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sábado, 12 de agosto de 2017

A religiosidade brasileira e sua "fé de conveniência"

Interessante análise do jornalista britânico Tim Vickery, correspondente da BBC no Brasil (e talvez o mais brasileiro dos ingleses), sobre a religiosidade nacional (de lá e - principalmente - de cá), não por acaso publicada na BBC Brasil, como era de se imaginar:

Tim Vickery: A religiosidade brasileira muitas vezes é fé de conveniência

Estou sozinho agora na casa da minha mãe, nos arredores de Londres, porque ela foi à igreja - ela faz parte de uma minoria da sociedade britânica, de talvez 5%, que ainda tem o hábito de ir ao culto.

E essa fatia minúscula não é de fanáticos. Uma vez, numa visita anterior, eu (que não tenho nenhum sentimento religioso) comentei que não consigo ver a ligação entre a morte de Jesus Cristo e nossos pecados.

"Estranho", respondeu a minha mãe. "O meu pastor falou exatamente a mesma coisa na semana passada."

Trata-se de uma doutrina fundamental de qualquer religião cristã, mas até um empregado da Igreja Anglicana não acredita nele. A igreja dele tem pouco a ver com religião, mais a ver com uma missão vaga de ser "um bom sujeito".

Tudo isso, claro, nada mais é do que uma consequência do recuo da fé cega a partir do Iluminismo, no século 16, e a descoberta de que a Terra gira ao redor do Sol. Por que acreditar naqueles que afirmavam o contrário?

Uma pesquisa recente aponta que somente 28% da população britânica acredita em Deus ou em qualquer poder espiritual, ante 38% totalmente sem tal fé. Me lembra bem a minha época na escola, quando uma sessão de zombaria da professora sempre começava com a pergunta "Senhora, você acredita em Deus?"

Como a situação é diferente nas Américas! Nos Estados Unidos, por volta de 60% da população vai para a igreja. E, no Brasil, não acreditar em Deus é inconcebível para muitos.

As minhas enteadas ficavam tão fascinadas com o assunto que cada vez que alguém me visitava da Inglaterra isso sempre era a primeira pergunta que tinha que traduzir.

Uma vez a resposta a respeito de religiosidade foi "Não, não tenho nenhuma tolerância para superstições medievais", frase que foi um desafio e tanto para suas mentes então pré-adolescentes.

Mas - e estou ciente de estar entrando em uma generalização vasta e vulgar - se a crença na existência de Deus é quase total no Brasil, a fé, em muitos casos, parece bastante rasa.

Quando vejo políticos corruptos dando benção para dinheiro ilegal, ou jogadores de futebol louvando depois de cavar um pênalti, fico com a sensação de que a religiosidade brasileira, com frequência, trata-se de uma fé de conveniência.

É menos um código que determina como viver a vida e mais um recurso que se pega ou se larga conforme as circunstâncias.

Pode ser que seja uma extensão da tara brasileira por parentesco fictício. A figura do pai ausente é muito importante numa terra de padrinhos, onde o personagem político de mais destaque na formação do país, Getúlio Vargas, cultivava um tipo de fascismo benigno do tio universal.

É bastante factível que vários brasileiros imaginem Deus como uma espécie de Vargas celestial, bonzinho e indulgente.

Vargas também desempenhou um papel importante no desenvolvimento da religião no Brasil, e não me refiro à aproximação com a Igreja Católica que leva à estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro. Muito mais importante é a urbanização do país que ele promoveu.

O interessante aqui é que, no exemplo inglês, o crescimento das cidades foi um fator significativo no declínio da religião.

No caso da minha mãe, por exemplo, ela é uma mulher do interior que cresceu com o hábito de ir à igreja e nunca o perdeu. Mas não é de hoje que as igrejas nas cidades vivem vazias - na verdade, nunca encheram. A mudança para uma vida urbana acabou cortando a prática de ir à igreja.

No Brasil, entretanto, o que mais se vê na periferia das cidades são igrejas - só que nesse caso a Igreja Católica tradicional perdeu, mas as evangélicas novas ganharam espaço.

E seu público, em grande parte, são os migrantes internos, que trocaram a vida do campo pelas oportunidades da cidade grande - e também as suas complexidades, problemas a ameaças.

Nesse ambiente novo, complexo e confuso, as igrejas evangélicas não somente oferecem o conforto espiritual da fé, mas também uma rede de apoio social.

Nesse cenário, não é somente a ausência da figura paternal que impulsionou o crescimento da religião, mas também a ausência do Estado.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.



domingo, 30 de julho de 2017

Cerveja brasileira incomoda fundamentalistas hindus


A matéria é do Diário de Notícias de Portugal:

Hindus pedem que cerveja brasileira Brahma mude de nome

Brahma é o nome de um deus hindu

Um grupo de hindus pediu a mudança da marca de cerveja brasileira Brahma, propriedade da multinacional cervejeira Anheuser-Busch InBev, com sede em Lovaina, na Bélgica, argumentando que é inapropriado uma bebida alcoólica ter o nome que um deus hindu.

O líder norte-americano/hindu Rajan Zed, numa declaração feita na quarta-feira no estado do Nevada, nos Estados Unidos, disse que no hinduísmo Brahma, Vishnu e Shiva formam a grande tríade das suas divindades.

De acordo com Zed, ligar o deus Brahma com uma bebida alcoólica é muito desrespeitoso.

