Luchete

O julgamento de uma lei que proíbe o uso e o sacrifício de animais em rituais ou cultos religiosos em Cotia, no interior paulista, lotou o Salão Nobre do Tribunal de Justiça de São Paulo nesta quarta-feira (26/4).

O espaço, com lugar para cerca de 80 pessoas e que dificilmente supera 20 espectadores em sessões do Órgão Especial, teve as portas fechadas. A corte acabou exibindo a sessão em telão na sala do Tribunal do Júri, quatro andares abaixo. Mas o próprio relator, desembargador Salles Rossi, retirou o processo de pauta.

A maioria dos envolvidos representava grupos de umbanda e candomblé, inclusive de fora de São Paulo, que se organizaram pela internet e por redes sociais contra uma norma em vigor desde setembro do ano passado em Cotia.

A Lei 1.960/2016 fixa multa de R$ 1.504 a toda pessoa física que utilizar, mutilar ou sacrificar animais em locais fechados e abertos, com finalidade “mística, iniciática, esotérica ou religiosa”. Toda pessoa jurídica é obrigada a pagar R$ 752 por animal e perde seu alvará de funcionamento.

Embora a norma seja local, representantes de movimentos entendem que a posição do TJ-SP será relevante como precedente antes que o Supremo Tribunal Federal julgue recurso com tema semelhante (RE 494.601, sobre lei gaúcha que permite o sacrifício, mas é questionada pelo Ministério Público).

Lei suspensa

A pedido de entidades religiosas do município, o Psol moveu ação pedindo que o texto fosse declarado inconstitucional. Uma liminar do relator suspendeu a validade da regra em novembro de 2016, “diante da relevante fundamentação de invasão de competência legislativa exclusiva do chefe do Poder Executivo, assim como de ofensa ao Pacto Federativo e de possível violação à liberdade constitucional do livre exercício dos cultos religiosos”.

O advogado Hédio Silva Júnior, ex-secretário estadual da Justiça, declarou em sustentação oral que a norma também viola leis federais que já tratam de maus tratos contra animais e discrimina religiões ao presumir que todo abate desses seres é errado, enquanto a morte para fins comerciais é sempre considerada legítima.

Depois da suspensão do julgamento, ele afirmou que pela primeira vez representantes do candomblé e da umbanda foram bem recebidos na corte, com vestes características, sem nenhum incidente.

Um desses participantes, Pai Tadeu de Oxossi, afirmou à ConJur que o abate em casas de umbanda e candomblé só é feito por pessoas experientes e que a morte não é em vão, pois todos os animais são consumidos.

ADI 2232470-13.2016.8.26.0000



domingo, 26 de março de 2017

Semeie vida: faça você mesmo o seu próprio rio!


Duvida? Então leia a matéria abaixo, publicada no Estadão em 22/03/17:

Às margens da Rodovia dos Bandeirantes, 
o fazedor de rios

Mesmo sem conhecimento teórico, ativista Adriano Sampaio, de 45 anos, criou no Jaraguá um sistema de biovaletas

Edison Veiga

SÃO PAULO - De tanto observar os rios, foi lá e fez um. É mais ou menos este o resumo da história do ex-corretor de seguros Adriano Sampaio, de 45 anos, ativista ambiental criador do projeto Existe Água em SP. Na verdade, meio sem querer, ele desenvolveu o que oficialmente pode ser chamado de biovaleta - um sistema ecológico e sustentável de reaproveitamento de água da chuva.

Sampaio mora no bairro de Vila Clarice, noroeste da cidade, a poucos metros da Rodovia dos Bandeirantes, perto do Pico do Jaraguá. Começou a notar que a valeta de concreto que margeia a pista - e serve para escoar a água da chuva - andava sempre com suas poças. Pouco declive, região com sombra de árvores, zero permeabilidade... “Aí, em minha cabeça, ficava a lembrança de rios que, quando enchem, ocupam uma área de várzea. Depois, na estiagem, voltam ao leito mas deixam alguns lagos perenes”, comenta.

Em janeiro, pegou facão, enxada e principiou o trabalho. Deu uma limpada no mato, tirou o lodo que estava acumulado no fundo da valeta, fez duas barragens com argila e algumas pedras - tiradas do próprio entorno -, criou um corregozinho de dez metros.

Choveu.

Encheu.

Trinta centímetros de profundidade.

