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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

As mulheres de Stalingrado, 75 anos depois

Lydia Litvyak, a "Rosa Branca de Stalingrado"

Cinco anos atrás, comentamos longamente sobre a importância da batalha de Stalingrado nos destinos da Segunda Guerra Mundial e da humanidade como um todo, e convidamos você a reler esse artigo clicando aqui.

Amanhã, 2 de fevereiro de 2018, o planeta relembra os 75 anos do desfecho daquela batalha, que influenciou decisivamente na derrota alemã, para desespero de Hitler e seu delírio nazista, o que nos reacende a esperança de que o mal nunca tem a palavra final.

Nunca conseguiremos agradecer e valorizar o suficiente esse sacrifício de mais de 1 milhão de soldados e civis que deram sua vida nessa luta, mas - em homenagem a eles - republicamos aqui artigo do El País que celebra especialmente as mulheres que mostraram a sua força em meio a tanta morte e insanidade:

75 anos de Stalingrado: o decisivo papel das mulheres na maior batalha da Segunda Guerra Mundial

Com todos os homens no Exército, trabalhavam nas fábricas, dirigiam tratores e criavam os filhos.
Também tiveram de assumir todas as funções militares conforme o país perdia seus soldados

Lyuba Vinogradova 

Passaram-se 75 anos do final daquela que foi certamente a maior batalha da Segunda Guerra Mundial, 75 anos desde o momento em que os russos, seus aliados e milhões de pessoas de todo o mundo deram um suspiro de alívio coletivo. Todos vinham acompanhando as informações de Stalingrado com angústia e de forma compulsiva, haviam perdido o ânimo quando parecia que o destino da cidade pendia de um fio, e se alegraram quando chegavam boas notícias. O aterrador e imparável avanço dos Exércitos de Hitler por toda a Europa desde 1939 se deteve. O preço foi a destruição de uma bela cidade à beira do rio Volga.

A caminho da cidade sitiada, em agosto de 1942, o escritor Vasili Grossman, que mais tarde elogiaria a heroica luta pela defesa de Stalingrado, notou repetidamente e com grande tristeza o imenso ônus que recaía sobre as mulheres. Com todos os homens incorporados ao Exército, elas tinham que se virar como podiam. Trabalhavam nas fábricas, dirigiam tratores e criavam os filhos sozinhas. Não tinham ninguém em quem se apoiar. Eram cada vez mais convocadas para cobrir os buracos deixados pelas terríveis perdas do primeiro ano de guerra. Começaram a assumir funções outrora masculinas. A espantosa catástrofe lhes endureceu o coração.

“Hurra, hurra, hurra! Os alemães estão totalmente destruídos, os prisioneiros de guerra partem em longas filas. Dá nojo vê-los. Cheios de muco, esfarrapados, congelados. São a escória!”, escreveu uma jovem de Stalingrado em seu diário em 3 de fevereiro de 1943. Referia-se aos soldados e oficiais do Sexto Exército da Wehrmacht, que haviam se rendido na véspera. Cerca de 100.000 prisioneiros, dos quais só metade sobreviveu. Andavam em fila e tentavam se manter perto dos guardas ou no centro da coluna, para estarem mais ou menos a salvo dos civis. Os alemães capturados ofereciam uma imagem patética: mortos de fome, enregelados e doentes, envoltos em mantas para se aquecer. Os guardas, em vingança pelas atrocidades germânicas, davam um tiro nos que não tivessem força suficiente para andar. E as mulheres, os velhos e as crianças do lugar se postavam no acostamento da estrada para tentar arrancar suas mantas, atirar pedras, empurrá-los, chutá-los e cuspir na sua cara. Depois de meio ano de uma batalha que cobrou mais de um milhão de vidas de soldados e civis, não restava qualquer compaixão.

O objetivo da ofensiva alemã em Stalingrado era interromper as comunicações entre as regiões centrais da União Soviética e o Cáucaso e estabelecer uma cabeça de ponte a partir da qual invadir a região e suas jazidas petrolíferas. O ataque durou de meados de julho até meados de novembro de 1942, e sua interrupção ocorreu a um preço terrível para a URSS. Enquanto os soldados defendiam a cidade, os habitantes e centenas de milhares de refugiados vindos de outras regiões ficaram abandonados à própria sorte. Anna Aratskaya, que morava em Stalingrado, escreveu em 27 de setembro: “Nossa casa queimou, assim como a nossa roupa, que tínhamos enterrado no pátio. Não temos roupa nem sapatos, não temos um teto sob o qual nos refugiar. Quando este pesadelo terminará?”.

