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segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Igreja batista atacada no Texas pode ter sido primeira vítima do programa "Igreja com partido"


Ainda é cedo para fazer uma análise profunda da barbárie que acometeu ontem a Primeira Igreja Batista de Sutherland Springs, uma pequena comunidade de 400 habitantes situada a cerca de 56 km de San Antonio, a metrópole mais próxima, e a cerca de 123 km de Austin, outra metrópole não tão longe assim.

O ataque à pacífica Igreja em questão deixou 26 fiéis mortos, 8 da mesma família, segundo as informações mais recentes, com uma faixa etária das vítimas entre 5 e 72 anos de idade, deixando ainda 20 feridos em estado grave.

O acusado do massacre é Devin Patrick Kelley, americano branco (infelizmente, esta referência é necessária dada as circunstâncias atuais dos episódios racistas nos Estados Unidos) de 26 anos de idade, que terminou morto ainda não se sabe se por suicídio ou por ter sido alvejado por alguém das forças de segurança que acudiram imediatamente a igreja que estava sendo atacada.

Dado o pouco tempo transcorrido desde o incidente terrorista de domingo à noite, o  que se sabe até agora é que Devin Patrick Kelley teria se identificado em uma rede social como professor de estudos bíblicos para crianças e, ainda que as informações estejam desencontradas a essa altura dos acontecimentos, parece que ele chegou a frequentar a igreja batista de Sutherland Springs até algum tempo atrás.

É cedo demais, portanto, para entender o que levou Kelly a perpetrar o ato de terror, mas já começam a surgir algumas pistas.

O fato é que a Primeira Igreja Batista de Sutherland Springs não é exatamente uma igreja conservadora no sentido mais estrito da palavra, o que pode ser um pecado mortal no atual estado de coisas que impera no meio evangélico fundamentalista norte-americano, todo ele alinhado com Donald Trump, o atual (e polêmico) presidente do país.

O Estado do Texas, com 38 votos no colégio eleitoral que elege o presidente, é o segundo maior nos Estados Unidos, atrás apenas da California (com 55 votos), e foi maciçamente pró-Trump nas eleições de 2016.

E foi exatamente neste meio fundamentalista que a Primeira Igreja Batista de Sutherland Springs ousou postar em sua página no facebook - em maio de 2016 - um artigo que defendia o direito da rede varejista Target (uma gigante do porte do Walmart, para você ter uma ideia) de autorizar pessoas transgênero a utilizarem o banheiro com o qual se identificassem nas suas lojas, fato que gerou uma comoção entre os mais conservadores (em sua maioria evangélicos fundamentalistas), que se opõem a qualquer iniciativa que vise a reconhecer o direito dos transgêneros em, digamos, existir.

A igreja de Sutherland Springs criticou o boicote organizado pelos evangélicos e disse, através do artigo em questão, que isto causava mais danos ao evangelho do que tolerar a prática institucional da Target.

Ao fazer isto, ela se colocou na contramão da maioria dos evangélicos norteamericanos que creem piamente que o conservador Donald Trump é inspirado por Deus a comandar a nação, conforme a gravura abaixo, que circula nos meios fundamentalistas:



Teria esta atitude maleável e tolerante da igreja acionado o gatilho que perpetrou o abominável ato terrorista?

Ainda não é possível responder afirmativamente a esta questão, mas nestes tempos bicudos em que os evangélicos de todo lugar estão mais preocupados em combater ideologias que não são as suas (sim, eles têm partido...), e defender o programa "Escola Sem Partido" para que seus filhos não sejam educados a conviverem com o diferente, talvez a barbárie ocorrida no Texas seja um símbolo trágico do risco que estão correndo mesmo aqueles evangélicos que ousam discordar da guinada ideologicamente conservadora e partidária que suas igrejas estão seguindo. 

O fim realmente está próximo.

Quem viver, responderá...

First Baptist Church of Sutherland Springs, uma igreja pacífica de gente querida que merece ser lembrada.




terça-feira, 8 de novembro de 2016

O voto envergonhado dos evangélicos nas eleições americanas de 2016

Dúvida do dia: chegará Donald Trump a Washington?
(uma recriação do famoso quadro "George Washington cruzando o rio Delaware", de 1851)

Ufa! Finalmente chegou o dia das eleições nos Estados Unidos, que foi esperado como se algo parecido com o Armagedom estivesse para acontecer. E talvez aconteça...

Hoje é dia de pegar seu balde de pipocas e ficar na frente da TV vendo algum canal internacional de notícias porque fortes emoções estão reservadas para o decorrer do dia e da próxima noite que testará os cardíacos.

Independentemente de quem ganhe aquela poltrona cobiçada no Salão Oval da Casa Branca, Donald Trump (pelo lado republicano) ou Hillary Clinton (democrata), o estrago já está feito para a democracia americana, que se apresenta como modelo para o mundo e teve uma campanha digna de "república das bananas" e repleta de golpes abaixo da cintura.


Hillary sonhando com sua cara esculpida lá em cima do Mount Rushmore

O quadro se apresenta levemente favorável a Hillary Clinton, sobretudo quando se considera que o número de latinos que já votou antecipadamente (nos Estados onde existe esta possibilidade) é o maior da história norte-americana, e ninguém tem dúvida sobre qual é o candidato preferido deles, já que Donald Trump fez questão de atacar esta comunidade ameaçando construir uma muralha gigante na fronteira com o México para impedir que eles entrem no país.

Curiosamente, Clinton não teve que levantar um dedinho só para atrair o voto latino, já que Trump lhe entregou de bandeja esta fatia do eleitorado.

Entretanto, há um grupo específico que já está experimentando o amargo sabor da derrota, não importando quem vença o pleito. É o grupo dos evangélicos fundamentalistas americanos, que vão votar maciçamente em Donald Trump mas morrem de vergonha de ter que admitir que farão isso.

Comportamento este muito diferente das eleições passadas, em que os evangélicos foram decisivos para eleger George W. Bush em 2000 e 2004, e lutaram fervorosamente contra Barack Obama em 2008 e 2012, quando ressuscitaram a ideia do "tea party", o movimento com valores tradicionais e independentistas que foi decisivo na Revolução Americana de 1776.

O maior expoente do "tea party" foi Sarah Palin, candidata a vice-presidente dos Estados Unidos em 2008 na chapa encabeçada por John McCain, mas seu apoio a Trump nas atuais eleições é bastante discreto, a exemplo do que ocorre com a imensa maioria dos evangélicos americanos, que parecem ter vergonha de se aliarem a um candidato misógino que não mede as palavras e vive se metendo em trapalhadas verbais.

Isto fez com que opositores dos evangélicos se animassem e passassem a atacá-los por sua hipocrisia, como foi o caso de Bill Maher, militante ateu e apresentador do programa "Real Time with Bill Maher" (vídeo abaixo), no qual agradeceu a Trump pela oportunidade que ele concedeu aos americanos de conferirem a hipocrisia dos evangélicos no que diz respeito a uma campanha política.

