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domingo, 23 de julho de 2017

Sobre magia, auto-ajuda e graça de Deus

Coluna de Leandro Karnal publicada no Estadão de 19/07/17:

A magia do amor

A política absorveu parte do que era a teologia antiga na promessa da felicidade

Existe um livro extraordinário de Sir Keith Thomas: Religião e o Declínio da Magia – Crenças Populares na Inglaterra, Séculos XVI e XVII (Companhia das Letras, 1991). A pergunta básica do professor de Oxford ao lançar o livro, em 1971, foi saber por qual motivo a crença no pensamento mágico declinou na Idade Moderna. O livro é repleto de trechos memoráveis e é daquelas leituras que lamentamos terminar. Qual o motivo para um livro tão fundamental estar esgotado há mais de 25 anos? Trata-se de insondável mistério editorial brasileiro.

Após examinar astrologia, bruxas, fantasmas e outros, ele encerra a obra com um capítulo sobre o recuo das crenças mágicas. Por qual motivo ocorreu o declínio mágico? Para o autor, o avanço do pensamento científico, dos seguros (que diminuem a insegurança) e da própria reforma protestante colaborou para o processo. Porém, uma nova atitude pessoal de confiança em si foi anterior ao processo de crescimento científico. Para Thomas, a magia declinou um pouco antes de um domínio real do pensamento científico. “Na medicina, como em outras áreas, as teorias sobrenaturais saíram de cena antes que entrassem técnicas eficazes” (pág. 537); “Somos, portanto, forçados a concluir que os homens se emanciparam das crenças mágicas sem terem, necessariamente, criado quaisquer tecnologias eficazes para pôr no lugar delas” (pág. 540).

Há, na primeira modernidade, a ascensão de um modelo de confiança e segurança do valor de cada um, que excede o campo do avanço técnico. Os séculos 18 e 19 viram emergir a crença otimista no indivíduo, que tem uma ponta, simbólica, no Iluminismo. Keith Thomas trata do tema da autoajuda, da ideia de autonomia de cada consciência de promover uma melhora efetiva na sua vida e no seu meio. Com certos recuos, a curva ascensional da autoajuda é o sintoma do mundo que substituiu ou transformou as crenças mágicas.

Vejamos três exemplos. Um dos grandes sucessos editoriais do século 19 foi o livro Self-Help, de Samuel Smiles (1812-1904). O livro do escocês é do mesmo ano da Origem das Espécies, de Charles Darwin: 1859. O texto é um louvor ao modelo do empreendedor, citando grandes nomes dos negócios e dando conselhos muito úteis sobre o uso de dinheiro e progresso. Acima de tudo, espalha a ideia de que você é gestor da sua vida. O tímido igarapé de Samuel Smiles viraria um caudaloso rio no mundo atual. Até a morte do autor, o livro tinha atingido a cifra de quase um quarto de milhão de exemplares vendidos e era admirado por quase todos no Império Britânico.

O processo de ascensão do realizador individual que se orienta rumo ao sucesso cresceu. Ele é contemporâneo de duas outras criações. O segundo exemplo é o crescimento da questão do amor materno e da certeza do amor incondicional. A Idade Moderna é a lenta ascensão da figura da mãe e da devoção aos filhos que aparecem no Emílio (1762) de Rousseau ou nas pinturas de madame Vigée LeBrun (1755-1842). O século 19 é o triunfo da criança e do amor materno, consagrado, no início do 20, com a instituição do Dia das Mães.

O amor materno torna-se incondicional e assim será representado. A mãe desnaturada é um monstro e a literatura vai torná-la uma caricatura. As crianças passam a ouvir que são lindas, que podem contar sempre com o auxílio materno e que tudo será perdoado. Mudamos a psicologia do indivíduo ocidental.

O último ponto a transformar é a customização do Deus do Juízo Final, do deus vingativo do Dies Irae e do capítulo 25 de Mateus para um deus de pleno amor e inesgotável perdão. O deus definido como amor (como no apóstolo João) substituiu o Deus do afresco de Michelangelo. Nada de um Jesus juiz, mas um Jesus todo amor. A ascensão do culto católico ao Sagrado Coração, sempre aberto e receptivo, sempre acolhedor e que me ama incondicionalmente é um salto imagético. Os protestantes, com mau humor, chamaram o culto ao Coração de Jesus como “idolatria cardíaca católica”.

Um Deus julgador e terrível condenando almas ao inferno aparece nas visões das crianças de Fátima, mas representam uma voz camponesa e pouco culta de um mundo antigo. A vitória era do misericordioso coração do qual emanam graças incessantes sobre todos. Claro que o tema de Deus-amor é bíblico e a misericórdia divina é milenar. Porém, basta comparar um catecismo antigo cheio de pecados e punições com um atual, cheio da beleza de um Deus sorridente e amigão.

Livros de autoajuda, mães incondicionais e Deus misericordioso expondo seu coração a uma humanidade pecadora são três exemplos (há centenas) de uma nova concepção de um indivíduo otimista e feliz, cheio da ideia de que o mundo o ama e que deve estar à sua disposição. A nova crença em si substituiu (ou sublimou) a crença mágica de outrora. A política absorveu parte do que era a teologia antiga na promessa da felicidade. Relendo a obra de Keith Thomas, interrompia o livro para pensar nos novos deuses humanos, o Homo Deus de Yuval Harari. Terminei o livro no sábado pensando: acho que ainda teremos saudades do pensamento mágico que colocava o mal em bruxas que podiam ser queimadas. O novo homem feliz e realizado é um deus terrível. Boa semana a todos!



segunda-feira, 1 de maio de 2017

Absolvida médica acusada de mortes em UTI do Hospital Evangélico de Curitiba

Sem dó.
Antes de ser julgada, Virgínia de Souza virou caricatura, foi apelidada de "Dra. Morte" e massacrada pela imprensa.
Agora, absolvida em 1ª instância, resta saber quem lhe devolverá a honra e o trabalho que ela não pode mais exercer. 

Bom, quem já teve o desprazer de estar internado com lucidez dentro de uma UTI por alguns dias, como é o caso deste que vos escreve, tem uma noção clara do que significa tentar salvar uma vida, o que nem sempre é possível.

De repente, do nada surge uma movimentação gigantesca de toda a equipe de intensivistas, médicos e enfermeiros, para tentar fazer a ressuscitação de alguém que acabou de morrer. 

Algo um tanto quanto assustador para um "leigo" ver. E não é só isso...

A gente passa por experiências desagradáveis e traumáticas como, por exemplo, perceber que a taquicardia da paciente idosa ao lado não cede a nenhuma medicação, permanecendo entre 160 e 170 batimentos por minuto, selando seu destino em questão de dias ou horas.

