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terça-feira, 13 de junho de 2017

Da Cracolândia à faculdade de Direito, passando pela Cristolândia


O título acima é um brevíssimo resumo da história contada pela BBC Brasil:

Como deixei a cracolândia e entrei na faculdade de Direito

Gabriela Di Bella e Gui Christ

"Acharam que eu estava derrotado, quem achou estava errado, eu voltei, tô aqui, se liga só, escuta aí."

É na forma de rap que Tiago Ideal Nogueira, de 35 anos, conta a história de sua sobrevivência a quatro anos na cracolândia, na região central de São Paulo.

O ex-"noia" - forma como os usuários de crack costumam ser chamados na cidade - atualmente é missionário, ajudando dependentes a deixarem a droga, produziu o seu primeiro CD de rap e, em 2016, foi o melhor aluno do curso na faculdade de Direito privada que frequenta na zona leste de São Paulo.

Ele lembra exatamente o momento em que decidiu mudar de vida.

"Entrei pela porta da Cristolândia (ONG que auxilia usuários do crack a deixarem a droga) no dia 8 de maio de 2012, às 15h30, após quatro anos vivendo no fluxo", diz Nogueira à BBC Brasil na praça Princesa Isabel, onde ele foi conversar com usuários da nova cracolândia que se formou no centro paulistano após a mais recente ação policial no local anterior, perto dali.

Agora, após dois anos de tratamento nas fazendas da ONG e um ano como missionário - ouvindo, ajudando no banho, servindo comida e convencendo usuários a aceitarem o tratamento -, ele quer trabalhar no setor público, mas com foco justamente em viciados.

"Meu sonho é ser defensor público", afirma.

Bolsista na faculdade graças a um acordo com a ONG, Nogueira tem notas altas em quase todas as disciplinas. "A matéria que mais gosto de estudar é Direito Civil, e tirei nove notas 10. Estou no segundo ano e luto para manter esse ritmo."

A coordenadora do curso, Eliana Berta Fernandes Corral, afirma que Tiago é destaque em meio aos 600 alunos de seu corpo discente.

"As notas dele são realmente acima da média, e ele sempre participa das aulas e das nossas atividades. Temos orgulho dele na faculdade."

Diálogo

Nascido na zona norte de São Paulo, Nogueira perdeu a mãe aos 12 anos e o irmão mais velho aos 15 - ambos tinham HIV. Sua avó morreu de câncer quando ele tinha 20 anos.

Ele vivia com o tio e diz que nunca lhe faltou nada em termos materiais. "Eu morava bem, trabalhava com meu tio e andava com carrão, bem vestido e perfumado", lembra.

Entretanto, o que mais faltava era diálogo, conta. "Não tive pai, nunca soube quem ele era, e sentia falta de uma orientação, de alguém com quem conversar. Meu tio me dava tudo, menos isso."

Nogueira começou a usar drogas na adolescência, quando saía à noite. "Comecei a usar cocaína na balada, (junto com) bebida. Para um adolescente, estava tudo legal", conta. Até que provou o crack.

"Ele (o crack) seguia sempre comigo. Eu trabalhava e ia para as baladas com ele junto, até o momento em que ele pede exclusividade. E, em 2009, eu fui morar nas ruas por causa disso."

Nessa mesma época começou a se envolver com a pichação, o que envolvia escalar prédios altos - "subi e pichei diversos prédios famosos de São Paulo".

Em 2010, caiu e quebrou vários ossos quando grafitava um edifício da avenida Brigadeiro Luís Antonio, na região central da cidade. Quase morreu. Apesar disso, não abandonou o gosto pela atividade - mas hoje faz grafites pedindo autorização dos donos dos muros.

Sonho

Foi um sonho com a avó que mudou sua vida.

"Um dia sonhei que tomava um refrigerante com a minha vó e conversei muito com ela. Acredito que ela me mandou uma mensagem. Na época, andava de muleta. Acordei, me olhei no espelho e percebi que tinha me tornado um farrapo humano. Estava muito magro, 'noia' e de muleta, tinha passado quatro dias fumando crack direto", lembra. Foi nesse momento que decidiu buscar ajuda na Cristolândia.

Nogueira diz que o período mais difícil foram os primeiros seis meses.

"O corpo pede a droga e você tem que lutar para se manter na abstinência. Tinha muito desejo de fumar, muita fome, e dormir era complicado."

Ainda assim, conta que não teve nenhuma recaída.

Ele se tornou evangélico dentro da Cristolândia. "No começo foi difícil. Eles falavam que Deus é bom, eu só pensava que havia perdido toda minha família - e isso era Deus sendo bom? Eu ficava revoltado", explica. Depois de 15 dias de tratamento, diz ter tido "um encontro com Deus". Hoje se considera um missionário.

Já o rap surgiu dentro das atividades de música durante o tratamento, e hoje ele o utiliza para transmitir apoio aos usuários de crack. Nogueira compõe e canta em igrejas e nos cultos da ONG e gravou um CD que se chama Divinamente Rap.

Também quer desenvolver, com ajuda de um amigo, um aplicativo para agilizar a busca de vagas para tratamento de dependentes químicos, organização da internação e sistemas de logística da ONG que o resgatou.

Abordagens

Nogueira vê com ceticismo a operação policial realizada pelo governo na cracolândia.

"Sabemos que há interesse imobiliário em revitalizar a área, mas é preciso cuidar das pessoas. Só agir com autoritarismo não resolve. Assim, a cracolândia nunca vai deixar de existir", opina.

Ele se queixa de ter sido abordado "a vida inteira" por policiais e ter sido tratado como "negão e bandido".

Em uma viagem recente à praia, foi parado por um policial e retrucou: "Olha o constrangimento que o senhor está me fazendo eu passar. Eu sou missionário, eu dou banho em noia, eu faço aquilo que o senhor não faz".

Sobre a vida na cracolândia, recorda que cada dia era "uma guerra".

"Você levanta de manhã, começa a batalha. Onde você vai comer, e como vai conseguir dinheiro. É impossível não entrar no esquema, você é obrigado a aprender as táticas - sempre ter um cigarro ou uma cachaça na mão para vender."

Do ponto de vista das estatísticas, Nogueira é um sobrevivente: segundo pesquisa da Unifesp, 30% dos usuários de crack morrem antes de cinco anos de consumo da droga. Ele credita sua sobrevivência ao medo "de levar facada", que o fazia evitar dormir na rua - pagava por uma cama nos albergues baratos da região.

Hoje, diz que sua maior luta é contra si mesmo.

"Nunca posso achar que estou bem, sempre estou em progresso. Ajudar as pessoas me faz bem, porque todos os dias me deparo com a realidade que vivi."



sábado, 21 de janeiro de 2017

Temer nomeia pastor batista para presidência da FUNAI


A informação é do portal Amazônia Real:

Governo Temer nomeia pastor a presidente da Funai e inclui um general do Exército na equipe, ambos do PSC

Elaíze Farias
12/01/2017 20:56

A indicação do pastor Antônio Toninho Costa (de blusa branca) ocorre em meio a exigência do governo para acelerar obras do PAC paralisadas por causa de demarcação de terras (Foto: Reprodução Youtube)

O Ministério da Justiça anunciou nesta quinta-feira (12) a nomeação do dentista, assessor parlamentar e pastor evangélico Antônio Fernandes Toninho Costa para presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), cargo que estava sendo ocupado interinamente há sete meses após a exoneração do ex-senador João Pedro Gonçalves (PT). O nome do pastor Antônio, como é conhecido na Primeira Igreja Batista no Guará, em Luziânia, em Goiás, é uma indicação do Partido Social Cristão (PSC).

