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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Saiu da igreja e foi conversar com um mendigo. Era seu irmão que ele não via desde menino.


Coincidência? A história inusitada foi contada pela BBC Brasil:

Britânico conversa com morador de rua e descobre irmão que não via desde bebê

O soldado britânico reformado Roy Aspinall saía de uma igreja em Wigan, na região metropolitana de Manchester, no Reino Unido, no último dia 12 de novembro quando viu um morador de rua sentado ali. "Ele parecia muito, muito familiar. Seus traços faciais eram como os meus", disse Roy à BBC.

O homem era Billy White, até então um sem-teto que circulava pelas ruas desta cidade no norte da Inglaterra. "Estava ali para me sentar um pouco antes de achar um local para dormir", disse Billy.

Roy aproximou-se do desconhecido e ofereceu um cigarro a ele. "Ele começou a me perguntar várias coisas: qual era meu nome, quem era minha irmã... Então, ele disse: 'Sou Roy Aspinall. Sua mãe é a minha mãe, e sou seu irmão".

Roy, de 36 anos, cresceu sem conhecer todos seus irmãos e não via Billy há mais de 20 anos. Billy, de 28 anos, sabia que tinha um irmão mais velho, mas pensava não ter como encontrá-lo. Depois do encontro inesperado, os dois compararam suas certidões de nascimento. "Mesma mãe, mesmo sobrenome e mesmo endereço", disse Roy.

Ele disse ter "ficado muito emocionado" quando percebeu o acaso: "Liguei para a minha irmã e, quando vimos quem Billy era, eu estava em lágrimas". Billy também se emocionou com o encontro. "Não dá para explicar o sentimento. É louco. Ainda estou em choque. Minha mãe sempre falou de Roy", contou.

Roy disse que conhecer seu irmão o fez se sentir completo. "Era como se houvesse um quebra-cabeça gigantesco, mas eu não conseguia achar a última peça e, agora, parece que encontrei".

Vida nova

Os dois irmãos dizem ter estabelecido uma conexão profunda entre si. "Sinto como se nunca tivéssemos nos separado. Ver meus traços faciais no rosto de outra pessoa é algo que eu nunca havia experimentado antes", disse Roy, que se lembra de ter visto Billy pela última vez quando o irmão ainda era um bebê, na casa de um parente.

"Dizer 'eu tenho um irmão', usar essas palavras, é tão estranho. Mas é um sentimento muito novo para mim –de alegria, não de tristeza".

Os dois são filhos de Lorraine White, mas, por questões de família, Roy foi criado por sua tia. Anos mais tarde, Lorraine teve Billy e cuidou dele até seus 10 anos de idade, quando o menino foi entregue aos cuidados do serviço social britânico.

Ele passou três períodos de sua vida morando na rua. O mais recente durou oito meses e acabou quando houve o encontro entre os irmãos. Agora, Billy não vive mais nas ruas. Pouco antes do Natal, passou a morar na casa de Roy a convite do irmão, que tem seis filhos.

Também conseguiu um emprego como assistente de motorista de uma empresa de logística. "A minha vida mudou quando Roy me encontrou. Hoje, ele cuida de mim como um irmão mais velho", disse.

Os irmãos ainda estão se familiarizando um com o outro. "Percebemos que temos tantas coisas em comum", disse Billy.

"Pensava ser o único na família que bebe café. Mas, quando perguntei o que ele queria beber, ele disse café com leite e dois cubos de açúcar, que é exatamente igual a mim. Ambos temos covinhas. Não paramos de conversar o tempo todo. Mas agora temos o resto das nossas vidas para nos conhecermos."



sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Alisson, um brasileiro invisível



Uma história de vida como tantas outras que se vivem e se perdem pelas ruas do Brasil, Alisson diz ao portal São Paulo Invisível no facebook que "tem Deus no coração, mesmo morando na rua e usando droga".

Não sabemos o quê e quanto da história de Alisson é verdade, porque uma vida de drogas e delírios na rua já não sabe mais distinguir entre realidade e fantasia.

Só sabemos que Alisson está em situação de rua e "quer sair deste lugar".

"Quero ter a benção de Deus na minha vida pra largar a maldita dessa droga. É difícil. De verdade."

Alisson é um pequeno retrato do Brasil.

Se for possível ajudá-lo materialmente, acesse a página do São Paulo Invisível e apoie as iniciativas deles.

Se, por qualquer razão, não for possível, pelo menos ore pelo Alisson e/ou divulgue as organizações que tentam tornar sua vida (e as de tantos outros) menos trágica.



sábado, 22 de julho de 2017

14 mortes em 1 mês levantam suspeitas sobre abrigo católico da Grande SP


A notícia foi publicada no Estadão em 19/07/17:

Sob investigação há 6 anos, abrigo a 76 km de SP tem 14 mortes em um mês

9 delas apresentavam quadros de diarreia e vômito, acompanhados de desnutrição; vítimas moravam em sítios da Missão Belém

Fabiana Cambricoli e Luiz Fernando Toledo

SÃO PAULO - Ao menos 14 pessoas que viviam em um centro de acolhida de uma missão ligada à Igreja Católica, que recebe usuários de drogas e moradores de rua em Jarinu, no interior paulista, morreram nos últimos 30 dias. Pelo menos nove delas apresentavam quadros de diarreia e vômito, acompanhados de desnutrição, desidratação ou intoxicação alimentar. Outros 19 foram internados com esses sintomas, mas sobreviveram. As causas dos óbitos ainda estão sendo investigadas.

As vítimas moravam nos sítios da Missão Belém, a 76 km da capital. O espaço recebe, em sua maioria, dependentes vindos da Cracolândia. A entidade, fundada pelo padre Gianpietro Carraro em 2005, atua no Brasil, na Itália e no Haiti e atende 2 mil pessoas. Só nas quatro propriedades de Jarinu, são 850.

Segundo informações dos boletins de ocorrência dos óbitos, aos quais o Estado teve acesso, metade das vítimas eram idosas e a maioria vivia nos sítios da Missão Belém há anos. Eram ex-dependentes químicos, ex-moradores de rua ou pacientes com problemas psiquiátricos rejeitados pela família.

A primeira das 14 mortes aconteceu no dia 18 de junho. A vítima, de 56 anos, teve um mal súbito após receber medicações. Três dias depois, mais um óbito foi registrado, desta vez de um homem de 50 anos internado há oito em Jarinu. Ele foi o primeiro hospitalizado a apresentar diarreia e vômito.

