segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Chile enterra Manuel Contreras mas não o seu horror

Chilenos saíram à rua para festejar a morte de Contreras

A matéria (bastante detalhada) é da BBC Brasil:

Morre Manuel Contreras, pai da 'Operação Condor'

Constanza Hola Chamy

Dos 529 anos de prisão que foi condenado devido a crimes de violação de direitos humanos durante a ditadura chilena, Manuel "Mamo" Contreras cumpriu menos de 20. Ele morreu na noite de sexta-feira, aos 86 anos.

Contreras foi o rosto mais visível da repressão política no Chile. Sua missão era "extirpar e eliminar o extremismo marxista", segundo suas próprias palavras. E, para ele, não faltaram recursos para implementar um plano sistemático de violência exercida pelo Estado, que matou e desapareceu com milhares de pessoas durante o governo militar chileno.

Algo garantido, novamente segundo as palavras de Contreras, pelas "ordens que me foram dadas diretamente pelo presidente da República", Augusto Pinochet.

O modelo acabaria exportado para o resto da América Latina por meio da Operação Condor, da qual ele foi o criador, gestor e executor. Contreras também foi um colaborador próximo da agência secreta americana, a CIA, e planejou os atentados contra o ex-ministro chileno Orlando Letelier em Washington e contra o ex-general Carlos Prats, na Argentina.

A chamada Operação Condor consistiu em um esforço coordenado pelos governos militares da América Latina, entre as décadas de 1970 e 1980, para perseguir opositores políticos.

Contreras era considerado o braço direito de Augusto Pinochet e e foi o chefe da Direção de Inteligência Nacional do Chile (Dina), entre 1973 e 1977.

Os 529 anos de prisão aos quais foi condenado são apenas os ratificados pela Suprema Corte do Chile. No total, Contreras somava mais de 1 mil anos de penas.

Porque, se no Chile "não se dava um passo" sem que Pinochet soubesse, isto se devia em grande parte ao trabalho de Contreras, o ideólogo da polícia secreta do país.

"Contreras foi um dos genocidas mais representativos da ditadura militar", disse à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Carmen Hertz, advogada e ex-diretora de Direitos Humanos do Ministério das Relações Exteriores do Chile.

Lado mais obscuro

Poucos dias antes de morrer e enquanto recebia sua última condenação, já havia uma mobilização nas redes sociais pedindo "orações" para a recuperação de Contreras.

"Ainda restam 500 anos para pagar" era o que se lia na foto que circulava com a hashtag #NoTeMuerasMamo ("Não Morra Mamo (apelido de Contreras)", em tradução livre).

Como um dos símbolos do lado mais obscuro do governo militar chileno, Contreras morreu repudiado por todos os setores do espectro político do país. Até o partido de extrema direita, UDI, lhe deu as costas.

Questionado por uma rádio chilena se o Exército devia ou não fazer as honras no funeral de Contreras, o presidente do partido, Hernán Larraín, respondeu que "alguns não querem que ele morra como general".

O governo da presidente Michelle Bachelet, que foi presa e torturada por uma patrulha de Contreras durante a ditadura militar, deu desfecho à polêmica: Contreras não era digno de honra. Nem ele e muito menos os outros violadores dos direitos humanos, segundo um decreto publicado durante o primeiro governo de Bachelet e divulgado nesta semana.

O decreto proíbe honras militares nos funerais dos que tenham sido condenados por tais tipos de crimes.

Contreras passou seus últimos dias no Hospital Militar. Com a piora de seu estado, foi transferido para Punta Peuco, uma prisão militar.

Uma prisão que, como o próprio Contreras afirmava, foi construída para abrigá-lo.

Carreira meteórica

Juan Manuel Guillermo Contreras Sepúlveda nasceu em Santiago em 1929, mas passou a maior parte de sua juventude no sul do Chile.

Em 1947, entrou na escola militar como um dos melhores alunos. Reconhecido como hábil e inteligente, teve, a partir dali, uma carreira meteórica.

Foi um dos militares chilenos "premiados" em 1967 com uma temporada na Escola das Américas, uma academia de instrução militar onde a forças americanas treinavam militares aliados da América Latina durante a Guerra Fria.

Foi chamada de "escola de ditadores" pelo congressista Joseph Kennedy 2º que, em 1994, disse que a Escola das Américas "produziu mais ditadores e assassinos que nenhuma outra na história do mundo".

Enquanto estudava no local, Contreras conheceu vários oficiais americanos com quem manteria contato mais tarde, devido à cooperação entre a CIA e a DINA.

Também conheceu vários colegas com que posteriormente retomaria o vínculo para um de seus principais projetos, a Operação Condor.

Em 11 de setembro de 1973, as Forças Armadas Chilenas deram um golpe de Estado que derrubou o então presidente do país, o socialista Salvador Allende.

Contreras estava nesta época a 100 quilômetros da capital Santiago, encarregado do regimento Tejas Verdes, que posteriormente ficaria conhecido como um dos principais centros de detenção e tortura do governo militar chileno.

"(Tejas Verdes) foi um dos locais de maior crueldade e brutalidade contra os partidários do governo de Salvador Allende", disse Hertz.

"Em 1974, a Dina eliminou boa parte do MIR (Movimento de Esquerda Revolucionário), em 1975 o Partido Socialista e em 1976 foi a vez do Partido Comunista", explicou a advogada.

"Contreras era, ao mesmo tempo, o senhor e o vassalo. Se reportava única e exclusivamente a Pinochet", acrescentou.

Três meses depois do golpe, a Junta de Governo designou Contreras como o encarregado de criar um organismo nacional de inteligência. Em junho de 1974, era criada oficialmente a Direção de Inteligência Nacional, a Dina.

Dina e Pinochet

Diretor da Dina, Contreras, reportava diretamente ao presidente, Pinochet.

"A cúpula da Dina era o presidente da República", disse o próprio Contreras em uma entrevista ao canal estatal chileno TVN em 2005.

Segundo um relatório da Comissão da Verdade e Reconciliação chilena, o relatório Rettig, mais de 1,5 mil pessoas morreram nas mãos da Dina sob a diração de Contreras.

Mas, apesar das múltiplas condenações, Contreras nunca reconheceu as mortes.

"Nego", disse ele à CNN Chile em 2013 ─ sua última entrevista a uma emissora de TV ─ quando questionado sobre a existência dos detidos desaparecidos.

Além disse, na ocasião, acusou as vítimas de tortura de um "bando de mentirosos".

