segunda-feira, 13 de abril de 2015

Egípcia passa 43 anos por homem para sustentar família


A matéria é do Extra:

Mulher recebe condecoração após se passar por homem durante 43 anos para trabalhar e sustentar a família

Uma mulher egípcia, que durante 43 anos se passou por homem para conseguir emprego e sustentar sua família, recebeu uma condecoração do governo da cidade de Luxor, no Egito, na última terça-feira. Sisa Abu Daooh, de 64 anos, foi honrada pela Direção da Solidariedade Social local com o prêmio de “mulher chefe de família” por seus anos de trabalho árduo para alimentar a filha e os netos. A história dela só foi descoberta no ano passado. As informações são do jornal The New York Daily News.

Sisa perdeu o marido quando ainda estava grávida da filha. Ela, que não queria pedir esmolas nas ruas, mas estava pressionada socialmente para ficar em casa, decidiu, então, se disfarçar de homem para sustentar a pequena Houda. Assim, durante 43 anos, ela trabalhou fazendo tijolos e engraxando sapatos, entre outras atividades, para ganhar dinheiro.

“Eu preferia trabalhos pesados como levantar tijolos, sacos de cimento e limpar sapatos, que mendigar nas ruas. Eu precisava ganhar a vida para mim, para a minha filha e para meus netos”, disse ela.

Ela chegou a casar a filha com um homem, quando a menina já era jovem. Porém, o rapaz ficou doente e não pôde trabalhar. Por isso, Sisa continuou sua farsa. Para não ser descoberta, ela usava roupas masculinas - incluindo turbantes - para sair de casa.

“Para me proteger dos homens e de seus assédios, e para fugir da perseguição por causa das tradições, eu decidi ser um homem. Me vestia com as roupas deles para trabalhar ao lado deles (como igual), em aldeias onde ninguém me conhecesse”, lembra.

Atualmente, Sisa diz que se mantém trabalhando como engraxate porque, assim, ganha uma “renda decente”. “Minha mãe é a única que ainda provê para a família. Ela acorda todos os dias às seis da manhã para começar a polir sapatos na estação de Luxor. Eu carrego os kits de trabalho para ela porque ela já está em idade avançada”, diz a filha Houda.

Gentil, Sisa agradece quem já ajudou em seu percurso. “Obrigado a todos que têm me ajudado. Espero ver o Egito em uma situação melhor”, diz.



domingo, 12 de abril de 2015

Por que é tão difícil mudar?

Artigo de Marcelo Levites no Estadão:

Por que é tão difícil mudar?

A pior coisa da vida é ser obrigado a abrir mão de algo que gostamos e que nos dá prazer. Seja um alimento, um vício ou até mesmo um hábito. Todos nós sabemos que para ter uma vida saudável é preciso se exercitar, manter uma alimentação balanceada, dormir com qualidade, não fumar, não beber, ter amigos etc. Mas por que é tão difícil fazer algo que sabemos que é bom para nós?

A primeira explicação pode estar no fato de o nosso cérebro estar programado a fazer algo daquela maneira, sempre. E mudar essa programação é sempre muito difícil. Muitas vezes achamos até impossível, mas não é.

Outra é a autossabotagem. Isso ocorre muitas vezes na dieta. Mesmo o médico nos dizendo que estamos proibidos de consumir determinado alimento, pois passaremos mal, nosso cérebro dá um jeitinho de nos dizer o contrário e acabamos sempre nos dando mal.

Uma terceira hipótese é a certeza de que somos inatingíveis. “Sempre fiz desta maneira e nunca me aconteceu nada”.

Para quem tem mais idade, mudar é algo muito complicado. Mas é possível e, garanto a vocês, muito prazeroso. Não digo que precisa ser algo tão radical. Dar pequenas escorregadelas na dieta, furar a academia é algo do ser humano, mas não pode ser regra.

Várias estratégias podem ajudar nosso cérebro a criar novos hábitos. Antes de comer algo que possa lhe fazer mal pense duas vezes e lembre-se das consequências ruins que aquele alimento pode provocar. Antes de desistir do exercício pense seriamente nos efeitos positivos e saiba: somos frágeis sim e algo ruim como um AVC ou um infarto pode ocorrer conosco e não só com o vizinho.

Viver intensamente é respeitar os limites do corpo e da mente e ter qualidade de vida.

Viva mais e melhor.



sábado, 11 de abril de 2015

O difícil diálogo entre economia e teologia

"O dinheiro do imposto", pintura de Rubens

A matéria é do IHU:

Quando a economia se torna tema de debate teológico

A teologia pode se ocupar dos impostos? Pode parecer estranho, mas não é. Não é nos Evangelhos que se narra o episódio em que Jesus é questionado se é certo ou não pagar o tributo a César? "É uma pergunta antiga e é pertinente ainda hoje, especialmente quando pensamos na resposta de Jesus, segundo o qual se deve dar 'a César o que é de César e a Deus o que é de Deus'. Para a fé cristã, tudo pertence a Deus e à sua ideia de amor e de justiça. Por isso, os impostos deveriam ser definidos e pagos com base em princípios que garantam a justiça para todos."

A reportagem é de Giuseppe Matarazzo, publicada no jornal Avvenire, 26-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Não é de se estranhar, portanto, que a Concilium, a revista internacional de teologia publicada pela Queriniana, no seu último número, aborde o assunto e reúna, com uma resenha, as sugestões e os temas lançados pelo discutido e feliz livro de do economista Thomas Piketty, O capital no século XXI (Ed. Intrínseca), detendo-se em particular sobre a "redistribuição das riquezas" e a ''justa taxação", como "soluções" para democratizar o capitalismo, capaz agora apenas de criar desigualdades, minando "a partir dos fundamentos os valores meritocráticos sobre os quais se regem as nossas sociedades democráticas".

