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sábado, 23 de dezembro de 2017

Quem são as mulheres católicas e evangélicas que lutam pelo direito ao aborto?


Matéria extensa publicada na BBC Brasil:

Os argumentos das católicas brasileiras que há 25 anos defendem o aborto

Camilla Veras Mota

O Papa Francisco não chega a comover. Elas não vão à missa aos domingos, defendem o Estado laico, a contracepção, o casamento gay e, há quase 25 anos, o aborto.

O mais antigo movimento no Brasil de católicas que pregam os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres nasceu entre um grupo de jovens que se inquietavam com questões que não ecoavam na Igreja, ainda no início dos anos 90.

"Nós falávamos dos pobres, mas não olhávamos para as mulheres", diz Regina Soares Jurkewicz, coordenadora do Católicas pelo Direito de Decidir (CDD), referindo-se à Teologia da Libertação, corrente progressista que norteava a atuação das pastorais sociais das quais ela, a professora da PUC-SP Maria José Rosado-Nunes e a teóloga Luiza Tomita, também fundadoras, faziam parte nos anos 80.

Em 1993, elas conheceram a médica uruguaia Cristina Grela - hoje parte da equipe do Ministério da Saúde do Uruguai, único país da América do Sul onde o aborto foi totalmente legalizado, em 2012, até a 12ª semana de gestação - em alguns casos, esse limite é maior.

Naquela época a ativista era integrante do grupo americano Catholics For Choice - que completa 45 anos em 2018 - e fazia um périplo pelo continente na tentativa de organizar um movimento semelhante na região. Além do Brasil, há "Católicas por el Derecho a Decidir" em outros dez países latinoamericanos.

Depois de um evento na Igreja do Carmo, em São Paulo, o movimento foi lançado no dia 8 de março daquele ano. Está presente hoje em 14 Estados e atua em duas frentes - a educativa, com a produção de material didático para o ensino da religião e a realização de seminários para formação de multiplicadoras, e política, organizando debates, marchas e idas a Brasília.

Em uma de suas campanhas mais recentes, o CDD foi às ruas em novembro para protestar contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 181, que pode criminalizar o aborto mesmo nos casos em que ele hoje é permitido, como em gestações resultantes de estupro.

Entre seus membros, leigos e religiosos, está a freira feminista Ivone Gebara, punida pelo Vaticano em 1995 por defender publicamente em uma entrevista a descriminalização e a legalização do aborto.

Na época à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Joseph Ratzinger - que anos depois se tornaria o papa Bento 16 - determinou que ela voltasse à Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, onde obteve seu doutorado, para passar dois anos reclusa, em "reeducação teológica".

Por não estar ligado à estrutura da Igreja, contudo, o movimento em si está fora dos limites de repreensão da hierarquia católica. As perseguições também não são frequentes, diz Jurkewicz.

O que há são questões pontuais como a de Gebara e a que ela mesmo enfrentou quando publicou seu doutorado. Logo após a apresentação do trabalho, que reunia 21 casos de abuso sexual de mulheres por padres, a assistente social foi demitida da universidade em que lecionava, ligada à diocese de Santo André.

O antagonismo mais organizado vem de setores conservadores da religião, de instituições como Arautos do Evangelho e Opus Dei.

As "ameaças", dizem, chegam geralmente por email ou pelas redes sociais. "São mensagens dizendo que a gente vai para o inferno, essas coisas. Nada grave."

O aborto sempre foi considerado pecado?

Para defender o aborto dentro da lógica religiosa, as ativistas argumentam que o início da vida sempre foi um ponto de divergência dentro da fé católica.

Nos primeiros séculos do cristianismo, exemplifica Jurkewicz, houve Santo Agostinho, que condenava o controle de natalidade e o aborto por romperem a conexão entre ato conjugal e procriação, mas que afirmava que ele não era um ato de homicídio.

Seus escritos a respeito do Êxodo diziam, sobre o feto, que "não existe alma viva em um corpo que carece de sensações". Ele nunca chegou a uma conclusão sobre o momento em que a vida começava.

Já o teólogo Tertuliano defendia em 160 que a concepção era o início de tudo e, por isso, condenava a prática.

"Não é um dogma de fé, é uma questão disciplinar", diz ela, acrescentando que nos cadernos penitenciais da Igreja na Idade Média o aborto era colocado entre outros pecados sexuais.

Os Cânones Irlandeses de 675, por exemplo, previam 14 anos a pão e água para aquele que tivesse relação sexual com a vizinha e três anos e meio para quem destruísse um embrião no ventre.

O tema passou a ser oficialmente condenado pela Igreja apenas em 1869, a partir de um boletim do papa Pio 9.

A posição da Igreja hoje e o papa Francisco

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em sua nota "Pela vida, contra o aborto", de abril deste ano, afirma que "a tradição judaico-cristã defende incondicionalmente a vida humana".

O texto defende a "integralidade, inviolabilidade e a dignidade da vida humana desde a sua concepção até a morte natural" e condena "todas e quaisquer iniciativas que pretendam legalizar o aborto no Brasil".

"A posição sempre foi a mesma: defender e cuidar da vida humana desde a sua concepção. A vida humana é preciosa demais para ser eliminada ou descartada", diz o bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, em nota enviada à BBC Brasil.

O papa Francisco manteve o entendimento que herdou dos antecessores, apesar de ter autorizado, em novembro do ano passado, que padres pudessem perdoar o aborto - prerrogativa que antes era restrita a bispos ou confidentes especiais da Igreja.

"A ideia (por trás da iniciativa do Papa Francisco) é mais de compaixão, de perdão. A Igreja não trabalha com direitos (para as mulheres)", diferencia Jurkewicz.

As ativistas do CDD são críticas em relação ao papel do feminino na Igreja Católica, que limitaria "os espaços de poder e saber" aos homens.

"A posição oficial guarda a tradição da mulher como mãe, está carregada de atributos de gênero. Mesmo as freiras são vistas como 'mães espirituais'", ressalta.

São Tomás de Aquino

O princípio do "recurso à consciência" é outro argumento usado pelas ativistas para defender suas bandeiras e o primeiro destacado pelo movimento do qual se originou o CDD, o americano Catholics for Choice (CFC).

A ideia é que cada católico tome decisões guiadas pelo pensamento individual, ponderando o efeito de suas ações sobre si e sobre o próximo, e que respeite o arbítrio do outro.

"São Tomás de Aquino afirmava que nossa consciência não é um atributo das instituições", diz Amanda Ussak, diretora do programa internacional do CFC.

A organização surgiu nos Estados Unidos em 1973, ano em o aborto foi legalizado no país após decisão da Suprema Corte no emblemático caso Roe v. Wade.