"Contreras sempre se considerou vítima de uma grande injustiça. Nunca teve autocrítíca; os outros eram sempre os culpados", afirmou à BBC Mundo o juiz chileno Mario Carroza, que interpelou o ex-general várias vezes.

'Pai' da Operação Condor

A influência de Contreras acabaria ultrapassando a Cordilheira dos Andes.

No meio da década de 1970, a América Latina vivia o auge dos governos militares.

E junto com outros governos, como o de Ernesto Geisel no Brasil, Juan María Bordaberry no Uruguai e Hugo Banzer, na Bolívia, foi estabelecida uma rede latino-americana de coordenação de operações de repressão entre suas diferentes equipes de inteligência.

Documentos secretos descobertos no Paraguai e conhecidos como "Arquivo do Terror" apontam que a Operação Condor nasceu no dia 25 de novembro de 1975 em uma reunião secreta dos líderes de inteligência, cujo anfitrião foi o próprio Contreras.

Segundo o Relatório Hinchey, feito pelo Departamento de Estado americano em 2000, a CIA manteve entre 1974 e 1977 contato com Contreras, "pai" da Operação Condor. O mesmo relatório também estabelece a data da confirmação oficial.

"Em outubro de 1976 (...), Contreras confirmou a existência da Condor como uma rede de intercâmbio de inteligência, mas negou que teve um papel nos assassinatos extrajudiciais."

Rompimento com a CIA

Um evento em 1976 marcaria o fim da proximidade de Contreras com Pinochet e também o começo do fim da Dina: o atentado em Washington que matou Orlando Letelier.

Letelier, ministro e embaixador de Allende, morreu em um atentado com carro-bomba encomendado pela Dina.

Um dos líderes da operação em Washington foi Michael Townley, a quem o próprio Contreras diria, posteriormente, ser vinculado à CIA.

Mas a bomba colocada no carro do diplomata chileno não apenas matou Letelier e seu assistente, Ronni Moffit, como também arruinou a relação entre a agência de inteligência americana e Contreras.

Segundo o relatório Hinchey, este possivelmente foi o momento em que o papel de Contreras no assassinato de Letelier virou um problema.

Um problema tão grande que sua primeira condenação, em 1993, foi como autor intelectual do assassinato.

Contreras, por sua vez, sempre afirmou que Letelier foi assassinado pela CIA, mas este vínculo nunca foi provado.

"Não há nenhuma demonstração de que a CIA estava envolvida", disse à BBC Mundo Juan Pablo Letelier, analista político e filho de Orlando.

O que se sabe é que, depois do atentado, a relação entre os governos do Chile e Estados Unidos, mudou radicalmente.

"Para os Estados Unidos, era inaceitável que uma pessoa tenha sido morta em seu território. Sua relação com o regime militar chileno tinha sido relativamente cordial e amistosa. Mas, depois de Letelier, a relação mudou. Por passar dos limites, Pinochet perdeu muito", disse à BBC Mundo Patricio Navia, analista político da Universidade de Nova York.

Em 1977, a Dina tinha conseguido cumprir o objetivo inicial de exterminar os grupos considerados subversivos e terroristas.

No entanto, a investigação do assassinato de Letelier conseguiu provas contra dois agentes da Dina, o americano Michael Townley e o chileno Armando Fernández Larios. Naquela ano, Contreras foi obrigado a se aposentar e a Dina substituída pela Central Nacional de Inteligência (CNI).

Investigado

Logo depois da redemocratização do Chile, em 1990, Contreras virou o foco de atenção das investigações sobre violações de direitos humanos.

Ele cumpriu pena de várias formas: desde prisão domiciliar até reclusão em Punta Peuco, um centro especialmente construído para ex-militares e colaboradores do governo militar, condenados por violações de direitos humanos.

Sua primeira condenação foi em 1993, pelo assassinato de Letelier. Depois, multiplicaram-se outras por casos como a Operação Colombo e o assassinato do general Carlos Prats.

Mas Contreras não queria assumir sozinho toda a responsabilidade.

A primeira vez em que ele garantiu que Pinochet não apenas sabia, mas também dava ordens à Dina foi em 2003, no que foi considerado um marco da investigação sobre a Operação Condor.

"Como diretor-executivo da Dina, eu apenas recebia ordens do presidente da República. A Dina tinha como missão de extirpar e eliminar o extremismo marxista. Eu apenas cumpria ao pé da letra as ordens que me eram passadas diretamente pelo presidente da República, de quem eu dependia", disse.

Pinochet morreu em 2006 sem enfrentar nenhuma pena por violações dos direitos humanos. E sempre insistiu que Contreras era quem tomava todas as decisões na Dina.

Um dos episódios mais conhecidos foi a acareação realizada em 2005, onde os dois foram reunidos em público.

"Você mandava na Dina, general, que isto fique claro de uma vez!", disse Pinochet a Contreras.

"Sim, general, mas você era quem ordenava tudo e isso também tem que ficar claro", respondeu.



domingo, 9 de agosto de 2015

Da importância de ser um pai presente


Artigo interessante publicado no blog Mil Dicas de Mãe, de Nívea Salgado:

Amor do pai é uma das maiores influências da personalidade da criança

Que o amor materno é fundamental para a vida de qualquer criança, não temos qualquer dúvida. Aliás, em pleno século XXI, nossa cultura ainda coloca sob responsabilidade (quase que exclusiva) da mãe os cuidados com os filhos (é uma criança que faz birra? Que bate no amiguinho? Que vai mal na escola? “A culpa é da mãe”, não é assim que ouvimos comumente por aí?).

Mas como fica o papel do pai nessa história? Pois um estudo recente mostrou que ele é fundamental na formação da personalidade da criança, e como ela desenvolverá diversas características até a idade adulta. Pesquisadores da Universidade de Connecticut, nos EUA, demonstraram que crianças de todo o mundo tendem a responder da mesma forma quando são rejeitados por seus cuidadores, ou por pessoas a quem são apegadas emocionalmente. E quando essa rejeição é do pai, diferentemente do que muitas pessoas acreditam, ela causa marcas profundas.

Segundo os estudiosos, que avaliaram 36 trabalhos envolvendo mais de 10.000 pessoas, entre crianças e adultos, a rejeição paterna tem essa influência tão marcante porque, em primeiro lugar, é mais comum do que a materna. E também porque a figura do homem é associada a prestígio e poder – ou seja, para a criança, é como se ela tivesse sido esquecida ou preterida por alguém que todos consideram importante.

