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domingo, 9 de julho de 2017

Bispos moçambicanos querem saber quem lucrou com "dívidas ocultas" do país


Ah Moçambique, país querido de povo irmão, como nossas tragédias políticas são parecidas, além dos bilhões que nos roubam e da língua que falamos...

Talvez aqui seja um pouco pior, porque as dívidas públicas são abertas, claras e conhecidas, assim como quem delas se aproveita, e pouco ou nada acontece, principalmente se o político é filiado ao partido "certo" e "inimputável", não é mesmo?!

A matéria é da Rádio Vaticano:

Moçambique. Bispos reagem ao relatório de auditoria sobre "dívidas ocultas"

A Comissão Episcopal de Justiça e Paz de Moçambique, reagiu em carta publicada no dia 4 de julho corrente, ao relatório de auditoria sobre as dívidas ocultas, cujo resumo foi divulgado semana passada pela Procuradoria-Geral da República. O relatório de auditoria foi formalmente entregue à PGR em Maio findo, pela consultora internacional Kroll.

Segundo o bispo de Pemba e igualmente presidente da Comissão Episcopal de Justiça e Paz, Dom Luíz Fernando Lisboa, o povo não deve ser responsabilizado e prejudicado por aqueles que contraíram a dívida ilegalmente.

Na carta partilhada com a imprensa moçambicana, pode-se ler o seguinte: «Não podemos permitir que ao povo moçambicano seja imputada a responsabilidade de pagar com a miséria, sangue e morte as dívidas contraídas em nome dele, de forma ilegal e inconstitucional».

Usar política como forma de caridade

Ainda de acordo com o documento da Comissão Episcopal de Justiça e Paz, os Bispos moçambicanos pedem que o órgão competente declare inconstitucional a inclusão, por parte da Assembleia da República, das dívidas ocultas contraídas em 2013 no orçamento de 2015, de forma unilateral, ilegal e ilegítima e que a PGR responsabilize as pessoas e/ou instituições que não favoreceram o trabalho da auditoria independente com vista a esclarecer o destino dos empréstimos contraídos e os seus beneficiários. Porém, acima de tudo, e em primeiro lugar, responsabilize aqueles que directamente contraíram a dívida.

«Queremos ainda lembrar aos cristãos que trabalham na política as palavras de Papa Francisco: “A política é uma das formas mais altas de caridade, porque procura o bem comum”. Ninguém está obrigado a obedecer a disciplina de qualquer partido político ou aos dirigentes que contradigam à sua consciência cristã. Com efeito, não podemos colocar um partido político nem seus dirigentes acima da justiça, do amor a Deus e do amor aos irmãos. No final dos nossos dias seremos julgados conforme o amor. Não levaremos riqueza nem poder», lê-se na carta da Comissão de Justiça e Paz, divulgado no dia 4 de julho em curso.

Entretanto, Moçambique viu a sua dívida ultrapassar 11 mil milhões de dólares após a descoberta, em Abril de 2016, de dívidas secretamente avalizadas pelo anterior Governo moçambicano, entre 2013 e 2014.

A descoberta das dívidas levou o Fundo Monetário Internacional (FMI) e os doadores a suspenderem a ajuda ao País, condicionando o reatamento do apoio à realização de uma auditoria internacional à dívida pública.

No passado dia 24 de Junho, a Procuradoria-Geral da República (PGR) de Moçambique divulgou o sumário do relatório da auditoria às dívidas ocultas, assinalando que a mesma deixou por esclarecer o destino dos dois mil milhões de dólares contraídos pelas três empresas estatais entre 2013 e 2014.

Hermínio José, Maputo



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

30 anos depois de sua morte, Samora Machel é celebrado por cristãos moçambicanos


Exatos trinta anos atrás, no dia 19 de outubro de 1986, Samora Machel morreu quando o avião soviético Tupolev Tu-134, que o levava, caiu nos montes Libombos, no nordeste da África do Sul, perto da fronteira moçambicana.

Até hoje há suspeitas bastante consistentes, mas nunca cabalmente comprovadas, de que o acidente aéreo foi, na verdade, um atentado maquinado por agentes soviéticos e sul-africanos, lembrando que à época ainda existiam - em plena força - tanto a União Soviética como o regime do apartheid na África do Sul.

A viúva do líder da independência moçambicana, Graça Machel, viria a se casar em 1998 com Nelson Mandela, o que a tornou - atualmente - viúva de dois grandes heróis africanos.