O uso inadequado das divindades, conceitos ou símbolos hindus para o comércio ou outros fins não é aceitável e fere a sensibilidade dos devotos, de acordo com Zed, que é presidente da Sociedade Universal do Hinduísmo.

"O hinduísmo é a terceira maior religião do mundo com cerca de 1,1 mil milhões de seguidores e um vasto pensamento filosófico e não deveria ser encarada de modo frívolo. Símbolos de qualquer fé, maior ou menor, não devem ser desrespeitados", de acordo com Rajan Zed.

"Além disso, o caráter sagrado de (divindade) Brahma não fica bem em propagandas e anúncios da cerveja Brahma, declarou Rajan Zed.

Celebridades de Hollywood, como Megan Fox e Jennifer Lopez, já atuaram em anúncios da cerveja Brahma.

A Anheuser-Busch InBevtem mais de 500 marcas de cerveja em cerca de 150 países, entre as quais as brasileiras Brahma e Skol, e outras como a Budweiser e Corona.



domingo, 23 de julho de 2017

Sobre magia, auto-ajuda e graça de Deus

Coluna de Leandro Karnal publicada no Estadão de 19/07/17:

A magia do amor

A política absorveu parte do que era a teologia antiga na promessa da felicidade

Existe um livro extraordinário de Sir Keith Thomas: Religião e o Declínio da Magia – Crenças Populares na Inglaterra, Séculos XVI e XVII (Companhia das Letras, 1991). A pergunta básica do professor de Oxford ao lançar o livro, em 1971, foi saber por qual motivo a crença no pensamento mágico declinou na Idade Moderna. O livro é repleto de trechos memoráveis e é daquelas leituras que lamentamos terminar. Qual o motivo para um livro tão fundamental estar esgotado há mais de 25 anos? Trata-se de insondável mistério editorial brasileiro.

Após examinar astrologia, bruxas, fantasmas e outros, ele encerra a obra com um capítulo sobre o recuo das crenças mágicas. Por qual motivo ocorreu o declínio mágico? Para o autor, o avanço do pensamento científico, dos seguros (que diminuem a insegurança) e da própria reforma protestante colaborou para o processo. Porém, uma nova atitude pessoal de confiança em si foi anterior ao processo de crescimento científico. Para Thomas, a magia declinou um pouco antes de um domínio real do pensamento científico. “Na medicina, como em outras áreas, as teorias sobrenaturais saíram de cena antes que entrassem técnicas eficazes” (pág. 537); “Somos, portanto, forçados a concluir que os homens se emanciparam das crenças mágicas sem terem, necessariamente, criado quaisquer tecnologias eficazes para pôr no lugar delas” (pág. 540).

Há, na primeira modernidade, a ascensão de um modelo de confiança e segurança do valor de cada um, que excede o campo do avanço técnico. Os séculos 18 e 19 viram emergir a crença otimista no indivíduo, que tem uma ponta, simbólica, no Iluminismo. Keith Thomas trata do tema da autoajuda, da ideia de autonomia de cada consciência de promover uma melhora efetiva na sua vida e no seu meio. Com certos recuos, a curva ascensional da autoajuda é o sintoma do mundo que substituiu ou transformou as crenças mágicas.

Vejamos três exemplos. Um dos grandes sucessos editoriais do século 19 foi o livro Self-Help, de Samuel Smiles (1812-1904). O livro do escocês é do mesmo ano da Origem das Espécies, de Charles Darwin: 1859. O texto é um louvor ao modelo do empreendedor, citando grandes nomes dos negócios e dando conselhos muito úteis sobre o uso de dinheiro e progresso. Acima de tudo, espalha a ideia de que você é gestor da sua vida. O tímido igarapé de Samuel Smiles viraria um caudaloso rio no mundo atual. Até a morte do autor, o livro tinha atingido a cifra de quase um quarto de milhão de exemplares vendidos e era admirado por quase todos no Império Britânico.

O processo de ascensão do realizador individual que se orienta rumo ao sucesso cresceu. Ele é contemporâneo de duas outras criações. O segundo exemplo é o crescimento da questão do amor materno e da certeza do amor incondicional. A Idade Moderna é a lenta ascensão da figura da mãe e da devoção aos filhos que aparecem no Emílio (1762) de Rousseau ou nas pinturas de madame Vigée LeBrun (1755-1842). O século 19 é o triunfo da criança e do amor materno, consagrado, no início do 20, com a instituição do Dia das Mães.

O amor materno torna-se incondicional e assim será representado. A mãe desnaturada é um monstro e a literatura vai torná-la uma caricatura. As crianças passam a ouvir que são lindas, que podem contar sempre com o auxílio materno e que tudo será perdoado. Mudamos a psicologia do indivíduo ocidental.

O último ponto a transformar é a customização do Deus do Juízo Final, do deus vingativo do Dies Irae e do capítulo 25 de Mateus para um deus de pleno amor e inesgotável perdão. O deus definido como amor (como no apóstolo João) substituiu o Deus do afresco de Michelangelo. Nada de um Jesus juiz, mas um Jesus todo amor. A ascensão do culto católico ao Sagrado Coração, sempre aberto e receptivo, sempre acolhedor e que me ama incondicionalmente é um salto imagético. Os protestantes, com mau humor, chamaram o culto ao Coração de Jesus como “idolatria cardíaca católica”.