Por outro lado, vemos momentos de profunda emoção como os filhos já adultos dessa mesma paciente com taquicardia que se revezam nos horários de visita para chorar ao lado de sua cama, tocá-la, massageá-la e dizer o quanto toda a sua família a ama e que todos a querem de volta ao convívio do lar.

Deve ser este amor que a mantém viva. Ou mantinha... já que quando saí da UTI ela continuou lá, não sei o que lhe aconteceu afinal.

Os "felizardos" que estão na UTI em condições de observar seu cotidiano se tornam, assim, espectadores privilegiados dos constantes embates entre vida e morte.

Essa é uma das experiências extremas da vida (e da morte) que ninguém - em sã consciência - gostaria de ter, mas, cá entre nós, todos deveriam por ela passar.

Ajuda demais a encarar a vida como ela realmente é. 

O que vale e o que não vale a pena viver...

Feitas essas considerações pessoais, ficou muito famoso o caso da médica intensivista Virgínia de Souza, que trabalhava na UTI do Hospital Evangélico de Curitiba (PR) e foi acusada de ter provocado a morte de centenas de pacientes terminais, tendo sido apresentada ao mundo como a maior "serial killer" de que se tinha notícia.

Sorte dela que ainda havia um juiz em Curitiba com disposição de não surfar na onda da opinião pública, aferir a acusação, ouvir a defesa e julgar com isenção.

Agora, devidamente processada e julgada, a Dra. Virgínia de Souza foi absolvida por falta de provas, razão pela qual a entrevista abaixo, concedida por ela ao G1 Paraná (com vídeo na página indicada), se reveste de profundo interesse, sobretudo numa época de julgamentos apressados para satisfazer as massas ignaras e constante cerceamento de defesa por quem deveria garanti-la:

'Ficaram ofendidos porque eram cobrados', diz médica sobre quem a denunciou por mortes em UTI

Virgínia de Souza foi inocentada por juiz que analisou a denúncia do Ministério Público.

A médica Virgínia Soares de Souza falou em entrevista ao Fantástico sobre as denúncias que a levaram à cadeia. Em 2013, ela e mais sete colegas foram acusados de antecipar mortes de pacientes internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Evangélico, em Curitiba. Em abril deste ano, todos foram inocentados, em primeira instância.

Ela acredita que as pessoas que fizeram a denúncia anônima à polícia se sentiram ofendidas pela forma como ela tratava os colegas dentro da UTI que chefiava. "[Foi] porque se sentiram ofendidos, ofendidos porque eram cobrados", avalia.

De acordo com a denúncia, ela e os outros colegas aplicavam coquetéis de remédios que levavam os pacientes à morte. O objetivo era liberar vagas na UTI, para outros pacientes. Por ser um hospital que oferece atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o Evangélico vive no limite da lotação máxima, em todos os setores.

Com a repercussão do caso, a polícia passou a analisar mais de 300 mortes que aconteceram na UTI do Evangélico, entre 2006 e 2013. As autoridades começaram a tratar esses casos todos como suspeitos.

Para a imprensa internacional, Virgínia chegou a ser considerada "a maior serial killer de todos os tempos". No entanto, a denúncia ateve-se apenas a poucos casos, onde exisitiram os indícios da conduta mortal.

Na sentença, porém, o juiz Daniel Avelar disse que, diante das provas apresentadas e das testemunhas ouvidas, não havia como comprovar a relação entre as ações de Virgínia e as mortes. Por essa razão, ele absolveu todos os réus.

Limites éticos

Virgínia diz que sempre trabalhou nos limites éticos, para garantir que os pacientes sob a responsabilidade dela pudessem se salvar. "Eu era conhecida mais como uma obstinada do que pelo motivo que eu fui acusada. Obstinado é um médico que chega a ultrapassar, vamos dizer, os protocolos e as regras e faz de tudo pelo resgate da vida", afirma.

Além da absolvição em âmbito jurídico, Virgínia foi inocentada em seis dos sete processos que foram abertos contra ela no Conselho Regional de Medicina do Paraná. O sétimo caso ainda não foi julgado.

Vida nova

Após as denúncias, Virgínia foi demitida do hospital em que trabalhou por 25 anos. Nesses quatro anos, ela fez cursos e hoje trabalha em casa, em um serviço de pesquisas por telefone. "Eu vou manter esse trabalho", diz.

Ela afirma que jamais vai voltar a trabalhar em uma UTI, ainda que não tenha perdido o registro como médica. "Por mais, vamos dizer, que a minha imagem seja modificada, pode haver uma dúvida em alguém e eu não suportaria isso nunca", diz.

MP vai recorrer

O Ministério Público do Paraná não concorda com a decisão de Avelar. Para o promotor que cuidou do caso, o juiz deixou de lado parte das provas apresentadas. Ele crê que Virgínia e os outros profissionais eram, de fato, culpados. "Porque nós entendemos que essa sentença foi insuficiente pra tantas provas existentes no processo.

Inclusive, a interceptação telefônica que guarda consonância com a aplicação dos medicamentos anotados no prontuário. O MP entende que então, há muito mais provas que precisam ser analisadas", diz.

Ele ainda acrescenta que há provas periciais que demonstram a conduta criminosa do grupo. "A verdade é que essas pessoas foram assassinadas naquela UTI. O MP não tem duvida e vai continuar lutando por isso pq nós temos provas fundamentadas em perícia médica oficial", afirma.

Caso o recurso seja aceito pelo Tribunal de Justiça do Paraná, (TJ-PR), os oito acusados ainda poderão responder pelos supostos crimes que teriam cometido, podendo ser condenados ou absolvidos. A decisão caberá aos desembargadores paranaenses.



sexta-feira, 31 de março de 2017

Justiça nega aposentadoria a mulher que cuidou do irmão inválido por 40 anos


Bem, às vezes, a "justiça" como valor filosófico não tem nada a ver com certas instituições que lhe emprestam o nome aqui embaixo, nesse indevassável pântano das nossas misérias sem fim.


TRF3 NEGA PEDIDO DE APOSENTADORIA COMO EMPREGADA DOMÉSTICA PARA MULHER QUE CUIDOU DO IRMÃO

Para a magistrada, não foi comprovado que havia relação de emprego, e sim de "amor e caridade”

A Nona Turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3) entendeu que é inviável o reconhecimento do trabalho como empregada doméstica de uma mulher que cuidou do irmão por mais de 40 anos, sem anotação na Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS), com a consequente concessão da aposentadoria por tempo de contribuição.

Para a relatora, desembargadora federal Marisa Santos, não foi possível concluir pelos depoimentos das testemunhas e provas no processo que houvesse relação de emprego entre os irmãos e sim de “amor e caridade”.

A ação foi ajuizada contra o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e no primeiro grau também foi julgado improcedente o pedido de aposentadoria por tempo de contribuição. A autora apelou ao TRF3 afirmando que havia sido contratada informalmente como empregada doméstica pelo irmão em 1967.

