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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Fotógrafo norueguês clica homens que afirmam ser Cristo

Inri Cristo é só um deles...
Segundo a BBC Brasil:

Não é só brasileiro Inri Cristo: fotógrafo registra homens que acreditam ser Jesus

Em seu novo livro, 'O Último Testamento', o fotógrafo norueguês Jonas Bendiksen registra homens que alegam ser a reencarnação de Jesus Cristo.

Foram dois anos viajando pelo mundo acompanhando o cotidiano deles e de seus seguidores, incluindo o do brasileiro Inri Cristo.

"Meu objetivo não era apontar quais desses homens é o verdadeiro 'Messias', mas, na verdade, ouvir tudo o que eles diziam como a mais absoluta verdade", conta Bendiksen à BBC.

"Quis tentar mostrar como eles veem o mundo, quais são as implicações para nós, para a humanidade, se essa pessoa realmente for Jesus Cristo", acrescenta.

Bendiksen explica ter seguido “alguns critérios” para selecionar quem fotografaria.

"Teriam que ser pessoas que já tivessem se assumido publicamente como 'Messias' e cuja revelação se estendia por um longo período de tempo, talvez décadas", explica. "Elas também deveriam ter uma teologia como o próprio Jesus Cristo, ou seja, que já tivessem publicado escrituras", completa.

Para o fotógrafo, esses homens não são "doentes mentais, como os que você vê em hospícios...é algo diferente, mas não sei o quê", assinala.

Bendiksen também não acredita que os homens que acompanhou sejam “manipuladores”.

"Tive a impressão de que todos realmente acreditam que são a reencarnação de Jesus Cristo. Dos homens com quem me encontrei, acredito que eles querem o melhor para a humanidade", diz.

"Também acho que isso é um fardo para muitos deles, que eles só estão fazendo o que Deus lhes instruiu e o melhor para todos nós".

"Se você está fazendo isso para controlar as pessoas, então diria que há muito mais pessoas no mundo que fazem isso melhor do que eles", conclui.



quinta-feira, 6 de julho de 2017

Teria sido um bispo inglês medieval o primeiro a ensinar o "big bang"?


A matéria é da BBC Brasil:

Como um bispo medieval adiantou a teoria do Big Bang no século 13

O livro bíblico do Gênesis, no capítulo 1, versículo 3, conta: "E Deus disse: faça-se a luz! E a luz foi feita".

Mas esse foi apenas o começo da criação do universo. Isso, de acordo com a Bíblia, é o que Deus fez depois da luz:

"E disse Deus: Haja luzeiros no firmamento do céu para dividir o dia e a noite, e para sinais e para estações, e para dias e anos;
e sirvam de luminares no firmamento do céu para alumiar a terra. E assim foi.
E fez Deus os dois grandes luminares, o luminar maior para governar o dia e a luz menor para governar a noite; fez também as estrelas.
E Deus os pôs no firmamento do céu para alumiar a terra, e para governar o dia e a noite, e para separar a luz das trevas. E Deus viu que isso era bom."

No século 13, um estudioso inglês da ordem dos franciscanos mergulhou nesse tema.

Robert Grosseteste trabalhou em um dos grandes centros de aprendizagem em Oxford, local que as pessoas já tinham começado a chamar de "faculdade".

Para Grosseteste, tudo tinha a ver com a luz, até o ato divino primordial da própria criação.

Mas como exatamente Deus fez a criação?

A resposta do religioso foi a primeira tentativa de descrever os céus e a Terra usando um conjunto de leis.

Do ponto de vista de Grosseteste, tudo começou com a luz e a matéria explodindo a partir de um centro: uma versão medieval do Big Bang.

Sua história mostrou como a fé em princípios científicos, combinada com a crença em um cosmos ordenado por Deus, resultou em uma ideia surpreendentemente profética. Inicia com luz...

Mas o que é a luz? Essa pergunta nunca foi simples.

Alguns dos primeiros escritores cristãos pensavam que havia dois tipos diferentes de luz.

A lux, como era chamado em latim, era o que Deus usou para fazer o cosmos, uma espécie de força criativa divina, quase uma manifestação do próprio Deus.

A outro era lúmen, luz comum que emana de corpos celestes e nos permite ver as coisas.

Essa visão fica evidente para qualquer pessoa que tenha estado em uma catedral gótica inundada pela luz que entra através dos vitrais das janelas.

Sacerdotes e teólogos pensavam que, ao contemplar a bela lúmen da igreja, os fiéis seriam atraídos pela lux bendita de Deus.

Religião e ciência

Embora hoje pareça haver um conflito entre ciência e religião, durante grande parte da história a religião foi uma grande motivação para a busca de conhecimento no mundo.

Nas escolas das catedrais dos séculos 11 e 12 - predecessoras das universidades - alguns estudiosos pensavam que era seu dever aprender mais sobre o universo que, para eles, havia sido criado por Deus.

Eles não consultavam apenas a Bíblia: liam os escritos dos antigos gregos como Platão, Aristóteles e Hipócrates, que tinham sido preservados em traduções feitas por escritores islâmicos.

O aprendizado sobre o mundo natural floresceu na era das grandes catedrais góticas, e muitos historiadores falam de um primeiro Renascimento no século 12.

A mais bela das entidades

No início do século 13, ele era um professor proeminente, erudito e, como todos os pesquisadores em Oxford, cristão devoto. Em 1235, tornou-se bispo de Lincoln, na Inglaterra.

Para ele, a luz era uma das mais maravilhosas criações de Deus.

"A luz física é a melhor, a mais deleitável, a mais bela de todas as entidades que existem. A luz é o que constitui a perfeição e a beleza de todas as formas físicas", escreveu.

Mas Grosseteste não se conformava com apenas apreciar a luz que entrava pelas grandes janelas da catedral gótica de Lincoln. Ele começou a estudá-la como um cientista. Analisou, por exemplo, a passagem da luz através de um copo de água.