A cidade havia se tornado um "gigantesco campo de ruínas" pelos bombardeios maciços dos alemães, particularmente o de 23 de agosto. Haviam ficado em pé algumas casas com janelas quebradas, algumas paredes ou uma chaminé. Muitos soldados "que nunca mais se levantariam jaziam nos pátios e nas ruas, centenas deles, mesmo milhares, mas ninguém os contava. As pessoas vagavam entre as ruínas em busca de comida ou qualquer coisa que pudesse ser útil". Vasili Grossman comparou esta cidade espectral com Pompeia, mas com a diferença de que, em meio do caos, restaram almas vivas, centenas de milhares delas. Os civis também lutaram brutalmente em Stalingrado, não pelo seu país, mas pelas suas próprias vidas e pelas de seus filhos.

Sem teto, com as casas destruídas pelas bombas ou pelo fogo, não havia outro remédio a não ser tentar encontrar lugar em um barco para atravessar o rio Volga. Quantos morreram na costa esperando uma oportunidade de cruzá-lo, quantos se afogaram no rio quando suas embarcações foram atingidas por um projétil? Outros preferiram nem tentar. Tornou-se comum viver em buracos escavados na parede de um barranco. Muitos fizeram isso na costa íngreme do Volga, onde testemunharam cenas assustadoras na água. À medida em que avançavam os alemães, até quase chegarem ao rio, as pessoas também tiveram que abandonar esses buracos. Como sobreviveram durante os meses que a batalha durou? Muitos morreram pelas balas de franco-atiradores alemães enquanto tentavam encontrar cereais queimados nos locais destruídos. Outros arriscaram suas vidas para roubá-los do Molino Gerhardt, protegido por soldados soviéticos. "Quando acabou o cereal, comemos lama", lembrou um sobrevivente.

Talvez o próprio Stalin, ou algum de seus colaboradores, ordenou que fosse proibida a evacuação de civis? Realmente existiu essa ordem ou, como em tantos outros lugares, simplesmente não havia recursos suficientes para evacuar a população porque o rápido avanço dos alemães pegou-os de surpresa? Dizem que havia, sim, uma ordem implícita de Stalin para manter os civis na cidade para que os soldados, muitos dos quais eram locais, lutassem com mais paixão para proteger suas famílias.

Mulheres lutando no Exército Vermelho

A verdade é que muitos soldados haviam sido recrutados na cidade e nos seus arredores pouco antes da batalha ou mesmo assim que ela começou. À medida que os combates se desenvolviam, muitos adolescentes passaram a trabalhar nas fábricas militares e se incorporaram de forma oficial ou extraoficial ao Exército. Entre eles, havia muitas garotas. Embora ainda não tivessem idade para se alistarem, queriam contribuir com a batalha e acelerar o fim do pesadelo. Além disso, o Exército oferecia alguma esperança de melhor alimentação para civis mortos de fome.

Durante algumas semanas, Alexandra Mashkova viu como, toda madrugada às quatro da manhã, jovens recrutas subiam a ladeira até o Volga, atravessavam o barranco em que suas famílias haviam escavado suas casas e desapareciam em direção a Mamáyev Kurgán, uma colina que domina Stalingrado. Pareciam-lhe assustados e muito jovens; na verdade, haviam nascido em 1924 e tinham quase a mesma idade que ela. A maioria nunca voltou, mas alguns foram vistos mais tarde, feridos, voltando a pé ou se arrastando. Pouco a pouco, as adolescentes começaram a ajudar esses soldados machucados, tapando suas feridas ou carregando-os em macas improvisadas até o rio. Alexandra, que tinha 17 anos, juntou-se ao departamento médico de uma unidade militar e cruzou para o outro lado do Volga. Aprendeu com rapidez e brevemente estava pronta para ajudar o cirurgião. No começo, tinha muito medo quando precisava segurar um soldado durante a operação "enquanto lhe amputavam a perna ou abriam o seu braço até o osso", mas "você se acostuma a tudo". Muito rapidamente, as jovens enfermeiras comiam, sem se preocupar, na própria sala de operações improvisada. "Tínhamos pedaços de pão no bolso, então limpávamos as mãos de sangue na roupa branca, pegávamos o pão e o colocávamos na boca".