Prevendo uma onda de reações contrárias de instituições religiosas, um grupo de católicas decidiu se reunir e se contrapor às pressões por recuos. Uma década depois, o movimento deu início à sua expansão internacional.

A iniciativa, afirma Ussak, veio da percepção de que criminalização do aborto prejudicava especialmente as mulheres pobres, grupo que ainda hoje registra o maior número de mortes por complicações em procedimentos feitos em clínicas clandestinas.

Hoje a organização atua também na Europa e na África, dando treinamento às organizações para comunicar as campanhas e apoio às iniciativas para mudar as leis locais.

Um exemplo recente de atuação nesse sentido aconteceu no Chile, onde o Congresso aprovou, em agosto, a descriminalização em caso de risco de vida da mulher, inviabilidade fetal e estupro. Até então, qualquer tipo de aborto era proibido.

Na Argentina, o Católicas por el Derecho a Decidir (CDD) participou das discussões que culminaram, em 2006, na Lei de Educação Sexual Integral - semelhante à educação de gênero hoje debatida no Brasil -, na Lei para Prevenir e Erradicar a Violência contra a Mulher, de 2009, e a Lei de Identidade de Gênero, de 2012, que permitiu que travestis e transexuais escolhessem o sexo no registro civil.

"Nos falta ainda a legalização do aborto", afirma Victoria Tesoriero, uma das coordenadoras do movimento argentino.



As evangélicas

Hoje há iniciativas semelhantes às ONGs católicas entre mulheres pentecostais e neopentecostais. O Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG), por exemplo, nasceu em 2015 voltado especialmente para a questão da violência contra a mulher.

"Eu nasci nas Assembleias de Deus, no movimento pentecostal, e durante muito tempo testemunhei todo tipo de violência, institucional, simbólica, assédio", conta Valéria Vilhena, uma das fundadoras da rede, que hoje soma 3 mil mulheres.

Em sua tese de mestrado, feita na Universidade Metodista, onde dá aulas hoje, ela mergulhou no cotidiano de uma casa de acolhimento para vítimas de violência doméstica em São Paulo e verificou que 40% das atendidas eram evangélicas.

O aborto, para ela, entra na problemática da negação de direitos às mulheres e da violência. A posição pública a favor, contudo, veio apenas neste ano, em reação à PEC 181.

"Não estamos trabalhando a questão da legalização a partir da Bíblia porque nós queremos desvinculá-la da questão religiosa. É uma questão de saúde pública", destaca. "A questão é essa: mulheres morrem", emenda.



sábado, 7 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 7


O TEMPO E O SÁBADO - PARTE I

E Deus concluiu no sétimo dia sua obra que fizera e descansou no sétimo dia de toda sua obra que fizera. 
Gênesis 2.2

Aqui surge uma pergunta. Moisés diz que no sétimo dia o Senhor descansou da obra que fizera, isto é, que ele parou de trabalhar no sétimo dia. Cristo, por seu turno, diz em Jo 5[.17]: “Meu pai trabalha até agora, e eu [também] trabalho”. Faz parte dessa passagem o que a Epístola aos Hebreus afirma nos capítulos 3[.18] e 4[.3] sobre o descanso: “Se entrarem”, certamente não na terra da promissão, mas “em meu descanso” etc.

A essa pergunta nós simplesmente respondemos desta maneira: a solução é dada pelo próprio texto, quando diz: “Foram concluídos os céus e a terra”. Pois o sábado ou o descanso do sábado significa que Deus parou por completo, não criando outro céu e outra terra. Isso não significa que Deus deixou de conservar e governar o céu e a terra que ele havia criado.

Portanto, a solução é fácil. Deus descansou do seu trabalho, isto é, estava contente com o céu e a terra criados através da Palavra; não criou novos céus, nem uma nova terra, nem novas estrelas, nem árvores novas. Contudo, Deus continua trabalhando até hoje. Ele, efetivamente, não abandonou a natureza que criou, mas a governa e a conserva mediante a força da sua Palavra. Ele terminou de criar, mas não cessou de governar o que havia criado. Com Adão, teve início o gênero humano; na terra, [iniciou todo o tipo de] animais, por assim dizer; no mar, iniciaram os peixes mas estes não cessaram [de se multiplicar]. Até hoje permanece a Palavra que foi dita sobre o gênero humano:> “Crescei e multiplicai-vos”; também permanece a Palavra: “O mar produza peixes e aves do céu”. Sua Palavra continua onipotente, pois é por seu poder e sua força que [ele] conserva e governa toda a criação.

Moisés estabeleceu, pois, com clareza, que no início estava a Palavra. Como todas as coisas crescem, se multiplicam, são conservadas e governadas da mesma forma como foi desde o início do mundo, segue-se, evidentemente, que a Palavra dura até agora e que ela não morreu. Portanto, o fato de dizer que “Deus descansou da ora” não se refere à evolução das coisas, ao modo como são conservadas e governadas, mas, simplesmente ao início, ou seja, [significa] que Deus cessou de [dar] ordens, como se diz em linguagem comum, e de [criar] novas espécies ou novas criaturas.

Se olhares para a minha pessoa, eu sou algo novo, porque sessenta anos atrás eu nada era. Assim julga o mundo. O julgamento de Deus, no entanto, é outro, porque diante dele eu fui gerado e multiplicado logo no início do mundo, pois a Palavra “E Deus disse: ‘Criemos o ser humano’” também criou a mim. Pois tudo que Deus criar, criou-o no momento em que falou. Nem tudo, porém, ficou visível aos nossos olhos. De forma semelhante como uma flecha ou um projétil, lançados de um canhão (que tem uma velocidade maior) atingem o alvo, por assim dizer, ao mesmo tempo e, no entanto, são lançados com um determinado intervalo, assim Deus percorre o mundo, através de sua Palavra, do início até seu fim. Pois para ele não existe antes e depois, mais rápido e mais lento, mas todas as coisas estão presentes diante dos seus olhos, porque ele está fora das dimensões do tempo.

Quando Moisés diz que o Senhor descansou, ele está se referindo à conjuntura original do mundo. Como não havia pecado, nada de novo foi criado nele. Não existiam cardos, nem espinhos, nem serpentes e nem sapos; caso tenham existido, eles não continham veneno e não tinham a intenção de prejudicar. [Moisés] refere-se, portanto, à criação de um mundo perfeito. No início, o mundo era, pois, puro e inocente, porque o ser humano era puro e inocente. Agora, quando o ser humano mudou devido ao pecado, também o mundo começou a ficar diferente, isto é, à queda do ser humano seguiu-se a corrupção e a maldição da criatura. “Maldita é a terra”, disse Deus a Adão, “por causa de ti; ela te produzirá espinhos e cardos” [Gn 3.17]. E, em vista de [uma pessoa] amaldiçoada, Caim, a terra é maldiçoada, de modo que, mesmo cultivada, ela não produz seus melhores frutos. Depois disso, em razão do pecado do mundo todo, veio o dilúvio, e o gênero humano inteiro é destruído, com exceção de alguns poucos justos, para que se cumprisse a promessa relativa a Cristo. Do mesmo modo como vemos que a terra foi deformada pelo pecado, assim eu também creio que a luz do sol era mais clara e mais bela porque foi criada antes do pecado do ser humano.