Em um rápido contato com agência Amazônia Real, o pastor Antônio Toninho Costa disse que tinha “25 anos de militância nas políticas indígenas” e destacou ser especialista em Saúde Indigenista. Disse ainda que daria entrevista após a publicação de sua nomeação no Diário Oficial da União (DOU).

O Ministério da Justiça disse que a nomeação de Antônio Toninho Costa, que já atuou na questão indígena pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, será publicada nesta sexta-feira (13) no DOU. Atualmente, ele trabalhava como assessor parlamentar do PSC na Câmara dos Deputados.

O nome de Antônio Toninho Costa foi anunciado pelo Ministério da Justiça menos de 24 horas após o presidente da República Michel Temer exigir do ministro Alexandre de Moraes que resolvesse a questão da Funai durante a reunião que discutiu a retomada do crescimento econômico nesta quarta-feira (11), em Brasília. Na reunião, Temer foi comunicado que haviam obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) inacabadas ou paralisadas por causa da demarcação de terras indígenas. Segundo a Globonews, nesta ocasião, Temer foi avisado que a Funai não tinha um presidente efetivo.

Tudo indica que o governo do presidente Temer escolheu o nome do pastor Antônio Toninho Costa por ser, aparentemente, mais técnico, já que a intenção sempre foi colocar um general do Exército na presidência da Funai, como queria o PSC. Ainda assim, um militar foi nomeado para um outro cargo da Funai. O Diário Oficial desta quinta-feira (12) publicou a nomeação pelo ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República, Eliseu Padilha, do general do Exército Franklimberg Rodrigues de Freitas para o cargo de Diretor de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável da Funai.

O general Franklimberg, que é assessor do Comando Militar da Amazônia, em Manaus, foi indicado, em agosto passado, para ser presidente da fundação pelo PSC, partido presidido pelo Pastor Everaldo Nascimento, que defende as bancadas ruralista e evangélica.

Desde a entrada de Temer no Planalto, o PSC lidera um movimento com indicações de militares para a Funai. Antes, o partido indicou o general Sebastião Roberto Peternelli, mas o governo acabou desistindo depois da reação do Movimento Nacional Indígena e de organizações que defendem os direitos indígenas e os direitos humanos. Lideranças indígenas também rejeitaram o nome do general Franklimberg.

Na Funai, o general Franklimberg vai ocupar o cargo no lugar de Antônio Nobre Mendes, funcionário de carreira e que foi exonerado pelo ministro Eliseu Padilha da Diretoria Promoção ao Desenvolvimento Sustentável. Entre os meses e junho a setembro, Nobre ocupou interinamente a presidência da fundação. Ele foi afastado da presidência, por decisão do ministro Alexandre de Moraes, após repudiar, em nota oficial da Funai, a organização dos Jogos Paraolímpicos Rio 2016 por promover ofensas aos povos indígenas do Brasil. No lugar de Nobre, assumiu a Funai o interino Agostinho do Nascimento Netto, assessor especial do Ministério da Justiça.

Em declaração à reportagem da Amazônia Real, o general Franklimberg Ribeiro de Freitas disse que vai viajar para Brasília (ele não disse a data) para saber os procedimentos de sua posse no cargo.

A mudança no comando da Funai acontece em meio aos protestos que ocorrem desde o ano passado contra propostas do governo do presidente Michel Temer de alterar o processo de demarcação de terras indígenas e reestruturar a fundação. Na reestruturação, o governo prevê, conforme apurou a reportagem, um novo arranjo na fundação, que inclui uma eventual transferência do Departamento de Proteção Territorial, responsável pelo sistema de demarcação das terras indígenas, para a Casa Civil, hoje chefiada pelo ministro Eliseu Padilha.

Conforme o Ministério da Justiça, Antônio Fernandes Toninho Costa é graduado em Odontologia pela Universidade Federal de Alfenas (1995), com especialização em Saúde Indígena pela Universidade Federal de São Paulo (2010). Entre os anos de 2010 e 2012, foi coordenador-geral de Monitoramento e Avaliação da Saúde Indígena na Secretaria Especial de Saúde Indígena.

Desde maio de 2016, Antônio Toninho Costa era assessor parlamentar pelo PSC na Câmara dos Deputados, trabalhando como assistente técnico da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência, presidida pelo deputado Victório Galli (PSC/MT). Também foi assessor técnico na Comissão de Legislação Participativa da Câmara (2015) e na Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da Câmara (2014).

Costa atuou como Consultor da Organização Pan-americana para Saúde Indígena (2009) e do Departamento de Saúde Indígena da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (2002/2005). Entre 2005 e 2009, trabalhou na ONG Missão Evangélica Caiuá, na saúde indígena.

Conforme apurou a agência Amazônia Real, como pastor evangélico, Antônio Toninho Costa é dirigente da Primeira Igreja Batista no Guará em Jardim Bandeirante, no município de Luziânia, em Goiás, fundada em 2006. A igreja é uma congregação da PIBGuará, que foi fundada em 1963, em Brasília. Hoje tem membros nos municípios de Benjamin Constante, no Amazonas, e em Islândia, no Peru. A PIB trabalha com a Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista Brasileira, criada em 1907.

Repercussão entre indígenas

A nomeação do pastor Antônio Toninho Costa surpreendeu o Movimento Indígena Nacional. Estava sendo cotado para assumir o cargo de presidente da Funai o indígena Sebastião Manchineri, filiado ao DEM do Acre. Foi indicado também Noel Villas-Bôas, advogado do PSDB de São Paulo, filho do sertanista Orlando Villas-Bôas.

Nos últimos meses, Sebastião Manchineri recebeu apoio de várias organizações indígenas do país, que divulgaram notas em favor de sua nomeação, entre elas a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Em grupos de Whatsapp, lideranças se mostraram céticas em relação à nova gestão da Funai e já falam em intensificar as mobilizações.

Procurado pela reportagem, Sebastião Manchineri se mostrou frustrado com a decisão do governo de Michel Temer, apesar de todas as articulações que vinha realizando em Brasília e do apoio das lideranças indígenas, mas disse que não desistiu.

“Se vão nomear (Antônio Toninho Costa), não vamos desistir de tirar o que é nosso. Assim como eles acham que têm direito de impor, para nos intimidar, evangelizar, diminuir, oprimir, nós temos o direito à liberdade e a dignidade de defender a nossa autenticidade, princípios, valores e continuidade. Se é um jogo, vamos jogar. Se é para ser feito assim, vamos fazer”, disse Sabá.

Manchineri afirmou que nasceu com a missão de “lutar e buscar e defender aquilo que seja humano e digno” e que não vai apoiar “a exploração em detrimento da vontade e do interesse dos exploradores e das pessoas que vivem da miséria dos outros”.

Em entrevista à Amazônia Real, Nara Baré, vice-coordenadora da Coiab, afirmou que a decisão do governo confirma o retrocesso denunciado pelos indígenas nos últimos meses. Para ela, a governo Temer está tentando usar a Funai como manobra contra os próprios indígenas.

“Não vamos permitir que nosso próprio órgão indigenista, que existe para proteger e promover nossos direitos, venha contra nós”, disse Nara Baré.

Marcos Apurinã, representante dos povos indígenas de Rondônia no Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI), comentou a nomeação de Franklimberg Rodrigues de Freitas no cargo de diretor de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável.

“Conversamos com ele anteriormente e me pareceu despreparado. Ele nos disse que só assumiria um cargo na Funai se fosse como presidente. É estranho que agora ele tenha aceitado uma diretoria. O que me parece é que ele assumiu para complicar a vida dos povos indígenas”, disse Apurinã.

Segundo a liderança, no cargo de Diretor de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável, Franklimberg Ribeiro de Freitas terá poder de autorizar licenciamentos sobre grandes obras, como hidrelétricas e rodovias. Para Apurinã, somente alguém comprometido com os povos indígenas, como o caso de Sebastião Manchineri, poderia barrar qualquer decisão contrária ao direito dos indígenas.

“Colocaram uma pessoa que pode prejudicar nossos direitos, nosso acesso aos recursos e a nossa sustentabilidade. Está entrando para complicar a Funai nesse setor, para que pessoas de fora, não indígenas, tenham acesso aos recursos das terras indígenas. Pode prejudicar a situação das comunidades. Não queremos nem paternalismo, nem ditadura. Queremos acesso à sustentabilidade”, disse Apurinã.

Promessa de manifestações

Nara Baré disse que o movimento indígena não está quieto e vai responder e reagir a qualquer tentativa de ataque aos seus direitos.

“Ano passado fizemos mobilizações. O Ocupa Funai. O Ocupa Sesai. Vamos lutar sempre. A gente não está para brincadeira. Se conversando não está resolvendo, vamos partir para ações mais concretas. Estamos sempre de prontidão. Quando menos esperarem, a gente ataca, vamos partir para a guerra. O governo não sabe do que somos capazes. Deixo minha casa, enfrento aqueles ‘Robocops’ de Brasília, levo bala de borracha. É pelas futuras gerações que faço isso, pelos meus filhos e minha terra”, disse Nara Baré, indígena da região do Alto Rio Negro (AM).

Para Nara Baré, Sebastião Manchineri não foi escolhido porque ele não “baixaria a cabeça” aos interesses anti-indígenas. “Eles [governo] não querem uma Funai fortalecida, mas uma Funai marionete dos interesses contrários aos nossos”.

(Colaborou Alberto César Araújo, da Amazônia Real)



quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Quando o bispo Sardinha virou flauta


Bom, essa é só uma remotíssima hipótese levantada pelo brilhante artigo abaixo, de Luisa Tombini Wittmann, que mostra como a música foi decisiva na evangelização dos indígenas brasileiros, matéria publicada na Revista de História:

Apelo gospel

Jesuítas usaram a música para propagar o Evangelho e doutrinar índios.

Luisa Tombini Wittmann

No meio da selva tropical, padres de batinas longas e pretas, com a cruz no pescoço, ensinaram índios nus e pintados a rezar o Pai-Nosso. E a música foi uma grande aliada nessa tarefa religiosa: os nativos pediram bis ao ouvir o canto de uma procissão católica, e os próprios jesuítas acabaram tocando música indígena, conforme os relatos dos missionários que desembarcaram no Brasil em 1549. Não seria tarefa simples a aproximação entre pessoas tão diferentes, mas já nos primeiros dias do contato surgiram pistas de como a música poderia ajudar no diálogo entre os jesuítas e os nativos.

Na época em que navios aproximavam culturas que até então não se conheciam, os seguidores de Inácio de Loyola (1491-1556), membros da Companhia de Jesus, ficaram incumbidos de disseminar a palavra de Cristo entre povos tão distintos como índios e indianos. A crise religiosa europeia forçava a monarquia portuguesa a fazer propaganda do catolicismo, que estava abalado pela Reforma Protestante. Na costa do Brasil, a mensagem cristã ecoou por meio da música, o que é intrigante, porque os jesuítas não costumavam cantar e tocar em suas celebrações litúrgicas, seguindo as regras da Companhia de Jesus. Loyola temia que seus discípulos fossem desviados da principal vocação, que era a atividade missionária. Mas os jesuítas em missão percebiam a cada dia que a música, muito estimada pelos índios, poderia ser um elemento facilitador da evangelização, e a incluíram até mesmo nas missas que celebravam. Considerada linguagem universal, essa arte era perfeita para facilitar a comunicação.

Manuel da Nóbrega (1517-1570) acreditava que deveria contar com a presença de um grupo de músicos para garantir o sucesso das expedições de catequização. Dizia-se que os índios permitiriam a entrada de inimigos em suas aldeias, e até poupariam da morte os guerreiros capturados, caso soubessem cantar e tocar. A postura de Nóbrega o motivou a delegar a um músico, Antônio Rodrigues (1516-1568), o importante cargo de primeiro mestre-escola de São Paulo. O cantor e flautista foi também responsável pela nobre tarefa de ensinar os filhos dos índios a ler, a escrever e a cantar nas capitanias do Rio de Janeiro e da Bahia. Os jesuítas chegaram a solicitar o envio de instrumentos e músicos de Portugal, tamanho era o fascínio que os ameríndios demonstravam pelas canções europeias.

Muitas das narrativas jesuíticas enaltecem a missão ao relatar casos de índios que tocavam e cantavam músicas sacras. Há, porém, indícios de outras manifestações sonoras nas aldeias, inclusive de jesuítas cantando ao modo indígena. Dias após sua chegada, o padre Juan de Azpilcueta Navarro (1521-1557) ensinava o Pai-Nosso conforme os cantos dos índios. Acreditava que, desta forma, além de o aprendizado ser mais rápido, a principal oração do cristianismo cairia no gosto local. Ao visitar aldeias de índios gentios (não cristianizados), os jesuítas costumavam entrar cantando música religiosa europeia, ritual indígena ou novos sons resultantes do contato. Tudo isso prova que a mistura cultural com os índios foi longe, levando inclusive os meninos portugueses a cortar o cabelo igual ao dos curumins.

Padres e meninos órfãos, vindos de Lisboa para auxiliar na catequização das crianças indígenas, participaram de festas gentílicas dançando e tocando ao som do maracá, instrumento sagrado que emitia som similar às cascavéis trazidas pelos europeus para escambo com os nativos. Ambos são uma espécie de chocalho, cujas esferas ocas têm pedrinhas no interior que produzem som por meio da percussão, sendo a cabaça natural do maracá sustentada por um pedaço de pau e decorada com penas, grafismos e às vezes feições humanas. Porém, algo mais uniu cascavéis e maracás: as viagens pelos mares oceânicos. Instrumentos indígenas também fizeram a travessia do Atlântico, levados por índios que deixaram suas aldeias na América para conhecer a Europa. Em Paris e Rouen, espetáculos de índios com seus maracás divertiram a nobreza, o clero e a população francesa em 1550 e 1613, períodos em que estabeleciam projetos comerciais e colonizadores nos atuais estados do Rio de Janeiro e do Maranhão.

