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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Saiu da igreja e foi conversar com um mendigo. Era seu irmão que ele não via desde menino.


Coincidência? A história inusitada foi contada pela BBC Brasil:

Britânico conversa com morador de rua e descobre irmão que não via desde bebê

O soldado britânico reformado Roy Aspinall saía de uma igreja em Wigan, na região metropolitana de Manchester, no Reino Unido, no último dia 12 de novembro quando viu um morador de rua sentado ali. "Ele parecia muito, muito familiar. Seus traços faciais eram como os meus", disse Roy à BBC.

O homem era Billy White, até então um sem-teto que circulava pelas ruas desta cidade no norte da Inglaterra. "Estava ali para me sentar um pouco antes de achar um local para dormir", disse Billy.

Roy aproximou-se do desconhecido e ofereceu um cigarro a ele. "Ele começou a me perguntar várias coisas: qual era meu nome, quem era minha irmã... Então, ele disse: 'Sou Roy Aspinall. Sua mãe é a minha mãe, e sou seu irmão".

Roy, de 36 anos, cresceu sem conhecer todos seus irmãos e não via Billy há mais de 20 anos. Billy, de 28 anos, sabia que tinha um irmão mais velho, mas pensava não ter como encontrá-lo. Depois do encontro inesperado, os dois compararam suas certidões de nascimento. "Mesma mãe, mesmo sobrenome e mesmo endereço", disse Roy.

Ele disse ter "ficado muito emocionado" quando percebeu o acaso: "Liguei para a minha irmã e, quando vimos quem Billy era, eu estava em lágrimas". Billy também se emocionou com o encontro. "Não dá para explicar o sentimento. É louco. Ainda estou em choque. Minha mãe sempre falou de Roy", contou.

Roy disse que conhecer seu irmão o fez se sentir completo. "Era como se houvesse um quebra-cabeça gigantesco, mas eu não conseguia achar a última peça e, agora, parece que encontrei".

Vida nova

Os dois irmãos dizem ter estabelecido uma conexão profunda entre si. "Sinto como se nunca tivéssemos nos separado. Ver meus traços faciais no rosto de outra pessoa é algo que eu nunca havia experimentado antes", disse Roy, que se lembra de ter visto Billy pela última vez quando o irmão ainda era um bebê, na casa de um parente.

"Dizer 'eu tenho um irmão', usar essas palavras, é tão estranho. Mas é um sentimento muito novo para mim –de alegria, não de tristeza".

Os dois são filhos de Lorraine White, mas, por questões de família, Roy foi criado por sua tia. Anos mais tarde, Lorraine teve Billy e cuidou dele até seus 10 anos de idade, quando o menino foi entregue aos cuidados do serviço social britânico.

Ele passou três períodos de sua vida morando na rua. O mais recente durou oito meses e acabou quando houve o encontro entre os irmãos. Agora, Billy não vive mais nas ruas. Pouco antes do Natal, passou a morar na casa de Roy a convite do irmão, que tem seis filhos.

Também conseguiu um emprego como assistente de motorista de uma empresa de logística. "A minha vida mudou quando Roy me encontrou. Hoje, ele cuida de mim como um irmão mais velho", disse.

Os irmãos ainda estão se familiarizando um com o outro. "Percebemos que temos tantas coisas em comum", disse Billy.

"Pensava ser o único na família que bebe café. Mas, quando perguntei o que ele queria beber, ele disse café com leite e dois cubos de açúcar, que é exatamente igual a mim. Ambos temos covinhas. Não paramos de conversar o tempo todo. Mas agora temos o resto das nossas vidas para nos conhecermos."



quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Bispo da universal teria censurado matéria sobre "novos pais" na Record


A ser verdade o que diz o blog Famosidades do MSN, está enganado(a) quem alega que é só a Globo que molda o controverso e reverso "pensamento único" brasileiro.

Já pensou uma sociedade em que certos "evangélicos" controlem a informação que você pode ou não consumir?

