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sábado, 7 de novembro de 2015

O macabro "código penal" dos presídios brasileiros


Os superlotados presídios brasileiros têm "códigos penais" próprios que potencializam a maldade e a depravação humana, as quais não conhecem limites.

ALERTA: pessoas com estômago sensível não devem ler a matéria abaixo, d'O Globo:


Presídios brasileiros têm 'códigos penais' criados pelos próprios presos

Punições entre os detentos incluem canibalismo, ataque com cães e estupro coletivo

ALESSANDRA DUARTE

RIO — Canibalismo, esquartejamento, estupro coletivo, decapitação, “jogo de bola” com cabeças, sevícia com cabo de vassoura, olhos vazados, ida para cela sem luz e com escorpião. São exemplos de punições — talvez as piores — da espécie de “código penal” que se criou entre presos do sistema penitenciário brasileiro, segundo levantamento do GLOBO em denúncias da Justiça Global, do Ministério Público e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Mais do que regras de organização entre presos em cadeias superlotadas e insalubres, as “penas” aplicadas por detentos a outros também são, principalmente nos casos mais violentos, forma de demonstrar poder. À semelhança dos tribunais do crime em áreas dominadas por facções fora das cadeias, também dentro delas grupos de presos fazem seus julgamentos e dão seus vereditos.

— Há grupos com poderio nos presídios, e não só por serem de alguma facção. Em Recife, no Complexo do Curado são os “chaveiros”, presos que ficam com as chaves das celas. Em outros locais há os “celas livres”, como em Rondônia; ou os “faxinas”, os detentos que, em tese, cuidam da limpeza e têm circulação mais livre — conta Sandra Carvalho, coordenadora-geral da Justiça Global, ONG de direitos humanos. — As rixas entre presos são exponencializadas pelas condições em que o Estado os mantém: superlotação, má alimentação, insalubridade, assistência médica precária. São condições nas quais o preso com mais acesso a um ou outro serviço pode se impor. Fica evidente a incapacidade do Estado em relação ao sistema prisional.

APÓS ESQUARTEJAMENTO, FÍGADO ASSADO E COMIDO

No último dia 13, o MP do Maranhão denunciou à Justiça o caso de um detento do Complexo de Pedrinhas que no fim de 2013 foi torturado por horas por outros presos; morto a facadas; esquartejado em 59 partes; e teve pedaços de seu fígado assados e comidos.

“Tudo se iniciou a partir de desentendimento com um detento” de uma facção, relata o promotor Gilberto Câmara França Júnior na denúncia. A vítima também teria “ofendido” outro detento, que seria “torre” desse grupo, “última instância antes da liderança geral”. Após a tortura, ligaram para o “comandante” do grupo — “preso em estabelecimento prisional federal” —, e o veredito foi a morte.

Após execução e esquartejamento, “chegaram a pôr sal nos pedaços do corpo (...), para que não exalasse odor desagradável”. Então, os denunciados “fizeram um fogo e assaram o fígado (...), repartindo esse órgão em pedaços, que foram ingeridos por esses indivíduos, os quais mandaram pedaços para outros detentos também comer”. O corpo só pôde ser reconhecido por um familiar porque um dos pedaços trazia uma tatuagem: “Vitória razão do meu viver”, dizia a homenagem da vítima à filha.

GAY E COM DÍVIDA DE R$ 15. PENA: ESTUPRO COLETIVO

A Corte Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), enviou, no último dia 14, resolução ao Brasil determinando que o país tome medidas para garantir a integridade física dos presos do Complexo do Curado. Segundo uma das denúncias, um detento homossexual, este ano, recebeu como “sanção” de outros presos passar por estupro coletivo numa cela de isolamento com mais de 30 detentos. A “acusação”, segundo os presos, era o fato de que a vítima devia R$ 15 a um preso “chaveiro”. Depoimento da mãe da vítima indica que a homossexualidade do detento (que é transgênero, com corpo com traços femininos devido a hormônios) também teria sido levada em conta para a pena. Por causa do estupro, a vítima contraiu Aids.

— No Curado, nos últimos dois anos, já temos conhecimento de pelo menos cinco sanções de estupro. Parece-nos que tem se tornado uma prática — diz a advogada Natália Damazio, da Justiça Global, contando que a entidade não tem conhecimento de que o detento estaria recebendo coquetel anti-Aids. — Um preso heterossexual foi submetido a tortura por outros, sendo que parte da tortura foi ser estuprado com um cabo de vassoura.

Outro tipo de punição é enviar o detento “condenado” por seus pares a celas de isolamento ou castigo — que no Curado, são locais sem iluminação e com presença de escorpião. Houve relato de castigo que consistiu em ataque a detentos por cães rottweiler, sob a vista de “chaveiros”.

‘JOGO DE BOLA’ COM CABEÇAS

Este ano, na Paraíba e na Bahia, presos foram decapitados por outros, que, depois, chegaram a “jogar bola” com a cabeça do corpo degolado, diz Sandra Carvalho. Essa situação já foi vista em presídios de São Paulo e do Espírito Santo.

— Em São Paulo, os atos de violência entre presos ocorreram principalmente entre o fim dos anos 90 e a primeira década dos anos 2000, no processo de dominação dos presídios do estado por uma facção criminosa — conta ela.

Fauzi Hassan Choukr, coordenador das Promotorias de Execuções Criminais da cidade de São Paulo, ressalta:

— Essas anomalias são evidências de que temos um simulacro de sistema penitenciário. Estamos devendo isso à sociedade.

PAÍS NUNCA FOI CONDENADO NA OEA PELO SISTEMA PRISIONAL

Em Rondônia, no presídio Urso Branco, houve presos esquartejados; que tiveram os olhos vazados e golpeados com “chuços”, armas brancas improvisadas (pedaço de ferro preso num pedaço de madeira). Soube-se de corpos de presos encontrados dentro de paredes de celas.

Urso Branco pode fazer com que o Brasil receba sua primeira condenação pela Corte Interamericana de Direitos Humanos devido à situação do sistema prisional do país, avalia a coordenadora da Justiça Global. Uma condenação pela OEA pode gerar, por exemplo, obrigação de o Estado pagar reparações a vítimas e seus familiares; ou seguir determinadas diretrizes em políticas públicas.

— Nas instâncias de direitos humanos da OEA (a Corte e a Comissão Interamericanas), o Brasil tem, em relação ao seu sistema penitenciário, processos sobre os complexos de Pedrinhas e do Curado, e sobre o presídio Urso Branco. Mas nunca foi condenado com relação a isso (o sistema prisional). Urso Branco pode ser a primeira condenação — diz Sandra.

O presídio teve duas grandes chacinas entre presos: em 2004 e no Réveillon de 2001 para 2002, quando mais de 20 detentos foram executados por outros, diz Sandra, porque decisão judicial determinando que não houvesse mais presos “celas livres” foi erroneamente interpretada.

— Em vez de coibir a circulação dos “celas livres”, misturaram esses presos com os do “seguro”, fecharam a porta e foram para o Ano Novo. Os presos mais vulneráveis a receberem castigos são os do “seguro”, os que cometeram, por exemplo, estupro; além de gays, idosos e presos que não recebem visita, porque não têm dinheiro para pagar as cobranças que muitos grupos fazem em várias prisões — diz Sandra. — Há quase dez anos a OEA faz determinações ao Estado brasileiro sobre Urso Branco e as renova, porque não são integralmente cumpridas. Há cerca de dois meses enviamos novo documento sobre Urso Branco à OEA. Houve melhorias, mas ainda há violações graves, superlotação, péssimo atendimento de saúde.