A matéria abaixo é da Rádio Vaticano:

Moçambique: igrejas cristãs reconhecem os feitos de Samora Machel

Celebram-se, quarta-feira 19 de Outubro, 30 anos da morte de primeiro Presidente de Moçambique num trágico acidente aéreo ocorrido em Mbuzine, na África do Sul.

E é ali nessa localidade sul-africana que decorrem as cerimónias centrais das celebrações do homem que proclamou a independência de Moçambique a 25 de Junho de 1975. Nessa localidade, onde desapareceu para sempre o líder moçambicano, foi erguido um monumento em sua homenagem. Mas Samora Machel permanece vivo na memória dos moçambicanos. E as própria igrejas cristãs do país reconhecem os seus feitos pela nação moçambicana.

Numa ronda feita pela capital pelo nosso correspondente no Maputo, Hermínio José, sacerdotes, pastores e fiéis disseram que se deve recordar Samora Machel não deve ser um mero acto solene, mas sim como uma forma de perenizar a sua memória, valorizando o seu legado. O Padre Pinto Cuna, da arquidiocese do Maputo afirmou que Samora Machel é uma lenda por excelência. Ele foi morto pelos inimigos da paz e da justiça.

"Samora era pela paz e justiça social, e esse seu carisma fê-lo ser assassinado barbaramente. Mas, nós os moçambicanos devemos fazer valer os valores de Samora, pondo-os em prática. Isto é, devemos evitar as desigualdades abismais a que assistimos aqui no nosso país. Devemos evitar o derramamento de sangue devido aos ataques armados, só assim caros irmãos estaremos a eternizar a pessoa de Samora Machel", rematou o sacerdote.

Também o pastor, Marcos Mubango, da Igreja Metodista Unida de Moçambique considera que "Samora era um homem de Paz. Ele não queria viver num país, num continente, num mundo com ausência de paz, eis a razão pela qual, ele não só lutou para a independência de Moçambique, como também contribuiu significativamente para a independência de muitos países africanos”.

Já para, o pastor João Timba, da Igreja Universal do Reino de Deus, Samora "Samora Machel não queria ver o seu povo a sofrer, ele queria o bem colectivo. Ele era um homem que encontrava na paz o alicerce para o bem-estar dos povos", disse , acrescentando que os moçambicanos devem se inspirar em Samora, pois só assim, teremos o Moçambique que ele sempre desejou, uno, indivisível e democrático”.



sábado, 18 de janeiro de 2014

Eusébio: futebol, fado e Fátima no imaginário português

No dia 5 de janeiro de 2014, faleceu Eusébio, o maior jogador de futebol que Portugal produziu, ainda que através da sua então colônia africana Moçambique.

Conhecido também como o "Pantera Negra", Eusébio despontou em uma década (1960) em que a ditadura de António de Oliveira Salazar (a que muitos chamavam de "o beato") comandava o país desde 1932.

A figura do futebolista de origem moçambicana foi logo apropriada pelo regime como uma espécie de, digamos, "justificativa" para o império colonial português, já nos seus estertores.

Isto numa época em que o fado de Amália Rodrigues e as aparições de Fátima contribuíam para a visão de um Portugal idílico que, de fato, não existia.

É esta a tese do sociólogo lusitano Nuno Domingos em artigo publicado originalmente no Público e reproduzido pelo Estadão:

Brincando nos campos de Salazar

Sociólogo português mostra como a ditadura usou Eusébio para mudar o discurso sobre o negro

Nuno Domingos

No Portugal dos anos 1960, abundavam as imagens de Eusébio da Silva Ferreira. Ele ali estava, espalhado por jornais e revistas, mas também em programas e serviços noticiosos da Radiotelevisão Portuguesa. Atleta do Benfica e da selecção nacional, sempre na sua função de jogador de futebol, era aclamado pelo inegável talento. No Portugal metropolitano de então, onde rareavam ainda os naturais de África, nunca um negro merecera tanto destaque e fora objecto de tamanha glória. Uma representação dessas distinguia-se da imagem do africano, que proliferara na cultura popular. Como demonstrou Isabel Castro Henriques (A Herança Africana em Portugal, ed. CTT), o negro era quase sempre ridicularizado, com evidente crueldade, em livros, imagens, jornais, bandas desenhadas, campanhas publicitárias e anedotas. A construção de um outro tipo de africano, fundada numa distância que permitia as maiores efabulações, só tomou um sentido mais concreto durante a guerra colonial, onde o africano era o inimigo, o "turra".