Ao longo do tempo, a riqueza dos indivíduos mais ricos tiveram um índice de crescimento maior em relação à economia como um todo, de modo que os ricos se tornaram mais ricos, e os pobres tornaram-se mais pobres. Não se trata apenas de uma percepção de Piketty, mas também do resultado de um estudo sobre três séculos de dados em mais de 20 nações.

"O mais rico – apontam os teólogos Luiz Carlos Susin (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, Brasil) e Klaus da Silva Raupp (atualmente em formação em Boston), que comentaram o trabalho de Piketty – continuará aumentando a sua riqueza, e, no longo prazo, a desigualdade não se baseará mais apenas nas diferenças de renda, mas também nas riquezas herdadas." O garfo só pode aumentar. E interesse, inevitavelmente, às gerações posteriores.

Embora exista uma democracia formal, o abismo entre os mais ricos e os mais pobres é intransponível, e isso ofende as bases do humanismo. A economia brasileira, por exemplo, é um exemplo válido para ilustrar a disparidade entre riquíssimos e paupérrimos: segundo a ONU, relatam Silva Raupp e Susin, nos últimos 12 anos, 17 milhões de pessoas de um total de 20 milhões cruzaram a linha da pobreza extrema e da fome.

No entanto, segundo o Banco Central do Brasil, os lucros dos bancos e de outros atores do mercado financeiro alcançaram níveis sem precedentes na história do país.

A solução para colocar o capitalismo novamente na estrada democrática, para Piketty, está no sistema (justo) de taxação: "progressiva sobre a renda e, sobretudo, sobre a renda de capital (sobre os grandes patrimônios) como a melhor alternativa para regular o capital e diminuir a desigualdade".

Campo no qual se jogam elementos políticos, filosóficos. E teológicos: o bem comum e da justiça social, princípios da doutrina social católica moderna, presentes em todos os documentos da Igreja, da Rerum novarum de Leão XIII à Pacem in terris de João XXIII, até a Evangelii gaudium do Papa Francisco, que pede ao mundo católico que se posicione contra "uma economia da exclusão" e "um dinheiro que governa em vez de servir".



sexta-feira, 10 de abril de 2015

O difícil diálogo entre católicos e protestantes

A matéria é do IHU:

"O problema não é o Papa, mas o papado"

Na opinião de Pedro Tarquis, diretor do blog Protestante Digital, “a atuação de Francisco repete a do cardeal Cisneros em seu tempo. Revolução ética e moral, mas os mesmos princípios”. O artigo é publicado por Religión Digital, 21-03-2015. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Pediram-me que, como cristão protestante, escrevesse sobre a marca de Francisco neste segundo aniversário de seu pontificado. Em seu caso, mais do que em qualquer outro, apresenta-se a questão de que o problema não é o Papa, mas o papado.

Sem dúvida, Francisco trouxe ar fresco em imagem, em estilo de governo e em conceitos éticos ao catolicismo romano.

Sua proximidade, sua simplicidade, sua preocupação por temas sociais, seu posicionamento em temas éticos importantes (como as questões de abuso sexual do clero, a imigração, a justiça social, a perseguição aos cristãos) foram aspectos pessoais muito positivos e que só podem ser lidos a partir da empatia com sua pessoa.

No entanto, uma questão bem diferente é a dimensão do personagem, sua figura como Vigário de Cristo, sua postura a respeito dos princípios fundamentais do cristianismo como é entendido pela Igreja evangélica ou protestante: Só a Fé, Só a Graça, Só a Escritura.

Francisco nada mudou, nem nada quis ou anunciou querer mudar neste aspecto.

Lutero continua excomungado, e a atuação de Francisco repete a do cardeal Cisneros em seu tempo. Revolução ética e moral, mas os mesmos princípios.

Neste sentido, a maioria dos cristãos evangélicos ou protestantes não compartilha entusiasmo algum a respeito do futuro do ecumenismo em seu sentido mais profundo: unidade em torno ao Jesus dos Evangelhos acima do das tradições, instituições e Magistério.

Inclusive, em muitos subjaz a dúvida de se a atuação do “Sumo Pontífice” não é no fundo uma manobra para atrair e diluir o pujante movimento evangélico na América Latina.

Por tudo isso, acredito que sua figura é aceita e valorizada no pessoal, mas discutível, questionável e polêmica no institucional. Seria necessário, para avançar superando estas questões e esclarecer dúvidas e interrogações, que Francisco mergulhasse no fundo do coração do Vaticano, aprofundando muito mais do que os mencionados aspectos éticos, sociais e de imagem.

Porque Jesus embora tenha tratado destes importantes aspectos éticos e sociais (o “bom samaritano”, as parábolas), ao mesmo tempo questionou de forma radical o próprio Templo de Jerusalém, a instituição religiosa de seu tempo, as tradições e o magistério dos fariseus, para dizer: Está Escrito.



quinta-feira, 9 de abril de 2015

Justiça obriga filho violento a se afastar de sua mãe



Filho violento terá que guardar distância de meio quilômetro da própria mãe

A 3ª Câmara Criminal do TJ negou recurso de um homem contra decisão que o obriga a manter a distância mínima de 500 metros de sua mãe. No pedido de habeas corpus, o impetrante alegou que a decisão foi totalmente baseada nas palavras da mãe, sem ouvir sua versão e sem observar os princípios da ampla defesa e do contraditório. Alegou ainda que todas as acusações são mentirosas, verdadeiras calúnias, uma vez que motivadas pelo desejo da mãe em retirá-lo da casa onde coabitam.

"Em casos como o descrito, quando uma pessoa chega ao ponto de dirigir-se a uma delegacia de polícia e ao Judiciário para pedir socorro, é porque a situação tornou-se constrangedora, perigosa e inviável", interpretou o desembargador substituto Leopoldo Augusto Brüggemann, relator da matéria. Em seu depoimento, a vítima relatou que o filho se tornou muito agressivo nos últimos tempos.

