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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Rainha Elizabeth perdoa Alan Turing, o fundador da computação moderna


Em 23 de junho de 2012, publicamos aqui no blog o artigo "Maçãs envenenadas", em que fizemos um resumo biográfico de Alan Turing, que - se vivo fosse - completaria 100 anos naquele dia.

Alan Turing, para quem não está familiarizado com o nome, é uma das pessoas, digamos, "anônimas" que mais contribuíram para o bem da humanidade no século XX.

Se você chegou até aqui navegando pela internet com toda a liberdade, isso se deve - em grande parte - a Alan Turing.

Primeiro, por ele ter ajudado a decifrar a criptografia nazista, o que foi decisivo na vitória aliada ao final da Segunda Guerra Mundial.

Segundo, por ter lançado as bases do que viria a ser a computação moderna.

Só que isto tudo foi feito debaixo do anonimato numa época em que o seu trabalho estava coberto pelo sigilo de Estado, e ele terminou se suicidando em 7 de junho de 1954, aos 41 anos de idade, após ter sido condenado por ser homossexual, que era crime na época e lhe rendeu uma castração química ordenada pela Justiça britânica.

Após uma grande campanha pela reabilitação do seu nome (penalmente falando), na véspera do último Natal a rainha Elizabeth finalmente emitiu o seu "perdão real" destinado a Alan Turing, o que, no Reino Unido, é algo raríssimo de acontecer.

O perdão majestático chegou tarde demais, mas os benefícios que ele trouxe para a humanidade, depois que foram finalmente conhecidos, já haviam se encarregado de reabilitar o seu nome perante todo o globo.

A matéria abaixo é do Terra:

Condenado por ser gay, homem que quebrou código nazista recebe perdão

Considerado o Pai da Computação, Alan Turing recebeu um perdão real póstumo

O britânico Alan Turing (1912-1954), que ajudou os aliados a vencer a 2ª Guerra Mundial ao quebrar o código secreto nazista, recebeu um perdão real póstumo.

Homossexual, Turing foi punido com a castração química por manter relações com pessoas do mesmo sexo.

Ao ser condenado, o especialista perdeu o acesso a informações sigilosas e teve de interromper o trabalho de quebra de códigos que se provou vital para os aliados durante a 2ª Guerra Mundial.

O perdão foi concedido sob a Real Prerrogativa do Perdão após uma solicitação do ministro da Justiça do Reino Unido, Chris Grayling.

Tratamento 'terrível'

"Alan Turing foi um homem excepcional com uma mente brilhante", afirmou Grayling. Ele disse que a pesquisa de Turing conduzida durante a guerra em Bletchley Park "encurtou o conflito" e "salvou milhares de vidas".

O trabalho de Turing ajudou os Aliados a ler as mensagens navais alemães cifradas com a máquina Enigma. Ele também contribuiu com um trabalho fundamental na quebra de códigos que só foi divulgado ao público em abril de 2012. "A sua vida foi ofuscada por sua condenação pela homossexualidade, algo que consideramos injusto e discriminatório e que agora foi finalmente revogada", afirmou Grayling.

"Turing merece ser lembrado e reconhecido por sua fantástica contribuição ao esforço de guerra e por seu legado à ciência. Um perdão da Rainha é uma homenagem justa a um homem excepcional."

O perdão passa a ter efeito nesta terça-feira, 24 de dezembro.

Morte

Turing morreu em junho 1954 por envenenamento por cianeto. Um inquérito aberto pela polícia concluiu que ele havia se suicidado. No entanto, biógrafos, amigos e outros alunos de sua vida contestam o laudo e sugerem que sua morte foi um acidente. Há anos, muitas pessoas vêm batalhando pela concessão de perdão a Turing. Em dezembro de 2011, um petição online foi criada no site do governo britânico reivindicando o perdão a Turing.

A campanha reuniu mais de 34 mil assinaturas, mas o pedido acabou negado por Tom McNally, então ministro de Estado no Ministério da Justiça britânico, para quem Turing havia sido "devidamente condenado" pelo que era considerado um crime na época. Antes disso, em agosto de 2009, uma petição havia sido criada para pedir o perdão a Turing. Na ocasião, o matemático ganhou um pedido de desculpas oficial do então primeiro-ministro Gordon Brown.

