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domingo, 8 de março de 2015

Tem gente que se infecta com HIV de propósito

Essa informação bizarra vem da Folha de S. Paulo:

'Virei um caçador do vírus HIV', diz praticante de roleta-russa do sexo

CAROLINA DANTAS

"Fui fazer o exame para detectar o HIV. Quando eu recebi o resultado, a psicóloga foi falar comigo de um jeito gentil e delicado. Eu disse: 'Tudo bem, moça, ainda bem, até que enfim, depois de tantos anos. Agora eu tenho a certeza. Agora eu estou livre'." É dessa maneira que o paulistano J.D., 35, explica à sãopaulo como recebeu a notícia de que tinha contraído o vírus HIV. Ele escolheu ter a doença.

O caixa de supermercado, que pede que seja identificado apenas pelo apelido SóBare, faz parte de um grupo que preocupa o Ministério da Saúde, o dos que contraem o vírus HIV por opção.

No final de 2014, o ministério criou uma comissão para discutir a vulnerabilidade dos homossexuais e, também, os casos de infectados por escolha. Os profissionais vão analisar as implicações dessa prática e o quanto ela está disseminada no Brasil. Em nota, o ministério afirma que "é contra a prática do 'barebacking' (...). Não cabe ao ministério punir ou julgar civilmente quem pratica ou coopta pessoas para a disseminação da prática".

O apelido SóBare vem da expressão em inglês "bareback", usada para a prática do sexo sem camisinha. Ele diz que desde que contraiu o vírus, há três anos, só mantém relações sem a "capa", como chama os preservativos.

A prática "bare" é antiga. É conhecida desde a década de 1980, com mais casos nos Estados Unidos. No Brasil, a maior parte dos participantes é do sexo masculino, homossexuais, que tem o interesse em fazer sexo grupal. Alguns deles estão em grupos apenas pelo risco: têm relações com várias pessoas e são informados que algum deles é portador do vírus, mas não sabem exatamente quem, por isso a prática também é conhecida como roleta-russa do sexo.

Em São Paulo, SóBare conta que já organizou duas festas para a disseminação do vírus em casa. "O largo do Arouche é o ponto de encontro para quem quer se infectar." Segundo ele, alguns dos participantes tatuam o símbolo de perigo biológico. Uma forma de serem reconhecidos entre os pares.

SóBare afirma que tomou a decisão de contrair o vírus para garantir liberdade sexual e é assim com todos os conhecidos que participam das festas do HIV. Antes das relações, SóBare avisa que é portador e diz que não faz sexo com proteção. "Se negocio com 20 pessoas, apenas cinco aceitam", conta.

"Quando tomei a decisão, me tornei um caçador do vírus. Tem pessoas que passam dez anos tentando [contrair o vírus]. Eu fiquei aproximadamente cinco anos. Era um desejo. Eu odeio ter qualquer tipo de dúvida, eu gosto de ter a certeza em tudo na minha vida. Queria chegar para o meu parceiro e poder dizer com certeza: eu tenho o vírus."

De acordo com SóBare, os "negativos" -jovens que ainda não contraíram o vírus- que decidem ser portadores podem entrar em contato com os "positivos" e se encontrar para sexo sem camisinha. Esses rituais são chamados de "batismo" ou "conversão", geralmente marcados por sites camuflados na internet. Ele já teve um perfil no Facebook para conseguir organizar as festas, mas foi bloqueado após uma denúncia feita para a rede social.

"Eu fiz a minha conversão em uma noite. Marquei em um motel e encontrei outros homens, convidei muita gente mesmo, umas cem pessoas portadoras, para conseguir finalmente contrair o vírus."

A cada seis meses, enquanto praticava o sexo sem camisinha com diferentes homens infectados, SóBare ia ao médico para checar se tinha conseguido ficar "positivo".

AS CONSEQUÊNCIAS

SóBare diz ter conversado com outros portadores do vírus e consultado infectologistas muito tempo antes de tomar a decisão. "Foi aí que descobri que essas pessoas têm uma vida normal". Ele explica que, depois que começou a se medicar com o coquetel distribuído pelo governo federal, não sentiu nenhum efeito colateral.

Artur Timerman, infectologista do Hospital Israelita Albert Einstein, afirma que tem percebido, em consultório, um aumento dos relatos da prática. Timerman estuda os vírus e os tratamentos contra o HIV desde 1981.

"Esses jovens que estão escolhendo ter HIV, com o perdão da palavra, são 'imbecis com iniciativa'. Esse mito de que não existe mais efeito colateral é uma falácia sem tamanho", diz Timerman. Segundo ele, nenhum medicamento que precisa ser utilizado por anos é livre de efeitos colaterais.