A motorista Angelina Kolobushhenko pensou que havia enganado a morte quando a febre tifoide a afastou do 1077º Regimento Antiaéreo, formado quase exclusivamente por mulheres, a maioria adolescentes. Depois de disparar contra os aviões que bombardeavam Stalingrado, as jovens deviam mirar os canhões contra os carros de combate que haviam conseguido chegar à fábrica de tratores da cidade. Quase todas morreram, inclusive as encarregadas pelos telefones, as cozinheiras e as enfermeiras. Poucas sobreviveram.

Quando se curou, Angelina foi enviada para outro regimento antiaéreo. Tinha aparência frágil depois da doença, feia e esquelética. As outras garotas a desprezavam e se negaram a dormir na mesma vala que ela. Diziam que podia contagiá-las. No entanto, duas semanas depois, estava totalmente recuperada, recebeu um novo uniforme e, como não havia nenhum veículo disponível para ela, começou a treinar para manejar as armas propriamente ditas. Sentiu-se muito orgulhosa quando a sua unidade, a 5ª Bateria, derrubou um avião alemão. As jovens correram para a planície para buscar a tripulação da aeronave, encontraram-nos e os prenderam. Os três alemães eram muito jovens, um alto e de rosto arrogante e outro menor e mais agradável, mas Angelina lembrou especialmente do terceiro, que tinha queimaduras terríveis e dores insuportáveis quando foi encontrado. Nunca esqueceu seus grandes olhos azuis, cheios de sofrimento.

As motoristas do frente, toda hora andando para cima e para baixo, viam e ouviam muitas coisas. Em novembro, começou a parecer que a situação estava mudando. Havia cada vez mais prisioneiros alemães, e Angelina sentia pena tanto deles quanto dos que viu morrer de frio. Ela e suas camaradas tinham botas novas de feltro e casacos de pele de cordeiro. Sentiam pena dos prisioneiros alemães, com seus casacos finos e estranhos sapatos de palha por cima das botas, nem um pouco preparados para o bruto inverno russo. Quando foi anunciado que havia um grande grupo de soldados alemães cercados, Angelina entendeu que não sobreviveriam por muito tempo, com suas roupas de verão, quase sem comida, na cidade destruída ou na estepe, sem lugar para se refugiar, nem madeira para fazer fogo.

Duas contemporâneas de Angelina, as pilotos de combate Lidya Litvyak e Katya Budanova, voavam com seu regimento para impedir que os alemães arremessassem provisões para as tropas sitiadas. As duas haviam pilotado aviões esportivos e haviam sido instrutoras de voo antes da guerra, mas aprenderam mais em seus 10 meses de exército do que em toda a carreira anterior. Outro piloto lembra a reação do comandante do regimento quando chegaram quatro mulheres com suas tripulações. "Me dói ver uma mulher lutando na guerra. Me dói e me dá vergonha. Como é possível que nós, os homens, não tenhamos conseguido evitar que fizessem um trabalho tão pouco feminino?". As jovens tiveram que demonstrar suas habilidades e comprometimento. Klava Nechaeva, de 23 anos, morreu em sua primeira missão, depois de convencer seu chefe a deixá-la participar da batalha. As duas corajosas mulheres desafiaram a morte com várias missões no inferno de Stalingrado e sobreviveram àquele inverno, mas ambas caíram em agosto de 1943.