Brown definiu como "terrível" a maneira como Turing foi perseguido por sua homossexualidade.



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Na luta Malafaia x Eli Vieira quem apanha é a genética


Na controvérsia da semana, entre Silas Malafaia e Eli Vieira, que debatem a hereditariedade e o determinismo da homossexualidade, quem melhor analisa a questão (e de maneira mais isenta) é Pedro Burgos, em brilhante artigo publicado no portal OƎNE:

Malafaia “perdeu” e a ciência ganhou? Não tão rápido

“Me parece que o único motivo pelo qual o álcool é legal no Brasil, um dos motivos políticos é que simplesmente o cristianismo é dominante, e a religião dos Citas não teve esse privilégio de dominar e convencer um líder do Império Romano a adotar uma religião e forçá-la ao resto da população”. “Algumas hipóteses, de certos historiadores e arqueólogos, é sobre como a droga é tratada na própria Bíblia. Dizem que Jesus aplica um certo tipo de emplastro de ervas medicinais, pra ajudar num milagre, numa cura. É muito irônico, mas é possível, não sei qual é a probabilidade disso, que o próprio Jesus Cristo utilizou na narrativa bíblica a maconha como erva medicinal. Outra hipótese, o que também foi dito por historiadores e arqueólogos, é que é possível que todas aquelas visões e relatos de Moisés podem ter tido a influência de um cogumelo que cresce na área (risos).”

O autor da aula de hipóteses históricas é o geneticista Eli Vieira. Procurei a origem da história levantada por Eli e defendida no último Bulecast, e todas elas remetem a uma pesquisa publicada em 2003 na High Times, revista americana não muito acadêmica sobre o consumo de drogas. No seguimento da conversa sobre a Descriminalização da Maconha, o interlocutor Edward MacRae, pesquisador da UFBA e do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas, arremata: “Essa teoria que você está falando pra algumas pessoas é absolutamente estapafúrdia, mas não é.”1.

Corta para uma semana depois. Hoje o geneticista Eli Vieira já é uma certa estrela da internet. Lá de Cambridge, onde faz o doutorado na prestigiosa instituição britânica, ele coleciona curtidas, menções e visualizações do vídeo assistido por quase 1 milhão de pessoas. Suas explicações científicas sobre a homossexualidade agora são elogiadas por celebridades, jornalistas e deputados. Dias depois de conversar sobre teorias de uso da maconha na Bíblia (assunto bastante delicado para os cristãos) sem citar fontes ou com estudos não muito confiáveis, Eli, graças às ferramentas da internet, agora tinha cacife e audiência para bater de frente com Silas Malafaia, o milionário e influente pastor da Assembléia de Deus Vitória em Cristo.

A discussão, que começou na desastrada entrevista de Marília Gabriela com Silas Malafaia no domingo, se concentrou em um ponto. Nela, o pastor fala: “Quem pode dizer se alguém nasce gay ou não? Não é a psicologia, é a genética”. Eli Vieira usa isso como fio condutor para mostrar o seu lado científico, e começa o vídeo com uma explicação (meio pedante, se me permite) diferenciando o que é “inato” e o que é predisposição genética – como se deveríamos entender tudo que um pastor fala literalmente. E diz: “Posso garantir que, sim, há uma contribuição dos genes. Isso não é passível de ser discutido.” Não é o que pensa Silas Malafaia, que levou a discussão para o Twitter:

Veja os melhores momentos aqui.

O Capítulo Inteiro do Manual de Genética do Comportamento que Eli tuita tem as tabelas que ele cita no vídeo, triunfante – e vale a leitura, por ter linguagem bem acessível para quem entende o inglês. Aprendo por ali que desde os anos 50 foram feitas dez (e não dezenas) de pesquisas importantes com gêmeos para verificar se há, como ele sugere, uma prova cabal da influência genética na definição da homossexualidade.

Os estudos trazem, de fato, com graus bastante variáveis de concordância, o mesmo achado: há uma chance consideravelmente maior de um gêmeo monozigóticos ser homossexual quando o outro é, se compararmos com os gêmeos dizigóticos (chamados “fraternos”). Mas há problemas nessas pesquisas, que o próprio estudo citado por Eli pontua. Há o problema de os participantes da maior parte dos estudos terem sido selecionados a partir de chamadas em revistas para gays e lésbicas, a possibilidade de gêmeos idênticos terem tido a mesma criação (o que dificulta o isolamento do fator ambiental), a falta de variedade das amostras, basicamente nos EUA, e a absoluta falta de evidências quando falamos de homossexuais mulheres.