"O paciente com HIV vai precisar tomar remédios para o resto da vida. As consequências, geralmente, são alteração dos ossos e problemas renais", explica.

Outro mito que circula entre os jovens é de que, para contrair o vírus, é preciso estar com a imunidade baixa. De acordo com o médico, essa informação também é falsa.

"Esses argumentos falsos estão ajudando a aumentar o número de pessoas infectadas no Brasil. Mesmo que o remédio não tivesse efeito colateral, o governo brasileiro não vai ter força financeira para bancar coquetel para todo mundo", completa.

Menos de 20% dos infectados com o vírus sentem os efeitos da doença nos primeiros anos após a contração do vírus. A maior parte das pessoas sentirá os sintomas apenas seis ou sete anos depois. De 2006 a 2014, de acordo com dados do Ministério da Saúde, houve um aumento de casos de HIV em cerca de 50% para jovens entre 15 e 24 anos.

O médico Esper Kallas, professor da Universidade de São Paulo e estudioso de infecções por HIV, realiza cerca de dois ou três diagnósticos por semana em seu consultório. Ele avalia que há, realmente, mais facilidade para o tratamento da doença, mas que ainda existem riscos.

"É preciso ter disciplina com o medicamento. Caso haja um descuido, o vírus pode se tornar mais forte e será necessário buscar novos remédios. De qualquer maneira, acredito que este grupo de homens que escolhe contrair o vírus ainda seja isolado, não algo disseminado. A maior parte das pessoas que recebo no consultório contraíram o vírus por descuido no momento de fazer sexo", diz Kallas.



terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A dura realidade das crianças "inadotáveis"

A matéria é do G1 Paraná:

'Queria pai e mãe todos os dias', diz menina apontada como 'inadotável'


Aos dez anos e com HIV, menina está fora da fila de adoção.

Especialistas dizem que país tem 32 mil que não podem ser adotadas.


Adriana Justi e Vinícius Sgarbe

Ela tem dez anos, não conhece os pais, é portadora do HIV e mora em um abrigo no Paraná. Mesmo contra todas as adversidades, a menina V. sonha com um presente ao qual tem direito. “Queria uma mãe e um pai de verdade (...) todos os dias”, conta. A garota é uma das cerca de 32 mil crianças consideradas “inadotáveis” no país. A lei assegura a todas a possibilidade de serem adotadas até os 18 anos desde que tenham sido juridicamente desligadas dos pais biológicos, mas a burocracia impede o exercício desse direito, segundo análise de especialistas.

“Como a destituição [processo que desliga legalmente a criança da família biológica] demora, apenas 5 mil das 37 mil crianças que estão em abrigos do país podem ser adotadas. Hoje, existem 26 mil famílias interessadas em adotar“, afirma Ariel de Castro Alves, presidente da Fundação Criança e vice-presidente da Comissão Nacional da Criança e do Adolescente da OAB.

Contra o sonho de uma nova família, pesa ainda a expectativa dos futuros pais. Condições impostas por eles eliminam grande parte das cinco mil crianças listadas no Cadastro Nacional de Adoção (CNA). A lista do CNA inclui as crianças que venceram a burocracia e as exigências legais e precisarão de sorte para se encaixar na projeção dos casais candidatos: meninas brancas, com menos de três anos, sem irmãos, deficiências ou HIV.

“As crianças [sob custódia do Estado] são mais meninos, negros e pardos”, explica Alves. Em Curitiba, até 10 de outubro 41 das 73 crianças no CNA eram brancas. Mas, do total, 38 eram meninos e só três tinham menos de cinco anos.

Na Associação Paranaense Alegria de Viver (Apav), em Curitiba, 18 crianças portadoras do vírus HIV estão fora da fila de adoção, segundo o fundador Newton Nascimento Teixeira. A menina V. é soropositivo e mora na Apav desde bebê e nunca teve o nome no CNA por não ter obtido a destituição do poder familiar concluída. A menina conta que o presente que sempre quis ganhar no Dia das Crianças é uma casa e uma família. “Eu vou sentir saudades dos meus amigos daqui, mas queria que alguém me adotasse. Eu tenho uma madrinha que passa aqui de vez em quando e me leva para a casa dela para dormir. Eu gosto, mas queria uma mãe e um pai de verdade”, conta a menina.

A fundadora do Movimento Nacional das Crianças Inadotáveis (Monaci), Aristeia Moraes Rau, lembra que, entre os "inadotáveis", há ainda o dilema dos que atingem a maioridade nos abrigos e ficam de fora do processo.