Quando a batalha de Stalingrado chegou ao fim, centenas de milhares de mulheres haviam se alistado ao Exército. O país havia perdido tantos homens que as autoridades não tiveram outra alternativa que não fosse utilizar mulheres em todas as funções militares. Não existem dados concretos sobre as mulheres que serviram, de modo que os cálculos variam muito, desde meio milhão a quase um milhão. O fronte se transferiu e as jovens que continuavam vivas e com boa saúde foram com ele. Muitas das mulheres que entrevistei continuaram lutando até o final da guerra e estiveram em Berlim para comemorar a vitória (muitos soldados estavam convencidos de que Berlim deveria ficar em ruínas como os alemães haviam deixado Stalingrado). Continuaram presenciando a morte e a dor e perdendo suas camaradas. Mas nunca voltaram a viver uma situação tão desesperadora quanto a de Stalingrado, nunca voltaram a sentir que estavam sendo esfaqueadas tão profundamente que poderiam perder a guerra.

Lyuba Vinogradova é autora de As Bruxas da Noite e Anjos Vingadores (ambos pela editora Passado e Presente). Os testemunhos citados neste artigo são de entrevistas realizadas pela própria autora e do projeto 'Iremember. Lembranças de veteranos da Segunda Guerra Mundial'. (www.iremember.ru).



sábado, 14 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 14


A GUERRA

É verdade tudo aquilo que se escreve e diz acerca do grande mal que a guerra representa. Dever-se-ia considerar também, entretanto, quanto maior é aquele mal que é impedido com guerras. Claro, se as pessoas fossem retas e de bom grado mantivessem a paz, a guerra seria a maior calamidade sobre a terra. Que achas, entretanto, do fato de o mundo ser ruim, de as pessoas não quererem manter a paz, não quererem deixar de pilhar, roubar, matar, violar mulheres e crianças, tirar os bens e a honra? É esta discórdia geral do mundo inteiro, pela qual não restaria nenhum ser humano, que precisa ser evitada por intermédio da discórdia menor chamada de guerra ou de espada. É por isso que Deus também á à espada esta honra elevada de denomina-la de sua ordem própria, e não quer que se diga ou pense que foram seres humanos que a inventaram ou instituíram. Pois a mão que conduz esta espada e mata também não é mais mão humana, mas a mão de Deus, e não é a pessoa humana, mas Deus que está enforcando, rodando, decapitando, estrangulando e guerreando. Tudo isso é obra sua e juízo seu.

Em suma: o que se deve olhar no ofício militar não é o fato de matar, incendiar, ferir, conquistar, etc. Pois quem faz isto é o estreito olhar de criança ingênua que não enxerga outra coisa senão que o médico está cortando fora a mão ou serrando a perna; enxerga, mas não se dá conta de que a finalidade é salvar o corpo inteiro. Da mesma forma se deve olhar o ofício militar ou da espada com olhos de homem, enxergando a razão por que ele mata e age de forma tão cruel. Assim ficará provado por si mesmo que se trata de ofício em si divino e tão necessário e útil para o mundo como o comer e o beber, mais do que outra obra. O fato, entretanto, de alguns abusarem desse ofício, matando e ferindo sem necessidade, somente para satisfazer seus caprichos, é culpa não do ofício, mas da pessoa. Pois onde está o ofício, a obra ou qualquer coisa que seja, tão boa que não seja que gente descarada e malvada não abusassem deles? São como médicos loucos que quisessem decepar uma mão sadia de uma pessoa, sem necessidade, por puro capricho, sim, fazem parte da discórdia geral, a qual precisa ser combatida com guerra justa e espada, obrigando-a [a tornar-se] paz. Assim também sucede e sempre sucedeu que são derrotados aqueles que entram em guerra sem necessidade. Pois em última análise não conseguem resistir ao juízo de Deus, isto é, à sua espada. Ele os encontra e atinge por fim, como agora também sucedeu na rebelião dos camponeses.

(Lutero, Martinho. Guerra dos Camponeses. Acerca da Questão, Se Também Militares Ocupam uma Função Bem-Aventurada. 1526. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. Tradução de Walter O. Schlupp. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. 1996. vol. 6. págs. 366-367)