Então ele se embrenhou por rios da região, peneira na mão, caçou uns guaruzinhos - o lebiste selvagem. Conseguiu também cascudos e carás. “E um dia fui ao Mercado da Lapa e comprei seis pequenas carpas. Gastei R$ 20. Foi o único investimento financeiro do projeto”, conta.

A valeta ganhou vida. Os guarus se reproduzem rapidamente. Aos poucos, girinos têm surgido. Plantas aquáticas, também. “Outro dia um passarinho desses pescadores estava aqui de olho. Daqui a pouco vai ter bicho sondando por perto, atrás dos peixes”, diz Sampaio. Borboletas já rodeiam o local, antes quase inóspito.

Então o ativista descobriu - ah, a internet! - que o que estava fazendo tem nome e conceito: biovaletas. Na realidade, é um jeito de lidar com as águas da chuva de modo sustentável. “Trata-se de uma técnica bem contemporânea no exterior”, afirma o arquiteto, urbanista e paisagista Henrique de Carvalho, do Ateliê Tanta - um entusiasta da ideia. “Desde os anos 1960 e 1970, é um formato bastante estudado. Nos Estados Unidos, por exemplo, a cidade de Portland, em Oregon, incentiva o modelo largamente.”

Ano sim, ano não, a prefeitura do município americano publica um guia intitulado Manual de Manejo da Água da Chuva. A última edição, de 2016, saiu com 502 páginas.

Nelas, as biovaletas são apresentadas como uma alternativa recomendada para lidar com a pluviosidade. Um “canal vegetado” não apenas para coletar a água da chuva, mas também com a função de “diminuir o escoamento superficial, sedimentar, melhorar a infiltração e reduzir a poluição”. Sim, as tais barreiras de argila “inventadas” por Sampaio têm essas funções: acabam livrando a água de impurezas.

Na versão paulistana, o ativista acredita que está resolvendo o problema dos mosquitos - afinal, as larvas dos insetos são um banquete para os peixinhos. “Já notei que não aparecem mais tantos Aedes quanto antes”, ressalta.

Reconhecimento. Biovaletas são instrumento reconhecido pela literatura especializada. A técnica aparece no livro Manual de Orientação Para a Proteção da Qualidade das Águas Pluviais, da Associação das Agências de Manejo de Água da Chuva da Área da Baía de São Francisco (BASMAA, na sigla em inglês).

Em Desenvolvimento de Baixo Impacto, obra publicada pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Arkansas, no Estado americano homônimo, as biovaletas são destacadas como componentes úteis às áreas urbanas.

Sampaio diz que pretende procurar a CCR AutoBan, concessionária que administra a Rodovia dos Bandeirantes, com o projeto debaixo dos braços. Agora já com três trechos de dez metros cada em pleno funcionamento, sonha com um córrego que avance por quilômetros. “Estarei à disposição se quiserem que eu ensine a fazer”, adianta ele, enquanto admira a própria criação.



segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Ratatouille venceu: parisienses querem proteger ratos da cidade


A informação é do Estadão:

Franceses fazem abaixo-assinado contra ‘genocídio’ de ratos em Paris

Medida, que reuniu mais de 17 mil assinaturas, é um protesto contra a decisão da prefeita de Paris de fechar nove parques onde esses animais proliferaram para um plano de combate

PARIS – Um abaixo-assinado alcançou nesta quinta-feira, 15, 17,4 mil assinaturas contra o combate aos ratos iniciado há duas semanas em nove parques de Paris, onde estes animais proliferaram até o ponto de obrigar a prefeitura a lançar um plano de ação.

O abaixo-assinado, que leva o nome “Parem o genocídio dos ratos”, é direcionado à prefeita da capital, Anne Hidalgo, que no dia 7 ordenou o fechamento – durante 15 dias – de nove espaços verdes públicos para poder desenvolver os trabalhos de ‘desratização’.

“A presença de roedores em grande número apresenta problemas sanitários, estéticos e econômicos”, explicou Anne, no comunicado em que anunciou a medida.

Por meio do site MesOpinions.com, Josette Bencherit criou o abaixo assinado para condenar esta erradicação motivada por razões visuais e “por medo”.

No texto, essa antiga psicopedagoga converteu-se em defensora dos direitos dos animais e acusa também um veículo da imprensa francesa de tachar os roedores de “ameaça real” em uma manchete, enquanto no próprio artigo um médico nega que os animais representem algum perigo.

“É preciso parar o massacre. É preciso encontrar outras soluções, como uma política contraceptiva. É preciso ensinar as pessoas a conhecer os ratos para que não tenham medo deles”, declarou a ativista ao jornal Le Parisien.