Já na Apav, “além das crianças, nós temos jovens entre 18 e 20 anos que viveram toda a infância na instituição e não tiveram a chance de encontrar novas famílias. O problema desse isolamento não é nem a falta de famílias interessadas e o preconceito. A grande barreira é a demora e a burocracia apresentadas pelo Estado e pela Justiça. Tanto que alguns já completaram a maioridade e já perderam até a esperança de encontrar um novo lar. Mesmo assim, nosso objetivo é inseri-los na fila de adoção e conseguir uma família para cada um”, disse Teixeira.

O jovem Marcos tem 18 anos, vive no abrigo desde os oito e também é soropositivo. “Antes de chegar aqui eu era maltratado em casa e, quando meus pais morreram, a família me trouxe pra cá. Quando eu era mais novo, tinha o sonho de conseguir ser adotado. Hoje não tenho mais esperanças de encontrar uma família, porque acho que será difícil me adaptar, a não ser que seja com uma família que eu já conheça. Meu objetivo agora é continuar meus estudos, fazer medicina e constituir minha família junto com meu irmão, que também mora aqui”, explica o jovem.

“Não entendo por que a burocracia para conseguir a liberação de uma adoção pra uma criança com HIV é tão difícil. Acho que, nesse caso, como as crianças precisam de tratamento, deveriam ter prioridade na fila de adoção. Afinal, além dos medicamentos, elas precisam do apoio e carinho de uma família”, finaliza Teixeira, fundador da Apav.

Segurança

A advogada Izabela Rucker Curi, especialista na área, faz críticas aos excessos da burocracia, mas defende que não se abra mão da segurança jurídica em troca da agilidade na adoção. Segundo ela, a quebra do poder de família (quando já se esgotaram as possiblidades de a criança voltar para a família original) é mesmo uma das partes mais complicadas do processo.

"Para que essa criança vá para uma nova, os vínculos legais com a família antiga têm de ser rompidos. Isso exige muita gente, muita observação, muito estudo jurídico e muitos papéis para documentação. Quando essa etapa fica pronta, quase não há mais tempo, dentro do prazo de dois anos, para que a criança possa conhecer uma nova família", afirma.

“Nossa legislação acerta quando dá valor à prevenção ao rompimento de laços familiares. Importante lembrar que ainda existem no Brasil casos de adoção de menores com a exclusiva intenção de alimentar o tráfico de órgãos, por falta de controle rígido e efetivo nos procedimentos de adoção”, afirma a advogada Izabela Rucker Curi.



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Secretário-geral da ONU quer acabar com a Aids até 2030


A matéria é da Agência Brasil:

Secretário-geral da ONU pede compromisso na luta para acabar com a aids até 2030

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu aos líderes mundiais que se comprometam a acabar com a aids até 2030 por meio da iniciativa Abordagem Rápida, lançada na última semana.

“Apelo aos líderes mundiais para se unirem nessa causa comum. Há uma luz no fim do túnel. Estabelecemos uma meta concreta. Vamos todos acabar com a aids até 2030”, disse Ban Ki-moon em mensagem divulgada no Dia Mundial de Luta contra a Aids, comemorado hoje (1º).

Ele disse estar "satisfeito e orgulhoso" pelo que considerou ser o "caminho certo” na luta contra a doença, cujo legado já é vísivel, comparado ao do vírus ebola na África Ocidental.

"Quase 14 milhões de pessoas em todo o mundo estão recebendo tratamentos contra a aids. Conseguimos reduzir novas infeções em 38%, desde 2001”, acrescentou o secretário na mensagem, em que agradece a dedicação dos parceiros que ajudam a combater a doença.

Depois de destacar que os sistemas médicos por si só não são suficientes para garantir "cuidados de saúde robustos”, Ban Ki-Moon pediu mais apoio para combater a doença porque, destacou, "existem 35 milhões de pessoas vivendo com o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV, na sigla em inglês) hoje em dia e cerca de 19 milhões delas não têm conhecimento de que contraíram o vírus".

"Existem lacunas importantes na nossa resposta a grupos-chave. Duas em cada três crianças necessitam de tratamento e não dispõem dele. As mulheres jovens são particularmente vulneráveis em muitos países com prevalência alta de HIV. A epidemia da aids está aumentando no Leste da Europa, na Ásia Central e no Oriente Médio, alimentada pelo estigma, a discriminação e as leis punitivas. Ainda assim, o trabalho essencial dos sistemas de comunidade e organizações de apoio muitas vezes não dispõe de apoio. Não podemos deixar ninguém para trás", frisou.

O Dia Mundial de Luta contra a Aids é comemorado em 1º de dezembro para alertar as populações quanto à necessidade de prevenção e de precaução contra o vírus, que ataca o sistema imunológico. A aids é a primeira causa de mortalidade na África e a quarta no mundo.



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