Primeiro, porque diante de um candidato tão falastrão e politicamente incorreto, os evangélicos fingiram não apoiá-lo ou, no máximo, defendem um voto envergonhado em Trump. Poucos realmente dão a cara a tapa. O "low profile" é a regra neste segmento.

Segundo, porque, apesar de defensores dos 10 mandamentos, se alinharam com um candidato cuja vida denota sua intenção permanente de quebrar todos eles.

Bill Maher prossegue seu agradecimento a Trump dizendo que - graças ao magnata - esta campanha não é como as campanhas passadas, nas quais todo candidato fazia questão de parecer "mais cristão" que o outro, mas exige dos evangélicos uma resposta à inquietação de todos nos Estados Unidos: como é que eles se alinharam à campanha de um homem que é mais conhecido por suas virtudes nada cristãs?

No fundo, este é o grande problema que ocorre quando aqueles que se dizem cristãos tornam o nome "evangélico" numa espécie de identificação de partido político. 

Ao levar um nome santo como este para a arena dos debates político-ideológicos, podem ter deixado para trás seu profundo significado espiritual.

Algo muito parecido com o que está acontecendo no Brasil, infelizmente.




domingo, 14 de agosto de 2016

Albert Camus, estrangeiro, estranhamento e fanatismo, por Leandro Karnal

Artigo de Leandro Karnal publicado no Estadão de 07/08/16:

Cordeiros de Deus

"Hoje, morreu mamãe. Ou talvez, ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.” Assim Albert Camus inicia O Estrangeiro, o curto romance símbolo de uma geração.

Nas primeiras linhas, define-se a indiferença da personagem Mersault, o protagonista que dizia “tanto faz” (ça m’est égal) para quase tudo. A frieza foi usada contra ele no julgamento. O conjunto The Cure citou o romance na música Killing an Arab. Mersault era um pied-noir, ou seja, um francês nascido na Argélia colonizada. Ele era estrangeiro porque habitava num país com cultura distinta da sua e era estranho porque se sentia diferente de todos. É a duplicidade em muitas línguas, das palavras estranho/estrangeiro; étranger, strange. Mersault era um francófono num país de maioria árabe. Os franceses de hoje temem virar minoria na própria França. Camus fala desse estranhamento diante de um mundo indiferente, povoado de seres sem paixões e que abandonaram as grandes explicações românticas e de redenção. Mersault perdeu a mãe física e perdeu o pai simbólico: a pátria. Porém, ele não é um misantropo de fato, pois a misantropia é uma forma de paixão por si ou pelo isolamento. Mersault é aquele que é obrigado a dizer coisas depois do Hamlet, ou seja, depois que o resto se torna silêncio. O franco-argelino vive além do horizonte sobre o qual o príncipe dinamarquês se calou. A indiferença não é mais uma opção, em 2016. O outro não está mais no litoral da Argélia, ele entra na sua pequena paróquia normanda e corta seu pescoço. Foi o caso trágico do padre Jacques Hamel, assassinado por dois jovens fundamentalistas. Testemunhas disseram que um fez uma espécie de sermão em árabe. Para quem eu prego, quando falo na língua que o outro não entende? Para mim mesmo, claro, porque somente admito meu monólogo. Talvez por isso, todo fanático fale muito alto e grite muito. A voz alta deve tentar calar todas as vozes e, acima de tudo, o imenso grito do contraditório.O mundo lida mal com a diferença. Formamos guetos há séculos. Criamos ônibus com lugares para brancos e negros nos EUA. Criamos legislação do apartheid na África do Sul. Dizemos aos diferentes que estejam com os diferentes e evitem contato com os outros.A política de gueto tem a sua eficácia. Afastando a convivência, impede o desafio da negociação. Trump promete erguer mais muros na fronteira com o México, como se os latinos já não fossem parte expressiva da população dos EUA e ainda fosse possível negar a diferença. Trump encarna esse medo ancestral da diferença. Mersault não entendia o que o árabe falava durante o crime. The Cure cantou: “Can see his open mouth but I hear no sound” (posso ver sua boca aberta, mas não ouço nada). Os reféns da igreja da Normandia não entenderam o que os fundamentalistas gritavam. Mersault/estrangeiro é uma tragédia ficcional. O fundamentalismo é uma tragédia real e ocorre em muitos campos religiosos e políticos. O discurso fundamentalista ocupa um pouco do niilismo da modernidade, demarcando fronteiras absolutas onde a liquidez deixou muita gente perdida. Não creio que seja possível uma comunicação com militantes do Estado Islâmico. Fundamentalistas encaram o diálogo como fraqueza e não buscam uma forma de convívio. É sempre doloroso afirmar a morte do diálogo, mas o contrário é ingênuo, perigoso até. Eu sinto em relação aos fundamentalistas um pouco o que se atribui a Golda Meir, que, referindo-se à violência do conflito israelo-palestino, afirmava que poderia até perdoar os árabes pela morte de crianças israelenses, mas não poderia perdoá-los por ter sido obrigada a matar crianças árabes. Eu o culpo pelo que você me obrigou a ser. Será que o Ocidente teria de se tornar fundamentalista para vencer o fundamentalista? Nós já não seríamos fundamentalistas na nossa crença sobre os valores corretos? O bombardeio “por engano” de aldeias sírias relativizaria o crime na França? Crianças afogadas no mar, cartunistas assassinados, hospitais destruídos, meninas com rosto deformado por ácido: é longa a lista de vítimas. Há um diálogo de surdos: o padre Hamel é chamado de mártir pelos católicos e seus assassinos são mártires para o Estado Islâmico. Haveria dois Paraísos? Os militantes fundamentalistas vivem como virtude aquilo que rejeitamos como defeito. Tornam-se, inclusive, os bárbaros necessários à nossa catarse civilizacional. Justificam Bush II e alimentam Trump. Esvaziam nossa racionalidade e nos tornam assassinos também, como acusava Golda Meir.

A Civilização já foi muitas coisas. Hoje é um debate sobre a sobrevivência de valores como democracia e convivência com diferentes num mundo que ri deste debate de relativismo cultural. No meio de discussões e práticas de barbárie, a imagem das vítimas é um desafio, na Europa e na Síria. O sacrifício de cordeiros de Deus sempre foi uma metáfora fundante da fé. Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, dai-nos a paz.



quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O dilema do evangélico contra o aborto e a favor das armas


Não é contraditório, para um evangélico, ser contra o aborto e a favor das armas?

Esta é a questão levantada pelo documentário "The Armor of Light" ("A Armadura da Luz"), como você pode ler em excelente resenha publicada no Estadão de 01/11/15:

Apelo ao diálogo

KENNETH SERBIN

Estrelado por pastor, documentário americano pergunta como evangélicos conservadores podem ser ‘pro­-life’ e favoráveis às armas

Enquanto a bancada BBB – Bala, Boi e Bíblia – do Congresso brasileiro fez o País dar mais um passo para uma maciça ampliação do acesso a armas de fogo graças à votação obtida por uma importante comissão sobre este projeto de lei, esta semana, um membro destacado da família Disney acaba de lançar um documentário que vira de ponta cabeça a justificativa religiosa e moral do porte de armas.