Um Deus julgador e terrível condenando almas ao inferno aparece nas visões das crianças de Fátima, mas representam uma voz camponesa e pouco culta de um mundo antigo. A vitória era do misericordioso coração do qual emanam graças incessantes sobre todos. Claro que o tema de Deus-amor é bíblico e a misericórdia divina é milenar. Porém, basta comparar um catecismo antigo cheio de pecados e punições com um atual, cheio da beleza de um Deus sorridente e amigão.

Livros de autoajuda, mães incondicionais e Deus misericordioso expondo seu coração a uma humanidade pecadora são três exemplos (há centenas) de uma nova concepção de um indivíduo otimista e feliz, cheio da ideia de que o mundo o ama e que deve estar à sua disposição. A nova crença em si substituiu (ou sublimou) a crença mágica de outrora. A política absorveu parte do que era a teologia antiga na promessa da felicidade. Relendo a obra de Keith Thomas, interrompia o livro para pensar nos novos deuses humanos, o Homo Deus de Yuval Harari. Terminei o livro no sábado pensando: acho que ainda teremos saudades do pensamento mágico que colocava o mal em bruxas que podiam ser queimadas. O novo homem feliz e realizado é um deus terrível. Boa semana a todos!



sábado, 3 de junho de 2017

Conhecido por sua música sacra, Bach também tinha um lado profano


A matéria é do Estadão:

Religioso, Bach via em música profana 
'divertimento do espírito'

Compositor criou mais música profana do que sacra em seus anos vividos em Leipzig

João Marcos Coelho*

A imagem que temos hoje de Johann Sebastian Bach (1685-1750) é a de um compositor capaz de introduzir estudantes na música com as tecnicamente fáceis Invenções a Duas e Três Vozes e o Pequeno Livro de Ana Magalena Bach, mas também de desafiar os maiores virtuoses com o Cravo Bem Temperado, sem esquecer a grandiosidade das 200 cantatas, da Missa em Si Menor e da Arte da Fuga, obra abstrata sem indicação de instrumentação.

Alfa e ômega para os músicos, Bach é o Himalaia do público. Sua imagem convencional é a do homem profundamente religioso que compunha uma cantata por semana como responsável pela música em um punhado de pequenas cidades espalhadas por um raio de cem quilômetros – carreira provincial que culminou na Igreja de Santo Tomás, em Leipzig, em seus derradeiros 27 anos.

Um retrato curiosamente desmontado por um dos maiores especialistas na sua música sacra, o inglês John Eliot Gardiner, responsável pela gravação de todas as cantatas, as paixões, a Missa e o Oratório de Natal. Sua devoção a Bach é tamanha que sua gravadora chama-se SDG, as iniciais da expressão que Bach costumava colocar no pé de seus manuscritos: Soli Deo Gloria. Mesmo num ritmo alucinante de gravações e concertos, comemorou seus 70 anos, em 2013, concluindo e lançando na Inglaterra seu livro Música no Castelo do Céu.

Herdamos do século 19 a imagem que temos de Bach, diz Gardiner, como o organista e compositor de cantatas, religioso por excelência. Alguns números desmentem isso: ele compôs, em 27 anos de atividade em Leipzig, 800 horas de música sacra; e 1.200 horas de música profana em dez anos à frente do Collegium Musicum. Numa peça publicada em 1738, Bach acrescentou ao costumeiro “Soli Deo Gloria” o seguinte: “Para a glória de Deus e o legítimo divertimento do espírito (...) se não se leva isso em conta, não há música verdadeira.”

O capítulo sobre o Bach profano o mostra divertindo-se semanalmente no Café Zimmermann, comandando uma orquestra para dar autênticos shows aos cultores da bebida que, então recém-chegada à Europa, era sinônimo de droga quase proibida. Bach interessou-se pela música profana por causa das constantes brigas com o Conselho da cidade, que lhe tolhia as iniciativas e cortava verbas. De outro lado, seus 20 filhos exigiam que ele se multiplicasse: comercializava instrumentos. Os shows no Zimmermann complementaram sua renda. Ele dirigiu o Collegium Musicum entre 1728 e 1737; nos dois anos seguintes foi “artista convidado” e em 1739 retomou a titularidade até 1741. Anualmente, fazia 61 apresentações no Café: no verão, das 16 às 18 horas, na parte externa, com as mesas ao ar livre; no inverno, à noite, na parte fechada. Para dar mais brilho, compôs as quatro aberturas orquestrais e adaptou para cravo solista concertos originais para violino de Antonio Vivaldi. Um dos hits bachianos era a Cantata do Café, música e versos deliciosos cantando o nirvana que proporcionava a novíssima bebida. Um pesquisador imaginou o repertório desses concertos: Bach esbanjando técnica no estonteante Prelúdio e Fuga em Dó Menor do Cravo (BWV 847); a Suíte para Orquestra em Ré Maior (BWV 1068); e o Concerto em Fá Maior para Cravo, Duas Flautas Doces e Cordas (BWV 1057), que nada mais é do que um arranjo do Concerto de Brandenburgo no. 4, com o próprio solando e liderando os músicos.

Este Bach profano revive no recentíssimo CD Bach Trios (Nonesuch), aventura fascinante de três músicos notáveis: o bandolinista californiano Chris Thile, 35 anos, que surgiu com o grupo de bluegrass progressivo Nickel Creek; o violoncelista Yo-Yo Ma, 61 anos, há décadas superstar que rompeu fronteiras artísticas; e o contrabaixista Edgar Meyer, de 56 anos. Três músicos de experiências, formações e personalidades muito diferentes, que comprovam o acerto da afirmação do jovem compositor californiano Timo Andres, 32 anos, em seu texto no encarte: “Junte aleatoriamente um grupo qualquer de músicos numa sala: independente de seus instrumentos, histórias pessoais e personalidades, eles vão acabar encontrando um fundamento comum tocando Bach.”