Para comprovar a atividade na condição de empregada doméstica, a autora juntou escritura pública de declaração que fizera junto ao 1º Tabelião de Notas de Marília/SP; certidão de interdição do irmão, onde consta como curadora; certidão de óbito do irmão, ocorrido em 24/04/2009; cartão de benefício (pensão por morte) recebido pelo irmão, onde a autora consta como representante; fotos do irmão; recibos de despesas médicas e resultados de exames da autora.

“Não existem nos autos quaisquer provas materiais do vínculo de trabalho para o irmão e extrai-se dos depoimentos que a autora zelava pelo irmão doente, inclusive recebendo o benefício previdenciário, a que ele tinha direito, para adquirir medicamentos e fraldas, cuidando de suas necessidades básicas, mas não é possível inferir que houvesse relação de emprego, e sim de "amor e caridade”, concluiu.

No TRF3, o processo recebeu o número 0000836-65.2011.4.03.6111/SP.

Assessoria de Comunicação do TRF3



domingo, 13 de setembro de 2015

Ler um livro pode turbinar os seus relacionamentos


A matéria é do Brasil Post:

Por que ler um livro faz bem para seus relacionamentos

Leigh Weingus

Boa notícia para todos vocês aí fora que gostam de ler: praticar a leitura por prazer traz muitos benefícios sociais, revela um estudo novo.

Uma sondagem realizada com 4.000 adultos no Reino Unido constatou que as pessoas que leem por prazer têm habilidades sociais melhores, comunicação melhor entre pais e filhos, índices mais baixos de depressão e demência e nível mais alto de bem-estar geral.

Por que será que passar um bom tempo a sós com um livro faz tanto bem a nossos relacionamentos?

“A prática da leitura nos leva a entender melhor nossa própria identidade e também pode nos ajudar em muito a nos relacionar com outras pessoas, entender a visão de mundo das outras pessoas e assim por diante”, diz a pesquisa do grupo britânico The Reading Agency, que promove a leitura. A informação é da BBC.

É claro que os benefícios de se perder em um livro vão muito além do que revelou a pesquisa mais recente. Um estudo de 2009 constatou que a leitura ajuda as pessoas a superar o estresse; outro estudo menor descobriu que as pessoas que leem na idade adulta mais avançada apresentam índice 32% mais baixo de declínio mental. E, se tudo isso não bastasse, ler livros também pode ajudar você a dormir melhor.

Ou seja, é hora de mergulhar fundo em um bom livro do tipo que você lê por prazer.



segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Amor de madrasta: a carta de despedida de D. Amélia ao enteado D. Pedro II

Feriadão, 7 de setembro, data tão querida, Dia da Independência do Brasil, ocasião oportuna para relembrar um episódio histórico pouco conhecido, em que o destaque é o amor de uma madrasta por seu enteado, no caso, aquele que seria Imperador do Brasil, conhecido como D. Pedro II.

Alguns dados biográficos são necessários para localizar o leitor na História, entretanto. Vamos lá!

D. Pedro II nasceu em 2 de dezembro de 1825, três anos após a proclamação da Independência do Brasil. 

Sua mãe era a austríaca Imperatriz Leopoldina, primeira esposa de D. Pedro I, figura emblemática e decisiva no rompimento dos laços com Portugal, que viria a falecer em 11 de dezembro de 1826, quando o herdeiro do trono acabara de completar seu primeiro ano de vida.

D. Pedro I se casou novamente em 1829 com D. Amélia de Leuchtenberg, princesa nascida em Milão, na Itália, mas descendente da nobreza franco-germânica da Casa dos Beauharnais.

Como segunda Imperatriz do Brasil, D. Amélia se desdobrou no cuidado dos enteados, filhos de Leopoldina, até que em 7 de abril de 1831, por ocasião da abdicação de D. Pedro I ao trono do Brasil em favor de seu filho, então com 5 anos de idade, ela acompanhou o marido em seu retorno imediato para a Europa.

D. Pedro II ficou sob os cuidados de seu tutor, José Bonifácio, e continuaria se correspondendo afetuosamente com a madrasta D. Amélia até a morte dela em 26 de janeiro de 1873.

É nesse contexto histórico que D. Amélia deixou essa belíssima carta escrita às pressas que vai transcrita abaixo, segundo a matéria do blog História Hoje:


Uma doce madrasta: a carta de despedida de D. Amélia ao enteado e futuro imperador D. Pedro II


Mais uma preciosidade do Correios Instituto Moreira Salles (IMS), a carta de despedida de Amélia Leuchtenberg ao seu querido enteado e futuro imperador do Brasil. No final, o link para ouvir um vídeo em que a atriz Julia Lemmertz faz uma leitura da emocionante missiva.




Uma coroa, um trono e um berço!

De Amélia de Leuchtenberg Para: D. Pedro II

Em 1831, em meio a forte crise política, dom Pedro I abdicou em favor de Pedro de Alcântara, então com seis anos de idade, filho de seu primeiro casamento com dona Leopoldina. Foi obrigado a deixar o Brasil com a segunda mulher, dona Amélia de Leuchtenberg, e, na madrugada de 7 de abril daquele ano, noite da partida, ela, que estava com 19 anos e amava os enteados, deixou esta carta ao menino e futuro imperador dom Pedro II.




Rio de Janeiro, [abril de 1831]

Meu filho do coração e meu imperador,

Adeus, menino querido, delícias de minha alma, alegria de meus olhos, filho que meu coração tinha adotado. Adeus para sempre.

Quanto és formoso nesse teu repouso! Meus olhos choro­sos não se puderam furtar de te contemplar! A majestade de uma coroa, a debilidade da infância, a inocência dos anjos cingem tua fronte de um resplendor misterioso que fascina.

És o espetáculo mais tocante que a terra pode oferecer! Quanta grandeza e quanta fraqueza a humanidade encerra, representadas por ti, criança idolatrada: uma coroa, um trono e um berço!

A púrpura ainda não serve senão para estofo, e tu, que comandas exércitos e reges um Império, ainda careces de todos os desvelos e carinhos de mãe.

Ah! querido menino, se eu fosse tua verdadeira mãe, se meu ventre te tivesse concebido, nenhuma força te arran­caria dos meus braços!

Mas tu, anjo de inocência e de formosura, não me perten­ces senão pelo amor que dediquei a teu augusto pai. Ape­nas sou tua madrasta, embora te queira como se fosses o sangue do meu sangue. Um dever sagrado me obriga a acompanhar o ex-imperador no seu exílio, através os mares, em terras estranhas… Adeus, pois, para sempre! Mães brasileiras, vós que sois meigas e carinhosas para com vossos filhinhos, supri minhas vezes: adotai o órfão coroado, dai-lhe, todas vós, um lugar na vossa família e no vosso coração.