COM AUDIÊNCIA DE CUSTÓDIA, COMBATE À SUPERLOTAÇÃO

Para tentar mudar o quadro do sistema prisional brasileiro, um dos caminhos que o Judiciário tem tomado é a realização de audiências de custódia, em que a pessoa precisa ser levada à presença de um juiz em até 24 horas após ser presa. Segundo o CNJ, em oito meses, desde que as audiências de custódia começaram a ser implantadas, 21.273 presos foram atendidos — cerca de 3% dos presos no país (711,4 mil), segundo relatório do CNJ de 2014. Dos 21,1 mil que passaram por essas audiências, “46,4% tiveram a concessão de liberdade provisória”, diz o Conselho.

— Antes de 2008, quando começaram os mutirões carcerários do CNJ, nem os juízes iam aos presídios. Nos últimos anos, começou uma cultura no Judiciário de entender as prisões. Um dos instrumentos tem sido a audiência de custódia — diz Fernando Mendonça, juiz de Execuções Penais de São Luís e presidente do Fórum Nacional de Alternativas Penais do CNJ.

— Também são necessários mais presídios, mas muitos poderiam receber penas alternativas. Só no estado de São Paulo, são presas, em média, 300 pessoas por dia. Precisaríamos construir prisões em velocidade inexequível para atender a isso — afirma Fauzi Hassan, do MP de São Paulo.

Procurado pelo GLOBO, o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), do Ministério da Justiça, disse que, sobre a resolução da OEA quanto ao Curado, a União está prestando “apoio financeiro e assistência técnica” ao governo de Pernambuco, que inclui “R$ 82,6 milhões para abertura de 2.754 vagas”. “O Depen reafirma compromisso com o apoio aos estados na gestão do sistema”, diz, destacando que “disponibiliza sua Ouvidoria como defesa dos direitos da população carcerária”.



domingo, 28 de junho de 2015

Adolf Eichmann, Hannah Arendt e a banalidade do mal


Quem nos acompanha há bastante tempo já sabe que a filósofa preferida do blog é Hannah Arendt, sobre quem já publicamos vários artigos (clique aqui para lê-los).

Também já tivemos a oportunidade de resenhar seu livro "Eichmann em Jerusalém", um dos textos mais acessados por aqui.

Por isso, recomendamos para sua leitura de domingo mais uma resenha sobre este mesmo livro, que - em essência - não difere muito da que fizemos, mas ambas se complementam nos detalhes. Quem a publicou desta vez foi o IHU:

A problematização do mal no julgamento de Eichmann, segundo Hannah Arendt


“A principal característica do totalitarismo é a de desumanizar, transformar homens em números, em meras engrenagens substituíveis se não renderem o que se espera deles, sejam vítimas ou algozes”, escreve Cristiane Arendt Santos Alves, da equipe do CJCIAS/CEPAT, em síntese elaborada sobre a obra Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, de Hannah Arendt, apresentada na noite do dia 17 de junho, pelo Projeto Abrindo o Livro, nas dependências do Sindicato dos Engenheiros do Paraná, na cidade de Curitiba. 


Eis a síntese.


“Moralmente falando, não é menos errado sentir culpa sem ter feito alguma coisa específica do que sentir-se livre de culpa tendo feito efetivamente alguma coisa”. (Hannah Arendt)

No contexto da Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), que envolveu setenta e duas nações divididas entre os Aliados e o Eixo, muitos fatos relevantes transformaram a história da humanidade. Tratou-se de uma guerra marcada por fortes ataques aos civis como forma de demonstração de poder, como os ataques com bombas de fósforo, napalm, a bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki, e o holocausto que atingiu o povo judeu. Muitos destes ataques aos civis tinham o objetivo de destruir as forças dos países inimigos. Porém, o genocídio que acometeu o povo judeu não tinha nenhuma destas intenções. Ele não anexaria novas terras a nenhum país, não neutralizaria o poderio de fogo de nenhum dos inimigos e mesmo assim foi executado pelos países ligados ao Eixo, coordenados pelo governo alemão com extrema dedicação.

O livro Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, de Hannah Arendt, oferece um relato sobre as condições em que se deu a prisão e os julgamentos de Adolf Eichmann, tenente-coronel da SS (organização paramilitar ligada ao Partido Nazista), que foi responsável pela logística de transportes para a implementação da Solução Final, e as possíveis análises dos resultados deste julgamento.

O livro é uma edição revisada e ampliada a partir da cobertura do processo de Eichmann em Jerusalém, para a revista New Yorker, na qual o relato foi publicado nos meses de fevereiro e março de 1963. Nele Arendt inicia seus relatos a partir do cenário montado em Israel para a realização do julgamento de Adolf Otto Eichmann, desde sua captura em um subúrbio de Buenos Aires, na Argentina, e os métodos nada convencionais utilizados pelo Mossad, o serviço secreto do governo de Israel, que o raptou em 11 de maio de 1960. O julgamento teve início em 11 de abril de 1961, na Corte Distrital, e foi encerrado no dia 29 de maio de 1962, com a leitura da sentença da Corte de Apelação.

A obra é um extenso relato, que descreve o tribunal, com Eichmann em uma cela de vidro, gripado, e os atores envolvidos (juízes, promotores, o advogado de defesa, etc.). Sobre o acusado, faz um denso relato de suas características pessoais, seu comportamento, suas tentativas de ascensão profissional dentro e fora do Partido Nacional Socialista e da SS, demonstrando a forma como ele chegou ao seu cargo no departamento de emigração e transportes, suas tentativas de resolver a questão judaica, através da expulsão deles da Alemanha, e a busca de terras para fundação de um país judeu, onde sonhava em ter um bom cargo.

Em setembro de 1939, com a eclosão da guerra, o governo nazista revela suas reais intenções em relação ao povo judeu. Assim, inicia-se a descrição do envolvimento de Eichmann em cada etapa deste processo.

Fato sobressaliente ocorre em janeiro de 1942, quando a cúpula do partido e os mais altos funcionários públicos alemães se reúnem na Conferência de Wannsee e são acertados os detalhes para viabilizar a Solução Final, que buscava tornar a Europa livre de judeus – judenrein – através dos assassinatos em massa. Os líderes nazistas esperavam receber muitas críticas e acreditavam que precisariam convencer os ministros e funcionários públicos de alto escalão para contribuírem com o plano, mas ocorreu o contrário. Eles aceitaram com muito entusiasmo a ideia, chegando inclusive a disputar entre si as responsabilidades para a execução da Solução Final.

Outro ponto destacado pela autora foi o envolvimento dos Conselhos Judaicos na execução da Solução Final, o capítulo mais sombrio de toda a história. Como os líderes judeus participaram ativamente da destruição de seu povo? Como eles foram levados a tomar atitudes que levaram ao assassinato de 1,1 milhão de judeus? Segundo R. Pendorf (professor da Universidade de Al-Aqsa), citado no livro, “sem a cooperação das vítimas dificilmente uns poucos milhares de burocratas teriam conseguido liquidar centenas de milhares de pessoas”.

Durante o interrogatório da polícia, apresentado no tribunal, Eichamnn declarou que tinha vivido toda a sua vida segundo os princípios morais de Kant, o princípio de que minha vontade deve ser sempre tal que possa se transformar no princípio de leis gerais. Sua defesa alegou que ele simplesmente seguiu ordens de seus superiores, que advinham de Atos de Estado, pelos quais Eichmann não poderia ser responsabilizado. Mas a sequência do julgamento buscou provar o seu envolvimento em cada um dos passos dados para a execução da Solução Final, em cada um dos países envolvidos, com provas documentais e testemunhais. Apontou para o seu conhecimento a respeito da logística de funcionamento dos Centros de Extermínio no Leste, as visitas que realizou a estes locais e suas reações.