Além de quebrar objetos no interior da residência, ele também passou a atacar sua mãe com palavras de baixo calão, motivos suficientes para que a genitora passasse a temer por sua integridade física e moral. De acordo com o processo, as medidas que a câmara manteve são, além do afastamento de casa, a impossibilidade de aproximar-se da mãe a menos de meio quilômetro e a proibição de manter contato com a vítima por qualquer meio de comunicação.



quarta-feira, 8 de abril de 2015

Dieta propõe reduzir risco de Alzheimer em 50%


A matéria é do Brasil Post:

Esta dieta pode cortar seus riscos de Alzheimer em 50%

The Huffington Post | De Carolyn Gregoire

E se houvesse uma medida preventiva que pudesse cortar pela metade o risco de desenvolver mal de Alzheimer?

Alguns nutricionistas podem ter encontrado a fórmula: uma dieta mediterrânea com muitos nutrientes e pequenas quantidades de açúcar e gorduras não-saudáveis.

A dieta ganhou o nome de MIND (em inglês, a palavra significa mente e compõe a sigla de intervenção mediterrânea para retardar a degeneração neurológica) e pode ser eficaz mesmo que não seguida à risca, segundo um novo estudo da Universidade Rush . Pesquisadores descobriram que as pessoas que seguiram a dieta de perto tinham uma probabilidade 53% menor de desenvolver Alzheimer. Aqueles que a fizeram de forma moderada baixaram em 35% o risco de desenvolver dessa doença devastadora.

A dieta MIND incorpora elementos da dieta mediterrânea – muito peixe, gorduras saudáveis, vegetais e grãos integrais, uma combinação que pode reduzir o risco de doenças cardíacas e câncer – e da DASH (sigla em inglês para abordagem dietética para evitar a hipertensão) – que tem muitas frutas, vegetais e laticínios de baixo teor de gordura e pode reduzir o risco de hipertensão, ataques do coração e derrames.

Em um comunicado de imprensa, os pesquisadores afirmam que a dieta MIND é mais fácil de seguir que a dieta mediterrânea completa, que exige consumo diário de peixe e várias porções de frutas e vegetais.

Eis um dia típico da dieta MIND:

3 porções de grãos integrais
Uma salada mais um vegetal
Um copo de vinho
Nozes para o lanche
Mirtilo ou morangos
Frango ou peixe
Feijões (dia sim dia não)

Além de ingerir esses alimento saudáveis, o protocolo MIND exige evitar comidas como manteiga e queijo, carne vermelha, doces e comidas fritas ou processadas.

No geral, a dieta “enfatiza comidas baseadas em plantas e consumo limitado de carne animal e comidas com gorduras saturadas, além de especificar o consumo de frutas silvestres e verduras”, diz o estudo.

Para avaliar o efeito protetor da dieta, os pesquisadores olharam para os dados de consumo de comida de 900 americanos mais velhos que já participavam do Projeto Rush de Memória e Envelhecimento. O projeto começou em 1997 e estuda problemas relacionados ao envelhecimento. Em vez de pedir que os voluntários do estudo seguissem a dieta MIND, eles analisaram dados de uma década dos participantes que já se alimentavam segundo os princípios da dieta, assim como aqueles que baseavam sua alimentação nas dietas mediterrânea e DASH.

Ao longo de um período de cinco anos, a equipe coletou dados de incidência de Alzheimer. O estudo controlou vários fatores que têm influência conhecida no desenvolvimento da doença, como educação, atividade física, fumo e condições cardiovasculares.

A equipe descobriu que a dieta MIND reduzia os riscos de Alzheimer em 53%, enquanto a dieta mediterrânea reduzia os riscos em 54% e a DASH, em 39%. Mas, mesmo quando a dieta MIND era seguida de forma parcial, o risco de desenvolver Alzheimer foi reduzido em 35%. No caso das outras dietas, os benefícios foram negligenciáveis.

“Foi surpreendente descobrir que até mesmo os indivíduos que faziam a dieta MIND de forma moderada tiveram redução no risco de Alzheimer”, disse por email ao The Huffington Post Martha Morris, autora do estudo. “Não foi o caso com a dieta DASH ou a mediterrânea. Para ambas, só uma aderência completa mostrou benefícios.”

A explicação deve residir no fato de que a dieta MIND foi desenvolvida especificamente para refletir as pesquisas mais recentes sobre nutrição e cérebro, diz Morris. Se seguida por muitos anos, a dieta é muito promissora na prevenção do mal de Alzheimer.

“As pessoas que se alimentam conforme essa dieta ao longo dos anos têm a melhor proteção”, diz Morris em um comunicado.

Muitos fatores podem contribuir para o desenvolvimento da doença – incluindo genética, ambiente e estilo de vida --, mas a pesquisa sugere que a dieta certamente está entre esses fatores. Portanto, a nutrição pode ser uma medida preventiva eficaz.

A pesquisa foi publicada na edição de março do Journal of the Alzheimer’s Association.



terça-feira, 7 de abril de 2015

Desenganado aos 17, faz 25 anos que ele vive com fibrose cística


A matéria é da BBC Brasil:

Desenganado aos 17, britânico vive todo dia como se fosse o último há 25 anos

O britânico Tim Wotton foi informado pelos médicos que não viveria além dos 17 anos de idade por causa de uma fibrose cística. Mas isso foi há 25 anos. Hoje, aos 43, ele segue vivo e encara cada novo dia como se fosse seu último:

"Cada hora de cada dia é importante para mim, já que nunca sei quando meu tempo acabará. Ter fibrose cística é o que me faz ter sede de viver.

Pela manhã, me visto como se cada dia fosse meu último na Terra e nunca deixo minhas roupas favoritas no guarda-roupa à espera de uma ocasião especial para usá-las.

Não vejo necessidade de me ater às pequenas coisas sobre as quais fofocam no escritório.

Em vez disso, separo um tempo diariamente para apreciar algo como um pôr do sol ou uma paisagem. Todo dia deve ser pontuado por momentos especiais.

