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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 4

Lutero perante Carlos V na Dieta de Worms em 1521

NINGUÉM SERÁ JUSTIFICADO PELAS OBRAS

Pois, por obras da lei, ninguém será justificado.
(Gálatas 2:16)

Até aqui, as palavras são de Paulo que falou a Pedro. Nelas, resumiu o artigo principal da doutrina cristã, que faz verdadeiros cristãos. Agora, ele muda o discurso aos gálatas a quem escreve e conclui, dizendo: “Como a situação é essa que somos justificados pela fé em Cristo, conclui-se que, por obras da lei, não será justificada toda carne”.

“Não toda carne” é um hebraísmo que peca contra a gramática. Lemos, Gn 4[.15]: “Para que não o matasse todo aquele que o encontrasse”. Os gregos e os latinos não falam assim. “Não todo aquele” quer dizer “ninguém”. “Não toda carne” quer dizer “nenhuma carne”. Mas, em latim, “não toda carne” significa “alguma carne”. O Espírito Santo, todavia, não observa tal rigor da gramática.

Carne, contudo, não significa, me Paulo, aqueles pecados grosseiros como os sofistas supõem, pois esses, ele costuma mencionar por seus nomes explícitos, como, por exemplo, adultério, fornicação, imundícia, etc., Gl 5[.19ss]. Para Paulo, carne significa o mesmo que para Cristo, que diz em Jo 3[.6]: “O que é nascido da carne é carne”. Carne, portanto, significa toda a natureza do homem, com a razão e todas as suas forças. “Essa carne”, diz, “não é justificada por obras, nem mesmo, por obras da lei”. Não diz: “A carne não é justificada por obras contra a lei, como violência, bebedeira, etc., mas por obras feitas segundo a lei, as quais são boas”. Para Paulo, portanto, carne significa a mais alta justiça, sabedoria, culto, religião, intelecto, vontade, por maiores que sejam nesse mundo. Por isso, o monge não é justificado por sua ordem, nem o sacerdote pela missa ou pelas horas canônicas, nem o filósofo pela sabedoria, nem o teólogo pela teologia, nem o turco pelo alcorão nem o judeu por Moisés. Em suma, por mais sábios e justos que sejam os homens, segundo a razão e a lei divina, não são justificados, contudo, por suas obras, méritos, missas, por sua mais alta justiça e pela prestação de cultos.

Os papistas não creem nisso, mas, cegos endurecidos, defendem suas abominações contra a consciência e perseveram nessa sua blasfêmia e, ainda, agora, vangloriam-se com estas palavras: “Quem faz essa e aquela obra merece a remissão dos pecados; prometemos, com certeza, a vida eterna a quem serve a essa ou àquela santa ordem”. É uma blasfêmia indizível e horrível atribuir às doutrinas dos demônios, aos estatutos e regras dos homens, às ímpias tradições do papa e às obras dos monges aquilo que Paulo, o apóstolo de Cristo, recusa a atribuir à lei divina e às suas obras. Se ninguém é justificado por obras da lei divina, segundo o testemunho do apóstolo, muito menos, alguém será justificado pelas regras de Benedito, de Francisco, etc., em que não se encontra nenhuma sílaba a respeito da fé em Cristo, mas, apenas, insiste-se nisto: “Quem observa essas coisas, tem a vida eterna”.

Por isso, sempre me admirei muito que, por tantos séculos, em que perduravam essas seitas da perdição, a Igreja pôde subsistir em meio a tantas trevas e erros. Houve alguns que deus chamou, simplesmente, pelo texto do Evangelho, que permanecia em seus sermões, e pelo Batismo. Esses andavam perante deus na simplicidade e humildade do coração, pensando que, somente, os monges e os que foram ordenados pelos bispos fossem santos e religiosos, mas eles, profanos e seculares que, de forma alguma, poderiam ser comparados com aqueles. Não encontrando eles em si mesmos, nem boas obras, nem méritos que pudessem contrapor à ira e ao juízo de Deus, refugiaram-se na paixão e morte de Cristo e, nessa simplicidade, foram salvos.