Mas a troca musical nas aldeias coloniais não se deu sem percalços. O primeiro bispo do Brasil, Pero Fernandes Sardinha (1496-1556), alertou: viemos para catequizar o gentio, e não o contrário. Manuel da Nóbrega travou com ele uma acirrada batalha de palavras, iniciada em correspondência enviada a Lisboa em 1552 para o padre Simão Rodrigues (1510-1579), um dos fundadores da Companhia. Sardinha viu e ouviu europeus cantando em louvor a Deus, mas ao modo gentílico. Relatou, indignado, que tocavam instrumentos musicais usados pelos índios em rituais antropofágicos. O bispo afirmou que assim os evangelizadores poriam a perder seu árduo trabalho, pois alimentavam nos nativos a ideia de que os costumes indígenas eram verdadeiramente bons.

A resposta de Nóbrega não tardou: ele se justificou em carta ao mesmo destinatário. Escreveu que, ao cantar na língua, no tom e com os instrumentos musicais locais, atraía o coração dos índios. Certa vez, Nóbrega afirmou que seria por meio da música que se conquistariam todos os índios da América. Mas Sardinha discordava. Para ele, as atitudes dos jesuítas e as manifestações indígenas que compartilhavam eram inadmissíveis e inaudíveis. O destino interrompeu a contenda poucos anos depois, quando o navio que levava o bispo à metrópole naufragou na costa do atual estado de Alagoas e os tripulantes foram devorados pela população indígena local. Sabe-se que os ossos de alguns inimigos mortos pelos índios se transformaram em utensílios domésticos, ou até mesmo em instrumentos musicais. Podemos cogitar, e não seria de todo fantasia, que os ossos do grande opositor da música nas aldeias tenham virado, por ironia do destino, flauta indígena.

A experiência cotidiana nas aldeias exigia que os jesuítas adaptassem regras, fizessem concessões e até mesmo expressassem costumes dos índios, pelo menos aqueles que não eram vistos como ritos idólatras ou ofensivos à religião católica. Ao contrário da poligamia e da antropofagia, a música indígena foi até incentivada. Dos males, o menor, pensavam os religiosos. Um século após o contato entre os primeiros jesuítas com os tupis, Antônio Vieira (1608-1697) seguia na Amazônia os caminhos de Manuel da Nóbrega. O ilustre jesuíta foi um defensor da música nas atividades missionárias, e em seus escritos descreveu festas que conjugavam costumes nativos e europeus, inclusive musicais. Em carta de 1654, declarou com uma clareza impressionante que não se deve proibir os índios de cantar e se alegrar. Afinal, não seria perspicaz aborrecer aqueles que se pretende conquistar.

Os índios tinham uma capacidade única de abertura para o outro, e uma necessidade de absorvê-lo de maneira antropofágica, literal e metaforicamente. O contato com o diferente os transformava, sem que isso implicasse uma recusa de si mesmos. Para eles, aprender música católica não significava um desprezo pela sua musicalidade ou sua cultura. O desejo de expressá-la e aprendê-la fez com que os missionários a utilizassem com o propósito de se aproximar cada vez mais daqueles que queriam catequizar. E isso foi feito via sonoridades europeias e indígenas, gerando mesclas musicais.Para entender esta história, deve-se perceber a catequese como consequência do contato, e não como um projeto prévio, imutável e bem-sucedido. A música nas missões revela muito mais do que um estratagema jesuítico, pois se trata de uma história de relações entre diferentes universos, em que todos foram protagonistas. As estratégias de evangelização não foram totalmente elaboradas na Europa, mas também moldadas no cotidiano compartilhado das aldeias.

Nos primeiros anos da presença dos jesuítas em terras indígenas, Nóbrega anunciou que buscaria todos os meios para atrair os índios. Não há dúvida de que a música logo se revelou uma via indispensável no diálogo entre culturas. E ecoou por séculos pelas aldeias do Novo Mundo. Para além do célebre verso modernista de Mário de Andrade, “sou um tupi tangendo um alaúde!”, temos também aqui uma imagem inversa, mas nem por isso oposta: o jesuíta que toca o maracá. Instrumentos passam de mão em mão, trocados e tocados no encontro entre sujeitos tão distintos como um guerreiro tupi e um evangelizador jesuíta.

Luisa Tombini Wittmann é historiadora e autora do livro O vapor e o botoque: imigrantes alemães e índios Xokleng no Vale do Itajaí/SC (1850-1926) (Letras Contemporâneas, 2007).

Saiba Mais - Bibliografia

CUNHA, Manuela Carneiro da (org.) História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

LEITE, Serafim. Cartas dos primeiros jesuítas do Brasil. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1954.

POMPA, Cristina. Religião como tradução: missionários, Tupi e Tapuia no Brasil colonial. Bauru: Edusc, 2003.

Saiba Mais - Internet

“Os índios na história do Brasil”, de John Monteiro.


Na gravura aquarelada de Keller Leuzinger, de meados do século XIX, o interior de uma igreja no atual Amazonas. Os jesuítas perceberam a importância da música no processo de integração cultural.(Fundação Biblioteca Nacional)




Ao ler o artigo acima, é inevitável relembrar o espetacular filme "A Missão" ("The Mission", 1986), dirigido por Roland Joffé, com o elenco estelar que incluía Robert de Niro, Jeremy Irons, Liam Neeson e Aidan Quinn numa das maiores obras-primas que o cinema já produziu e que reproduziu os conflitos que os jesuítas tiveram no Brasil não só com os índios, mas principalmente com a Coroa portuguesa.

Primeiro, a cena em que o padre Gabriel (interpretado por Jeremy Irons) toca oboé para fazer contato pacífico com os aborígenes:


Segundo, o trailer do filme com legendas em português:


Terceiro, a cena que precede a destruição da missão pelos portugueses, com o coral dos guaranis cantando "Ave Maria" em latim:


Se você ainda não teve oportunidade de ver esse filme, não faz ideia do privilegio que está perdendo.




terça-feira, 2 de outubro de 2012

TV australiana julgada culpada por documentário sobre índios brasileiros


No último mês de março noticiamos aqui que a JOCUM (Jovens com uma Missão) havia sido acusada de mentir sobre os casos de infanticídio de uma tribo amazônica, os suruwaha, em documentário exibido pela TV australiana.

Chega agora a notícia - via Survival - de que o órgão regulador da imprensa na Austrália considerou racista o documentário em questão:

Culpados: Channel 7 da Austrália é censurado por programa ‘racista’ sobre infanticídio

O canal de televisão, Channel 7, da Austrália, foi declarado culpado pelo regulador da imprensa por umas sérias violações do código de comunicação, após terem exibido uma emissão tão extrema, que foi classificada como um ‘Show de Horrores na TV’ pela Survival International.

O programa classificou a tribo brasileira dos Suruwaha como assassinos de crianças; relíquias da ‘Idade da Pedra’; e ‘alguns dos piores violadores dos direitos humanos no mundo’.

A Survival reclamou ao regulador australiano ACMA, depois que o Channel 7 recusou-se a publicar uma correção à emissão, que foi ao ar no programa Sunday Night.

Em um julgamento histórico, a ACMA declarou que o Channel 7 é culpado pela quebra da sua cláusula de racismo – ‘provocar um intenso desgosto, sério desprezo ou severo ridículo de uma pessoa ou um grupo’. Acredita-se que isto é a primeira vez em que uma emissora foi declarada culpada por esta ofensa séria sob o código de televisão de 2010. A ACMA também declarou que o Channel 7 é culpado por emitir material impreciso.

O diretor da Survival International, Stephen Corry, disse hoje, ‘Essa foi uma das piores matérias sobre povos indígenas contemporâneos que já vimos. Fantasiaram-nos como monstros cruéis e inumanos, no mesmo desprezo colonialista do século XIX que os considerava como ‘selvagens primitivos’.

‘O que piora ainda mais essa situação, é que os Suruwaha têm sido atacados por missionários fundamentalistas há anos; eles estão liderando uma campanha que os calunia como assassinos de crianças. Os missionários estão por trás de um projeto de lei que os permitiria remover crianças indígenas de suas comunidades, algo com ecos horripilantes do escândalo das Gerações Roubadas.

‘A equipe do Channel 7 disse aos Suruwaha que lhes permitiria mostrar o seu lado da história – contudo, acabaram produzindo uma das definições mais grotescas e distorcidas de um povo indígena que podemos nos lembrar. O programa, inclusive, promoveu abertamente uma arrecadação de recursos para os missionários em seu website. Nós esperamos que esta decisão signifique que veremos menos lixo como esse na televisão no futuro.’

O Channel 7 está buscando uma revisão judicial na Corte Federal da Austrália.

Nota aos editores:

1. A Survival escreveu uma série de princípios éticos para ajudar produtores de filmes a trabalhar de forma responsável com tribos. Promovemos também a nossa campanha Stamp it Out, desafiando representações racistas na mídia.

2. Previamente, a Survival destacou como a companhia britânica de televisão, Cicada Films, foi acusada de ter colocado em risco a vida de índios peruanos por terem, alegadamente, provocado uma epidemia de gripe entre eles; e como uma série de TV sobre uma tribo da Amazônia foi rotulada por especialistas como ‘encenada, falsa, fabricada e distorcida’.

3. Formas de infanticídio são encontradas em todas as sociedades, inclusive nas industrializadas. A prática é rara e está desaparecendo entre os índios amazônicos. A Survival se opõe a práticas não consensuais que machucam ou matam pessoas. Isso inclui o infanticídio.

4. Faça o download do arquivo da Survival sobre a proposta ‘lei Muwaji’ (pdf). Tal projeto de lei é o resultado de uma campanha no Brasil por missionários fundamentalistas da organização JOCUM. JOCUM é o ramo brasileiro da organização estadunidense Jovens com uma Missão.

5. Faça o download do arquivo sobre o que os especialistas e os indígenas afirmam sobre as alegações de infanticídio por parte da JOCUM (pdf, 58 KB).

6. Faça o download da carta da Survival para o Channel 7 (pdf, 201 KB).

7. Faça o download das declarações dos índios Suruwaha sobre a matéria do Channel 7 (pdf, 33 KB).

8. Faça o download do material da Survival sobre a tribo Suruwaha (pdf, 34 KB).



quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Cristo e Confúcio na China: uma relação turbulenta


Excelente material histórico sobre a história do cristianismo na China, publicado no IHU:

O Evangelho e Confúcio: o encontro que não ocorreu

A Companhia fundada em 1534 por Inácio de Loyola se aliou à Coroa portuguesa na Índia. Eram experiências arriscadas: por causa de doenças e de outros perigos, o índice de mortalidade dos religiosos durante as longas viagens por mar chegava a 15%. Pelos caminhos da China, a reviravolta decisiva aconteceu em 1595, quando um clérigo de Marche, Itália, começou a assumir os hábitos e a vestir as roupas típicas dos pertencentes à elite chinesa. Mas a herança de Matteo Ricci se dispersou.

A análise é do jornalista e escritor italiano Paolo Mieli, publicada no jornal Corriere della Sera, 24-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A obra foi extraordinária, foi quase incrível e bastaria por si só para testemunhar o papel que teve na história a Companhia de Jesus, fundada em 1534 por Inácio de Loyola, dentre muitas complicações, bem descritas em um importante livro de Guido Mongini, Ad Christi similitudinem. Ignazio di Loyola e i primi gesuiti tra eresia e ortodossia, publicado pela editora Dell'Orso, que refere como o fundador da Companhia foi processado pela Inquisição oito vezes na Espanha, na França e na Itália.

No entanto, no fim, a Companhia de Jesus foi aprovada em 1540 pelo Papa Paulo III, nascido Alessandro Farnese. E, dentro de poucas décadas, essa estrutura foi capaz de "oferecer" à Igreja personalidades que mudariam radicalmente o seu rosto. Personalidades católicas que guiariam o mundo para a modernidade.

E eis-nos na obra. O homem que foi seu protagonista, Matteo Ricci, nascera em Macerata, em 1552. Ele enviado pelo pai, farmacêutico, a Roma, em 1568, para que se inscrevesse na universidade, estudasse Direito e de lá alçasse voo para uma brilhante e rentável carreira. Matteo, porém, desiludiu o pai e, no dia 15 de agosto de 1571, às vésperas de completar 19 anos, se apresentou ao noviciado dos jesuítas no monte Quirinal para pedir para ser admitido na Companhia.

Mas era só um primeiro passo. Na época, sob o patrocínio dos reis e dos vice-reis portugueses, os jesuítas – nos passos de Paolo da Camerino, Antonio Criminali, Niccolò Lancellotti e posteriormente Alessandro Valignano, os primeiros a serem enviados em missão a Goa e à costa de Malabar – já haviam se tornado a mais poderosa arma espiritual da presença lusitana na Índia, onde haviam fundado seis colégios e 16 residências menores.

Em 1577, Ricci deu o passo sucessivo e decidiu partir, via Lisboa, à Índia. Ele tinha 24 anos. E era só o início de uma aventura que o levaria a Pequim, até mesmo ao coração da Cidade Proibida.

Por isso, Un gesuita nella città proibita (420 páginas) é o título do livro escrito por Ronnie Po-chia Hsia, historiador chinês (mas que leciona na Universidade da Pensilvânia, EUA), já muito conhecido por um excelente estudo sobre a Contrarreforma. O seu ensaio, publicado pela editora Mulino, tem o valor de ser construído sobre um exame muito cuidadoso da rica e complexa documentação de parte chinesa sobre toda a história.

Mas voltemos ao nosso personagem. A Lisboa a que Ricci chegou em 1577 era, com os seus 100 mil habitantes, uma das maiores cidades europeias, superada apenas por metrópoles como Paris e Istambul, apesar de Portugal, com o seu milhão e meio de habitantes (contra os 14 milhões, por exemplo, da França) ser um dos países menos povoados da Europa.

Sentava-se no trono Sebastião, neto por parte de mãe (Catarina) do imperador Carlos V, de Habsburgo, e primo de Filipe II, da Espanha. Sebastião foi galvanizado pela vitória de Lepanto (1571), em que os navios espanhóis, venezianos e pontifícios derrotaram a frota otomana. Ele olhava para longe e por isso encorajava a missão dos jesuítas na Índia e, depois depois da partida de Ricci (23 de março de 1578), colocou-se à frente de um exército de 15 mil homens para uma viagem ao Marrocos, onde encontraria a morte prematura, quatro meses depois, na ardente derrota de Alcácer-Quibir.

Mas, na época de Alcácer-Quibir, os nossos jesuítas já haviam embarcado em três veleiros dirigidos para a Índia. Em uma viagem em que, às insídias dos mares, acrescentavam-se as doença (o índice de mortalidade dos religiosos ao longo desse tipo de trajeto era de 15%) e de outros riscos.

Em 1570, lembra o estudioso, uma embarcação portuguesa proveniente do Brasil havia sido interceptada por piratas franceses (huguenotes): tendo chegado ao veleiro, os franceses o haviam tomado de assalto e saqueado. Depois, tendo encontrado entre os passageiros Ignacio de Azevedo, superior da missão jesuíta no Brasil, juntamente com um grupo de missionários noviços, os huguenotes haviam poupado a tripulação portuguesa, mas haviam jogado na água os 40 jesuítas, que se tornaram desde então mártires da Companhia.

Caráter religioso das navegações

Os seguidores de Santo Inácio davam um caráter muito religioso para a sua navegação: de manhã, "dedicavam uma hora às orações e, uma vez por semana, à confissão"; depois, faziam a ronda do navio visitando os doentes "para levá-los consolo espiritual e físico"; recitavam regularmente as ladainhas, "frequentemente muitas vezes por dia" e, "de noite, lideravam a tripulação no canto dos hinos e nas orações para evitar as rixas".

Naqueles dias, para propiciar os ventos (mas provavelmente fariam o mesmo de qualquer forma), "guiaram uma procissão da popa à proa e depois de novo à popa, na qual foram expostas as relíquias destinadas à sua igreja em Goa": "a cabeça de Santa Gerasina, companheira de Santa Úrsula, consoladora das 11 mil virgens mártires de Colônia" e a de São Bonifácio mártir.

No fim de maio, em cada um dos veleiros, "foram organizadas, para celebrar o Corpus Domini, procissões acompanhadas por música e pela ostensão das relíquias". Orações e atos de devoção coincidiram – embora seja árduo estabelecer uma relação de causa e efeito entre as duas coisas – com a chegada dos ventos do oeste, que favoreceram a navegação para o Cabo da Boa Esperança.

Foram necessários seis meses para chegar a Goa. Lá, os convertidos constituíam a maioria da população. "E isso explica a importância da cristianização como uma das fontes essenciais para a manutenção do colonialismo lusitano", escreve Po-chia Hsia: "Substancialmente, os portugueses (incluindo o clero) consideravam o pertencimento à cristandade como sinônimo do ser português, também com relação ao que concernia à língua falada, o modo de vestir, os alimentos e a fé".

Em Goa, Ricci se destacou, porque começou a fazer parte da minoria que lutava contra a discriminação racial e, de fato, contra a entrada dos indianos na Companhia. E, naquele lugar, permaneceu três anos.

Ainda mais importante foi a passagem posterior, quando o nosso jesuíta se transferiu para Macau, na costa chinesa. Aqui, os portugueses (cerca de 800) eram apreciados, porque, por causa da proibição de relações comerciais entre China e Japão, serviam como intermediários indispensáveis entre os dois países., também em virtude do fato de que – diferentemente dos emissários ingleses e espanhóis – eles haviam aceitado todos os rituais de submissão, como o de se ajoelharem na presença dos mandarins e de inclinar a cabeça até tocar o chão.

Em 1575, o Papa Gregório XIII havia promovido Macau a diocese (com jurisdição sobre a China, Japão e Coreia) e a havia confiado ao bispo Belchior Carneiro, ele também jesuíta. Mas os religiosos da Companhia daquele pedacinho de terra eram apenas cinco. E estavam achinesados.

Em um curto espaço de tempo, Matteo Ricci se fez, ele mesmo, por assim dizer, chinês. O espanhol Alonso Sánchez, um dos seus companheiros na missão na China, assim o retratou: "Ele é semelhante em tudo e para tudo aos chineses e parece um deles pela beleza do engenho, pela delicadeza, gentileza, suavidade e, especialmente, pela grande inteligência e memória, todos dotes que eles levam em grande consideração; de fato, além de ser um ótimo teólogo e astrônomo, o que eles apreciam muito, ele aprendeu em brevíssimo tempo a sua língua e também muitos caracteres a ponto de ser capaz de falar com os mandarins sem necessidade de um intérprete, um fato que eles apreciam e admiram enormemente".

Daí, vestidos, sem barba e com cabelos ao estilo dos monges budistas, ele e Michele Ruggieri se transferiram para Zaoqing, onde foram tomados sob a proteção de uma das máximas autoridades do lugar: Wang Pan. Wang Pan desejava um herdeiro do sexo masculino e, quando o teve, considerou que era mérito de Ricci e do seu companheiro. A Ruggieri, que, segundo o autor, "foi com efeito o fundador da missão jesuíta na China", foi concedido que traduzisse o catecismo ao chinês, adaptando-a ao público ao qual se destinava.

O primeiro batismo foi administrado a um pobre encontrado pela rua e a ponto de morrer. Os posteriores, no entanto, foram para os autênticos convertidos. Mas nem tudo correu bem: nesse período, Ricci estava "angustiado pela latente (senão declarada) hostilidade da população local". Encontrou-se "muito mais confortável na companhia das elites intelectuais às quais era mais afim". Logo ficou claro que o destino dele e de Ruggieri "dependiam da benevolência dos mandarins".

Depois, em 1588, Ruggieri voltou a Macau, e depois a Lisboa e a Roma, para invocar o envio de uma embaixada papal junto à corte Ming, e Ricci ficou sozinho. Depois, foi acompanhado pelo jovem jesuíta Antonio Almeida e sucessivamente por Francesco de Petris. Mas, dentro de um par de anos (1589-1591), ambos morreram.

Reviravolta confuciana

Foi-lhe mandado, então, Lazzaro Cattaneo, e, com ele, Ricci realizou a "reviravolta confuciana": em 1595, ele decidiu deixar as vestes budistas para vestir longos hábitos de seda e o chapéu de quatro pontas, típico dos eruditos confucianos. A meta, depois de uma longa série de peregrinações em terra chinesa, era, nesse ponto, Pequim. Mas ele teria que esperar até 1600, quando obteve a permissão para entrar na cidade (que ele já havia visitado em 1598), apesar da hostilidade do eunuco Ma Tang.