The Armor of Light (A Armadura de Luz), que estreou em cinemas selecionados em vinte cidades americanas na sexta­-feira, onde será exibido por uma semana, é dirigido por Abigail Disney. Sobrinha­-neta de Walt Disney, o fundador do império do entretenimento, ela é doutora em filosofia pela Universidade de Columbia. À primeira vista, é possível que ela seja menosprezada por alguns como mais um representante da elite liberal dos Estados Unidos, fora da realidade da vida diária dos cidadãos que procuram se proteger da violência.

Entretanto, em vez de criticar severamente a posse de armas, The Armor of Light levanta um dilema moral fundamental, mas há muito ignorado: como é possível que cristãos evangélicos conservadores defendam posições que são ao mesmo tempo favoráveis à vida (contra o aborto) e favoráveis às armas?

O título do filme foi extraído da Carta de São Paulo aos Efésios: “Abandonemos as obras das trevas, do medo, do ódio, da vingança, e vistamos a armadura da luz”. A armadura é a Palavra de Deus.

Evitando a abordagem tendenciosa típica de muitos documentários realizados nos últimos anos (como Tiros em Columbine, de Michael Moore), Armor of Light explora a questão através dos olhos de duas pessoas profundamente religiosas que foram dolorosamente atingidas pela violência.

Rob Schenck, ministro evangélico branco, tem impecáveis credenciais conservadoras. Nos anos 90, ele liderou protestos contra o aborto, e numa ocasião carregou um feto morto em público para demonstrar seu opróbrio por esta prática, cena que foi reproduzida no filme.

Fundou um grupo de pressão cristão, Fé e Ação, com escritórios instalados num edifício em frente à Suprema Corte dos Estados Unidos, e lembra que já chegou a vestir um colete à prova de balas com medo de represálias por suas atividades. Mas ficou traumatizado por um incidente ocorrido em seu bairro, em 2013, no qual um indivíduo armado matou doze pessoas.

Então, ele encontrou uma aliada em Lucy McBath, mãe de Jordan Davis, o adolescente afro­americano que, desarmado, foi morto em 2012 por um homem branco irritado porque o jovem e seus amigos ouviam música muito alto no carro em que andavam. Lucy transformou sua dor inenarrável em ativismo, tornando-­se a porta­-voz do movimento Moms Demand Action for Gun Sense (“Mães exigem ação e em favor de bom senso com as armas”) nos Estados Unidos.

Embora Lucy seja favorável ao direito de escolha na questão do aborto, ela e Schenck descobriram uma causa comum na questão das armas.

Abigail Disney capta as tensões que se criam quando Schenck estimula seus colegas conservadores a refletir sobre o problema da posse de armas. “Como pessoa que crê, quais são os seus sentimentos quando eu coloco a seguinte questão: Cristãos e armas”?, ele indaga. “Esta é uma pergunta que os cristãos “deveriam se fazer com devoção, com cautela e com espírito bíblico.”

Penetrando no cerne da cultura dos cidadãos brancos conservadores americanos, Schenck confessa que está “surpreso ao se dar conta de quão profundamente as armas estão integradas na vida, nos pensamentos e até em sua espiritualidade”. Ele destaca que isso é algo novo no cristianismo americano, onde os evangélicos antes da “Revolução Reagan” republicana conservadora eram predominantemente democratas e incluíam em suas fileiras pacifistas e objetores de consciência.

Os evangélicos tornaram-­se “vulneráveis à venda das nossas almas” ao permitirem que a defesa da posse de armas e sua identificação com a Associação Nacional do Rifle (NRA na sigla em inglês), organização extremamente influente, confundissem os limites entre fé e política, afirma Schenck. Por outro lado, em Lucy e em outros cristãos afro­-americanos – uma comunidade onde o medo de ser morto por uma bala é constante – ele encontra um desejo de paz.

“Não penso que a Bíblia peça que nos tornemos guerreiros prontos para a ação, e para mim é isso que quem carrega uma arma está fazendo”, afirma uma mulher negra cristã num encontro com Schenck. “É como se dissesse: ‘Estou preparado para a guerra’.”

“Os Estados Unidos estão vivendo uma crise”, conclui Schenck. E insta seus colegas clérigos a se informarem mais sobre a violência das armas e a “oferecer corajosamente uma clara orientação espiritual, moral e ética sobre esta questão de vida e morte. Não há mais tempo para permanecermos calados”. O direito constitucional de portar armas deve ser moderado por “medidas de segurança inspiradas no bom senso”, observa Lucy McBath.

Abigail produziu uma raridade no panorama da mídia e da política americana: um filme de profunda sensibilidade religiosa, de respeito por ideias opostas e um apelo ao diálogo sobre um dos problemas mais inquietantes do país. Ela espera continuar este diálogo pessoalmente. Com Schenck e Lucy, comparecerá a algumas exibições para conversar com o público, e oferece ingresso gratuito a membros da NRA.

As questões cruciais levantadas por este filme aplicam­-se não somente aos Estados Unidos, mas também ao Brasil e a outras sociedades atormentadas pela violência das armas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA



quarta-feira, 17 de junho de 2015

Editorial da Folha ataca fundamentalismo evangélico na política


Editorial da Folha de S. Paulo publicado no último domingo, 14/06/15:

Submissão

Num futuro não muito distante, a aliança entre grupos políticos moderados e fundamentalistas religiosos obtém expressiva vitória eleitoral. Logo se estabelece, num país de tradições laicas e liberais, o predomínio da repressão, do obscurantismo e do preconceito.

Em “Submissão”, polêmico livro de Michel Houellebecq recém-traduzido no Brasil, imagina-se o domínio de certa “Fraternidade Muçulmana” sobre o Estado francês.

O Brasil por certo não é a França retratada nesse romance, e se o fanatismo de alguns grupos traz perigo à sociedade ocidental, não há sinais de sua atividade em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em Brasília.

Um espírito crescente de fundamentalismo se manifesta, contudo, em setores da sociedade brasileira –e, como nunca, o Congresso Nacional parece empenhado em refleti-lo, intensificá-lo e instrumentalizá-lo com fins demagógicos e de promoção pessoal.

O ativismo legislativo que se iniciou com a gestão de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na Câmara dos Deputados, e que Renan Calheiros (PMDB-AL) não deixou de seguir no Senado, possui o aspecto louvável de recuperar para o Parlamento um padrão de atuação e de debate por muito tempo sufocado.

Essa aparência de progresso institucional se acompanha, porém, dos mais visíveis sintomas de reacionarismo político, prepotência pessoal e intimidação ideológica.

Tornou-se rotineiro, nos debates do Congresso, que este ou aquele parlamentar invoque razões bíblicas para decisões que cumpre tratar com racionalidade e informação.

Condena-se a união homoafetiva, por exemplo, em nome de preceitos religiosos e de textos –não importa se a Bíblia ou o Corão– que podem muito bem ser obedecidos na esfera privada, mas pouco têm a contribuir para a coexistência entre indivíduos numa sociedade civilizada e plural.

Muitas religiões pregam a submissão da mulher ao homem, abominam o divórcio, estabelecem proibições a determinado tipo de alimento, condenam o consumo do álcool, reprovam o onanismo, legislam sobre o vestuário ou o corte de cabelo.