Josette confessou à publicação francesa que o sucesso do abaixo-assinado foi inesperado e, na realidade, ela pensava que o povo responderia com “um tsunami de hostilidades”.

O fechamento desses parques é a primeira etapa de um plano de ação de um ano de duração concebido pelo prefeitura parisiense em junho, durante um seminário intitulado “Estratégia de gestão dos ratos no meio urbano”. / EFE



sexta-feira, 17 de junho de 2016

O encontro do papa com o tigre


Aconteceu esta semana em Roma, na tradicional audiência que o papa concede a alguns convidados, e por pouco não terminou mal. Confira no vídeo abaixo:




sábado, 30 de janeiro de 2016

Às vésperas do Oscar, ateu Leonardo DiCaprio visita o papa


A informação é do Estadão:

Papa Francisco e Leonardo DiCaprio discutem sobre meio ambiente

Ator está à frente de uma fundação que trabalha para a proteção da diversidade, a conservação dos oceanos e áreas naturais

O Papa Francisco recebeu nesta quinta-feira, 28, no Vaticano o ator e produtor americano Leonardo DiCaprio, que expôs seu compromisso com a defesa do meio ambiente, informou o Vaticano.

Nenhum outro detalhe foi dado sobre este encontro de natureza privada, que faz parte das centenas de audiências concedidas pelo Papa a personalidades de todos os tipos. Criado em Los Angeles, em uma família católica de origem italiana e alemã, Leonardo DiCaprio se diz ateu.

O astro de 41 anos recebeu em 22 de janeiro o prêmio Crystal Award durante o Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça) por seu compromisso com o meio ambiente. DiCaprio está, desde 1998, à frente de uma fundação que leva seu nome e que trabalha para a proteção da diversidade, a conservação dos oceanos e áreas naturais, lutando contra os efeitos adversos das mudanças climáticas.

O ator, que estreou no cinema em 1991, antes de experimentar a fama mundial em 1997 com Titanic, está na briga pelo Oscar de melhor ator por seu papel em O Regresso (The Revenant). Ele já foi indicado ao prêmio quatro vezes anteriormente, mas nunca ganhou a prestigiosa estatueta.

O Oscar será apresentado em Los Angeles em 28 de fevereiro pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.



quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Aniversariante do dia, papa é convidado a visitar a Amazônia

Parabéns ao papa Francisco que completa 79 anos de idade hoje.

A informação é da acidigital:

Papa Francisco é convidado por bispos brasileiros para visitar a Amazônia

No ano de 2017, o Brasil espera um retorno do Papa Francisco ao país, por motivo dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Mas, a visita pode se estender até o Norte do país, mas especificamente na Amazônia, conforme indicou o Presidente da Comissão para a Amazônia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Cardeal Cláudio Hummes.

Em entrevista à Rádio Vaticano, o Prelado revelou ter entregue oficialmente ao Pontífice uma carta convidando-o a visitar uma comunidade indígena.

“O Papa é um homem que tem grande amor pela Amazônia. Está querendo muito ajudar para que a Igreja possa ali realmente desenvolver a sua missão plenamente, cada vez melhor”, disse o Cardeal, sublinhando que o Santo Padre acompanha de perto e com carinho o trabalho da Igreja nesta região.

Segundo Dom Hummes, Francisco “fará certamente todo o possível para que, de fato, ele possa dar um apoio maior, o que seria simbolicamente muito forte se ele pudesse visitar a Amazônia”

Dizendo-se confiante nesta possível visita, o Cardeal ressaltou que nada pode ser confirmado ainda.

Este, porém, não é o primeiro convite que o Santo Padre recebe para ir à Amazônia. De acordo com Dom Hummes, os Bispos do estado do Pará – que fica no Regional Norte 2 da CNBB – também enviaram uma carta ao Pontífice “pedindo que visitasse uma missão”.

“Isso não significa que o Papa visitará esta ou outra comunidade indígena. O que, sobretudo, nós queríamos é que ele visitasse uma comunidade indígena”, completou.



sábado, 28 de novembro de 2015

Rodovias brasileiras matam 1,3 milhão de animais silvestres por dia


A única notícia boa é que já tem gente estudando o absurdo massacre de animais nas estradas brasileiras, conforme já tivemos oportunidade de comentar aqui várias vezes sobre o tamanduá-bandeira (leia o artigo Bandeira 2 para o tamanduá para ter uma ideia de nossa militância em seu favor).