Fico feliz quando tenho um final de semana. Acredito que, quando a semana de trabalho acaba, temos sete "janelas de oportunidades" para aproveitar: a sexta-feira à noite, a manhã, tarde e noite de sábado, e a manhã, tarde e noite de domingo.

Na maior parte de minha vida adulta, ficava feliz quando conseguia fazer algum tipo de atividade - esporte, almoço, jantar, ir às compras ou cinema, ficar com a família ou ir à uma festa - nestes períodos. Isso me dava a sensação de que estava aproveitando cada momento.

Este estilo de vida intenso marcou o fim da minha adolescência, meu tempo na universidade e tudo mais que veio em seguida, porque era motivado pela possibilidade de morrer jovem.

Outras prioridades

Hoje em dia, tenho outras prioridades, mas ainda tiro proveito destas janelas de oportunidade a cada dia para passar algum tempo em família, socializar e trabalhar como consultor, sem me esquecer dos exercícios físicos - hockey aos sábados e ir à academia à noite -, que são vitais para mim.

A fibrose cística é uma das doenças hereditárias fatais mais comuns do Reino Unido. A cada semana, cinco bebês nascem com esta condição, mas também três vidas jovens são perdidas por causa dela.

Ela afeta os órgãos internos, especialmente os pulmões e o sistema digestivo, ao entupí-los com um muco grudento, o que torna mais difícil respirar e digerir alimentos. Atualmente, não há cura.

Minha mulher, Katie, e meu filho, Felix, de 7 anos, me dão a motivação necessária para me manter por cima nesta luta pela sobrevivência.

Katie é enfermeira e entendeu minhas necessidades médicas desde o primeiro dia em que nos conhecemos. Ela nunca se deixou afetar pelos efeitos da fibrose cística em mim.

Frequentemente, tenho uma tosse tão forte e tão duradoura que tenho espasmos e vomito - muitas vezes, quando estou me preparando para ir trabalhar.

A tosse pode durar mais de uma hora, e isso é exaustivo. Minha mulher me ajuda bastante e a aprecia meu gosto pela vida, mas me lembra que preciso pegar leve.

Felix cresceu com uma parafernália médica ao redor dele e se acostumou a me ver usando um nebulizador e a tomar meus 40 comprimidos diários, que ele chama de "balas do papai".

Estou com os dois o máximo possível. Ensino Felix a jogar hockey e me levanto cedo aos sábados para cuidar dele. Saímos juntos em família. Levo Katie para jantar.

Solidão

Ao mesmo tempo, passo de duas a três horas em tratamento por dia para impedir o avanço da fibrose cística, além de ir ao médico e ao hospital regularmente.

Minha saúde depende desse tratamento, então, prefiro encará-lo como uma forma de me dar vida, em vez de perda de tempo.

Um efeito cruel da fibrose cística é a solidão, já que recomendam que pacientes não tenham contatos uns com os outros para que não haja uma infecção cruzada (pessoas diferentes podem ter bactérias diferentes). Isso significa que não podemos socializar entre nós facilmente nem apoiar uns aos outros.

Esta segregação de pacientes foi imposta em clínicas de tratamento para fibrose cística há quatro anos. Desde então, não posso mais ficar de papo com outros pacientes na sala de espera. Também não pude me encontrar com meu padrinho para a fibrose cística, Chris, em todo esse tempo. Só conversamos por email.

Apesar de podermos usar as redes sociais, é uma pena que pacientes com fibrose cística não possam se encontrar e jogar conversa fora. Ao não conseguir ver a linguagem corporal do outro, perdemos uma das mais poderosas formas de comunicação.

Por mais que odeie minha batalha diária por minha saúde, isso me deu uma perspectiva sobre a vida que muita gente pode nunca chegar a ter ou que só terá quando estiver no fim da vida.

Pessoas com condições fatais tem uma habilidade especial em não apenas identificar, mas também apreciar momentos mágicos, já que eles ficam óbvios em meio às dificuldades do dia a dia.

É libertador encarar cada dia como se ele fosse meu último dia na Terra."



segunda-feira, 6 de abril de 2015

TST decide que, por ser lucrativa, Universal deve pagar contribuiçao sindical

A informação é do próprio Tribunal Superior do Trabalho:

Igreja Universal é condenada a pagar R$ 3,7 milhões de contribuições sindicais no MS

A Sétima Turma do Tribunal Superior do Trabalho não acolheu recurso da Igreja Universal do Reino de Deus contra condenação que determinou o pagamento de R$ 3,7 milhões em contribuições ao Sindicato das Entidades Culturais Recreativas de Assistência Social de Orientação e Formação Profissional de Mato Grosso do Sul (SECRASO-MS).

O débito é referente aos anos de 2003 a 2007, período em que a Universal não comprovou o reconhecimento, junto ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), de que não exerce atividade econômica com fins lucrativos (artigo 580 da CLT), o que a tornaria isenta da contribuição. O documento apresentado nesse sentido pela igreja se referia a 2008, posterior aos débitos cobrados no processo.

A condenação abrangeu 31 igrejas em todo o Mato Grosso do Sul. Na fase de execução, a Universal interpôs embargos com o objetivo de alterar o sistema adotado pelo perito responsável pelos cálculos do valor devido. Ele considerou como base para a contribuição sindical o número de igrejas, quando a movimentação econômica da matriz, por si só, reuniria todo o movimento econômico da instituição no estado.

Ao julgar os embargos, o juiz de primeiro de grau entendeu que os temas tratados já tinham sido superados pelo trânsito em julgado do processo, decisão confirmada pelo Tribunal Regional do Trabalho da 24ª Região. A Igreja interpôs ainda recurso revista para o TST, cujo prosseguimento foi negado pelo TRT. Por fim, interpôs agravo de instrumento para liberar o recurso para análise do TST, o que foi negado pela Sétima Turma.