Nem por isso se pretende, nas sociedades ocidentais, adaptar o Código Penal a esse tipo de prescrições, dos quais muitos exemplos podem ser encontrados no texto bíblico. Sobretudo, não é função do Estado legislar sobre a vida privada.

Ainda assim, num evidente aceno a parcelas crescentes do eleitorado, uma verbiagem religiosa toma conta do Congresso.

Nos tempos de Eduardo Cunha, mais do que nunca a bancada evangélica se associa à bancada da bala para impor um modelo de sociedade mais repressivo, mais intolerante, mais preconceituoso do que tem sido a tradição constitucional brasileira.

O conservadorismo sem dúvida é forte no Brasil; a pena de morte, a redução da maioridade penal, a rejeição ao aborto e à liberação das drogas têm apoio em larga parcela da população –e diante de tais assuntos, naturalmente, cada pessoa tem o direito de se posicionar como lhe parecer melhor.

Mas nossa sociedade também é, felizmente, mais complexa do que pretendem os mais conservadores.

A tradição do sincretismo religioso, da liberalidade sexual, do bom humor, da convivência com pessoas vindas de todos os países e das mais diversas culturas, a prática do respeito, da cortesia e do perdão constituem elementos tão cultivados na identidade brasileira quanto o que possa haver –e indiscutivelmente há– de autoritário e violento em nosso cotidiano.

O debate entre essas forças contraditórias é constante e, a rigor, interminável. Não combina com o açodamento das decisões que, em campos diversos, têm sido tomadas na Câmara dos Deputados.

Seria equivocado criticar seu presidente por ter finalmente posto em votação algo que se arrastava há anos nos labirintos da Casa, como a reforma política. É inegável, entretanto, que Eduardo Cunha atropelou as próprias instâncias institucionais ao impor ideias como a do distritão na pauta de votações.

A toque de caixa, questões intrincadas como a do financiamento às campanhas eleitorais sofreram apreciações seguidas, e nada comprova mais a precipitação do processo do que o fato de que, em cerca de 24 horas, inverteram-se os resultados do plenário.

Uma espécie de furor sacrossanto, para o qual contribui em grande medida o interesse fisiológico de pressionar o Executivo, alastra-se para o Senado. No susto, acaba-se com a reeleição e se altera a duração dos mandatos políticos. O cidadão assiste a tudo sem sentir que foi consultado.

No meio dessa febre decisória, há espaço para que o Legislativo comece a transformar-se numa espécie de picadeiro pseudorreligioso, onde se encenam orações e onde se reprime, com gás pimenta, quem protesta contra leis penais duras e sabidamente ineficazes.

Setores políticos moderados se veem quase compelidos a conciliar-se com a virulência ideológica dos que consideram a defesa dos direitos humanos uma complacência diante do crime; dos que consideram a defesa do Estado laico uma agressão contra a fé; dos que consideram a racionalidade ocidental uma forma de subversão, e as conquistas do iluminismo uma espécie de conspiração diabólica.

Os inquisidores da irmandade evangélica, os demagogos da bala e da tortura avançam sobre a ordem democrática e sobre a cultura liberal do Estado; que, diante deles, não prevaleça a submissão.



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Novos ateus rejeitam Deus mas querem igreja e Bíblia

Pedindo antecipadamente perdão por colocar esta introdução em primeira pessoa, eu tenho amigos ateus muito queridos com os quais aprendemos juntos a encontrar um terreno comum de respeito e afeição.

Aprendi também a (pelo menos) tentar compreender a sua aversão à fé, e de certa forma a admirar suas posturas antirreligiosas quando elas se baseiam em opiniões próprias que não têm por fundamento o mero esforço (condenado ao fracasso) de vestir a descrença com as roupas da crença, após descoloridas e lavadas a seco.

Talvez por isso mesmo eu estranhe tanto as iniciativas do neoateísmo em fornecer aos seus seguidores a, digamos, "roupagem" de religião para as suas necessidades de aprendizado e comunhão, como tem acontecido com o surgimento das assim chamadas "igrejas ateístas", fenômeno cada vez mais comum em várias partes do globo.

Fica parecendo que o que esses neoateus realmente sentem é, por assim dizer, uma "saudade de Deus", algo parecido com o que vejo em alguns amigos ateus, que é o engolido desejo de crer sem ter forças para concretizar sua fé, o que não os faz, entretanto, buscar substitutos metafísicos tão óbvios para celebrar a sua não-crença.

A iniciativa neoateísta não deixa de ser uma curiosa manobra para desconstruir a religião usando as ferramentas da própria religião.

Em sua edição de ontem, 09/02/14, o Estadão trouxe a entrevista do filósofo inglês A. C. Grayling (foto acima), que compilou vários textos humanistas com o título de "O Bom Livro" (com o subtítulo "Uma Bíblia Laica") na vã tentativa de substituir a Bíblia judaico-cristã e propiciar aos neoateus uma, digamos, "escritura sagrada" para ser utilizada em seus rituais supostamente seculares.

Leia abaixo a entrevista e o primeiro capítulo do livro de Grayling e tire as suas conclusões:



Autor inglês A. C. Grayling troca santos e parábolas por artistas e filósofos

Escritor diz que não pretendia criticar religiões, mas acrescentar elementos humanistas ao debate

Lúcia Guimarães

Uma Bíblia sem Deus? Isto mesmo. Depois de anos de um pequeno boom editorial do ateísmo, com livros como Deus Não É Grande, de Christopher Hitchens, um filósofo britânico lançou um livro inspirado na Bíblia – mas na sua forma e não no conteúdo.

O Bom Livro, que acaba de sair no Brasil, é uma bíblia humanista que o autor oferece como alternativa à Bíblia cristã. Ao longo de 30 anos, o acadêmico que hoje é Mestre do New College of Humanities, em Oxford, reuniu trechos contidos em 2.500 anos de literatura, filosofia e ciência do Oriente e do Ocidente. O Bom Livro é apresentado em versos e organizado em 12 livros com títulos como Gênesis e Lamentações. Mas os textos são de autores como Confúcio, Heródoto, Aristóteles, Montaigne e Bacon.

Grayling acredita que a história do mundo seria outra se o pensamento científico e filosófico secular tivesse influenciado os autores da Bíblia. Embora o filósofo britânico tenha querido se inserir no debate sobre o ateísmo ele diz que O Bom Livro não é um ataque à religião e sim uma contribuição, uma espécie de terceira via humanista para o debate.

Ele vê o atentado às Torres Gêmeas no 11 de setembro de 2001, em Nova York, como um marco para o reexame da religião. “Até então”, diz, “a agenda religiosa ainda era encarada com certa deferência”. “O 11 de setembro mudou isso mas veja que é ainda muito cedo. Os cristãos estão acostumados a se submeter a alguma perseguição”, argumenta. “Mas a tolerância de islâmicos para a dissidência é bem menor.”

