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domingo, 25 de dezembro de 2016

A estética do Natal aponta para Jesus


Artigo publicado no Gaudium Press:

Diretor musical reflete sobre a importância 
da estética do Natal

Uma chamativa reflexão sobre as decorações, cantos e outros complementos da festa do Natal na Igreja Católica foi feita por Joel Morehouse, Diretor de Música da igreja de Santa Maria de Auburn, Estados Unidos, e divulgada pelo portal New Liturgical Movement. "As paróquias dão o melhor de si no Natal", expressou Morehouse, "competimos na excelência de nossas flores, nossos sermões, a música, as velas, as toalhas e a hospitalidade". Apesar de que essas coisas exteriores poderiam chegar a perder de vista à profundidade, "são sinais que nos levam diretamente a um bebê: o eterno Filho de Deus, Jesus".

"Como Santo Agostinho relata em 'Sobre o Mestre', sem sinais, sem palavras, não poderíamos chegar a conhecer a coisa mesma", recordou o autor. "Não podemos identificar ou inclusive pensar sobre algo sem usar palavras e nomes, ainda que o nome não é a coisa mesma. De igual maneira passa com nossas Missas no dia do Natal: sem nossas palavras polidas, nossos belos cantos, nossas igrejas amorosamente decoradas, o mundo talvez nunca saberia acerca do Menino do Natal, Jesus".

O músico recordou que, com exceção do Santíssimo Sacramento, todos os elementos em um templo se dirigem até Deus sem ser Deus mesmo. Inclusive o serviço ao próximo realizado pelos cristãos não é uma substituição da obra de Deus, mas um sinal que indica até Jesus Cristo. Os villancicos (canções natalinas) e as decorações, portanto, contribuem para dar a conhecer a Cristo inclusive ao que não o compreendem.

"Aqueles que conhecem a Jesus cantam e falam sobre Ele de maneira que o recordam e, com esperança, aqueles que escutem as palavras e as canções e não sabem seu significado serão motivados a perguntar", explicou Morehouse. "Inclusive depois de ter recebido a Fé através do batismo, o processo de buscar entender está a cargo do lado do Céu. Para usar as palavras de Santo Agostinho: 'credo, ut intelligam' (creio, de maneira que possa compreender)".

O músico culminou sua reflexão pedindo ao leitor revisar sua própria celebração de Natal através desta ótica. "Existe suficiente mistério e beleza em nossos louvores para que alguém que não conheça esteja motivado a perguntar?", questionou. "Nossas posturas e comportamento demonstram humildade e maravilhamento diante da vasta verdade que está diante de nós, o Santo Menino Jesus que desarma todo poder humano em um instante? Se não o conhecemos, deveríamos perguntar a alguém que o faça!". (GPE/EPC)



segunda-feira, 11 de março de 2013

Novo papa pode ser "Jesus com MBA"

Artigo publicado na Folha de S. Paulo de 10/03/13:

Cardeais querem 'Jesus com MBA' no comando da igreja

THOMAS REESE
ESPECIAL PARA A "NATIONAL CATHOLIC REVIEW"

Nas reuniões entre os cardeais em Roma para discutir as características que eles procuram no novo papa, está surgindo um consenso.

Eles procuram alguém capaz de pregar os Evangelhos de forma compreensível e atraente para as pessoas do século 21.

Para que isso seja crível, o novo papa precisa ser um homem santo, que acredite no que prega e viva o que preconiza. Também precisa ser um brilhante intelectual, como os papas João Paulo 2º e Bento 16 -conhecedor da tradição e da teologia da igreja.

Mas a santidade e a inteligência não bastam. Ele precisa parecer santo e ser capaz de explicar os ensinamentos da igreja às pessoas de hoje em linguagem que elas compreendam. Por fim, ele precisa ser um bom administrador, capaz de reformar a burocracia do Vaticano.

Em outras palavras: eles querem Jesus Cristo com um MBA. O problema, claro, é que ele morreu, ascendeu dos mortos e deixou a cidade para trabalhar na empresa da família.

Francamente, não há pessoa alguma no Colégio de Cardeais que atenda à descrição acima. Jesus pode ter fundado a Igreja Católica, mas deixou a gestão dela a simples seres humanos.

Pio XII e seu sucessor João XXIII,
então patriarca de Veneza
E tampouco existe consenso sobre o que os termos citados significam. O que é santidade? Quando eu era menino, nos anos 50, todos pensávamos que o papa Pio 12 fosse um santo. Ele certamente parecia pio e ascético: magro, com as mãos postas em oração e os olhos voltados ao céu. Imaginávamos que seus pés nem tocassem o chão quando ele se movia.

João 23, por outro lado, era gordo e sorridente e tinha um brilho brincalhão no olhar. Eram duas pessoas muito diferentes, mas foram reverenciadas como santas por suas respectivas gerações.

Será que precisamos de um papa que se ajoelhe, carrancudo, em oração, bradando aos céus, ou de um papa que fique sentado no jardim do Vaticano, cantando louvores como são Francisco de Assis, enquanto assiste ao pôr do sol?

TEÓLOGOS LIVRES

Tampouco existe consenso sobre a espécie de intelectual de que o pontificado necessita. João Paulo 2º e Bento 16 tinham suas visões teológicas, mas há outros teólogos brilhantes na Igreja Católica que seguiram abordagens diferentes.

As diferenças entre Bento 16 e Hans Küng são conhecidas, mas há outros, como o padre jesuíta Karl Rahner e o padre dominicano Edward Schillebeeckx, que enfrentaram problemas no Vaticano.

O que a igreja precisa é um santo Agostinho de Hipona ou um são Tomás de Aquino do século 21. Os conservadores que gostam de citar esses teólogos não querem que os teólogos contemporâneos os imitem. Os dois tomaram o melhor do pensamento intelectual de suas eras e o usaram para explicar o cristianismo às suas gerações.

Agostinho empregou o neoplatonismo porque todas as pessoas inteligentes de sua era eram neoplatônicas. Aquino tomou os escritos de Aristóteles que haviam sido redescobertos e representavam o pensamento de vanguarda em sua era. Aquino era tão radical que o bispo de Paris queimou seus livros.

A dificuldade hoje é que boa parte da teologia é expressa na linguagem do pensamento clássico, mas quando foi a última vez que você encontrou na rua um neoplatônico ou um aristotélico?

Hoje, precisamos de teólogos livres que imitem, e não apenas citem, esses grandes santos. Isso não significa eleger outro intelectual, como os cardeais fizeram nos dois últimos conclaves, mas sim um líder que permita que todos os demais teólogos da igreja façam seu trabalho sem medo de perseguição.

É preciso um papa que ouça, além de ensinar; um papa que encoraje a criatividade e que não se sinta obrigado a ter todas as respostas; um papa competente em criar consensos, e não apenas em proferir ordens.

Por fim, os cardeais precisam buscar alguém capaz de reformar a Cúria Vaticana, o serviço central de administração da igreja.

Uma vez mais, não existe consenso quanto ao que isso significa. Mesmo as pessoas que trabalham na Cúria concordam em que ela precisa ser reformada, mas com isso querem dizer "me dê mais poder para fazer meu trabalho e reduza o poder daqueles que se opõem a mim".

Essas pessoas não veem problema em ter um homem adoentado e em declínio como papa, desde que ele se disponha a lhes delegar autoridade. Dirigir a Igreja Católica em nome dele enquanto o pontífice presta testemunho sobre o sofrimento seria algo perfeitamente satisfatório para elas.

Por outro lado, muita gente gostaria de ver o poder da igreja descentralizado, o que causa repugnância ao Vaticano. Como uma reforma tributária, a reforma do Vaticano varia de acordo com as opiniões do observador. Minhas opiniões sobre a questão estão expostas em artigo que escrevi para a revista "Commonweal".

HOMEM PRÁTICO

O que os cardeais devem fazer caso não encontrem um Jesus Cristo com MBA?

Na época de são Bento, o fundador da ordem beneditina, um mosteiro enfrentou dilema semelhante e escreveu ao santo afirmando que havia divisão sobre a escolha de um abade. Um monge era renomado por sua santidade; um segundo era um teólogo brilhante; um terceiro candidato era um homem prático.

São Bento respondeu em uma carta: "Que o homem santo ore pelos monges, que o teólogo os ensine e que o homem prático os administre". Embora o papa não seja um abade, a recomendação não deixa de ser sábia.

THOMAS REESE, padre jesuíta e teólogo, é pesquisador do Centro Teológico Woodstock na Universidade de Georgetown (EUA) e ex-diretor da revista católica "America".

Tradução de PAULO MIGLIACCI



sábado, 16 de junho de 2012

Santo Agostinho chega às telonas


Tudo indica que o filme "Restless Heart - The Confessions of Augustine" ("Coração sem Descanso - As Confissões de Agostinho"), com lançamento previsto para breve, não vai furar o bloqueio dos blockbusters americanos (com o perdão da redundância) no circuito comercial brasileiro, mas não deixa de ser uma bela iniciativa que merece ser acompanhada e - se possível - vista.

Aparentemente o filme é uma montagem especial feita com cenas da série "Sant'Agostino" que já passou em algumas televisões europeias em 2010 (acima a capa da versão alemã do DVD).

De qualquer maneira, o registro sobre a vida de um dos líderes cristãos mais influentes da história da igreja tem um site promocional e você pode conferir o trailer no vídeo abaixo:





quarta-feira, 6 de julho de 2011

6 frases de filósofos que nunca foram ditas

1- “Só os mortos conhecem o fim da guerra”, atribuída a Platão

O culpado: o comandante militar norte-americano Douglas MacArthur, filho de um dos grandes heróis da Guerra da Secessão.



Em um discurso nos anos 60, o militar atribuiu a frase a Platão. No entanto, as palavras foram escritas pelo filósofo, poeta e ensaísta espanhol George Santayana no livro “Solilóquios na Inglaterra”, de 1922. Pouco após o fim da Primeira Guerra Mundial, Santayana escreveu: “E os pobres coitados acham que estão a salvo! Eles acham que a guerra acabou! Apenas os mortos viram o fim da guerra”. Nada a ver com o nosso filosofighter grego. “A frase não me parece nem vagamente adequada à expressão das principais ideias do discípulo de Sócrates”, diz Gianpaolo Dorigo.

2- “Creio porque é absurdo”, atribuída a Santo Agostinho

O culpado: a mania de tentar resumir o pensamento dos filósofos em uma frase.


Antes de ser colocada na boca de Agostinho de Hipona, a frase havia sido atribuída a Tertuliano, autor romano das primeiras fases do Cristianismo. Esse caso curioso de reatribuição de citação tem a ver com a valorização da fé expressa pelos dois pensadores cristãos, que declaravam crer em coisas que parecem incríveis, como a ressurreição de Cristo. O problema é que tentaram resumir as ideias de ambos através de uma sentença curta que não aparece explicitamente nas obras de nenhum deles. O mais próximo que Tertuliano chegou disso foi quando disse “E o Filho de Deus morreu, o que é crível justamente por ser inepto; e ressuscitou do sepulcro, o que é certo porque é impossível”.

3- “Deus está morto”, atribuída a Nietzsche

O culpado: a descontextualização.


Aqui, o problema não é a frase, mas o conceito atribuído a Nietzsche. O mal-humorado filosofighter de fato diz isso: a frase apareceu pela primeira vez em “A gaia ciência” e está também em sua famosa obra “Assim falou Zaratustra”. Mas as palavras têm sido muito mal interpretadas. Nietzsche não se referia à morte literal de Deus nem à morte de Jesus Cristo, e essa não era uma simples declaração de ateísmo. Logo em seguida, o filósofo completa: “Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós!”. Ele queria dizer que a humanidade havia deixado de ter Deus como força ordenadora do mundo e fonte de valores. Com a morte de Deus, ele metaforiza a morte dos valores sagrados para os homens. Assim, eles deixariam de crer em quaisquer valores impostos.