Para o ministro Vieira de Mello Filho, relator do processo na Turma, ao fundamentar o agravo de instrumento a Universal não atendeu aos requisitos do artigo 896, parágrafo 2º, da CLT, pois não renovou a indicação de violação aos dispositivos constitucionais que havia apontado no recurso de revista. Com isso, o agravo ficou desfundamentado, "pois apenas as matérias ventiladas no recurso de revista e reiteradas no agravo de instrumento podem ser apreciadas nesta oportunidade".

O artigo 896, parágrafo 2º, dispõe que os recursos em processos em fase de execução só são admitidos na hipótese de ofensa direta à Constituição Federal, o que não foi o caso.



domingo, 5 de abril de 2015

Habermas critica a razão laicista

Artigo publicado no IHU:

A minha crítica à razão laicista. Artigo de Jürgen Habermas

O universalismo do Iluminismo político não deve estar em contradição com as sensibilidades particulares de um multiculturalismo bem entendido. Em uma ideia de sociedade inclusivista, a igualdade política e a diferença cultural podem se harmonizar entre si.

A opinião é do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, em artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 27-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Para poder se definir como pós-secular, uma sociedade deve primeiro ter sido secular. Portanto, a expressão só pode se referir às sociedades europeias ou a nações como Canadá, Austrália, Nova Zelândia, cujos cidadãos viram continuamente (às vezes, depois da Segunda Guerra Mundial, até mesmo drasticamente) afrouxar os seus vínculos religiosos. Nesses países, a consciência de viver em uma sociedade secularizada se difundiu de forma mais ou menos geral.

Por isso, podemos definir a consciência pública europeia como "pós-secular" no sentido de que, ao menos por enquanto, ela aceita a persistência de comunidades religiosas dentro de um horizonte cada vez mais secularizado.

Até agora, adotei a perspectiva externa do observador sociológico. Mas, se adotarmos a perspectiva do participante, então a pergunta se torna outra, de tipo normativo. Como devemos nos entender como membros de uma sociedade pós-secular?

Porém, antes de abordar o núcleo filosófico, deixem-me desenhar mais claramente o ponto de partida aceito por todos: o princípio da separação entre Igreja e Estado. O Estado constitucional moderno só pode garantir a liberdade religiosa contanto que os seus cidadãos deixem de se fechar como uma ostra dentro dos horizontes integralistas das suas respectivas comunidades religiosas.

As subculturas devem deixar livres os seus seguidores para se reconhecerem reciprocamente na sociedade civil como cidadãos do Estado. Essa nova constelação – entre "Estado democrático", "sociedade civil" e "autonomia das subculturas" – torna-se, agora, a chave para entender as duas "razões" que hoje, em vez de se colocarem de acordo, estão irracionalmente fazendo uma guerra.

De fato, o universalismo do Iluminismo político não deveria estar em contradição com as sensibilidades particulares de um multiculturalismo bem entendido.

Mas o que eu gostaria de ressaltar, nesse contexto, é uma ideia de sociedade inclusivista em que possam se harmonizar entre si a igualdade política e a diferença cultural. Exceto que os partidos em luta não veem, justamente, essa complementaridade.

O partido dos multiculturalistas, ao proteger as identidades coletivas, acusa a sua contrapartida de "fundamentalismo iluminista", ao passo que os secularistas insistem em integrar as minorias na cultura política já existente, acusando a sua contrapartida de "culturalismo anti-iluminista".

Os chamados multiculturalistas gostariam de desenvolver e de diferenciar o sistema jurídico para adequá-lo às exigências de "igualdade de tratamento" propostas pelas minorias religiosas. Eles denunciam o risco da assimilação forçada e do desenraizamento.

No lado oposto, os secularistas lutam por uma inclusão colorblind de todos os cidadãos, independentemente da sua origem cultural e do seu pertencimento religioso. A partir desta perspectiva laicista, a religião deveria permanecer como uma questão exclusivamente privada. A versão radical do multiculturalismo muitas vezes se apoia na convicção – totalmente equivocada – de que visões de mundo, "discursos" e sistemas teóricos são incomensuráveis entre si.

Nessa concepção "contextualista", as várias culturas se apresentam como universos semanticamente fechados, acompanhados por critérios de racionalidade/verdade incomparáveis entre si. Cada cultura seria uma totalidade semanticamente selada, à qual é bloqueado todo entendimento discursivo com as outras.

Com base nessas premissas, toda pretensão universalista de verdade – por exemplo, aquela proposta pela democracia e pelos direitos humanos – é apenas uma máscara ideológica que serve para esconder o imperialismo da cultura dominante.

Deve-se dizer, porém, que, mesmo no zelo excessivo dos guardiões da ortodoxia iluminista, escondem-se premissas filosóficas bastante discutíveis. Na sua perspectiva antirreligiosa, a religião deveria se retirar completamente da esfera pública e se restringir à esfera privada, pois seria uma figura historicamente superada pelo espírito.

A tese do laicismo radical é uma tese filosófica, completamente independente do fato empírico de que as religiões podem oferecer contribuições importantes para a formação política da opinião e da vontade. Do ponto de vista dos secularistas, os conteúdos do pensamento religioso, em todo o caso, são cientificamente desacreditados e inadmissíveis.

Aqui, eu gostaria de fazer uma distinção entre laico e laicista, entre secular e secularista. A pessoa laica, ou não crente, se comporta com agnóstica indiferença em relação às pretensões religiosas de validade. Os laicistas, ao contrário, assumem uma atitude polêmica em relação àquelas doutrinas religiosas que (embora cientificamente infundadas) têm grande relevância na opinião pública.

Hoje, o secularismo se apoia frequentemente em um naturalismo "hard", justificado em termos cientificistas. Pergunto-me se – para os fins da autocompreensão normativa de uma sociedade pós-secular – uma mentalidade laicista hipoteticamente generalizada não acabaria sendo igualmente pouco desejável em comparação com um desvio fundamentalista dos crentes.