A trágica informação vem da BBC Brasil:

Por que o Brasil massacra 1 milhão de animais por dia em suas estradas?

Thiago Guimarães

BR-101, norte do Espírito Santo, setembro de 2015. Um caminhoneiro sente um cheiro forte e localiza uma anta – o maior mamífero terrestre brasileiro – na margem da pista, em estado avançado de decomposição.

Cinco meses antes, no mesmo trecho da rodovia, biólogos encontraram uma fêmea adulta de harpia, a maior ave de rapina das Américas, debilitada por fraturas e hematomas. Por ali, restos de retrovisor de caminhão. No mês anterior, a vítima fora uma onça-parda.

As cenas com espécies ameaçadas de extinção são um retrato de um filme que não sai de cartaz no Brasil: a matança de animais por atropelamentos em estradas.

Essa é, de longe, a principal causa de morte de bichos silvestres no país, superando caça ilegal, desmatamento e poluição. São 15 animais mortos por segundo, ou 1,3 milhão por dia e até 475 milhões por ano, segundo projeção do CBEE (Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas), da Universidade Federal de Lavras (MG).

Quem puxa a lista são os pequenos vertebrados, como sapos, cobras e aves de menor porte – respondem por 90% do massacre, ou 430 milhões de bichos. O restante se divide em animais de médio porte (macacos, gambás), com 40 milhões, e de grande porte (como antas, lobos e onças), com 5 milhões.

A situação, dizem especialistas, é o resultado natural para um país que desconsiderou os bichos ao planejar as rodovias e ainda dá os primeiros passos na adoção de medidas para minimizar os impactos das vias.

Corrida contra o tempo

"Está acontecendo uma desgraça total e não temos tempo nem de estudar o que ocorre", disse à BBC Brasil Áureo Banhos, professor do departamento de biologia da Universidade Federal do Espírito Santo.

Banhos coordena um time que monitora os atropelamentos no trecho de 25 km da BR-101 que corta uma das manchas verdes mais intactas do país. É um mosaico de 500 km² (ou um terço da cidade de São Paulo) de unidades de conservação rasgado pela pista única da via.

Um exemplo do alerta do professor: das 70 espécies de morcegos identificadas na região, 47 já foram atropeladas na estrada – e uma delas era desconhecida da ciência até então. Ao todo, 165 espécies de diferentes animais perderam a vida por ali (10 anfíbios, 21 répteis, 63 aves e 71 mamíferos) – são 50 mortes por dia apenas nesse ramo da rodovia, ou 20 mil por ano.

Essa floresta integra as reservas de mata atlântica da Costa do Descobrimento, patrimônio natural da humanidade desde 1999. Por ser um raro fragmento contínuo de mata, é o último refúgio na região para várias espécies ameaçadas, como a anta, a onça-pintada, o tatu-canastra e a harpia.

O fotógrafo Leonardo Merçon, do Instituto Últimos Refúgios, fez um trabalho de registro da Reserva Biológica de Sooretama, a maior peça do mosaico verde da região. Impressionado pelos atropelamentos, acabou se engajando nas ações de conscientização para a gravidade do problema.

"Você nem precisa de dados para ver o impacto real do problema", afirma ele. Um vídeo do instituto que registrou uma onça-parda atropelada na estrada teve mais de 1 milhão de visualizações.

Em locais como esse, a perda de um único indivíduo pode ter impacto muito grande sobre a biodiversidade. "Engenheira" dos ecossistemas, por dispersar sementes e servir de presa para grandes predadores, a anta, por exemplo, leva 13 meses na gestação (com um filhote por vez) e demora dois anos entre as concepções.

Um possível caminho para os animais cruzarem para o outro lado da via são os dutos de drenagem de água sob a pista, mas nem sempre é simples mudar seus hábitos.

"No parque nacional Banff, no Canadá, os ursos demoraram oito anos para começar a usar esse tipo de passagem", afirma Alex Bager, coordenador do CBEE. No caso da BR-101, apenas 15% dos bichos atropelados usam as manilhas.

Ou seja, talvez seja mais fácil mudar os hábitos dos motoristas, por meio de ações como redução de velocidade, radares inteligentes que multam pela média de velocidade (e não em apenas um ponto) e placas de advertência.

A Eco-101, concessionária responsável pelo trecho da BR-101 em questão, diz que o segmento tem dois radares fixos, velocidade máxima de 60 km/h (especialistas defendem 25 km/h) e dez placas educativas. Afirma ainda promover ações de conscientização e que estuda a "ampliação dos dispositivos de segurança para os animais silvestres".