Desde seus primórdios, o Estado Novo contribuíra decisivamente para a disseminação de um racismo generalizado, garantindo-lhe até um carácter científico. Em exposições e congressos, nos trabalhos de diversas ciências coloniais, e em muitas publicações oficiais, expunha-se um outro africano culturalmente diferente, que fazia parte integrante do império português, mas era colocado à parte, como se se tratasse de um todo racial e cultural discrepante. O império afirmara o atraso civilizacional das populações africanas, legitimando assim uma conquista colonial anunciada como uma missão de desenvolvimento dessas regiões e dos seus povos.

Salazar, o "beato salvador" da nação portuguesa.
Rezas por ele valiam 50 dias de indulgência .
Justificou-se, dessa forma, que Portugal atribuísse uma cidadania específica à maioria dos povos que governava, enquadrada pelo chamado sistema de indigenato, que cessou em 1961, precisamente no ano em que Eusébio começou a jogar no Benfica, depois de chegar a Portugal em dezembro de 1960.

É evidente que as retóricas integracionistas do Estado Novo na década de 1960 obrigavam a outras representações do africano, nomeadamente a de um sujeito colonial assimilado à sociedade portuguesa. Eusébio ajustava-se bem a essa imagem. Sua autobiografia, publicada em 1966 em Portugal e redigida por Fernando G. Garcia a partir de um conjunto de entrevistas (traduzida em inglês no ano seguinte), conta a história de um "bom rapaz", narrativa mestra e memória oficial a partir daí repetida em jornais, biografias e bandas desenhadas.

A "verdadeira" história de Eusébio apresenta um conjunto de etapas, do Bairro da Mafalala na Lourenço Marques colonial, onde vivia com a mãe, Elisa, num contexto de pobreza honrada, os jogos de bairro e a equipa dos "brasileiros", as idas à escola, o deslumbramento com o centro da cidade colonial, que pouco conhecia, a entrada no futebol local, a transferência atribulada para o Benfica e os diversos passos da brilhante carreira profissional.

Nessa história, a lista impressionante de feitos desportivos é intervalada pelo relato do casamento com Flora e pela incorporação de Eusébio, em 1963, no Exército português, profusamente fotografada e utilizada como propaganda. A incorporação militar, o casamento e a vida familiar contribuíam para a construção quase perfeita da biografia de um indivíduo assimilado, preocupado com o trabalho e com a família e plenamente integrado no Portugal de Salazar, um jovem de origens desfavorecidas que, apesar da notoriedade, continuava a perceber seu lugar social.

Amália Rodrigues
A apropriação oficial da imagem de Eusébio não anulava os efeitos produzidos pelo facto de um negro se ter tornado uma figura dominante da cultura popular portuguesa. Eusébio entrou, tal como a fadista Amália, num universo de glorificação cultural até aí constituído por indivíduos com origens e percursos muito distintos, consagrados em actividades oficialmente legitimadas e de onde o futebol e o fado se encontravam afastados.

Apesar do reconhecimento de seu mérito, a apreciação entusiástica que mereceu não resultava de uma inusitada consciência de igualdade racial, tão-pouco poderia servir de prova de que a sociedade portuguesa estava preparada, devido a uma característica cultural adquirida, a aceitar a diferença. A relevância de Eusébio dependia do seu valor enquanto elemento de uma economia particular, no contexto de uma troca muito específica, proporcionada pelo processo de profissionalização do futebol. O jogador moçambicano oferecia quase todas as semanas capitais preciosos à representação nacional, mas sobretudo clubista, a uma específica cidadania exercida diariamente por muitos indivíduos, quase todos homens, durante incontáveis encontros, conversas e imensas retóricas, nos quais se manifestava uma identificação, uma forma de apresentação na vida de todos os dias. Os que no campo representavam com seu génio desportivo essa pertença (ser do Benfica, do Sporting, do Porto, ou da selecção) mereciam quase todas as recompensas, independentemente da sua origem ou da cor da sua pele. O valor de Eusébio nessa economia particular dependia da manutenção de um nível performativo constante, de um ritmo laboral intenso, com consequências físicas conhecidas, como asseveram as inúmeras cirurgias ao seu martirizado joelho.

As exibições no Mundial de 1966 ampliaram a reputação de Eusébio, oferecendo-lhe uma dimensão global. Esse enorme atleta, personagem principal de uma cultura de consumo em expansão que gerava novas identificações, juntou-se à memória visual colectiva de uma geração, ao lado de outros ícones da cultura popular dos anos 1960. Em Inglaterra, país que na altura já abdicara da grande parte das suas colónias, governada em 1966 por um governo trabalhista, os negros eram uma enorme raridade nos campeonatos desportivos e nenhum chegara à selecção nacional.