O senhor diz que começou a escrever o livro há 30 anos. Qual foi a motivação inicial? 
Eu estudava para o doutorado em Oxford e comecei a refletir sobre perspectivas éticas diversas. E me perguntei se a história do mundo teria sido diferente se os autores da Bíblia tivessem mergulhado na escrita secular, buscado inspiração em poetas, escritores, figuras que tinham uma compreensão melhor da condição humana. Então comecei a colecionar material não religioso, textos que seriam reunidos como foi reunida a Bíblia.

Críticos que admiram o livro questionam a decisão de fazer o paralelo com a Bíblia. Não seria melhor ter oferecido um livro sem a comparação? 
A Bíblia é organizada e escrita de maneira bastante acessível. Você pode abrir aqui e ali, recorrer ao volume quando quiser e encontrar inspiração. Considero a organização da Bíblia um bom modelo. Uma primeira preocupação minha foi tornar o livro acessível. A segunda foi mostrar que a sabedoria de filósofos, historiadores e poetas era maior do que a de profetas religiosos.

Qual a importância do fato de que o senhor foi criado numa família sem religião?
Sim, fui criado sem acreditar em Deus. Eu encontrei a religião na escola, comecei a observar as crenças diferentes e me causou alguma estranheza. Havia esta ideia de que não haveria “salvação” a não ser que fosse cristão, judeu, hindu. Eu me dediquei a ler a fundo livros sobre diferentes tradições religiosas e percebi que havia restrições assustadoras. Mas devo dizer que aprecio a grande beleza poética de passagens desses livros. Infelizmente, eles não ajudaram muito o progresso humano.

O material foi colecionado ao longo de três décadas mas o livro saiu logo após a explosão do novo ateísmo, de autores como Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harris.
Uma das minhas motivações foi publicar a tempo de fazer parte neste debate. Queria argumentar que, na discussão sobre acreditar ou não em Deus, não prestamos atenção na grande alternativa que é o Humanismo. Quando o debate esquentou, três questões foram separadas. Primeiro, a metafísica, sobre a existência do divino. Depois a questão da relevância do secularismo. E, por fim, o que me parece mais importante, a questão de como nos comportamos e conduzimos nossa vida moral. Não existe o “tamanho único” como resposta. O Humanismo vem de uma tradição, desde Aristóteles e Sócrates, em que nós devemos escolher caminhos compatíveis com nosso potencial. Pode-se viver a “boa vida” de várias maneiras.

Na última década, os Estados Unidos tomaram a liderança, no mundo desenvolvido, de uma tendência cultural que muitos consideram obscurantista. Cito, como exemplo o fato de que o ensino da Teoria da Evolução foi prejudicado em favor do ensino religioso sobre a criação do mundo, nas escolas.
Sim, mas chamo atenção para outro fato que explica esta radicalização. Estima-se que a direita evangélica nos Estados Unidos tenha 60 milhões de pessoas e a maioria delas considera que detém o monopólio da verdade. Mas a população que não declara vínculo religioso é cada vez maior, entre os americanos, especialmente os que têm menos de 35 anos. Então, acredito que há uma minoria vociferando e se debatendo sob pressão. Acredito, também, que vai haver um retrocesso para o fundamentalismo religioso no mundo. Veja que os fundamentalistas islâmicos estão sobretudo se matando uns aos outros. A rivalidade, especialmente entre xiitas e sunitas, que ficou quieta durante séculos, explodiu. É um mundo que está ruindo sob a pressão da globalização. Quando a cultura visual, o cinema, por exemplo, chega a uma comunidade que não está acostumada a questionar seus valores, o desconforto é enorme.

O senhor começou a escrever o livro tendo um leitor em mente? O quanto o seu leitor mudou ao longo dos últimos 30 anos?
Bem, enquanto colecionava o material, fui me inspirando para escrever outros livros e entender quem seria o leitor. Destaco que o livro que lancei em seguida, The God Argument, que lida com questões de deificação e é uma espécie de complemento. Como viajei muito e falei em público sobre os dois volumes, passei a compreender melhor os problemas que mobilizavam o público. Notei que, à medida que a religião perde espaço, há uma grande busca, especialmente entre os que têm mais educação, por recursos que orientem as escolhas de vida. Vejo nesta busca parte da explicação para o sucesso de meus amigos, como Richard Dawkins e Christopher Hitchens. Porque muitos destes leitores vivem entre pessoas que têm fé religiosa e encontraram nos autores ateus alguém que compreendeu seus dilemas. Outra explicação que me ocorreu ao participar de um seminário em Austin, no Texas: a comunidade não religiosa aprendeu com o movimento gay. Os gays americanos bradaram “sou gay e tenho orgulho disso”. Pense nas dificuldades tradicionais do ateu. Se você é um encanador numa cidade sulista americana, ninguém quer contratar seu serviço! E os ateus americanos perceberam que quebrar o isolamento seria a chave da aceitação.

O quanto o colapso econômico do final da década passada, nos Estados Unidos e na Europa, e a alienação provocada pelo desemprego em massa endossam um livro como o seu?
Durante décadas, o debate sobre a moralidade da organização social foi enfraquecido, o lucro endeusado. Mas, ainda que a ideia do socialismo como modelo econômico tenha sido desbancada, pelo menos na Europa, a ideia da justiça social nunca morreu. Quando os sistemas financeiros entraram em colapso, o pêndulo voltou a favorecer essa ideia. Mesmo assim, entre meus alunos, ainda vejo uma erosão do interesse por Humanidades, uma atração excessiva por profissões ligadas a negócios. Quando pais de estudantes vêm me dizer que querem seus filhos com diplomas que favoreçam o emprego a curto prazo eu respondo: a educação não é para um só emprego, é para a vida.





Leia o primeiro capítulo de 'O Bom Livro', de A. C. Grayling

Ao longo de 30 anos, A. C. Grayling, mestre do New College of Humanities, em Oxford, reuniu trechos contidos em 2.500 anos de literatura, filosofia e ciência do Oriente e do Ocidente. O Bom Livro (Objetiva) é apresentado em versos e organizado em 12 livros com títulos como Gênesis e Lamentações, com textos de autores como Confúcio, Heródoto, Aristóteles, Montaigne e Bacon. Leia a seguir o primeiro capítulo.

Gênesis - Capítulo 1

1. No jardim há uma árvore. Na primavera ela dá flores; no outono, frutos.

2. Seu fruto é o conhecimento, ensinando o bom jardineiro a entender o mundo.

3. Assim ele aprende como a árvore passa da semente ao rebento, do rebento à maturidade, pronta para gerar mais vida;

4. E da maturidade à velhice e ao sono, de onde ela retorna aos elementos das coisas.

5. Os elementos por sua vez alimentam novos nascimentos; tal é o método da natureza e seu paralelo com o curso da espécie humana.