Agora vem a parte mais triste: o estudo mostrou que as crianças sentem a rejeição como se ela realmente fosse uma dor física. As partes do cérebro ativadas quando um pequenino se sente rejeitado são as mesmas que se tornam ativas quando ele se machuca, com uma diferença: a dor psicológica pode ser revivida por anos, levando à insegurança, hostilidade e tendência à agressividade.

A boa notícia é que um pai presente e carinhoso tem exatamente o efeito contrário na formação da personalidade do filho: o pequeno cresce feliz, seguro e capaz de estabelecer ligações afetivas muito mais facilmente na vida adulta. Se o pai do seu filho é exatamente assim, compartilhe o post com ele – tenho certeza de que ele adorará saber disso!



sábado, 8 de agosto de 2015

Derretimento das geleiras vai revelando cadáveres montanhas afora

Linda imagem do amanhecer no Matterhorn, capturada pelo fotógrafo Mark Andreas Jones

A macabra informação vem da BBC Brasil:

Degelo de montanha suíça revela ossos de japoneses desaparecidos em 1970

Restos mortais encontrados na montanha de Matterhorn, na Suíça, foram identificados como sendo de dois alpinistas japoneses desaparecidos 45 anos atrás. Segundo a polícia, testes de DNA comprovaram que os ossos pertencem aos dois, que sumiram no local em 1970.

Os ossos foram encontrados em setembro passado, a uma altitude de cerca de 2.800 metros. São os mais recentes surgidos na Matterhorn, que tem 4.478 metros de altura e passa por um processo de derretimento de suas geleiras.

Segundo a agência de notícias AFP, o consulado japonês em Genebra identificou os alpinistas como sendo Michio Oikawa e Masayuki Kobayashi. Eles tinham 22 e 21 anos, respectivamente, quando desapareceram.

O consulado ajudou a polícia a procurar integrantes das famílias para as comparações de DNA.

Outros casos

Com o derretimento de geleiras dos Alpes provocado pelo aquecimento global, restos mortais de alpinistas desaparecidos há décadas vêm emergindo.

Em 2013, um piloto de resgates descobriu, perto do topo da Matterhorn, restos mortais e equipamentos de escalada que pertencem ao alpinista britânico Jonathan Conville, que sumiu em 1979.

No ano passado, o corpo de um alpinista checo, desaparecido após um acidente ocorrido 40 anos atrás, foi encontrado nos Alpes Berneses.



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Quando o filho de um oficial nazista se converte ao judaísmo


No próximo domingo se comemora o Dia dos Pais no Brasil, e a história contada abaixo - lamentavelmente - não é festiva, pois fala da relação conturbada entre pai e filho, marcada pelas trevas do nazismo e do holocausto.

Entretanto, vale a pena ler o artigo até o final, quando Bernd Wollschlaeger fala sobre as sombras da história projetadas na morte. Um relato pesado, pungente, humano, demasiadamente humano...

A matéria - brilhante - foi publicada na Folha de S. Paulo:

Filho de oficial nazista rompe com família e se converte ao judaísmo

DEPOIMENTO A
LEDA BALBINO

O médico Bernd Wollschlaeger, 57, rompeu com a família após descobrir o papel que seu pai Arthur Wollschlaeger, um comandante de tanque condecorado pelo ditador nazista Adolf Hitler, teve na Segunda Guerra (1939-1945).

Após converter-se ao judaísmo, Wollschlaeger mudou-se em 1987 para Israel, onde adquiriu a cidadania israelense e serviu por dois anos no Exército como oficial médico. Um dos protagonistas do documentário "Fantasmas do Terceiro Reich", da brasileira Claudia Sobral, Wollschlaeger vive desde 1991 na Flórida, nos EUA.

Nasci em 1958 em Bamberg, no sul da Alemanha, onde aprendi muito cedo a importância da história por estar cercado por ela. Perguntava aos meus pais sobre seu passado, sobre meus avós, mas só se limitavam a dizer que houve uma guerra.

Mas gradualmente comecei a colher duas versões diferentes. Da minha mãe, uma tcheca de etnia alemã, ouvia sobre o horror de ter sido desalojada de casa, de ter perdido tudo que lhe era caro.

Do meu pai, ouvi as histórias de glória. Comandante de tanque, ele participou dos ataques à Polônia em 1939, à França em 1940 e à União Soviética em 1941.

Um dia me mostrou a condecoração que recebeu de Hitler: a Cruz de Ferro. Assim, quando tinha 6, 7, 8 anos, meu pai era um herói de guerra e eu devia ter orgulho dele.

As dúvidas surgiram entre meus 8 e 9 anos, porque havia algo curioso na nossa residência em Bamberg.

Vivíamos de aluguel no primeiro andar de uma construção antiga. A proprietária, uma condessa com quem minha mãe me proibia de falar, morava no andar de cima.

Na parede ao lado da escada que levava ao seu apartamento, ficava o retrato de um militar também usando o quepe, a Cruz de Ferro. Meu pai referia-se a ele como "o traidor", e eu não entendia por que alguém que parecia com ele poderia ser ruim.

Até que descobri que o retratado era Claus von Stauffenberg, o coronel alemão que liderou a tentativa de assassinato contra Hitler em 20 de julho de 1944.

E foi com sua viúva, Nina Stauffenberg, que aprendi mais tarde que houve uma Alemanha de ditadura e que houve pessoas que lutaram contra o sistema.

Quando tinha 14 anos, nos ensinaram na escola que a Olimpíada de Munique, em 1972, demonstraria ao mundo uma nova Alemanha, e não a de 1936, quando Hitler usou os Jogos como propaganda nazista.

Meus pais convidaram amigos para assistir à abertura. E, quando a equipe que trazia a estrela de davi na bandeira entrou no estádio, toda o clima mudou. Meus pais pararam de falar, como se tivesse aparecido um fantasma.

Dez dias depois, essa equipe foi feita refém por terroristas palestinos. E então o curso da minha vida mudou no dia seguinte ao fracasso do resgate, quando li nos jornais a manchete "Judeus mortos novamente na Alemanha".

Na escola, tiveram de nos explicar sobre Auschwitz, a solução final, a morte de judeus como política de Estado.

Apesar de meu pai ser um cara muito durão, com quem era difícil falar por controlar a situação, confrontei-o: "Pai, o que sabe sobre o Holocausto?" Ele respondeu que isso era uma mentira, que tudo era propaganda comunista.