O efeito do poder mediático de vedetas populares como Eusébio foi alvo de escrutínio, as suas posições interpretadas, os resultados políticos dos seus actos avaliados. Se o Estado Novo sempre desconfiara da espectacularização do desporto assente no movimento associativo, veio depois a perceber que essa lhe podia ser útil. Para as oposições ao regime, menos preocupadas em reconhecer o efeito propriamente político da invulgar notoriedade social de um negro em Portugal, importava denunciar a utilização de Eusébio na defesa da "situação", enquanto elemento da narcotização do povo - ao lado do fado, do chamado nacional-cançonetismo e de Fátima - e especificamente da propaganda imperial, fundada na mitologia do pluri-racialismo, num período em que Portugal lutava pelos seus territórios numa guerra travada em três frentes.

É interessante verificar que nas últimas décadas Eusébio veio a tornar-se objecto de interesse para os estudiosos do continente africano, entendido como um pioneiro do futebol em África, um exemplo de talento extraordinário e, simultaneamente, ao lado de outros grandes nomes negros da história do desporto internacional, nomeadamente norte-americanos, desde Joe Louis a Jesse Owens, alguém que vingara num mundo fortemente discriminatório. O desejo de alguns académicos e jornalistas estrangeiros em encontrar no discurso de Eusébio posições emancipadoras e politizadas esbarrou quase sempre em respostas evasivas e no habitual refúgio no mundo do futebol. Na verdade, o universo que ele, desde pequeno nos espaços livres da Mafalala, aprendera a dominar. Para aquele que foi considerado, depois do Mundial de 1966, como "o melhor da Europa", e de quem se falava estar a disputar com Pelé o título de "rei do futebol mundial", África e a política africana estavam muito longe.

O Estado Novo tratou de voltar a lembrar que Eusébio era africano, parte de um Portugal enorme que se prolongava para sul. Se é evidente que o impacto de Eusébio na sociedade portuguesa não pode ser avaliado apenas à luz de uma história política, sendo essencial investigar o efeito simbólico da notabilidade de um jogador negro, é também certo que na década de 1960 sua glória serviu à defesa de uma excepcionalidade colonial. Foi essa que serviu de justificação à soberania sobre os territórios africanos e a sua história, contada e recontada até nossos dias, contribuiu para lançar um manto sobre o passado e reproduzir mitos sobre a tolerância racial dos portugueses.

Um ano antes do Mundial de 1966, o embaixador português Franco Nogueira, numa conferência na embaixada portuguesa em Londres (em maio de 1965), falou sobre os princípios orientadores da política portuguesa em África: "Nosso primeiro princípio orientador é a igualdade racial - uma pequena noção que trouxemos para África há mais ou menos 500 anos". Portugal orgulhava-se do seu império se constituir como um "espaço multirracial", uma "democracia racial real" onde todos "trabalham harmoniosamente para os mesmos fins".

Falso e mitificador, o olhar de Franco Nogueira, ao incluir o império dentro da sociedade portuguesa, acabava por realçar o facto de que o mundo governado pelos portugueses na década de 1960 era maioritariamente negro e africano, realidade por vezes esquecida nas análises historiográficas sobre Portugal. E qual era o lugar que a gestão colonial portuguesa atribuíra a essa grande maioria da população? Segundo a história mediatizada da vida de Eusébio, existia em Moçambique um contexto de igualdade de oportunidades e uma ausência de preconceito racial, bem ilustrados por um percurso de mobilidade social, desde o Bairro da Mafalala até à metrópole e aos grandes estádios europeus.

Poderá um caso excepcional ilustrar a excepcionalidade de um regime colonial? É que o lugar da população africana, na grande sociedade portuguesa de 1960, era bem diferente do representado pelo caso de Eusébio. Sua integração estava longe de estabelecer qualquer padrão que pudesse explicar os 500 anos de colonialismo de que falava Franco Nogueira.

Mais fiável parecia ser a história da cidade onde o jogador moçambicano cresceu. Desde sua fase moderna, iniciada no final do século 19 e projectada pela industrialização da África do Sul, que Lourenço Marques se dividira entre um centro colono, predominantemente branco, e um subúrbio precário, predominantemente negro. Pela força, afastaram-se as populações locais para a periferia. Separada fisicamente, a mão de obra africana que se acumulava nos subúrbios, essencial para o funcionamento do sistema colonial, foi enquadrada por leis e normas. Essas regulavam uma discriminação racial, a qual era evidente não apenas na lógica do indigenato, mas que se traduzia no quotidiano, nos espaços públicos, nas escolas, nos transportes e nos locais de trabalho, onde sofreram durante muito tempo o flagelo do trabalho forçado. O historiador Valdemir Zamparoni explicou bem esse mesmo processo na sua tese sobre a capital de Moçambique.