Esse tipo de mal entendido é comum quando se fala em Nietzsche. “O seu hábito de efetivamente utilizar máximas e aforismos agressivos em seus livros acabou por transformá-lo em um pensador muito citado e pouco compreendido”, explica Gianpaolo. “E suas máximas, mesmo quando citadas corretamente, muitas vezes se perdem: o que para o pensador alemão era sobretudo uma provocação, para muitos se torna uma verdade incontestável e guia para a vida, no mais puro e estilo autoajuda”, completa.

4- “Os fins justificam os meios”, atribuída a Maquiavel

O culpado: a tentativa de simplificar a ideia de “O Príncipe”.


A mais famosa frase atribuída a Nicolau Maquiavel nunca foi dita por ele. Segundo o professor Gianpaolo, trata-se de uma tentativa de condensar a ideia de sua obra “O Príncipe”, em especial do capítulo 18, em que aparecem os trechos: “…um príncipe (…) não pode observar todas as coisas pelas quais os homens são chamados de bons, precisando muitas vezes, para preservar o Estado, operar contra a caridade, a fé, a humanidade, a religião. Aqui, “preservar o Estado” refere-se aos fins e “operar contra a caridade etc…” é interpretado como utilizar quaisquer meios. No mesmo capítulo, Maquiavel ainda diz: “nas ações de todos os homens, especialmente nas dos príncipes, quando não há juiz a quem apelar, o que vale é o resultado final”. É uma simplificação bem empobrecedora.

5- “Se Deus não existe, tudo é permitido”, atribuída a Dostoiévski

O culpado: Jean-Paul Sartre.


Desta vez, um de nossos Filosofighters foi o culpado, e não a vítima, de uma atribuição incorreta. No texto “O existencialismo é um humanismo”, Sartre diz: “Dostoiévski escreveu: ‘Se Deus não existisse, tudo seria permitido’. Eis o ponto de partida do existencialismo”. O escritor russo de fato inspirou os existencialistas, mas ele nunca disse isso. O mais próximo disso, que está em Os Irmãos Karamazov, é: “[...] é permitido a todo indivíduo que tenha consciência da verdade regularizar sua vida como bem entender, de acordo com os novos princípios. Neste sentido, tudo é permitido [...] Como Deus e a imortalidade não existem, é permitido ao homem novo tornar-se um homem-deus, seja ele o único no mundo a viver assim”.

6 -Se não têm pão, que comam brioches”, atribuída a Maria Antonieta

O culpado: a autobiografia de Rousseau.


A famosa frase foi usada como argumento contra Maria Antonieta durante a Revolução Francesa. A rainha a teria dito durante sua coroação, em 1774, quando soube que o povo das províncias francesas não tinha pão para comer. Só que não. A história veio de uma passagem na autobiografia “Confissões”, de Jean-Jacques Rousseau, que diz: “Recordo-me de uma grande princesa a quem se dizia que os camponeses não tinham pão, e que respondeu: ‘Pois que comam brioche’”. Os registros históricos disponíveis, entretanto, mostram que, na época de sua coroação, Maria Antonieta se preocupava com a situação dos pobres. Numa de suas cartas à mãe, ela chega até a criticar o alto preço do pão. Especula-se que Rousseau na verdade se referia a Maria Teresa de Espanha.

Se você quer homenagear seu pensador preferido, pense bem. Em tempos de internet, essas frases podem acabar se disseminando sem controle, espalhando também uma imagem errada do seu “homenageado”.

Fonte: Tô na Folga

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Tudo fez formoso a seu tempo


2009 chega ao fim. 

Tempo de fazer balanços e projetar 2010. 

Tempo também de agradecer a Deus por tudo o que passou, antecipando o que ainda está por vir. 

Não importa se foi (ou se vai ser) bom ou ruim, pois somos alertados pela Palavra que “o mundo jaz no maligno” (1 João 5:19), mas “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8:38).

Salomão diz em Eclesiastes 3:11 que Deus “tudo fez formoso a seu tempo” e acrescenta que “também pôs na mente do homem a ideia da eternidade, se bem que este não possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até o fim”. 

É esta ideia da eternidade no coração que move muita gente a buscar, por todos os meios, uma maneira de se perpetuar na lembrança e no coração dos outros, no poder, nas riquezas, na dominação, esquecendo-se de que Quem faz tudo formoso a seu tempo é Deus e não o homem. 

Vivemos numa era de megapastores midiáticos e celebridades instantâneas, em que a busca desesperada de poder e fama é uma maneira mal disfarçada de tentar alcançar a eternidade já neste mundo, no ledo autoengano de que se possa roubá-la das mãos de Deus.

O confronto entre o eterno e o provisório é antigo. 

O tempo é um enigma que a humanidade vem tentando decifrar há milênios. 

Santo Agostinho dizia que todos nos sentimos familiarizados com ele, mas somos incapazes de entendê-lo de forma clara e satisfatória. 

Até Einstein, a ciência o considerava absoluto e imutável. 

A única alternativa era esperá-lo passar, como muitos fazem à espera do ano novo. 

Coube ao gênio da física inferir que, considerados à velocidade da luz, tempo e espaço são grandezas relativas. 

Trazendo o tema para o campo da fé (se os queridos leitores nos permitem), Deus se revela no tempo e na história, e o modo pelo qual Ele faz isso não é absoluto, nem relativo, mas - em linguagem bíblica – formoso e oportuno. 

A palavra hebraica traduzida por “formoso” em Eclesiastes 3:11 é יפה - yâpheh – que também pode ser traduzida por “belo”, “agradável, “prazeroso”. 

A ideia por trás da expressão “tudo fez formoso a seu tempo” é que justamente devemos aproveitar todas as oportunidades que nos são dadas por Deus para viver uma vida plena dedicada a Ele, mesmo nos momentos mais difíceis. 

Este é o conselho também dado por Paulo em Efésios 5:15-16, que nos recomenda a sermos sábios e usarmos bem todas as oportunidades (“remindo o tempo”), porque os dias são maus. 

E é a Bíblia a melhor demonstração disso, contando a história do povo de Deus (e a Sua intervenção na História) ao longo dos milênios. 

Afinal, Jesus veio ao mundo no tempo oportuno (Marcos 12:2; Lucas 20:10; 1ª Timóteo 2:6). 

Já nós, humanos, somos seres que nascemos, atuamos, interagimos, e nos despedimos num determinado momento do tempo. 

Somos circunstanciais, enquanto Deus é eterno

Tiago (4:14) descreve a vida como um vapor que aparece por pouco tempo e logo se desvanece, mas, na nossa curta existência, o Senhor coloca dentro do nosso coração este desejo, este sentimento, este vislumbre da eternidade (Eclesiastes 3:11 - veja também um texto interessante de Philip Yancey sobre o tema). 

No mesmo livro, onde diz que há tempo para tudo (3:1-8), o Pregador ressalta que o tempo e a oportunidade ocorrem a todos (9:11); logo, aproveitar o tempo e todas as oportunidades que ele nos oferece é um conselho recorrente de Paulo (Efésios 5:16, Colossenses 4:5).

Temos sempre a oportunidade de fazer o bem, não só aos outros mas principalmente a nós mesmos (Gálatas 6:9-10, Filipenses 4:10), e há aqueles que, como aconteceu à enteada de Herodes, aproveitam a oportunidade para fazer o mal (Marcos 6:21), ou para manipular o bem que outros fizeram (2ª Coríntios 11:12). 

A oportunidade sempre aparece para que digamos a palavra certa no tempo adequado

Podemos deixá-la passar, e assim nos tornarmos omissos, ou dizer a palavra fora de tempo (ou de propósito), correndo o sério risco de sermos inconvenientes. 

Salomão compara a palavra dita a seu tempo a maçãs de ouro em salvas de prata (Provérbios 25:11, ver também 15:23). 

Como o servo sofredor profetizado por Isaías, podemos pedir a Deus que saibamos dizer boa palavra ao cansado. 

"Ele me desperta todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que ouça como aqueles que aprendem" (Is. 50:4). 

Como cristãos, temos, mais que a obrigação, o prazer de aproveitar as oportunidades de dar testemunho da nossa fé (Lucas 21:13, 2ª Coríntios 5:12), enquanto aguardamos o tempo oportuno em que nosso Senhor e Rei se manifestará em glória (1ª Timóteo 6:15), sempre alertas, entretanto, porque o mal absoluto também aproveita as ocasiões de se manifestar (2ª Tessalonicenses 2:6), conforme a própria história da humanidade insiste em comprovar. 

C. S. Lewis teve oportunidade de observar isso, imaginando uma carta do Diabo a um aprendiz, em que o coisa-ruim dizia o seguinte:

      Os seres humanos vivem no tempo. Porém o Inimigo os destinou à eternidade. É por isso, acredito, que ele quer que os homens atentem basicamente para duas coisas: a própria eternidade e aquele ponto do tempo que chamam de presente. O presente é o ponto em que o tempo toca a eternidade. É no momento presente, e nada mais do que no momento presente, que os seres humanos têm experiências semelhantes àquela experiência que o nosso Inimigo tem da realidade como um todo; é somente nele que lhe são oferecidas a liberdade e a realidade. É por isso que ele quer que os homens estejam constantemente ligados ou com a eternidade (o que significa mantê-lo em mente) ou com o presente – quer seja meditando sobre sua união eterna com ele ou separação dele, ou então, obedecendo à voz presente da consciência, carregando a cruz de hoje, recebendo a graça para hoje e dando graças pelo prazer no presente.
(transcrito de "Cartas do Diabo a seu Aprendiz", em "Um Ano com C. S. Lewis – Leituras Diárias de suas Obras Clássicas", Ed. Ultimato, 2005, p. 279)
Em suma, nós, cristãos, somos privilegiados porque recebemos, no nosso tempo finito – presente -, a visita do Deus infinito, Aquele que faz tudo formoso a seu tempo

Como lembra Paulo, fomos agraciados com "uma fé e um conhecimento que se fundamentam na esperança da vida eterna, a qual o Deus que não mente prometeu antes dos tempos eternos. No devido tempo, ele trouxe à luz a sua palavra" (Tito 1:2-3), pela qual vivemos e experimentamos a doce invasão do Eterno nas nossas vidas peregrinas neste mundo. 

Há momentos, entretanto, em que nossas mãos fraquejam, nossos pés escorregam, nossa vida, aparentemente, se esvai, e o tempo se torna um fardo pesado demais para carregar. 

É nessa hora em que todas essas verdades devem ser lembradas, para que façamos como aconselha o escritor de Hebreus (4:16): "Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno". 

Afinal, como lembra o salmista, a natureza se alegra em Deus e espera dEle o seu sustento em tempo oportuno (Salmo 104:27). 

O maná que sustentou o povo de Israel no deserto por 40 anos, durava apenas um dia, com exceção da provisão dupla para o sábado, recebida na sexta-feira (Êxodo 16). 

De nada adiantava guardar o maná para o dia seguinte, pois o tempo prazeroso e oportuno para comê-lo havia se esgotado. 

Entretanto, sempre caía maná no dia seguinte. 

Se hoje não é o tempo oportuno, não nos desesperemos, vamos com confiança ao trono da graça, lá há tempo, formosura e oportunidade, mas principalmente graça, sempre...

Para um estudo mais detalhado do livro de Eclesiastes, clique aqui.




segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

"Tomando posse" com Agostinho

As últimas décadas da Igreja cristã no Brasil e no mundo têm sido marcadas pelo (re)aparecimento de teologias novidadeiras e reinterpretações esdrúxulas e mal intencionadas de alguns textos bíblicos, com o fim de apresentar um “evangelho”consumista e utilitário, em que os fins justificam os meios, e o que importa é o resultado material conseguido aqui e agora por quem o pratica. Muitas igrejas vêm sendo contaminadas por estas aberrações hermenêuticas, e se afastam cada vez mais do rio de águas vivas que, apesar de todos os obstáculos, segue jorrando desde os tempos neotestamentários. Por isso, eu dedico especial atenção aos escritos dos primeiros cristãos, aqueles que estavam mais próximos, tanto geográfica como cronologicamente, dos (verdadeiros) apóstolos e do próprio Jesus. Aqueles irmãos queridos beberam de uma água mais limpa, de melhores fontes. Tiveram a magnífica oportunidade de participar da formação da Igreja cristã, ainda não institucionalizada como querem fazer crer os historiadores papais, e como Policarpo de Esmirna orou ao morrer no ano 160 d. C: “eu te louvo porque me julgaste digno deste dia e desta hora; digno de ser contado entre teus mártires, e de compartilhar do cálice de teu Cristo, para ressuscitar na vida eterna da alma e do corpo na incorruptibilidade do Espírito Santo.”.

Consultando, pois, os pais da Igreja, é muito interessante ver como eles interpretavam de uma maneira muito mais espiritual alguns textos que hoje são completamente desvirtuados pelos falsos profetas da prosperidade. Em sua obra “O Espírito e a Letra”, escrita por volta de 412 d. C., por exemplo, Santo Agostinho interpreta alguns textos que hoje são deturpados – de maneira totalmente diferente:

Ainda se pode investigar se o Apóstolo se refere à esperança da justiça pela qual a justiça espera ou pela qual a justiça é esperada. Pois, o justo, vivendo da fé, espera certamente a vida eterna, assim como a fé, que tem fome e sede de justiça pela renovação dia a dia do homem interior, aperfeiçoa-se e espera saciar-se dela na vida eterna, onde se realizará o que o salmo diz de Deus: É ele que sacia de bens a tua vida (Sl 103,5).
...
Portanto, é réu da condenação sob o seu poder aquele que despreza sua misericórdia quando chamado à fé. Mas a todo aquele eu acreditar e a ele se confiar para ser absolvido dos pecados, curando-se de todos os vícios, inflamado por seu calor e iluminado por sua luz, contará com sua graça para as boas obras. As boas obras o libertarão da corrupção da morte mesmo em seu corpo; será coroado, saciado de bens não temporais, mas eternos, além do que podemos pedir ou pensar (Ef 3,20).

O salmo referiu-se a estes mesmos favores divinos observando a mesma ordem, ao dizer: Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não esqueças nenhum dos seus benefícios. É ele quem perdoa todas as tuas culpas, e que sara todas as tuas enfermidades. É ele quem resgata da morte a tua vida, e que te cora de misericórdia e de graça. É ele quem sacia de bens a tua vida (Sl 103,2-5). E para que a deformidade do homem velho, ou seja, de nossa mortalidade, não se desesperasse de alcançar estes bens, continua o salmo: Renova-se, como a da águia, a tua juventude. Como se dissesse: “Isso que ouviste diz respeito ao homem novo e ao Novo Testamento”. Considera comigo tudo isso um pouco, eu te peço, e contempla com prazer esse louvor à misericórdia, isto é, à graça de Deus.

(Santo Agostinho, “O Espírito e a Letra” (De Spiritu et Littera), caps. XXXII e XXIII, em “A Graça (I)”, Coleção Patrística, São Paulo: Paulus, 1998, pp. 85 e 88)

Felizmente ainda temos esses registros, verdadeiros testemunhos históricos da Igreja cristã, que mostram que a verdadeira prosperidade – para todos os cristãos de todas as eras - é viver uma vida ESPIRITUAL plena e completa, que se projeta para a eternidade na mais absoluta dependência de Deus.



terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Graça, liberdade e livre-arbítrio

por Santo Agostinho:

A GRAÇA NÃO ANULA A LIBERDADE


Anulamos a liberdade pela graça? De forma alguma; consolidamo-la. Assim como a lei se fortalece pela fé, a liberdade não se anula pela graça. Pois o cumprimento da lei depende da liberdade, mas pela lei se verifica o conhecimento do pecado e, pela fé, a súplica da graça contra o pecado; pela graça, a cura da alma dos males da concupiscência; pela cura da alma, a liberdade; pela liberdade, o amor da justiça; pelo amor da justiça, o cumprimento da lei. Desse modo, assim como a lei não é abolida, mas é fortalecida pela fé, visto que a fé implora a graça, pela qual se cumpre a lei, assim a liberdade não é anulada pela graça, mas consolidada, já que a graça cura a vontade, pela qual se ama livremente a justiça.