No curso de vários anos, o abordei para tentar extrair a verdade. E, aos poucos, me disse. Aos poucos, ela apareceu.

Em janeiro deste ano, um especialista militar me entregou uma mala do mecânico do tanque de meu pai. Ela estava cheia de rolos rasgados da Torá.

Os parentes dele relataram que, na invasão da Polônia e da Rússia, os membros do regimento do meu pai destruíram vilas judaicas, mataram todos e saquearam. E usaram os rolos da Torá para envolver os motores dos veículos e evitar que perdessem calor no inverno. Então, meu pai não apenas soube do Holocausto: ele participou dele.

Quando eu tinha 17, 18 anos, ele defendeu o Holocausto dizendo: "Foi necessário, porque alguém tinha de se livrar da sujeira".

Durante todo esse processo, quanto menos meu pai estava interessado em falar sobre o assunto, mas me interessei em aprender sobre o judaísmo. E, quanto mais me aproximei dessa família de escolha, mais me distanciei da minha de origem.

MUDANÇA ESPIRITUAL

Entre os 19 até os 26, 27 anos, passei por uma mudança espiritual. Converti-me e me tornei judeu ainda na Alemanha, e isso foi um total rompimento com minha família. Tive de partir e imigrei para Israel em 1987.

Deixei minha nacionalidade alemã para trás, me tornei israelense, deixei minha fé cristã para me tornar judeu, servi no Exército israelense. Me desconectei totalmente do meu antigo eu para manter a sanidade.

Minha jornada foi resolver meu próprio conflito, me reconciliar comigo mesmo, entender como posso ser alemão, ser filho de um pai que fez isso? E como ser eu mesmo, normal? Foi uma redenção pessoal.

Comecei essa jornada me sentindo culpado. No fim, me tornei um judeu por convicção. Não posso limpar o passado de meu pai ou desfazer o que aconteceu. Hoje não me sinto mais culpado, mas sinto que, como filho dele, sou responsável. Que tenho de carregar essa vergonha. Mas na minha vida fiz e faço tudo o que posso para contribuir para essa redenção.

Meu pai nunca foi capaz de sentir remorso. Antes de morrer, incluiu no seu último testamento que eu nunca deveria visitar sua sepultura, não deveria comparecer a seu funeral, me deserdou.

Obviamente, não fui ao seu enterro. Estava em Israel quando morreu. Mas visitei seu túmulo 20 anos depois, com meu filho.

A parte irônica é que o túmulo conjunto dos meus pais fica exatamente do lado do muro que separa o cemitério cristão, de Bamberg, do cemitério judaico. Quando você olha a partir do túmulo dos meus pais em direção a esse muro, vê do outro lado as lápides judaicas.

Olhando para aquilo, disse ao meu filho: "Essa é lição que posso te ensinar: a história sempre projetará sua sombra, mesmo na morte. Por isso é melhor lidar com ela estando vivo, saindo da sombra e aprendendo suas lições".

Meu pai nunca fez isso. Literalmente, ele repousa sob a sombra da história por toda a eternidade.



quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Hiroshima, 70 anos depois


Hoje faz exatos 70 anos que a primeira bomba atômica explodiu em Hiroshima, deixando milhares de mortos instantaneamente e outros tantos milhares que morreriam em decorrência da radioatividade ao longo dos anos e décadas seguintes.

Três dias depois, a segunda bomba nuclear explodiu em Nagasaki, forçando a rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial.

O que pouca gente se recorda é que Hiroshima e Nagasaki eram duas das cidades japonesas onde proporcionalmente havia mais cristãos em sua população, que - equivocadamente - pensavam que seus "irmãos" do Ocidente os poupariam do pior.

Por esta perspectiva, é interessante relembrar o que pensou o padre que abençoou a tripulação dos bombardeiros antes e depois do ataque, segundo a matéria do IHU:

O Padre que abençoou as tripulações da bomba atômica – e a sua conversão


"Depois de anos de busca espiritual, a conversão completa do Pe. Zabelka de ser um forte defensor da 'teoria da guerra justa' para se transformar num pacifista total foi anunciada em uma carta de Natal no ano de 1975", escreve Tony Magliano, jornalista e colunista de temas de justiça social e paz internacionalmente reconhecido, em artigo publicado por Independent Catholic News, 02-08-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa. 


Eis o artigo.


Há setenta anos, no dia 6 de agosto de 1945, a arma singular mais destrutiva já lançada sobre os seres humanos e o meio ambiente – a bomba atômica – foi posta em ação por um bombardeiro B-29 americano sobre a cidade japonesa de Hiroshima, matando cerca de 80 mil pessoas.

Três dias depois, uma segunda bomba atômica seria lançada sobre Nagasaki, matando cerca de 40 mil.

“Abençoando” as tripulações e suas duas missões estava o Pe. George Zabelka, capelão para o 509º Grupo Composto – o grupo da bomba atômica. Em uma entrevista à revista Sojourners, o falecido padre explicou: “Se um soldado vier até mim e perguntar se pode colocar uma bala na cabeça de uma criança, eu direi a ele que não, de forma alguma. Isso seria mortalmente pecaminoso”.

Mas em 1945, na Ilha de Tinian no Pacífico Sul, onde o grupo da bomba atômica se encontrava, aviões decolavam o tempo todo, disse Zabelka. “Muitos desses aviões iam para o Japão com o propósito expresso de matar não uma criança ou um civil, mas de abater centenas de milhares de crianças e civis – e eu não disse nada (...)”.

“Sim, eu sabia que vidas de civis estavam sendo destruídas (...) No entanto, nunca preguei um único sermão contra a morte de civis aos homens que estavam cometendo estes crimes. (...) Fizeram uma lavagem cerebral em mim! Jamais me passou pela cabeça protestar publicamente contra as consequências destes ataques aéreos maciços”.

“Me disseram que eles [os ataques] eram necessários; assim me disseram abertamente os militares e, implicitamente, as minhas lideranças na Igreja. Até onde eu saiba, nenhum cardeal americano ou bispo se opôs aos ataques aéreos em massa. Silenciar-se em assuntos como este, especialmente no caso de um organismo público, como o conjunto dos bispos americanos, é emitir um selo de aprovação. (...)”

“Os cristãos vêm cometendo massacres uns aos outros, assim como a não cristãos, nos últimos 1.700 anos, em grande parte porque os seus padres, pastores e bispos simplesmente não dizem a eles que a violência e o homicídio são práticas incompatíveis com os ensinamentos de Jesus”.