Ausência de normas

A situação da BR-101 no Espírito Santo – que ainda enfrenta a perspectiva de duplicação até 2025 – é uma amostra aguda de um problema nacional. São mais de 15,5 mil km de estradas atravessando áreas federais de conservação.

Os pontos críticos estão por todo o Brasil. Um levantamento do Instituto de Pesquisas Ecológicas em três trechos de rodovias de Mato Grosso do Sul (1.161 km nas BRs 267, 262 e 163) entre abril de 2013 e março de 2014, por exemplo, localizou 1.124 carcaças de 25 espécies diferentes, como cachorro-do-mato (286 mortes), tamanduá-bandeira (136) e jaguatirica (7).

E não há normas nacionais específicas para a construção de rodovias que cortam reservas naturais. Tudo tramita como um licenciamento ambiental padrão. O problema vem mobilizando a classe acadêmica no país. Paralelamente a uma explosão nos estudos em ecologia de estradas, há articulações institucionais em curso no Congresso e em órgãos ambientais.

Um fruto recente desse debate é o PL (Projeto de Lei) 466/2015, do deputado federal Ricardo Izar (PSD-SP), que busca tornar obrigatórias ações como monitoramento e sinalização em áreas "quentes" de atropelamentos, além da criação de um cadastro nacional de acidentes com animais silvestres.

Sobre essa última medida, um esforço já partiu da própria academia, com a criação do Sistema Urubu, uma espécie de rede social para compartilhamento e validação de informações sobre atropelamentos de bichos.

No ar há um ano, a iniciativa do CBEE conta com um aplicativo gratuito pelo qual qualquer pessoa pode fotografar e enviar imagens de acidentes com animais. Os registros são enviados para uma base de dados central e são validados por especialistas cadastrados no sistema, tudo online.

Já são cerca de 15 mil usuários cadastrados e mais de 20 mil fotos enviadas. Para entrar no sistema, cada registro precisa ser validado por cinco especialistas, e ter o consenso de três deles sobre qual é a espécie em questão – são 800 "validadores" ativos na rede, cada um especializado numa classe animal.

"Muitas vezes, as pesquisas sobre o tema no Brasil são muito regionalizadas, restritas ao raio da universidade por falta de recursos. Com o sistema poderemos criar um mapa de áreas críticas de atropelamentos no país e usá-lo como política pública de conservação", afirma Alex Bager, do CBEE.

Diante da perspectiva da fase mais explosiva de construção de estradas na história, com pelo menos 25 milhões de km de novas rodovias no mundo até 2050, especialistas defendem que essas intervenções passem, cada vez mais, por estudos de custo-benefício.

Seria um modo de evitar a proliferação de vias em regiões de alto valor ambiental mas potencial agrícola apenas modesto, como a bacia Amazônica. "Construir estradas é abrir uma caixa de Pandora de problemas ambientais, e ainda estamos na pré-história da mitigação de impactos", afirma Banhos.



terça-feira, 6 de outubro de 2015

Vereador paulista quer proibir canção "atirei o pau no gato"


Ao que parece, o bom senso tem prevalecido com essas antigas canções infantis, que tiveram suas letras mudadas ao gosto do freguês ecologista de plantão.

A dúvida é se isso precisa ser feito por lei, conforme a matéria do Brasil Post:

Vereador de Sertãozinho (SP) quer proibir alunos de cantar 'Atirei o pau no gato'

Um projeto protocolado na Câmara Municipal de Sertãozinho, no interior de São Paulo, quer proibir que a canção popular "Atirei o pau no gato" seja cantada nas escolas da cidade. A proposta é de autoria do vereador Rogério Magrini (PTB), que também é humorista e conhecido como "Zezinho Atrapalhado".

Ele garante, porém, que o projeto é coisa séria e visa impedir a cantiga popular que, em sua visão, estimula maltratar os animais. Diz ainda ter um abaixo-assinado com 300 assinaturas favoráveis à proibição, que até agora não ganhou a simpatia dos demais vereadores.

O projeto está tramitando há seis meses e ainda não tem data para ir à votação. O autor defende que a tradicional cantiga seja substituída por uma nova versão desenvolvida por entidades de defesa dos animais.

Essa canção é parecida com a original, mas tem um texto diferente e cuja letra diz, entre outras coisas, "Não atire o pau no gato-to".