Já depois do fim do indigenato persistia o que, num artigo publicado em 1963 no jornal A Tribuna, o arquitecto Pancho Guedes chamava de "cinto do caniço" que separava o centro urbano da "cidade dos pobres, dos serventes e dos criados", isto é, a cidade dos africanos. Lourenço Marques carecia então, segundo o arquitecto, de "uma genuína integração social - ou serão os ‘pretos’ só para estar nas cozinhas e nas recepções?".

Os habitantes dos bairros periféricos da cidade, onde nasceu Eusébio em 1942, trabalhavam nas indústrias locais, nos portos e nos caminhos-de-ferro, nos serviços domésticos, em actividades ditas informais, dependendo de pequenas lavras, ou faziam parte da forte emigração para o país vizinho, controlada e taxada pelo Estado colonial. Essa estrutura laboral era fortemente racializada, pertencia a um sistema onde a cor da pele mostrava os contornos da organização social. Na grande sociedade portuguesa de 1960, o lugar dessa maioria africana, mesmo depois do fim do indigenato, continuava a revelar a herança de um colonialismo predador e racista, não muito diferente dos outros colonialismos nos seus propósitos e objectivos, nos meios e nas estratégias, e absolutamente nada excepcional.

Explicada pela conjugação única entre a profissionalização do futebol e a procura de talentos, a força da cultura popular mediática e um regime que necessitava de defender por todas as formas o mito do pluri-racialismo lusófono, a carreira extraordinária de Eusébio não belisca a imagem pérfida do sistema colonial português. Tão-pouco deve servir de modelo para descrever, hoje, as relações raciais em Portugal.

NUNO DOMINGOS É SOCIÓLOGO E PESQUISADOR DO INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA. TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM PORTUGAL NO JORNAL PÚBLICO



quarta-feira, 18 de abril de 2012

Escritora moçambicana critica igrejas e novelas brasileiras

Matéria da Agência Brasil:

Novelas brasileiras passam imagem de país branco, critica escritora moçambicana

Alex Rodrigues

Brasília - "Temos medo do Brasil." Foi com um desabafo inesperado que a romancista moçambicana Paulina Chiziane chamou a atenção do público do seminário A Literatura Africana Contemporânea, que integra a programação da 1ª Bienal do Livro e da Leitura, em Brasília (DF). Ela se referia aos efeitos da presença, em Moçambique, de igrejas e templos brasileiros e de produtos culturais como as telenovelas que transmitem, na opinião dela, uma falsa imagem do país.

"Para nós, moçambicanos, a imagem do Brasil é a de um país branco ou, no máximo, mestiço. O único negro brasileiro bem-sucedido que reconhecemos como tal é o Pelé. Nas telenovelas, que são as responsáveis por definir a imagem que temos do Brasil, só vemos negros como carregadores ou como empregados domésticos. No topo [da representação social] estão os brancos. Esta é a imagem que o Brasil está vendendo ao mundo", criticou a autora, destacando que essas representações contribuem para perpetuar as desigualdades raciais e sociais existentes em seu país.

"De tanto ver nas novelas o branco mandando e o negro varrendo e carregando, o moçambicano passa a ver tal situação como aparentemente normal", sustenta Paulina, apontando para a mesma organização social em seu país.

A presença de igrejas brasileiras em território moçambicano também tem impactos negativos na cultura do país, na avaliação da escritora. "Quando uma ou várias igrejas chegam e nos dizem que nossa maneira de crer não é correta, que a melhor crença é a que elas trazem, isso significa destruir uma identidade cultural. Não há o respeito às crenças locais. Na cultura africana, um curandeiro é não apenas o médico tradicional, mas também o detentor de parte da história e da cultura popular", detacou Paulina, criticando os governos dos dois países que permitem a intervenção dessas instituições.

Primeira mulher a publicar um livro em Moçambique, Paulina procura fugir de estereótipos em sua obra, principalmente, os que limitam a mulher ao papel de dependente, incapaz de pensar por si só, condicionada a apenas servir.