Parece que o buraco da manipulação midiática é mais largo e retrógrado do que se pensa:

Bispo censura reportagem especial do "Jornal da Record"

Programada para estrear no "Jornal da Record" na última segunda-feira (7), a série "Novo Pai" causou transtornos para a produção do noticiário. O motivo? Um dos bispos da emissora decidiu vetar alguns dos temas que seriam exibidos.

De acordo com o colunista Flávio Ricco, o religioso, ao assistir à chamada da série, não aprovou boa parte dos assuntos que estavam em pauta - principalmente os que falavam de filhos de homossexuais.

Temas relacionados a pais solteiros e separados também tiveram que passar por mudanças.

Como as alterações foram feitas em cima da hora, a equipe do jornalístico precisou correr e unir forças para conseguir ter algo pronto para exibir ao público no "JR". As reportagens fazem parte do especial de Dia dos Pais - celebrado no próximo domingo (13).



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O pai solteiro mórmon que adotou 8 meninos

Éderson segura o bebê na foto acima, em que estão 6 dos seus 8 filhos adotivos.

A matéria foi publicada no UOL Estilo em 03/02/17:

"Desejo de ser pai me levou a adotar 8 meninos, mesmo sendo solteiro"

Melissa Diniz

No coração do jornalista e microempresário Éderson Flávio Ribeiro, 43 anos, de Taubaté (SP), parece sempre haver espaço para mais um filho. Ao longo de sete anos, ele adotou oito meninos, alguns deles com histórias de vida tristes e que tinham sido devolvidos aos abrigos, após tentativas frustradas de adoção. Além disso, acolheu mais um, que não tinha para onde ir, até ele encontrar um emprego e conseguir se sustentar. Hoje, apesar de solteiro, Éderson tem uma família grande e feliz.

Leia o depoimento que ele deu ao UOL.

"Homem também tem instinto paterno"

Muitas pessoas pensam que somente as mulheres desejam ter filhos. Mas homem também tem instinto paterno. Eu sempre quis ser pai, tanto que adorava ninar os filhos dos meus amigos e participava com frequência de campanhas de doação de brinquedos para crianças carentes. Acho que grande parte desse desejo veio do fato de meu pai ter se separado da minha mãe quando eu tinha 13 anos e de me lembrar da falta que ele fez e de como sua ausência doeu nas formaturas, Dia dos Pais, Natais e outras datas importantes.

Então, em 2002, comecei a ter sonhos recorrentes nos quais eu via um menino. Na época, eu namorava uma moça de 17 anos, a Carol, e até brinquei com ela que, se nos casássemos, queria ter no mínimo quatro filhos. Nós ficamos dois anos juntos, mas acabamos nos separando. Nesse meio-tempo, os sonhos continuaram acontecendo e duraram quatro anos. Aquilo realmente chamou minha atenção, pois eram bastante repetitivos. Sou mórmon e, em minha religião, sonhos são compreendidos como revelações e senti que precisava fazer algo a respeito.

"Diziam que seria impossível eu adotar"

Foi aí que comecei a visitar abrigos de crianças, em uma tentativa de encontrar e adotar aquele menino, porém, muitas portas se fecharam na minha cara. As pessoas diziam que seria impossível um homem solteiro ser pai adotivo. Primeiro eu teria que me casar, orientavam. Não que a lei não permitisse, mas o preconceito ainda era grande e os juízes não aprovavam.

Tive um problema sério de saúde, precisei mudar de cidade, mas, apesar das dificuldades, não desisti de adotar aquele menino. Acabei descobrindo que muitos adolescentes iam parar nas ruas porque, assim que completavam 18 anos, eram expulsos dos abrigos. Então, uma amiga me contou sobre o Anderson, um rapaz que estava desesperado, pois passava exatamente por essa situação e logo não teria onde ficar. Ele não queria ser adotado, mas decidi acolhê-lo por um tempo.