A revisão dos estudos citada pelo geneticista termina exatamente com este parágrafo, que eu prefiro traduzir na íntegra:

A essa altura, poucas conclusões podem ser atingidas com certeza no que diz respeito às determinantes genéticas e ambientais para a orientação sexual. Importantes inovações de metodologia de pesquisa têm o maior potencial para aprofundar o nosso conhecimento nas origens e desenvolvimento da orientação sexual humana. Pesquisas futuras deverão tentar também integrar outras abordagens biológicas, para prover informações valiosas sobre os caminhos específicos pelos quais os genes exercem a sua influência em orientação sexual e seus correlacionários.

É bastante diferente de “isso não é passível de ser discutido” ou “A genética está dizendo que quando um gêmeo é homossexual o outro também é. E a chance é maior quanto maior é o grau de parentesco entre eles. Então como a genética não tem a ver, Malafaia?”, algumas das frases proferidas no vídeo.

Em declarações posteriores, parece que o geneticista baixou o tom, deixando claro que o ambiente era igualmente importante, e falando que de fato a principal razão de ser do vídeo, era a “causa” da promoção da igualdade das pessoas independente da orientação sexual. Agora, enquanto escrevo, estamos em um terceiro momento do imbróglio, quando começam a vir outras pessoas da própria Academia questionando a validade da argumentação. No que ele responde:



O que me leva ao real problema, na minha visão, dessa história toda.



Ontem, acompanhando o Twitter e o Facebook, pareceu que a Ciência ganhou de goleada. Foi “uma aula da razão sobre o obscurantismo”, que deveria colocar um ponto final no assunto. Era “o cara que fez fortuna com a fé de muitos”, que não acredita na evolução das espécies, sendo derrotado pelos fatos por alguém razoavelmente como a gente que fala termos bonitos como monozigóticos e desfilava tabelas que pouquíssima gente tinha visto antes mas que, hey, seems legit. Não que eu não tenha vibrado um pouco no primeiro momento. Afinal, acho que o Eli, eu e boa parte dos leitores estamos todos aqui na mesma causa: também sou contra a ideia de Silas Malafaia de achar que seria algo desejável “consertar” homossexuais, de tratar uma opção sexual como doença. Isso, sim, tem que ser combatido de alguma forma.

Mas não sei se usar a ciência como algo infalível, com uma fé não muito diferente da fé na Bíblia, como solução. Eu sou apenas um jornalista, mas, de novo, encorajaria qualquer pessoa que sabe razoavelmente inglês e tiver algum tempo sobrando para dissecar as conclusões dos estudos apresentados por Eli Vieira. Até onde eu chequei, as pesquisas apresentadas ali fazem o que boas pesquisas em um campo relativamente novo deveriam fazer: dizem o que os estudos indicam e quais os próximos passos que merecem ser atacados para um entendimento melhor do assunto. Nenhuma pesquisa fala “é o que a ciência fala, se liga aí Pastor bbk”2.

Eu até entendo que muita gente tenha se sentido incomodada com as coisas que Silas Malafaia falou no domingo[^preconceito]. Mas o problema não é só o tom da revanche, mas a confiança cega em “estudos”. Quando é conveniente para Eli Vieira, como no podcast narrado lá no início, ele cita hipóteses3. Quando Silas cita livros e outros estudos que contradizem a sua visão, que tem até mais base, isso é “charlatanice”.

Isso pode soar “anti-ciência” e não, não é o caso – mas bem o contrário. Temos que adotar uma postura, na falta de um termo melhor, cientificista, de achar que um estudo X valida qualquer ideia, e pensarmos na floresta e menos nas árvores. Veja o que aconteceu na maior parte dos últimos 10 anos no debate sobre o impacto humano no aquecimento global, especialmente nos EUA. Há basicamente um consenso sobre as causas – e certamente sobre as consequências que vemos –, mas a virulência com que muitos dos proponentes dessa tese estava impondo a noção aos “céticos” ajudou a politizar o debate, e deixou a real questão (o que vamos fazer?) em segundo plano4.