O projeto tem entre os defensores uma ONG de Sertãozinho que cuida de cães e gatos. Diz o vereador Zezinho Atrapalhado que a ideia de proibir a música surgiu após crianças de uma creche serem vistas jogando pedras em um gato. Uma pessoa ligada à entidade teria então sugerido a lei visando combater a cultura de maltrato ao animal.

Trâmite

"Temos de proteger os animais e não maltratá-los", falou o vereador. Ele já é o autor de outros projetos polêmicos na cidade, como um que criou o Dia da Consciência Branca. Mas essa proposta de proibir a cantiga tem a resistência do presidente da Câmara, Silvio Blancacco (PSDB).

Para ele, a iniciativa vai contra a liberdade de expressão. O político alega que, além disso, o projeto precisa primeiro obter os pareceres favoráveis das comissões internas do Legislativo, coisa que ainda não ocorreu, antes de ser liberado para ir a plenário.



quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Papa Francisco encanta multidões nos EUA


A matéria é do IHU:

Francisco se encontra com Obama e pede que se protejam a liberdade religiosa e o ambiente


O Papa Francisco se encontrou com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em um encontro público extraordinariamente lotado do lado de fora da Casa Branca nesta quarta-feira de manhã, e elogiou o presidente pelo seu trabalho na luta contra as mudanças climáticas, mas também pediu que ele proteja a liberdade religiosa no país. 

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada no sítio National Catholic Reporter, 23-09-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


Na presença de uma multidão-recorde de cerca de 15.000 convidados, muitos dos quais chegaram antes do amanhecer para ver o papa, Francisco agradeceu em primeiro lugar a Obama por acolhê-lo – um "filho de uma família de imigrantes" – nos EUA.

O papa, depois, expressou a esperança de que o presidente seria "vigilante" no respeito da liberdade religiosa, mas também disse que ele e os católicos norte-americanos não buscam praticar qualquer tipo de discriminação.

"Juntos com os seus concidadãos, os católicos norte-americanos estão comprometidos com a construção de uma sociedade que seja verdadeiramente tolerante e inclusiva, com a salvaguarda dos direitos dos indivíduos e das comunidades, e com a rejeição de todas as formas de discriminação injusta", disse o pontífice ao presidente.

"Com inúmeras outras pessoas de boa vontade, eles estão igualmente preocupados para que os esforços para construir uma sociedade justa e sabiamente ordenada respeitem as suas preocupações mais profundas e o seu direito à liberdade religiosa", continuou.

"Essa liberdade continua sendo um dos bens mais preciosos da América", disse Francisco. "E, assim como meus irmãos, os bispos dos Estados Unidos, nos lembraram, todos são chamados a ser vigilantes, precisamente como bons cidadãos, para preservar e defender essa liberdade de tudo o que possa ameaçá-la ou comprometê-la."

O papa e o presidente, em seguida, se encontraram em privado por um momento, para conversar longe dos holofotes.

A visita de Francisco à Casa Branca nessa quarta-feira foi o seu primeiro encontro público durante a sua viagem de seis dias nos EUA, que também irá levá-lo para Nova York e Filadélfia.

Mais tarde, nessa quarta-feira, o papa se reuniu com os bispos norte-americanos e, depois, canonizou o missionário franciscano do século XVIII Junípero Serra, durante uma missa na Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição, em Washington.

Na quinta-feira, ele vai discursar para uma sessão conjunta do Congresso antes de ir para Nova York.

A expectativa para os eventos do pontífice tem sido extraordinariamente alta. Multidões começaram a chegar à Casa Branca nas primeiras horas da manhã dessa quarta-feira. Dentre os presentes, estavam uma ampla gama de pessoas, incluindo o clero de muitas denominações, religiosas que participam da ação Nuns On The Bus, membros do Congresso e do Gabinete de governo.

Por sua parte, Obama acolheu Francisco aos EUA com louvor generoso pelo seu trabalho e ministério – dizendo que o papa ajuda a "sacudir a nossa consciência da sonolência".

O papa, disse Obama, nos convida "a regozijar na Boa Nova e nos dá a confiança de que podemos nos unir, em humildade e serviço, e buscar um mundo que seja mais amoroso, mais justo e mais livre".

O presidente mencionou especialmente a humildade do pontífice, o seu foco no "menor destes" e o seu chamado a uma Igreja focada na misericórdia.

Obama também agradeceu novamente Francisco pelo seu papel na recente normalização das relações entre EUA e Cuba, dizendo: "Estamos gratos pelo seu apoio inestimável do nosso novo começo com o povo cubano, que mantém a promessa de melhores relações entre nossos países, uma maior cooperação em todo o nosso hemisfério e uma vida melhor para o povo cubano".