Depois de anos de busca espiritual, a conversão completa do Pe. Zabelka de ser um forte defensor da “teoria da guerra justa” para se transformar num pacifista total foi anunciada em uma carta de Natal no ano de 1975: “Devo fazer uma declaração que reverte tudo o que pensei outrora (...) Cheguei à conclusão de que a verdade do Evangelho é que Jesus não foi violento e que ensinou a não violência como o seu caminho”.

Zabelka dedicou o resto de sua vida ao ensino, à pregação e ao testemunho do Evangelho da não violência.

Em 1983, ele e um sacerdote jesuíta, o Pe. Jack Morris, organizaram e participaram da “Bethlehem Peace Pilgrimage” (Peregrinação pela Paz de Bethlehem), que começou na base nuclear submarina em Bangor, Washington, e terminou na véspera de Natal do ano de 1984, em Bethlehem, [condado no mesmo estado americano].

Quando Zabelka veio a Maryland, tive a oportunidade de pessoalmente ouvi-lo partilhar a sua história inspiradora de conversão.

Eu recomendo a leitura de toda a entrevista que ele concedeu à Sojourners, acessando-a neste link.

Sugiro também adquirir o excelente DVD “'Fr George Zabelka: The Reluctant Prophet”, produzido pelo Center for Christian Nonviolence, no seguinte link. Ou assisti-lo aqui no YouTube.

Podemos optar por racionalizar e tolerar a violência e a guerra, ou podemos ajudar a Deus a construir o seu reino de vida e amor.

No Livro de Deuteronômio, o autor estabelece um ultimato divino para a humanidade: “ (…) Eu lhe propus a vida ou a morte, a bênção ou a maldição. Escolha, portanto, a vida, para que você e seus descendentes possam viver, amando a Javé seu Deus, obedecendo-lhe e apegando-se a ele (…)”.

Que possamos sempre escolher a vida!



quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Cheiro do chulé pode combater malária


Alguns anos atrás, publicamos aqui notícia sobre a importância do chulé para combater a dengue.

Agora é a vez da malária, segundo noticia a BBC Brasil:

Como o chulé pode ajudar no combate à malária

David Robson

A holandesa Renate Smallegange é uma especialista em chulé. E tem mais: ela se dedica tanto que é capaz de fazer coisas inimagináveis para poder estudar o mau cheiro dos pés humanos.

Às vezes ela recolhe meias de nylon que acabaram de ser usadas – e que, portanto, estão embebidas na "fragrância". Em outras ocasiões, envolve os pés descalços de algum voluntário com um saco plástico, para captar o aroma em rajadas de ar.

De todas as profissões do mundo, esta certamente não é das mais agradáveis. Mas Smallegange não se incomoda. Afinal, ela sabe que o forte mau cheiro que tem de sentir em suas experiências é um dos principais atrativos para seu verdadeiro objeto de estudo: o mosquito transmissor da malária.

Por isso, ela se dedica a encontrar a receita exata do chulé, na esperança de desenvolver métodos para eliminar os insetos responsáveis pela transmissão da infecção que mata mais de 580 mil pessoas por ano, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Coquetel para bactérias

Não importa o quão limpos estamos. Um leve odor saindo de nossos pés é quase inevitável por causa da anatomia: o pé de um indivíduo normal contém 600 glândulas sudoríparas por centímetro quadrado – centenas a mais do que nas axilas.

Essas glândulas secretam um coquetel de sais, glicose, vitaminas e aminoácidos que é perfeito para a alimentação de uma colônia de bactérias. Em troca, esses microrganismos deixam para trás uma mistura de ácidos graxos que, juntos, produzem o odor tão característico do chulé.

Há tantas bactérias vivendo em nossos pés que microbiologistas têm dificuldades de descobrir exatamente quais espécies causam o mau cheiro, e em que áreas elas vivem.

Em uma incrível demonstração de falta de vaidade, o biólogo James Reynolds e seus colegas da Universidade de Loughborough, na Grã-Bretanha, mapearam as populações de bactérias em seus próprios pés.

Cinco grupos se destacaram: corinebactérias, micrococos, propionibactérias, betaproteobactérias e brevibactérias. Mas os principais vilões são os estafilococos, cuja presença parece sempre coincidir com uma substância química particularmente potente, o ácido isovalérico.

"Imagine um queijo azul bem envelhecido – este é o aroma que sai quando abrimos um frasco desse ácido", conta Reynolds. "Uma gota derramada é suficiente para deixar um mau cheiro na sala pelo dia inteiro. É horrível."

Os estafilococos são mais comuns na sola do pé, principalmente em torno da base dos dedos, o que pode explicar por que esta região é uma das mais fedorentas.

A comparação com um queijo, aliás, é bastante apropriada, já que muitos desses alimentos contêm uma mistura semelhante de substâncias químicas voláteis. O queijo Limburger, de origem belga, emite um cheiro que é o que mais se aproxima do chulé.

Parasita 'diabólico'

Com suas experiências um tanto inglórias, esses cientistas esperam ter um futuro mais arejado. "Se soubermos quais são esses componentes e as espécies que os produzem, podemos desenvolver tecidos que possam absorver ou neutralizar o mau cheiro, ou ainda criar desodorantes mais eficientes", explica Reynolds.

A tarefa, no entanto, não será fácil. Além de abrigar bactérias que produzem o fedor, nossos pés também possuem microrganismos que agem como soldados contra infecções. Mas a própria natureza parece ter as respostas. Um recente estudo realizado no Japão descobriu que três substâncias encontradas em frutas cítricas podem ajudar a neutralizar os estafilococos sem prejudicar seus vizinhos "do bem".

Em algumas situações, o chulé pode ser até mais sério do que um leve constrangimento.

O cientista holandês Bart Knols foi um dos primeiros a descobrir que certas espécies de mosquitos transmissores da malária são atraídos pelo cheiro emanado dos pés. Seguindo seus passos, Smallegange tem realizado suas experiências nada agradáveis na Universidade de Wageningen, na Holanda.

Ela já descobriu, por exemplo, que o parasita da malária parece alterar o olfato do mosquito para que ele se atraia mais pelos pés com mau cheiro. Trata-se de um mecanismo diabólico que leva o hospedeiro da malária a entrar em contato com suas vítimas, de maneira que o parasita possa continuar seu ciclo de vida dentro do corpo humano.

"É por isso que o mosquito é um vetor muito bom para a malária", explica a bióloga.