Mães brasileiras, eu vos confio este preciosíssimo penhor da felicidade de vosso país e de vosso povo: ei-lo tão belo e puro como o primogênito de Eva no Paraíso. Eu vo-lo entrego: agora sinto minhas lágrimas correrem com menor amargura.

Dorme criança querida, enquanto nós, teu pai e tua mãe de adoção, partimos para o exílio, sem esperança de nunca mais te vermos… senão em sonhos.

Brasileiros! Eu vos conjuro que o não acordeis antes que me retire.

Adeus, órfão-imperador, vítima de tua grandeza antes que a saibas conhecer. Adeus…




Carlos Sarthou. Relíquias da cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Gráfica Olímpica Editora, 1961, pp. 111-112.

Você pode ouvir a leitura da carta feita por Julia Lemmertz no vídeo abaixo:




terça-feira, 7 de julho de 2015

Justiça de SC tira filhos de pais e tia-madrasta


A história absurda foi noticiada pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina:

Pais e madrasta são destituídos do poder familiar por tratamento desigual aos filhos

A 6ª Câmara de Direito Civil do TJ confirmou sentença de comarca do sul do Estado que destituiu pais e madrasta do poder familiar sobre duas crianças. Após ser abandonado pela mulher e ficar com os dois filhos, o apelante envolveu-se com a cunhada e com ela teve outras duas crianças. A partir daí, os filhos do antigo casamento passaram a ser declaradamente preteridos pela tia-madrasta. As crianças eram submetidas a afazeres domésticos exaustivos para a idade, e uma delas teve tratamento de grave doença negligenciado.

A madrasta afirmava não amar as crianças "como mãe", apenas como tia. Um casal próximo à família das crianças, e que detém a guarda delas há dois anos, já manifestou interesse em adotá-los. Ambos são chamados de pai e mãe pelos meninos. A mãe biológica quase não visita as crianças e o pai acabou por ser conivente com a atual esposa, apesar de declarar querer os filhos de volta. O desembargador Ronei Danielli, relator da matéria, afirmou que a negligência é uma das feições da violência física, e a simples afirmativa feita pela madrasta de que as crianças não eram amadas como seus irmãos por parte de pai já é motivo suficiente para pensar em destituição.

Ele também ressaltou a relação de amizade existente entre os candidatos à adoção e os pais biológicos, o que garantiria contato das crianças com suas raízes. "Eis o ponto crucial a ser priorizado: esses infantes merecem a chance de encontrar uma família bem-ajustada, consciente acerca das necessidades mais elementares de saúde e higiene e pronta a lhes fornecer a devida assistência médica, bem como o suporte emocional e espiritual, tão importantes para um crescimento sadio, humano e digno. Esses meninos merecem ser amados por uma mãe de verdade. Merecem experimentar um amor de mãe e não de tia (seja lá o que isso significar)", concluiu o desembargador. A decisão foi unânime.



sexta-feira, 25 de julho de 2014

Rapaz se casa 3 dias antes de morrer de câncer em hospital de Botucatu (SP)

Impossível não se emocionar com essa linda história de amor contada pelo G1 - TV TEM região de Bauru e Marília, com vídeo mais abaixo:

Noivo com câncer realiza sonho e se casa três dias antes de morrer

Cerimônia foi em hospital de Botucatu (SP).
Doença surgiu um ano depois que os dois começaram a namorar.

Buquê, alianças, noivos, família, amigos e amor. O casamento de Michele Alves de Oliveira e João Marcos da Silva teve todos os ingredientes de uma cerimônia tradicional, não fosse pelo lugar onde aconteceu: dentro de um hospital de Botucatu (SP). A união simbólica foi o último desejo do noivo, que morreu três dias depois, vítima de câncer em múltiplos órgãos.

O noivo descobriu há quatro anos que tinha câncer no abdômen. Após a primeira cirurgia para tentar conter o avanço do tumor, ele pediu Michele em casamento. No entanto, a doença continuou evoluindo e os planos do casal foram adiados até o dia 30 de junho, quando a união aconteceu, com direito a vestido branco, música e muita emoção.

No corredor, a noiva usava um vestido branco curto e foi guiada até o altar improvisado onde o noivo a esperava. Um painel foi fechado no corredor para dar privacidade à cerimônia. João estava internado no hospital havia três semanas quando ficou sabendo pelos médicos que teria só mais alguns dias de vida. Ele resolveu, então, realizar o sonho de se casar com Michele, com quem namorava há cinco anos.

O jovem passou por vários tratamentos e internações desde que descobriu a doença. Na última passagem pelo hospital, em junho, os médicos avisaram que ele precisaria passar por uma nova cirurgia, que João não aceitou. “A equipe médica alertou que ele não teria muito tempo de vida, mas, quando conversamos, ele me disse que só tinha um sonho para realizar antes de morrer, que era se casar comigo", conta Michele.

A tão esperada união teve ajuda da equipe médica. “Ela saiu triste da sala perguntando se seria possível casar dentro do hospital. Sabíamos que não era fácil, nem comum, mas agimos com o coração”, lembra a técnica em enfermagem Kelly Cristina da Silva, de 23 anos. Na sequência, os funcionários fizeram uma "vaquinha", organizaram a festa que ficou pronta em dois dias, com direito a bolo e salgadinhos, além da presença de um pastor.


Cerimônia

Apesar de não ter tido tempo de planejar o casamento como a maioria das noivas sonha, Michele conta que o resultado no hospital foi marcante. “Foi tudo muito delicado, simples e bonito. Ele dizia que estava muito feliz e que eu estava linda”, lembra emocionada a noiva que cantava e segurava as lágrimas durante a celebração.

Por conhecer o hospital e acompanhar a rotina os pacientes, Kelly lembra que o cuidado e amor que a jovem tinha com o noivo surpreendeu os profissionais. “Ela não saía de lá por nada, ficava até mais que a mãe", afirma a enfermeira, que diz não estar acostumada a ver provas de amor como esta. “Quando uma das duas pessoas está doente, o relacionamento costuma não durar. Não é nem porque não existe amor, mas muitos namoros e casamentos terminam porque aquele companheiro não quer que o outro veja seu sofrimento", afirma.

Convidada 'por acaso'

Entre médicos, enfermeiras, parentes e amigos próximos do casal, uma das pessoas que acompanhava a cerimônia estava lá por um acaso. Uma funcionária administrativa do hospital passava pelo quarto do noivo, quando descobriu o que estava acontecendo e se tornou fotógrafa oficial da cerimônia. “Achei que já tinha visto de tudo dentro de um hospital, e, de repente, vejo essa história bonita de amor acontecer e se realizar. Lindo demais", afirma a funcionária, que prefere não ser identificada.