O foco de Francisco ao pedir a proteção da liberdade religiosa no país ecoa as preocupações que os bispos dos EUA manifestaram nos últimos anos, particularmente sobre o que está previsto no Affordable Care Act em relação à obtenção de contraceptivos.

Obama também mencionou a liberdade religiosa no seu discurso, focando-se particularmente nos contínuos assassinatos de cristãos no Oriente Médio.

"Aqui nos Estados Unidos, nós prezamos pela liberdade religiosa", disse o presidente. "Ela foi a base para grande parte daquilo que nos uniu."

"No entanto, em todo o mundo, neste exato momento, filhos de Deus, incluindo cristãos, são alvejados e até mesmo mortos por causa da sua fé", continuou.

"Nós estamos com o senhor na defesa da liberdade religiosa e do diálogo inter-religioso, sabendo que as pessoas de todas as partes devem poder viver a sua fé sem medo nem intimidação", disse Obama a Francisco.

O papa elogiou o presidente pelas medidas que ele tomou para reduzir a poluição do ar, dizendo que "parece-me claro também que as mudanças climáticas são um problema que não pode mais ser deixada para uma geração futura".

"Quando se trata do cuidado da nossa 'casa comum', nós estamos vivendo em um momento crítico da história", disse Francisco.

"Nós ainda temos tempo para fazer as mudanças necessárias para criar um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar", continuou o papa, citando a sua encíclica Laudato si'.

"Tais mudança demanda da nossa parte um reconhecimento sério e responsável não só do tipo de mundo que podemos estar deixando para os nossos filhos, mas também para os milhões de pessoas que vivem sob um sistema que os tem negligenciado", disse.

"A nossa casa comum tem sido parte desse grupo dos excluídos que clama aos céus e que hoje atinge poderosamente as nossas casas, as nossas cidades e as nossas sociedades", disse Francisco. "Para usar uma frase reveladora do reverendo Martin Luther King, podemos dizer que não cumprimos com uma nota promissória e agora é a hora de honrá-la".

A cerimônia desta quarta-feira na Casa Branca foi marcada por muita pompa e circunstância. Membros das Forças Armadas dos EUA anunciaram a chegada de Francisco em uniforme de gala, desfilando com dezenas de bandeiras dos EUA e do Vaticano.

A ampla gama de pessoas presentes no evento levou até um senador dos EUA a dizer que o papa havia feito algo que antes era considerado impossível.

O senador Chuck Grassley, de Iowa, tuitou que "você pode não acreditar nisto", mas os republicanos estavam conversando com os democratas enquanto esperavam por Francisco.

O pontífice falou lentamente em um inglês marcado durante a cerimônia na Casa Branca. Espera-se que ele use essa língua apenas mais algumas vezes enquanto estiver nos EUA, preferindo falar no seu espanhol nativo.



segunda-feira, 20 de julho de 2015

Estamos comendo carne demais


A matéria é do IHU:


A carne do futuro será a do passado.
Consumo de carne cresce em ritmo acelerado e pode se tornar insustentável


Na coroação da rainha Isabel II, em 1953, foi servido frango, uma ave que pode parecer muito pouco nobre para um momento de pompa como este. Daquela cerimônia nasceu uma das receitas britânicas mais famosas, a Coronation Chicken. A partir de então, o consumo de carne no Ocidente acelerou-se de forma tão espetacular que aquilo que era extraordinário agora é comum. Só entre 1990 e 2012, segundo dados da FAO, o número de frangos no mundo cresceu 104,2%, passando de 11.788 para 24,7 bilhões, e o gado bovino, muito poluidor para o meio ambiente, passou de 1,4 bilhão para quase 1,7 bilhão de cabeças (um aumento de 16,5%). O problema está em saber se o planeta tem condições para suportar este aumento: um estudo de 2013, também da organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura, garante que a produção da carne é responsável por 14,5% das emissões de carbono e que, ao mesmo tempo, nos países desenvolvidos o consumo de carne cresce em torno de 5% ou 6% ao ano. “O gado tem um papel muito importante na mudança climática”, concluía a FAO.

A reportagem é de Guillermo Altares e publicada por El País, 15-07-2015. A tradução é de André Langer.