Certamente, houve muitos exageros por parte da acusação, ao ponto de colocar Eichmann acima de Heinrich Himmler (comandante militar da SS) e como inspirador de Adolf Hitler, sendo que os documentos mostravam que ele não tinha quase nada a ver com o que acontecia no leste. Sua responsabilidade era providenciar o transporte dos judeus para os campos de trabalhos forçados ou extermínio. Mesmo assim ele não escapou da pena capital.

A defesa de Eichmann teve muitas dificuldades. As provas documentais eram escassas e as testemunhas de defesa não podiam vir a Israel, uma vez que seriam presas, não contavam com auxiliares de defesa como os de acusação. Eichmann foi o auxiliar de seu advogado. Foi acusado de 12 crimes, que demonstravam claramente que sua maior culpa era a de ter sido obediente aos seus superiores, obediência esta louvada como virtude. Segundo a defesa, só os verdadeiros líderes mereciam punição, coisa que Eichmann não era com sua “obediência cadavérica”. Apesar disso, em 15 de dezembro de 1961, a Corte Distrital pronunciou sua sentença de morte. Em março de 1962, iniciam-se os trabalhos na Corte de Apelação, ainda mais visceral que a Corte Distrital, aceitando todas as alegações de que Eichmann nunca recebera ordens superiores. Todas as ordens tomadas provinham de seu julgamento pessoal quanto às questões judaicas. E, em 29 de maio, a Corte de Apelação também pronuncia sua sentença: a pena capital. No mesmo dia o presidente de Israel, Itzak Ben-Zvi, recebe seu pedido de clemência, que é negado. Então, pouco antes da meia-noite, do dia 31 de maio, foi enforcado, cremado e suas cinzas jogadas no Mediterrâneo, fora das águas israelenses.

O livro nos traz uma série de questionamentos em relação à legalidade do julgamento de Jerusalém, as irregularidades e anormalidades que nele ocorreram e acabaram por tornar pequenos os problemas morais, políticos e legais que o julgamento tinha como meta inicial, apresentando o questionamento fundamental: será que o julgamento atingiu o objetivo de fazer justiça? Será que podemos julgar um indivíduo com base em leis retroativas no tribunal dos vitoriosos? Será que o resultado seria diferente se os países do Eixo tivessem vencido a guerra? O rapto foi justificado? Será que uma lei que versa exclusivamente sobre crimes de guerra seria adequada para este caso? As perguntas ainda hoje não foram todas respondidas, ou ainda, as respostas não estão todas certas e nem erradas. Porém, o que diferenciou o julgamento de Jerusalém foi a oportunidade do povo judeu em se defender. Sob certo ponto de vista a justiça foi feita, Eichmann foi acusado, defendido, julgado e punido. Mesmo assim, a humanidade se viu diante de vários novos problemas: o julgamento de Eichmann foi legal? Que castigo seria suficiente para impedir a perpetração de crimes como o genocídio?

A definição de crimes contra a humanidade elaborada em Nuremberg, como atos desprovidos de humanidade, revelou a realidade de que a Solução Final foi um crime sem precedentes, realizada sem nenhum propósito de ganhos de qualquer espécie. Foi uma tentativa de dizimar uma população inteira, realizada por pessoas assustadoramente normais, com uma intenção absolutamente indefinida, em uma conjuntura em que era praticamente impossível distinguir entre o certo e o errado. Nesse contexto, qualquer um poderia estar no lugar de Eichmann, um aluno mediano, em um cargo mediano, querendo se destacar e ser promovido, desempenhando muito bem o seu papel segundo o que era esperado dele e de acordo com a lei vigente, o que de forma alguma o isentaria da sua parcela de culpa. Muito pelo contrário, em se tratando de assuntos políticos, o apoio e a obediência se equivalem.

Mas em todo o caso, o mais inesperado desfecho foi a reação à questão levantada pelo promotor israelense – se o povo judeu podia ou deveria ter se defendido –, uma questão tola e cruel, que acarretou as mais diversas e incríveis reações. Uma delas foram as teorias de “desejo de morte”, das quais a autora foi acusada de deduzir com a elaboração desta obra, na qual, segundo críticos, Arendt conclui que os judeus mataram a si mesmos. Tal interpretação distorce e deturpa a real intenção da obra, que era a de ser um tratado teórico sobre a natureza do mal, de como um homem que não era nenhum gênio, mas um homem comum, focado em obter progressos pessoais, nunca percebeu o que estava fazendo. “Ele não era burro”, simplesmente não refletiu sobre seus atos, e isto é banal, esse distanciamento da realidade, esse desapego moral, isso foi o que se aprendeu em Jerusalém, e isto foi uma lição, não uma explicação, nem uma teoria. A principal característica do totalitarismo é a de desumanizar, transformar homens em números, em meras engrenagens substituíveis se não renderem o que se espera deles, sejam vítimas ou algozes.

O genocídio não era sem precedentes. A história está cheia de exemplos, mas aceitá-lo como algo banal, que simplesmente acontece, abriria precedentes para outros tipos de “limpezas étnico-raciais”. Pois, se na Alemanha da Segunda Guerra se escolheu dizimar uma população por se se tratar de doentes mentais, inválidos, deficientes, homossexuais, ciganos ou judeus, qual seria a próxima motivação? E com relação à desculpa do acusado ter agido como um simples funcionário, isto também não se aplica, pois equivaleria ao criminoso que justifica seus atos nas estatísticas sobre crimes – se eu não o fizesse outro o faria. A justificativa de Ato de Estado também não se aplica, pois um Estado soberano não pode julgar atos de outro Estado soberano, e segundo esta alegação nem mesmo Hitler poderia ter sido acusado, pois esta soberania pressupõe que o Estado está acima das regras às quais os cidadãos estão sujeitos, uma vez que para manter a ordem e o poder, o Estado pode tomar medidas de emergência.

Eichmann agiu dentro dos limites do discernimento dele, sempre guiado por ordens superiores e incapaz de diferenciar o certo do errado, no contexto em que estava inserido. Porém, o que se espera em termos de humanidade é justamente esta característica, de conseguir diferenciar o certo do errado mesmo quando tudo à sua volta lhe diz o contrário.

Com base em tudo o que o livro apresenta, o que fica mais evidente foi a questão levantada pelo promotor Gideon Hausner no questionamento realizado por ele durante o interrogatório das testemunhas: o povo judeu pôde se defender? Por que não se defendeu? E o mesmo aconteceu no julgamento de Eichmann: ele pôde se defender? O povo judeu pela primeira vez pôde levar a julgamento o seu algoz, mas de que forma? As críticas ao governo israelense em relação ao andamento e à conclusão do julgamento foram muitas, assim como as críticas à obra de Arendt. O julgamento estava sendo usado pelas autoridades israelenses para unir a população judia do mundo e consolidar a criação de Israel. Muitas testemunhas puderam, finalmente, falar abertamente dos horrores sofridos nos campos de concentração.