Nas escolas de Teologia é corrente dizer-se: “Discerne os tempos e colocarás em concordância as Escrituras”. Por isso é preciso falar muito diferente do mundo depois da catastrófica corrupção por causa do pecado do que falaríamos sobre o mundo original, puro e íntegro. Consideremos um exemplo que está diante dos olhos: aqueles que viram a terra da promissão em nossos dias dizem que ela em nada se assemelha ao louvor que se encontra nas Sagradas Escrituras. Por isso, depois que o conde Stolberg a tinha explorado com singular diligência, disse que preferia a terra que tinha na Alemanha. Pois, por causa do pecado, da impiedade e da maldade dos seres humanos, a terra se tornou uma salina, como diz o Sl 107[.34], assim como Sodoma era uma espécie de paraíso antes de perecer pelo fogo do céu, Gn 13[.10].

Em geral, a maldição se segue ao pecado, e a maldição [, por seu turno,] muda as coisas, de modo que de ótimas passam a ser ótimas passam a ser péssimas. Por isso, Moisés está falando sobre a perfeição das criaturas, como elas eram antes do pecado. Se o ser humano não tivesse pecado, todos os animais teriam permanecido obedientes até que Deus tivesse transferido o ser humano do paraíso ou da terra; depois do pecado, porém, todas as coisas mudaram para pior.

Desse modo, permanece a solução proposta acima: em seis dias, Deus terminou sua obra, isto é, deixou de criar novas criaturas, e fez tudo o que quis fazer. Ele não disse novamente: “Haja uma nova terra, um novo mar” etc. O benefício do qual fomos alvo pelo fato da virgem Maria ter dado à luz o Filho de Deus deixa claro que o recebemos por causa da desgraça em que caímos pelo pecado. Contudo, antes de realizar essa admirável e poderosa obra, anunciou, através da sua Palavra, que haveria de fazê-la, assim como também assinalou por meio da sua Palavra outros milagres que haveriam de acontecer.

Esta é a primeira questão que diz respeito à afirmação de que Deus concluiu o céu e a terra e, depois, nada fez de novo. Agora, para que também o aprendamos, é preciso explicar o que é o sábado, ou o descanso de Deus; de que modo Deus santificou o sábado, como diz o texto.

(LUTERO, Martinho. Textos Selecionados da Preleção sobre Gênesis. MARTINHO LUTERO, Obras Selecionadas. 1535-1545. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2014, vol. 12, tradução de Geraldo Korndörfer, págs. 113-115)


(continua...)


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Pais espancam filho até a morte em igreja evangélica dos EUA

O pai Bruce, a mãe Deborah, Joseph Irvin, David Morey, Linda Morey, e a irmã Sarah

A informação absurda mas tristemente real vem da Folha de S. Paulo.

A "razão" para o espancamento (leia-se "tortura") era fazer Lucas (o rapaz morto aos 19 anos de idade) e seu irmão Christopher (de 17, internado em estado grave) confessarem seus pecados e pedirem perdão.

A irmã deles, Sarah Ferguson, também teria participado das agressões.

A Fox31 de Denver, Colorado, acrescenta alguns detalhes interessantes.

Os dois rapazes foram educados em casa, no esquema de "home school" típico de muitas famílias conservadoras americanas.

No total, seis monstros membros da igreja foram presos. Ao macabro trio dos pais e da irmã se juntaram Joseph Irwin, David Morey e Linda Morey. O sexteto do mal está na foto acima.

Ao averiguar o fato, as autoridades locais teriam encontrado algumas crianças na igreja, que foram encaminhadas ao serviço de proteção de menores da cidade.

É fácil atribuir uma loucura dessas ao fanatismo e à ignorância, mas o buraco pode estar mais embaixo.

No fundo, é uma demonstração de sadismo travestido de "piedade". 

Talvez haja muito mais sádicos dissimulados dentro das igrejas evangélicas do que nossa vã consciência consegue perceber.

Não há vez nem espaço para a compaixão...

É muito cômodo pensar que isto é uma exceção dentro das igrejas evangélicas, um fato isolado, mas a profilaxia começa em casa, seria muito interessante analisar como ajudam a reforçar esse quadro de horror o discurso do ódio, a obsessão com o "pecado", a indiferença com o sofrimento alheio e a tolerância pseudoecumênica e parcimoniosa com as heresias que se cometem abundantemente em nome de Cristo.

Eis a matéria da Folha:

Jovem é espancado até a morte 
pelos pais em igreja dos EUA

Um jovem de 19 anos foi morto após ser espancado durante horas dentro de uma igreja por seus próprios pais e irmã, além de outros membros da congregação, segundo informações divulgadas pela polícia nesta quarta (14). Seu irmão também foi espancado no ritual.

Os pais, Bruce Leonard, 65, e Deborah, 59, compareceram diante de um juiz na terça e se declararam inocentes pela morte do filho, Lucas.

Outros quatro membros da congregação da Igreja Palavra da Vida de Chadwicks, cidade de 22 mil habitantes no Estado de Nova York, foram presos e indiciados por torturarem o irmão mais novo de Lucas, Christopher.

"Ambos os irmãos foram continuamente sujeitos a punições físicas durante várias horas com o objetivo de que ambos confessassem seus pecados e pedissem pelo perdão", disse Michael Inserra, chefe da polícia de New Hartford, que investiga o caso.

Lucas Leonard morreu na tarde segunda-­feira após ser levado a um hospital por familiares, os quais mentiram aos médicos dizendo que ele havia sido atingido por um tiro de arma de fogo, segundo a polícia. Os ferimentos de Lucas eram compatíveis com "trauma contundente" em seu tronco e membros.

Por meio de interrogatórios de membros da igreja, a polícia soube que o irmão mais novo de Lucas, Christopher, 17, também havia sido torturado durante a sessão. O rito para a expiação dos pecados era realizado após as missas e presidido pelo pastor ou um membro da congregação, disse Inserra.

A polícia cercou a igreja, onde Christopher era mantido. O adolescente foi transferido para um hospital local e se encontrava em estado grave.

Sarah Ferguson, 33, irmã das duas vítimas, e três outros membros da igreja foram presos e indiciados por agressão.

A fiança dos pais de Lucas Leonard foram estipuladas em US$ 100 mil cada.