E o que vimos no caso “Malafaia x Geneticista” foi basicamente isso. Alguém levantando o cedro mágico de “artigos peer reviewed” para provar algo que ainda não está provado. Não desmereço a didática de Eli Vieira, e certamente ele escreve coisas bem interessantes, como uma crítica bem fundamentada (ainda que eu discorde em alguns pontos fundamentais) sobre o livro de Miguel Nicolelis5. Para os otimistas, o vídeo serviu para refrescar alguns conceitos de genética que eu aprendi no Ensino Médio. Mas há um risco de reduzir excessivamente a questão, como pontuou Regina Facchini socióloga do Núcleo dos Estudos de Gênero da Unicamp em seu Facebook:

Todos já ouvimos sobre estudos que procuram demonstrar que o “comportamento sexual humano” sofre infuências genéticas ou biológicas de modo mais amplo. Não há novidade nisso. Esses estudos pipocam na mídia há décadas. O novo é assumir e procurar difundir, de uma perspectiva da genética, que há demonstrações científicas dessa influência, mas também há o fato de que o comportamento humano NÃO É DETERMINADO geneticamente.

Lamento o uso que se tem feito na rede desse vídeo pra dizer que “vejam, que bom, a gente nasce assim!”. Além de simplificação absurda da questão e distorção do que o autor do vídeo diz, há uma acomodação a um olhar reducionista em relação ao “comportamento humano”, que desconecta a questão de seu norte político mais profícuo: trata-se de reconhecimento ou não dos direitos humanos (e, portanto, do status humano) de um contingente de pessoas que se identificam ou são identificadas a partir de desejos e afetos não direcionados para pessoas do “sexo oposto”.

Observando tudo isso, meu primeiro impulso é um olhar bastante pessimista sobre as possibilidades e limites da articulação entre ciência e luta política. Tendo a pensar que as pessoas, inclusive ativistas por direitos LGBT, não estão prontas ou dispostas a ver complexidade alguma e que de fato esperam que alguém aponte uma origem única e bem simples do “comportamento humano”. O que mais pode explicar que Malafaia tenha tantos ouvidos e que a difusão do vídeo de Eli Vieira tenda a aquipará-lo a um determinista de quinta categoria? Infelizmente, me parece que esse desejo de simplificação é nosso maior inimigo político e – o pior! – ele mora dentro de nós mesmos.




1. Costumo assinar embaixo das ideias de Denis Russo a favor da legalização de algumas drogas, mas os argumentos mostrados no podcast são meio malucos, com base científica bastante discutível: em um momento, o professor convidado ao programa defende que “não há dúvidas que o crack tem de ser legalizado”. ↩

2. A busca pela determinação genética da sexualidade já tem mais de 20 anos, e volta e mai anunciam “achados definitivos” que são posteriormente desprovados. Em 1993, em artigo publicado na Science, cientistas afirmaram ter descoberto o “gene gay”. O Council of Responsible Genetics tem um bom resumo disso aqui. ↩

3. Para ser justo, são hipóteses “de humanas”, que não são comprováveis como algumas das ciências biológicas. ↩

4. Quando estava na Superinteressante escrevi uma matéria sobre os céticos do aquecimento global. Naquela época, entre 2006 e 2007, havia de fato uma cruzada contra esses cientistas e alguns estudos que ajudavam a sustentar teorias céticas – é possível lê-la na íntegra aqui. Eu terminava com uma frase de Michael Crichton: “A ciência não tem a ver com consenso. Consenso é coisa de política. Os maiores cientistas da história são grandes justamente porque desafiaram o consenso”. ↩

5. Eli resenhou, em 2011, o livro Muito Além do nosso eu de maneira tão crítica que mereceu briga pública e block no Twitter. Nicolelis achou que ele não tinha credenciais para discutir aquilo. ↩






Atualização de 21 de março de 2013

Nota divulgada pela Sociedade Brasileira de Genética:

Manifesto da Sociedade Brasileira de Genética sobre bases genéticas da orientação sexual

7 de março de 2013

A Sociedade Brasileira de Genética endossa as informações fornecidas pelo biólogo Eli Vieira em resposta ao pastor e psicólogo Silas Malafaia acerca das bases genéticas da orientação sexual.