Mas o mal que se esperava encontrar em Eichmann, um mal absoluto, de um conspirador da destruição de um povo, de um facínora nazista, esse mal não foi encontrado. Ele era um burocrata por excelência, preso às suas pequenas atividades, que não refletiu sobre os seus atos, que não teve a capacidade de avaliar as leis e ordens que lhe eram dadas dentro de um contexto humanitário. Aí está a banalidade do mal, na realização de ordens sem se pesar as conseqüências de seus atos, em se tornar mera engrenagem, só mais um, seguindo um curso que nos distancia da nossa humanidade, da nossa capacidade de pensar, valorizando apenas a nossa obediência cega. E quantas vezes essa obediência é tão valorizada como virtude? Para Eichmann, ela foi a razão da pena capital.



sábado, 7 de março de 2015

A maldade é contagiosa

Primo Levi, 1919-1987
escritor judeu italiano
que testemunhou os horrores
do holocausto
Artigo publicado no IHU:

O contágio do mal.
Artigo de Primo Levi

Nunca a consciência humana foi violentada, ofendida, distorcida como nos campos de concentração: em nenhum lugar, foi mais clamorosa a demonstração de quão tênue é cada consciência, de quão fácil é subvertê-la e submergi-la.

A opinião é do químico e escritor italiano Primo Levi (1919-1987), sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. É autor do livro É isto um homem? (1947), memória dos seus sofrimentos no campo de concentração.

O artigo foi publicado no jornal La Stampa, 21-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Pensem: há não mais do que 20 anos, e no coração desta civilizada Europa, foi sonhado um sonho demente, o de edificar um império milenar sobre milhões de cadáveres e de escravos. O verbo foi banido para as praças: pouquíssimos se recusaram e foram decepados; todos os outros consentiram, parte deles com desgosto, parte com indiferença, parte com entusiasmo. Não foi somente um sonho: o império, um efêmero império, foi edificado: os cadáveres e os escravos existiram. […]

Mas também houve mais, e pior: houve a demonstração despudorada de como o mal prevalece facilmente. Isso, notem bem, não só na Alemanha, mas onde quer que os alemães tenham posto os pés; em toda a parte, eles o demonstrado, é uma brincadeira de criança encontrar traidores e fazer deles sátrapas, corromper as consciências, criar ou restaurar aquela atmosfera de consenso ambíguo, ou de terror aberto, que era necessária para traduzir em ato os seus desígnios.

Tal foi a dominação alemã na França, na França inimiga de sempre; tal foi na livre e forte Noruega; tal foi na Ucrânia, apesar dos 20 anos de disciplina soviética; e as mesmas coisas aconteceram, conta-se com horror, dentro dos próprios guetos poloneses: até mesmo dentro dos campos de concentração. Foi uma irrupção, uma enxurrada de violência, de fraude e de servidão: nenhuma represa resistiu, salvo as ilhas esporádicas das Resistências europeias.

Nos próprios campos de concentração, eu disse. Não devemos recuar diante da verdade, não devemos indultar à retórica, se realmente queremos nos imunizar. Os campos de concentração foram, além de lugares de tormento e de morte, lugares de perdição.

Nunca a consciência humana foi violentada, ofendida, distorcida como nos campos de concentração: em nenhum lugar, foi mais clamorosa a demonstração a que nos referíamos antes, a prova de quão tênue é cada consciência, de quão fácil é subvertê-la e submergi-la.

Não admira que um filósofo, Jaspers, e um poeta, Thomas Mann, tenham renunciado a explicar o hitlerismo em chave racional e tenha falado dele, literalmente, como "dämonische Mächte", como potências demoníacas.

Nesse plano, adquirem sentido muitos detalhes, desconcertantes, da técnica concentracionária. Humilhar, degradar, reduzir o homem ao nível das suas vísceras. Por isso, a viagem nos vagões selados, propositalmente promíscuos, propositalmente desprovidos de água (não se tratava aqui de razões econômicas). Por isso, a estrela amarela sobre o peito, o corte dos cabelos, também nas mulheres. Por isso a tatuagem, o uniforme desajeitado, os sapatos que fazem tropeçar. Por isso, e de outro modo não se entenderia, a cerimônia típica, predileta, cotidiana, da marcha em passo militar dos homens-trapos diante da orquestra, uma visão grotesca mais do que trágica.

Assistiam-na, além dos chefes, as repartições da Hitlerjugend, rapazes de 14-18 anos, e é evidente quais deviam ser as suas impressões. São esses, portanto, os judeus de que nos falaram, os comunistas, os inimigos do nosso país? Mas eles não são homens, são marionetes, são feras: estão sujos, esfarrapados, não se lavam, não se defendem ao serem agredidos, não se rebelam; não pensam senão em encher a pança. É justo fazê-los trabalhar até a morte, é justo matá-los. É ridículo compará-los a nós, aplicar a eles as nossas leis.

Chegava-se ao mesmo escopo de aviltamento, de degradação por outro caminho. Os funcionários do campo de Auschwitz, mesmo os mais altos, eram prisioneiros: muitos eram judeus. Não se deve acreditar que isso mitigasse as condições do campo: ao contrário. Era uma seleção ao revés: eram escolhidos os mais vis, os mais violentos, os piores, e lhes eram concedidos todo poder, alimentos, vestes, isenção do trabalho, isenção da própria morte em gás, contanto que colaborasse.

Colaboravam: e eis que o comandante Höss pode se livrar de todo remorso, pode levantar a mão e dizer "está limpa": não somos mais sujos do que vocês, os nossos próprios escravos trabalharam conosco. Releiam a terrível página do diário de Höss em que se fala do Sonderkommando, da equipe designada para as câmaras de gás e para o crematório, e vocês entenderão o que é o contágio do mal.



domingo, 23 de março de 2014

Hannah Arendt e a banalidade do mal

Como o nosso leitor mais assíduo já deve ter percebido, Hannah Arendt (1906-1975) é figurinha carimbada do nosso blog. Vira-e-mexe, a filósofa alemã de origem judaica tem algum artigo sobre a sua vida e obra publicado aqui.

Já tivemos oportunidade, por exemplo, de resenhar seu livro "Eichmann em Jerusalém" bem como o filme que o inspirou, "Hannah Arendt" (2012).

A opinião da vez vem de Saul Kirschbaum, pesquisador brasileiro com Doutorado em Letras, Literatura e Cultura Judaicas pela Universidade de São Paulo (entre outros títulos igualmente brilhantes), em entrevista ao IHU:

A banalidade das engrenagens da máquina nazista. Entrevista especial com Saul Kirschbaum

“Eu não diria que ‘o nazismo legitimou a irracionalidade e a barbárie’, mas sim que mostrou que, nestas circunstâncias, os homens parecem propensos a abrir mão de sua condição de indivíduos, a afastar-se da realidade, a deixar de pensar”, avalia o pesquisador.

A Maldade foi um dos grandes temas sobre os quais a filósofa Hannah Arendt se debruçou. Se anteriormente o Mal era encarado, do ponto de vista religioso, como algo demoníaco, capaz de corromper os homens e explorar suas fraquezas morais, a partir do julgamento de Adolf Eichmann, no entanto, a pensadora passa a refletir sobre o tipo de maldade que se estabeleceu durante o regime nazista. Os atos eram monstruosos, mas para Arendt, aquele agente pequeno, adoentado e, acima de tudo, superficial não transparecia o mal diabólico tão alardeado.

“Se é assim, a barbárie não é um atributo exclusivo de ‘bárbaros’. Pode perfeitamente irromper entre povos muito civilizados”, esclarece Saul Kirschbaum, pesquisador da cultura hebraica. “Basta que ‘a raça eleita’ ou ‘a religião verdadeira’, ou qualquer outra construção fundamentalista se sinta ameaçada”. É o que ocorreu com o desmoronamento da Iugoslávia e, segundo Kirschbaum, o que parece estar acontecendo na esteira da Primavera Árabe, “com as tentativas de grupos fundamentalistas de obter o poder no Egito e na Síria, para instalar estados de estrita e excludente observância religiosa”.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o pesquisador destaca a evolução do pensamento de Hannah Arendt que perpassa todas as suas obras. Chama atenção também para o fato de que, mesmo hoje, 50 anos depois, a filósofa ainda não foi totalmente compreendida. E destaca: “Não é dizer, claro, que não houvesse, entre os nazistas, o mal demoníaco, monstruoso; mas o que preocupa é que, para o funcionamento da máquina nazista, para a irrupção da barbárie, bastam agentes comuns, simples funcionários de carreira”.