Ele percebeu que lentes poderiam ampliar objetos, e quando alguém lê o que o bispo escreveu sobre o assunto, começa a se perguntar por que demorou mais de 300 anos para que telescópios e microscópios fossem inventados.

"Esta parte da ótica, quando bem compreendida, mostra-nos como podemos fazer as coisas que estão a uma distância muito grande parecerem como se estivessem muito próximas, e as coisas grandes que estão perto parecerem muito pequenas, e como podemos fazer as pequenas coisas que estão distantes parecerem de qualquer tamanho que queremos, de modo que poderia ser possível ler as letras mais pequenas a distâncias incríveis ou contar a areia ou sementes ou qualquer tipo de objetos minúsculos", escreveu Grosseteste.

Além disso, ele notou que a luz muda de trajetória ao passar do ar para a água, um efeito chamado de refração.

Como outros antes dele, Grosseteste viu que a luz poderia dividir-se em um espectro colorido como um arco-íris, e escreveu um tratado sobre o fenômeno, no qual chegou perto de explicar sua origem: pensou que as nuvens agiam como uma lente gigante que refratava a luz e a enchia de cor.

"De luce"

Em 1225, Grosseteste reuniu o que havia concluído sobre a luz em um livro chamado "De Luce" (Sobre a Luz).

Era uma mistura de teologia, ciência, metafísica e especulação cósmica.

Mas tratava, em particular, da questão de como Deus fez todo o cosmos usando a luz.

Em vez de tratar a criação como uma espécie de ato mágico, Grosseteste começou a transformá-la em um processo natural, algo que hoje chamaríamos de "estudo científico".

Como muitos de seus contemporâneos, ele acreditava que Deus trabalhava com princípios simples, baseados em regras que a humanidade poderia compreender pela lógica, geometria e matemática.

"Todas as causas de efeitos naturais devem ser expressadas por meio de linhas, ângulos e figuras, porque caso contrário seria impossível ter conhecimento da razão destes efeitos", escreveu.

E como o universo era governado pela matemática, era também ordenado e racional - e seria possível deduzir suas regras.

Na verdade, a descrição de Grosseteste da criação divina é tão precisa, que pode ser expressada em um modelo matemático, algo que historiadores e cientistas da Universidade de Durham, no Reino Unido, fizeram com a ajuda de um computador.

A máquina do mundo

Para Grosseteste e seus contemporâneos, o universo consistia na Terra, que ficaria no centro, e todos os corpos celestiais - o Sol, a Lua, os sete planetas conhecidos e as estrelas que giravam ao seu redor em círculos perfeitos.

Mas, para ele, tudo começou com uma espécie de Big Bang, no qual uma explosão de luz - do tipo lux - fez com que uma densa esfera da matéria se expandisse, tornando-se cada vez mais leve e diluída.

"Essa expansão dispersaria a matéria 'dentro de uma esfera do tamanho da máquina do mundo', que é como ele chama o cosmos", diz Tom McLeish, um dos físicos da Universidade de Durham que traduziu a teoria cosmológica de Grosseteste para um modelo matemático.

"Mas logo encontra um problema: (a matéria) não pode se expandir infinitamente, porque nessa época o universo era enorme, mas finito. Como pará-lo? Com uma brilhante ideia científica. Pensando como um físico, recorre a algo simples para explicar não apenas como (o universo) deixa de expandir, mas como as esferas são formadas."

Uma luz brilhante na escuridão

"Se você não pode alcançar o vazio, porque a natureza tem aversão a ele", reflete Grosseteste, "deve haver uma densidade mínima, e quando chega-se a ela, a (matéria) tem que cristalizar".

Seguindo essa linha de raciocínio, isso ocorreria em primeiro lugar na parte mais distante: o firmamento. Esse se cristaliza primeiro e se aperfeiçoa, adquirindo luz - lúmen-, que também empurra a massa, neste caso, para dentro, e, portanto, são criadas as esferas nas quais residem os planetas, o Sol, a Lua e a Terra.

"Outro pensamento moderno que ele teve foi que, quando olhamos para o céu, o universo que vemos de alguma forma contém os rastros ou eco dos processos que o formaram", disse McLeish.

"Isso é precisamente o que os cosmólogos pensam hoje em dia. Lembre-se da busca por microondas no eco do Big Bang", acrescentou com entusiasmo.

"A única parte obscura da Idade das Trevas (entre a queda de Roma e o Renascimento) é a nossa ignorância sobre essa época. Grosseteste é um pensador impressionante", disse McLeish.

"A história que me contaram quando era jovem era que antes de 1600 não havia mais do que misticismo, teologia e dogmatismo. E de repente apareceram Galileu, Kepler, uau! Tudo é luz e iluminação, e voltamos a andar com a ciência ", diz o físico.

"Mas a verdade é que a ciência não funciona assim. Todos nós damos pequenos passos e, como disse Isaac Newton, todos nós subimos nos ombros de gigantes. E Grosseteste é um daqueles gigantes em cujos ombros subiram os primeiros cientistas modernos."



segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Bernardinho diz que "pacto com Deus" o levou a deixar a seleção de vôlei


A matéria foi publicada no blog Esporte Fera do Estadão em 14/01/17:

Bernardinho diz que 'pacto com homem lá de cima' o 'forçou' a deixar a seleção

Treinador comandou o time masculino de vôlei do Brasil por 16 anos e foi bicampeão olímpico

Poucos dias após oficializar a sua saída da seleção brasileira masculina de vôlei, a vida seguiu para Bernardinho. O treinador, que dirige o Rio de Janeiro na Superliga Feminina, comentou sobre sua saída da seleção pela primeira vez e revelou que uma promessa que fez antes de ser campeão olímpico pela segunda vez na carreira foi fundamental para ele deixar o cargo.

"Em certo momento da Olimpíada, fiz um pacto. Não sou muito religioso, mas pedi para me ajudar um pouco a sair de uma situação e falei que, se fizesse isso, prometia que iria embora. Então você não pode fazer uma promessa com o homem lá de cima e não cumprir. Estava na hora de cumprir. Eu deveria ter saído logo depois para evitar tudo isso (carinho da torcida). Eu fico constrangido, mas ao mesmo tempo muito grato por tudo isso", disse o treinador, logo após a vitória por 3 sets a 0 de sua equipe para cima do Valinhos.