6. Foi da queda do fruto de uma árvore assim que nasceu uma nova inspiração para examinar a natureza das coisas,

7. Quando Newton se sentou em seu jardim e viu o que ninguém vira antes: que uma maçã atrai a terra e a terra atrai a maçã,

8. Por uma força mútua da natureza que mantém todas as coisas, dos planetas às estrelas, unidas entre si.

9. Assim todas as coisas se unem numa coisa só: o universo da natureza, onde existem muitos mundos; os orbes de luz numa imensidão de tempo e espaço,

10. E entre eles seus satélites, num dos quais há uma parte da natureza que reflete a natureza em si mesma,

11. E pode meditar sobre sua beleza e seu significado, e pode procurar entendê-la: é a espécie humana.

12. Todas as outras coisas, em seus ciclos e ritmos, existem em si e por si;

13. Mas na espécie humana há também a experiência, que é o que cria o bem e seu contrário,

14. E nos quais a espécie humana procura apreender o sentido das coisas.



terça-feira, 14 de janeiro de 2014

STF decidirá o futuro da TFP

A informação foi publicada no Estadão em 12/01/14:

Após anos de brigas, Supremo Tribunal Federal define rumo da TFP

Fundadores e dissidentes da entidade religiosa travam batalha judicial desde 1997

José Maria Mayrink

O futuro da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), fundada em 1960 pelo professor Plínio Corrêa de Oliveira, depende do Supremo Tribunal Federal (STF). Em uma disputa iniciada em 1997, uma ala dissidente entrou na Justiça contra a direção da entidade para reivindicar a extensão a todos os associados do direito de voto, então restrito a oito fundadores da entidade (hoje são seis). Perderam em primeira instância, mas ganharam em segunda e conseguiram manter a decisão, enfrentando recursos e agravos que agora serão julgados em Brasília.

A TFP original, cujos membros, de capas e estandartes vermelhos, defendiam a propriedade privada e combatiam o comunismo, a reforma agrária, o divórcio e o aborto, foi proibida de usar a sigla, trajes e símbolos que a identificavam. Os remanescentes criaram a Associação dos Fundadores, o Instituto Plínio Corrêa de Oliveira e a Aliança de Fátima, enquanto a nova TFP passava para o controle dos dissidentes. Despejados pelos fundadores do casarão da Rua Maranhão, em Higienópolis, os dissidentes ocupam uma sede provisória em Santana.

O engenheiro e empresário Adolpho Lindenberg, de 89 anos, primo-irmão do fundador da entidade, é o presidente do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira. "A TFP está engessada, não sabemos por ordem de quem, nas mãos de dissidentes cuja atividade quase exclusiva é de caráter religioso, no seio da associação Arautos do Evangelho", diz. Ele e o diretor Paulo Corrêa de Brito Filho, de 82 anos, prometem manter o legado de Plínio Corrêa de Oliveira.

O superintendente da nova TFP, Roberto Kasuo Takayanagi, de 63 anos, da Diretoria Administrativa e Financeira Nacional, diz que o "Doutor Plínio era um democrata e não tomava atitude sem ouvir os sócios", o que justificaria que, após a morte do fundador, em 1995, o direito de voto fosse estendido aos associados, segundo a lei brasileira. Ao ganhar esse direito, os sócios efetivos destituíram os fundadores em assembleia-geral e tomaram posse, sob garantia do juiz da 3.ª Vara Cível. Obrigados a entregar cargos e bens, os fundadores entraram com agravos e embargos para reverter o caso. Não conseguiram.

Kazuo afirma que os dissidentes foram à Justiça, em dezembro de 1997, porque cerca de 800 membros de dedicação exclusiva estavam ameaçados de expulsão, o que os deixaria sem alimentação, moradia e assistência à saúde. Como perderam em primeira instância, segundo ele, membros efetivos começaram a ser expulsos. Sem recursos para sobreviver, muitos deixaram a instituição. "Estamos meio acampados", conta Kazuo, ao informar que a entidade não conseguiu ainda recuperar todo o patrimônio controlado pelos fundadores. Ele diz que os sócios fundadores transferiram receitas para a Associação Aliança de Fátima irregularmente, entre 2002 e 2004. A disputa judicial entre as partes envolve dezenas de ações, petições, embargos e agravos.

Para entender. A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) é uma organização católica tradicionalista e conservadora brasileira fundada em 1960 por Plínio Corrêa de Oliveira. Trata-se de uma sociedade civil sem fins lucrativos que nasceu como ferrenha defensora de posições políticas à direita e liderou marchas contra a reforma agrária, o divórcio, o aborto e o comunismo. Hoje, sua agenda é mais religiosa que política.





Maconha e união gay viram alvo de oposição

Embora engessada, a TFP original não está parada. Seus sócios, cerca de 300, fazem campanhas contra as causas de sempre, agora com alguns itens atualizados. "O aborto, o pseudo casamento homossexual, a liberação da maconha e, em geral, as reivindicações das chamadas minorias visíveis, que dividem de alto a baixo a sociedade brasileira, estão na primeira linha de debate da Associação dos Fundadores", diz Adolpho Lindenberg, presidente do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira.

Os militantes da antiga TFP não usam mais capas vermelhas nem carregam estandartes com a estampa do leão rompante (heráldico), mas uma estola amarela. Seu apostolado concentra-se na divulgação da devoção a Nossa Senhora de Fátima. Em caravanas, percorrem cidades do interior para divulgar livros publicados pelo Instituto Plínio Corrêa de Oliveira.

Os membros da TFP dissidente vestem capas vermelhas e empunham estandartes do leão heráldico apenas em ocasiões especiais. Enquanto a questão judicial não é decidida, preferem ser mais discretos. O superintendente Roberto Kazuo afirma que a associação obedece aos bispos e ao papa, sem as divergências do passado. Os recursos financeiros vêm da contribuição de simpatizantes.

A devoção a Nossa Senhora de Fátima é bandeira comum da TFP e do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, assim como da Associação Arautos do Evangelho, entidade fundada pelo monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, de 74 anos, que foi secretário de Plínio Corrêa de Oliveira por 20 anos. A associação atua em 78 países e tem sede em São Paulo, onde construiu vistosos seminários, em Caieiras e Cotia. Seus membros usam uniformes de desenho medieval e botas de cano longo, de estilo militar. Os meninos entram aos 12 anos. São confundidos, muitas vezes, com membros da TFP./ J.M.M.



quarta-feira, 1 de maio de 2013

Padre Beto volta a atacar a igreja católica após excomunhão

Depois da excomunhão provocada por sua recusa em se retratar das declarações polêmicas que irritaram o bispo de Bauru (SP), D. Caetano Ferrari, o ex-padre Beto, hoje o cidadão Roberto Francisco Daniel, não se fez de rogado e resolveu sair atirando da igreja.

Nas duas entrevistas publicadas abaixo, a primeira concedida ao UOL e a segunda ao Estadão, sobra tiro pra todo lado, desde a conhecida e criticada tolerância das autoridades católicas quanto aos casos de pedofilia dentro da igreja até compará-la a Marco Feliciano, a quem ele chama de "extremamente dogmático e fundamentalista.

O teor de suas declarações permite duvidar de sua afirmação de que ficou "indiferente" com a excomunhão que lhe foi aplicada. Confira:

Pedófilos não são excomungados, mas eu fui, desabafa padre de Bauru (SP)

Camila Neuman

Roberto Francisco Daniel, 48, mais conhecido como padre Beto, diz ver com incoerência sua excomunhão da Igreja Católica, já que sacerdotes que cometeram crimes de pedofilia, entre outros, não receberam a mesma punição.