Os investigadores não têm muitas informações sobre a Igreja Palavra da Vida, que se descreve simplesmente como uma igreja cristã em uma placa na frente de seu templo.



quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Pesquisadora diz que crianças agem mal por "diversão"


Tese defendida por pesquisadora americana parece justificar a doutrina do pecado original, segundo a matéria publicada na Galileu:

Crianças não precisam de um motivo para se comportarem mal

Pesquisadora americana sugere que os pequenos não precisam ser provocados, apenas agem assim por diversão

Isabela Moreira

Crianças podem ser instáveis: fofas e amigáveis em um momento, judiando do irmão caçula no outro. A teoria geral para justificar esse tipo de comportamento é que os pequenos agem assim porque estão frustrados e ainda não desenvolveram o autocontrole.

Mas um estudo realizado por Audun Dahl, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, nos Estados Unidos, possui uma visão diferente sobre o problema. Para a pesquisadora, as crianças não precisam de um motivo específico para agirem como pequenos terroristas.

Audun observou cerca de 25 crianças em três momentos diferentes das vidas delas: quando tinham 14 meses, 19 meses e 2 anos. Em cada uma dessas sessões, a acadêmica passou pelo menos duas horas assistindo a como os participantes se comportavam em casa.

Ela percebeu que, na metade das vezes em que as crianças faziam mal a alguém (a ordem de preferências nesses casos, segundo a pesquisadora, é: pais, irmãos e animais de estimação), foi sem provocação alguma. Uma média de 43% das interações tinham a ver com um elemento que as incomodava, como um irmão mais novo irritante, por exemplo. O resto das ações pareciam ter sido intencionais, porém sem provocação para tal.

A autora do estudo sugere que, se a frustração ou a raiva não explicam comportamentos ruins, essa pode simplesmente ser uma forma de diversão para as crianças. Além disso, Auden afirma que os pequenos costumam melhorar conforme ficam mais velhos: o pico dessa fase é quando eles completam um ano e meio e ela vai diminuindo até desaparecer aos dois anos.

Via Science of Us

*Com supervisão de André Jorge de Oliveira



quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Dupla de mórmons bêbados ataca transeunte na Austrália

Quem vive em cidades grandes está - de certa forma - acostumado a ver as duplas de missionários mórmons, com o crachá que os identifica (com os nomes começados por "Elder"), fazendo visitas para divulgar a sua religião.

O que ninguém espera é que aqueles jovens com suas gravatas e camisas brancas tomem uns gorós e tenham um acesso de loucura atacando aleatoriamente a primeira pessoa com quem cruzam na rua.

Pois foi exatamente isto o que aconteceu na Austrália no último dia 29 de dezembro, na paradisíaca região de Surfers Paradise (com o perdão da redundância).

A bela Costa Dourada australiana foi palco do ataque de fúria de dois missionários mórmons, Amanaki Kaufusi (21 anos de idade) e Onesi Taufui (18), que moram em Sidney, mas têm raízes familiares em Tonga, arquipélago da Oceania.

Centenas de mórmons se reuniram na cidade de Gold Coast, a 16 km de Surfers Paradise, para uma conferência da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias no bairro de Tallebudgera.

Entretanto, os dois jovens acusados do crime, Kaufusi e Taufui, preferiram dar uma escapadinha e foram aproveitar a noite de sábado (28/12/13) na zona boêmia da cidade, conhecida como "Sin City" ("Cidade do Pecado").

Segundo as testemunhas que presenciaram a insólita ocorrência, já na manhã do domingo, o embriagado Kaufusi teria gritado "Eu quero bater em alguém. Vou socar a próxima pessoa que passar na minha frente".

No seu perfil no facebook, Kaufusi (foto ao lado) curte a página Awesome Fights ("Lutas Lindas"), o que talvez explique alguma coisa, se é que é possível explicar.

As pessoas que estavam com ele tentaram fazê-lo ver que estava bêbado, mas ele teria dito em tonganês: "Vocês querem ver o que é bêbado? Isso é que é ser bêbado..."

Ato contínuo, o jovem atacou a primeira pessoa que viu, um turista de 24 anos de idade chamado Onyekachi Okoye, que desabou inconsciente na calçada e, após ser socorrido, foi hospitalizado.

Não se sabe ao certo quem é a vítima, mas uma busca no Google mostra que Onyekachi Okoye é um nome de origem africana.

Não contentes em ver o inocente transeunte desfalecido no chão, ambos os missionários, Kaufusi e Taufui, teriam ainda chutado a cabeça do rapaz antes de tentarem a fuga.

Outros missionários mórmons que estavam no local ainda insistiram para que eles se entregassem, mas eles pegaram um táxi pensando em retornar o mais rápido possível ao retiro de Tallebudgera.

O fato é que os dois missionários enfurecidos foram presos pela polícia australiana e agora aguardam o seu julgamento.

A favor da igreja mórmon, é bom que se diga que o triste fato poderia ocorrer em qualquer comunidade, religiosa ou não, mas, conforme seu próprio portal na internet diz, "durante o período em que servem em tempo integral, os missionários são representantes oficiais da Igreja".

O serviço missionário é uma prática comum dos jovens mórmons, incentivado pela igreja, dura de 18 meses a 2 anos, e se trata de um serviço voluntário e gratuito que prestam à sua organização.

Talvez seja o caso de se tomar mais cuidado para que fatos lamentáveis como este não se repitam.

A fonte da informação acima é o CourierMail.



segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A crucificação do futebol brasileiro

Os últimos dias foram marcados por uma certa confraternização mundial em razão de dois acontecimentos que ocorreram quase que simultaneamente: a morte de Nelson Mandela e o sorteio dos grupos da Copa do Mundo de futebol de 2014, a ser realizada no Brasil.

Ficamos todos, de certa maneira, embevecidos pelos discursos,  gestos e sonhos de paz na humanidade, e nos esquecemos, ainda que passageiramente, de nossa miserável condição humana.

A depravação, esta velha e sórdida inimiga da raça, está sempre à espreita, pronta para atacar.

Lamentavelmente, o ataque teve vez em Joinville ontem, 8 de dezembro de 2013, na partida válida pela última rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol deste ano, entre Atlético Paranaense e Vasco da Gama, vencida pelo primeiro por 5x1, o que resultou no rebaixamento do time carioca para a série B de 2014.



As cenas vergonhosas de briga entre as torcidas dos respectivos times ultrapassaram as fronteiras brasileiras e hoje são objeto de comoção e rechaço em todo o mundo.