"Reconheci o menino dos meus sonhos"

Quando cheguei ao abrigo para conhecer o Anderson, senti algo muito forte. Enquanto conversávamos, outro menino começou a correr perto de nós. Ao olhar para trás, o reconheci. Era o garoto que sempre via nos sonhos. Seu nome era Eduardo e tinha 13 anos.

Curioso, fui conversar com o psicólogo do abrigo para saber se ele poderia ser adotado. Foi aí que soube que ele estava lá desde os seis anos de idade e havia sido devolvido três vezes. Nas duas primeiras, as mães conseguiram engravidar e desistiram da adoção. Na terceira, o marido era alcoólatra e o conselho tutelar pediu que a mãe adotiva escolhesse entre ele e a criança, mas ela preferiu ficar com o marido.

Levou três meses para que a adoção se concretizasse e ele se tornou meu filho em 2007. Antes, eu precisei passar por uma avaliação psicológica, além de comprovar que não tinha antecedentes criminais, como é praxe no processo.

Nós três nos tornamos uma família e, claro, passamos por uma fase de adaptação no começo. Fiquei sabendo, depois, que quando uma criança ou adolescente é adotado vive um período de regressão, isto é, começa a se comportar como se fosse mais novo. É normal. Até mesmo o Anderson, que também considero como filho, apesar de ter 18 anos na época, às vezes agia de maneira imatura, mas nada que a paciência e diálogo não pudessem resolver.

"Perguntaram se eu queria adotar mais um"

Tornei-me colaborador daquele abrigo de onde os meninos vieram. Fazia visitas e doação de brinquedos. Passados três meses da adoção, os funcionários me ligaram para falar sobre o Jean, um menino de quatro anos que estava sofrendo bullying das outras crianças por ser muito bonzinho. Perguntaram se eu estaria interessado em adotá-lo também, pois ninguém estava. Não resisti.

Passados três meses, Jean vinha se juntar aos irmãos adotivos para iluminar a casa. Anderson e Eduardo o acolheram com muito carinho. Mas Jean tinha irmãos biológicos e eu não fazia ideia de que eles estavam naquele mesmo abrigo. Então, um tempo depois, os funcionários me ligaram novamente para falar sobre o Bruno, na época com 11 anos, e Rafael, que tinha 13. Não preciso dizer que ambos vieram fazer parte da família também e lá estava eu com cinco filhos.

"Abracei a causa da adoção tardia"

Por minha própria experiência e por ver tantas crianças e adolescentes totalmente esquecidos nos abrigos, abracei a causa da adoção tardia e me tornei palestrante em grupos de apoio à adoção. Certa vez, fui participar de um evento em São Paulo e fiquei sabendo de dois irmãos que estavam em Guarapuava, no Paraná, Luiz Fernando, 18, e Rodrigo, 14. Eles também haviam passado por experiências dolorosas e tinham sido devolvidos. Senti que precisava fazer algo a respeito e perguntei aos meus filhos o que eles achavam. Eles disseram: ‘ah, pai, onde cabem cinco cabem sete’. Lá fui eu para Guarapuava em uma viagem que durou 15 horas. Entrei com o pedido de guarda e levou seis meses para a adoção sair. Agora tinha sete filhos.

Quando o Rodrigo fez 18 anos, eu o levei de volta a Guarapuava para visitar os amigos e as tias do abrigo. Ao chegar lá, um rapazinho me chamou para conversar e disse que queria muito ser adotado. Falou que comia pouco e que dormiria no sofá. Não tinha ido lá para adotar ninguém, mas ele estava pedindo socorro. Mantivemos contato por um tempo, conversei novamente com meus filhos e decidimos que sim. Brinco que Kelvin, que na época estava com 15 anos, é ‘o último dos moicanos’, meu oitavo filho. Pelo menos, por enquanto.