Horrível, porém, e infinita é a ira de Deus que, através de tantos séculos, puniu a ingratidão e o desprezo do Evangelho e de Cristo nos papistas, entregando-os a uma mente reprovável. Negando totalmente a Cristo no que diz respeito à necessidade dele e blasfemando-o, acolheram, no lugar do Evangelho, as abominações das regras e tradições humanas as quais, unicamente, veneraram e preferiram à Palavra de Deus até que, finalmente, foi-lhes proibido o matrimônio e foram forçados àquele celibato incestuoso. Então, também, foram poluídos, exteriormente, com toda a sorte de escândalos, adultério, devassidão, impureza, sodomia, etc. Esse era o fruto daquele celibato impuro. Assim, Deus, com justiça, entregou-os, interiormente, a uma mente reprovável e, exteriormente, permitiu que caíssem em tantos crimes, pois blasfemaram o unigênito Filho de Deus no qual o Pai quer ser glorificado, a quem entregou à morte, a fim de que os que nele creem fossem salvos por intermédio dele e não, pelas ordens deles. “Aos que me honram”, diz Deus em 1 Rs 2[sc. 1 Sm 2.30], “honrarei”. Mas Deus é honrado em seu Filho, Jo 5[.23]. Quem, pois, crê que o filho de Deus é nosso Mediador e Salvador, honra o Pai e Deus, por sua vez, o honra, isto é, orna-o com seus dons: a remissão dos pecados, a justiça, o Espírito Santo e a vida eterna. Do outro lado, “os que me desprezam”, diz Deus, “serão desmerecidos” [1 Sm 2.30].

A conclusão principal, portanto, é esta: “Por causa das obras da lei, ninguém será justificado”. Dando a essa conclusão dimensões mais abrangentes e percorrendo todas as posições sociais, concluirás que um monge não será justificado por sua ordem, nem uma freira pela castidade, nem um cidadão justificado por sua honradez, nem um príncipe por sua beneficência, etc. A lei de Deus é maior que o mundo inteiro, porque abrange todos os homens e as obras da lei excedem, extremamente, às obras seletivas dos homens de justiça própria. No entanto, diz Paulo, que nem a lei nem as obras da lei justificam. Uma vez estabelecida a proposição, o apóstolo começa, agora, a confirma-la com argumentos. E o primeiro argumento é, por assim dizer o oposto da conclusão.

(LUTERO, Martinho. Comentário à Epístola aos Gálatas, 1531. MARTINHO LUTERO, Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2008, Vol. 10, pág. 147-149)



quinta-feira, 16 de março de 2017

Filantropos religiosos se mobilizam contra a reforma da Previdência

A matéria é do IHU:

Religiosas e religiosos do Brasil se mobilizam contra a Reforma da Previdência

A Conferência dos Religiosos do Brasil - CRB publicou carta, em 08-03-2017, convocando todos e todas lideranças, religiosos/as, colaboradores, e pessoas atendidas das nossas unidades sociais, escolas e universidades, hospitais, centros de atendimentos para mobilizarem-se contra a Reforma da Previdência (PEC 287/2016), que também visa acabar com a filantropia no país.

Eis a carta.

“Felizes sois vós quando vos insultam e perseguem e mentindo dizem contra vós toda espécie de mal por minha causa. Alegrai-vos e regozijai-vos”. (Mt 5,11)

Queridas Religiosas e Queridos religiosos!

É em nome pessoal e em nome da CRB Nacional, que representa mais de 35 mil religiosos e religiosas, que lhes escrevo. Faço-o com o coração entristecido por, mais uma vez, ver os interesses de poucos solaparem os direitos de muitos, especialmente das crianças e jovens mais pobres e vulneráveis. Literalmente querem nos tirar as migalhas.

Pessoas com passado não muito transparente se sentem no direito de legislar e de impor suas ideias, valendo-se do cargo que ocupam como representantes do povo. Como cristãos e como religiosos devemos aguçar o nosso senso crítico para não legitimar posições assumidas que vão contra o Evangelho e os direitos dos mais pobres.

Nos próximos dias estará sendo discutida, e talvez votada, por nosso parlamento, a Reforma da Previdência, na qual o Governo Federal busca alterar a Constituição Federal por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) n° 287/2016. Além de outros absurdos, no bojo dessa reforma, nossos representantes querem extinguir o direito à Filantropia a que muitas instituições beneficentes e de caridade tem direito. Trata-se de um dos efeitos colaterais de contornos imprevisíveis que tal emenda produzirá contra os pobres dessa nação no presente e no futuro.

O deputado federal Arthur Maia (PPS-BA), relator da proposta, tem se pronunciado categoricamente contra as desonerações fiscais em favor de alguns setores da sociedade, em especial das instituições filantrópicas. Chegou ao ponto de apelar à difamação pública dessas instituições centenárias, imputando-lhe adjetivos como: “pilantropia”, “pouca vergonha” e “aberração” no infeliz intuito de desqualificar a imunidade tributária das entidades beneficentes e de assistência social. É triste ver nas redes sociais anúncios do PMDB afirmando: “Se a reforma da previdência não sair – Adeus Bolsa Família – Adeus FIES ...”. Uma campanha bem ao estilo autoritário e segundo a ética de quem a patrocina e, quem sabe, a financia.

O cronograma de tramitação dessa matéria no Congresso Nacional é extremamente curto. Já nos próximos dias, por volta do dia 22/03/2017, deverá ser votada na Plenária da Câmara. O atual domínio da bancada do Governo certamente garantirá a aprovação sem o menor esforço, pouco se lixando com as consequências de tal decisão. O que importa é arrecadar mais impostos.

A única forma de mudarmos esse triste panorama é o engajamento de todos: lideranças, religiosos/as, colaboradores, atendidos das nossas unidades sociais, escolas e universidades, hospitais, centros de atendimentos. Ou nós nos mobilizamos e defendemos o direito das nossas instituições e dos pobres, ou mais uma vez pagaremos a conta dos desmandos palacianos.

Permitam-me oferecer-vos alguns dados e ilustrações para melhor compreensão da gravidade do assunto:

Pesquisa do Fórum Nacional das Instituições Filantrópicas - FONIF, realizada a partir de dados oficiais fornecidos pela própria Administração Pública, revela que as entidades imunes proporcionam um retorno social da ordem de 5,92 x 1. Isto é, para cada R$ 1,00 não cobrado em tributos, R$ 5,92 são convertidos em benefício da população, na forma de serviços, empregos, infraestrutura, qualidade de vida e conhecimento. Ou seja: se o governo tirar a filantropia das instituições que prestam esses serviços, ele terá que arcar com a assistência a essas pessoas, gastando 5,92 vezes mais do que arrecada para dar o atendimento necessário. Como percebemos, essa decisão é pouco inteligente e incidirá diretamente na queda ou desqualificação do atendimento dos mais necessitados.
As isenções das entidades filantrópicas correspondem a apenas 3% da arrecadação total da Previdência Social, de modo que a suspensão de tal isenção não vai solucionar o problema. A devolução do dinheiro desviado no “propinoduto” daria muito mais resultado financeiro do que terminar com as filantrópicas;
Caso as entidades filantrópicas percam esse incentivo, centenas ou milhares de escolas, hospitais, universidades, centros sociais, centros de atendimentos a vulneráveis pertencentes a estas instituições deverão fechar as portas. Milhões de pessoas serão privadas de atendimento digno e humanitário nas unidades atendidas pelas filantrópicas e passarão para a rede pública, já incapaz de oferecer ao nosso povo o mínimo em saúde e educação.
A consequência de curto prazo, será o aumento de crianças e adolescentes vivendo na rua, com muita possibilidade de futuramente assaltarem os que hoje lhe negam um tratamento digno. E então, a economia feita hoje, será insuficiente para construir prisões para abrigar os infratores produzidos pelo abandono produzido por tal decisão. Uma pena que a maioria dos nossos políticos não consigam ver além da próxima eleição.

Irmãos e Irmãs, precisamos mobilizar as nossas instituições! Precisamos defender os nossos direitos e os direitos dos pobres e vulneráveis! Não se trata de luta ideológica, mas de posicionamento evangélico.

Como ação prática, sugiro que enviem centenas, milhares, milhões de e-mails, aos deputados e senadores. Usemos as redes sociais para denunciar mais esse abuso de poder econômico e político de poucos que marginaliza quem trabalhou com seriedade durante séculos em favor dos necessitados. Participemos de manifestações públicas com esse objetivo. Alertemos os nossos atendidos, alunos, enfermos, sobre esse perigo e peçamos a eles que se manifestem nas redes sociais contra esse “assalto” a dignidade das instituições e das pessoas. Não poupemos nenhum esforço no sentido de esclarecer e de influir na decisão dos nossos representantes em Brasília.

Termino pedindo a todos os religiosos e religiosas, especialmente aos anciãos, aos enfermos e aos de clausura, que rezem fervorosamente a Deus, para que o Espírito Santo ilumine as mentes e os corações dos que devem decidir nosso futuro. Se Deus ouviu o clamor de Israel quando o Faraó escravizou o seu povo, certamente nos ouvirá também. Ele é Pai e Mãe e cuidará de nós e dos pobres do mundo. Recordo o Evangelho: “Existem certos demônios que só são expulsos mediante muita oração” (Mt 17,21). Quem sabe, estejamos diante de um deles.