Armadilhas contra o mosquito

Há muitas maneiras de as informações recolhidas sobre o chulé ajudarem na luta contra a malária. Smallegange já analisou se uma combinação particular de bactérias nos pés pode alterar as chances de ser picado. Como se previa, aquelas pessoas que abrigam mais estafilococos tendem a atrair mais o mosquito.

Portanto, combater essas bactérias também ajudaria a combater a malária.

Outra alternativa seria montar armadilhas com meias usadas – os cientistas descobriram que o chulé pode permanecer ali por até oito dias. Ou o próprio queijo Limburger, que parece também desviar a atração dos mosquitos.

Smallegange tem a esperança de poder reproduzir o mau cheiro de maneira sintética e em frascos, usando ácido isovalérico e outras substâncias.

"A combinação é muito importante", justifica. "Em geral, uma mistura é mais atraente do que apenas uma substância sozinha."

No entanto, ainda não se sabe exatamente qual a eficiência dessas ideias na proteção contra a malária. Um pequeno teste está sendo realizado na ilha de Rusinga, no Quênia, para tentar investigar se as armadilhas podem matar ou distrair uma quantidade de mosquitos suficiente para reduzir o número de picadas e infecções.

Mas, no mínimo, as iniciativas podem ser usadas para detectar a presença do mosquito transmissor da malária e fazer um alerta.

Para a maioria de nós, o chulé não é nada mais do que um incômodo que pode ser temporariamente resolvido com um bom banho. Já para Smallegange trata-se de um mal necessário para tentar salvar vidas.



terça-feira, 4 de agosto de 2015

Os curdos pagam o pato na guerra da Turquia contra o Estado Islâmico

Militantes curdos aprendem a dura lição: nem sempre o inimigo do seu inimigo é seu  amigo!

E são todos muçulmanos... a informação é da BBC Brasil:

Por que a Turquia também bombardeia os inimigos do 'Estado Islâmico'?

A Turquia deixou de ser, na semana passada, uma observadora dos ataques contra o grupo autodenominado "Estado Islâmico" (EI) para se tornar um agente militar ativo no combate aos extremistas.

No entanto, os bombardeios turcos não têm como alvo apenas o EI: também caíram sobre bases do separatista Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) no Iraque.

E milicianos curdos das Unidades de Proteção Popular (YPG) na Síria - uma das forças que mais fizeram para conter os avanços do "Estado Islâmico" - também disseram ter sido alvejados pelos ataques turcos.

Mesmo derrotando o Estado Islâmico, a guerra não acabou para as bravas mulheres guerreiras curdas do YFG na Síria.

"Em vez de atacar os terroristas do EI, as tropas turcas atacaram posições dos nossos defensores. Essa não é uma atitude correta", disse um porta-voz do YPG, referindo-se ao bombardeio de seus postos perto de Zormikhar, na Província síria de Aleppo.

Muitos veem a ação turca como uma "traição" e como uma tentativa de usar a ofensiva contra o EI como uma desculpa para avançar contra quem considera seus principais inimigos, os separatistas curdos.

Muitos curdos acusam os Estados Unidos de fazer vista grossa a essa estratégia de Ancara, em troca do apoio logístico turco no combate aos extremistas islâmicos.

As autoridades em Ancara afirmam, em resposta, que os nacionalistas curdos na Síria "não estão contemplados dentro do atual esforço militar" e prometeram investigar os bombardeios. Mas também alegam que os ataques do PKK contra a Turquia impossibilitam negociações de paz.

Política local

30 milhões de curdos compõem a maior etnia
sem um Estado que os represente no mundo.
Os curdos formam a minoria étnica sem Estado próprio mais numerosa do Oriente Médio: são mais de 30 milhões de pessoas - segundo os cálculos mais conservadores - ocupando um território que engloba partes da Turquia, da Síria, do Iraque e do Irã.

E os bombardeios contra o PKK - que lidera a luta pela independência curda na Turquia - poderiam ser um elemento-chave para conquistar os votos nacionalistas que o atual governo de Ancara precisa para recuperar a maioria perdida nas recentes eleições de junho.

EUA e Turquia têm trabalhado para criar uma "zona segura", no norte da Síria, para libertar a região do EI. A área, de cerca de 90 km de extensão, seria usada para treinar forças moderadas de oposição, informa o correspondente da BBC na Turquia, Mark Lowen.

O objetivo de Ancara é também permitir que refugiados sírios na Turquia possam retornar ao seu país por essa "zona segura".

Mas o líder do partido pró-curdos Partido Democrático do Povo (HDP, um dos principais partidos vencedores da última eleição turca), Selahattin Demirtas, disse à BBC na quarta-feira que a operação de Ancara contra o EI além das fronteiras turcas é um "disfarce" para alvejar rebeldes curdos e impedi-los de avançar na luta por um Estado próprio.

Ele alega que a verdadeira intenção da "zona segura" é fazer uma incursão a áreas de predominância curda na Síria para impedir que os curdos sírios controlem um território contínuo.

Estratégia arriscada

Se for essa mesmo a estratégia turca, ela é arriscada, explica o correspondente Mark Lowen.

"Ao atacar as duas frentes, a Turquia pode se ver exposta a mais ataques por parte do EI e fomentar mais violência entre a minoria curda", diz.

Os bombardeios colocam em perigo o frágil processo de paz entre o governo turco e os separatistas curdos, iniciado em 2012.

Ao mesmo tempo, analistas explicam que dificilmente Ancara poderia ficar de braços cruzados ante o atentado suicida de Suruc, na semana passada - fato apontado como determinante para a entrada da Turquia na ofensiva militar atual.

O atentado, que a Turquia atribui ao "Estado Islâmico", deixou 32 mortos no vilarejo do sul turco, no dia 20 de julho. Em seguida, forças do EI atacaram guardas de fronteira turcos.

Mais tarde, o PKK reivindicou a morte de dois policiais turcos em represália pelo ocorrido em Suruc - os separatistas curdos sempre acusaram o governo em Ancara de colaborar com os fundamentalistas islâmicos.

E, oficialmente, foi por isso que a resposta das autoridades turcas não incluíram apenas ataques contra o EI, mas também a detenção de centenas de simpatizantes do PKK e o bombardeio de seus postos no Iraque.

Assim, o cessar-fogo determinado pelo PKK em 2013 está oficialmente terminado, trazendo à tona memórias de uma guerra civil que matou mais de 40 mil pessoas em três décadas.