Na realidade, o processo de aprendizagem deveria ser prescrito não só para o tradicionalismo religioso, mas também para a sua contrapartida secularizada. Certamente, a autoridade estatal, à qual são reservados os instrumentos da violência legítima, nunca deverá se deixar arrastar nas lutas religiosas, para não correr o risco de se tornar o órgão executivo de uma maioria religiosa que amordaça a oposição.

Todas as normas do Estado constitucional devem ser formuladas e justificadas em uma linguagem acessível a todos. Mas a neutralidade ideológica do Estado não proíbe que se admitam conteúdos religiosos na esfera pública política.

Duas ordens de motivos apoiam essa abertura liberal. Em primeiro lugar, mesmo aqueles que não sabem ou não querem dividir os seus vocabulários e as suas convicções em uma componente profana e em uma religiosa devem poder participar na sua linguagem religiosa para a formação da vontade política.

Em segundo lugar, é preciso que o Estado não reduza preventivamente a complexidade polifônica das diversas vozes públicas. Se, em relação aos seus concidadãos religiosos, as pessoas laicas tivessem que pensar que não podem levá-los a sério – como autênticos contemporâneos da modernidade – por causa da sua atitude religiosa, então se deslizaria de volta para o plano do mero modus vivendi e se perderia aquela "base do reconhecimento" que é constitutiva da cidadania.

Portanto, as pessoas laicas não devem excluir a priori o fato de que podem descobrir conteúdos semânticos dentro das contribuições religiosas; às vezes, eles podem até encontrar aí ideias já intuídas por eles mesmos e, até aquele momento, não totalmente explicitadas.

Tais conteúdos podem ser utilmente traduzidos no plano da argumentação pública. Na hipótese mais feliz, ambas as partes deverão se comprometer, cada uma do seu próprio ponto de vista, para interpretar a relação fé/saber de tal maneira que promova uma convivência reflexivamente iluminada.



sábado, 4 de abril de 2015

África católica quer ter vez e voz

A matéria é do IHU:

O “Momento Africano” no catolicismo mundial reúne energias

ÁFRICA: Assim como na montagem de um quebra-cabeça, fica mais fácil se achar no noticiário quando se sabe de antemão como deve se parecer o quadro mais amplo. Já está claro que uma das megatendências católicas dos nossos dias é o amadurecimento da Igreja na África.

A reportagem é de John L. Allen Jr, publicada no sítio Crux, 24-03-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Este amadurecimento nos leva três histórias recentes de especial importância:

• No último mês de fevereiro, o Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagascar – SECAM (na sigla em inglês), que reúne os bispos africanos, anunciou a nomeação de um representante para a União Africana como um primeiro passo em direção ao status de observador permanente. A missão é promover o desenvolvimento do continente com base em dois documentos: a “Agenda 2063”, da União Africana, e o Africae Munus, documento final do Sínodo dos Bispos, de 2009, para a África ocorrido no Vaticano.

• Na sequência de um encontro em Namíbia, em meados de março, os chefes das Comissões de Justiça e Paz nacionais e regionais de toda a África anunciaram planos para criar um “Comitê Continental de Reconciliação”, cuja ideia é abordar as causas do conflito e enviar mediadores capacitados quando irromperem novos conflitos.

• Partindo do exemplo dos líderes católicos latino-americanos que criaram, em 2014, uma Rede Eclesial Pan-Amazônica para combater o desmatamento, ativistas católicos africanos anunciaram planos para lançar uma “Rede da Igreja Africana” a fim de lutar contra o impacto negativo das mudanças climáticas e resistir aos ataques contra as florestas tropicais do continente.

Tomados em conjunto, o que estes passos ilustram é uma Igreja Católica na África que aspira a um papel de liderança em toda a região: na política, na resolução de conflitos, na proteção ambiental – em tudo basicamente.

O movimento para se obter o status de observador na União Africana é especialmente revelador, porque sugere que os bispos africanos querem replicar, no continente, o papel que o Vaticano desempenha no cenário mundial como uma voz de consciência, com razão a fonte mais importante do mundo daquilo que o cientista político Joseph Nye chama de “poder suave”.

(A propósito, as pessoas estão levando a sério este movimento para expandir o alcance social da Igreja na União Africana. Um grupo de direitos humanos chamado “Justice Africa”, fundado em 1999 por quatro famosos ativistas, criticou a iniciativa como um “sinal preocupante de que o pensamento católico está se inserindo dentro de uma instituição política”, apontando especificamente para a oposição da Igreja no uso da camisinha no combate à Aids.)

“Não é só no quintal deles próprios que os católicos africanos estão surgindo como protagonistas, mas também na Igreja global".

Nesse sentido, pode-se olhar para o Sínodo dos Bispos sobre a família do ano passado, onde os prelados africanos tiveram um papel de destaque nos debates sobre o trabalho em relação ao gays e lésbicas e se os católicos divorciados e recasados no civil deveriam poder receber a Comunhão, onde geralmente defenderam posições tradicionais.

Há motivos para se acreditar que os africanos pretendam estar no centro das atenções no Sínodo deste ano, quando a assembleia episcopal estará novamente reunida em Roma.

“A África amadureceu e está, aos poucos, assumindo o seu lugar como um entre iguais, tanto no cenário internacional quanto na Igreja Católica internacional”, disse Dom Charles Palmer-Buckle, da Arquidiocese de Accra, Gana, em entrevista ao Crux em meados de fevereiro.

Em janeiro, Palmer-Buckle foi eleito por seus companheiros bispos da África para ser um dos representantes no Sínodo.

Não é difícil entender esta crescente autoconfiança.

Durante o século XX, a população católica da África subsaariana foi de 1.9 milhão para mais de 130 milhões – um crescimento impressionante de quase 7 mil por cento. Os africanos começaram o século como menos de 1% da população católica mundial e terminaram-no com um número em torno de 16%.

As vocações estão também em alta. O Seminário Memorial Bigard, no sul da Nigéria, com 1225 inscritos, é o maior seminário católica do mundo. Sua população estudantil é quase um quarto do número total de seminaristas em todo o território dos EUA, e muitos de seus formandos vão trabalhar como missionários estrangeiros.