Enquanto isso, no entanto, ele havia conquistado os literatos de Nanchang (onde permanecera por três anos), que estavam "maravilhados com a sua habilidade em citar passagens inteiras dos clássicos confucianos e ficavam sem palavras quando ele mostrava saber recitar até ao contrário qualquer trecho que lhe era submetido".

"Quanto mais Ricci se comportava como um membro da elite chinesa", destaca Po-chia Hsia, "mais o seu sucesso crescia". Sucesso que atingiu o seu ápice quando, em setembro de 1596, houve um eclipse solar que ele, diferentemente do observatório astronômico imperial, havia previsto com meses de antecedência. Depois, em Nanjing (ex-capital da China até 1421 e que, segundo muitos, assim permaneceu também nos séculos seguintes), ele havia conquistado os favores do poderoso Wang Zhongming.

Aqui inicia a parte mais fascinante do livro Un gesuita nella città proibita, que consegue contar – em virtude justamente da consulta aos documentos chineses – as intrigas na corte do imperador Wanli com uma grande quantidade de detalhes inéditos para a literatura ocidental. Nas primeiras décadas do século XVII, Ricci, com o apoio do imperador, plantou raízes em Pequim, onde, fato verdadeiramente excepcional, lhe foi permitido residir.

Mas essa foi uma época nada tranquila. Em 1604, chegou à capital imperial a notícia de que, entre outubro e novembro do ano anterior, na ilha de Luzon, os espanhóis haviam massacrado entre 15 e 20 mil chineses, quase toda a comunidade. Em 1605, um grupo de mandarins, incomodados com os ataques de Ricci ao budismo, apresentou uma petição ao imperador para pedir a revogação do apanágio e o repatriamento dos jesuítas. O que piorou a situação foi o início dos conflitos gerados pelo ingresso dos holandeses pelos mares da região (em 1607, a Holanda desferiu um ataque contra Macau). Multiplicaram-se os rumores que davam por iminente um "complô jesuíta" para derrubar a dinastia Ming do poder.

Em 1607, em Shaozhou, divulgou-se uma petição assinada por 400 intelectuais em que se pedia a expulsão de Niccolò Longobardo (o jesuíta destinado a suceder Ricci) acusado de "perturbação da paz". Mas Ricci, nesses dez anos, se comove profundamente com relação aos conflitos em curso. Ele já tinha o posto de um ministro a serviço do imperador, recebia os mandarins e os futuros funcionários do reino sem nunca pôr os pés fora da capital imperial. O seu livro O verdadeiro significado do Senhor do Céu (1603), redigido em forma de diálogo entre um ocidental e um erudito chinês, o consagra como uma das maiores personalidades da China dos Ming. Ele confia a uma correspondência com Yiu Chunxi os termos da sua polêmica contra o budismo.

Triunfo até na morte

Quando Ricci morreu, aos 58 anos de idade, em maio de 1610, ele triunfou "sobre os seus inimigos até na morte". Wanli concedeu a honra do patrocínio imperial às suas exéquias, das quais participaram os mandarins Xu Guangqi e Li Zhiao. Matteo Ricci foi o primeiro mas não o último dos jesuítas a ser enterrado em terras chinesas. Depois dele – e antes da dissolução da Companhia – chegaram à China cerca de nada menos do que 500 jesuítas, provenientes da Itália, Espanha, Portugal, França, Bélgica, Polônia, Áustria, Alemanha, com o acréscimo de um discreto número recrutado in loco.

Se a parte jesuítica da herança ricciana, escreve Po-chia Hsia, foi assegurada por uma série de missões nos 160 anos seguintes, "o seu impacto sobre a comunidade cristã chinesa deu a esta última a possibilidade de sobreviver à crise catastrófica que sobreveio em consequência da mudança dinástica por volta de meados do século XVII".

Rukui Qu, um dos mais importantes amigos de Ricci na China, havia aceitado ser batizado somente em 1607, mas esse batismo não pôde ser dado, porque Qu não queria renunciar ao concubinato. Então, somente após a morte da primeira esposa e do "matrimônio com a concubina", Qu Rukui se tornou, para todos os efeitos, membro da Igreja Católica, em homenagem a qual decidiu dar ao próprio filho de 15 anos o nome de Matteo (a Ricci ele atribuía acima de tudo o mérito de ter-lhe dado a paternidade).

No momento da morte de Ricci, os convertidos na China eram cerca de 2.500 e subiram para 13 mil no início do reino de Chongzhen (1628). Esse reino durou 16 anos, no final dos quais (1644) os cristãos chineses eram nada menos do que 70 mil.

Tal crescimento ocorreu apesar do fato de o sucessor de Ricci, Niccolò Longobardo, criticar o seu método (contra o qual, ainda em anos anteriores, havia dito que se sentia "desconfortável"), desaprovar publicamente a síntese confucionista-cristã e colocar em dúvida que os principais mandarins e literatos realmente tivessem entendido os ensinamentos riccianos. Longobardo, confortado nisso pelos jesuítas do Japão, estabeleceu que o confucionismo era ateu e que os estudiosos Ming eram filósofos materialistas. Convencido de que a síntese do catolicismo e do confucionismo havia comprometido a pureza doutrinal da Igreja, em 1623, Longobardo escreveu um tratado no qual expressava a tese segundo a qual "os filósofos neoconfucianos propõem um universo materialista, enquanto os literatos chineses devem ser considerados fundamentalmente ateus", e se opunha vigorosamente à "distinção entre uma antiga filosofia chinesa intacta, naturalista e quase cristã e um neoconfucionismo corrupto".

Controvérsia dos ritos

Mas, em 1627, 11 padres destacados na China e fiéis ao ensinamento de Ricci se reuniram para uma conferência em Jiading. Posteriormente, a maior parte dos jesuítas, sob a orientação do belga Nicolas Trigault, começou novamente a defender, com o apoio da classe dirigente dos funcionários chineses convertidos, a estratégia missionária de Ricci.

A divisão já era evidente, e na China, entre os católicos, começou a fase da "controvérsia dos ritos". Em meados do século XVII, o jesuíta francês Jean Valet, que defendia a posição de Longobardo, passou uma cópia do seu tratado para o frei franciscano Antonio Caballero, que por sua vez a deu ao frei dominicano Domingo Navarrete: a partir desse momento, abraçaram as posições anti-Ricci.

Quem venceu dos dois lados? Ninguém. Nicolas Trigault, que, como foi dito, havia saído vitorioso da conferência de Jiading, não conseguiu depois suportar o peso da tensão nervosa, caiu em uma longa depressão e, em novembro de 1628, se enforcou. Os jesuítas esconderam esse suicídio e faziam referência a ele apenas em código. Mas ficaram extremamente enfraquecidos por causa disso, ainda mais que sobre eles pendia uma outra catástrofe.

Em março de 1644, os camponeses rebeldes invadiram Pequim, e as tropas manchu transbordaram dentro do país, atravessando a Grande Muralha. O regime Ming entrou em uma longa e inexorável agonia, que decretaria a sua extinção dentro de cerca de 40 anos. Anos durante os quais milhões de pessoas e muitos missionários jesuítas morreram de morte violenta.