A situação fica ainda mais complexa considerando-se que os curdos fazem parte da coalizão que combate o "Estado Islâmico".



segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Teria Gisele Bündchen usado uma burca na França?


Tantos problemas e tragédias acontecendo no mundo, mas nos últimos dias os americanos e franceses estão obcecados com uma dúvida cruel: seria Gisele Bündchen a mulher que está vestindo uma burca na foto acima?

Dois detalhes chamaram a atenção na foto: a sandália rasteirinha com unhas pintadas que uma mulher muçulmana não exibiria, pois não pode mostrar os pés em público, e a mochila que - mais tarde - foi carregada pela irmã da top model quando ambas já estavam no aeroporto de Paris prontas para voltar aos Estados Unidos.

Há um terceiro detalhe que La Bündchen não se informou bem antes de tentar despistar os fotógrafos: o fato de que as burcas e os véus são vestimentas oficialmente proibidas na França, por uma lei polêmica de 2010 (vigente a partir de 2011) que atropelou a resistência dos milhões de muçulmanos do país.

A irmã de Gisele com uma mochila muito parecida...

Isto fez com que os franceses se revoltassem com a modelo brasileira, pois a proibição da burca é, no fundo, um manifesto contra aquilo que eles chamam de "opressão" das mulheres islâmicas.

O fato é que dificilmente um paparazzi estaria de plantão em frente a uma clínica de cirurgia plástica em Paris esperando uma mulher muçulmana quando - surpresa! - se deparou com Gisele de burca.

Dizem as más línguas que Bündchen teria se submetido a entrar na faca francesa para dar uma turbinada nos seios e uma levantada nos olhos.

Como você percebe, é muito barulho por nada, mas fica o registro.

Falem bem ou falem mal, falem de Gisele. A já milionária conta bancária dela agradece.

A informação é do  jornal sensacionalista New York Post, que - maldosamente - diz que a top model teria feito uma plástica para reparar os "seios murchos" ("deflated boobs").

Trata-se, verdade, de uma piada interna dos americanos, já que Tom Brady, o marido de Gisele e quarterback (o lançador da bola oval) do New England Patriots, último campeão da NFL, a liga de futebol americano, foi envolvido e punido num escândalo pra lá de curioso.

A imprensa dos EUA chamou o escândalo de "Deflategate", pois nos jogos em casa, funcionários do New England Patriots teriam - propositalmente - "murchado" em ínfimas libras as bolas ovais, o que as teriam tornado mais fáceis de serem lançadas por Brady e agarradas pelos "wide receivers" do time, os jogadores de ponta que recebem seus passes e fazem o "touch down" (o "gol" do futebol americano, quando cruzam a última linha do campo).

O "Deflategate" fez a alegria da iimprensa sensacionalista dos EUA.

Embora nada tenha sido cabalmente provado contra ele, por conta do "Deflategate" Tom Brady foi suspenso por 4 jogos e sua equipe foi  multada em um milhão de dólares, além de perder alguns privilégios na próxima temporada da National Football League (a NFL).  Tudo em nome do "fair play" tão prezado pelos americanos.

Nada, entretanto, que vá minimamente incomodar os milhões de dólares de sua conta bancária.

Este é mesmo um casal que dá o que falar, né não?

E dos chargistas também...





domingo, 2 de agosto de 2015

Mórmons não querem líderes gays dos escoteiros nos EUA


Matéria publicada no IHU:

Igreja Mórmon dos EUA se opõe a decisão dos escoteiros de permitir líderes gays


A organização de escoteiros Boy Scouts of America suspendeu na segunda-feira (27/7) sua proibição nacional de líderes adultos abertamente homossexuais. 



A reportagem é de Erik Eckholm, publicada pelo jornal The New Yorl Times e reproduzida pelo portal Uol, 29-07-2015.

A nova política, entretanto, permite que as unidades patrocinadas por igrejas escolham os líderes das unidades locais que compartilham seus preceitos, mesmo que isso signifique a restrição desses cargos a homens heterossexuais.

Mesmo com esta exceção, a Igreja Mórmon disse que poderá deixar a organização. Sua postura surpreendeu a muitos e levantou dúvidas se outros patrocinadores conservadores, incluindo a Igreja Católica Romana, não seguirão o exemplo.

"A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias está profundamente preocupada com o resultado da votação de hoje pelo Conselho Executivo Nacional dos Boy Scouts of America", disse um comunicado emitido pela igreja momentos depois dos escoteiros anunciarem sua nova política. "Quando a liderança da Igreja retomar a sua programação regular de reuniões em agosto, a associação de um século com os escoteiros terá de ser reavaliada".

Há apenas duas semanas, a Igreja Mórmon deu a entender que poderia permanecer associada ao grupo, desde que suas unidades pudessem escolher seus próprios líderes.

Os principais líderes escoteiros, incluindo Robert M. Gates, atual presidente e ex-secretário de defesa que promoveu a nova política, não responderam imediatamente à declaração mórmon. Em declarações anteriores, Gates manifestou a esperança de que, com a aprovação da isenção para grupos religiosos, os escoteiros pudessem evitar uma fragmentação devastadora.

Muitos líderes dos Boy Scouts of America disseram que não esperavam a resposta dura da Igreja Mórmon e sua ameaça de deixar a parceria.

"Minha suposição era de que a decisão votada hoje tinha sido avaliada, de modo a evitar surpresas desnecessárias", disse Jay Lenrow, líder escoteiro e voluntário de longa data em Baltimore, que está no comitê executivo da região nordeste e atua no comitê nacional de relações religiosas da organização.

"Eu só posso dizer que eu estou esperançoso de que, quando a liderança da Igreja se reunir e discutir a questão, encontrará uma maneira de continuar a apoiar os escoteiros", acrescentou Lenrow.

Os mórmons usam os Boy Scouts of America como sua principal atividade não religiosa para meninos, e as unidades que patrocinam foram responsáveis por 17% de todos os jovens no escotismo em 2013, o último ano para o qual foram publicados dados.

Sob a política adotada na segunda-feira, a discriminação com base na orientação sexual também será banida em todos os escritórios dos Boy Scouts of America e todos os empregos remunerados –uma medida que visa evitar ações na justiça em Nova York, Colorado e outros Estados que proíbem a discriminação no emprego.

Uma ameaça jurídica foi imediatamente evitada. Em resposta à mudança, o procurador geral de Nova York, Eric T. Schneiderman, anunciou na segunda-feira que seu escritório estava arquivando sua investigação dos escoteiros por violação das leis estaduais de combate à discriminação.