Nas semanas seguintes, casos do tipo aumentaram. Do dia 3 de julho até esta terça-feira, 18, o Hospital de Clínicas de Campo Limpo Paulista, município vizinho de Jarinu, recebeu 25 internos da Missão Belém, dos quais 6 morreram. De acordo com a Prefeitura do município, a maioria dos pacientes chegou ao local “em avançado estado de desidratação, desnutrição e intoxicação alimentar, em alguns casos associados a doenças crônicas, HIV e sequelas de acidente vascular cerebral (AVC)”.

A Vigilância Municipal de Jarinu, órgão vinculado à Prefeitura, diz ter feito fiscalizações no local antes e depois das mortes, mas afirma não ter encontrado sinais aparentes de contaminação. Segundo a Prefeitura, o órgão espera resultados de análises de amostras de água e fezes enviadas ao Instituto Adolfo Lutz e a contaminação por rotavírus já foi descartada pelo órgão. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), toda a cidade de Jarinu - com cerca de 28 mil habitantes - tem média de 14,4 óbitos por mês.

Regulamentação

Desde 2011, a Missão Belém é alvo de investigação do Ministério Público e da Prefeitura de Jarinu. Segundo a promotora Aline Morgado da Rocha, o local funciona, na prática, como uma comunidade terapêutica, mas não tem licença para desempenhar tal atividade. O estabelecimento não tem nem licença de funcionamento da prefeitura.

Norma da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) prevê que espaços que recebam usuários de drogas em regime de residência devem ter licença segundo as leis municipais. Também precisam contar com responsável técnico de nível superior e mecanismos de encaminhamento à rede de saúde.

Para o psicólogo e professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Marcos Garcia, há um “limbo legal” no oferecimento deste tipo de serviço. “Alguns têm cadastro como assistência social ou equipamento de saúde, mesmo não seguindo as normas do Sistema Único de Saúde (SUS).”

‘Se Deus levou, não temos culpa’, diz coordenador

O coordenador da Missão Belém, Marcio Antonio dos Santos, afirmou que muitos dos abrigados já chegam ao local doentes e observou que nem sempre é possível reverter seus problemas de saúde. Os boletins de ocorrência dos óbitos mostram, porém, que parte deles já vivia no local há anos.

“Tem uns que sobrevivem e outros não conseguem. O que fazemos de melhor é não deixar ele morrer na rua, como indigente e sem nada. Mas se Deus decide levar, já não é problema nosso. Se Deus levou, não temos culpa”, disse.

O coordenador alegou que os efeitos do crack podem ser os responsáveis pelas mortes e não houve registro de intoxicação alimentar, embora o Hospital de Campo Limpo Paulista tenha confirmado a informação à reportagem. “(As vítimas) estavam com problemas cardiovasculares, problemas ligados ao longo uso de bebida e outros”, diz ele.

O Estado procurou o padre Gianpietro Carraro, fundador do grupo, mas o religioso respondeu por mensagem que não poderia dar entrevista por estar em missão no Haiti. A assessoria de imprensa da Arquidiocese de São Paulo informou que a Missão Belém é independente juridicamente e, por isso, não irá se manifestar.

VÍTIMAS E DATA DE REGISTRO
  • Edson Luiz Ambrozio, de 56 anos, em 18 de junho.
  • Marco Cesar de Moraes, de 50, em 22 de junho
  • Ismael Francisco Nunes, de 53 anos, em 28 de junho
  • Natal Aparecido de Moraes Funck, de 63, em 1º de julho
  • Nicodemos Dias Soares, de 78 anos, em 3 de julho
  • Jamilton José Cerqueira da Silva, de 50, em 4 de julho
  • Gonçalo Galdino da Silva, de 55 anos, em 5 de julho
  • Otaviano Gomes da Silva, de 81, em 6 de julho
  • Nivaldo Santoja, de 56, no dia 7
  • João Crisostomo da Luz Neto, de 75 anos, em 10 de julho
  • Luiz Carlos Vieira, de 62, anos, em 12 de julho
  • Iolando da Silva, de 70, no dia 12 de julho
  • Wlademir Picoralle, de 64 anos, no dia 13 de julho
  • Um desconhecido, nesta terça, 18 de julho




quinta-feira, 1 de junho de 2017

Por que não existem pessoas em situação de rua na Finlândia?


A matéria é da BBC Brasil:

Como a Finlândia conseguiu tirar da rua 
e reintegrar os sem-teto

Londres, Berlim, Paris e outras grandes cidades dos países mais prósperos da Europa têm algo em comum: tentam, sem sucesso, conter ou reduzir o número de sem-teto em suas ruas.

A cena de pessoas desabrigadas dormindo nas ruas ainda faz parte do cotidiano destas sociedades que, apesar de terem sistemas de bem-estar social robustos, não conseguem tirar das ruas e reintegrar os sem-teto na sociedade.

Mas há uma exceção.

A Finlândia é apontada como o único país da União Europeia (UE) que resolveu a questão dos sem-teto.

Problema internacional

A Feantsa, organização que promove o direito à moradia na UE, descobriu que todas as nações do bloco, com exceção da Finlândia, enfrentam uma crise de falta de moradia disponível para pessoas em situação de vulnerabilidade.

Uma investigação parlamentar no Reino Unido identificou, por exemplo, que o número de moradores de rua na Inglaterra aumentou 30% entre 2014 e 2015.

A Feantsa calcula, por sua vez, que a Dinamarca registrou um aumento de 75% no número de jovens sem-teto desde 2009. Em Atenas, capital grega, a organização estima que uma em cada 70 pessoas durma ao relento.

E como a Finlândia conseguiu ser bem sucedida ao buscar uma solução para o problema?

A estratégia de apoio aos sem-teto que o país nórdico oferece é generosa.

Muitos países apresentam soluções de moradia temporárias e condicionais aos moradores de rua.

Já a Finlândia oferece a eles, desde o início, habitações permanentes, sem impor condições. Concede ainda assistência social para ajudá-los a colocar a vida nos eixos, lidando com questões como vício em drogas e desemprego.

"Começamos concedendo a eles um apartamento com um contrato que lhes dá os mesmos direitos que qualquer inquilino. E, se eles precisam de mais apoio, também é oferecido", diz à BBC Juha Kaakinen, gerente da Fundação Y, que oferece 16.300 moradias a sem-teto na Finlândia.