Como Bach, que intercambiava melodias em textos ora profanos, ora sacros, e brincava literalmente com todas as músicas do mundo europeu que o rodeava, este trio nos convida a um show bachiano num formato tipicamente barroco, o da trio sonata, em que dois ou três instrumentos melódicos eram acompanhados pelo cravo, que fazia a base harmônica (o chamado baixo contínuo). Aqui, o bandolim ora arpeja como o contínuo, por exemplo, no Prelúdio Coral para Órgão BWV 650; ora assume o comando melódico como no Vivace Inicial da Trio Sonata BWV 530 que abre o CD. O violoncelo de sonoridade ampla democraticamente dá bastante espaço ao bandolim, mas por momentos brilha de modo intenso, como em outro Coral para Órgão, BWV 639.

Tudo aqui é muito conhecido. As melodias frequentam o inconsciente coletivo. Talvez o ponto culminante da perfeita integração entre eles ocorra na Sonata BWV 1029, original para viola da gamba. Na seção central da fuga, uma linha contínua é tocada pelos três instrumentos sucessivamente, como se fosse uma corrida de revezamento, em que é perfeita a passagem do bastão (oops!, da melodia) de um para outro. Isto sim é música que alimenta a alma, como queria o “Soli Deo Gloria” de Bach. Mas sem esquecer que a música é também um “legítimo divertimento do espírito”. Pois só assim “há música verdadeira”.

*João Marcos Coelho é crítico musical e jornalista


Para o nosso deleite, "A Arte da Fuga", BWV 1080 - T. Koopman and T. Mathot:




Uma caricatura de leve para humanizar Bach.




quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Pedófilos americanos querem usar Bíblia em sua defesa no tribunal

Esten (o filho, à esquerda) e Timothy (o pai, à direita) sendo levados ao Tribunal.

O horror, ah, o horror... sempre encontra formas fantasmagóricas para se apresentar no mais alto grau de depravação.

Parece que, a cada dia que passa, aumenta o número de pessoas que acha que pode fazer o que quiser se invocar alguma suposta "unção" que lhe foi outorgada por uma autoridade divina.

Leia a matéria do ConJur abaixo se tiver estômago:

Americanos acusados de estupro querem usar só a Bíblia em suas defesas

Por João Ozório de Melo

Quando o julgamento de Timothy Ciboro e Esten Ciboro, pai e filho, começar nesta semana, a mesa da defesa terá apenas um livro: a Bíblia.

Na audiência preliminar na sexta-feira (20/1), o pai, acusado de estuprar a filha adotiva, e seu filho, acusado de estuprar a irmã adotiva, disseram à juíza Linda Jennings, de um tribunal de Toledo, Ohio, que querem usar a Bíblia em sua defesa (que eles mesmos irão fazer) porque esse é “o único livro que realmente importa”.

“Há uma grande quantidade de estratégias nas Escrituras. E eu uso essas estratégias para tudo o que faço na vida. É uma parte importante de tudo o que faço”, declarou o filho. Ele e o pai disseram à juíza que não têm fé na lei dos homens e nas pessoas que a praticam.

De acordo com a acusação, o pai, 53, e o filho, 28, estupraram a criança por três anos (de 2012 a 2015). No último ano, eles a mantinham amarrada no porão da casa. Mas um dia, com 13 anos de idade, ela conseguiu escapar, quando os dois passaram o dia fora. A polícia a encontrou na estrada, com uma mochila e duas sacolas, pedindo ajuda.

Os dois foram presos em maio deste ano. A polícia disse ao jornal The Blade, de Toledo, que eles a alimentavam com restos de comida e a obrigavam a urinar em um balde com amônia. O pai também é acusado de estuprar a irmã mais nova da menina.

Além de estupro, eles são acusados de sequestro e de colocar a vida de uma criança em perigo. Isso significa muitos anos de prisão, o que levou a juíza a insistir que fossem representados por um advogado. Eles recusaram a oferta.

“Profissionais construíram o Titanic. Amadores construíram a arca”, eles disseram. Por isso, eles preferiam confiar em sua fé do que em qualquer profissional, incluindo advogados.

Mesmo assim, a juíza nomeou um advogado para acompanhá-los no julgamento, caso tenham alguma dúvida.

A juíza também permitiu a eles levar uma Bíblia para o tribunal do júri, mas advertiu-os que não poderão usá-la na inquirição de testemunhas. “É a opinião da corte que, embora a Bíblia seja muito importante, não é um livro jurídico que possa ser usado no tribunal do júri”, ela disse.

Os dois protestaram, porque era seu propósito confrontar as testemunhas “com a sagrada palavra de Deus”. “Acreditamos que o uso da Bíblia é fundamental para a nossa defesa”, afirmaram.

Igreja e Estado

Problemas da Justiça americana com religiosos, que afirmam nos tribunais não reconhecer outra lei que não a “Lei de Deus”, acontecem ocasionalmente. Normalmente se baseiam em legislações estaduais como a Lei da Restauração da Liberdade Religiosa — e não na Bíblia.

No estado de Indiana, uma mulher disse que bateu em seu filho com um cabide por causa de convicções religiosas. Ela foi condenada a um ano de prisão com suspensão condicional da pena.

Também em Indiana, um homem processado por sonegar imposto de renda se defendeu, no tribunal, com a mesma lei. Ele alegou que pagar imposto de renda ia contra suas convicções religiosas.

Há religiosos que buscam os tribunais para mover ações judiciais contra qualquer coisa que afronte suas crenças. O exemplo mais recente é o de empresas, de propriedades de religiosos, que foram à Justiça contra o Obamacare, o seguro-saúde dos pobres. Elas se recusam a cobrir, no seguro saúde que oferecem a seus empregados, quaisquer custos de relacionados a controle de natalidade.

Os religiosos também têm ido à Justiça para garantir o que acham que é um direito: fazer orações antes do início de assembleias públicas e sessões legislativas. Ou de manter uma cruz na frente de órgãos públicos.



segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Bernardinho diz que "pacto com Deus" o levou a deixar a seleção de vôlei


A matéria foi publicada no blog Esporte Fera do Estadão em 14/01/17:

Bernardinho diz que 'pacto com homem lá de cima' o 'forçou' a deixar a seleção

Treinador comandou o time masculino de vôlei do Brasil por 16 anos e foi bicampeão olímpico

Poucos dias após oficializar a sua saída da seleção brasileira masculina de vôlei, a vida seguiu para Bernardinho. O treinador, que dirige o Rio de Janeiro na Superliga Feminina, comentou sobre sua saída da seleção pela primeira vez e revelou que uma promessa que fez antes de ser campeão olímpico pela segunda vez na carreira foi fundamental para ele deixar o cargo.

"Em certo momento da Olimpíada, fiz um pacto. Não sou muito religioso, mas pedi para me ajudar um pouco a sair de uma situação e falei que, se fizesse isso, prometia que iria embora. Então você não pode fazer uma promessa com o homem lá de cima e não cumprir. Estava na hora de cumprir. Eu deveria ter saído logo depois para evitar tudo isso (carinho da torcida). Eu fico constrangido, mas ao mesmo tempo muito grato por tudo isso", disse o treinador, logo após a vitória por 3 sets a 0 de sua equipe para cima do Valinhos.

Visivelmente emocionado, Bernardinho também resolveu virar a página de todas as polêmicas que entrou enquanto estava à frente da seleção e fez um agradecimento especial ao ponteiro Murilo, que foi cortado do grupo que disputou a Olimpíada no Rio de Janeiro e, após o anúncio da saída do treinador, fez diversos elogios no Twitter e mostrou a sua gratidão. "Agradeço a cada pessoa que convivi nesse período, peço desculpas a quem fiz sofrer, aqueles que cortei, mas no fundo todos sabem que tentei fazer o melhor. Recebi mensagens muito gratificantes, como a do Murilo, que foi cortado agora, e para mim isso é o mais importante. Agora tenho a oportunidade de responder a ele em cadeia nacional, e agradeço tudo o que ele fez e a grandeza que teve por ter me agradecido", completou.



quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Presos oram e citam Salmo 17 durante rebelião e matança no RN


A matéria foi publicada no Congresso em Foco, onde pode ser ouvido o áudio a que eles se referem:

Em áudio atribuído ao PCC, criminosos comemoram massacre no RN, fazem oração e dizem que guerra em presídios não acabou

Áudio atribuído a lideranças da facção criminosa no Ceará mostra que confronto dentro das cadeias está longe de acabar. “Não pensem nossos inimigos que estaremos de brincadeira. Quem tocar em um PCC será morto.” Um dos presos lê passagem bíblica

POR EDSON SARDINHA E JOELMA PEREIRA

A Secretaria de Justiça e da Cidadania do Ceará informou ao Congresso em Foco que o serviço de inteligência da pasta analisa a veracidade de uma gravação atribuída a presidiários que se identificam como lideranças da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) no estado. No áudio, que circula pelo Whatsapp, eles comemoram o massacre que resultou na decapitação de 26 detentos da Penitenciária Estadual de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, no último fim de semana, afirmam que a “guerra não acabou” e fazem uma oração pelos colegas de facção assassinados em confrontos em outros presídios no início deste ano.

No início da gravação, um dos interlocutores declara que fala diretamente da Privação Provisória de Liberdade (CPPL) III, em Itaitinga, “QG (Quartel General) do 15 (PCC)” para “dar um grito de guerra em vitória aos nossos irmãos do Rio Grande do Norte”. Em seguida, um preso que se apresenta como “Irmão Trovão” anuncia como uma vitória o massacre no Rio Grande do Norte. “Vencemos hoje o nosso maior inimigo do Nordeste, o Sindicato do RN não existe mais. Tá ligado (sic), meus parceiros?” A fala é sucedida por gritos de comemoração.

Em seguida, o interlocutor diz que a facção pode dar a “volta por cima, com inteligência, sabedoria e disciplina” no Ceará e ainda sugere uma estratégia para que isso ocorra: “Nessa hora temos de ser muito cautelosos, batizar em sigilo nas cadeias desse estado do Ceará. Nós não perdemos a guerra, só a batalha”. “Vamos ter cautela. Os que nós perdeu (sic) nós vamos recuperar, dia e noite, nós vamos recuperar”, acrescenta.

Salmo 17

O criminoso, então, passa a fazer uma oração – uma versão resumida do Salmo 17 – pelos companheiros de facção mortos e em homenagem aos seus familiares. “Vamos fazer oração aos nossos irmãos que se foi (sic) nessa luta, nessa guerra, que é o nosso sangue. Vamos incansavelmente lutando dia e noite pela nossa família do PCC. Suas famílias ficaram aí, seus parentes, nós estamos aqui”.

“Ouve, Senhor, a justiça; atende ao meu clamor; dá ouvidos à minha oração, que não é feita com lábios enganosos. Saia a minha sentença perante o teu rosto e a razão. Provaste o meu coração; visitaste-me de noite e nada acha. Propus que meu coração não transgredirá tanto pelo trato quanto pela tua palavra. Me guarde das veredas do destruidor. Dirige os meus passos nos teus caminhos, para que as minhas pegadas não vacilem. Eu te invoquei, ó Deus, pois me queres ouvir. Guarda-me como a menina que dá sobeja às suas crianças. Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça quando eu acordar”, lê o presidiário.

Segundo a Secretaria estadual de Justiça e Cidadania, o material será analisado e, caso seja confirmada a sua veracidade, “as medidas necessárias serão adotadas”. No Ceará, os presos foram separados por facções para evitar confronto logo após o massacre que resultou em 56 mortes no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, na virada do ano. Os crimes no Amazonas foram atribuídos à Família do Norte (FDN), ligada ao Comando Vermelho, do Rio de Janeiro, rival do Primeiro Comando da Capital. Uma semana depois, em Roraima, novo massacre resultou em 31 mortos, vinculados ao Comando Vermelho e à FDN. A autoria foi atribuída ao PCC. Até o momento não houve registro de incidentes nas cadeias do Ceará. Após a divulgação do áudio, porém, policiais reforçaram a vigilância de algumas unidades prisionais no estado.

No último sábado, 26 presos foram assassinados e decapitados no Rio Grande do Norte pela organização criminosa paulista. Os mortos eram do Comando Vermelho, da FDN e do Sindicato do Rio Grande do Norte.

Em seguida, outro preso, que se apresenta como “Irmão Cigano” faz ameaças. “Não pensem nossos inimigos que estaremos de brincadeira. Quem tocar em um PCC será morto. Se tocar em nossas famílias, receberão a resposta à altura, porque unidos…”, afirma. “Venceremos”, completam os demais presidiários. O áudio é encerrado aos gritos de 1533 – em alusão ao P (15ª letra do alfabeto) e ao C (terceira letra).



terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Garoto americano morre após pais adotivos orarem em vez de buscar um médico

Seth Johnson, um sorriso que se apagou devido à negligência e ao fanatismo de quem devia cuidar dele... 

Tristemente, mais uma demonstração de que a religiosidade não serve para desmascarar a depravação humana. A matéria é d'O Globo:

Menino morre 'após seus pais rezarem em vez de chamar um médico'

Criança teve pancreatite aguda e infecção generalizada; Pais são acusados pela polícia

PLYMOUTH, EUA — Um menino 7 anos de idade morreu após seus pais rezarem por ele em vez de levá-lo ao hospital, alega a promotoria pública do estado americano de Minnesota. Os pais, Timothy e Sarah Johnson, foram indiciados por negligência e devem comparecer ao tribunal este mês.

Por semanas, o menino Seth Johnson sofreu de pancreatite aguda e sepse — infecção geral grave —, mas nunca foi levado pelos pais para se consultar com um médico. De acordo com a Justiça, o garoto chegou a ser deixado em casa sozinho sob os cuidados do irmão de 16 anos para os pais irem a um casamento num fim de semana. Na volta, com o filho em um estado de saúde mais crítico, os pais simplesmente oraram para ele e o colocaram para dormir. Apenas quando Seth foi encontrado incosciente e coberto de vômito, os pais ligaram para a polícia.

— Não podemos compreender como um pai deixaria um filho de 7 anos muito doente aos cuidados de um adolescente de 16 anos para que pudesse sair no fim de semana — disse ao "Independent" Mike Freeman, promotor do condado de Hennepin. — Nem podemos compreender como os pais se recusaram a voltar para casa no domingo de manhã para cuidar de seu filho doente quando eles foram avisados de sua condição grave. Também é difícil compreender por que os pais não chamaram uma ambulância no domingo à noite para obter imediatamente ajuda médica quando finalmente chegaram em casa.

PAIS DISSERAM TER 'PROBLEMAS COM MÉDICOS'

Segundo Freeman, apesar de Timothy e Sarah Johnson terem presunção de inocência, a equipe da promotoria usará todos os recursos para que eles sejam considerados culpados.

Um documento de cinco páginas elaborado pelos promotores explica como o casal conheceu Seth aos 3 anos de idade, adotou-o aos 4 anos e o educou em casa. Segundo este mesmo documento, o casal afirmou que o comportamento do menino mudou nas semanas que antecederam sua morte, em 29 de março de 2016. Ele parou de dormir, desenvolveu bolhas nas pernas, lesões nos calcanhares, passou a levar cerca de duas horas para fazer as refeições e, às vezes, jogava-se pelas escadas.

Mas, aparentemente, eles nunca procuraram ajuda profissional porque tinham "problemas com médicos", de acordo com o documento. Em vez disso, eles mesmos diagnosticaram o garoto com transtorno de estresse pós-traumático e lesão cerebral traumática.

Segundo a polícia, o casal afirmou que o menino tinha sido previamente diagnosticado com problemas identificados como síndrome alcoólica fetal e transtorno de apego reativo — quando se sofre de negligência infantil. No entanto, a clínica que os pais deram como referência para a polícia checar essas informações afirmou que não tinha nenhum registro de já ter tratado o menino alguma vez.

Suas feridas foram alegadamente tratadas com pomada antibiótica Neosporin e "mel medicinal". Quando os pais voltaram para casa, na noite em que o menino morreria, eles "oraram por sua saúde", e, depois de darem banho nele, colocaram Seth para dormir. Somente depois de o pai encontrá-lo inconsciente e coberto de vômito, a mãe ligou para a polícia.

O caso não é o primeiro assim a acontecer. No Canadá, um casal cristão teria rezado por duas horas para seu filho diabético que estava morrendo, sem levá-lo ao hospital. E, em outra ocasião, um pai foi preso por se recusar a procurar tratamento médico para seus filhos por causa de crenças religiosas.



quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Finados no México é dia de festa


A matéria é do HuffPost Brasil:

Dia dos Mortos é celebrado com orações e festa no México

No Brasil, o Dia de Finados costuma ser um dia de silêncio e orações. Já no México, o feriado é celebrado com festa, por três dias.

De 31 de outubro a 2 de novembros, amigos e familiares se reúnem para a milenar tradição do Dia dos Mortos, celebrada desde os aztecas.

Festas, comidas, música, desfiles e maquiagens temáticas, que simulam caveiras, fazem parte do ritual mexicano para lembrar com carinho das pessoas que morreram. A animada festa é considerada Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

Os mexicanos também fazem vigílias e levam oferendas para os túmulos. Eles também erguem altares em suas casas para homenagear as pessoas queridas que morreram, segundo o HuffPost México.

A seguir, veja algumas imagens da comemoração do feriado no México e nos locais com imigrantes, como os Estados Unidos:



Festas, comidas, música, desfiles e maquiagens temáticas, que simulam caveiras, fazem parte do ritual mexicano para lembrar com carinho das pessoas que morreram.



Celebrado de 31 de outubro a 2 de novembro, o Dia dos Mortos é um dos feriados mexicanos mais importantes. Na imagem, a vista noturna das lápides no cemitério de San Gregorio Atlapulco, em Xochimilco



Detalhe de uma oferenda em Xochimilco, no México



Pessoas reunidas em um cemitério de San Miguel Canoa



Imagem da celebração em San Miguel Canoa



Iyelitzin Cortes e Tonatzin Cortes exibem suas fantasias, na Cidade do México


Veja mais imagens no HuffPost Brasil.



quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Quando Abílio Diniz ia à missa em troca de gibi...

Entrevista no mínimo curiosa de Abílio Diniz concedida à coluna de Sonia Racy no Estadão:

Eu peço muito a Deus, mas só o que não consigo fazer sozinho’, diz Abilio Diniz

Religioso, o megaempresário Abilio Diniz lança novo livro e diz que cada um tem de traçar suas metas na vida e ir atrás delas. Como a dele hoje, de conseguir ‘longevidade com qualidade’

Conhecido pela determinação absoluta, o presidente do Conselho da BRF, acionista do Carrefour e comandante da Península – empresa de investimentos da família – volta com um segundo livro sobre sua história, 12 anos depois do primeiro e no mesmo ano em que completa 80 de vida. Abílio Diniz estava com a nova edição já pronta em 2014 mas suspendeu assim que soube que ela coincidiria com a publicação de outro escrito pela jornalista Cristiane Correa, também sobre sua vida.

Nas 175 páginas de Novos Caminhos, Novas Escolhas, a ser lançado na quarta-feira, na Livraria Saraiva do Pátio Higienópolis, o pai da Ana, João Paulo, Adriana, Pedro Paulo, Rafaela e Miguel relata, com ajuda do jornalista Sergio Malbergier, o caminho para conseguir o que se quer. “Muita coisa aconteceu nos últimos anos”, explica Diniz. O empresário mudou de rumo, saiu do Pão de Açúcar, casou-se e teve dois filhos.

“Eu me reinventei, e não só profissionalmente. Atribuo isso à minha fé em Deus.” . No fim do livro, o marido de Geyse reforça sua fé católica: dá receita de diferentes rezas para serem feitas durante 63 dias ininterruptamente. Olhando pra trás, o que faria ele hoje de diferente? “Quando tive o meu primeiro conflito com a família, se tivesse 70% da cabeça que tenho hoje, a história teria sido completamente outra.” Aqui vão os melhores trechos da conversa com a coluna.

Você planejou uma trajetória de vida e, no meio do caminho, as coisas mudaram. A briga com o Casino pelo Pão de Açúcar foi só financeira ou também emocional?

O objetivo, creio eu, não era financeiro. Mas tem o seguinte: o Abílio é um pacote, é um conjunto de coisas. O Abilio é um lutador, um winner, acho que sou um vencedor e que preciso sempre buscar desafios, procurando me superar.

Acredita que o ser humano controla o que ele quer ser?

Prego isso para os meus alunos. Uma das coisas de que falo no livro é: “Se eu posso, você também pode”. Quem olhar minha trajetória sabe que eu nasci filho de imigrante português, um padeiro. Nunca tive dinheiro, nasci num berço honrado mas sem nada. Se cheguei aonde cheguei, por que outros não podem chegar?

Então todo mundo tem possibilidade de vencer na vida?

Calma. É o seguinte: você escolhe o que quer na vida. Eu escolhi. Um caminho de desafios, de inconformismo com certas situações, um caminho com ambição, uma ambição controlada. Cheio de metas, para que eu fosse buscá-las.

E que fazer quando se faz uma escolha e não se consegue seguir?