O conselho executivo nacional dos escoteiros, composto de 71 líderes civis, empresariais e da igreja, aprovou as alterações com 79% dos votos daqueles que participaram da reunião por telefone, de acordo com um comunicado emitido pelos escoteiros. O anúncio não disse quantos conselheiros estavam ausentes.

A mudança de política, que já era esperada, foi amplamente vista como um divisor de águas para uma instituição que tem enfrentado crescente turbulência sobre a sua posição em relação a pessoas homossexuais, enquanto se esforça para deter um declínio de longo prazo. Ela foi elogiada por organizações de defesa dos direitos gays como um grande passo, apesar de incompleto, para acabar com a discriminação.

Em 2013, enfrentando crescente pressão pública e interna, os escoteiros decidiram que jovens abertamente gays poderiam participar das atividades, mas não adultos. Essa abordagem não satisfez a ninguém. Ela forcou a expulsão dos homossexuais Eagle Scouts quando completavam 18 anos, mas ainda não impediu a saída de alguns conservadores.

Gates fez uma advertência urgente em maio dizendo que, por causa da cascata de mudanças sociais e legais, a organização não tinha escolha senão acabar com a proibição de líderes gays.

Em uma declaração em 13 de julho, a Igreja Mórmon pareceu sugerir que aceitaria a solução adotada na segunda-feira. A declaração dizia que qualquer novo padrão de liderança deveria preservar "o direito de selecionar líderes escoteiros que adiram aos princípios morais e religiosos consistentes com nossas doutrinas e crenças".

Mas o tom da declaração dos mórmons de segunda-feira após o anúncio formal da nova política de Escoteiros foi marcadamente mais negativo.

"A Igreja sempre recebeu todos os meninos em suas unidades de escoteiros, independentemente da orientação sexual", disse a declaração da sede da Igreja Mórmon. "No entanto, a admissão de líderes abertamente homossexuais é incompatível com as doutrinas da igreja e os valores tradicionais dos Boy Scouts of America".

A declaração também sugeriu outra razão pela qual os mórmons estão pensando em deixar os Boy Scouts of America: a possível criação de uma organização similar própria para servir aos seus membros em todo o mundo.

"Como uma organização global com membros em 170 países, a Igreja há muito vem avaliando as limitações que metade de seus jovens enfrenta onde o escotismo não está disponível", disse o comunicado.

Algumas igrejas evangélicas conservadoras cortaram os laços com os escoteiros após a decisão de 2013 ao admitir jovens abertamente gays. O total de jovens matriculados, que tinha declinado em alguns pontos percentuais em muitos anos anteriores, caiu 6% em 2013 e 7% em 2014, para 2,4 milhões.

É provável que outros conservadores religiosos se afastem, disse Russell D. Moore, presidente da Comissão de Ética e Liberdade Religiosa da Convenção Batista do Sul. Moore expressou ceticismo sobre a promessa dos escoteiros em deixar que unidades patrocinadas pela igreja excluíssem líderes gays por motivos religiosos.

"Depois que os escoteiros mudaram a regra de adesão, eles disseram aos grupos religiosos que isso não afetaria as lideranças", disse ele. "Agora, estão dizendo que essas mudanças não afetarão os grupos de base religiosa. As igrejas sabem que esta é a palavra final somente até o próximo desdobramento".

Por outro lado, com a mudança de segunda-feira, os executivos dos escoteiros esperam renovar os laços com doadores corporativos, escolas e órgãos públicos e atrair pais que tinham afastado seus filhos do escotismo por causa de sua política.

"Vamos continuar a focar em alcançar e servir os jovens, ajudando-os a crescer para se tornarem cidadãos bons e fortes", disse o comunicado dos Boy Scouts of America na segunda-feira.

O desafio mais difícil, dizem os líderes escoteiros, talvez seja conquistar o tempo e o entusiasmo dos jovens cada vez mais urbanos, diversificados e atarefados de hoje. Para aumentar seu apelo, os escoteiros construíram novos campos de aventura com atividades como mountain bike e tirolesa, e criaram novas medalhas de mérito em áreas como robótica e animação.



sábado, 1 de agosto de 2015

Kaka e Carol Celico se separam (de novo)


A informação é da Veja SP:

Carol Celico anuncia fim de casamento com o jogador Kaká

A empresária publicou uma foto da família em seu perfil no Instagram para anunciar o fim do relacionamento

A empresária Carol Celico anunciou na noite desta sexta (31) o fim do casamento de dez anos com o jogador Kaká. Ela publicou em seu perfil no Instagram uma foto ao lado do ex-marido e dos dois filhos informando a decisão do casal e pedindo a compreensão de seguidores e fãs. Na postagem, ela diz que não foi uma decisão fácil e “vem com desdobramentos delicados e um processo de luto”.

Esta é a segunda vez que o casal se separa. A primeira ocorreu no final do ano passado. Entretanto, eles retomaram a relação um mês depois. Confira a integra da mensagem publicada por Carol Celico:
“Uma das decisões mais difíceis da nossa vida é escolher se queremos andar juntos, ou separados. Decisões que influenciam outros, que interferem em mais vidas, que impactam na nossa vida e na nossa memória para sempre.

Foram treze anos juntos, muitas emoções, muitas historias, muitos momentos bons e ruins que superamos sempre juntos. E o mais importante, as duas vidas únicas e tão especiais que ganhamos com esses dez anos de casados.

Dessa vez estamos há algum tempo superando o processo mais dolorido que é a separação. Não foi uma decisão fácil, e ela vem com desdobramentos delicados e um processo de luto.Peço a colaboração da imprensa nas notas que virão. Peço a compreensão dos seguidores, fãs, admiradores para que não julguem, não lancem comentários com a pequena percepção da minúscula parte das nossas vidas que se tornou publica.

Se nem mesmo a família ou amigos mais próximos conseguiriam decifrar, como os que observam de longe irão?Somente eu e o Kaká sabemos da verdade da nossa distancia e diferenças, talvez normais ou comuns, mas não possíveis de solucionar depois de inúmeras tentativas, durante um longo período de tempo.

A historia que formamos lado a lado foi única, bem sucedida, e ficará para sempre conosco. Sempre o respeitarei e admirarei em todas suas virtudes. Manteremos um bom relacionamento, de carinho e estima. Desejo felicidade para nós, como família que sempre seremos, e sabedoria para caminharmos sempre em frente.”

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails