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sábado, 8 de outubro de 2016

Papa visita Azerbaijão pedindo paz entre religiões


A matéria é da Rádio Vaticano:

Papa: no Azerbaijão colaboração entre culturas e religiões

Na tarde deste domingo dia 2 de outubro o Papa Francisco teve um encontro com as autoridades do Azerbaijão, em particular, com o presidente Ilham Heydar Aliyev no moderno Centro Heidar Aliyev.

O Papa Francisco sublinhou no seu discurso a sua “admiração pela complexidade e a riqueza” da cultura do Azerbaijão, fruto da contribuição dos muitos povos que, ao longo da história, habitaram nestas terras” – disse Francisco que sublinhou os “benefícios do multiculturalismo e da necessária complementaridade de culturas”:
“Espero vivamente que o Azerbaijão continue pela estrada da colaboração entre diferentes culturas e confissões religiosas. Que a harmonia e a coexistência pacífica alimentem sempre mais a vida social e civil do país, nas suas múltiplas expressões, assegurando a todos a possibilidade de oferecer a própria contribuição para o bem comum.”
O Santo Padre recordou os conflitos que se alimentam da intolerância de ideologias violentas, salientando que é necessário “promover a harmonia” entre as várias componentes de uma nação.

Francisco não deixou de recordar as pessoas que sofreram por “causa de conflitos sangrentos” e demonstrou a sua confiança no diálogo e na negociação para a resolução de divergências.

O Papa afirmou no seu discurso a sua satisfação pelas cordiais relações entre a comunidade católica e a muçulmana, a ortodoxa e a judaica, esperando que aumentem os sinais de amizade e colaboração. O Papa deixou, contudo, um aviso:

“O apego aos genuínos valores religiosos é completamente incompatível com a tentativa de impor aos outros, pela violência, as próprias convicções, servindo-se, como escudo, do santo Nome de Deus. Que a fé em Deus seja fonte e inspiração de compreensão mútua, respeito e ajuda recíproca em prol do bem comum da sociedade. Deus abençoe o Azerbaijão com a harmonia, a paz e a prosperidade” – disse o Papa Francisco no final do seu discurso às autoridades do Azerbaijão.



sexta-feira, 8 de junho de 2012

Azerbaijão é o melhor amigo de Israel contra o Irã

Há ligações improváveis e perigosas que desmentem a lógica da guerra religiosa, como a que une Israel ao muçulmano Azerbaijão, segundo comenta Gustavo Chacra:

Como o Azerbaijão virou o melhor amigo de Israel na Guerra Fria contra o Irã

O Azerbaijão, com este nome que pode ser confundido com outras nações terminadas em “ão” no Cáucaso, é seguramente um dos países mais importantes geopoliticamente do mundo.

E é justamente na capital Baku que a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, desembarca hoje para discutir não apenas o conflito envolvendo azeris e armênios no enclave de Nagorno Karabakh, como também o importante suporte do Azerbaijão a Israel na questão iraniana.

Isso mesmo, os azeris são hoje os melhores amigos dos israelenses na hora de enfrentar o que Israel considera ser a ameaça iraniana. Com a Turquia adotando um tom populista com Erdogan na hora de falar de seus antigos aliados em Jerusalém, com o Cairo passando por uma transição incerta e o rei Abdullah da Jordânia sob pressão de opositores, ninguém contribui mais no mundo islâmico com Benjamin Netanyahu do que seus aliados de Baku.

Nos últimos meses, os serviços de segurança do Azerbaijão prenderam 22 suspeitos ligados ao regime de Teerã que estariam planejando atentados contra alvos americanos e israelenses. Os azeris são também os maiores fornecedores de petróleo para Israel.

Israel também cumpre a sua parte. Em fevereiro deste ano, vendeu US$ 1,6 bilhão em armas para as Forças Armadas azeris. Segundo artigo de Ilya Bourtman no Middle East Journal, uma publicação acadêmica sobre Oriente Médio em Washington, os israelenses também “cuidam da segurança do aeroporto de Baku e do próprio presidente, Ilham Aliyev, ao exterior”. O líder do Azerbaijão está no poder desde 2003 e é alvo de protestos de entidades de direitos humanos.

Além disso, de acordo com relatos não confirmados por nenhuma das partes e tampouco pelos EUA, o Azerbaijão teria autorizado Israel a usar uma pista de pouso militar em seu território. Desta forma, os israelenses não teriam necessidade de sobrevoar longas distâncias sobre os céus de nações com as quais não mantém relações, como Arábia Saudita, Síria e Iraque, para alvejar as instalações nucleares iranianas.

Os EUA vêem com cautela esta possibilidade, segundo artigo publicado por Mark Perry na revista Foreign Policy. O governo de Barack Obama é contra um ataque israelense às instalações nucleares iranianas neste momento, preferindo esperar o resultado de duras sanções contra o setor petroleiro e o banco central iranianos que começam a entrar em vigor a partir de julho. Além disso, há o novo canal de negociações diplomáticas entre Teerã e o Sexteto, composto pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, mais a Alemanha.

O regime de Teerã, por sua vez, acusa o serviço secreto do Azerbaijão de ter colaborado com os EUA e Israel para matar cientistas iranianos envolvidos com o programa nuclear do país que, segundo o Irã, tem fins civis. Americanos e israelenses dizem que o objetivo final é construir armamentos nucleares.