Se coisas incontroláveis acontecem… e isso acontece, aconteceu comigo, só que eu consegui superá-las. Mesmo o caso do meu sequestro, contado no primeiro livro – eu falo muito en passant no segundo – eu superei. Da minha forma, pela fé em Deus. Foi Ele que mexeu os pauzinhos lá em cima. A crise de 90 eu superei, a briga que me levou a sair do GPA eu superei. Eu podia ter me acomodado, ir fazer outra coisa. As pessoas têm que traçar metas na vida. Eu tinha tudo para não dar certo na vida.

Por quê?

Eu era um sujeito de poucos recursos. Vivi na Várzea do Glicério boa parte da infância, era gordinho e baixinho, um horror. E fui buscar a minha condição física. Toda a minha vida dedicada ao esporte começou por precisar aprender a lutar para não apanhar. Foi mérito só meu? Não. Acho que tive uma boa base, minha mãe me deu uma coisa sensacional que foi me apresentar para Deus, e aí eu segui por esse caminho.

Você foi sempre religioso?

De menino, eu ia à missa sozinho. Saía da rua Tutoia, subia a av. Brigadeiro e ia na igreja da Imaculada Conceição, sozinho. Por que um menino de sete anos e meio vai à missa sozinho? Não é normal, mas eu ia.

O que o atraía? A missa, a liturgia, o estar na igreja?

A proximidade com Deus. E toda vez que eu ia à missa eu ganhava um dinheirinho da minha mãe (rsrsrsr…) Aí , eu passava na banca e comprava um gibi. Quer dizer, eu também experimentava um prazer tremendo. Mas minha mãe me deu a religião, a proximidade com Deus, e meu pai as noções de honestidade e ética. E aí, o que veio? Foram as escolhas que fiz. Antes de começar com supermercados eu estava pronto para sair da FGV e ir estudar nos EUA. Estava com o application da Michigan State University, queria ser professor. Minha ambição naquele momento era estudar, ter conhecimento e subir na vida.

O que é a religião pra você?

Acho que todos os caminhos levam a Deus. Religião, pra mim, é espiritualidade e fé. Eu peço muito a Deus, mas só peço a parte que eu não consigo fazer. Faço a minha parte. Depois, digo que já a fiz e que agora estou pedindo isso. Como peço, hoje, que Deus me dê longevidade com qualidade. Eu me cuido, faço esporte, controlo a alimentação, o estresse. O que não posso controlar eu peço a Ele.

Você sempre apostou nessa opção pelo esporte. E quanto à alimentação?

Comecei pelo esporte, a alimentação veio depois. Eu acreditava, quando pequeno, que se me pendurasse em alguma coisa eu ia espichar. Então, na minha casa, na Tutoia, arrumei uma barra de ferro e outra de madeira e ia me exercitando, achava que aquilo me alongava. Evidentemente não tem nenhuma base científica pra isso, mas o fato é que, com 15 anos, eu já tinha a altura que tenho hoje. Quanto à alimentação, um cara esportista, como eu sempre fui, queima o que come em excesso. Depois vai diminuindo a atividade física, o metabolismo desacelera, hoje não consigo fazer coisas como antigamente.

Fala disso no novo livro?

O Novos Caminhos, Novas Escolhas não tem só minha mudança de vida, tem a dos meus hábitos. No primeiro, eu dizia que quanto mais esporte, melhor. No segundo, mudo o conceito: você vê qual é o seu momento, o que quer do esporte, vai e faz. Agora, se você quer o esporte para qualidade de vida, longevidade, não pode exagerar. Está comprovado que o chamado endurance não é a melhor receita. Maratona, exercícios de longa duração, isso não é o melhor para a saúde.

Sua saúde física e mental é incrível, claro que devido, em parte, ao seu DNA. Mas se alguém nasce com DNA ruim, o que pode fazer?

Não tem DNA ruim nem bom. A genética é importante, na vida da pessoa, uns 20%. O restante é você. O que você faz, o que come, o seu entorno… Você comenta sobre estresse, que é importante mapear e controlar pra sofrer menos…

Sim, o jeito de se controlar o estresse é não se estressando por coisas que não sejam importantes. Eu lhe proponho: pegue um caderno de 100 folhas e comece a escrever o que é importante. Vai escrever duas ou três linhas. Tem muito pouca coisa realmente importante na vida.

O que é importante na sua?

Nós mesmos. Nossa saúde, as pessoas que amamos.

Em outro trecho do livro há referências à morte. Você parte do princípio de que é imortal e não pensa mais nisso…

Acho que a gente deve pensar assim. Sem sair da realidade, mas a gente não deve se preocupar com a morte. Você tem de olhar pra frente e não ficar pensando.

No texto aparecem, também, menções ao valor da humildade.

Sim. É que muita gente diz: “Pô, esse Abilio, imagina se ele é humilde…” Se as pessoas imaginam que humildade é fazer voto de pobreza e usar roupa velha, não tem nada a ver comigo. Mas se imaginam que é você ter a consciência de que não sabe tudo, que tem de ter respeito pelas pessoas, buscar coisas novas, estar aberto para ouvir coisas que não tem vontade de ouvir, isso sim é humildade – e eu a pratico.

Quando vem o próximo livro?

Tem gente me provocando para fazer o terceiro, mais técnico, mais business, ou sobre esportes, mas não sei se vou fazer. Dá trabalho, muito trabalho.



quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Cada um com os seus 100% ...








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