A foto da capa da edição de esportes de hoje do Diário de São Paulo conseguiu captar a transcendência tenebrosa deste momento:



A referência é obviamente religiosa, e remete às pinturas consagradas de Rubens e Caravaggio sobre o içamento e a deposição de Jesus Cristo na cruz:


Rubens, "O Levantamento da Cruz de Cristo"


Rubens, "A Deposição de Cristo da Cruz"


Caravaggio, "La Deposizione"
As outras imagens sanguinolentas do triste evento também desilustram a nossa tão acalentada esperança de um mundo diferente. Desencantamos afinal...

Por vias macabramente tortas, portanto, somos lembrados de que Ele, o Salvador, continua sendo a melhor (e única) resposta a tanta depravação.



segunda-feira, 23 de julho de 2012

Deuses esquecidos na poeira dos tempos

Matéria interessante com destaque para as afirmações: "a religiosidade é possivelmente o único critério que realmente distingue o ser humano dos outros animais" e “Quando uma pessoa é enterrada, existe a suposição de que há uma vida após a morte. Essa atitude, que também é uma crença, caracteriza o ser humano. Nenhum animal é capaz de tal abstração”.

Há também, a meu ver, uma aparente contradição (que merece ser melhor investigada) entre a afirmação de que - no que diz respeito à sexualidade - "a diferença de religiosidade entre os povos nos faz entender que a nossa religiosidade não é algo natural, mas sim cultural", e - posteriormente - a constatação de que "a única regra religiosa comum a elas talvez tenha sido o incesto, que somente muito tempo depois ganhou também uma dimensão genética".

De qualquer maneira, o artigo - do Jornal UNICAMP e repercutido na História Viva - abaixo transcrito é leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema:

As religiões que o mundo esqueceu

Organizado por docente do IFCH, livro mostra como determinados povos cultuavam seus deuses

MANUEL ALVES FILHO

A religião egípcia era obcecada pela perpetuação da alma. Os sumérios, por sua vez, criaram as primeiras histórias sobre o dilúvio. Já os albigenses formularam a ideia do mundo dividido entre dois poderes antagônicos, representados pelo bem e o mal. Esses e muitos outros aspectos relacionados à religiosidade humana são abordados no livro As Religiões que o Mundo Esqueceu. A obra, organizada pelo historiador Pedro Paulo Funari, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, reúne artigos de 13 especialistas, entre eles o próprio Funari, sobre religiões que desaparecem ou são praticadas por um reduzido número de pessoas na atualidade. “O objetivo do livro é mostrar a importância dessas religiões em suas respectivas épocas e os legados que elas nos deixaram”, afirma o docente.

A proposta do livro surgiu, conforme Funari, durante uma conversa entre ele e Jaime Pinsky, ex-professor da Unicamp e dirigente da Editora Contexto. “Como a Contexto já havia publicado um livro chamado Os Monoteístas, traduzido do inglês, que fala do cristianismo, judaísmo e islamismo, nós consideramos que seria interessante lançar uma obra que tratasse de outras religiões que foram relevantes no passado, mas que ou desapareceram ou permanecem esquecidas pelo grande público. Para isso, recorremos a especialistas brasileiros, a maioria deles vinculada ou que realizou parte da sua formação acadêmica na Unicamp”, explica o historiador. Ao todo, são abordadas 13 religiões, que são apresentadas em ordem cronológica. O texto, segundo ele, é acessível a qualquer pessoa que se interesse pelo tema. O primeiro capítulo, escrito por Julio Gralha, é dedicado à religião egípcia. Na sequência são tratados aspectos das manifestações religiosas dos povos sumérios, gregos, romanos, gnósticos, arianistas, persas, celtas, vikings, albigenses, maias, astecas e índios brasileiros. Aos autores, destaca Funari, foi pedido que trabalhassem as informações dentro do contexto histórico de cada época. Também foi solicitado que explicassem os ritos, mitos e a estrutura de poder eventualmente existente em cada uma das religiões. Questionado se existe algum ponto em comum entre as culturas religiosas contempladas no livro, Funari informa que não exatamente. O aspecto que de certa forma as aproxima é o fato de a religiosidade ser uma manifestação exclusiva do humano.

De acordo com o docente do IFCH, uma definição corrente dá conta de que o ser humano pode ser caracterizado pela sua capacidade de produzir instrumentos. Ocorre, porém, que alguns macacos também têm essa “habilidade”, visto que conseguem transformar galhos de árvores em ferramenta ou arma. Outra, ainda, considera que uma expressão exclusiva do humano é o uso da linguagem. Mais uma vez, existem espécies animais, como as baleias ou golfinhos, que conseguem se comunicar com eficiência, embora obviamente suas “linguagens” não sejam tão desenvolvidas ou sofisticadas quanto a dos homens. “Sendo assim, a religiosidade é possivelmente o único critério que realmente distingue o ser humano dos outros animais”, analisa o organizador do livro.

Funari lembra que existe a compreensão de que o homem começou a produzir cultura quando realizou o primeiro enterramento de parentes mortos, o que constituiu uma manifestação de religiosidade. “Quando uma pessoa é enterrada, existe a suposição de que há uma vida após a morte. Essa atitude, que também é uma crença, caracteriza o ser humano. Nenhum animal é capaz de tal abstração”, acrescenta o professor da Unicamp. No que toca aos ritos, o historiador esclarece que eles também são próprios de cada religião e época. “Esse aspecto comprova que a religiosidade é historicamente determinada. Tomemos como exemplo as três grandes religiões monoteístas que predominam na atualidade. Nelas, a sexualidade é reprimida e frequentemente associada ao pecado. Somente é aceita para fins de reprodução. Na Mesopotâmia, porém, era bem diferente. Havia inclusive a prostituição sagrada, que fazia parte da religião. Para os gregos, a fertilidade também era sagrada e, portanto, cultuada. Ou seja, a diferença de religiosidade entre os povos nos faz entender que a nossa religiosidade não é algo natural, mas sim cultural”.

Ademais, prossegue Funari, boa parte dessas religiões deixou legados às manifestações atuais. A ritualidade grega e romana, com mais destaque para esta última, está muito presente nas celebrações cristãs, o catolicismo em particular. “A gestualidade dos sacerdotes, a repetição das palavras e o ato de ajoelhar-se são fundamentais para que as pessoas sintam que tudo está funcionando como deveria ser. Não raro, esses aspectos são até mais importantes que o conteúdo das mensagens, haja vista que ainda há missas rezadas em latim, língua que poucos dominam”, compara o organizador do livro.

O conceito de pecado também varia de povo para povo, como detalha a obra. A rigor, algumas religiões antigas sequer o consideravam, pelo menos não como o fazemos hoje. “A palavra pecado vem do grego hamartia, que significa erro. Ou seja, não tinha o significado nem a dimensão que lhe damos atualmente”. O mesmo ocorre com o que classificamos de dogma. A maioria das religiões tratadas no livro, se não todas, não trabalhava com essa perspectiva. “Num certo sentido, elas podem ser consideradas como antidogmáticas, visto que não tinham uma forte estrutura hierárquica e não adotavam livros sagrados. A única regra religiosa comum a elas talvez tenha sido o incesto, que somente muito tempo depois ganhou também uma dimensão genética”, detalha Funari.