Que o Deus bondoso tenha para nosso país olhos de misericórdia e nos conduza pelos caminhos da justiça e da fraternidade. Que a Virgem de Aparecida nos proteja e nos abençoe.

Em união de preces,

Maria Inês Vieira Ribeiro

Presidente da CRB Nacional
Brasília, DF, 08 de março de 2017



sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

100 anos atrás morria Rasputin


Rasputin é um desses personagens da vida real, de carne e osso, cuja história parece ter sido inventada por alguém durante o uso de algum alucinógeno.

Já chegamos a comentar aqui no blog sobre a canção em ritmo discothèque que o grupo Boney M. lhe, digamos, "dedicou" em 1978 (clique aqui para acessar o divertido e musical artigo).

Só que cada detalhe sinistro ou bizarro de sua biografia (sobretudo as tentativas de matá-lo) é verdadeiro.

Santo ou demônio, o fato é que o fim do Império Russo centralizado na figura do czar e a Revolução Comunista de 1917 tiveram nele um dos mais importantes antecedentes.

A matéria abaixo é da Rádio Agência Nacional:

História Hoje: Conheça a história do monge russo Rasputin, morto há 100 anos

Há cem anos morria num vilarejo da Sibéria Grigori Iefimovich Novy, ou Grigori Rasputin, monge russo que se tornou personagem influente na corte de Nicolau Segundo e Alexandra Feodorovna.

Além da fama por seus poderes sobrenaturais, Rasputin tinha reputação de santo entre os camponeses e fama de devasso na corte.

Ainda pequeno chamava a atenção dos moradores do vilarejo em que vivia que acreditavam que ele tinha poderes hipnóticos e de cura.

Na adolescência, foi para o mosteiro de Verkhoture, nos Montes Urais, para se tornar monge, mas não completou os estudos, se casando aos 19 anos de idade. A fama de possuir poderes sobrenaturais se espalhou pelo império russo por volta de 1905, quando, já morando em São Petersburgo, foi procurado pelo czar Nicolau Segundo e sua esposa, a czarina Alexandra Feodorovna, que buscavam a cura de seu filho, Alexei, que sofria de hemofilia.

Envolvente e sedutor, Rasputin conseguiu tranquilizar o príncipe, diminuindo seus sangramentos e conquistou a confiança do casal. Por isso, durante anos passou a exercer o papel de conselheiro da czarina. Na corte, interferia na atuação da igreja e nos assuntos de estado, chegando a nomear e demitir ministros.

Rasputin conquistou a antipatia de grande parte da corte. Foi acusado de indecente. Ele afirmava que era capaz de livrar as mulheres de seus pecados e, dormindo com elas, ajudava a encontrar a graça divina. Por sua conduta, em 1914, sofreu seu primeiro atentando a faca e sobreviveu milagrosamente.

Aproveitando da fama de místico, previu que a Rússia cairia em desgraça durante a Primeira Guerra Mundial. Preocupado com a previsão, o czar abandonou a corte em 1915 para comandar pessoalmente o Exército. Rasputin e a czarina então passaram a governar a Rússia e foram responsáveis, em grande parte, pelo fracasso do imperador em contornar a onda de descontentamentos que antecederam à Revolução Russa.

Em 30 de dezembro de 1916, um grupo de nobres organizou uma cilada e Rasputin comeu uma refeição envenenada por cianureto, mas novamente não morreu. Foi então foi fuzilado, sendo atingido por um onze tiros, e escapou. Depois disso, foi castrado e atirado inconsciente no rio Neva.

Após o corpo resgatado, foi encontrada água nos pulmões, confirmando que ele ainda estava vivo ao ser jogado no rio parcialmente congelado.



domingo, 27 de dezembro de 2015

Mosteiros são oásis de fé e silêncio em São Paulo


Artigo de Edison Veiga no seu blog no Estadão:

Fé faz centenas buscarem 
clausura em mosteiros de SP

Casas religiosas já receberam papas e duas foram residências de figuras que depois se tornaram santos: Madre Paulina e Frei Galvão

São oásis de tradição e tranquilidade dentro da barulhenta, caótica e estressante São Paulo. Dentro das várias casas religiosas que existem na capital paulista, no total, algumas poucas centenas de paulistanos vivem, em menor ou maior rigidez de clausura. As histórias delas são únicas – duas já receberam papas da Igreja Católica, João Paulo II e Bento XVI; duas foram residências de figuras que depois se tornaram santos da Igreja Católica: Madre Paulina e Frei Galvão.