Saul Kirschbaum possui graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, mestrado e doutorado em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo – USP e pós-doutorado pela Unicamp. É autor de Viagens de um caminhante solitário: Ética e estética na obra de Samuel Rawet (São Paulo: Humanitas, 2011), Transliteração do Hebraico para Leitores Brasileiros (São Paulo: Ateliê Editorial, 2009) e A presença judaica na Idade Média Ibérica: a poesia laica e o idioma hebraico (São Paulo: Edições Targumim, 2008). Foi também organizador de Dez Ensaios para Samuel Rawet (Brasília: LGE Editora, 2007) e de Ensaios sobre literatura israelense contemporânea (São Paulo: Humanitas, 2011).

A Programação de Páscoa do IHU deste ano terá como fio condutor a problemática do mal na contemporaneidade. A programação propõe uma abordagem transdisciplinar do tema, que toma em consideração a manifestação e o engendramento do mal em contextos sociopolíticos e culturais impulsionados pela racionalidade moderna e seus impactos na organização política da sociedade desde o último século. A inscrição para o evento pode ser feita aqui.

Nesta semana, nos dias 19 e 20, ou seja, quarta e quinta-feira, será exibido o filme Hannah Arendt de Margarethe von Trotta. O filme será comentado e debatido pelo Prof. Dr. Adriano Correia Silva - UFG. Por sua vez, Abrão Slavutzky, psicanalista, proferirá duas conferências, respectivamente às17h30min e às 19h30min, sob o título Humor e crueldade no século XX e Crueldade e condição humana. Nos dias seguintes será exibido e comentado o documentário Shoah de Claude Lanzmann.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Por que a obra "Eichmann em Jerusalém. Um relato sobre a banalidade do mal", de Hannah Arendt, foi tão criticada pela comunidade judaica? Quais foram os principais pontos que causaram essa repercussão negativa?

Saul Kirschbaum - Como a autora explicou no “Pós-escrito”, o livro se tornou foco de controvérsia antes mesmo de sua publicação, dela vindo a participar “gente que se gabava de não ter lido o livro e prometia não o ler nunca”. Foram levantadas questões que, segundo Arendt, nada tinham a ver com o livro, ou que distorciam seriamente seu pensamento.

Foram-lhe imputadas opiniões que nunca expressara. Martin Buber [1], por exemplo, até então muito seu amigo, a acusou de não ter ahavat Israel, amor pelo povo de Israel.

A primeira delas dizia respeito à conduta do povo judeu durante os anos da Solução Final, ou seja, se os judeus podiam ou deviam ter se defendido, e envolvia conceitos como “mentalidade de gueto” e um “desejo de morte”, inconsciente, de todo o povo judeu. A autora lembra que tinha “descartado essa questão como tola e cruel, porque atestava uma fatal ignorância das condições da época”. Na verdade, ela se limitara a discutir o papel da liderança judaica, dos Conselhos Judaicos, insistindo na “diferença entre ajudar judeus a emigrar e ajudar os nazistas a deportá-los”. Em 1972, Isaiah Trunk [2] publicou Judenrat - The Jewish Councils in Eastern Europe under Nazi Occupation (Lincoln: University of Nebraska Press, 1996) [3], leitura indispensável para quem quer entender melhor esse assunto.

Outra questão importante tinha a ver com o subtítulo do livro, o conceito novo de “banalidade do mal”. Isto foi entendido pelos críticos como uma tentativa de inocentar Eichmann, ou substancialmente reduzir sua culpabilidade. Tenho a impressão de que, passadas cinco décadas, o que Arendt quis expressar com “banalidade do mal” ainda não foi plenamente entendido. A seu ver, Eichmann não tinha a mentalidade de um criminoso, nunca teve a intenção de fazer o mal. Seu esforço para obter progressos pessoais, típico de funcionários de carreira, “não era de forma alguma criminoso; ele certamente nunca teria matado seu superior para ficar com seu posto”. Ela atribuiu a predisposição de Eichmann “a se tornar um dos grandes criminosos desta época” a “pura irreflexão”, não a “qualquer profundidade diabólica ou demoníaca”.

Por fim, acho que importa pôr em evidência a crítica ao interesse da autora em investigar o tipo de pessoa que era Eichmann, que envolve a questão, ainda atual, de se “alguém que não estava presente tem o direito de ‘julgar’ o passado”. Ou seja, que falar sobre o Holocausto seria privilégio dos sobreviventes. Para alguns desses críticos, “não deviam ter deixado que ele [Eichmann] falasse nada — ou seja, que o julgamento fosse conduzido sem defesa”.

IHU On-Line - Qual foi o impacto da afirmação de Arendt de que Eichmann era um homem comum, um sujeito qualquer, um burocrata que se autoproclamava cumpridor de ordens, e não um monstro, um psicopata que se comprazia com sua tarefa de organizar a logística dos judeus para os campos de extermínio?

Saul Kirschbaum - Esta afirmação, a meu ver, vai de encontro a uma corrente de opinião amplamente difundida, segundo a qual o nazismo foi o resultado da tomada do poder na Alemanha por um bando de loucos assassinos, monstros psicopatas. Se o nazismo foi operado por homens comuns, burocratas cumpridores de ordens, então pode se pensar que não se tratou de um evento singular, uma interrupção anômala do fluxo histórico — que no geral vai na direção do progresso —, mas de uma possibilidade inerente à civilização ocidental, ou talvez à própria espécie humana. A extensão dos crimes nazistas, então, seria resultado da maior disponibilidade de meios técnicos de destruição em massa.

IHU On-Line - Em que medida o conceito de banalidade do mal arendtiano ajuda na reflexão sobre a relação entre os totalitarismos, a burocracia e a impessoalidade num mundo marcado pela técnica?

Saul Kirschbaum - A meu ver, esta é a grande contribuição de Hannah Arendt. Segundo ela, os totalitarismos implementam “o governo de Ninguém”. Em suas palavras, “a essência do governo totalitário, e talvez a natureza de toda burocracia, seja transformar homens em funcionários e meras engrenagens, assim os desumanizando”. Então, qualquer forma de totalitarismo, seja qual for a ideologia que o alimenta, qualquer forma de fundamentalismo, de “posse da verdade”, deve ser vista como potencialmente desumanizadora, tendente a transformar homens em funcionários, meras engrenagens. Estas seriam as condições necessárias e suficientes para a autoanulação do indivíduo e para a irrupção do mal “banal”.

IHU On-Line - Em que aspectos a obra dessa filósofa nos alerta para a irrupção da barbárie, que pode acontecer em qualquer lugar e entre quaisquer povos?