Todo este encadeamento é revelado nas santas Escrituras. A lei diz: Não cobiçarás (Ex 20,17). A fé suplica: Sara-me, porque pequei contra ti (Sl 4,5). A graça afirma: Eis que estás curado; não peques mais, para que não te suceda algo ainda pior (Jo 5,14). A cura exclama: Senhor, meu Deus, clamei a ti, e tu me saraste (Sl 30,3). A liberdade assegura: Eu te oferecerei um sacrifício voluntário (Sl 54,8). O amor da justiça brada: Os soberbos abriram covas para mim, aqueles que não procedem segundo a tua lei (Sl 119,85).

Por que, então, homens infelizes se atrevem ou se gabam de sua liberdade antes de serem libertados ou de suas forças, se já foram libertados? Não percebem que liberdade equivale a livre-arbítrio. E onde se acha o Espírito do Senhor, aí está a liberdade (2 Cor 3,17). Portanto, se estão sujeitos ao pecado, por que se gloriam da liberdade? Pois cada um é escravo daquele que o vence (2 Pd 2,19). E se já foram libertados, porque se gabam como se fosse obra sua e se gloriam, como se não tivessem recebido? Será que são livres a ponto de não quererem ter como Senhor aquele que lhes diz: Sem mim nada podeis fazer (Jo 15,5), e: Se, pois, o Filho vos libertar, sereis realmente livres? (Jo 8,36).

(Santo Agostinho, “O Espírito e a Letra” (De Spiritu et Littera), cap. XXX, em “A Graça (I)”, Coleção Patrística, São Paulo: Paulus, 1998, pp. 52-53)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Sabedoria agostiniana



"Se és louvado, estás em perigo; se não és, é teu irmão que está."


(Santo Agostinho, De Sermone Domini in monte, Livro II, cap. I)

terça-feira, 5 de maio de 2009

Ceticismo e Revelação em Santo Agostinho

por Paul Tillich:



Depois que Agostinho abandonou o grupo maniqueu, caiu no ceticismo, como em geral acontece quando nos desiludimos de algum sistema de verdades. Passamos a duvidar de todas as possibilidades da verdade. Além disso, nessa ocasião, o ceticismo estava na moda. Até mesmo na escola platônica, conhecida pelo nome de Academia, o ceticismo sobre o conhecimento expressava-se com o nome de probabilismo. Somente as declarações prováveis eram possíveis; a certeza não era possível. Todos os primeiros escritos filosóficos de Agostinho estudam o problema da certeza. Trata-se de importante elemento em seu pensamento porque pressupõe o fim negativo da filosofia grega. A heróica tentativa grega de construir um mundo baseado na razão filosófica se acabava catastroficamente no ceticismo. A tentativa de criar um mundo novo, em termos da doutrina das essências, fracassou. É a partir daí que se deve entender a nova ênfase na revelação. O ceticismo, fim da filosofia grega, foi o pressuposto negativo da maneira como o cristianismo veio a receber a idéia da revelação. O ceticismo é, em geral, a base da doutrina da revelação. As pessoas que dão ênfase na revelação, em termos mais absurdos e supernaturalistas, são precisamente as que se comprazem em ser céticas sobre todas as coisas. O ceticismo e o dogmatismo, a respeito da revelação, se correlacionam. A maneira como o cristianismo valorizou a revelação até o Renascimento, relaciona-se com o tremendo choque com que a razão ocidental experimentou o fracasso de todas as tentativas filosóficas gregas de alcançar a certeza.

(TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão. São Paulo: 2000, 2. ed., p. 121)

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