Um dado interessante abordado pelo docente da Unicamp, e que aparece de alguma forma no livro, é o fato de as religiões destacadas na obra não fazerem oposição entre fé e ciência. Tal postura, segundo Funari, vem do século 18. Antes disso, não havia essa separação. “Ao contrário, o desenvolvimento da ciência deu-se em boa parte dentro das religiões. Os maias, por exemplo, criaram um calendário religioso a partir da observação dos astros e da realização de cálculos matemáticos complexos. O mesmo ocorreu em relação aos egípcios, no que toca à construção das pirâmides. Tais templos foram erigidos em homenagem aos faraós, que por sua vez eram considerados a materialização dos deuses. Para que fossem construídos, os monumentos exigiram cálculos matemáticos igualmente sofisticados”.

Excertos

“Obcecada pela vida eterna e pela perpetuação da alma, a religião egípcia fascina por seu caráter místico. As pirâmides são o testemunho mais perene dessa busca pela eternidade”

“Os sumérios criaram as primeiras histórias do dilúvio, tiveram o primeiro Noé. Seus deuses viviam cada qual como patrono de sua cidade e brigavam como brigavam as cidades entre si”

“Os gregos concebiam o mundo como parte de um relato, o mito. Os mitos tratavam do surgimento do mundo, do seu funcionamento e da sorte dos humanos”

“Zoroastro foi o primeiro a conceder ao próprio homem o livre-arbítrio, a responsabilidade por seus atos e pensamentos. Também foi o pioneiro ao contemplar o julgamento individual baseado na ética pessoal”

“Eles [celtas] acreditavam na imortalidade e no renascimento das almas. O outro mundo dos imortais era paralelo ao mundo visível e as almas dos parentes mortos ou dos guerreiros de batalha permeavam todo o espaço fatual”

“A religiosidade nórdica era de natureza tolerante, sem fanatismos nem adoração extremada. Foi fruto de uma sociedade profundamente rural, realista e pragmática, que concedia privilégio a uma magia determinista”

“O movimento albigense era dualista, compreendendo o mundo dividido entre dois poderes antagônicos, dois deuses ou entidades espirituais que se opõem: um o Deus do bem e da espiritualidade e, no contraponto, um deus maligno, o Diabo, inserido no mundo material e carnal”

Título: As Religiões que o Mundo Esqueceu
Editora: Contexto
Número de páginas: 224
Organizador: Pedro Paulo Funari
Autores: Júlio César Gralha, Luiz Alexandre Solano Rossi, Pedro Paulo Funari, Renata Senna Garraffoni, Paulo Nogueira, Júlio César Magalhães de Oliveira, Flávia Galli, Ana Donnard, Johnni Langer, Sérgio Feldman, Alexandre Guida Navarro, Leandro Karnal, Betty Mindlin.




sábado, 7 de abril de 2012

Quando comer chocolate era pecado

Artigo delicioso (e quase pecaminoso) da Revista de História da Biblioteca Nacional:

Doce pecado

Na nossa sociedade é de costume se desejar “Feliz Páscoa” a alguém dando de presente um ovo de chocolate. Mas nem sempre esta delícia de cacau foi bem recebida pela religião.

Em nossa tradição, é impossível não associar o chocolate à Páscoa, festa maior do cristianismo. Desejar “Feliz Páscoa” a alguém é um costume que quase sempre vem acompanhado de um presente previsível: um ovo de chocolate – ou, simplesmente, um “ovo de Páscoa”. Mas a relação entre a iguaria e a religião que está na base da cultura ocidental nem sempre foi pacífica.

A guloseima, originalmente consumida por “pagãos” americanos e que caiu no gosto das altas rodas da Europa, era cercada de mistérios, como no caso dos chocolates aromáticos das cortes italianas, como revela Eddy Stols nesta edição. Os Médici, titulares do grão-ducado da Toscana, mantinham segredo absoluto sobre a receita do chocolate com aroma de jasmim, cobiçado por outras casas européias. Sua fórmula era guardada em uma caixa-forte. A Igreja, como se sabe, não via com bons olhos mistérios que não estavam sob sua guarda.

Mas o apreço pelo produto não era resultado apenas do aroma irresistível ou do paladar inigualável. Além de saboroso, o chocolate era apreciado por suas virtudes terapêuticas. Em meio a um verdadeiro frenesi, não tardaram a surgir, no século XVII, as primeiras denúncias de abuso na sua ingestão. E numa época profundamente marcada pela religião, o debate se dava na esfera da Igreja. De um lado, jesuítas cantavam as delícias do cacau; do outro, os dominicanos lamentavam o novo vício europeu.

A Europa, terra do vinho, era aos poucos invadida por legiões de beberrões de chocolate – inicialmente a Espanha, e posteriormente o resto do continente; nos cafés que se multiplicavam no rastro de outra bebida famosa, homens amanheciam em busca das primeiras doses do líquido turvo; nos palácios e nas casas mais refinadas, as xícaras passavam a figurar ao lado das taças, em lugar de destaque. Quente ou gelado, líquido ou pastoso, puro ou com aguardente, tomava-se chocolate de todas as maneiras, com o objetivo de estimular os sentidos de formas inusitadas.

Acreditava-se ainda que o chocolate possuía a propriedade de aquecer o sangue, despertando “virtudes” que eram sistematicamente combatidas pela Igreja. O italiano Francesco Arisi, autor de um tratado intitulado Il cioccolato, de 1736, versejava contra a iguaria:

Nos torrões já é usado,

Nas tortas é o principal.
Penso, pois, que ainda um dia,
Vão servi-lo com codornas,
Desdenhando o santo pão
Ou colocando-o de parte.
Os próprios jesuítas, que elogiaram seu uso na Itália, chegaram a dizer em Portugal, onde o hábito de beber chocolate se alastrou no século XVIII, que o produto era um estimulante sexual. Contrariando a interpretação tradicional de S. Tomás de Aquino, para quem líquidos não quebravam o jejum, exigiram sua proibição durante o período da Quaresma, quando os cristãos deveriam se afastar dos prazeres da carne (em todos os sentidos). Tentativa inútil, pois o papa, em Roma, cedendo à pressão dos primeiros chocólatras, e para a felicidade de quase todos, autorizou o pecado durante o ano inteiro.



sábado, 3 de dezembro de 2011

Mais uma pesquisa comprova que bebês têm instinto moral

O tema "instinto moral" é recorrente aqui no blog, e recentemente comentamos uma pesquisa científica da Universidade do Estado de Washington, nos Estados Unidos, que falava da existência do instinto moral em bebês, para desespero das hostes ateístas, que o negam veementemente. Afinal, do ponto de vista teológico, não deixa de ser uma forte evidência a favor do dogma do pecado original. Agora vem do Canadá mais uma comprovação que, seguindo a mesma linha, constatou que desde a mais tenra idade, os seres humanos já entendem, de alguma forma, que o crime merece punição, tese que deve desesperar os políticos, juristas e legisladores brasileiros, tão afeitos à impunidade. As conclusões são de pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica, conforme noticia o LiveScience, em matéria traduzida por Stephanie D'Ornelas e publicada no HypeScience:

Até bebês entendem que crimes merecem punição

Tudo bem se você for contar uma história para um bebê que não envolva um final com todos os personagens felizes para sempre. Se os vilões se derem mal, os bebês certamente ficarão satisfeitos com isso.