A orientação sexual humana é uma característica multifatorial, influenciada tanto pelos genes como também pelo ambiente. Há fortes evidências de que o substrato neurobiológico para a orientação sexual já está presente nos primeiros anos de vida. Não há evidência de nenhuma variável ambiental controlável capaz de modificar de maneira permanente a orientação sexual de um indivíduo. Assim, essa faceta do comportamento humano é resultado de uma interação complexa entre genes e ambiente, em que nenhum dos dois tem efeito determinante por si só. Alegar que a genética nada tem a contribuir na compreensão da origem deste comportamento é ignorar meio século de avanços na nossa área.

Entendemos, também, que os fatos acerca dessa questão são desvinculados do debate ético sobre os direitos das pessoas que manifestam orientações sexuais e identidades de gênero.

No entanto, neste momento histórico em que o físico Stephen Hawking faz campanha para que o governo britânico se retrate pelos males que causou a Alan Turing, homossexual e pai do computador, expressamos que nós, como cientistas, desejamos um mundo mais igualitário, em que as pessoas não sejam julgadas pela sua orientação sexual ou identidade de gênero, mas apenas pela firmeza de seu caráter. Um mundo assim é um mundo mais receptivo ao pensamento científico, que se constrói de forma humilde e tentativa, em vez de dogmática e impositiva.



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Médico perde licença por castrar quimicamente seguidor de seita australiana

Dois meses atrás, quando o mundo celebrava o centenário de Alan Turing, comentamos brevemente sobre como ele foi castrado quimicamente à força para "resolver" a questão de sua homossexualidade.

Agora chega da Austrália a informação de uma seita que se diz cristã - e é um tanto quanto desconhecida -, que praticou o mesmo procedimento, só que com a concordância do castrado.

Dá até medo de divulgar a notícia do Opera Mundi, já que o que não falta é maluco para copiar as loucuras alheias, mas é importante saber do que se trata para se evitar o pior.

O horror, ah, o horror...

Médico australiano perde licença por castrar quimicamente um homossexual

Mark Craddock, seguidor da seita Brethren Christian, receitou ao paciente acetato de ciproterona

Um médico australiano, membro de uma seita religiosa, perdeu sua licença após prescrever em 2008 um tratamento de castração química a um jovem que buscava "curar-se" do homossexualismo.

Mark Christopher James Craddock, seguidor da seita Brethren Christian, receitou a seu paciente acetato de ciproterona durante uma consulta que durou menos de dez minutos, publicou nesta terça-feira (04/09) o jornal Sydney Morning Herald.

O acetato de ciproterona, que tem propriedades antiandrogênicas e reduz a libido, é utilizada em tratamentos contra o câncer de próstata e desordens severas nos homens, assim como em pacientes com desvios sexuais.

Em uma carta às autoridades sanitárias, o paciente, que também era membro da seita, relatou que um dos líderes da Brethren Christian lhe recomendou consultar-se com Craddock para que lhe receitasse remédios, acrescentou a fonte.

Craddock admitiu em uma audiência perante as autoridades médicas realizada em junho que ele não manejou o histórico médico nem submeteu seu paciente, cuja identidade não foi revelada, a um exame físico, assim como também não lhe falou dos efeitos colaterais, como a impotência.

No mês passado, o comitê médico determinou que Craddock, de 75 anos, é culpado de conduta profissional não satisfatória e lhe proibiu de praticar a medicina.



sábado, 23 de junho de 2012

Maçãs envenenadas

Se hoje você lê o que eu escrevo aqui no blog, devemos esta interação em grande parte ao matemático britânico Alan Turing, cujo centenário de nascimento comemoramos hoje, 23 de junho de 2012.

Cedo na vida ele já se destacava por fazer certas coisas, digamos, "fora do padrão".

Quando tinha 14 anos de idade, Turing se preparava para o seu primeiro dia de aula na Escola Sherborn em Dorset, mas o Reino Unido enfrentava uma greve geral, pelo que não teve dúvida: pedalou 100 km na sua bicicleta desde Southampton até o colégio, façanha que foi publicada no jornal local.

Em 1931, Alan Turing entrou para o King’s College da Universidade de Cambridge, onde enfrentou a questão da indecidibilidade - os teoremas da incompletude propostos pelo lógico austríaco-americano Kurg Friedrich Gödel, que demonstrou que algumas questões matemáticas estariam além do alcance da lógica.