Os Ming, para resistir, acolheram as ajudas ocidentais, se apresentaram como portugueses armados ou "conselheiros" jesuítas. A fé no Deus dos cristãos parecia ser para esses últimos dominadores da China um recurso extremo. Em 1648, a corte de Yongli, o último imperador dos Ming meridionais, anunciou três conversões clamorosas: a da imperatriz titular e de duas imperatrizes viúvas, que assumiram o nome de Anna, Elena e Maria. O próprio Yongli avaliou para si a hipótese de uma adesão à fé católica, mas desistiu para não ser obrigado a renunciar a poligamia. Mas fez com que o seu filho fosse batizado com o nome de Constantino. Em 1662, no entanto, pai e filho foram estrangulados em Yunnan por Wu Sangui, um general Ming que havia se amotinado para passar para o serviço dos novos senhores manchu.

Em Pequim, o jesuíta alemão Adam Schall, passou para os manchu, ele que fizera amizade com o imperador Qing Shunzhi, recebendo as honorificências que cabiam a um mandarim do mais alto grau. "Vestindo os hábitos dos mandarins da nova dinastia", escreve Po-chia Hsia, "Schall foi capaz de garantir a sobrevivência e a prosperidade da missão jesuítica". Apesar de um breve período de perseguições após a morte do soberano amigo, a missão católica começou novamente a prosperar com o imperador Kangxi, que reinou de 1662 a 1723. "Um século depois que Ricci havia se estabelecido em Pequim, o fundador da missão católica teria todas as razões para se alegrar em seu túmulo: em 1701, a China tinha cerca de 200 mil convertidos e 153 eclesiásticos".

O próprio imperador Kangxi se mostrou particularmente cordial e disponível com relação aos seus conselheiros jesuítas: ele aprendeu com eles o latim, a matemática e a ciência ocidental; fez-se administrar o quinino que lhe permitiu se curar da varíola, doença que matara o seu pai. Mas os missionários continuavam brigando entre si sobre Confúcio, e, em 1705, o imperador, impaciente, proibiu que os seus súditos praticassem o cristianismo. Todos os missionários ocidentais que desejavam permanecer na China deviam jurar sobre os "métodos do padre Ricci" e prometer que nunca mais voltariam para a Europa.

Dominicanos, agostinianos e padres da Sociedade para as Missões Estrangeiras de Paris abandonaram em massa o império, os franciscanos se dividiram, mas grande parte deles voltou, enquanto os jesuítas, com exceção de alguns portugueses, se curvaram ao juramento imposto por Kangxi. Durante oito anos, o édito de 1705 quase nunca foi aplicado. Depois, veio a época das perseguições. Perseguições quase incruentas, no entanto, se comparadas com as perpetradas no Japão dos Tokugawa. Até que se teve um novo trauma, desta vez de Roma.

Em 1773, por decisão de Clemente XIV, dirigido nesse sentido pelas cortes bourbônicas, foi decretado o fim da Companhia de Jesus (que seria revivificada por Pio VII em 1814, 41 anos depois).

Assim que a Companhia renasceu, afirma Po-chia Hsia, os novos missionários jesuítas retomaram os contatos com o império Qing, mas que estava em condições bem mais frágeis, tanto é que foi derrotado pelos ingleses na primeira Guerra do Ópio (1839-1842) e mais tarde pelos ataques conjuntos anglo-franceses na segunda Guerra do Ópio (1858-1860).

Nesse ponto, o regime Qing foi "obrigado" a escancarar as portas aos diplomatas estrangeiros e aos missionários cristãos. E foi graças à proteção diplomática e militar da França que os jesuítas e outros missionários católicos daquele momento em diante se dirigiram para a China com o status de diplomatas e com novos poderes. Uma inversão da lição de Ricci. Aos olhos dos chineses, "os recém-chegados pareciam representantes do poder ocidental e foram considerados um desdobramento da agressão europeia". Ainda mais que os jesuítas tentaram dezenas de processos a fim de exigir as propriedades que lhes haviam sido confiscadas mais de um século antes.

Os missionários protegiam os convertidos cristãos em toda parte, "intervindo nas disputas civis ou nos litígios sobre as propriedades, apelando aos magistrados locais, às vezes aos próprios cônsules, e com o aumento da sua influência crescia o ódio dos chineses contra tudo o que era cristão e ocidental".

Retaliações

A síntese entre confucionismo e cristianismo já era uma coisa distante, e a harmonia entre Oriente e Ocidente, a recordação de algo antigo. A imensa maioria das elites confucianas da época Qing tardia "era firmemente anticristã, para não dizer absolutamente xenófoba". Multiplicavam-se boatos e lendas que muitas vezes tinham origem em "fantasias paranoicas": "Missionários que pagavam pelas conversões, crianças mortas após os batismos, extração dos olhos dos vivos para obter medicinas".

Po-chia Hsia defende que alguns boatos podiam ter algum fundo de verdade: por exemplo, que os religiosos agiam como espiões para os governos estrangeiros, que desacreditavam a cultura chinesa descrevendo-a como supersticiosa e que, mais em geral, não hesitavam em apelar aos seus diplomatas e aos seus soldados para se proteger e pressionar o povo chinês. Daí às "retaliações", foi um pequeno passo.

Em 1870, em Tianjin, uma multidão matou o cônsul francês e, com ele, uma dezena de missionários e convertidos. Em 1899, nas províncias de Shandong e Hebei, houve um forte movimento anticristão. Depois, em 1900, foi a vez dos Boxer, um movimento regional que identificou nos convertidos cristãos e nos missionários estrangeiros os inimigos a serem abatidos. Com a conivência da corte, os Boxers entraram em Pequim e assediaram as legações estrangeiras, junto às quais muitos missionários ocidentais e chineses convertidos haviam encontrado refúgio. Foi necessária uma missão militar de oito países para retirar o cerco e subjugar os Boxers, que, enquanto isso, haviam matado centenas de cristãos, violado cemitérios como o de Zhalan, onde 88 túmulos haviam sido descobertos, e os restos dos corpos de fiéis católicos haviam sido entregues às chamas.

Foi preciso passar décadas antes que o capítulo pudesse ser reaberto. No século XX, houve importantes estudos sobre Ricci e sobre a sua herança. Particularmente, no fim do século. Um livro de Jacques Gernet, Cina e cristianesimo (Ed. Marietti), levantou dúvidas sobre a real integração entre as estruturas de pensamento dos jesuítas e a dos intelectuais chineses. Jonathan Spence, em Il palazzo della memoria di Matteo Ricci (Ed. Adelphi), propôs uma refinada análise da relação entre o grande jesuíta e a Contrarreforma.

Mas Ronnie Po-chia Hsia se remete utilmente a algumas reflexões de Sun Shangyang, contidas em um importante ensaio de 1994 (inédito na Itália) sobre a relação entre cristianismo e confucionismo, para aprofundar a "oportunidade perdida" de um intercâmbio cultural pacífico com o Ocidente, que poderia ter mudado a história da China, da Ásia. E, provavelmente, da humanidade inteira.



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