Desde 1598, sempre um monge badala um sino às 5h05 da manhã no centro de São Paulo. É o começo da rotina do Mosteiro de São Bento, instituição encravada no coração da cidade. O repique tem a função de despertar os outros 41 religiosos que vivem no claustro. Em 25 minutos eles devem estar a postos no altar da ainda fechada Basílica de Nossa Senhora da Assunção, onde irão entoar o Ofício Divino, primeira das cinco orações do gênero celebradas diariamente.

O dia a dia dos beneditinos segue as orientações contidas nos 73 capítulos da Regra de São Bento, conjunto de normas cuja autoria é atribuída ao santo católico que viveu entre os anos 480 e 550.

Os monges de São Bento têm liberdade para entrar e sair da clausura, desde que com consciência. “Não há uma pré-definição de tempo. O mosteiro é um complexo. A clausura é um espaço físico dentro do mosteiro. O importante é o equilíbrio. Em via de regra o monge deve ter consciência deste transito e movimentação que há no mosteiro”, explica o monge João Baptista. “Temos um colégio e uma faculdade aqui. Há um teatro com eventos diversos. A Igreja é uma das mais visitadas de São Paulo. Nosso mosteiro é bem diferente dos demais, por conta de todos este contexto. Há, portanto, o desafio com o silêncio dentro desta cidade barulhenta. Estamos no centrão de São Paulo – a maior cidade do país – ao lado das ruas 25 de março e Santa Ifigênia. Há o metrô que passa em baixo e diversos helicópteros que sobrevoam nosso céu. Temos todo um diálogo com esta cidade e com o povo que circula e nos procura em busca de palavras espirituais.”

Dentro do mosteiro, as funções internas são distribuídas de acordo com a vocação. “Cargos e funções vão desde o administrativo, sacristia, formação interna dos monges e aulas na faculdade e colégio, padaria, cozinha, biblioteca…”, enumera Baptista. “Os cargos são distribuídos conforme aptidão de cada um. Se entra alguém com outra formação no mosteiro, como da área da saúde, geralmente trabalhará na enfermaria cuidando dos irmãos mais idosos e doentes ou ações do tipo. Se é um advogado trabalhará na área jurídica e assim por diante.”

Um dos pontos altos da história de mais de 400 anos dos beneditinos em São Paulo foi a visita do papa Bento XVI – coincidentemente, um papa chamado Bento, como o fundador da ordem – a São Paulo, em 2007. Ocasião esta em que foram eles os anfitriões do sumo pontífice. O quarto onde ele ficou hospedado se tornou um memorial, preservado exatamente como naqueles dias.

Vinte e sete anos antes, em 1980, quando o papa João Paulo II foi o primeiro líder máximo da Igreja Católica a visitar São Paulo, a honraria coube a outra abadia beneditina que existe em São Paulo: o Mosteiro São Geraldo, fundado em 1950 por monges beneditinos húngaros na região do Morumbi. Os aposentos que hospedaram João Paulo II também foram mantidos como um pequeno museu – uma relíquia que muito orgulha os 17 monges que vivem ali.

Além de papas, instituições religiosas do tipo também se tornaram conhecidas por serem residências de personalidades católicas que depois se tornaram santas reconhecidas pelo Vaticano. É o caso da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, onde viveu a religiosa Amabile Lucia Visintainer (1865-1942), mais conhecida como Madre Paulina, canonizada em 2002. Fundadora da congregação, o quarto onde ela morreu é preservado como um memorial. Atualmente, a casa abriga 12 religiosas.

“Em nossa organização interna, temos os momentos comuns para orações, celebrações, refeições, estudos, lazer, atividades diversas, onde todas são evolvidas. No que se refere a missão específica, cada Irmã tem uma área de atuação: coordenação da Congregação, animação missionária, evangelização, administração, serviços domésticos, acompanhamento as unidades educativas, centros de hospitalidade, centros de terapias naturais, santuário, serviço de assistência social e as comunidades da Congregação.”, explica Rosacy Soares Costa, vice-coordenadora geral da instituição.