A "fotógrafa" até postou em uma rede social sobre o quanto estava emocionada em participar daquele momento por acaso. “É impossível descrever a sensação que eu senti e sinto ainda ao pensar em tudo que passei ali naqueles 40 minutos. Deus sabe o quanto eu me segurei para não cair em lágrimas.”



Anos de namoro e dias de casamento

João morreu três dias depois da cerimônia que comoveu o hospital. Para a noiva Michele, o que fica são as lembranças dos bons momentos de anos de namoro e dos poucos dias de casamento. “Nunca o vi reclamando. Ele era divertido, extrovertido, animado, sempre brincalhão e tinha muita fé em Deus. É isso que eu vou guardar do meu noivo.”

Durante o tempo em que acompanhou João no tratamento, Michele conta ainda que muitas pessoas diziam que ela mantinha o relacionamento com ele por pena. No entanto, ela faz questão de afirmar que permaneceu com o namorado/noivo por amor e companheirismo.

"Mesmo enfrentando tudo isso, ele conseguia me fazer sentir a mulher mais feliz do mundo", comenta. Apesar do triste fim da história de amor, a noiva faz questão de contar a sua trajetória para inspirar outras pessoas.

“Não podemos desistir nunca. O João falava para ter fé até o último dia e nada de se abater ou desanimar diante de um sonho. Claro que eu queria que ele estivesse aqui e a gente estivesse comemorando a cura dele, mas acho que o casamento foi um conforto em meio à dor”, conclui Michele.


Há 2 vídeos que podem ser vistos com áudio original na página do G1.



quinta-feira, 17 de julho de 2014

Transformados pelo relacionamento


Artigo de Mateus Prates Mori, que gentilmente autorizou sua publicação aqui:

TRANSFORMADOS PELO RELACIONAMENTO

Já faz um tempo, ao menos na igreja onde congrego, ruminamos conversas intermináveis a respeito de relacionamentos. Porém, convenhamos, no geral, já sabemos o que os homens esperam de uma mulher e o que as mulheres esperam de um homem. Porém, não há como não admitir que há algo de errado conosco. Onde estamos falhando?

Além dos clichês que vemos por aí, ainda bem que, como cristãos, podemos ser autocríticos aplicando o conhecimento de Deus ao autoconhecimento e, consequentemente, a nossa condição desfavorável e indigna. Vejo que o que ocorre é uma antiga tática judaizante: esperar do outro algo que eu não cobro de mim mesmo. Mulheres elencam qualidades que desejam nos homens, como poder de decisão, gentileza, bom-humor, sensibilidade, paciência; e rejeitam defeitos como indecisão (bananice), grosseria, rabugice, indiferença e impulsividade. Homens por sua vez desejam submissão, companheirismo, suporte, admiração e cuidado; e rejeitam rebeldia, ciúmes, fofoca, espírito acusatório e dominação. OK! Sendo assim, como encontrar essa pessoa?

É nessa pergunta que mora o erro. Você não vai encontrar essa pessoa. Isso porque não estamos voltando os nossos olhos para a pessoalidade do relacionamento, e sim para o status do relacionamento. Ora, assim como o Pai nos aceita como somos, assim devemos aceitar aquele(a) que tomarmos a decisão de nos relacionar. O Pai nos aceita em Cristo Jesus e isso gera transformação; de igual modo devemos ser transformados durante o relacionamento.

Por favor, entendam! Não se espantem se eu disser para vocês não mudarem a si mesmos para serem aceitos por alguém. Essa mudança é falsa, mesquinha e egoísta; e digo mais, não procede de Deus e, sim, da sua vontade em ser aceito por alguém. Isso gera um impostor que não consegue se esconder por muito tempo, graças a Deus (caso você seja filho dEle). Não há mudança efetiva que possamos fazer para sermos aceitos. Isso é uma perversão do Evangelho.

Antes, se fomos resgatados do nosso fútil procedimento, especialmente agora não andaremos em novidade de vida, sendo transformados continuamente? Então como alguns de nós esperam que o outro seja formado completamente perfeito e não continuamente transformado rumo ao seio do Pai, através da operosidade da graça de nosso Senhor Jesus?

Sinceramente, estou cansado de escutar os inúmeros deveres e marcas de caráter que um homem e uma mulher devem ter. Onde está o diálogo sincero? Por que cosemos folhas de figueiras para esconder nossas vergonhas? Não deveríamos nos gloriar das nossas fraquezas para que em nós repouse o poder de Deus? Já tenho dito e insisto: você pode até gostar de uma pessoa por suas qualidades, mas, certamente, você a ama por seus defeitos. Verdadeiramente, você nunca será amado(a) porque você é amável; você é amável porque você é amado pelo Pai, em Cristo Jesus.

Então meus amados, não tentem procurar um amor baseado no que a pessoa tem a oferecer, mas no mesmo Cristo que te ama e que está nele(a). Lembremos que esse mistério já foi revelado, que é Cristo em vós, a esperança da glória (Cl 1.27); e não deturpem a referência de relacionamento que não seja nem libertina nem legalista, onde não reside qualquer sombra de relacionamento verdadeiro, mas em unidade de relacionamento com Jesus, sem o qual nada podemos fazer (Jo 15.5).



sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Fisiculturista campeão dedica título à esposa que venceu câncer de mama


O vídeo abaixo mostra o discurso de vitória de Phil Heath, vencedor (pela 3ªvez consecutiva) do título de Mr. Olympia, uma das maiores, senão a maior competição de fisiculturismo do mundo.

Ao agradecer (também a Deus) pelo campeonato de 2013, disputado em Las Vegas (Nevada - EUA), Phil Heath surpreendeu a todos e fez uma tocante homenagem à sua esposa, Jennie Heath, que recentemente enfrentou e superou um câncer de mama.

Ao ver um homem deste tamanho com esse traje mínimo, talvez alguém se sentisse à vontade para fazer uma piada, ou várias piadas, mas o discurso dele é um emocionante tributo a todas as mulheres que enfrentam o mesmo problema que sua esposa.

Como ele faz questão de frisar no seu discurso, essas mulheres guerreiras é que são as verdadeiras campeãs.

Além disso, como outubro é o mês internacional de conscientização sobre o câncer de mama, nada mais justo do que reproduzir aqui esse belíssimo discurso, para que todas as mulheres se dediquem, sem medo ou constrangimento algum, à prevenção da doença, sabendo que, uma vez diagnosticada precocemente, as possibilidades de cura são imensas.

Que as palavras de Phil Heath sirvam de estímulo a todas as mulheres, independentemente de sua condição de saúde, para que se cuidem mais e melhor, e sempre encontrem forças para vencer todos os desafios que a vida lhes apresenta.