Rentável

A fundação diz que esta abordagem de conceder habitação permanente é mais eficaz do que abrigos temporários, usados ​​em muitos outros países, uma vez que são computados todos os custos sociais que este programa ajuda a evitar.

"Muitos desabrigados não precisam de ajuda extra. Mas é importante que, se for necessário, eles possam obter", acrescenta.

Segundo Kaakinen, há muitas razões que levam uma pessoa a acabar vivendo nas ruas.

"Uma delas é a falta de habitação a preços acessíveis, outras são razões econômicas, divórcio e muitos outros fatores, a que estão sujeitos os seres humanos", diz.

O executivo explica que a intervenção para ajudá-los deve acontecer o mais cedo possível.

"Se você permanecer nesse estado por muito tempo, é provável que apareçam novos problemas. Por isso, é importante atacar a questão o mais rápido possível".

Há pessoas na rua

Podemos dizer então que a Finlândia está satisfeita com os resultados alcançados? O problema foi definitivamente resolvido?

"Certamente vamos continuar com nossos esforços", afirma Kaakinen.

Segundo uma estimativa, cerca de 7 mil pessoas estavam em situação de vulnerabilidade na Finlândia​​, em 2015, devido à falta de um lar permanente.

"Enquanto houver uma única pessoa sem teto no país, será muito. A Finlândia já não tem gente dormindo nas ruas, mas tem pessoas desabrigadas vivendo temporariamente com a família e amigos. Vamos continuar tentando acabar com o fenômeno por completo", diz Kaakinen.



sábado, 10 de dezembro de 2016

De madame a mendiga, as duas vidas de D. Aninha


Anotem o nome dela: Sarah Teófilo é o nome da jornalista que escreveu este primor de artigo que foi publicado no Estadão de 03/12/16.

Faltam adjetivos para qualificar esta brilhante matéria. Uma dolorosa exaltação à humanidade que nos une, tremenda homenagem a D. Aninha, que se alegraria ao lê-la, esteja onde estiver.

Saboreie, então, esta obra-prima do jornalismo brasileiro (sim, ainda se produz isso por aqui):

As duas vidas da dona da rua: de proprietária de R$ 4 mi em imóveis a moradora de rua em Moema

A história de Ana Helena Furman, que de proprietária de R$ 4 milhões em imóveis em Moema se tornou moradora de rua – e acabou assassinada dentro de uma casa que um dia foi dela

Da manhã à noite, Aninha perambulava por um trecho da Avenida Jandira, em Moema, perto da Avenida Ibirapuera. Chegava à lanchonete Premium logo que abria, às 6 horas, e sentava-se ao fundo, antes da chegada de qualquer um – preferia que não notassem que ela não tinha casa, vinha direto da rua. Bebia um chá e comia pão puro, e logo saía bater perna. Passava pelo ponto de táxi da esquina, pelo bar, pela lotérica, cumprimentava quem encontrasse. Aninha era aquela moradora de rua que fica por perto, um rosto familiar, conhecida de todos por ali.

Mas, até 2008, a moradora de rua era a própria dona da Avenida Jandira, no valorizado bairro da zona sul de São Paulo. Ana Helena Furman, 48 anos, detinha dois comércios, metade de uma lanchonete e o sobrado amarelo da esquina – um patrimônio avaliado em R$ 4 milhões. De uns anos para cá, ela decidiu se desfazer dos imóveis. Um a um, vendeu tudo a preço baixo. “Só trazia coisa ruim”, justificou. A drástica decisão só não a impediu de continuar por ali. À noite, invadia o sobrado amarelo que antigamente era seu (abria a porta com uma faca), deitava-se sobre uns lençóis brancos no chão mesmo, perto da porta, e assim permanecia em casa, mesmo que não fosse mais dela.

Uma trajetória que já era inusitada, de proprietária a mendiga da rua – e que foi interrompida por tragédia. No fim de setembro, Aninha foi encontrada morta, sobre os mesmos lençóis onde até há pouco dormia, com a cabeça esmagada a pancadas com um pedaço de madeira. O noticiário contou na época, sem detalhar, que uma “ex-moradora foi assassinada dentro de casa em Moema”. Dizia-se que a ex-proprietária se tornara moradora de rua depois de se desfazer dos imóveis – e mais não se falou, nem da influência de Aninha na Jandira, e nem de como a vizinhança tinha apreço por ela. Ninguém da rua foi convidado a opinar sobre o fato de que, da noite pro dia, perdera a figura querida e ganhara um assassinato.

Todos por ali conheciam a mulher magrinha, de 1,55 metro. Muitos sabiam da trajetória dela, dos tempos de madame (em que mal cumprimentava o pessoal) e de como se tornara moradora de rua (quando, para surpresa do povo, foi se tornando afável). Na Jandira, ela ganhava comida, num bar ou na lanchonete Premium – contentava-se com pouco, e o único resquício dos tempos de bonança era o chá diário, do qual não abria mão. Eduardo Torres, um dos taxistas, franze o cenho como quem sente dor ao falar dela. “Ela foi se transformando, ficando mais legal, e falando mais com o pessoal.”

Aninha herdara os imóveis do pai, Horácio Furman, e naquele tempo vivia dos aluguéis. Mal conversava com o pessoal quando ainda era a “Dona Ana”. “Ela passava sem dar muita bola. Descia para falar com os inquilinos, ou cobrar o aluguel, e deixava o táxi parado, com o velocímetro rodando”, diz o taxista Martinho Nóbrega, há 18 anos no ponto da Jandira. Ela se vestia bem na época, com roupas “chiques”, mesmo sem extravagância. Por três meses, viveu no Hotel Bourbon Convention Ibirapuera. Nessa época, a Jandira era só seu meio de vida. O pessoal da rua sabia só que ela “era sozinha”, que não tinha filhos e não gostava de falar da família. Certa vez, deixou escapar que os Furmans vieram da Rússia no começo do século 20, e se estabeleceram em São Paulo e no Paraná. Depois que ela foi morta, soube-se que era filha única de Edithe e Horácio Furman – uma família de muitas posses, mas de relações conturbadas.

“Quando os Furmans chegaram a Moema, a região não valia quase nada. Nem bonde chegava lá. Compraram terrenos e depois imóveis e esses bens ficaram na família desde então”, diz Horácio Furman, de 81 anos, primo e homônimo do pai de Aninha. “Não sei o que pode ter acontecido com Ana para que decidisse vender tudo. Só sei que os pais dela ficaram pouco tempo juntos, se separaram quando ela era pequena. Depois, o contato da mãe e filha (Ana) foi quase zero com o pai”, complementa Alan Peter Blau, que foi próximo do pai de Ana. Só voltaram a ter contato com a família quando Horácio (o pai) morreu, há pelos menos 20 anos, e tiveram de tratar da herança.

Família era tabu para Aninha – ela não tinha filhos e o pouco que falava era que já haviam brigado muito por causa das posses e que “dinheiro era uma merda, especialmente quando envolve família”, segundo a memória de Helena Fukini, cabeleireira num salão de beleza perto dali. Com uma relação familiar assim, ela mal entrou nos 40, em 2008, e começou a se desfazer do que tinha. Um a um, foi vendendo os imóveis herdados, sempre pelo preço venal. Dizia que estava “cansada de inquilino” e que não queria mais nada, nem mesmo que a imobiliária cuidasse. Chegou a oferecer o sobrado amarelo – o mesmo onde foi assassinada – por R$ 20 mil de entrada para o taxista Eduardo. “O resto você vai pagando devagar. Larga de ser bobo!’, ela dizia”, relembra o taxista. O sobrado acabou vendido por R$ 150 mil – 10% do valor do imóvel hoje, avaliado em R$ 1,5 milhão.

Vendeu, mas, pelo visto, não aceitou bem o fato de que não seria mais dona da Jandira. Mesmo sabendo que o novo proprietário do sobrado havia proibido, ela continuou dormindo ali, geralmente no vão entre uma escada e a porta da rua. Despertava e passava a maior parte do dia nos comércios da rua, unidades que também haviam sido dela. E mantinha o orgulho intacto. Dono de um bar quase na esquina da Ibirapuera com a Jandira – que ainda está no nome de Hilda Furman, tia de Aninha – o comerciante Walter Rocha conta que, certa vez, uma juíza passou pelo local e disse que a ajudaria. Nervosa, Aninha rejeitou tudo o que a mulher falava e disse que ninguém tinha nada a ver com sua vida. “Ela era muito boa de cabeça, não era doida. Mas, ultimamente, não aceitava a vida que levava. Não é fácil ser morador de rua”, diz.

Um dia, o novo dono do que havia sido sua casa soube que Aninha passava as noites no sobrado e chamou a polícia, que a expulsou. Esse parece ter sido o estopim para que os moradores e frequentadores da Jandira a acolhessem e não a largassem mais. Fizeram uma vaquinha para pagar alguns dias de pensão para a mulher. Quanto menos tinha, mais despertava compaixão. “Ela não queria mais saber de valores materiais, dizia que davam dor de cabeça. E ela parecia viver em paz com isso. Só fui descobrir que um dia foi rica depois que morreu”, conta Helena.

Aninha retribuía a ajuda da vizinhança. Na hora do almoço, trabalhava (sem receber salário) como entregadora da lanchonete, levando marmita pra gente da região. No decorrer do dia, fazia as vezes de office-boy: os comerciantes, da lotérica, do bar, do ponto de táxi, confiavam a ela boas quantias (R$ 1mil, R$ 2 mil, até R$ 5 mil) para que depositasse no banco. Com os trocados que recebia por um serviço ou outro comprava suas poucas coisinhas. Não aceitava doações em dinheiro. “Um dia, fui dar R$ 20, mas ela não aceitou. Disse que ‘não queria esmola’”, explica Walter. De resto, Aninha vivia do tratamento dos antes desconhecidos que agora a conheciam bem, desde que se livrou do que tinha e passou a ser valorizada pelo povo da rua.

Os pequenos serviços às pessoas de quem ela dependia agora enchiam os seus dias. Almoçava (pouco) na lanchonete Premium. Comia carne vermelha, mas dizia preferir frango, e evitava gordura. De vez em quando chupava um picolé, ou comia um chocolate – a sobremesa ela fazia questão de pagar. Além dos serviços que fazia para a rua, comprava bolos no supermercado abaixo da Avenida Ibirapuera, cortava em pedaços, os embalava em uma mesa da lanchonete Premium e revendia aos pedaços pela região. Outras vezes fazia sanduíches naturais. Usava touca e luvas para embalar os alimentos, com cuidado. Mais de uma vez os taxistas enganaram a fome com os petiscos da moradora da rua.

Aninha tinha um jeito requintado, elegante, falava inglês. Funcionários da lanchonete contam que ela conversava com os gringos, quando por acaso aparecia algum pela área. Andava sempre limpa, mesmo sem casa e um chuveiro. Simples, com roupas doadas, mas vaidosa. Passava um batom sempre que possível. E se engordava um quilo sequer, o desespero se instaurava. “Teria ajudado mais se soubesse que ela estava numa situação tão difícil, teria chamado ela para tomar banho lá em casa, por exemplo”, lamenta Marlene Pereira, a mais próxima de Aninha na rua – e que, depois do assassinato, passou a depositar flores à porta do sobrado que havia sido da antiga dona de metade da rua. “Mas ela dizia que não queria incomodar com nada. Ela reclamava de dor e cabeça, mas, quando a gente oferecia, não aceitava nenhum remédio”, conta Marlene.

Nos últimos tempos, ela relutava em se afastar de sua rua. A amiga Helena lhe ofereceu emprego no salão de beleza, um salário mínimo para “oficializar” a ajuda que ela já prestava ali. Aninha negou por razões geográficas. “Gosto de ficar na minha área”, justificou – e olhe que o salão fica a menos de 200 metros de onde a moradora da rua costumava circular. Conhecidos diziam que, até os últimos dias, ela continuava a se referir aos imóveis como se ainda fossem dela. Zelava pelos espaços, não gostava que os ambulantes colocassem a muamba em frente à porta do sobrado.

O pessoal da Jandira conta que, um dia, Aninha chegou a impedir uma tentativa de estupro em sua rua. Ela teria evitado que o Pedrão, vendedor de panos de prato do semáforo na esquina com a Ibirapuera, abusasse de uma moça perto dali. Daquele dia em diante, segundo conta a amiga Marlene, ganhara um inimigo. “Ela dizia que ‘aquele homem a odiava’ e de vez em quando se desentendiam.” Ana não gostava, por exemplo, quando Pedrão deixava os produtos no meio da calçada, pelo que lembram os vizinhos.

Mas era um desentendimento mais profundo do que poderiam prever – e foi o que resultou no fato que, há dois meses e meio, chocou aquele pedaço da cidade. Pedro Vieira da Silva, o Pedrão, confessou ter matado Aninha a pancadas enquanto ela dormia sobre os lençóis brancos, no chão do sobrado amarelo. Pedrão não explicou suas motivações a contento, disse apenas que “teve um surto”, então a polícia não descarta que o crime tenha sido encomendado e continua a investigar. Conforme o delegado Nilton Montoro, do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), Pedro mostrou laudos de problemas psiquiátricos e hoje responde o processo em liberdade. O pessoal da rua não se conforma que ele continue andando pelas ruas de Moema (mas sumiu da Jandira).

A história triste da dona da rua que perdeu tudo e acabou assassinada poderia ter um final ainda pior – sem família para reclamar o corpo, Aninha poderia ter se tornado mais uma das 1.585 pessoas não reclamadas, enterradas como indigentes pela Prefeitura de São Paulo de 2014 para cá. Mas uma mobilização capitaneada por Celina da Silva, funcionária da lanchonete Premium, deu à moradora pelo menos a oportunidade de um fim mais digno. Foi à polícia, ao Instituto Médico Legal (IML), e fez o reconhecimento do corpo, o que evitou que Ana fosse parar numa cova rasa, sem identificação. Celina também levantou uma nova vaquinha, desta vez para que Ana tivesse um túmulo próprio, no Cemitério Jardim São Luiz. Levou ainda um batom para passar em Aninha, mas não foi possível encontrar a boca no rosto da mulher.

Do dia do enterro para cá, a amiga Marlene tem cuidado da memória de Aninha, para que continue sendo lembrada na rua onde passou a maior parte da vida – a cada uma ou duas semanas, deposita rosas brancas na porta do sobrado amarelo. Os moradores insistem também para que as investigações sobre a morte dela não parem. A imagem do corpo estirado pra lá da portinha amarela ficou na cabeça dos que vivem e trabalham por ali. Pela fresta, ainda é possível ver os lençóis com que a dona da rua forrava o chão. Ana deixou memórias boas – mas também espanto e horror. As flores deixadas por Marlene vão secar. O sobrado amarelo será ocupado por outro. Um investigador do DHPP teve tanta dificuldade para levantar a história da moradora de rua que, ao chefe, resumiu como “se ela não tivesse existido”. O povo da Jandira, ao acolhê-la em vida e depois ao impedir que Ana Helena Furman tivesse seu fim como indigente, conseguiu provar o contrário.



domingo, 12 de julho de 2015

O cão que resgatou seu dono humano da rua


A matéria foi publicada no Estadão:

Com ajuda de cachorro, artista plástico inglês que morou na rua redescobre seu talento

ANTONIO GONÇALVES FILHO

Inglês John Dolan, de 43 anos, foi dependente químico e resgatou a arte como desenhista ao ganhar George, um Staffordshire bull terrier

São muitas as histórias de pessoas que resgataram cães vadios das ruas, mas raras as de um cão que tirou delas um artista marginal. O artista inglês John Dolan, 43 anos, ex-presidiário e dependente de heroína, deve tudo a George, de fato seu melhor amigo. Hoje com sete anos, o Staffordshire bull terrier não precisa mais ficar mendigando trocados na calçada da Shoreditch High, uma rua do East End de Londres em que ele e seu dono passavam o dia inteiro para juntar algumas moedas da refeição diária.

John ficava desenhando George, que tinha diante dele um copinho de papel com o seguinte bilhete: “Pode tirar meu retrato do modo que você quiser, mas, por favor, coloque uma moeda ou duas dentro do copo ou posso morder você”. As pessoas, de modo geral, achavam George simpático e atendiam seu pedido. Se alguém mais generoso deixava £ 10 no copo, seu dono retribuía a gentileza com um desenho do cachorro.

Fama. George, o cão sem-teto, ficou famoso na vizinhança. Todos faziam festinha para ele, que, embrulhado em trapos velhos, mal podia abanar o rabinho. A famosa dupla Gilbert e George, que tem seu ateliê também no East End londrino, sempre parava para cumprimentar o outro George e John, hoje um artista em ascensão com sua primeira individual fora da Inglaterra - marcada para o fim deste ano, em Los Angeles.

É o primeiro fruto do sucesso de sua primeira exposição, em setembro de 2013, na galeria Howard-Griffin, sobrenome do proprietário e amigo Richard, que tirou John Dolan e George das ruas ao conceder a ele um adiantamento, introduzindo o artista no mercado de arte londrino. A mostra foi um sucesso, garantindo um retorno de £ 50 mil, e a história rendeu o livro autobiográfico John & George - O Cão Que Mudou Minha Vida, que está sendo lançado pelo selo Fábrica 231, da Editora Rocco.

Cão no inverno. De Londres, por telefone, o autor contou sua história ao Caderno 2. Cauteloso e um tanto desconfiado como costumam ser viciados em heroína e ex-presidiários, John solta-se aos poucos, especialmente quando fala de arte, embora mantenha certa cautela ao tocar no passado. Preso várias vezes por roubo, John sente vergonha em admitir que era para pagar os traficantes, após ver cortado o benefício social (£ 36 semanais) que garantia comida e acomodação temporária num buraco da rua Royal Mint.

A vida já andava péssima quando John encontrou um jovem casal em igual situação, no rigoroso inverno de 2009. Ele, então, morava sozinho nessa quitinete (do Serviço Social) na Royal Mint, perto da torre de Londres. Desempregado, finalmente havia conseguido um teto após dormir anos ao relento. Becky e Sam, o casal de jovens que conheceu no metrô de Tower Hill, mendigando trocados, estava, diz ele, “precisando de uma trégua”. Becky, mais desequilibrada, certo dia topou na rua com um escocês alcoólatra que lhe ofereceu um bull terrier em troca de uma garrafa de cerveja. Ela topou o negócio com pena do bicho, deixando George de herança para John ao arranjar outro apartamento para morar.

Ele aceitou o cão, mas teve trabalho para treiná-lo. É possível imaginar o terrier, ex-guia de um escocês bêbado pelas ruas, saindo em disparada louca com seu novo dono, que tentava inutilmente segurar o cão na coleira - “e ainda por cima com uma artrite miserável”. O tornozelo piorava sensivelmente no inverno, mas John, afinal, não podia segurar as muletas e o cão ao mesmo tempo. Tentava manter o bicho ocupado com uma bola de tênis, que George não largava nem por decreto. O terrier, com marcas de maus-tratos, era totalmente diferente de Butch, o velho vira-lata companheiro do artista entre os 10 e 23 anos.

Não que a vida de Butch tenha sido melhor. Por essa época, John morava num conjunto habitacional de King Square em Islington, semelhante ou pior que as habitações populares de Arnold Circus, por onde passou. O pai, lixeiro, e a mãe, faxineira, nem tinham tempo para ver os desenhos que John fazia - “e eu sempre fui um desenhista compulsivo, desde criança”. O pai, ao chegar em casa, mudava automaticamente de canal - “não vou ver essa merda!” - só para contrariar o filho, e colocava os pés na mesa, sempre com uma cerveja ao lado.

Tédio. Longas tardes se passaram no apartamento da família Dolan com o pai “apagando” depois de tomar uma caixa inteira de cerveja, enquanto a mãe fazia faxina fora. O pequeno John passava o tempo desenhando. Entediado, escapuliu certa noite e foi com um amigo incendiar um carro no estacionamento ao lado do prédio onde morava. Foi pego em flagrante por dois policiais. Ainda por cima, acabou descobrindo que seu pai não era seu pai nem sua mãe, a mãe verdadeira. Eram seus avós. A “tia” Mary era, de fato, a sua mãe.

Não por coincidência, Mary tinha um namorado chamado Jimmy Dolan e, obviamente, não estava preparada para criar um bebê sozinha, aos 16 anos. O resto da história já foi contada em mais de um filme de Kenneth Loach, o especialista em classe operária e famílias disfuncionais da Inglaterra - com certeza o nome certo para adaptar sua autobiografia.

Ele, porém, não escreveu sua história para virar filme. Diz mesmo que nem pretende escrever outro livro. Gosta mesmo é de desenhar. Se resolveu contar sua saga foi só para “alertar outros jovens” sobre o que significa viver na rua, esmolar sob a chuva, dormir ao relento, roubar para comprar drogas e perder os dentes por causa do vício.

Sonho. John tem um sonho: continuar dormindo num lugar decente e fazer carreira como artista. Não lhe interessa tanto o dinheiro - “vivo sem ele há muitos anos”. No entanto, gostaria de ver algum dia um desenho seu ao lado dos “grandes” na Royal Academy ou mesmo na Tate. Fã da pintura de Jackson Pollock, ele, no entanto, prefere continuar fiel à figuração. Foi também essa perseverança que atraiu a atenção do marchand Richard para seu trabalho. Ele o viu pela primeira vez reproduzido num livro chamado Shoreditch Unbound, ao lado de trabalhos de Tracey Emin e da dupla Gilbert e George. Levou um ano depois disso para fazer uma oferta a John - “provavelmente para ver se eu não desistia, se era persistente”.

John desenhava os prédios e a paisagem urbana do East End, chamando a atenção de outros artistas de rua com Thierry Noir, Stik e Pablo Delgado. Tal afinidade não escapou ao marchand do artista, que convidou alguns deles para “interferir” nos desenhos de Dolan, leituras quase arquitetônicas de uma Londres cinzenta, sem cor. “Nunca desejei ser arquiteto”, diz. Não tinha grande senso de orientação. Era tão ruim em Geografia que “só por milagre conseguia achar o caminho de casa”.

O artista passou a ser muito requisitado após a primeira exposição na Howard-Griffin. Aceita encomendas, mas não gosta de desenhar retratos. O que lhe dá prazer, admite, é mesmo retratar George - e saber que seu livro foi lançado no Brasil, “país que só conheço por causa das crianças abandonadas e do futebol”.

JOHN & GEORGE
Autor: John Dolan
Tradução: Ângela Pessoa
Editora: Rocco (320 págs., R$ 34,50 )



quinta-feira, 26 de março de 2015

Vaticano abre as portas hoje para receber mendigos de Roma


A informação é do IHU:

Museus Vaticanos abertos gratuitamente para sem tetos de Roma



Os Museus Vaticanos e a Capela Sistina abrirão suas portas, no dia 26 de março, para que um grupo de 150 “sem tetos” de Roma possam admirar as obras de arte que são conservadas em seu interior, conforme informou, hoje, o jornal vaticano “L’Osservatore Romano”. 

A reportagem é de José Manuel Vidal, publicada por Religión Digital, 24-03-2015. A tradução é do Cepat.


Estas pessoas sem lar serão acompanhadas pelo esmosleiro vaticano, Konrad Krajewski, em uma visita especial que tem como objetivo fazer com que “as belezas artísticas vaticanas” também sejam “admiradas pelos pobres que, em geral, conhecem apenas a colunata de São Pedro”, segundo o jornal.

A visita está prevista para o período da tarde do dia 26 de março. Os sem tetos serão divididos em três grupos, cada um com um guia, e contarão com fones de ouvido para escutarem as explicações.

Além disso, antes de chegar aos Museus Vaticanos, os grupos farão um percurso privilegiado que lhes proporcionará passar pela Casa Santa Marta e continuar por trás da abside da Basílica de São Pedro até atravessar os Jardins vaticanos. Trata-se de mais uma iniciativa do pontificado do papa Francisco em favor dos pobres.

No último dia 17 de fevereiro, também a pedido de Jorge Bergoglio, os sem tetos que vivem em São Pedro e nos arredores puderam se lavar e cortar o cabelo nos novos chuveiros e barbearia instalados no Vaticano, para permitir que mantenham boas condições de higiene.

No último dia 5 de fevereiro, o Papa mandou doar 300 guarda-chuvas que pertenciam a turistas que os deixaram esquecidos nos Museus Vaticanos, para que pudessem se proteger da forte chuva.

Finalmente, por ocasião dos seus 78 anos, em 18 de dezembro do ano passado, Francisco doou 400 sacos de dormir para os que vivem nas ruas de Roma.



segunda-feira, 23 de março de 2015

Sob chuva, católicos de SP fazem procissão pedindo água

A matéria é do IHU:

No Dia Mundial da Água, católicos fazem procissão pedindo chuva em São Paulo

Em frente à igreja da Consolação, na rua de mesmo nome, o corretor Sérgio Santos, 50, levanta os braços e chama seus batedores.

Os seis motoqueiros de um grupo cristão de motociclismo, todos de preto e a bordo de suas Harley-Davidson, respondem ao chamado e dão a partida nas motos.