O catolicismo ao redor do mundo pode ainda precisar de recursos materiais da Europa e da América do Norte, mas hoje ele também está cada vez mais dependente do capital humano que aflora em lugares como os diversos países africanos e as Filipinas.

Poder-se-ia, na verdade, dizer que os africanos, atualmente, são os novos alemães, em que estes últimos eram, por muitos anos, capazes de influenciar quais projetos pastorais nos países em desenvolvimento iriam florescer e quais não iriam, tudo por meio dos fundos assistenciais consideráveis tais como o Misereor e a Adveniat. (A Igreja Católica na Alemanha beneficia-se de um sistema de impostos que lhe dá recursos significativos para doações.)

Hoje, os bispos africanos podem, em alguns casos, influenciar quais paróquias e missões no Ocidente continuarão suas atividades com base na escolha de enviar, ou não, um padre para aí trabalhar. Isso tudo apesar do fato de que a escassez sacerdotal é, na prática, muito mais aguda na África do que na Europa ou nos Estados Unidos, pois uma Igreja que cresce tem condições de batizar pessoas muito mais rapidamente do que ordená-las.

Para os americanos, tanto os da direita quanto os da esquerda, este “Momento Africano” trará alegrias e consternações em, praticamente, igual medida.

Quanto às “guerras culturais”, a grande massa do catolicismo africano está firmemente encorada naquilo que os ocidentais consideram a direita. Os líderes católicos africanos assumem, em geral, uma postura grandemente tradicional em assuntos tais como a homossexualidade e o aborto, com base não só no ensinamento tradicional católico, mas também em seus próprios costumes morais culturais.

É importante não generalizar, porque os católicos africanos podem surpreender. Por exemplo, apesar das impressões de uma linha católica quase uniforme contra a Comunhão aos divorciados e recasados, Palmer-Buckle disse estar aberto a uma flexibilidade que considere caso a caso. Mesmo assim, no geral, os mais ardentes tradicionalistas católicos consideram a África como um bastião da esperança.

Em outros temas, tais como a guerra e paz, justiça econômica, ética do capitalismo global de livre mercado, direitos dos imigrantes, o meio ambiente, relações exteriores, o que predomina na opinião africana católica seria, em geral, considerado de esquerda, se não de extrema-esquerda, no debate político americano.

Eis como o Cardeal John Onaiyekan, de Abuja, Nigéria, descreveu as visões africanas da política externa americana em uma entrevista a um ano atrás:

“Há um sentimento de arrogância”, disse Onaiyekan. “Dito de forma simples, algumas pessoas se perguntam: será porque vocês têm a bomba atômica que acabam pensando que devemos concordar com vocês? O que lhes dá o direto de decidir que o governo eleito num país em específico deve mudar?”

“Grande parte das tragédias na história do mundo foram o resultado de impérios e, de certa forma, é isso o que vemos hoje – a globalização através do imperialismo”, acrescentou Onaiyekan. Ou consideremos o prelado nigeriano quanto às atitudes dos cristãos americanos para com a força militar:

“Como africanos, muitas vezes nos surpreendemos pelo fato de que os nossos irmãos e irmãs do Norte seguem, frequentemente, apenas a metade do Evangelho”, disse Onaiyekan. “Alguns cristãos se opõem ao aborto, mas apoiam a guerra. Como podem dizer não ao assassinato de um feto, mas sim para a morte de um adulto?”

Dificilmente Onaiyekan é alguém de pouca valia. Ele, pelo contrário, é um dos prelados mais influentes da África, em parte por causa do papel que desempenhou em seu país de origem. O Rev. Paulinus Odozor, sacerdote nigeriano e professor de Teologia na Universidade de Notre Dame, disse recentemente que Onaiyekan “ajudou a salvar a democracia na Nigéria”, ao contribuir para que o ex-presidente Olusegun Obasanjo, cristão, abandonasse pacificamente o poder em 2007.

Evidentemente que não é o de que os africanos poderão ditar o resultado das discussões católicas por eles mesmos e, para ser honesto, a maior parte deles não tem interesse em assim proceder. Tendo sentido o ferrão do controle colonial por si próprios, a maioria dos africanos não deseja começar a aplicá-los aos outros.

No entanto, os africanos – tantos os do alto quanto os de baixo da hierarquia – parecem, realmente, cada vez mais determinados a se afirmarem. Em si, isto provavelmente significa que estamos dentro de uma caminhada mais interessante – e também mais imprevisível.



sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sexta-feira santa

“Sabemos que a Sexta-Feira Santa que o cristianismo comemora foi a da Cruz. Mas o não-cristão, o ateu, também a conhece. Significa que ele conhece a injustiça, o interminável sofrimento, o desperdício, o brutal enigma do fim, que de maneira tão ampla forma não apenas a dimensão histórica da condição humana, mas também a existência diária de nossa vida. Conhecemos, inevitavelmente, a dor, o fracasso do amor e a solidão, que fazem parte de nossas histórias e destinos. Também conhecemos o domingo. Para o cristão, esse dia é um indício certo, mas precário, evidente, mas além da compreensão, da ressurreição, de uma justiça e de um amor que derrotaram a morte. (...) As características desse domingo carregam o nome da esperança (não existe palavra mais inexplicável).

Mas é nossa a longa jornada diária do sábado.”


(George Steiner, “Real presences”, Chicago, University of Chicago, 1989, p. 231-2, citado por Philip Yancey em “O Deus (In)visível”, Ed. Vida, pág. 280)



quinta-feira, 2 de abril de 2015

Papa considera pena de morte como fracasso do Estado de Direito


A matéria é da Agência Brasil:

Papa diz que pena de morte é fracasso do Estado de Direito

O papa Francisco afirmou hoje (20) que "a pena de morte é o fracasso do Estado de Direito", em uma carta que entregou ao presidente da Comissão Internacional contra a Pena de Morte, durante audiência no Vaticano.