Com vocês, o Mr. Olympia:




domingo, 29 de setembro de 2013

O discurso de Pepe Mujica na ONU



José "Pepe" Mujica, presidente do Uruguai, não é só o mandatário mais pobre do mundo, como já comentamos aqui no blog, mas também alguém que foge aos chavões dos discursos dos grandes líderes políticos globais.

O seu discurso na Assembleia Geral da ONU, na semana passada, alcançou repercussão mundial, maior do que as falas de Barack Obama, Dilma Rousseff, e tantos outros chefes de governo e de Estado que usaram a tribuna no mesmo evento.

O que não é pouca coisa para um presidente de um país com 3,5 milhões de habitantes. Mujica mostrou a veracidade do ditado popular que diz que tamanho não é documento.

A repercussão do discurso de Mujica foi tanta que até virou graffiti nas ruas de São Paulo:


via twitter @lucasrohan

Abaixo, o vídeo e a íntegra do discurso épico de Mujica, traduzido, obviamente, para o português:





Amigos, sou do sul, venho do sul. Esquina do Atlântico e do Prata, meu país é uma planície suave, temperada, uma história de portos, couros, charque, lãs e carne. Houve décadas púrpuras, de lanças e cavalos, até que, por fim, no arrancar do século 20, passou a ser vanguarda no social, no Estado, no Ensino. Diria que a social-democracia foi inventada no Uruguai.

Durante quase 50 anos, o mundo nos viu como uma espécie de Suíça. Na realidade, na economia, fomos bastardos do império britânico e, quando ele sucumbiu, vivemos o amargo mel do fim de intercâmbios funestos, e ficamos estancados, sentindo falta do passado.

Quase 50 anos recordando o Maracanã, nossa façanha esportiva. Hoje, ressurgimos no mundo globalizado, talvez aprendendo de nossa dor. Minha história pessoal, a de um rapaz — por que, uma vez, fui um rapaz — que, como outros, quis mudar seu tempo, seu mundo, o sonho de uma sociedade libertária e sem classes. Meus erros são, em parte, filhos de meu tempo. Obviamente, os assumo, mas há vezes que medito com nostalgia.

Quem tivera a força de quando éramos capazes de abrigar tanta utopia! No entanto, não olho para trás, porque o hoje real nasceu das cinzas férteis do ontem. Pelo contrário, não vivo para cobrar contas ou para reverberar memórias.

Me angustia, e como, o amanhã que não verei, e pelo qual me comprometo. Sim, é possível um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez, hoje, a primeira tarefa seja cuidar da vida.

Mas sou do sul e venho do sul, a esta Assembleia, carrego inequivocamente os milhões de compatriotas pobres, nas cidades, nos desertos, nas selvas, nos pampas, nas depressões da América Latina pátria de todos que está se formando.

Carrego as culturas originais esmagadas, com os restos de colonialismo nas Malvinas, com bloqueios inúteis a este jacaré sob o sol do Caribe que se chama Cuba. Carrego as consequências da vigilância eletrônica, que não faz outra coisa que não despertar desconfiança. Desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego uma gigantesca dívida social, com a necessidade de defender a Amazônia, os mares, nossos grandes rios na América.

Carrego o dever de lutar por pátria para todos.

Para que a Colômbia possa encontrar o caminho da paz, e carrego o dever de lutar por tolerância, a tolerância é necessária para com aqueles que são diferentes, e com os que temos diferências e discrepâncias. Não se precisa de tolerância com aqueles com quem estamos de acordo.

A tolerância é o fundamento de poder conviver em paz, e entendendo que, no mundo, somos diferentes.

O combate à economia suja, ao narcotráfico, ao roubo, à fraude e à corrupção, pragas contemporâneas, procriadas por esse antivalor, esse que sustenta que somos felizes se enriquecemos, seja como seja. Sacrificamos os velhos deuses imateriais. Ocupamos o templo com o deus mercado, que nos organiza a economia, a política, os hábitos, a vida e até nos financia em parcelas e cartões a aparência de felicidade.

Parece que nascemos apenas para consumir e consumir e, quando não podemos, nos enchemos de frustração, pobreza e até autoexclusão.

O certo, hoje, é que, para gastar e enterrar os detritos nisso que se chama pela ciência de poeira de carbono, se aspirarmos nesta humanidade a consumir como um americano médio, seriam imprescindíveis três planetas para poder viver.

Nossa civilização montou um desafio mentiroso e, assim como vamos, não é possível satisfazer esse sentido de esbanjamento que se deu à vida. Isso se massifica como uma cultura de nossa época, sempre dirigida pela acumulação e pelo mercado.

Prometemos uma vida de esbanjamento, e, no fundo, constitui uma conta regressiva contra a natureza, contra a humanidade no futuro. Civilização contra a simplicidade, contra a sobriedade, contra todos os ciclos naturais.

O pior: civilização contra a liberdade que supõe ter tempo para viver as relações humanas, as únicas que transcendem: o amor, a amizade, aventura, solidariedade, família.

Civilização contra tempo livre que não é pago, que não se pode comprar, e que nos permite contemplar e esquadrinhar o cenário da natureza.

Arrasamos a selva, as selvas verdadeiras, e implantamos selvas anônimas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com comprimidos, a solidão com eletrônicos, porque somos felizes longe da convivência humana.

Cabe se fazer esta pergunta, ouvimos da biologia que defende a vida pela vida, como causa superior, e a suplantamos com o consumismo funcional à acumulação.

A política, eterna mãe do acontecer humano, ficou limitada à economia e ao mercado. De salto em salto, a política não pode mais que se perpetuar, e, como tal, delegou o poder, e se entretém, aturdida, lutando pelo governo. Debochada marcha de historieta humana, comprando e vendendo tudo, e inovando para poder negociar de alguma forma o que é inegociável. Há marketing para tudo, para os cemitérios, os serviços fúnebres, as maternidades, para pais, para mães, passando pelas secretárias, pelos automóveis e pelas férias. Tudo, tudo é negócio.

Todavia, as campanhas de marketing caem deliberadamente sobre as crianças, e sua psicologia para influir sobre os adultos e ter, assim, um território assegurado no futuro. Sobram provas de essas tecnologias bastante abomináveis que, por vezes, conduzem a frustrações e mais.

O homenzinho médio de nossas grandes cidades perambula entre os bancos e o tédio rotineiro dos escritórios, às vezes temperados com ar condicionado. Sempre sonha com as férias e com a liberdade, sempre sonha com pagar as contas, até que, um dia, o coração para, e adeus. Haverá outro soldado abocanhado pelas presas do mercado, assegurando a acumulação. A crise é a impotência, a impotência da política, incapaz de entender que a humanidade não escapa nem escapará do sentimento de nação. Sentimento que está quase incrustado em nosso código genético.

Hoje é tempo de começar a talhar para preparar um mundo sem fronteiras. A economia globalizada não tem mais condução que o interesse privado, de muitos poucos, e cada Estado Nacional mira sua estabilidade continuísta, e hoje a grande tarefa para nossos povos, em minha humilde visão, é o todo.

Como se isto fosse pouco, o capitalismo produtivo, francamente produtivo, está meio prisioneiro na caixa dos grandes bancos. No fundo, são o vértice do poder mundial. Mais claro, cremos que o mundo requer a gritos regras globais que respeitem os avanços da ciência, que abunda. Mas não é a ciência que governa o mundo. Se precisa, por exemplo, uma larga agenda de definições, quantas horas de trabalho e toda a terra, como convergem as moedas, como se financia a luta global pela água e contra os desertos.

Como se recicla e se pressiona contra o aquecimento global. Quais são os limites de cada grande questão humana. Seria imperioso conseguir consenso planetário para desatar a solidariedade com os mais oprimidos, castigar impositivamente o esbanjamento e a especulação. Mobilizar as grandes economias não para criar descartáveis com obsolescência calculada, mas bens úteis, sem fidelidade, para ajudar a levantar os pobres do mundo. Bens úteis contra a pobreza mundial. Mil vezes mais rentável que fazer guerras. Virar um neo-keynesianismo útil, de escala planetária, para abolir as vergonhas mais flagrantes deste mundo.

Talvez nosso mundo necessite menos de organismos mundiais, desses que organizam fórums e conferências, que servem muito às cadeias hoteleiras e às companhias aéreas e, no melhor dos casos, não reúne ninguém e transforma em decisões…

Precisamos sim mascar muito o velho e o eterno da vida humana junto da ciência, essa ciência que se empenha pela humanidade não para enriquecer; com eles, com os homens de ciência da mão, primeiros conselheiros da humanidade, estabelecer acordos para o mundo inteiro. Nem os Estados nacionais grandes, nem as transnacionais e muito menos o sistema financeiro deveriam governar o mundo humano. Sim, a alta política entrelaçada com a sabedoria científica, ali está a fonte. Essa ciência que não apetece o lucro, mas que mira o por vir e nos diz coisas que não escutamos. Quantos anos faz que nos disseram coisas que não entendemos? Creio que se deve convocar a inteligência ao comando da nave acima da terra, coisas assim e coisas que não posso desenvolver nos parecem impossíveis, mas requeririam que o determinante fosse a vida, não a acumulação.

Obviamente, não somos tão iludidos, nada disso acontecerá, nem coisas parecidas. Nos restam muitos sacrifícios inúteis daqui para diante, muitos remendos de consciência sem enfrentar as causas. Hoje, o mundo é incapaz de criar regras planetárias para a globalização e isso é pela enfraquecimento da alta política, isso que se ocupa de todo. Por último, vamos assistir ao refúgio de acordos mais ou menos “reclamáveis”, que vão plantear um comércio interno livre, mas que, no fundo, terminarão construindo parapeitos protecionistas, supranacionais em algumas regiões do planeta. A sua vez, crescerão ramos industriais importantes e serviços, todos dedicados a salvar e a melhorar o meio ambiente. Assim vamos nos consolar por um tempo, estaremos entretidos e, naturalmente, continuará a parecer que a acumulação é boa, para a alegria do sistema financeiro.

Continuarão as guerras e, portanto, os fanatismos, até que, talvez, a mesma natureza faça um chamado à ordem e torne inviáveis nossas civilizações. Talvez nossa visão seja demasiado crua, sem piedade, e vemos ao homem como uma criatura única, a única que há acima da terra capaz de ir contra sua própria espécie. Volto a repetir, porque alguns chamam a crise ecológica do planeta de consequência do triunfo avassalador da ambição humana. Esse é nosso triunfo e também nossa derrota, porque temos impotência política de nos enquadrarmos em uma nova época. E temos contribuído para sua construção sem nos dar conta.

Por que digo isto? São dados, nada mais. O certo é que a população quadruplicou e o PIB cresceu pelo menos vinte vezes no último século. Desde 1990, aproximadamente a cada seis anos o comércio mundial duplica. Poderíamos seguir anotando dados que estabelecem a marcha da globalização. O que está acontecendo conosco? Entramos em outra época aceleradamente, mas com políticos, enfeites culturais, partidos e jovens, todos velhos ante a pavorosa acumulação de mudanças que nem sequer podemos registrar. Não podemos manejar a globalização porque nosso pensamento não é global. Não sabemos se é uma limitação cultural ou se estamos chegano a nossos limites biológicos.

Nossa época é portentosamente revolucionária como não conheceu a história da humanidade. Mas não tem condução consciente, ou ao menos condução simplesmente instintiva. Muito menos, todavia, condução política organizada, porque nem se quer tivemos filosofia precursora ante a velocidade das mudanças que se acumularam.

A cobiça, tão negatica e tão motor da história, essa que impulsionou o progresso material técnico e científico, que fez o que é nossa época e nosso tempo e um fenomenal avanço em muitas frentes, paradoxalmente, essa mesma ferramenta, a cobiça que nos impulsionou a domesticar a ciência e transformá-la em tecnologia nos precipita a um abismo nebuloso. A uma história que não conhecemos, a uma época sem história, e estamos ficando sem olhos nem inteligência coletiva para seguir colonizando e para continuar nos transformando.

Porque se há uma característica deste bichinho humano é a de que é um conquistador antropológico.

Parece que as coisas tomam autonomia e essas coisas subjugam os homens. De um lado a outro, sobram ativos para vislumbrar tudo isso e para vislumbrar o rombo. Mas é impossível para nós coletivizar decisões globais por esse todo. A cobiça individual triunfou grandemente sobre a cobiça superior da espécie. Aclaremos: o que é “tudo”, essa palavra simples, menos opinável e mais evidente? Em nosso Ocidente, particularmente, porque daqui viemos, embora tenhamos vindo do sul, as repúblicas que nasceram para afirmas que os homens são iguais, que ninguém é mais que ninguém, que os governos deveriam representar o bem comum, a justiça e a igualdade. Muitas vezes, as repúblicas se deformam e caem no esquecimento da gente que anda pelas ruas, do povo comum.

Não foram as repúblicas criadas para vegetar, mas ao contrário, para serem um grito na história, para fazer funcionais as vidas dos próprios povos e, por tanto, as repúblicas que devem às maiorias e devem lutar pela promoção das maiorias.

Seja o que for, por reminiscências feudais que estão em nossa cultura, por classismo dominador, talvez pela cultura consumista que rodeia a todos, as repúblicas frequentemente em suas direções adotam um viver diário que exclui, que se distância do homem da rua.

Esse homem da rua deveria ser a causa central da luta política na vida das repúblicas. Os gobernos republicanos deveriam se parecer cada vez mais com seus respectivos povos na forma de viver e na forma de se comprometer com a vida.