São eles que abrem o caminho para a multidão de católicos que saiu às ruas do centro de São Paulo, na tarde deste domingo (22), Dia Mundial da Água, em uma procissão para pedir chuva.

A reportagem é de Lígia Mesquita, publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 23-03-2015.

Antes mesmo da caminhada promovida pela Arquidiocese de São Paulo ter início, a água já caía do céu. Segundo os organizadores, 1.500 pessoas participaram do ato, que terminou com uma missa rezada pelo arcebispo paulista, dom Odilo Scherer, na Catedral da Sé. O último evento desse tipo na cidade havia ocorrido em 1957.

No carro de som, um padre passa um sermão: "Muitas vezes jogamos os problemas nas costas de alguns e não assumimos nossas responsabilidades com nossa cidade".

Carregando uma imagem de São José na mão esquerda e um guarda-chuva na direita, Conceição Santos, 55, concorda com a bronca e diz que a chuva que cai já é "uma resposta de Deus" à marcha pela água. "Deus está nos mostrando que não se brinca com a mãe natureza. Ficamos esbanjando e deu no que deu."

Para a aposentada, em um primeiro momento, a procissão pela chuva não salvará a capital de um possível racionamento de água. "Mas Jesus está vindo aos pouquinhos. Sem água não vamos ficar."

Funcionária de uma padaria, Andressa Araújo, 20, também caminha pedindo chuva. Moradora da Vila Mariana, ela nunca ficou sem água, mas não descarta passar pelo problema. "Acredito que esse pedido aqui vai dar certo. Deus pode ajudar, mas temos que fazer nossa parte."

Protesto

Logo atrás dos motociclistas, integrantes da Pastoral do Povo da Rua, coordenada pelo padre Júlio Lancellotti, aproveitam o evento para protestar. Seguram faixas e cartazes pedindo água para a população de rua.

A professora Mara Zanin, 50, carrega uma cartolina com a mensagem "Higienização não. A cidade é de todos".

"O poder público tinha que ter olhado para esse problema da falta de água há dez anos. Agora, estamos correndo atrás do prejuízo, então nos resta mesmo rezar", fala.

Para o padre Lancellotti, a crise hídrica "é muito grave" e não há um plano contingencial do poder público. "A procissão é um sinal de que quando estão faltando planos do governo, temos que recorrer a Deus", afirma.

O arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, caminha em meio aos fiéis. E defende a realização desse tipo de procissão, normalmente feita em cidades do interior e do Nordeste, na maior cidade do país. "Não é coisa de cidade pequena. A fé se faz em toda parte. São Paulo também precisa de água", diz.

Segundo dom Odilo, a marcha da igreja serve também para conscientizar a população sobre o uso racional da água. "Pedir água [a Deus] não exime ninguém, nem políticos nem cidadãos, da responsabilidade. Agora descobrimos que conseguimos viver com menos água."



sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Papa autoriza enterro de mendigo no Vaticano

mendigos vaticano

Willy Herteller era um mendigo muito conhecido nos arredores do Vaticano, e chegou a fazer amizade com vários integrantes do clero e do governo da cidade papal.

Já há muitos anos era conhecido e estimado por praticamente todos os moradores e funcionários de lá, segundo informa o diário italiano La Stampa.

Herteller tinha 80 anos de idade e vivia de esmolas até morrer no dia 12 de dezembro de 2014, e um de seus amigos, o monsenhor Americo Ciani, pediu ao papa que autorizasse o seu enterro no cemitério teutônico, que tem uma história antiga dedicada à última morada da nobreza e aristocracia da Alemanha.

O cemitério em questão está localizado entre a basílica de São Pedro e a Sala Paulo VI, e o papa autorizou o enterro de Herteller, cujo funeral aconteceu dia 9 de janeiro de 2015, e foi oficiado pelo próprio monsenhor Ciani.



terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Vaticano fará barba e cabelo dos sem-teto de Roma

A matéria é do IHU:

Depois dos chuveiros para os sem teto, vem a “barbearia do Papa”

São muitíssimos os voluntários que já doaram todos os equipamentos necessários: tesouras, escovas, pentes, navalhas, espelhos e, como não podia faltar, a cadeira de barbeiro. Assim, a partir de 16 de fevereiro, os sem teto que passam seus dias e noites no entorno do Vaticano poderão utilizar não apenas os chuveirosque o Papa Francisco mandou colocar à sua disposição sob as colunas de Bernini, mas também os serviços de barbearia para satisfazer suas exigências higiênicas.

A reportagem está publicada no sítio Vatican Insider, 29-01-2015. A tradução é de André Langer.

A “barbearia do Papa” é a última iniciativa para os pobres da cidade promovida pela Esmolaria Apostólica, o “braço operacional” da caridade do Pontífice, dirigida por dom Konrad Krajewski, arcebispo polonês que Bergoglio, ao nomeá-lo, ordenou que não ficasse sentado em seu escritório, mas que se convertesse em uma extensão concreta a favor dos últimos.

E assim, “dom Corrado”, como é conhecido nas ruas de Roma, após ter-se encarregado da instalação de chuveiros (que sofreu alguns atrasos em relação à previsão inicial), colocou à disposição uma zona nos novos locais que se encontram sob a colunata de São Pedro para instalar a barbearia.

“A primeira coisa que queremos – explicou Krajewski à agência italiana Ansa – é dar dignidade à pessoa. A pessoa que não tem possibilidade de se lavar é uma pessoa socialmente rejeitada, e todos nós sabemos que um sem teto não pode se apresentar em um lugar público, como um bar ou um restaurante, para usar os serviços, porque lhe negam esse direito”.

“Mas claro, tomar banho e lavar sua roupa íntima não é suficiente – indicou. É necessário também ter o cabelo e a barba arrumados, inclusive para prevenir doenças. Outro serviço ao qual um sem teto dificilmente poderia ter acesso normalmente, porque, talvez, poderia provocar o temor de contagiar os clientes com alguma doença, como por exemplo, a sarna”.

E assim, pensando no fato de que muitas destas pessoas viajam nos ônibus e no metrô, misturando-se às pessoas comuns, a “barbearia do Papa”, acrescenta Krajewski, pretende desempenhar um serviço “para o bem comum da cidade”.