“A nossa alimentação está baseada em produtos de origem animal e sabemos que sua repercussão ambiental é muito grande”, explica Emilio Martínez de Victoria Muñoz, ex-presidente do Comitê Científico da Agência Espanhola de Segurança Alimentar e Nutrição. “Um quilo de carne é muito menos sustentável que um quilo de verduras”. O antropólogo Jesús Contreras, do Observatório da Alimentação, assinala: “Se todos os habitantes da China consumissem a mesma quantia de carne que nós, seria insustentável. Temos um problema de sustentabilidade, porque mantemos uma alimentação energeticamente muito cara”.

A carne sofreu várias crises. Por um lado, existem os conselhos médicos relacionados ao excessivo consumo de determinadas variedades (suínos, carne vermelha). Por outro lado, como ocorreu com as vacas loucas, há as polêmicas provocadas pelos produtos com os quais se alimenta o gado. Mas o grande problema envolvido em seu consumo tem agora muito mais a ver com o meio ambiente do que com a saúde. A chamada pegada de carbono, que mede os recursos necessários para produzir algo, é gigantesca no caso da carne, tanto que ninguém acredita que se possa manter o ritmo atual. Novamente segundo a FAO, no conjunto dos países desenvolvidos consumiam-se em média 60 quilos de carne em 1964; agora são 95,7 e calcula-se que serão 100,1 em 2030.

O jornalista Andrew Lawyer, que acaba de publicar um livro sobre a história dos frangos, Why did the chicken cross the world? (Por que o frango cruzou o mundo?), garante não poder calcular o número de aves que são sacrificadas diariamente no mundo: “Não existem estatísticas, mas estou seguro de que são dezenas de milhões. O consumo de frango cresce muito rapidamente. Quanto mais urbanizados são os países, mais ovos e frangos consomem”. A Espanha passou de uma produção de 836 mil toneladas de carne de aves para 1,3 milhão entre 1990 e 2013.

A carne representa uma indústria muito importante na Espanha. Segundo os últimos dados disponíveis da associação de produtores de carne, em 2013 o país exportou 1,57 milhão de toneladas pelo valor de 4,2 bilhões de euros. Com 3,4% da produção mundial, a Espanha é, além disso, o quarto maior produtor de carne suína, atrás apenas da China (que produz 50% da carne suína do mundo), dos Estados Unidos (10%) e da Alemanha (5,3%). Ao mesmo tempo, é o segundo país europeu em produção, representando 16% do total.

Esse mundo industrial, do qual vivem milhares de pequenas economias – basta recordar a crise que houve em Burgos no final de 2014 quando um incêndio destruiu a fábrica de Cantimpalos –, pode ser encontrado na localidade de Cantimpalos, com 1.400 habitantes, 16 indústrias de embutidos e uma produção de chouriço de 42 toneladas em 2013: “O setor de suínos não tem ajudas comunitárias”, explica Pedro Matarranz (foto abaixo), um pequeno produtor. “Este povo vive das indústrias de embutidos, da pecuária ou da agricultura”, afirma.

Sob o calor de julho no planalto da Segóvia, uma visita à sua pequena propriedade mostra as enormes dificuldades do ofício, desde o manejo de cerca de 500 toneladas de esterco ao ano (apesar de que ele utilize sobretudo palha) para transformá-los em adubo até as enormes medidas de segurança alimentar. Também em escala familiar, que beira o artesanal, a carne de porco requer um esforço energético muito grande.

“A alimentação do futuro será a alimentação do passado”, explica Sandro Dernini, assessor da FAO. “A pegada de carbono da produção de proteínas animais é enorme”, assinala. “Este ofício mudou muito pouco em 200 anos”, explica Jesús González Veneros (ver primeira foto), um pecuarista de Ávila, enquanto aponta para as manchas pretas em um morro distante da Sierra de Gredos. Um olho inexperiente é incapaz de distinguir o gado, mas ele o localiza perfeitamente. Para chegar até ali precisa de um cavalo, como seu bisavô, seu avô e seu pai, que também eram criadores de gado. Estas propriedades representam a máxima expressão de uma carne ecológica, da qual depende um ecossistema econômico e social, mas é impossível que por meio deste tipo de propriedade se consiga sustentar a demanda mundial, salvo se reduza drasticamente o seu consumo.

Este problema se coloca, além disso, em um mundo no qual em torno de 900 milhões de pessoas passam fome diariamente. Como assinala a FAO, o setor de carnes enfrenta um desafio impossível de aumentar a produção diante de um crescimento da demanda e da população do planeta e a necessidade de frear ao mesmo tempo as emissões.



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