Isso é o que sugere um novo estudo, que diz que até mesmo crianças a partir de oito meses de idade querem ver os malfeitores punidos. Em contraste, os bebês mais novos preferem ver as pessoas sendo gentis umas com as outras – mesmo que a bondade seja para uma pessoa que mereceria um belo castigo.

“Este estudo ajuda a responder questões que têm intrigado psicólogos evolucionistas há décadas”, afirmou Kiley Hamlin, psicólogo na Universidade da Colúmbia Britânica. “As conclusões sugerem que, já a partir de oito meses, nós observamos as pessoas que poderiam nos colocar em perigo”.

No estudo, foram dramatizadas cenas com fantoches que mostravam diferentes comportamentos, e os bebês deviam escolher seus bonecos preferidos. As crianças com menos de oito meses preferiam os personagens bonzinhos. Já os mais velhos foram mais exigentes: tendiam a escolher o personagem que castigava um malfeitor a um que praticava uma boa ação para um personagem de pouca visibilidade na história.

Esses resultados revelam que os bebês desenvolvem um senso de justiça entre cinco e oito meses de idade. Embora este senso de justiça possa ser aprendido, a idade precoce em que ele se desenvolve sugere que o desejo de punição pode ser algo parcialmente inato.



quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Sabor de pecado

Manja aquela bistequinha ou costelinha de porco suculenta que o teu exame de colesterol permite mas a religião te proíbe de comer? E o bacon do sanduíche? Pois é, os seus problemas acabaram, pelo menos se você seguir a ideia de alguns rabinos de Israel que querem importar gansos da Espanha. Até aí, tudo bem, não é mesmo, afinal ganso não é porco assim como focinho de porco não é tomada. Só que a carne dos gansos espanhóis, devidamente preparada, é claro, tem sabor de carne de porco. Aí pimba! xô pecado! Já que o que os olhos não veem, o coração não sente, segundo reza o ditado popular, se você não vê nenhum rabo ou pé de porco, e o animal não fazia óinc! óinc! antes de morrer, não tem problema, você pode comê-lo à vontade, sem medo de pecar nem de ser feliz diante de um prato de comida. Agora os judeus mais ortodoxos podem comer uma espécie de "porco kosher", mesmo que o porco em questão seja fake. Parece que eles não resistiram ao cheiro que exalava dos restaurantes de comida não-kosher de Israel, onde judeus não tão judeus assim comem porco à vontade. A nova guloseima camuflada pode servir também para os adventistas, que seguem as restrições alimentares judaicas #ficadica. Não temam, amigos, neste caso o pecado bateu asas e voou...

A notícia veio através do Jones F. Mendonça, do excelente blog Numinosum Teologia, com base em matéria do jornal israelita Haaretz.



terça-feira, 27 de setembro de 2011

Pastor quer manter zona de prostituição aberta na Bahia

A notícia é daquelas que seguem o figurino tragicômico. No ringue, dois evangélicos duelam pelo prêmio, que é o destino da zona de prostituição em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, popularmente conhecida como "os bregas". De um lado, o delegado evangélico que quer fechar o meretrício para combater a insegurança. Do outro, o pastor que acabou de fundar uma Igreja do Evangelho Quadrangular perto do brega da Cabeluda, que advoga por manter a zona aberta porque "o evangelho deve ser pregado onde o pecado está", um argumento - cá entre nós - forte e bíblico. No meio do tiroteio gospel estão as prostitutas, temerosas do seu destino, como ele já não fosse por si só difícil de encarar. A notícia é do Correio da Bahia numa reportagem muito bem escrita (coisa rara hoje em dia) por Jorge Gauthier, no melhor estilo do já antigo e esquecido "novo jornalismo" de Gay Talese ("Gay" é o nome dele, gente!), que vale a pena ler de cabo a rabo:

Polícia quer fechar tradicional rua de prostituição do Recôncavo baiano

A caça à Rua do Brega

Jorge Gauthier | Redação CORREIO
jorge.souza@redebahia.com.br

As paredes, mesmo sujas e com infiltração, guardam suas histórias. A cerveja, mesmo servida em copos engordurados, está sempre gelada. As mulheres, mesmo com os corpos castigados pela ação do tempo, exibem curvas que atiçam a imaginação masculina. Nas vitrolas, serestas e arrochas embalam os corpos nas camas, mesmo que velhas e sebosas. Mas a libertinagem da Rua do Brega, em Cachoeira, no Recôncavo baiano, mesmo tendo surgido há mais de 150 anos, está perto do fim.

Se depender do delegado da cidade, Laurindo Neto, evangélico, as três casas da rua onde funcionam os prostíbulos serão fechadas nos próximos meses. Segundo ele, não é por moralismo, mas por insegurança.

O delegado afirma que os prostíbulos servem como ponto de encontro para traficantes. Inclusive, um dos clientes assíduos é Edmilson Bispo dos Santos Júnior, o Júnior, 27 anos, fundador do Primeiro Comando do Interior (PCI), facção inspirada no grupo criminoso paulista Primeiro Comando da Capital (PCC).

“Vou entrar com representação na Justiça para fechar esses bregas, pois eles servem de abrigo para traficantes. No entorno dessas casas de brega circula todo tipo de delinquente”, justifica o delegado.

Prostitutas ouvidas pelo CORREIO, que preferiram não se identificar, confirmaram que Júnior frequenta as casas. “E paga bem, viu! Tem vezes que paga R$ 100”, contou uma das mulheres que já trabalha na rua há sete anos.

A violência, no entanto, elas confirmam que é uma constante. “Aqui tem muito vagabundo. Traficante? Tem às pencas, mas só vêm aqui para brincar de ser feliz na cama com a gente”, destaca uma. O delegado contesta. “Eles usam os bregas como esconderijo não é só pra sexo”, diz.