O religioso que atuava na Diocese de Bauru (329 km de São Paulo) desde 2001 foi excomungado nesta segunda-feira (29) pela igreja, após um vídeo no qual ele se mostra favorável à união entre homossexuais ter sido publicado na internet.

Padre Beto conta ter sido recebido ontem pelo bispado da Diocese de Bauru em uma sala que se transformou rapidamente em um tribunal. Lá, ele deveria 'se desculpar pelos crimes contra a igreja', entre os quais o vídeo, que deveria ser retirado do ar.

O combinado, segundo ele, era ir à diocese somente para entregar seu pedido de afastamento, pois não havia aceitado pedir desculpas pelo conteúdo do vídeo. Ao questionar se estava "no banco dos réus", recebeu a afirmativa e, em seguida, abandonou a sala. Depois do episódio, recebeu a notícia da excomunhão.

"Foi com bastante indiferença [que recebi a notícia] porque eu já tinha me desligado. Mas, por outro lado, vejo com muita tristeza a incoerência dela [da Igreja], porque nós sabemos de casos que são notórios e públicos de pessoas, padres e bispos que erraram, que cometeram crimes de pedofilia, outros crimes também, que são punidos pela lei penal, mas não são excomungados. E a gente que simplesmente ajudou na reflexão sobre esses temas é excomungado. Vejo uma incoerência muito grande", disse ao UOL.

Impedido de celebrar missas a partir de então, Beto diz que manterá suas ações como teólogo e professor universitário na cidade, mantendo o diálogo sobre assuntos que envolvem a sexualidade.

"Pretendo continuar uma vida religiosa como teólogo. Sou teólogo formado, tenho doutorado e vou continuar contribuindo com a reflexão sobre Deus, sobre o mundo e como eu já comecei sobre a sexualidade humana, sobre o comportamento humano e sua relação com Deus", disse.

Padre Beto nunca foi um padre 'comum'. Com aparência jovial, vista no piercing em uma das orelhas, na tatuagem aparente e na calça jeans e camiseta, ele atraía jovens universitários e católicos não praticantes para as missas bauruenses. Em muitas delas, as mulheres eram maioria. O motivo? A simpatia e os olhos claros do religioso também costumeiramente chamado de 'padre galã'.

Beto repudiou ainda o discurso da igreja que diz que seus atos provocam escândalo.

"Quando ela [a Igreja Católica] fala em atos, isso é muito grave. Não são atos, são reflexões, é uma grande diferença. Tenho uma vida íntegra, dou a cara para bater. Reflito claramente porque não tenho o que esconder. Tudo o que eu faço é da linha da igreja, nunca feri o celibato, sempre levei a vida na moral cristã. Reflito a igreja, mas ela tem que revisar o conceito", diz.

Para ele, falta a Igreja Católica abrir espaço para a reflexão de temas atuais, como o uso de métodos anticoncepcionais.

"É claro que a maioria dos casais da Igreja Católica usa camisinha, faz laqueadura e ninguém fala. É aquela hipocrisia e não se esclarece que temos que ter uma boa educação sexual, planejar nossas famílias. Agora se isso é escandaloso em pleno século 21, eu não sei em que sociedade estou vivendo", diz.




Igreja se assemelha a Feliciano, diz padre excomungado

CHICO SIQUEIRA

O padre Roberto Francisco Daniel, o padre Beto, de Bauru (SP), disse que, pelo fato de ter sido excomungado, a Igreja Católica tem comportamento que pode ser comparado ao do pastor Marcos Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, conhecido por suas declarações preconceituosas contra os homossexuais e negros. Daniel foi excomungado pela Igreja depois de postar na internet entrevistas defendendo o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo e bissexuais.

"Essa comparação pode ser feita. Acredito que a Igreja, com essa excomunhão, se equipara ao pastor Feliciano, alguém extremamente dogmático e fundamentalista, que está num cargo onde deveria fazer com que os direitos humanos fossem respeitados, mas ao contrário, ele exclui os direitos das pessoas", comentou. Segundo padre Beto, tanto a Igreja Católica quanto Feliciano "deveriam exercer o diálogo e não a exclusão". Para ele, a Igreja foi contra a própria essência do evangelho ao condená-lo por ter defendido os homossexuais.

"A essência do evangelho possui Jesus Cristo como modelo e o evangelho de Jesus Cristo foi exercido com liberdade de expressão e respeito; ele amou as pessoas sem preconceito algum e nunca condenava ou excluía alguém por ser diferente dos outros", disse padre Beto. Segundo o religioso, pelo comportamento da Igreja em relação à sua excomunhão e às declarações de Feliciano, "as pessoas com tendências diferentes dos heterossexuais, como bissexuais e homossexuais, além de serem vistas com preconceito, são consideradas pecadoras".

"Cristo não falou nada sobre sexualidade. As expressões sobre os temas sexuais na bíblia representam a mentalidade de uma época em que as pessoas não tinham condições de analisar a bissexualidade ou a homossexualidade. A ciência evoluiu e a Igreja não pode fechar os olhos para o conhecimento humano, não pode ignorar a realidade da existência de uma diversidade sexual", diz. "A Igreja não pode achar que duas pessoas que se amam, que se respeitam e querem construir um mundo juntos, são pecadoras só porque são do mesmo sexo", completou. Beto diz que vai conversar com um advogado especializado em direito canônico para se defender.

Em nota distribuída nesta terça-feira, 30, pela assessoria do bispado de Bauru (SP), o juiz-instrutor da excomunhão diz que o ato se deu porque padre Beto não obedeceu aos superiores e insistiu em manter um comportamento em desacordo com as regras do sacerdócio. Embora o bispo de Bauru, d. frei Caetano Ferrari, tenha exigido que o padre retirasse da internet os vídeos em que critica a postura da Igreja em relação aos temas sexuais, a nota afirma que o sacerdote não foi excomungado por defender os interesses dos homossexuais porque "isso não é matéria para excomunhão na Igreja"



terça-feira, 26 de junho de 2012

Rapper iraniano foge dos aiatolás

O rapper iraniano Shahin Najafi, hoje com 31 anos de idade, vive hoje escondido na Alemanha, condenado que foi pelas autoridades islâmicas do seu país, por causa de suas músicas de protesto.

Não precisa nem conhecer o idioma farsi para entender por quê ele é tão indesejável para os aiatolás do Irã. Basta ver o vídeo abaixo, que faz referência a álcool, homossexualismo, mulheres livres e liberdade sexual, o que é suficiente para ter uma ideia do furor que ele causa.

A música, Ba'd Az To, assumidamente inspirada em "Back to Black" da Amy Winehouse, é uma balada boa, mas a letra, conforme o Google Tradutor precariamente denuncia, faz mesmo referência explícita a tudo que você veladamente vê no vídeo.