Visivelmente emocionado, Bernardinho também resolveu virar a página de todas as polêmicas que entrou enquanto estava à frente da seleção e fez um agradecimento especial ao ponteiro Murilo, que foi cortado do grupo que disputou a Olimpíada no Rio de Janeiro e, após o anúncio da saída do treinador, fez diversos elogios no Twitter e mostrou a sua gratidão. "Agradeço a cada pessoa que convivi nesse período, peço desculpas a quem fiz sofrer, aqueles que cortei, mas no fundo todos sabem que tentei fazer o melhor. Recebi mensagens muito gratificantes, como a do Murilo, que foi cortado agora, e para mim isso é o mais importante. Agora tenho a oportunidade de responder a ele em cadeia nacional, e agradeço tudo o que ele fez e a grandeza que teve por ter me agradecido", completou.



segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Italianos esperam fim do mundo após nevar em praia do Adriático

Viria da "bota" italiana o chute final? 

A praia de Salento fica na região da Puglia, mais conhecida como o salto da "bota" italiana.

A matéria é do Estadão:

Neve em praia italiana lembra profecia sobre fim do mundo

Neve cobre partes do sudeste do país e alguns supersticiosos acreditam que previsões do 'Nostradamus italiano' podem estar se tornando realidade

A Itália parece um pouco preocupada com o fim do mundo. Esta semana, a neve cobriu partes do sudeste do país, especialmente em Salento, e alguns supersticiosos agora acreditam que as previsões do astrólogo e filósofo Matteo Tafuri, o Nostradamus Italiano, podem estar se tornando realidade.

Séculos atrás, Tafuri previra que se nevasse por dois dias consecutivos na cidade litorânea de Salento seria o sinal do Armagedon. Como dezenas de usuários do Twitter e do Instagram têm relatado e postado, a neve já cai na cidade há alguns dias.

Matteo Tafuri, que nasceu em 1492 e morreu em 1582, advertira: “Salento de palmeiras e vento sul moderado. Dois dias de neve, dois raios no céu. Eu sei que o mundo terminará, mas eu não sentirei saudade”.

O evento ocorreu alguns dias após uma pintura da Virgem Maria na Macedônia derramar lágrimas reais, segundo especialistas, algo que também estaria relacionado com o fim do mundo, como lembrou o jornal Daily Mail.



sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

100 anos atrás morria Rasputin


Rasputin é um desses personagens da vida real, de carne e osso, cuja história parece ter sido inventada por alguém durante o uso de algum alucinógeno.

Já chegamos a comentar aqui no blog sobre a canção em ritmo discothèque que o grupo Boney M. lhe, digamos, "dedicou" em 1978 (clique aqui para acessar o divertido e musical artigo).

Só que cada detalhe sinistro ou bizarro de sua biografia (sobretudo as tentativas de matá-lo) é verdadeiro.

Santo ou demônio, o fato é que o fim do Império Russo centralizado na figura do czar e a Revolução Comunista de 1917 tiveram nele um dos mais importantes antecedentes.

A matéria abaixo é da Rádio Agência Nacional:

História Hoje: Conheça a história do monge russo Rasputin, morto há 100 anos

Há cem anos morria num vilarejo da Sibéria Grigori Iefimovich Novy, ou Grigori Rasputin, monge russo que se tornou personagem influente na corte de Nicolau Segundo e Alexandra Feodorovna.

Além da fama por seus poderes sobrenaturais, Rasputin tinha reputação de santo entre os camponeses e fama de devasso na corte.

Ainda pequeno chamava a atenção dos moradores do vilarejo em que vivia que acreditavam que ele tinha poderes hipnóticos e de cura.

Na adolescência, foi para o mosteiro de Verkhoture, nos Montes Urais, para se tornar monge, mas não completou os estudos, se casando aos 19 anos de idade. A fama de possuir poderes sobrenaturais se espalhou pelo império russo por volta de 1905, quando, já morando em São Petersburgo, foi procurado pelo czar Nicolau Segundo e sua esposa, a czarina Alexandra Feodorovna, que buscavam a cura de seu filho, Alexei, que sofria de hemofilia.

Envolvente e sedutor, Rasputin conseguiu tranquilizar o príncipe, diminuindo seus sangramentos e conquistou a confiança do casal. Por isso, durante anos passou a exercer o papel de conselheiro da czarina. Na corte, interferia na atuação da igreja e nos assuntos de estado, chegando a nomear e demitir ministros.

Rasputin conquistou a antipatia de grande parte da corte. Foi acusado de indecente. Ele afirmava que era capaz de livrar as mulheres de seus pecados e, dormindo com elas, ajudava a encontrar a graça divina. Por sua conduta, em 1914, sofreu seu primeiro atentando a faca e sobreviveu milagrosamente.

Aproveitando da fama de místico, previu que a Rússia cairia em desgraça durante a Primeira Guerra Mundial. Preocupado com a previsão, o czar abandonou a corte em 1915 para comandar pessoalmente o Exército. Rasputin e a czarina então passaram a governar a Rússia e foram responsáveis, em grande parte, pelo fracasso do imperador em contornar a onda de descontentamentos que antecederam à Revolução Russa.

Em 30 de dezembro de 1916, um grupo de nobres organizou uma cilada e Rasputin comeu uma refeição envenenada por cianureto, mas novamente não morreu. Foi então foi fuzilado, sendo atingido por um onze tiros, e escapou. Depois disso, foi castrado e atirado inconsciente no rio Neva.