Dentro de algumas semanas, tudo estará pronto, e o serviço começará a funcionar ao mesmo tempo em que três novos chuveiros. Os equipamentos necessários já se encontram na Praça São Pedro e há muitos barbeiros voluntários que, com muito entusiasmo, colocaram-se à disposição. Dois são da Unitalsi, outros estão terminando os seus cursos na área em Roma. Os voluntários oferecerão seus serviços nas segundas-feiras, quando os negócios estão fechados e desta maneira não perderão horas de trabalho.



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

40% dos jovens americanos sem-teto são gays expulsos de casa

Ilustração de Brian Stauffer

Artigo de Milly Lacombe para a revista Galileu:

Famílias partidas

Passa de 300 mil o número de adolescentes homossexuais expulsos de casa pelos pais nos Estados Unidos — eles já representam 40% dos jovens sem-teto do país

Neste momento, chega às ruas norte-americanas uma nova classe de cidadãos que não têm onde dormir: a dos adolescentes gays que foram expulsos de casa pelos pais depois de revelar a homossexualidade.

O número estimado de jovens com esse histórico que precisam recorrer a abrigos públicos assusta: mais de 300 mil, de acordo com cálculo feito pelo Center of American Progress. E enquanto muitas outras questões gays chegam ao debate público —como casamento e adoção —, o tema do adolescente abandonado pela família permanence à sombra.

O assunto veio à tona nos Estados Unidos depois que um vídeo viralizou no YouTube; o vídeo mostra Daniel Pierce, um norte-americano de 20 anos, sendo expulso de casa. São minutos de tirar o fôlego: revoltados, os pais abusam verbal e fisicamente de Daniel. É impossível não se comover com as cenas, ainda que tecnicamente a imagem não seja boa.

Todo homossexual que se assume pode dividir a vida entre antes e depois do momento em que diz à família “eu soy gay”. São três palavras curtas, mas imperialmente difíceis de serem pronunciadas pela primeira vez. Não é toda hora que o repórter pode se misturar à matéria e dar um testemunho, mas esse é precisamente o caso. Em 2001, decidi contar à minha mãe que era gay. Os minutos durante os quais tentei dizer essas três palavras foram alguns dos mais longos e sofridos que já experimentei.

Quando a rejeição é a resposta, é como se o mundo lá fora se mostrasse pela primeira vez com toda a sua crueldade. Não é por acaso que adolescentes gays têm um índice de suicídio que está entre os mais altos do mundo e chega a ser oito vezes maior do que o de um adolescente heterossexual.

Lidar com a rejeição já é difícil para uma pessoa madura, mas para um ser humano em formação a tarefa se torna muitas vezes insuportável. No meu caso, anos depois a história teve final feliz, mas com dezenas de milhares de adolescentes não é assim.

Lucina Rodriguez, transsexual de 21 anos, é uma dessas jovens em risco, que se descobriu gay quatro anos atrás e saiu de casa em 2012 para escapar da mãe. Desde então­, ela peregrina pelas ruas. Durante o inverno passado, quando temperaturas chegaram a - 23 °C, ela se refugiou por semanas no metrô de Nova York. Uma noite, foi assaltada e perdeu laptop e certidão de nascimento. “Nessa hora, achei que não ia mais aguentar”, disse à rede de TV NBC. “É ruim, mas me acostumei a viver nas ruas.”

REAÇÕES CONTRÁRIAS

Nos Estados Unidos, estudos feitos com adolescentes gays em abrigos indicam que a maioria vem de família muito conservadora e religiosa, dentro das quais é mais difícil entender a homossexualidade como natural e mais fácil enquadrá-la como doença ou desvio de caráter. Cathy Kristofferson, escritora e advogada de direito do adolescente, calcula que quase metade dos adolescentes americanos que conta aos pais que é gay acaba saindo de casa logo depois — ou porque foram expulsos ou porque se sentiram ameaçados.

O jovem Corey, por exemplo, teve de se trancar no banheiro depois de contar aos pais que era gay. Dias antes, quando se preparava para fazer a revelação, ouviu o pai gritar que se houvesse um homossexual dentro daquela casa, ele morreria com um tiro na cabeça. Temendo pela vida, Corey correu para o banheiro, esperou que o pai parasse de tentar arrombar a porta e de madrugada foi embora para nunca mais voltar. Foi acolhido pela família de uma amiga que, um ano depois, o adotou legalmente, mas nem todos têm a mesma sorte.

Sabendo do problema, instituições como a norte-americana Raise a Child, especializada na adoção de jovens que estão em abrigos, incentivam especificamente a adoção de adolescentes gays rejeitados pela família. Carl Siciliano, ex-monge beneditino que fundou em Nova York o maior abrigo para adolescentes gays do continente, diz que deixou a Igreja porque começou a questionar suas posições. Ele já trabalhava com sem-tetos nos anos 1990 quando notou um aumento significativo de adolescentes gays nos abrigos. Antes, Siciliano contou à revista The Rolling Stone, eram apenas veteranos de guerra, alcoólatras e pessoas com deficiência mental nas ruas. Não coincidentemente, foi naquele período que a homossexualidade começou a ser tratada com mais naturalidade na TV, com seriados populares como Friends apresentando personagens gays perfeitamente inseridos na sociedade.

Ao enxergar a normatização de sua orientação sexual fica mais fácil para o adolescente se revelar a seu núcleo de afeto. Um tipo parecido de reação aconteceu quando o casamento gay foi aprovado em Nova York: Siciliano conta que notou um aumento de quase 40% do número de jovens gays desabrigados. Se de um lado a homossexualidade começa a ser tratada normalmente, do outro as reações contrárias tendem a ganhar volume.

O QUE DIZ A IGREJA

No mais recente Sínodo da Igreja Católica, promulgado em outubro, a “mensagem às famílias do mundo” fracassou ao tentar oficializar as boas-vindas aos gays, como constava do documento original. Depois de votação realizada pelos padres, a frase foi retirada do documento final, que trata de problemas atuais do mundo. No mesmo Sínodo também foi reprovada a comunhão aos divorciados que se casaram outra vez.

Em abril deste ano, Siciliano escreveu uma carta ao Papa Francisco que foi publicada pelo The New York Times. Ele dizia que trabalhava com sem-tetos há 30 anos e lembrava como a falta de uma mensagem de acolhimento por parte da Igreja era capaz de destruir famílias. O centro de apoio fundado por Siciliano tem o nome de Ali Forley, um homossexual sem-teto de 22 anos que levou um tiro na cabeça nas ruas do Harlem, em Nova York. Siciliano sabe que se Forley tivesse um lugar seguro para pernoitar, ele talvez estaria vivo hoje.



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