A letra em farsi está abaixo. Se estiver curioso para ler o que ela diz, é só colocar no Google e pedir a tradução do persa para o português. Não vai ser lá essas coisas, mas é perfeitamente possível entender o que ele canta:


بعد از تو
شاهین نجفی
تنظیم:بابک خضأیی
شعر:مهدی موسوی
کارگردان:شروین ا.فکری
ملودی:شاهین نجفی

خاموش کردم توی لیوانت خدایم را شبها بغل کردم به تو همجنس هایم را
رنگین کمان کوچکی بر روی انگشتم در اولین بوسه خودم را و تو را کشتم
هی گریه میکردم به آن مردی که زن بودم شبها دراکولای غمگینی که من بودم
و عشق یک بیماری بد خین روحی بود تنهایی ام محکوم به سکس گروهی بود
سیگار با مشروب با طعم هم آغوشی یعنی فراموشی فراموشی فراموشی
بعد از تو الکل خورد من را مست خوابیدم
بعد از تو با هر کس که بود و هست خوابیدم
بعد از تو لای زخم هایم استخوان کردم
با هر که میشد هرچه میشد امتحان کردم
تنهایی در جمع در تنهای تنهایی با گریه و صابون و خون و تو خودارضایی
دل خسته از گنجشک ها و حوض نقاشی رنگ سفیدت را به روی بوم پاشی
لیوان بعد قرص های حل شده در سم باور بکن از هیچ دیگر نمی ترسم
پشت سیاهی های دنیامان سیاهی بود معشوغه ام بودی و هستی و نخواهی بود
بعد از تو الکل خورد من را مست خوابیدم
بعد از تو با هر کس که بود و هست خوابیدم
بعد از تو لای زخم هایم استخوان کردم
با هرکه میشد هر چه میشد امتحان کردم

کلمات کليدي: ویدئوی بعد از تو هدیه‌ای ‌ست از طرف شاهین نجفی و تیم شر موزیک به تمامی‌ دوستان همراه در ایران و سرتاسر جهان با تنظیم بابک خضأیی و شعر این کار از مهدی موسوی بوده و با کارگردانی زیبای شروین ا.فکری





A entrevista abaixo foi publicada no Estadão:



'Os fundamentalistas não sabem brincar'

Rapper iraniano que fugiu do país depois que os clérigos lançaram fatwas contra ele diz que religiosos 'não aceitam piadas'

GEORG BÖNISCH e TOBIAS RAPP
DER SPIEGEL

Fugindo das ameaças dos aiatolás iranianos, o rapper Shahin Najafi, de 31 anos, se refugiou numa casa perto de Colônia, na Alemanha. Embora esteja sob proteção policial, as quatro fatwas lançadas contra ele até o momento pelos principais clérigos iranianos parecem incrivelmente distantes. Najafi lançou uma música na qual implorava ao décimo imã, Ali al-Hadi al-Naqi, que voltasse à Terra para solucionar os problemas do Irã contemporâneo. Os xiitas veneram al-Naqi, que morreu 1.143 anos atrás e era descendente direto de Maomé. A canção foi baixada mais de 500 mil vezes apenas no Irã e foi assistida mais de meio milhão de vezes no YouTube.

Como é sua rotina no esconderijo em que está?

Leio, escrevo, tenho o violão comigo. Tento não pensar nas ameaças.

Alguém o visita?

Não, ninguém.

Você é casado aqui na Alemanha. Como sua família está lidando com a situação?

É difícil. Prefiro não comentar.

Quando começou a se interessar por música?

Dos 14 aos 18 anos, treinei para me tornar um cantor profissional dos versos alcorânicos.

Qual era o aspecto que mais o fascinava?

Eu era um menino muito religioso e, um dia, ouvi a música de um cantor alcorânico egípcio. A melancolia daquela música me tocou tão profundamente que me levou às lágrimas.

Depois, você frequentou a universidade?

Sim, cursei sociologia, mas não cheguei a me formar - principalmente porque se tratava de sociologia islâmica. Eu tinha dificuldade para aceitar os dogmas. Não se tratava de uma ciência, como ocorre no Ocidente. Fui expulso da universidade. Então, tive de me alistar no Exército. Foi então que perdi a fé.

O que houve?

Até então, eu era um jovem idealista. Vivia no mundo da poesia e das ideias. Pensava que a vida era apenas arte e filosofia. No Exército, descobri subitamente o mundo real.

Por que foi obrigado a deixar o Irã?

Depois do Exército, toquei em bandas que faziam versões cover de músicas pop ocidentais. Inicialmente, tocávamos apenas versões instrumentais, evitando problemas com as autoridades. Mas, a partir de 2003, comecei a compor, a tocar minhas próprias canções e logo me vi perseguido pelos agentes do serviço de informações. Em novembro de 2004, fiz minha última apresentação e fugi para a Alemanha, porque tinha sido sentenciado a 3 anos de prisão e a 100 chibatadas em razão de uma de minhas músicas.

Para um artista, não deve ser fácil viver no exílio. O público desaparece e é difícil conhecer novos ouvintes.

Experimentei bastante e, finalmente, passei a me dedicar ao rap. Na verdade, não gosto muito do hip-hop. A música é repleta de clichês e a subcultura, principalmente o lado machista, não me atrai. Mas, ao mesmo tempo, o rap é uma linguagem simples, direta e forte.

Não chega a ser surpreendente que sua canção 'Naqi' tenha provocado tamanha reação. Afinal, você evoca um imã considerado importantíssimo para os xiitas e faz versos falando de himens reconstituídos, corrupção e sexo. A capa mostra uma mesquita cuja redoma tem a forma de um seio, sobre a qual tremula uma bandeira do arco-íris. Você não acha que é difícil ser mais provocativo do que isso?

Sempre soube que minhas canções provocariam o regime. Entre outras coisas, a capa é uma alusão aos casamentos temporários no Irã. E a bandeira sobre a mesquita simboliza a pena de morte que é aplicada aos homossexuais em nome da religião. Ainda assim, admito que não esperava uma reação tão extrema.

Há algo de satírico nas letras de suas músicas.

Sim, sou um sátiro. Os poderosos não gostam de sátiros.

Salman Rushdie também poderia ser considerado um sátiro.

Os fundamentalistas não sabem brincar. Nunca aceitam piadas. Querem que obedeçamos cegamente e acreditemos nos seus dogmas.

Não se sente horrorizado pela possibilidade de ter de passar muito tempo escondido?

É claro que sim. Sou um músico. Preciso me apresentar. Não posso desistir. Tenho de ser ainda mais corajoso. Sabemos que temos muitos inimigos. Não apenas no Irã. Mas nada disso importa. O futuro nos pertence. Acho que a arte é uma força capaz de transformar o mundo.

São palavras nobres.

Na noite passada, vi um vídeo na internet. Nele, dois homens mascarados me ameaçam, falando em persa com sotaque afegão. Eles perguntam: por que você insulta nossa fé? Vamos encontrá-lo, não importa onde esteja escondido. Não estará a salvo em lugar nenhum. E eles também falam alemão. Talvez morem na Alemanha ou tenham crescido aqui. O que devo fazer? Desistir? Demonstrar arrependimento? Não farei nada disso. Acredito na história. Precisamos de tempo. Será preciso tempo para que as coisas comecem a mudar. Mas elas vão mudar.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL



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