Temor

Vera Lúcia, 44 anos, conta que chegou na rua ainda menina e não vê futuro caso fechem seu negócio. “Sou puta e com muito orgulho. Tem 29 anos que vendo meu corpo nessa rua. Se fechar o brega eu vou pra onde? Para a casa do delegado?”, brinca.

A irreverente Verinha, como é conhecida, chegou na rua quando a quantidade de bregas era bem maior do que as três atuais - o brega de Cabeluda, o Point das Morenas e a Casa Rosa.

“Há 20 anos tinha mais casa de brega nessa rua do que gente. Hoje, tem muito menos gente, mas essa rua sempre vai ser o lugar da putaria nessa cidade. Se fechar os bregas, o povo vai fazer sexo em todo lugar”, conta Verinha, que aos 14 anos abandonou a casa da família, em Maragogipe, para se prostituir nos bregas de Cachoeira.

Poder de Deus

E não são só as prostitutas que não querem o fechamento dos bregas. O pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular, Jailton Santos, que há três meses fundou a igreja evangélica ao lado do brega de Cabeluda, um dos mais antigos da cidade, defende que os prostíbulos permaneçam funcionando.

“O ensinamento divino é que se pregue a palavra de Deus onde o pecado está e por esse motivo preferimos que os bregas continuem abertos para que essas mulheres tenham a chance de encontrar o conforto na palavra de Deus”, defende o pastor, que trabalha como operário da construção civil em Cachoeira.

Para o delegado, o fechamento dos bregas é necessário. “Júnior e seus comparsas usam essas casas de brega com regularidade. Manter esses bregas abertos é facilitar a ação do crime na nossa cidade. Quem quiser fazer sacanagem vai ter que ir para outra cidade”. O pastor acredita que, caso os bregas sejam fechados, o ‘poder do evangelho’ vai se enfraquecer. “Temos a intenção de estar onde as pessoas que precisam de ajuda estão. Por isso, resolvemos abrir a igreja na rua onde estão os bregas da cidade”.

Tempos Áureos

Natural do Ceará, uma das prostitutas que trabalha na Rua do Brega, já está no local desde a década de 90. “Vim aqui por causa da fama, mas nos últimos anos caiu muito. Mesmo assim ainda vale a pena trabalhar aqui. Tirando essa onda de violência, o lugar é muito tranquilo. A gente respira um ar que é único nesse mundo. O clima de sexo aqui tem outro sabor”, relata a prostituta, entre um cigarro e um gole na cerveja gelada.

Frequentador assíduo da casa, o comerciante J.S., 64 anos, teve sua primeira relação na Rua do Brega - e muitas outras depois. Para ele, fechar os bregas é acabar com a alegria. “Metade dos homens de Cachoeira conheceu o prazer nessa rua. Se os paralelepípedos e as paredes dessas casas falassem o nome de cada pessoa que já transou aqui ...Ah, o mundo ia ficar surdo”, brinca. Religiosa, a dona de casa Elisabete Lima de Jesus, que é moradora na rua há mais de 50 anos, atualmente é vizinha da igreja e dos prostíbulos. Ela conta que muita coisa mudou na rua ao longo dos anos.

Meu filho, isso aqui era um celeiro de mulher da vida. Todas vinham pra cá aprender como fazer as coisas. Hoje tem muito menos. Aqui na rua agora tem muita casa de família. Por mim, pode ficar tudo aí. Acho até que diverte por causa da música que eles tocam”, comenta.

artimanhas Uma relação sexual na Rua do Brega tem preço: R$ 40. O valor, segundo as profissionais do sexo, inclui todas (e mais variadas) posições sexuais. “R$ 10 a menina paga pelo aluguel do quarto.

O programa depende muito de duração. Se a menina souber mexer faz o cara se aliviar em cindo minutos. Daí acaba e está pronta para outra. Cada menina, no final de semana chega a ter uns 4 a 5 clientes”, conta a gerente de uma das casas.

Durante a semana, o movimento é escasso. “Vem os meninos das escolas, marido que não tem alegria do bate coxa em casa. Entregadores de bebidas, que vêm abastecer a casa e também se abastecem com a gente”, comenta uma prostituta natural do Piauí que trabalha na Rua da Brega há três meses.

Em poucos minutos de conversa, enquanto bebericam dos copos de clientes nos salões dos bregas à meia luz, as mulheres contam as mais variadas estratégias para satisfazer o cliente. Infelizmente, a maioria tem palavras impublicáveis. Mas, elas afirmam que o prazer é garantido.

Policial aposentado manteve brega na rua por 30 anos Quando se aposentou da Polícia Militar, há 35 anos, o sargento Eduardo Conceição resolveu abrir um brega em Cachoeira, que virou um dos mais tradicionais redutos do sexo na cidade. “Chegou épocas de ter 12 meninas trabalhando aqui”. Hoje, Eduardo mantém apenas um bar na rua.

Decidiu fechar o brega e vender o imóvel para “descansar da agonia de muita mulher falando ao mesmo tempo”. Na casa de paredes verdes, cheia de equipamentos eletrônicos, Eduardo abrigou muitos sonhos de mulheres que abandonaram as famílias para viver do sexo. “Já vi muito sofrimento nessa rua. Mulher sendo espancada por marido que descobriu que ela fazia vida. No brega tudo é mais difícil”.

Simpático com a parca freguesia, Eduardo se orgulha dos tempos de Rua do Brega. “Lembro do dia que cheguei aqui pela primeira vez. Me encantei com as luzes, o som e o cheiro das putas perfumadas. Aquilo me encantou”, lembra.

Vocação centenária para prostituição na rua

Nem os carteiros de Cachoeira lembram com facilidade o real nome da Rua do Brega. Registrada como rua Sete de Setembro, o local é conhecido por todos pela referência das casas de prostituição. A vocação da rua, segundo os moradores mais antigos surgiu em função de Cachoeira ser uma cidade portuária.

“Tinha muito viajante no passado que passava por Cachoeira e tinha necessidade de encontrar uma mulher e acabou tudo se concentrando nessa rua”, conta a dona de casa Elisabete Lima de Jesus, que é moradora na rua há mais de 50 anos.

O fato de Cachoeira ser o último ponto navegável atrás da Baía de Todos os Santos colocou a cidade no século XIX como entreposto comercial do estado. Criou-se então, nas margens do Rio Paraguaçu várias casas ou cabarés de prostituição, mais conhecidos como bregas, para atender às necessidades sexuais dos viajantes.

Por ficar à beira do rio, a rua Sete de Setembro, hoje conhecida como Rua do Brega, acabou concentrando a maior parte dos prostíbulos. Hoje, a maioria das mulheres que trabalham na rua é do interior da Bahia, mas há prostitutas de quase todos os estados do Nordeste.

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