"As pessoas achavam que eu era louco"

Nunca pensei nas dificuldades que enfrentaria ao fazer as adoções. Pensava que tinha condições de trabalhar e de sustentar a casa, então não havia motivo para não fazer. As pessoas achavam que eu era louco, por isso sempre tomei as decisões sem ficar falando para ninguém. Já ouvi piadas de mau gosto, comentários negativos a meu respeito e até duvidaram do meu caráter, mas não me importo, meus filhos sabem quem eu sou e isso basta. Sempre os orientei sobre o preconceito da sociedade e ensinei que deveriam estar preparados para lidar com a maldade dos outros.

Houve momentos que eles foram questionados sobre não terem o nome da mãe na carteira de identidade. Uma mulher certa vez perguntou: ‘Vocês nasceram do vento?’. Olhou para mim e disse que havia algo errado. Nisso, um dos meus filhos respondeu: ‘A única coisa errada aqui é a postura da senhora.’ Isso me dá orgulho, pois eles sabem se defender.

Durante esse tempo todo, tive apenas relacionamentos curtos, assim que as namoradas descobriam quantos filhos eu tinha, sumiam. Perdi a conta de quantas esposas quiseram me arrumar, mas a minha prioridade são meus filhos e trazer uma mulher para casa tiraria a liberdade deles.

"Perdi três empregos para não perder a guarda"

Cada vez que um filho era adotado, começava a vigilância da assistência social que durava de um ano a um ano e meio. Eles faziam visitas-surpresa na minha casa para saber se estava tudo bem, ligavam na escola para saber se os meninos estavam estudando e queriam saber se eu tinha condições de sustentá-los. Não foi fácil.

Perdi três empregos por isso, pois, quando me ligavam, diziam que estavam na porta de minha casa e tinha que largar tudo para ir atendê-los. Sem contar as idas ao médico e ao fórum, onde os meninos ficaram cansados de ter que reafirmar que queriam permanecer comigo. Apesar dos contratempos, são medidas necessárias para a segurança das crianças. Infelizmente, há muitos casos de abuso e maus-tratos.

Já fui garçom, faxineiro, entregador de panfletos e já fiz muita permuta para que os meninos pudessem estudar. Houve momentos em que precisei conciliar três empregos. Se o curso não era gratuito, faxinava a escola em troca das aulas e assim eles puderam fazer informática, por exemplo.

Meus filhos cresceram, uns já se formaram, outros ainda estudam e alguns trabalham para me ajudar. Ainda moram comigo o Jean, hoje com 13 anos, Rafael, 20, Eduardo, 22, e Bruno, 18. Hoje eu tenho uma microempresa de eventos e meu escritório é em casa. Faço festas, casamentos e formaturas e espero fazer minha empresa crescer mais. Meu sonho é que o Luciano Huck venha me ajudar a ter um espaço bom para trabalhar. Mas, o principal é que nada falte aos meus filhos."



terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Garoto americano morre após pais adotivos orarem em vez de buscar um médico

Seth Johnson, um sorriso que se apagou devido à negligência e ao fanatismo de quem devia cuidar dele... 

Tristemente, mais uma demonstração de que a religiosidade não serve para desmascarar a depravação humana. A matéria é d'O Globo:

Menino morre 'após seus pais rezarem em vez de chamar um médico'

Criança teve pancreatite aguda e infecção generalizada; Pais são acusados pela polícia

PLYMOUTH, EUA — Um menino 7 anos de idade morreu após seus pais rezarem por ele em vez de levá-lo ao hospital, alega a promotoria pública do estado americano de Minnesota. Os pais, Timothy e Sarah Johnson, foram indiciados por negligência e devem comparecer ao tribunal este mês.

Por semanas, o menino Seth Johnson sofreu de pancreatite aguda e sepse — infecção geral grave —, mas nunca foi levado pelos pais para se consultar com um médico. De acordo com a Justiça, o garoto chegou a ser deixado em casa sozinho sob os cuidados do irmão de 16 anos para os pais irem a um casamento num fim de semana. Na volta, com o filho em um estado de saúde mais crítico, os pais simplesmente oraram para ele e o colocaram para dormir. Apenas quando Seth foi encontrado incosciente e coberto de vômito, os pais ligaram para a polícia.

— Não podemos compreender como um pai deixaria um filho de 7 anos muito doente aos cuidados de um adolescente de 16 anos para que pudesse sair no fim de semana — disse ao "Independent" Mike Freeman, promotor do condado de Hennepin. — Nem podemos compreender como os pais se recusaram a voltar para casa no domingo de manhã para cuidar de seu filho doente quando eles foram avisados de sua condição grave. Também é difícil compreender por que os pais não chamaram uma ambulância no domingo à noite para obter imediatamente ajuda médica quando finalmente chegaram em casa.

PAIS DISSERAM TER 'PROBLEMAS COM MÉDICOS'

Segundo Freeman, apesar de Timothy e Sarah Johnson terem presunção de inocência, a equipe da promotoria usará todos os recursos para que eles sejam considerados culpados.

Um documento de cinco páginas elaborado pelos promotores explica como o casal conheceu Seth aos 3 anos de idade, adotou-o aos 4 anos e o educou em casa. Segundo este mesmo documento, o casal afirmou que o comportamento do menino mudou nas semanas que antecederam sua morte, em 29 de março de 2016. Ele parou de dormir, desenvolveu bolhas nas pernas, lesões nos calcanhares, passou a levar cerca de duas horas para fazer as refeições e, às vezes, jogava-se pelas escadas.

Mas, aparentemente, eles nunca procuraram ajuda profissional porque tinham "problemas com médicos", de acordo com o documento. Em vez disso, eles mesmos diagnosticaram o garoto com transtorno de estresse pós-traumático e lesão cerebral traumática.

Segundo a polícia, o casal afirmou que o menino tinha sido previamente diagnosticado com problemas identificados como síndrome alcoólica fetal e transtorno de apego reativo — quando se sofre de negligência infantil. No entanto, a clínica que os pais deram como referência para a polícia checar essas informações afirmou que não tinha nenhum registro de já ter tratado o menino alguma vez.

Suas feridas foram alegadamente tratadas com pomada antibiótica Neosporin e "mel medicinal". Quando os pais voltaram para casa, na noite em que o menino morreria, eles "oraram por sua saúde", e, depois de darem banho nele, colocaram Seth para dormir. Somente depois de o pai encontrá-lo inconsciente e coberto de vômito, a mãe ligou para a polícia.

O caso não é o primeiro assim a acontecer. No Canadá, um casal cristão teria rezado por duas horas para seu filho diabético que estava morrendo, sem levá-lo ao hospital. E, em outra ocasião, um pai foi preso por se recusar a procurar tratamento médico para seus filhos por causa de crenças religiosas.



sábado, 19 de setembro de 2015

Quais são as formas jurídicas que lidam com o abandono de crianças?


A matéria é do Conselho Nacional de Justiça:

Entenda a diferença entre abandono
intelectual, material e afetivo

A Constituição Federal determina, no artigo 229, que os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores, da mesma forma que os filhos maiores têm a obrigação de amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade. Quando esse dever não é cumprido, pode ser caracterizado, na Justiça, como crimes de abandono intelectual, material ou, conforme a jurisprudência recente firmada no Superior Tribunal de Justiça (STJ), abandono afetivo. Para esses crimes estão previstas penas como a detenção e o pagamento de indenizações à vítima.

No Brasil, os crimes de abandono material e intelectual estão previstos no Código Penal, no capítulo III, intitulado “Dos crimes contra a assistência familiar”. Conforme estabelece o artigo 244 do código, o abandono material acontece quando se deixa de prover, sem justa causa, a subsistência do filho menor de 18 anos, não proporcionando os recursos necessários ou deixando de pagar a pensão alimentícia acordada na Justiça ou, ainda, deixar de socorrê-lo em uma enfermidade grave. A pena para este crime é de um a quatro anos de detenção, além de multa fixada entre um e dez salários mínimos.