O Azerbaijão se sente ameaçado pelo Irã, com quem tem disputas territoriais no Mar Cáspio, uma fonte importante de petróleo. Além disso, há uma proeminente minoria azeri no norte iraniano. Nos EUA, existe pressão para vender armas a Baku, mas estas ações esbarram no forte lobby armênio em Washington.

A Armênia, com o apoio da Rússia, disputa com o Azerbaijão a região de Nagorno Karabakh, onde oito soldados foram mortos ontem, sendo cinco azeris e três armênios. Hillary pediu calma às duas partes

Joshua Kucera, colunista do diário Eurasianet.org, especializado na região do Cáucaso, afirma que Baku usa “a ameaça iraniana para conseguir simpatia no Ocidente. Mas também é verdade que a retórica do Irã contra os interesses estratégicos de Baku no Cáspio aumentou”.



segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Facada nas costas do Islã

O Azerbaijão é uma das 15 repúblicas resultantes do esfacelamento da antiga União Soviética em 1991. Rico em petróleo e gás, dominado pela família Aliyev (à qual pertencem o atual presidente Ilham e o anterior, seu pai Heydar), o país - que tecnicamente não é monarquia apesar dos Aliyev - tem pouco mais de 9 milhões de habitantes, 95% dos quais são muçulmanos, a maioria deles xiitas (85%) e os restantes são sunitas. A pouco expressiva presença cristã no país é majoritariamente composta por ortodoxos russos, georgianos e armênios, sendo que estes últimos estão concentrados na região separatista de Nagorno-Karabakh. Com a sua porção leste banhada pelo Mar Cáspio, o Azerbaijão tem países limítrofes por terra que talvez não sejam os melhores vizinhos do mundo: a Rússia, a Geórgia, a Armênia e o Irã. Uma vizinhança da pesada como essa é garantia de fortes emoções e perigos. No último dia 19 de novembro, um homem voltava a pé para sua casa na capital do país, Baku, quando foi esfaqueado nas costas. Três vezes. Depois, ainda lhe deram mais três facadas no abdômen. Seria um dos muitos e infelizes assassinatos que ocorrem no mundo diariamente, não fosse esse homem Rafiq Tagi, um jornalista e crítico literário que tinha 64 anos de idade. Apesar de esvair-se em sangue, Rafiq ainda conseguiu chegar à sua casa e chamou por socorro. Resistiu alguns dias no hospital, e veio a óbito no último dia 23. Teve tempo de dizer que notou que o seu assassino estava muito nervoso e não disse nenhuma palavra enquanto perpetrava o atentado. Enquanto convalescia num quarto de hospital de Baku, Tagi parecia se recuperar bem dos ferimentos quando subitamente teve uma piora que resultou na sua morte, algo que Emin Milli, também escritor e liberal azerbaijano, disse estranhar muito. Milli, por sinal, é um dos grandes críticos do regime quase ditatorial que impera no país, com a família Aliyev. Em 2009, juntamente com outros colegas, formou o grupo que ficou conhecido como "os blogueiros do jumento", já que tinham descoberto que o governo havia importado um jumento alemão de 42.000 euros. A suposta "entrevista coletiva" que o jumento teria dado ao chegar ao Azerbaijão (tocando violino) rendeu um vídeo engraçado (veja abaixo) e uma surra pesada em Milli e seu amigo Adnan Hajizade.

O ministro do Interior e o Procurador Geral do Azerbaijão se incumbiram das investigações, admitindo que - muito provavelmente - a motivação para o crime está ligada às atividades e aos artigos recentes do jornalista. Uma nuvem de silêncio, entretanto, paira sobre o fato, e pouca gente acredita que alguém será algum dia julgado e condenado pela morte de Tagi. Em novembro de 2006, ao escrever um artigo intitulado "A Europa e Nós" - e apesar de ser nominalmente muçulmano -, Tagi disse que os valores humanistas e universais da Europa trariam muito mais proveito ao Azerbaijão do que os preceitos islâmicos. O controverso artigo lhe rendeu uma condenação a 3 anos de prisão, até receber perdão presidencial em dezembro de 2007, além de um "fatwa" (uma espécie de condenação religiosa muçulmana) expedido por um clérigo iraniano, o aiatolá Fazel Lankarani, que o sentenciou à morte. No artigo em questão, Tagi havia comparado Jesus e Maomé, alegando que a influência cristã na Europa havia desembocado no respeito aos direitos humanos e à democracia, enquanto os ensinamentos do Alcorão haviam levado os países orientais a um despotismo religioso e às muitas ditaduras que o acompanharam. Logo, se os azerbaijanos queriam ser um povo livre, deveriam dar menos valor aos preceitos islâmicos e abraçar o secularismo ocidental. Apesar das ameaças iranianas, Tagi não se acovardou e continuou escrevendo contra o fanatismo e o atraso. Em um de seus últimos artigos, criticava exatamente a teocracia que dirige e determina o destino de milhões de iranianos. Ao que parece, esta opinião forte e corajosa lhe custou a vida em terras onde não demorará muito para proibirem até o pensamento. A exemplo do que aconteceu com os celulares no Paquistão, ou os próprios muçulmanos combatem o fanatismo em casa, ou a barbárie se abaterá sobre o mundo na próxima esquina. Que ninguém espere, entretanto, que os governos ocidentais derramem uma lágrima ou um protesto sequer pela morte de Tagi. Em país onde jorra petróleo, consciências, escrúpulos e sangue são derramados sem nenhum pudor. Os burros somos todos nós...



Fontes: Reporters Without Borders e The Guardian



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