"Gosto muito dos poetas de meu país, mas nunca encontrei na literatura que os homens escrevem o perfil de uma mulher inteira. É sempre a boca, as pernas, um único aspecto. Nunca a sabedoria infinita que provém das mulheres", disse Paulina, lembrando que, até a colonização europeia, cabia às mulheres desempenhar a função narrativa e de transmitir o conhecimento.

"Antes do colonialismo, a arte e a literatura eram femininas. Cabia às mulheres contar as histórias e, assim, socializar as crianças. Com o sistema colonial e o emprego do sistema de educação imperial, os homens passam a aprender a escrever e a contar as histórias. Por isso mesmo, ainda hoje, em Moçambique, há poucas mulheres escritoras", disse Paulina.

"Mesmo independentes [a partir de 1975], passamos a escrever a partir da educação europeia que havíamos recebido, levando os estereótipos e preconceitos que nos foram transmitidos. A sabedoria africana propriamente dita, a que é conhecida pelas mulheres, continua excluída. Isso para não dizer que mais da metade da população moçambicana não fala português e poucos são os autores que escrevem em outras línguas moçambicanas", disse Paulina.

Durante a bienal, foi relançado o livro Niketche, uma história de poligamia, de autoria da escritora moçambicana.



domingo, 20 de novembro de 2011

As missionárias evangélicas brasileiras em Moçambique

Artigo muito interessante (e bem escrito por Marli Lima) publicado no Valor Econômico de sexta-feira, 18/11/11:

O evangelho segundo elas

Por Marli Lima | De Dondo, Moçambique

Durante três dias, 120 mães e seus filhos participaram de um encontro de mulheres cristãs em Nampula, norte de Moçambique, em convivência com um grupo de 14 mulheres brasileiras. Haveria depois reunião semelhante em Dondo, na região central do país. As brasileiras eram missionárias, de diversas profissões, que em sua viagem de propagação do cristianismo, um percurso de duas semanas, dormiram e comeram nos lugares visitados, contaram histórias bíblicas, ensinaram trabalhos manuais e culinária, deram assistência odontológica, fizeram palestras sobre saúde, entre outras atividades. Muitas das moçambicanas tinham vindo de aldeias distantes até 200 quilômetros.

Naqueles mesmos dias, outros brasileiros, agentes de uma corrente missionária que tem crescido substancialmente nos últimos tempos, faziam trabalho semelhante em diversos países.

O Brasil já foi um grande receptor de estrangeiros que desembarcavam aqui para evangelizar e criar igrejas. Agora o movimento é inverso: o país é um dos que mais enviam missionários ao exterior, o que se explica pelo crescimento da população de evangélicos e pelo estímulo de igrejas e agências missionárias à formação desses agentes religiosos e internacionalização de seu trabalho. Hoje, o número de missionários brasileiros que levam o cristianismo a outros países só é superado pelo de americanos. No ano passado, os Estados Unidos tinham 127 mil pessoas pregando foram de suas fronteiras. Do Brasil haviam partido 34 mil. Nos dois casos, incluem-se evangélicos e católicos. São dados do "Atlas do Cristianismo Global", editado pela Edinburgh University Press.

De acordo com Todd M. Johnson, um dos autores da publicação, o número de missionários brasileiros que foram trabalhar em outros países em 2010 corresponde a 188 por milhão de cristãos. A proporção da América Latina é de 107 e a global, de 184 por milhão de cristãos. Ou seja, o Brasil está acima da média mundial.

Em 2010, o Brasil tinha em seu território 20 mil missionários estrangeiros, ou 101 por milhão de brasileiros. Nesse caso, o número é menor que na América Latina, de 172 por milhão de moradores. Mas ainda é bem maior que a média global, de 58 por milhão de pessoas.

O casal Antonio e Sirley Silva é ligado à Junta de Missões Mundiais (JMM) da Convenção Batista Brasileira, instituição com 600 missionários em 58 países. Os dois são professores de teologia e lideram em Nampula um programa de educação pré-escolar, também aplicado em outros países, que atende perto de duas mil crianças, de quatro e cinco anos, e usa conteúdo baseado na "Bíblia".

Se, em alguns países, há a necessidade de aprendizado de idiomas, em outros, como Moçambique, o português é um aliado. A brasileira Noêmia Cessito foi enviada pela JMM para o país africano há 27 anos, quando ainda se vivia uma guerra civil, encerrada em 1992. Casou-se com um pastor moçambicano, teve dois filhos e hoje mora em Dondo, onde realiza trabalhos de ação social, educação e evangelismo.