Já o abandono intelectual ocorre quando o pai, a mãe ou o responsável deixa de garantir a educação primária de seu filho sem justa causa. O objetivo da norma é garantir que toda criança tenha direito à educação, evitando a evasão escolar. Dessa forma, os pais têm a obrigação de assegurar a permanência dos filhos na escola dos 4 aos 17 anos. A pena fixada para esta situação é de quinze dias a um mês de reclusão, além de multa. Outra forma de abandono intelectual por parte dos pais estabelecida pelo Código Penal é permitir que um menor frequente casas de jogo ou conviva com pessoa viciosa ou de má-vida, frequente espetáculo capaz de pervertê-lo, resida ou trabalhe em casa de prostituição, mendigue ou sirva de mendigo para excitar a comiseração pública.

Abandono Afetivo – Quando caracterizada a indiferença afetiva de um genitor em relação a seus filhos, ainda que não exista abandono material e intelectual, pode ser constatado, na Justiça, o abandono afetivo. Apesar desse problema familiar sempre ter existido na sociedade, apenas nos últimos anos o tema começou a ser levado à Justiça, por meio de ações em que as vítimas, no caso os filhos, pedem indenizações pelo dano de abandono afetivo. Algumas decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) são no sentido de conceder a indenização, considerando que o abandono afetivo constitui descumprimento do dever legal de cuidado, criação, educação e companhia presente, previstos implicitamente na Constituição Federal.

Abandono de recém-nascido – Frequentemente noticiado na mídia, o abandono de bebês recém-nascidos constitui crime previsto no artigo 134 do Código Penal, cuja pena de detenção de até dois anos pode ser aumentada para até seis anos caso o abandono resulte em lesão corporal de natureza grave ou em morte da criança. De acordo com o artigo 13 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), qualquer gestante que queira entregar o seu filho à adoção pode fazê-lo com segurança e respaldo do Poder Judiciário. A gestante deve procurar a Vara de Infância, onde será atendida por uma equipe psicossocial e terá direito à assistência jurídica pela defensoria pública.



terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A dura realidade das crianças "inadotáveis"

A matéria é do G1 Paraná:

'Queria pai e mãe todos os dias', diz menina apontada como 'inadotável'


Aos dez anos e com HIV, menina está fora da fila de adoção.

Especialistas dizem que país tem 32 mil que não podem ser adotadas.


Adriana Justi e Vinícius Sgarbe

Ela tem dez anos, não conhece os pais, é portadora do HIV e mora em um abrigo no Paraná. Mesmo contra todas as adversidades, a menina V. sonha com um presente ao qual tem direito. “Queria uma mãe e um pai de verdade (...) todos os dias”, conta. A garota é uma das cerca de 32 mil crianças consideradas “inadotáveis” no país. A lei assegura a todas a possibilidade de serem adotadas até os 18 anos desde que tenham sido juridicamente desligadas dos pais biológicos, mas a burocracia impede o exercício desse direito, segundo análise de especialistas.

“Como a destituição [processo que desliga legalmente a criança da família biológica] demora, apenas 5 mil das 37 mil crianças que estão em abrigos do país podem ser adotadas. Hoje, existem 26 mil famílias interessadas em adotar“, afirma Ariel de Castro Alves, presidente da Fundação Criança e vice-presidente da Comissão Nacional da Criança e do Adolescente da OAB.

Contra o sonho de uma nova família, pesa ainda a expectativa dos futuros pais. Condições impostas por eles eliminam grande parte das cinco mil crianças listadas no Cadastro Nacional de Adoção (CNA). A lista do CNA inclui as crianças que venceram a burocracia e as exigências legais e precisarão de sorte para se encaixar na projeção dos casais candidatos: meninas brancas, com menos de três anos, sem irmãos, deficiências ou HIV.

“As crianças [sob custódia do Estado] são mais meninos, negros e pardos”, explica Alves. Em Curitiba, até 10 de outubro 41 das 73 crianças no CNA eram brancas. Mas, do total, 38 eram meninos e só três tinham menos de cinco anos.

Na Associação Paranaense Alegria de Viver (Apav), em Curitiba, 18 crianças portadoras do vírus HIV estão fora da fila de adoção, segundo o fundador Newton Nascimento Teixeira. A menina V. é soropositivo e mora na Apav desde bebê e nunca teve o nome no CNA por não ter obtido a destituição do poder familiar concluída. A menina conta que o presente que sempre quis ganhar no Dia das Crianças é uma casa e uma família. “Eu vou sentir saudades dos meus amigos daqui, mas queria que alguém me adotasse. Eu tenho uma madrinha que passa aqui de vez em quando e me leva para a casa dela para dormir. Eu gosto, mas queria uma mãe e um pai de verdade”, conta a menina.

A fundadora do Movimento Nacional das Crianças Inadotáveis (Monaci), Aristeia Moraes Rau, lembra que, entre os "inadotáveis", há ainda o dilema dos que atingem a maioridade nos abrigos e ficam de fora do processo.

Já na Apav, “além das crianças, nós temos jovens entre 18 e 20 anos que viveram toda a infância na instituição e não tiveram a chance de encontrar novas famílias. O problema desse isolamento não é nem a falta de famílias interessadas e o preconceito. A grande barreira é a demora e a burocracia apresentadas pelo Estado e pela Justiça. Tanto que alguns já completaram a maioridade e já perderam até a esperança de encontrar um novo lar. Mesmo assim, nosso objetivo é inseri-los na fila de adoção e conseguir uma família para cada um”, disse Teixeira.

O jovem Marcos tem 18 anos, vive no abrigo desde os oito e também é soropositivo. “Antes de chegar aqui eu era maltratado em casa e, quando meus pais morreram, a família me trouxe pra cá. Quando eu era mais novo, tinha o sonho de conseguir ser adotado. Hoje não tenho mais esperanças de encontrar uma família, porque acho que será difícil me adaptar, a não ser que seja com uma família que eu já conheça. Meu objetivo agora é continuar meus estudos, fazer medicina e constituir minha família junto com meu irmão, que também mora aqui”, explica o jovem.

“Não entendo por que a burocracia para conseguir a liberação de uma adoção pra uma criança com HIV é tão difícil. Acho que, nesse caso, como as crianças precisam de tratamento, deveriam ter prioridade na fila de adoção. Afinal, além dos medicamentos, elas precisam do apoio e carinho de uma família”, finaliza Teixeira, fundador da Apav.

Segurança

A advogada Izabela Rucker Curi, especialista na área, faz críticas aos excessos da burocracia, mas defende que não se abra mão da segurança jurídica em troca da agilidade na adoção. Segundo ela, a quebra do poder de família (quando já se esgotaram as possiblidades de a criança voltar para a família original) é mesmo uma das partes mais complicadas do processo.

"Para que essa criança vá para uma nova, os vínculos legais com a família antiga têm de ser rompidos. Isso exige muita gente, muita observação, muito estudo jurídico e muitos papéis para documentação. Quando essa etapa fica pronta, quase não há mais tempo, dentro do prazo de dois anos, para que a criança possa conhecer uma nova família", afirma.