Saul Kirschbaum - Em 1971, ao escrever O pensar, primeira parte de A Vida do Espírito (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009), Hannah Arendt lembrava que, assistindo ao julgamento de Eichmann, não tinha confirmado “nossa tradição de pensamento — literário, teológico ou filosófico — sobre o fenômeno do mal”. Ou seja, que o mal “é algo demoníaco”, que “os homens maus agem por inveja”, ou “por fraqueza”, ou “pelo ódio poderoso que a maldade sente pela pura bondade”, ou “pela cobiça”. Ao contrário, observou que a “superficialidade do agente tornava impossível retraçar o mal incontestável de seus atos, em suas raízes ou motivos, em quaisquer níveis mais profundos. Os atos eram monstruosos, mas o agente — ao menos aquele que estava agora em julgamento — era bastante comum, banal, e não demoníaco ou monstruoso”. Se é assim, a barbárie não é um atributo exclusivo de “bárbaros”. Pode perfeitamente irromper entre povos muito civilizados, basta que “a raça eleita” ou “a religião verdadeira”, ou qualquer outra construção fundamentalista se sinta ameaçada. O esclarecimento, o progresso da razão, não é suficiente para impedir a irrupção do ódio interétnico ou interconfessional.

Não é dizer, claro, que não houvesse, entre os nazistas, o mal demoníaco, monstruoso; mas o que preocupa é que, para o funcionamento da máquina nazista, para a irrupção da barbárie, bastam agentes comuns, simples funcionários de carreira.

IHU On-Line - Que nexos podem ser estabelecidos entre a irrupção do mal na Shoá e a importância da categoria cristã da memória? Isto é, da importância em se lembrar o que houve para que uma segunda injustiça não seja imputada às vítimas?

Saul Kirschbaum - A importância dessa questão não passou despercebida para Hannah Arendt. No “pós-escrito”, buscando analisar o sentido do julgamento de Eichmann, ela manifesta sua opinião de que o julgamento devia acontecer no interesse da justiça e nada mais. E lembra que ficou “contente ao ver que a sentença citava Grotius [4], que explica [...] que a punição é necessária ‘para defender a honra ou a autoridade daquele que foi afetado pelo crime, de forma a impedir que a falta de punição possa causar sua desonra’”. A indiferença, que acompanha a desumanização dos indivíduos, sua transformação em funcionários, em meras engrenagens, conduz à impunidade dos agressores, a qual imputa às vítimas uma segunda injustiça — a presunção de sua culpabilidade.

Essa postura se manifesta claramente no comentário de Jean Améry [5] em Além do crime e castigo - tentativas de superação (Rio de Janeiro: Contraponto, 2013): “Nem o grito de ‘rebenta!’, nem as suspeitas que se comentavam pela rua, ou seja, que os judeus deviam ter cometido algo grave, pois em caso contrário não seriam tratados tão severamente, eram alucinações histéricas. ‘Se estão sendo detidos é porque algo devem ter tramado’, conjecturou em Viena uma operária social-democrata.”

IHU On-Line - Em que sentido a Shoá e a peculiaridade que o mal assumiu nesse episódio são emblemáticas para compreendermos a política do nosso tempo?

Saul Kirschbaum - Voltando ao julgamento de Eichmann, a autora sugeriu que a peculiaridade do episódio nazista não é o genocídio, “pela simples razão de que os massacres de povos inteiros não são sem precedentes”. O tipo de crime de que se tratava poderia ser melhor descrito pela expressão “massacre administrativo”, que “tem a virtude de dissipar a suposição de que tais atos só podem ser cometidos contra nações estrangeiras ou de raça diferente”. Assim, “esse tipo de morte pode ser dirigido contra qualquer grupo determinado, isto é, que o princípio de seleção é dependente apenas de fatores circunstanciais”. E alerta para uma potencialidade que já vem sendo explorada em obras de ficção científica: “na economia automatizada de um futuro não muito distante, os homens podem tentar exterminar todos aqueles cujo quociente de inteligência esteja abaixo de determinado nível”.

Uma das características, portanto, da política moderna é a permanente possibilidade de que um grupo, motivado por alguma ideologia racial ou religiosa ou social, possa tomar conta do aparelho do Estado e mobilizar a população para o imperativo de promover a “limpeza” étnica ou religiosa ou social.

IHU On-Line - A partir dessa constatação, em que aspectos o nazismo legitimou a irracionalidade e a barbárie?

Saul Kirschbaum - Para os nazistas, os judeus impediam a “legítima” e necessária ascensão do povo alemão, e por isso mereciam ser exterminados. Eu não diria que “o nazismo legitimou a irracionalidade e a barbárie”, mas sim que mostrou que, nestas circunstâncias, os homens parecem propensos a abrir mão de sua condição de indivíduos, a afastar-se da realidade, a deixar de pensar. Há um líder, ou partido, ou centro religioso, que pensa por eles. E assim nem percebem que estão participando ativamente na irrupção da irracionalidade e da barbárie. É o que aconteceu no desmoronamento da Iugoslávia e o que parece estar acontecendo na esteira da “primavera árabe”, com as tentativas de grupos fundamentalistas de obter o poder no Egito e na Síria, para instalar estados de estrita e excludente observância religiosa.

IHU On-Line - Em outra entrevista à IHU On-Line, o senhor menciona que persiste na Europa o ódio ao Outro, ao Estrangeiro, àqueles que tiram as vagas de trabalho dos cidadãos “autênticos”. Qual é o limite para que esse ódio se converta numa expressão objetiva do mal?

Saul Kirschbaum - A presença do estrangeiro, do imigrante — especialmente se for “ilegal” — sempre pode ser mobilizada, na forma de ódio ao Outro, como fator de consolidação da unidade da nação, ou como argumento para justificar dificuldades econômicas. Isto aconteceu na Espanha do século XV e na Alemanha da primeira metade do século XX, para citar apenas dois exemplos em que os judeus estiveram na posição de “outro”.

Manifestações de xenofobia continuam a ocorrer nos principais estados europeus. Se as circunstâncias econômicas forem favoráveis (ou seja, negativas), o ódio ao Outro pode converter-se em expressão objetiva do mal, seja na forma de “massacres administrativos”, seja na forma de rejeição de refugiados que tentam entrar ilegalmente no país, o que frequentemente tem dado origem a desastres com imensas perdas de vidas.

IHU On-Line - Nessa lógica, como analisa a questão dos refugiados e do conflito persistente entre Israel e Palestina?

Saul Kirschbaum - Aparentemente, o conflito persistente entre Israel e Palestina não pode ser resolvido, a curto prazo, de forma satisfatória para os dois lados. Questões como o destino dos refugiados palestinos e a sobrevivência de Israel como estado seguro, dentro de fronteiras reconhecidas, indicam que ambos terão de fazer concessões dolorosas para que a paz possa ser construída, e eu não me sinto capaz de oferecer qualquer sugestão de solução que já não tenha sido exaustivamente considerada. Mas devemos ter presente que os fundamentalistas de parte a parte ocupam-se em dificultar ainda mais esse difícil processo. Enquanto uns se opõem à criação de um estado palestino por conta do “direito histórico dos judeus a todo o território da Grande Israel”, e argumentos similares, outros afirmam que a paz no Oriente Médio só poderá ser construída com a extirpação do Estado de Israel e a expulsão de todos os judeus.

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Saul Kirschbaum - Sim, gostaria de aproveitar a oportunidade para encerrar esta entrevista com um comentário de Zygmunt Bauman [6] em Modernidade e Holocausto (Rio de Janeiro: Zahar, 1998), escrito em 1989.

Não é o Holocausto que achamos difícil de entender em toda a sua monstruosidade. É a nossa Civilização Ocidental que o Holocausto tornou quase incompreensível [grifo no original] [...] Se Hilberg tem razão ao afirmar que nossas instituições sociais mais decisivas nos escapam ao controle prático e ao alcance mental, então não são apenas os acadêmicos profissionais que devem se preocupar. Verdade, o Holocausto aconteceu há quase meio século. Verdade, seus resultados imediatos estão ficando rapidamente para trás. A geração que viveu essa experiência direta praticamente já desapareceu. Mas — e este é um terrível e sinistro “mas” — aqueles aspectos de nossa civilização outrora familiares e que o Holocausto tornou de novo misteriosos ainda fazem bem parte de nossa vida. Não foram eliminados. Também não o foi, portanto, a possibilidade do Holocausto. (BAUMAN, 1989, p. 107).