Com a creche Pequenas Sementes, que funciona no terreno da igreja, e a escola El Shaddai, ela atende 850 crianças, que, além de ensino, recebem uma refeição por dia (para muitas, o único alimento). Por meio de voluntários, os batistas de Dondo também apoiam diariamente 150 mulheres com aids (o país é um dos mais afetados pela doença). E, de segunda a sexta-feira, servem sopa a adultos e crianças internados no hospital que fica a duas quadras do templo.

Para Karina Bellotti, professora do departamento de história da Universidade Federal do Paraná, doutora em história cultural e com publicações na área de história das religiões, um dos lados positivos do trabalho missionário é justamente o estabelecimento de sistemas educacionais e de assistência à saúde, como ocorreu no Brasil, que possui escolas e hospitais ligados a instituições religiosas. Um dos lados negativos, segundo ela, "é que algumas dessas missões viam os colonos ou os brasileiros como sem religião, desconsiderando sua cultura ao querer catequizá-los".

Não só a África ou países pobres têm sido alvo de missões de brasileiros. E nem só com sermões. Em julho, integrantes do grupo de teatro Oxigênio, da Igreja Presbiteriana Central de Curitiba, embarcaram para Madri, na Espanha, e fizeram apresentações de rua e em igrejas para 4 mil pessoas em 21 dias. Até uma penitenciária de Madri entrou no roteiro.

O trabalho foi realizado em parceria com a agência Jovens com Uma Missão (Jocum), que é internacional (está em 180 países) e reúne representantes de várias igrejas. O ramo brasileiro da Jocum conta com 250 missionários em outros países.

No caso das mulheres enviadas a Moçambique, a preparação para a viagem começou meses antes, com busca de informações sobre o país e levantamento de doações. Todas levaram para uso próprio apenas cinco quilos de bagagem, na mala de mão. Nas outras duas malas de 32 quilos a que cada uma tinha direito foram levadas doações. Cada mulher teve de levantar dinheiro para pagar seus custos de passagem e hospedagem - algumas receberam doações de milhas aéreas.

Em Dondo, o grupo ficou hospedado em uma casa que é usada por missionários americanos. A van 1990, usada nos deslocamentos para diferentes projetos desenvolvidos na cidade de 55 mil habitantes, foi conduzida por Ercílio Greva, moçambicano de 24 anos que se converteu ao cristianismo aos 17 e hoje estuda engenharia, é treinador de handebol e trabalha para uma ONG americana.

Algumas mulheres deram aulas de música, pintaram e redecoraram as salas da creche. Outras fizeram atendimento odontológico com um consultório portátil levado do Brasil e prepararam uma festa para os pequenos. As aulas de culinária das brasileiras encheram a cozinha construída no fundo do terreno da igreja.

Uma das alunas era Ana Paula, de 36 anos e mãe de oito filhos, sendo os dois últimos gêmeos de três meses de idade. Ela contou que queria "dar os bebês", porque ficou viúva e não tem condições de criá-los. Em outras salas ou no quintal, as moçambicanas aprenderam a fazer fuxico (flores de tecido) e também bijuterias.

O pastor Jerônimo Cessito, marido de Noêmia, que está cursando mestrado em educação, fez questão de mostrar a escola El Shaddai, aberta em 2006. Há mais espaço para a construção de salas, para hortas, um poço e uma capela, que ainda depende de recursos. "Uma coisa que aperta meu coração é a criança", contou. "Se não fizermos nada, ela vai crescer do mesmo jeito. Se fizermos, poderá fazer diferença no país."

As salas da escola eram de madeira, mas atraíam cobras e foram substituídas por tijolos. De madeira ficou apenas o lugar onde a cozinheira Francisca Fernandes prepara as refeições dos alunos. Ela mostrou um pacote com arroz enriquecido com soja, vegetais e temperos. "É da América", disse. Uma igreja de Minnesota (EUA) doou 1 milhão de pacotes de 390 gramas cada um para os projetos desenvolvidos em Dondo.

Nas salas, as crianças usam camisetas de cor laranja enviadas por brasileiros. No pátio, brincam com parquinho construído por meio de doações. Mas a realidade continua sendo dura. Malária é algo comum lá. As pessoas dormem cobertas por véus, usam repelentes contra insetos e, mesmo assim, correm riscos.

Noêmia nunca passou um ano sem a doença. Ela mostrou o posto de saúde que atende duas mil pessoas e tem médico e enfermeiro cedidos pelo governo. Uma maca, quando encaixada em uma bicicleta, serve de ambulância.