Ali não há uma clausura. “Temos sim nossa privacidade, mas vivemos em uma casa normal”, conta a religiosa. “Nosso contato com o mundo se dar de várias formas, nos diversos espaços onde realizamos nossa missão tanto interna quanto externa. Também participamos de eventos sociais, como teatro, cinema, celebração de aniversário e outros. Administramos o tempo, tendo em vista os momentos comuns e as atividades individuais por meio do planejamento mensal e cronograma para facilitar a vivência comunitária e a realização da missão.”

Já no Mosteiro da Luz, no bairro da Luz, casa fundada e construída por Antônio de Sant’Ana Galvão (1739-1822), o Frei Galvão, franciscano de Guaratinguetá que se tornou santo em 2007, o silêncio e o isolamento são regra. As 14 religiosas que vivem ali só saem por três razões: saúde – consultas médicas e exames -, compras e um período de férias – geralmente 10 dias a cada dois anos. Mesmo assim, tudo somente sob autorização da abadessa e, geralmente, em duplas. “Também acabam sendo liberadas para participar de festas muito especiais da Igreja, como a procissão de Corpus Christi”, exemplifica o capelão do Mosteiro, padre José Arnaldo Juliano dos Santos.

E são pouquíssimas as pessoas, além das religiosas, que podem, eventualmente, entrar na clausura. “Autoridades religiosas, como o arcebispo, além do capelão e de um padre nomeado para auxiliá-las nas questões administrativas”, enumera padre Santos. “Outras pessoas, um médico por exemplo, apenas com autorização da abadessa.”

Mesmo o padre confessor das religiosas não entra ali. Elas são atendidas em uma sala chamada parlatório, onde ficam separadas do interlocutor por grades.

Natal. As monjas da Luz reforçam o momento de silêncio nos dias que antecedem as festas mais importantes da Igreja Católica, a Páscoa e o Natal. Elas costumam fazer um retiro por duas ou três semanas, com jejum e muita oração, como preparação para tais datas. “Elas têm uma espiritualidade própria, fruto da ordem monástica”, diz o capelão. A ordem, no caso, é a Imaculada Conceição – por isso elas são chamadas de monjas concepcionistas -, fundada na Europa pela Santa Beatriz da Silva (1424-1492).

No São Bento, o Natal é marcado pelas antífonas especiais, entre os dias 17 e 23. “São antífonas do Hino Evangélico do Magnificat, que sempre inicia com a exclamação ‘O’, louvando a realeza de Deus que irá nascer como homem”, afirma o monge João Baptista. “No dia 24, acontece a bênção de nosso presépio que fica exposto aos fiéis até o dia 6. A missa da noite é belíssima e muito concorrida, assim como a do Dia de Natal, às 10h.”

“Internamente temos nossa ceia só com os monges”, relata ele. “No dia 26 fazemos sempre uma confraternização. Ocasião em que todos podemos nos reunir.”

Por São Paulo, já passaram cinco santos

Ainda não há nenhum paulistano que tenha se tornado santo para a Igreja Católica. Mas alguns canonizados viveram ou pelo menos passaram pela cidade. É o caso do padre José de Anchieta (1534-1597), jesuíta espanhol que foi reconhecido como santo pelo Vaticano em 2014. Com outros religiosos, Anchieta subiu ao então Planalto de Piratininga em 1554 e, onde hoje é o Pátio do Colégio, fundou a vila que daria origem a São Paulo.

Outro muito ligado à capital foi Antônio de Sant’Ana Galvão (1739-1822), o Frei Galvão, franciscano de Guaratinguetá que se tornou o primeiro santo nascido no Brasil. Em São Paulo, onde passou boa parte da vida, ele construiu o Mosteiro da Luz – em cuja igreja, aliás, está sepultado.

Amabile Lucia Visintainer (1865-1942), mais conhecida como Madre Paulina, nasceu na Itália mas veio para o Brasil com 10 anos. Em 1903, mudou-se para São Paulo, onde ficaria até o fim da vida, no bairro do Ipiranga, cuidando de crianças órfãs e ex-escravos abandonados.

A capital paulista também recebeu a visita dos santos Josemaría Escrivá de Balaguer (1902-1975), padre espanhol fundador do Opus Dei, em 1974; e do papa João Paulo II (1920-2005), em 1980.

São Paulo já recebeu dois papas

João Paulo II visitou a cidade em 1980, na primeira das três viagens que fez ao Brasil. E Bento XVI veio para São Paulo em 2007. Papa Francisco limitou sua primeira viagem ao País, em 2013, ao Rio de Janeiro e Aparecida.



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