Após o corpo resgatado, foi encontrada água nos pulmões, confirmando que ele ainda estava vivo ao ser jogado no rio parcialmente congelado.



terça-feira, 26 de julho de 2016

Os videntes de São Paulo

Artigo publicado no Estadão de 17/07/16:

Dos postes às mesas dos videntes de São Paulo

'Trabalhos' de descarrego incluem até lençol de 400 fios e podem ser pagos no cartão

Mônica Manir

Dei por mim na calçada, ao pé da porta. Um cartaz amarelo alardeava o que imaginei escondido: Consulta Búzios Tarô. Acima da mesma porta, mais um cartaz: Tarô Vidência. Nos dois, o mesmo número de telefone fixo. Subi os primeiros degraus. Um portão alto, duplamente gradeado, me interrompia o caminho. Toquei a campainha. Veio uma mulher; era a senhora da limpeza, de pés descalços e um cheiro de alvejante que exalava da alma. Eu disse que tinha uma consulta marcada, ela me fez entrar. Subi mais alguns degraus, atravessei uma cerquinha de madeira e por ali fiquei, esquecida numa sala mal alumiada, pesadamente acortinada e com dois sofás gris, sobre um dos quais acomodei minha curiosidade. Acima, um lustre equilibrava folhas de vidro. Abaixo, um tapete grisalho cobria um quadrado do chão de tacos, alguns soltos. “Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio”, diria Machado de Assis em A Cartomante, conto que inspirou este primeiro parágrafo.

Contrariando Machado, o cenário desse sobrado na Vila Mariana não era de pobreza, mas de classe média, como de resto a maioria dos cenários que encontrei nas consultas a videntes que colocam anúncios nos postes de São Paulo oferecendo amarrações e desamarrações de amor. Tevês me apareceram ligadas no Datena ou em desenhos animados, doces crianças em fralda circularam pela sala tomando doces refrigerantes, e cães e gatos, tão doces quanto, se enroscaram nos meus cadarços enquanto os donos ajeitavam consultórios improvisados.

No sobrado em questão da Vila Mariana, também compunham o lugar dez pacotes de panfletos, um deles aberto, do qual certamente saiu o papel que eu tinha em mãos. Ele me fora dado 5 minutos antes, na saída do Metrô Ana Rosa, por um moço magro. Nele lia-se que a sensitiva Beatriz, com mais de 28 anos de experiência no mesmo endereço, solucionava união de casais, afastamentos de rivais, impotência ou frieza, inveja, vícios, depressão, financeiro. O telefone era outro, mas o tal endereço era o mesmo que vi num cartaz dias antes, e que me trouxeram até ali para a consulta daquela manhã.

Quase meia hora depois, a sensitiva Beatriz me fez sentar diante de uma mesa, ela do lado oposto. Entre nós, um pano bordô com búzios, um crucifixo e uma plaqueta com bandeiras de cartão de crédito. Vestia jeans e camiseta preta um tanto curta, que insistentemente puxava para baixo. Perguntou o que eu preferia, búzios ou tarô. Pedi o segundo. Então Beatriz, arriscados 39 anos, pegou as cartas do tarô de Marselha e, enquanto as embaralhava, olhava para mim, mas por baixo dos olhos. Perguntou meu nome inteiro, que dei, a data de nascimento, que dei, e a profissão, que dei como estudante de bioética, o que também sou.

A seu pedido, dividi as cartas em três. Ela juntou tudo novamente e descortinou a Morte. Sorte que depois veio a Roda da Fortuna, disse ela, sinal de que viverei muito. E assim foi arcano atrás de arcano, a Temperança, a Estrela, o Mago ou Charlatão, com pinceladas sobre saúde, família, carreira, finanças – até o enrosco. “Você tem um ex?” Quem não os tem?, pensei. “Pois uma pessoa na sua vida nunca te esqueceu”, vaticinou, “e vocês nem sabem direito por que se separaram”. Beatriz, no entanto, sabia: alguém colocara nosso nome, o meu e o dele, na boca de um defunto. Para me acertar com alguém, apenas após um trabalho liberar o caminho. Um trabalho que pedia 91 materiais, velas dessa altura, cristais africanos. A coisa aconteceria num terreiro na Praia Grande. Levaria um tempo, teria de voltar outras vezes, mas a garantia era total. Olhei para as bandeiras de cartão de crédito.

“Pedido de despacho não tem nada a ver com a tradição do tarô”, ressalva a socióloga Priscila Kuperman, autora do livro Tarot – Uma Linguagem Feiticeira (Editora Mauad). “O tarô atrai porque tem uma aura mágica na medida em que atua no acaso, é razão de estudo e ajuda, as consultas são cobradas num preço previamente combinado, mas nunca passou como algo relacionado a produtos extras”, diz.

Diante da minha hesitação, Beatriz resgatou os 28 anos no mesmo endereço. “Quem não é honesto não fica tanto tempo no mesmo lugar.” Mas quanto, afinal, sairia a limpeza? Puxou a blusa pra baixo. São R$ 850, pagáveis no cartão, se eu quisesse. O ideal, aliás, era começar naquele momento, não havia tempo a perder. Declinei. Disse que precisava pensar, não estava preparada para dispor daquela quantia. Beatriz foi guardando as cartas com ar de muxoxo. Perguntei o valor da consulta. Ela repetiu o que dissera ao telefone: R$ 100. Questionei que no papelzinho estava escrito R$ 50. “R$ 50 são os búzios, e você escolheu o tarô.” Olhei para Antony, o gato que brincou com meus cadarços. Ele deu de ombros.

Para a parapsicóloga Márcia Cobêro, a mentalidade do automático, rápido e descartável contribui para a proliferação desse tipo de oferta. “Em vez de amadurecer, corrigir, fazer terapia, é mais encantador atribuir o problema a outra pessoa ou a uma energia negativa, que não implica esforço pessoal.” Diretora do Instituto Padre Quevedo de Parapsicologia, ao qual também acorrem aflitos, ela desmistifica que as mulheres sejam as maiores vítimas. “Elas fazem mais propaganda de terem ido; os homens são presas discretas.” Mas Márcia aposta num certo perfil machadiano. A mulher, diz ela, normalmente quer se vingar de um amor desfeito ou amarrar outro, enquanto o homem busca dinheiro e poder.

Jaleco. Pois lá estou em outro templo místico, este no Itaim-Bibi, com o tarô cigano aberto e a vida emperrada. É mais um sobrado, mas já na porta os trabalhos são divulgados como “honestos e infalíveis”. Eu havia chegado mais cedo, e Jussara, a vidente que me receberia, tinha saído. “Tudo bem”, disse Sílvia, em seus 65 anos, “sou mãe-de-santo também, é tudo igual”. Botou um jaleco branco, ajeitou-se na mesa lotada de imagens, afastou os búzios da frente e pediu que eu dividisse o baralho em cinco montes. Daí para chegar ao amor mal resolvido e à limpeza espiritual foi uma cartada.

Olhando para um calendário da Caixa, perguntou se eu tinha alguém para me ajudar no serviço. Diante da negativa, disse que poderia fazer um despacho indiano na linha da direita. “Não pode mexer com a da esquerda, de Exu-Pomba-Gira.” O material era completo, tudo “abaixo de encomenda, uma caixa grande que os orixá providencia”. Cada despacho sairia por R$ 550, multiplicados por quatro, porque cuidaria do amor, da saúde, do trabalho e da família. Anunciando pagamento após resultado, embolsou R$ 50 da consulta. Uma coisa é uma coisa, outra é bem outra.

Mais ou menos nessa linha trabalhou a sensitiva Alyne, perto do Metrô Santa Cruz. Não é que o tarô dos anjos mostrou que o negócio estava anuviado e eu precisava de mais uma assepsia? Senti que devia tomar as rédeas do meu destino e disse que compraria tudo. Ela anotou num papel: 21 velas brancas de 90 cm de altura por 40 cm de diâmetro, mais um lençol de 400 fios, que eu poderia achar na Zêlo, mais um champanhe. Lençol avulso de 400 fios, não achei. Só o jogo. O mais em conta saía por R$ 180. Já vela neste diâmetro, nem na fábrica: “Quem pediu essa vela sabe o que é centímetro?”, perguntou o atendente de uma delas. “Vai pesar uns 100 kg e, quando queimar, vai esparramar pra tudo que é lado. Confere lá com ela e me liga de volta. Sucesso!”

Por telefone, Alyne insistia nos 40 cm. Disse que tinha me mostrado a vela, e mostrou mesmo um exemplar na consulta, mas cujo diâmetro era bem menor. “Por favor, pega uma régua e meça aí, a vela não tem 40 cm”, insisti. “Não pode medir numa régua, né, tem de medir numa dimensão de redondo, não de quadrado”, disse, irritada. “Você tem CNPJ de taróloga?”, perguntou. Ouvindo o óbvio não, disse que poderia comprar com desconto numa fábrica de seu conhecimento. Em vez de R$ 65, cada uma sairia por R$ 32,50.

“A questão é que essas pessoas, em geral, são profissionais da área, hábeis em lançar problemas que todo mundo tem”, lembra Márcia Cobêro. “E, a partir do momento em que o vidente foi capaz de adivinhar o problema, que o próprio cliente entrega durante o consulta, o cliente vai julgá-lo apto a resolver.” Junte-se a isso a insegurança dos nossos dias, como o desemprego doméstico e um terrorismo assustador. “Especificamente no momento, gostaríamos que nos amarrassem a esperança, que periga se desprender de nossas assustadas perspectivas frente ao descalabro que vivemos no momento”, metaforiza o psicanalista Sérgio Telles.

Embora negue, pelos sete elementos, que a crise não bateu à porta, o fato é que há um mês Pai Leo de Ogum entregou seu escritório na Barão de Itapetininga e voltou à rua, onde montou um guarda-sol emoldurado de panos indianos. Seu negócio, há 28 anos, são búzios e tarô. Na frente da Praça da República, vira e mexe alguém se acocora para perguntar da consulta: R$ 25 o tarô e R$ 30 os búzios. No escritório, cobrava R$ 60. “Agora estou mais perto do povo, atendo garotas de programa, pobres, ricos, GCM, militar, artistas, gente de todas as gamas”, gaba-se.

Pai Leo de Ogum, originalmente Leo Teodoro, diz ser de Ilhéus, na Bahia, e não tem medo de mostrar a cara. De fato, não achei tantos cartazes mostrando o rosto de um sensitivo, muito menos o corpo, e muito menos o corpo sarado, como ele faz. “O ser humano, pela natureza, é curioso”, diz. “Em visão de espiritualidade, ele quer saber o que vai acontecer na vida dele no presente, no passado e no futuro.” Porque os oráculos vêm desde Jesus Cristo, continua Pai Leo, “quando não tinha praticamente televisão, rádio, carro, nada que se comunicasse, nem luz, praticamente”.

Na consulta aos búzios, ele não viu trabalho emperrando meu caminho. Mas sua comunicação com os orixás parecia desconectada. Pai Leo encontrou documentos pendentes em cartório (que não tenho), confere?, consulta “de mulher” por fazer (feita recentemente), confere?, e filhos (que nem tenho) indo mal na escola. Perguntei se ele tinha filhos. “Tenho um”, mostrou no celular. “Mas a mãe dele não tá mais comigo por preconceito.” Preconceito dela? “A sogra é evangélica, de família japonesa, e eu macumbeiro. Guenta ficar muito tempo?”

Estudioso da religião afro-brasileira, o professor titular sênior da USP, Reginaldo Prandi, diz que muita gente não vai a terreiro de jeito nenhum, por achar que “é coisa do diabo”, mas faz sua fé nos centros urbanos sem checar se esses “consultórios” são de fato pilotados por pais ou mães de santo, que em geral não misturam búzios com cartas. “É como médico, tem que pedir referência, perguntar como trabalha”, avisa.

Em cima dos cartazes do Pai de Ogum se metem os do Bruxo, que atua num prédio de advogados na Rua José Bonifácio. Ele tem seis baralhos e nove números de celular, para atender até via “whatzap”. O Bruxo é Divino Quintiliano, vulgo Phuazza Kwenn, seu nome quando participou de filmes de Zé do Caixão. É de Anicuns, em Goiás, já foi da Aeronáutica e mais não sei porque ele já abre o tarô Rider-Waite pra me escanear. Só registrei a vida longa. Foram amenidades, nenhuma desamarração à vista nem a prazo e a ênfase em que, se eu quisesse, teria poderes para também ler o tarô. Sua frase predileta é “tá tranquilo”. Mas a mais notória foi quando explicou por que existem tantos cartazes de videntes espalhados nas regiões ricas da cidade: “O grã-fino é mais na dele, mas vai aonde o pobre vai”, diz. “O confidente do rico, quer saber, é mesmo a empregada.”

No rigor da lei é estelionato. Ao pé do artigo 171 do Código Penal Brasileiro, cartomancia e afins podem ser entendidos como estelionato, e os infratores estão sujeitos à pena de reclusão de 1 a 5 anos. Afinal, é proibido “obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento”. Mas o advogado Tarcísio Germano de Lemos lembra que a Constituição garante liberdade de culto, e é nisso que muitos videntes se ancoram. O ataque à Cidade Limpa, porém, não tem fuga se houver o flagrante, pelo qual o infrator pode pagar R$ 10 mil. A Prefeitura afirma que, de janeiro a maio, recolheu mais de 185 mil itens, entre eles vários lambe-lambes de sensitivos.



domingo, 10 de julho de 2016

100 anos atrás terminava a guerra de "santos" e "demônios" em SC


A matéria pra lá de interessante foi preparada pela Agência Senado:

Há 100 anos, o fim da sangrenta Guerra do Contestado

Tatiana Beltrão

Adeodato Ramos havia passado boa parte do gelado inverno catarinense de 1916 embrenhado na mata, fugindo de seus perseguidores. Depois de uma noite de geada, o último líder rebelde da Guerra do Contestado estava exausto. Ao sair da mata e sentar-se à beira da estrada para se aquecer ao sol, foi flagrado por uma patrulha. O “temido facínora”, o “sanguinário chefe dos fanáticos”, o “flagelo de Deus”, como o descreviam os jornais da época, entregou-se sem nem sequer esboçar resistência.

A captura dele, na virada de julho para agosto, marcaria o fim da guerra, que se arrastou por quatro anos e transformou a região do Contestado (área disputada por Santa Catarina e Paraná) no palco da revolta mais sangrenta do século 20 no Brasil.

Os rebeldes chegaram a se espalhar por uma área equivalente ao tamanho de Alagoas. Entre 1912 e 1916, eles enfrentaram as forças policiais e militares dos dois estados e do Exército. Os insurgentes eram movidos por motivos que iam do messianismo à luta pela terra. Eram contra o poder público e os coronéis locais. Reagiam ao impacto da construção de uma estrada de ferro, que os expulsou da terra onde viviam.

Estima-se que pelo menos 10 mil pessoas pereceram na região do Contestado, tanto nos combates quanto de fome e de doenças como o tifo, que se alastrou pelas “cidades santas” erguidas pelos revoltosos. Entre os mortos, milhares de mulheres e crianças.

A guerra mobilizou metade do efetivo do Exército: mais de 7 mil soldados, nos momentos de luta mais intensa.

Messianismo

A indefinição dos limites territoriais entre Santa Catarina e Paraná vinha desde o Império, e até a Argentina pleiteava a posse de áreas dos dois estados. O Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa aos catarinenses em 1904 e reafirmou sua decisão nos anos seguintes, mas a sentença era ignorada pelo governo paranaense. Nesse cenário de conflito, a revolta prosperou.

A guerra começou pequena, com um grupo reduzido de sertanejos (moradores desses campos do Sul, chamados de sertão na época) que em 1912 reuniu-se em torno de um curandeiro. José Maria seguia a tradição de outros dois curandeiros que haviam passado por lá anos antes e eram considerados “monges” pelos sertanejos. Ele também fazia profecias: anunciava uma monarquia celestial em que todos viveriam em comunhão, dividindo bens.

Dos seguidores do novo monge, muitos eram posseiros, sitiantes e pequenos lavradores que haviam sido expulsos das terras em que viviam pelo grupo americano responsável pela construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, do megaempresário Percival Farquhar.

Além da concessão, Farquhar ganhou do governo brasileiro as terras situadas às margens da ferrovia, uma vasta faixa de 15 quilômetros de cada lado.

Depois da construção da estrada de ferro, a região, coberta de matas de árvores nobres como a araucária, começou a ser desmatada. O empresário ergueu lá a maior madeireira da América do Sul na época e uma companhia colonizadora que, depois do desmate, venderia as terras a imigrantes europeus. Famílias que viviam no local foram expulsas por milícias armadas da empresa, com apoio das autoridades brasileiras.

Primeira batalha

O monge José Maria e os fiéis se instalaram em Taquaruçu, nos arredores de Curitibanos (SC). Temendo que o grupo fosse usado por inimigos políticos, um poderoso coronel da cidade pediu ao governo catarinense tropas para dispersar um “ajuntamento de fanáticos” que supostamente queria proclamar a Monarquia no Sul do Brasil.

Ao saber que a força policial havia sido chamada, os fiéis fugiram para Irani (SC), localidade que na época estava na área do Contestado.

A chegada do grupo foi vista pelo Paraná como uma investida de Santa Catarina para forçar a posse do território contestado. Em resposta, o Paraná enviou um destacamento policial para expulsar os supostos invasores. Em outubro de 1912, a ação terminou de forma trágica, com 21 mortos. Entre eles, o monge José Maria e o comandante das forças de segurança do Paraná, coronel João Gualberto.

Documentos históricos guardados no Arquivo do Senado mostram a reação dos senadores ao conflito. Dois dias depois da batalha, a morte do comandante foi anunciada no Plenário do Senado, sediado no Palácio Conde dos Arcos, no Rio.

O senador paranaense Generoso Marques falou aos colegas sobre a “horda de bandidos e fanáticos” que havia invadido o Paraná e leu um telegrama enviado pelo governador do Paraná, Carlos Cavalcanti, ao Congresso. O governador comunicava que o estado havia pedido ao presidente da República, Hermes da Fonseca, a intervenção de forças federais.

O senador catarinense Abdon Batista apoiou o colega:

— Esse acontecimento, ao mesmo tempo em que nos cobre de pesado luto, nos anima e nos incita na obrigação de secundar as forças do estado vizinho para que, de uma vez, sejam extirpados os elementos maus que procuram perturbar nossa vida de trabalho e progresso.

Ao longo do conflito, os dois estados trocariam acusações de incentivar os revoltosos e até de fornecer-lhes armas.

Exército encantado

Depois da morte do monge, os devotos se dispersaram. O messianismo, porém, permaneceu. No ano seguinte, difundiu-se a crença de que José Maria voltaria do céu, acompanhado do “Exército Encantado de São Sebastião”. Uma criança de 11 anos dizia ver o monge em sonhos pedindo aos fiéis que se preparassem para uma guerra santa. O grupo rebelde voltou a se reunir em Taquaruçu.

Agora não eram apenas os antigos seguidores do monge José Maria que se prepararam para a luta. Somaram-se a eles descontentes em geral: mais colonos expulsos, fazendeiros que se opunham aos coronéis, tropeiros sem trabalho, desempregados da obra da ferrovia e até ex-combatentes da Revolução Federalista (1893–1895), que tinham experiência com armas e contestavam a República.

— Num determinado momento, torna-se uma guerra de pobres contra ricos — diz o historiador Paulo Pinheiro Machado, autor do livro Lideranças do Contestado. — Uma guerra daqueles que queriam formar suas comunidades autônomas, onde todos viveriam em comunhão de bens, o que era uma negação da própria ordem republicana, da concentração fundiária, do poder dos coronéis da Guarda Nacional e da força da polícia, do Exército e da companhia norte-americana ferroviária sobre eles.

Machado contesta a visão de que o fanatismo religioso de sertanejos pobres e ignorantes foi o principal combustível da revolta. O pesquisador sustenta que, paralelamente à crença na guerra santa, os rebelados haviam desenvolvido uma nítida consciência de sua marginalização social e política e de que “lutavam contra o governo, que defendia os interesses dos endinheirados, dos coronéis e dos estrangeiros”.

“Novo Canudos”

Na época, porém, a visão predominante na imprensa, refletida no Congresso Nacional, ignorava os problemas que motivaram a insurreição sertaneja. Em setembro de 1914, o senador Abdon Batista desqualificou no Plenário denúncias do deputado federal Maurício de Lacerda, do Rio de Janeiro, que afirmava que a usurpação de terras era a principal causa do conflito:

— É uma lenda. Essa gente não tem terras nessas zonas, o que querem é viver sem trabalhar.

Uma das poucas vozes dissonantes no Congresso, Lacerda disse à imprensa que o Contestado era “um novo Canudos” e defendia os revoltosos, “brasileiros donos de suas terras e que foram usurpados por uma empresa estrangeira”.

— As vítimas, como era natural, defenderam-se. O que se devia esperar? Que o Estado fosse em socorro daqueles homens, mas verificou-se o contrário — declarou aos jornalistas.

O deputado denunciava que dois influentes políticos paranaenses, “protetores da empresa estrangeira que havia se apoderado à força das terras dos sertanejos”, conseguiram que o governo mandasse forças para “defender os ladrões e matar brasileiros que licitamente defendiam suas propriedades”.

Esses políticos eram o senador Alencar Guimarães (que havia governado o Paraná) e o vice-governador Affonso Camargo.

Guimarães defendeu-se no Plenário do Senado.

— Nunca fui homem de negócios, jamais advoguei interesses de qualquer companhia nacional ou estrangeira que colidissem com interesse do Estado.

“Pavor e pena"

Expedições militares tentaram desmobilizar o movimento, atacando Taquaruçu. Depois de várias tentativas, o reduto foi destruído em fevereiro de 1914. A força militar bombardeou a comunidade de longe. Atingiu principalmente mulheres, crianças e idosos, pois a maior parte dos homens havia partido para formar outro reduto, o de Caraguatá.

Foi um massacre. Metralhadoras, canhões e até granadas foram usados no ataque. No livro A Campanha do Contestado, o militar Demerval Peixoto, que participou dos combates como soldado, reproduz o relatório do médico que acompanhou a expedição:

“Pernas, braços, cabeças, casas queimadas... Fazia pavor e pena o espetáculo que se desenhava aos olhos. Pavor motivado pelos destroços humanos; pena das mulheres e crianças que jaziam inertes por todos os cantos”.

A revolta da população contra o massacre só fez fortalecer o movimento, e os sertanejos começaram a expandir suas ações. Milhares de novos adeptos se mudavam para os redutos. Novas “cidades santas” surgiam. A maior delas, Santa Maria (que não tem relação com o município gaúcho homônimo), tinha 25 mil pessoas.

Ao mesmo tempo, o movimento se militarizou, com líderes “de briga” aliados aos religiosos. No inverno de 1914, os sertanejos começaram a saquear fazendas, roubando gado e comida e arregimentando pessoal (até sob ameaça) para reforçar os redutos. Passaram a atacar e ocupar cidades. Nos ataques, estações de trem e repartições públicas eram queimadas.

Com apoio dos governadores de Santa Catarina e Paraná, em 1914 o governo federal decidiu empreender uma grande operação militar para aniquilar a insurreição. Sob o comando do general Setembrino de Carvalho, 6 mil soldados rumaram para o sul do país. Além deles, 2 mil civis (chamados vaqueanos), a maioria integrantes das guardas privadas armadas mantidas pelos coronéis da região, foram contratados para auxiliar o Exército. A ordem do governo era clara: “acabar com os fanáticos”, como contou o próprio general Setembrino em suas memórias.

Quando o cerco aos redutos se apertou, começou a faltar comida, remédios e munição para os rebeldes. Sobreviventes relataram que, no final, comeram até couro de cintos e arreios para não morrer de fome. Para evitar deserções, alguns líderes, como Adeodato, impuseram um regime de terror nos redutos, executando os suspeitos de traição.

O reduto de Santa Maria foi destruído na Páscoa de 1915. Em telegrama a Setembrino, o capitão responsável pelo ataque detalha: “Tomei e arrasei 13 redutos com enormes sacrifícios do meu heroico destacamento. Matamos em combate perto de 600 jagunços, não contando o grande número de feridos. Arrasei perto de 5 mil casas e 10 igrejas”.

Os últimos combates ocorreram em dezembro de 1915, e os rebelados, derrotados, se dispersaram. Houve rendições em massa das famílias sertanejas.

Os vaqueanos começaram então uma caçada aos últimos líderes rebeldes. Muitos deles foram mortos em execuções sumárias, mesmo depois de rendidos. Alguns vaqueanos ganharam fama por retirar sertanejos da cadeia para executá-los.

Acordo de limites

Com a captura de Adeodato Ramos, o último e mais temido líder dos rebelados, a guerra foi encerrada de vez, naquele inverno de 1916. Logo em seguida, em outubro, finalmente veio a assinatura do acordo de limites entre Santa Catarina e Paraná. Pressionados pelo presidente Wenceslau Braz, cada um dos dois estados teve que ceder um pouco. A partilha, porém, foi vista como favorável aos catarinenses, que ficaram com 28 mil dos 48 mil quilômetros quadrados da área contestada.

Na assinatura do acordo, no Palácio do Catete, no Rio, o governador de Santa Catarina, Felipe Schmidt, comemorou a paz, encerrando um “passado amargo” que fazia os dois estados se olharem com desconfiança, como “dois povos estranhos que aguardassem, de arma em punho, a hora da peleja”.

O governador do Paraná, Affonso Camargo, também exaltou a paz, mas deixou claro o ressentimento com um desfecho que considerava injusto. Ele justificou sua decisão de assinar o acordo mesmo assim citando a necessidade urgente de encerrar uma “luta fratricida sem precedentes”:

— Ali caíram sem vida oficiais do Exército, bravos soldados das forças nacionais e estaduais e milhares de sertanejos, na sua maioria laboriosos, em uma confusão desumana que dolorosamente impressionou todo o país.

Ao citar os sertanejos “em sua maioria laboriosos”, o governador reconhecia que o movimento, hoje visto como uma das maiores revoltas camponesas do Brasil, era mais que uma combinação de fanatismo e banditismo.

Essa consciência se ampliaria a partir dos anos 1970, explica o historiador Paulo Pinheiro Machado. Com a redemocratização do país, criou-se um ambiente favorável para a retomada da memória e dos estudos sobre a Guerra do Contestado.

No Senado, essa releitura histórica ficou patente numa sessão especial realizada em agosto de 2009 para lembrar a guerra. No Plenário, os senadores ressaltaram o caráter de revolta social do movimento, as injustiças cometidas contra a população pobre do Contestado e a ausência do Estado.

“Quando o Estado falta, não cumpre com seu dever, se omite, o resultado é este: as pessoas reagem”, disse o senador Raimundo Colombo, hoje governador de Santa Catarina.

O então senador Flavio Arns, do Paraná, afirmou que o governo desconsiderou uma população pobre para privilegiar empresários e fazendeiros.

Na época da guerra, uma rara visão lúcida do conflito veio justamente de um comandante do Exército, o jovem capitão Mattos Costa. Idealista, ele defendia uma solução pacífica e morreu em combate, em 1914. Ficou registrada em relatos militares sua concepção da guerra:

“A revolta do Contestado é apenas uma insurreição de sertanejos espoliados nas suas terras, nos seus direitos e na sua segurança. A questão do Contestado se desfaz com um pouco de instrução e o suficiente de justiça, como um duplo produto que ela é da violência que revolta e da ignorância que não sabe outro meio de defender o seu direito”.

Último líder dos rebeldes ganhou fama de “demônio”

A Guerra do Contestado começou com um líder considerado santo — o monge José Maria — e terminou com outro tido como o próprio diabo — Adeodato Ramos.

“O demônio está encarcerado”, anunciou em agosto de 1916 o jornal O Imparcial, de Canoinhas (SC), referindo-se à captura de Adeodato, que tinha fama de assassino e era temido pelos próprios companheiros.

O repórter do jornal O Estado, de Florianópolis, porém, se surpreendeu ao entrevistar Adeodato na prisão.

“Nós, que esperávamos ver o semblante perverso de um bandido, cujos traços fisionômicos estivessem a denotar sua filiação entre os degenerados do crime, vimos, pelo contrário, um mancebo em todo o vigor da juventude, de uma compleição física admirável, esbelto, olhos de azeviche [pretos], dentes claros, perfeitos e regulares, e ombros largos”, escreveu, destacando a postura recatada do “célebre bandoleiro”.

O jornal O Dia, de Florianópolis, relatou que ele respondia aos policiais de forma serena e “tinha o olhar suave”.

Adeodato era uma figura controvertida. “É evidente que ele cometeu muitas atrocidades nos redutos, mas não era muito diferente de outros líderes rebeldes”, escreveu o historiador Paulo Pinheiro Machado, ressaltando que houve uma “demonização” do último líder rebelde, alimentada pelos próprios sertanejos.

Conta-se que, no julgamento, após a ouvir a sentença de 30 anos de prisão, o réu declamou no tribunal versos irônicos:

“Para tirar o mal do mundo / Tinha feito uma jura / Ajudei nosso governo / A quem amo por ternura / Acabei com dez mil pobres / Que livrei da escravatura / Liquidei todos os famintos / E os doentes sem mais cura / Quem é pobre neste mundo / Só merece sepultura.”

Adeodato foi morto em 1923, numa suposta tentativa de fuga da prisão.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)



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