terça-feira, 10 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 10


O DIREITO

Alguém poderá dizer: Mas como? Não se deve defender o direito? Devemos renunciar à verdade? Não nos foi ordenado morrer por amor do direito e da verdade? Acaso os santos mártires não sofreram por causa do Evangelho? Não quis ter razão o próprio Cristo? Em todos os casos acontece que, às vezes, tais pessoas têm razão perante o público (e, como alardeiam, perante Deus), e agem bem e sabiamente. Respondo: Está na hora e urge abrir os olhos. Aqui está o nó da questão: importa, pois, que se esteja bem instruído sobre o que é estar com a razão. É certo que se deve sofrer qualquer coisa por amor da verdade e do direito e que não se deve negá-los, por mais insignificante que seja o assunto. Pode, inclusive, ser que tenham razão. No entanto, arruínam o direito por não executarem o direito conforme o direito, não agem com temor, não têm a Deus diante dos olhos. Acham que basta que seja direito, devem e querem prosseguir por sua própria autoridade e levar o jogo até o fim. Com isso transformam seu direito em injustiça, embora, em princípio, fosse justo. O perigo, porém, é muito maior quando apenas acham que é direito, mas não têm certeza, como ocorre nos elevados assuntos que dizem respeito a Deus e sua justiça. Em primeiro lugar, todavia, queremos falar do simples direito humano e dar um exemplo singelo e compreensível.

Acaso não é verdade que dinheiro, bens, corpo, honra, mulher, filhos e amigos, etc. também são coisas boas que o próprio Deus criou e deu? Sendo dons de Deus e não tua propriedade, [suponhamos] que ele queira pôr-te à prova para ver se serias capaz de renunciar a eles por amor a ele, aferrando-te mais a ele do que a esses seus bens; que ele te mandaria um inimigo que os tirasse de ti todos ou em parte e te prejudicasse, ou então os perdesses por morte e ruína, ou de outra forma. Crês que, neste caso, terias motivo justo para esbravejar, enfurecer-te e para recuperá-los com violência e à força, ou ficares impaciente até recobrá-los? Alegarias que são coisas boas e criaturas de Deus que ele próprio fez, e que toda a Escritura considera boas essas coisas; por isso estarias disposto a cumprir a palavra de Deus e proteger esses bens com o corpo e a vida e recuperá-los; ou então, ao menos, não estarias disposto a renunciar a eles espontaneamente nem entregá-los resignadamente. Não pareceria bonito? Se quisesses proceder bem neste caso, não deverias tentar passar com a cabeça pela parede. Como então? Deverias temer a Deus e dizer: Bem, querido Deus, são coisas boas e bens teus, como diz tua própria palavra, a Escritura. Não sei, porém, se mos queres conceder. Se porém, soubesse que preferirias vê-los em meu poder do que no poder daquele outro, quereria servir a tua vontade e recuperá-los com o empenho de corpo e bens. Como, porém, não sei nenhuma nem outra e vendo [apenas] o fato de que, no momento, permites que me sejam tirados, entrego a causa a ti. Aguardo o que devo fazer e estou disposto a tê-los ou a prescindir deles.

Eis aí uma alma justa; ela teme a Deus, conta com a misericórdia, como canta a mãe de Deus; a partir daí se pode compreender por que, em tempos passados, Abraão, Davi e o povo de Israel lutaram e mataram muita gente: empreenderam [essas coisas] por vontade de Deus, temiam [a Deus] e não lutavam por causa dos bens, mas porque Deus o esperava deles, como o demonstram os relatos, indicando, em geral, a ordem prévia de Deus. Vê, aqui a verdade não é negada: a verdade afirma que são coisas boas e renunciar a esses bens e estar disposto, a todo momento, a prescindir deles, quando Deus assim o quer, e que deves prender-te somente a Deus. A verdade não te obriga a recuperar os bens ao afirmar que são bons. Tampouco te obriga a dizer que não são bons. Muito antes deves ter uma atitude serena em relação a eles e confessar que são bons, e não maus.