De certa forma, Turing terminaria concordando com Gödel, mas limitaria ainda mais as questões indecidíveis, ao propor uma máquina (naquele tempo) imaginária, que seria capaz de cumprir o que faz aquilo que hoje chamamos de “programa” (ou “software”, se preferir), seguindo um algoritmo.

Essa verdadeira ficção científica da época, que ficou conhecida como a “máquina de Turing”, foi a antevisão daquilo que hoje chamamos de “computador”, que fez com que ele fosse reconhecido posteriormente como o Pai da Ciência da Computação.

Entretanto, se você pensa que Turing ficou só na imaginação de sua máquina, está muito enganado. Um protótipo dela, exótico e rudimentar para os dias atuais, surgiria na Segunda Guerra Mundial e seria decisiva para a vitória aliada contra os nazistas.

Agora, perdoe-nos uma pausa que se faz necessária até o desfecho dessa história: antes do estouro da guerra, em 1938, ele assistiu o desenho animado “Branca de Neve e os Sete Anões”, em que a bruxa malvada mergulha uma maçã no veneno. Seus colegas de trabalho diziam que ele cantava constantemente a música tema do filme: “Mergulhe a maçã no caldo, e deixe a morte sonolenta penetrar”.

Em 4 de setembro de 1939, um dia depois do Reino Unido declarar guerra à Alemanha, Alan Turing deixou Cambridge para se instalar em Shenley Brook End, de onde pedalava por 5 km até Bletchley Park, sede do ultrassecreto serviço de quebra de códigos alemães.

Foi ali que Turing desenvolveu um método revolucionário para quebrar a poderosíssima criptografia do aparelho nazista chamado Enigma, liderando uma equipe que montou as estranhas máquinas, com significativa contribuição do matemático Gordon Welchman, que ficaram conhecidas como as “bombas de Turing-Welchman”, precursoras rústicas dos atuais computadores.

A quebra dos códigos alemães se revelou decisiva na derrota de Hitler. Tampouco as criptografias italiana e japonesa passaram no crivo da "bomba". No mínimo, encurtou o desfecho da guerra. Alguns estudiosos estimam que, não tivesse o trabalho de Bletchley Park sido tão importante, o combate só terminaria em 1948 e não em 1945.

Com o fim do conflito e a Guerra Fria que se seguiu, tudo que foi feito lá passou a ser segredo de Estado, bem como a contribuição de Turing e seus companheiros de trabalho não pôde ser reconhecida. E isto terminaria muito mal.

É que Alan Turing era homossexual, comportamento tolerado no meio universitário mas tipificado como crime numa sociedade vitoriana como era a britânica de meados do século XX. 

Em 1952, ele deu queixa de um furto de que havia sido vítima, cometido por um homem que ele confessou ingenuamente que era seu parceiro sexual.

Foi o seu fim. Veio o julgamento acompanhado de toda a humilhação pública a que foi submetido, além da obrigatoriedade de consultar um psiquiatra, tendo-lhe sido imposta uma castração química com hormônios femininos que o deixaram obeso e impotente.

Turing ainda resistiu à violência física e emocional por dois anos, mas diante da indiferença do governo do país que ajudara a salvar, a depressão o arrastou por um caminho perverso até voltar ao desenho animado da Branca de Neve que ele assistira em 1938.

No dia 7 de junho de 1954, Alan Turing se recolheu ao seu quarto, levando uma jarra com uma solução de cianeto e uma maçã. Mergulhou-a no cianeto e comeu alguns pedaços.

Apesar da óbvia relação com o logotipo da Apple, Steve Jobs negou que tenha sido o suicídio de Turing a sua inspiração, embora lamentasse que não houvesse essa homenagem a ele na marca que se tornou um ícone da era digital.

Pouco antes de completar 42 anos de idade, morria um dos gênios que – o mundo ainda não sabia – seria um dos maiores responsáveis por toda a revolução tecnológica que as novas gerações já encontram pronta ao nascer. 

Algo que não existia nem em sonho exatos 100 anos atrás.


As notas biográficas aqui recolhidas provêm do capítulo 4, "Decifrando a Enigma", do excelente "O Livro dos Códigos", de Simon Singh (Ed. Record, 2003). Mesmo quem não gosta de matemática, como eu, apreciará muito a leitura. #ficadica 


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