“Nossa legislação acerta quando dá valor à prevenção ao rompimento de laços familiares. Importante lembrar que ainda existem no Brasil casos de adoção de menores com a exclusiva intenção de alimentar o tráfico de órgãos, por falta de controle rígido e efetivo nos procedimentos de adoção”, afirma a advogada Izabela Rucker Curi.



segunda-feira, 30 de abril de 2012

Justiça condena casal a indenizar criança adotada e depois devolvida

Artigo publicado no Estadão do último dia 25 de abril, que mostra a que ponto o ser humano pode chegar, infelizmente. Ainda que passe longe de curar ou compensar o abandono sofrido pela criança, é muito bom que a Justiça puna pessoas irresponsáveis que levam a cabo maldades como essa:

Casal terá de pagar pensão para garoto adotado em MG

Adolescente foi devolvido à Instituição Missão Criança após dois anos; ele teria sido agredido e humilhado

Marcelo Portela

BELO HORIZONTE - Um casal de Uberlândia, em Minas Gerais, terá que pagar 15% do salário mínimo de pensão alimentícia, além de R$ 15 mil por danos morais, a um adolescente que foi adotado e, dois anos depois, devolvido à Instituição Missão Criança. Ele teria sido "rejeitado, agredido e humilhado" e "abandonado física, material e moralmente" pelos pais adotivos. A indenização terá de ser paga até o jovem completar 18 anos ou, caso esteja estudando, 24, segundo decisão do Tribunal de Justiça de Minas (TJ-MG). Não cabe mais recurso.

O garoto foi adotado em março de 1999, quando tinha quatro anos, junto com uma irmã. Em julho de 2001, porém, o menino foi devolvido à instituição. Inicialmente, o Judiciário aceitou que o menino voltasse temporariamente para a instituição, mas como forma de "melhorar o relacionamento familiar" devido à "convivência sofrível entre a criança e os pais adotivos". Em depoimento à Justiça, o garoto relatou que pedia para voltar à missão porque "era maltratado" e a mãe adotiva "o xingava, chamando-o de vagabundo e outras coisas".

O Ministério Público Estadual (MPE) entrou com ação contra os pais adotivos porque, para o promotor de Justiça Epaminondas Costa, o casal nunca justificou o motivo da "devolução". Inicialmente, os pais adotivos ainda fizeram visitas à criança. Depoimentos da psicóloga e da assistente social que acompanhavam os encontros - principalmente do pai e da irmã, pois a mãe comparecia menos ao local - mostraram que o menino ficava "extasiado" com as visitas, pois "se sentia valorizado".

Porém, de acordo com a relatora do caso no TJ-MG, desembargadora Teresa Cristina da Cunha Peixoto, ficou comprovado que as visitas, "além de terem sido escassas, impunham sempre mais angústia e humilhação". De acordo com o processo, ficou comprovado que o pai se referia ao garoto como "retardado, burro, moleque e acusava a criança de ter destruído seu casamento" e que em uma ocasião chegou a agredir o menino.

A desembargadora ressaltou que os pais adotivos também foram orientados a consultarem uma psicóloga, "mas eles se recusaram e mostraram desinteresse" e não compareceram a nenhum encontro. Em depoimento à Justiça, a professora Janice Alves Souza, de apoio à Missão Criança, acrescentou ainda que o menor foi "um objeto" nas mãos dos pais adotivos por ter sido "manipulado, rejeitado e agredido em todas as áreas da sua vida".

Diante do caso, Teresa Cristina entendeu que os pais adotivos devem indenizar o jovem por não terem "demonstrado um mínimo sequer de esforço no sentido de reaproximação" e de terem privado o menino "do convívio não só de seus pais, mas, primordialmente, de sua irmã com quem mantém laços afetivos" e que, por decisão da Justiça, não deveriam ser separados na adoção.

Para a magistrada, a forma como o jovem foi tratado "causou profunda dor moral ao adolescente, acarretando-lhe abalo psicológico que, certamente, não será apagado de sua vida", o que levou a desembargadora a manter sentença de primeira instância, da qual os pais haviam recorrido. O menor, hoje com 17 anos, continua vivendo em um abrigo. A reportagem tentou falar com o advogado dos pais adotivos, José Jehovah de Nazareth, mas ninguém atendeu o telefone em seu escritório.



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