A verdade é que cultivamos arcaísmos feudais, cortesias consentidas, fazemos diferenciações hierárquicas que, no fundo, amassam o que têm de melhor as repúblicas: que ninguém é mais que ninguém. O jogo desse e de outros fatores nos retém na pré-história. E, hoje, é impossível renunciar à guerra cuando a política fracassa. Assim, se estrangula a economia, esbanjamos recursos.

Ouçam bem, queridos amigos: em cada minuto no mundo se gastam US$ 2 milhões em ações militares nesta terra. Dois milhões de dólares por minuto em inteligência militar!! Em investigação médica, de todas as enfermidades que avançaram enormemente, cuja cura dá às pessoas uns anos a mais de vida, a investigação cobre apenas a quinta parte da investigação militar.

Este processo, do qual não podemos sair, é cego. Assegura ódio e fanatismo, desconfiança, fonte de novas guerras e, isso também, esbanjamento de fortunas. Eu sei que é muito fácil, poeticamente, autocriticarmo-nos pessoalmente. E creio que seria uma inocência neste mundo plantear que há recursos para economizar e gastar em outras coisas úteis. Isso seria possível, novamente, se fôssemos capazes de exercitar acordos mundiais e prevenções mundiais de políticas planetárias que nos garantissem a paz e que a dessem para os mais fracos, garantia que não temos. Aí haveria enormes recursos para deslocar e solucionar as maiores vergonhas que pairam sobre a Terra. Mas basta uma pergunta: nesta humanidade, hoje, onde se iria sem a existência dessas garantias planetárias? Então cada qual esconde armas de acordo com sua magnitude, e aqui estamos, porque não podemos raciocinar como espécie, apenas como indivíduos.

As instituições mundiais, particularmente hoje, vegetam à sombra consentida das dissidências das grandes nações que, obviamente, querem reter sua cota de poder.

Bloqueiam esta ONU que foi criada com uma esperança e como um sonho de paz para a humanidade. Mas, pior ainda, desarraigam-na da democracia no sentido planetário porque não somos iguais. Não podemos ser iguais nesse mundo onde há mais fortes e mais fracos. Portanto, é uma democracia ferida e está cerceando a história de um possível acordo mundial de paz, militante, combativo e verdadeiramente existente. E, então, remendamos doenças ali onde há eclosão, tudo como agrada a algumas das grandes potências. Os demais olham de longe. Não existimos.

Amigos, creio que é muito difícil inventar uma força pior que nacionalismo chovinista das grandes potências. A força é que liberta os fracos. O nacionalismo, tão pai dos processos de descolonização, formidável para os fracos, se transforma em uma ferramenta opressora nas mãos dos fortes e, nos últimos 200 anos, tivemos exemplos disso por toda a parte.

A ONU, nossa ONU, enlanguece, se burocratiza por falta de poder e de autonomia, de reconhecimento e, sobretudo, de democracia para o mundo mais fraco que constitui a maioria esmagadora do planeta. Mostro um pequeno exemplo, pequenino. Nosso pequeno país tem, em termos absolutos, a maior quantidade de soldados em missões de paz em todos os países da América Latina. E ali estamos, onde nos pedem que estejamos. Mas somos pequenos, fracos. Onde se repartem os recursos e se tomam as decisões, não entramos nem para servir o café. No mais profundo de nosso coração, existe um enorme anseio de ajudar para que o homem saia da pré-história. Eu defino que o homem, enquanto viver em clima de guerra, está na pré-história, apesar dos muitos artefatos que possa construir.

Até que o homem não saia dessa pré-história e arquive a guerra como recurso quando a política fracassa, essa é a larga marcha e o desafio que temos daqui adiante. E o dizemos com conhecimento de causa. Conhecemos a solidão da guerra. No entanto, esses sonhos, esses desafios que estão no horizonte implicam lutar por uma agenda de acordos mundiais que comecem a governar nossa história e superar, passo a passo, as ameaças à vida. A espécie como tal deveria ter um governo para a humanidade que superasse o individualismo e primasse por recriar cabeças políticas que acudam ao caminho da ciência, e não apenas aos interesses imediatos que nos governam e nos afogam.

Paralelamente, devemos entender que os indigentes do mundo não são da África ou da América Latina, mas da humanidade toda, e esta deve, como tal, globalizada, empenhar-se em seu desenvolvimento, para que possam viver com decência de maneira autônoma. Os recursos necessários existem, estão neste depredador esbanjamento de nossa civilização.

Há poucos dias, fizeram na Califórnia, em um corpo de bombeiros, uma homenagem a uma lâmpada elétrica que está acesa há cem anos. Cem anos que está acesa, amigo! Quantos milhões de dólares nos tiraram dos bolsos fazendo deliberadamente porcarias para que as pessoas comprem, comprem, comprem e comprem.

Mas esta globalização de olhar para todo o planeta e para toda a vida significa uma mudança cultural brutal. É o que nos requer a história. Toda a base material mudou e cambaleou, e os homens, com nossa cultura, permanecem como se não houvesse acontecido nada e, em vez de governarem a civilização, deixam que ela nos governe. Há mais de 20 anos que discutimos a humilde taxa Tobin. Impossível aplicá-la no tocante ao planeta. Todos os bancos do poder financeiro se irrompem feridos em sua propriedade privada e sei lá quantas coisas mais. Mas isso é paradoxal. Mas, com talento, com trabalho coletivo, com ciência, o homem, passo a passo, é capaz de transformar o deserto em verde.

O homem pode levar a agricultura ao mar. O homem pode criar vegetais que vivam na água salgada. A força da humanidade se concentra no essencial. É incomensurável. Ali estão as mais portentosas fontes de energia. O que sabemos da fotossíntese? Quase nada. A energia no mundo sobra, se trabalharmos para usá-la bem. É possível arrancar tranquilamente toda a indigência do planeta. É possível criar estabilidade e será possível para as gerações vindouras, se conseguirem raciocinar como espécie e não só como indivíduos, levar a vida à galáxia e seguir com esse sonho conquistador que carregamos em nossa genética.

Mas, para que todos esses sonhos sejam possíveis, precisamos governar a nos mesmos, ou sucumbiremos porque não somos capazes de estar à altura da civilização em que fomos desenvolvendo.

Este é nosso dilema. Não nos entretenhamos apenas remendando consequências. Pensemos na causa profundas, na civilização do esbanjamento, na civilização do usa-tira que rouba tempo mal gasto de vida humana, esbanjando questões inúteis. Pensem que a vida humana é um milagre. Que estamos vivos por um milagre e nada vale mais que a vida. E que nosso dever biológico, acima de todas as coisas, é respeitar a vida e impulsioná-la, cuidá-la, procriá-la e entender que a espécie é nosso “nós”.

Obrigado.





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