Francisco, que se reuniu com Federico Mayor Zaragoza e uma delegação da comissão, agradeceu no documento "o compromisso por um mundo livre da pena de morte e pela contribuição para o estabelecimento de uma moratória universal das execuções, tendo em vista a abolição da pena capital".

Na carta, o papa afirma que para o Estado de Direito "a pena de morte representa um fracasso, porque obriga a matar em nome da justiça" e porque "nunca haverá justiça com a morte de um ser humano".

Francisco lembrou que "a pena de morte perde toda a legitimidade devido à seletividade do sistema penal e perante a possibilidade do erro judicial".

A pena capital é "um recurso frequente de regimes totalitários e grupos de fanáticos, usado para o extermínio de dissidentes políticos, de minorias e de qualquer pessoa considerada perigosa, ou que possa ser percebida como ameaça ao poder ou à consecução dos seus fins", destacou.

"Como nos primeiros séculos, também atualmente a Igreja [Católica] sofre com a aplicação dessa pena aos seus novos mártires", observou.

Para o papa, quando se aplica a pena de morte "mata-se pessoas não por agressões atuais, mas por crimes cometidos no passado. É aplicada a pessoas cuja capacidade de fazer mal não é atual, mas que já foi neutralizada, e que estão privadas de liberdade".

"Atualmente, a pena de morte é inadmissível, por muito grave que tenha sido o delito do condenado. É uma ofensa à inviolabilidade da vida e da dignidade da pessoa, que contradiz o desígnio de Deus".

"Não traz justiça às vítimas, mas fomenta a vingança", acrescentou Francisco.

O papa também considerou "uma tortura" e um "tratamento cruel, desumano e degradante" a espera entre a sentença e a aplicação da pena, que pode se prolongar por vários anos.

Na carta, Francisco referiu-se ainda à prisão perpétua que, como já havia feito em outras ocasiões, definiu como "uma pena de morte disfarçada".

Ele disse que espera que a comissão continue lutando para abolir a pena de morte e que "as ações empreendidas sejam acertadas e frutíferas".



quarta-feira, 1 de abril de 2015

Cachorros não caem na mentira


É o que se deduz da matéria publicada pela BBC Brasil:

Cachorros sabem quando alguém é desonesto, aponta pesquisa

Melissa Hogenboom

Cachorros podem não parecer incrivelmente inteligentes quando correm atrás de seus próprios rabos, mas usam outras maneiras para demonstrar como são criaturas espertas. Uma de suas melhores qualidades é que eles estão sempre atentos aos seres a sua volta, tanto humanos como outros cães.

Muitos estudos já demonstraram que cachorros são capazes de perceber as emoções humanas. Pesquisas recentes descobriram que eles podem notar a diferença entre rostos alegres e tristes, e conseguem até demonstrar ciúme.

Mas um trabalho que foi há pouco tempo publicado na revista científica Animal Cognition revelou que os cachorros também percebem quando uma pessoa não é confiável. E uma vez que decidem que determinado indivíduo é desonesto, param de seguir suas instruções.

O estudo foi realizado na Universidade de Kyoto, no Japão, pela equipe da cientista Akiko Takaoka. Partindo da noção já comprovada de que os cães entendem quando um humano aponta algo para eles, os investigadores puderam concluir que os animais também percebem rapidamente quando o gesto de um humano é enganoso.

A equipe liderada por Takaoka realizou três rodadas de experimentos com 34 cães.

Na primeira vez, uma pessoa apontava corretamente para um recipiente que escondia comida. Mas na segunda rodada, o indivíduo indicava um recipiente que acabava se revelando vazio.

Na terceira rodada, a mesma pessoa apontava de novo para um objeto contendo comida. Mas desta vez os cachorros não respondiam ao comando daquele indivíduo. Segundo Takaoka, isso sugere que os cães se baseiam em sua experiência anterior com aquela pessoa para avaliar se se trata de alguém confiável.

Depois das três experiências, outra pessoa completamente diferente repetia a primeira rodada, e novamente os cães seguiam avidamente suas orientações.

A cientista diz ter ficado surpresa com o fato de os cachorros restaurarem sua confiança em um humano tão rapidamente.

“Os cães têm uma inteligência social mais sofisticada do que pensávamos. Isso evoluiu seletivamente na longa história que esses animais têm com o ser humano”.

Segundo Takaoka, o próximo passo de sua equipe será testar espécies relacionadas aos cachorros, como os lobos. Isso poderia ajudar a revelar “os efeitos profundos da domesticação” na inteligência social dos cães.

Previsibilidade

Para John Bradshaw, da Universidade de Bristol, na Grã-Bretanha, a principal conclusão do estudo japonês é o fato de que cães gostam que as coisas sejam previsíveis.

Assim que os acontecimentos em suas vidas se tornam irregulares, eles procuram por atividades alternativas.

E se eles consistentemente ficam sem saber o que vai acontecer, podem se tornar agressivos ou medrosos. “Cachorros cujos donos são inconsistentes costumam apresentar distúrbios de comportamento”, afirma Bradshaw.

Cada vez mais nos convencemos de que os cães são mais inteligentes do que se acreditava no passado, mas, segundo Bradshaw, essa inteligência é diferente da nossa.

“Cachorros são muito sensíveis ao comportamento humano, mas eles têm menos pré-concepções”, diz o cientista. “Eles vivem no presente e não refletem sobre o passado de maneira abstrata, assim como também não planejam o futuro.”

Quando encontram uma situação, os cães reagem para o que está ali “em vez de pensar profundamente no que aquilo significa”.

Para Brian Hare, diretor científico da empresa americana Dognition, especializada em testes de personalidade com cachorros, esses animais claramente estão atentos quando uma pessoa gesticula para eles, e este estudo prova isso.

“Cães avaliam a informação que transmitimos com base em quão confiável ela é em ajudá-los a conseguir seus objetivos”, diz Hare.



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