Por Márcia Junges e Andriolli Costa




Notas

[1] Martin Buber (1878-1965): filósofo vienense de origem judaica, foi o primeiro professor de uma cátedra de Judaísmo na Universidade de Frankfurt. Com a ascensão do nazismo, abandonou a cátedra e mudou-se para Jerusalém, onde passou a lecionar como professor da Universidade Hebraica. A obra de Buber centra-se na afirmação das relações interpessoais e comunitárias da condição humana. (Nota da IHU On-Line)

[2] Isaiah Trunk (1905-1981): historiador polonês, reconhecido como um dos maiores pesquisadores do extermínio judeu durante o regime nazista. Após fugir para a União Soviética, Israel e Canadá, estabeleceu-se nos Estados Unidos, onde se tornou chefe arquivista do Institute for Jewish Research - YIVO, em Nova York. (Nota da IHU On-Line)

[3] Judenrat ou Judenräte: Conselho Judeu, em alemão. (Nota da IHU On-Line)

[4] Hugo Grotius (1583-1645): jurista a serviço da República dos Países Baixos. É considerado o precursor, junto com Francisco de Vitória, do Direito internacional, baseando-se no Direito natural. Foi também filósofo, dramaturgo, poeta e um grande nome da apologética cristã. (Nota da IHU On-Line)

[5] Jean Améry (1912-1978): escritor e filósofo austríaco, pseudônimo de Hans Mayer, trocado após o final da II Guerra Mundial. Recusou-se a escrever em alemão por muitos anos. Mudou-se para a Bélgica para fugir dos nazistas, e quando estes invadiram a cidade participou ativamente da resistência. Foi capturado e mantido prisioneiro nos campos de concentração de Auschwitz, Buchenwald e Bergen-Belsen, e liberado em 1945. De suas obras, citamos Más allá de la culpa y la expiación. Tentativas de superación de una víctima de la violencia (Valencia: Pre-Textos, 2004), At the Mind’s Limits: Contemplations by a Survivor On Auschwitz and its Realities (Bloomington: Indiana University Press, 1998) e a emblemática On Suicide - A Discourse on Voluntary Death (Bloomington: Indiana University Press, 1999). Améry cometeu suicídio em 1978. (Nota da IHU On-Line)

[6] Zygmunt Bauman (1925): sociólogo polonês, professor emérito nas Universidades de Varsóvia, na Polônia e de Leeds, na Inglaterra. Publicamos uma resenha do seu livro Amor Líquido (São Paulo: Jorge Zahar Editores, 2004), na 113ª edição do IHU On-Line, de 30-08-2004, disponível em http://bit.ly/ihuon113. Publicamos uma entrevista exclusiva com Bauman na revista IHU On-Line edição 181, de 22-05-2006, disponível para download em http://bit.ly/ihuon181. (Nota da IHU On-Line)



quinta-feira, 6 de março de 2014

Hannah Arendt, um filme para pensar

Hannah Arendt (1906-1975) foi uma filósofa judia de origem alemã que analisou a questão do mal como poucos outros pensadores fizeram na história da humanidade.

Perseguida pelo nazismo, abandonou a Alemanha em 1933, antes da guerra portanto, e se refugiou em Paris até que as tropas de Hitler invadiram a França em 1940, quando ela foi enviada ao campo de concentração de Gurs.

Conseguiu fugir para os Estados Unidos em 1941, onde viveu como apátrida por 18 anos, e ali lecionou Filosofia, sempre se concentrando nos temas da maldade humana e do totalitarismo como sistema político opressor.

Por ocasião do julgamento de Adolfo Eichmann, sequestrado em Buenos Aires em 1960, processado em Israel e ali executado em 1962, Hannah Arendt esteve presente a várias sessões do tribunal especialmente montado em Jerusalém para sentenciar o criminoso nazista.

Fruto dessa experiência, foi publicada uma série de artigos na conceituada revista americana The New Yorker, que depois se transformariam no livro "Eichmann em Jerusalém", que já tivemos oportunidade de resenhar aqui no blog, e recomendamos a sua leitura por se tratar de uma das mais grandiosas obras sobre a maldade que o gênio humano foi capaz de produzir.

Hannah Arendt conseguiu se distanciar o suficiente do objeto analisado, a triste figura de Eichmann e o regime opressor que ele representava, para traçar um perfil demolidor de uma era em que a maldade atingiu níveis estratosféricos, e não se eximiu de criticar as lideranças judaicas locais que, de alguma forma, colaboraram com os nazistas no genocídio de seus próprios irmãos.

Este foi apenas um lado da profunda análise de Arendt que, por exemplo, teve insights brilhantes como aquele em que diz que, para o militante nazista de qualquer estirpe, a tentação era ser bom.

Afinal, apesar da monstruosidade de Hitler e seus asseclas, a maldade que eles perpetraram foi executada - em sua imensa maioria e nas mais infames formas - por gente absolutamente comum, e nenhuma sociedade presente ou futura está imune a que essa barbárie volte a acontecer.

Entretanto, tanto a crítica ao que ela chamou de "banalidade do mal" como a exposição dos líderes judeus que ajudaram, de alguma forma, a azeitar a máquina nazista de matar, trouxeram a Arendt a repulsa exarcebada de setores da mídia mundial à época, o ódio da comunidade judaica, bem como a perda de algumas amizades que lhe eram muito preciosas.

As feridas da Segunda Guerra Mundial ainda estavam abertas e Hannah, de certa forma, estava muito adiante do seu tempo no papel de observadora daquele fenômeno social pantagruélico. 

É precisamente sobre este período que trata o filme "Hannah Arendt" (2012), dirigido por Margarethe von Trotta, com Barbara Sukowa no papel-título.

É preciso alertar que não estamos falando de um filme, digamos, comercial, já que ele vai fundo no pensamento e nas citações de Hannah Arendt e de outros filósofos, e sua preocupação é instigar o espectador a pensar.

Trata-se, portanto, de um filme muito mais "pensado" e "falado" do que propriamente "visto".

Demorou algum tempo para que se entendesse o que a filósofa percebeu com Eichmann em Jerusalém. 

O fato de ser judia fez com que a frieza de sua análise e o seu distanciamento crítico circunstancial fossem muito mal recebidos à época, mas os ânimos serenaram a tempo de que o seu trabalho fosse reconhecido e respeitado.

Nunca é demais lembrar, também, que o Estado de Israel era muito recente quando esses fatos se desenrolaram, e havia uma política deliberada em renegar a passividade das vítimas do holocausto e acentuar a capacidade de reação do povo judeu às constantes perseguições que sofreu ao longo de sua história.

Foi nesse contexto que Hannah Arendt viveu e pensou, e o filme em questão, entre um cigarro e outro fumado pela filósofa (devem ser dezenas em 1 hora e 40 minutos em cena), o espectador mais paciente e atento ganha uma preciosa lição sobre o que significa (e como é bom) simplesmente pensar, mesmo nos momentos mais difíceis.



domingo, 5 de janeiro de 2014

Prazer com desgraça alheia pode não ser tão ruim

Que tal fazer uma viagem profunda aos inescrutáveis labirintos da alma humana lendo o artigo abaixo, publicado no UOL Bem-Estar?