Ali é um dos locais em que Juliana Mota, de 27 anos, nutricionista de São Paulo, vai fazer o acompanhamento do desenvolvimento das crianças. Ela chegou em julho e vai embora em dezembro. Marisa Ferreira, paulistana de 47 anos, é pedagoga e desembarcou no país para ficar um ano, já ficou cinco e não tem data para voltar. Na mesma vizinhança, a igreja está construindo uma padaria, onde um padeiro vindo do Rio de Janeiro vai passar três meses ensinando os moçambicanos a fazer pão.

Dondo é cortada pela ferrovia por onde começaram recentemente a transitar trens da Vale carregados de carvão. Com investimentos estrangeiros e melhoras na economia, ofertas de emprego estão aparecendo. "Há oportunidades, mas é preciso estar preparado", disse a professora moçambicana Helena Reich. Ela é casada com Edmundo, também professor. Segundo ele, na região cada pessoa vive com o equivalente a US$ 1 por dia, ou cerca de 30 meticais, que é a moeda local.

Com a malária e a aids, há na região muitas viúvas, algumas infectadas com o vírus. Júlia Bola, de 40, perdeu o marido há dez anos para a malária e, atualmente, faz parte da equipe que realiza visitas a soropositivas. Tem quatro filhos, mas só ficou com dois, porque os outros foram morar na capital, Maputo, com a família do marido. Agustinho, 12, um dos filhos, abraçou as missionárias vestido com a camiseta do Brasil que ganhou na igreja. Ele dorme em uma esteira ao lado da mesa e sofre de tuberculose.

À noite, os adolescentes prepararam um culto típico de aldeia. Como faltou luz, usaram lamparinas com querosene. Depois de músicas e danças típicas, foi oferecido um jantar que é considerado banquete. As brasileiras comeram com as mãos, como é comum no país. No prato havia "shima," (receita tradicional, feita com farinha de milho branco e água), além de arroz, molho de tomate, peixe e matapa (caldo de couve, mandioca e amendoim).

No domingo, foi programada visita a uma aldeia. O trajeto foi feito em três horas em asfalto com buracos e estrada de chão. No caminho, o motorista parou em uma vila para arrumar o freio da van. Um rapaz, que disse chamar-se Gaspar, chegou até a janela e perguntou o que as mulheres estavam fazendo. Uma disse que estava em uma missão e perguntou se ele conhecia Jesus. "Dizem que ele veio só para os brancos", respondeu o rapaz. Enquanto a missionária mostrava trechos da "Bíblia" que dizem que ele "veio para todos", apareceu outro jovem, para dizer que havia aceitado Jesus "como salvador pessoal". Gaspar tomou a mesma decisão e ficou com a "Bíblia".

Na aldeia, o grupo foi recepcionado com festa. Após culto e estudos em grupos, os participantes receberam doações dos pacotes de arroz enviados dos Estados Unidos. Em seguida, foi oferecido um almoço às visitantes. Sobre a mesa havia um roedor caçado no mato, em molho, arroz e pato assado.

Na aldeia não se fala português, mas o dialeto sena. Foi preciso usar tradutor na comunicação. No encontro de mulheres, em Nampula, muitas só sabiam o dialeto macua. Em sena, Deus é chamado de Mulungo. Em macua, é Muluko. A "Bíblia" foi traduzida para os dois dialetos.

"Na África, sem a igreja, o sofrimento seria maior", afirma o padre Camilo Pauletti, diretor das Pontifícias Obras Missionárias (POM), que tem 52 anos e morou 6 em Moçambique. De acordo com ele, a atividade exercida lá "não era apenas de evangelização, mas de promoção humana". O padre foi para ficar três anos e pediu para permanecer mais três. Teve 20 malárias. "Corri risco de morte duas vezes, mas quem vai para uma missão como essa sabe que corre riscos." Sobre os dialetos e limitações, ele tem uma opinião: "Às vezes, não é preciso fazer muito, basta estar junto". Pauletti foi mantido pela Igreja Católica do Rio Grande do Sul e por amigos. Ajudou a fazer 70 poços de água comunitários e batizou 7,2 mil pessoas, grande parte adultos. O padre planeja visitar o país em 2012.

Segundo levantamento do Conselho Missionário Nacional (Conima), da Igreja Católica, há 1.829 brasileiros da denominação que estudam ou trabalham no exterior e exercem atividades missionárias, a maioria mulheres (80%). Do total, 29,8% estão na África, 27,6% na América do Sul e 26,5% na Europa.

Na volta ao Brasil, as mulheres foram recebidas pela família e até uma pequena orquestra tocou no aeroporto de Curitiba no desembarque. Muitas já planejam o retorno à África.



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