Sentir prazer com o constrangimento alheio não é tão ruim, diz psicólogo

Christie Aschwanden 
The New York Times

A espetacular decadência do atleta mais bem pago do mundo teve início quando ele bateu um Cadillac utilitário em um hidrante e uma árvore. Os relatos iniciais do acidente de Tiger Woods, ocorrido em 2009, davam conta de que sua esposa tinha quebrado a janela do veículo com um taco de golfe para tirá-lo lá de dentro, mas quando se espalhou a notícia de que o casal tinha tido brigas motivadas por alegações de infidelidade de Woods, a janela quebrada se tornou uma metáfora do desmoronamento da sua reputação.

À medida que o escândalo foi se desenrolando, a celebridade esportiva que tinha construído um império baseado na sua imagem de homem de família íntegro foi se revelando um viciado em sexo extraconjugal, autor de mensagens de mau gosto para amantes e acompanhantes pagas. Quase de um dia para o outro, Woods passou a ser ridicularizado, inclusive com um site e uma conta no Twitter cujo único propósito era de publicar piadas sobre ele.

O prazer perverso sobre o rumo desses acontecimentos é designado por uma palavra alemã tão perfeita para ele que passamos a adotá-la em inglês. "Schadenfreude", ou "alegria perante o prejuízo", é o prazer derivado do infortúnio de outrem, e Richard H. Smith, professor de psicologia da Universidade de Kentucky, dedicou a carreira a estudá-la, pesquisando ainda outras emoções ligadas ao convívio social, tendo inclusive publicado uma antologia sobre a inveja, parente próximo do "schadenfreude".

Função adaptativa

Por mais perverso que esse sentimento possa parecer, ele tem uma função adaptativa, argumenta Smith neste agradável livro. Trata-se de uma emoção que decorre de comparações sociais que nos permitem avaliar os nossos talentos e perceber qual a nossa posição na ordem social. O desejo de fazer essas comparações parece ser um padrão recorrente - estudos mostram que até macacos e cães se comparam com os seus pares.

O "schadenfreude" nos dá uma ideia do que os psicólogos Roy F. Baumeister e Brad J. Bushman têm chamado de "o conflito mais básico da psique humana" – o atrito entre os nossos impulsos egoístas e o autocontrole. "Somos todos selvagens por dentro", escreveu Cheryl Strayed em sua coluna Dear Sugar no site The Rumpus. "Todos nós queremos ser o escolhido, o amado e o estimado."

Porém, a vida nem sempre é assim, e quando nos deparamos com alguém mais escolhido, amado ou estimado do que somos, o nosso instinto natural é querer colocá-lo no nosso nível. Se esse desejo imoral é por acaso atendido, o sentimento de "schadenfreude" se manifesta. Clive James capturou o espírito desse sentimento em um poema que tira seu título de sua primeira linha: "O livro do meu inimigo foi descartado / E eu estou satisfeito".

Quando a inveja invoca dor, o "schadenfreude" fornece um antídoto poderoso. O sucesso de Woods no campo de golfe e a sua vida aparentemente perfeita - sua linda esposa e família, sua reputação ilibada – "representavam um contraste agudo para a maioria das pessoas, mesmo que elas não estivessem interessadas em golfe", escreve Smith. Embora algumas pessoas tivessem sido certamente inspiradas por ele, talvez um número maior ainda delas se sentisse diminuído. A sua decadência o trouxe para mais perto do nível dessas pessoas, e, assim, permitiu que aqueles que o invejavam se sentissem melhor consigo mesmos.

Reality shows

O filósofo do século 17 Thomas Hobbes afirmou que o humor muitas vezes vem de uma súbita sensação de superioridade, e Smith escreve que a nossa cultura se desenvolve com base em comparações feitas a partir de uma posição de superioridade que proporcionam essa "glória repentina".

"Será que assistimos aos reality shows em busca de conhecimentos preciosos sobre a condição humana?", pergunta ele. "Por favor. Nós assistimos a esse tipo em programa em busca daquelas cenas constrangedoras que nos fazem sentir um pouquinho melhores quanto às nossas próprias vidinhas anônimas."

Uma sensibilidade semelhante alimenta as revistas de fofoca. Em uma análise que investigou durante dez semanas as publicações da The National Enquirer, Smith e Katie Boucher, psicóloga da Universidade de Indiana, descobriram que quanto mais alto for o status de uma celebridade, maior a probabilidade de encontrar um artigo sobre ela focado em infortúnios.

Sentimos ainda mais prazer quando o "schadenfreude" parece merecido, como acontece quando o status mais elevado de alguém abala a nossa autoimagem. Uma pesquisa feita por Benoît Monin, um psicólogo social de Stanford, mostra que a mera presença de um vegetariano pode fazer os onívoros se sentirem moralmente inferiores, já que eles preveem que serão julgados.

"Os vegetarianos não precisam dizer uma palavra; o mero fato de existirem, do ponto de vista de um comedor de carne, causa uma irritação moral", escreve Smith. Descobrir que a pessoa de comportamento supostamente superior está sendo hipócrita alivia essa irritação, de modo que pegar um vegetariano devorando um pedaço de carne faz com que os amantes de bife sintam uma explosão de "schadenfreude": "Nós não somos tão inferiores quanto fomos levados a acreditar; agora podemos assumir a posição contrastante de superioridade moral".

Segundo as suas definições tradicionais, o "schadenfreude" é uma emoção passiva sentida pelos espectadores que não desempenham funções nos infortúnios experimentados pela pessoa que têm como alvo, mas Smith argumenta que essa demarcação é "estreita demais", alegando que embora a ação "complique a situação", ela não elimina o "schadenfreude".

No entanto, ampliar o sentido do termo de modo a incluir a vingança e outras ações tira a especificidade da característica de satisfação da palavra. É a falta de participação por parte das testemunhas que adiciona um sentido de deleite ao "schadenfreude" e torna o seu reconhecimento permissível – a pessoa que você tinha secretamente como alvo se deu mal, e você não teve nada a ver com isso.

Embora este livro seja destinado para leitores leigos, a escrita às vezes parece acadêmica, e o autor se mostra muito propenso a fazer resumos, oferecendo citações sucessivas de outros estudiosos, quando seria melhor uma síntese mais forte ao leitor. E, embora seja provavelmente verdade que as comparações sociais subjacentes ao "schadenfreude" ajudaram a alimentar o antissemitismo na Alemanha nazista, um capítulo sobre o papel do "schadenfreude" no Holocausto se apresenta como uma tentativa de dar ao assunto uma gravidade desnecessária.

Apesar de suas falhas, vale a pena ler este livro curto para conhecer os seus insights sobre o lado sombrio da natureza humana e as ilustrações maravilhosas que aparecem periodicamente no texto. Feitos pela filha do autor, Rosanna Smith, esses desenhos – uma tartaruga erguendo o braço para expressar vitória, a formiga e o gafanhoto de Esopo dividindo uma refeição – dão a mesma sensação de prazer suscitada pelas ilustrações que apimentam as páginas da revista The New Yorker.

Smith conclui que "o 'schadenfreude' não precisa ser demonizado". É melhor aproveitar a oportunidade que ele oferece de saciar nossos lados sombrios do que negar a sua existência. Enquanto permanecer passivo, o "schadenfreude" pode melhorar a nossa autoestima e nos lembrar de que até mesmo as pessoas mais invejáveis são falíveis – assim como nós.

Sobre o livro:

'The Joy of Pain: Schadenfreude and the Dark Side of Human Nature'
("A alegria diante da dor: o Schadenfreude e o lado sombrio da natureza humana", em tradução livre)
Por Richard H. Smith
256 páginas. Oxford University Press. U$ 24,95

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