Da mesma forma deve-se proceder também com o direito e toda sorte de bens da razão ou da sabedoria. O direito é uma coisa boa e dádiva de Deus – quem iria duvidar disso? A própria palavra de Deus afirma que o direito é bom e jamais alguém deve admitir que suas causas boas e justas sejam injustas ou más; antes deve morrer por isso e renunciar a tudo que não é de Deus; pois isso significaria negar a Deus e sua palavra que diz que o direito é bom e não mau. Acaso quererias gritar por causa disso, raivejar, esbravejar e destruir o mundo inteiro quando esse direito te é tirado ou suprimido? (Há os que procedem desse modo, os que clamam ao céu, provocam toda sorte de miséria, destroem terras e povos, cobrem o mundo com guerras e derramamento de sangue). Sabes acaso se Deus quer deixar-te essa dádiva e esse direito? Ora, é propriedade dele e ele pode to tirar hoje ou amanhã, dentro ou fora, por meio de inimigos e amigos e como quiser. Ele quer experimentar-te se, por amor dele, também estás disposto a renunciar ao direito, a não ter razão e sofrer injustiça, suportar a ignomínia por sua causa e a te prenderes somente a ele. Se és temente a Deus e pensas: Senhor, tudo é teu, não quero tê-lo a não ser que saiba que mo queres conceder; que se vá, seja o que for, contanto que tu sejas meu Deus – então se aplica este versículo: “E sua misericórdia está com aqueles que o temem”, que nada querem fazer sem sua vontade. Vê, aí está cumprida a palavra de Deus em ambos os casos: em primeiro lugar, confessas que o direito, tua razão, teu conhecimento, tua sabedoria e toda tua intenção são justos e bons, como o diz a própria palavra de Deus. Em segundo lugar, prescindes desses bens voluntariamente por amor de Deus, e aceitas ser destruído e injuriado injustamente pelo mundo, como o ensina igualmente a palavra de Deus. “Duas coisas são boas ou justas: confessar e conquistar”. Para ti basta confessar que tens o bem e o direito; se não o puderes conquistar, entrega isso a Deus. A ti se ordenou confessar; o conquistar está reservado a Deus. Se ele quiser que também o conquistes, ele mesmo o fará ou então to colocará à disposição, sem que te tivesses lembrado, de maneira que o deverás pegar na mão e conquista-lo de uma forma como jamais o terias imaginado ou desejado. Se ele não quiser, que te baste sua misericórdia. Ainda que te tomem a vitória do direito, não te podem tomar o confessar. Vê, assim temos que nos distanciar, não dos bens de Deus, mas do mau e perverso apego a eles, de modo que possamos renunciar a eles ou usá-los com tranquilidade, para que, em todos os casos, nos apeguemos somente a Deus. Isso deveriam saber todos os príncipes e autoridades que não se satisfazem com o confessar do direito, mas também querem, em todos os casos, conquista-lo e vencer, sem temor de Deus. Cobrem o mundo de sangue e miséria, acham que procedem bem e com justiça, porque a causa é justa ou, ao menos, acham que é justa. Isso não é outra coisa do que o orgulhoso e presunçoso Moabe, que declara e se considera digno a si mesmo de possuir o nobre e belo bem e dom de Deus (o direito), quando, na verdade, caso se contemplasse bem na presença de Deus, não é digno sequer de que a terra o suporte e de comer a códea [casca, crosta] do pão, por causa de seus pecados. Oh cegueira! Oh cegueira! Quem é digno ainda que seja da menor criatura de Deus? Contudo, não apenas queremos ter as criaturas mais elevadas, o direito, a sabedoria e a sua honra, mas ainda queremos preservar e conquista-las com furioso derramamento de sangue e toda sorte de desgraça. Depois vamos e fazemos orações, jejuamos, ouvimos a missa, fundamos igrejas com essa mente sanguinária, furiosa e louca, de sorte que não admiraria se as pedras arrebentassem diante de nossos olhos.

(LUTERO, Martinho. O Magnificat. 1521. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegra: Concórdia. Tradução Ilson Kayser. 1996. Vol. 6, págs. 56-58)



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

100 anos atrás, o papa Bento XV denunciava o "massacre inútil" da 1ª Guerra Mundial


A Primeira Guerra Mundial terminaria 15 meses depois, mas o estrago já estava feito.

A matéria é da Rádio Vaticano:

Há cem anos atrás, a Carta de Bento XV contra o "massacre inútil”

“Poucas afirmações extraídas de documentos pontifícios tiveram tão grande influência histórica como a que foi escrita por Bento XV em 1º de agosto de 1917, quando, passados três anos da deflagração da I Guerra Mundial, lançou um apelo aos ‘chefes dos povos beligerantes’ a dar fim a um conflito cruento que todos os dias se mostrava cada vez mais ‘como um massacre inútil’".

É o que escreve o presidente da Conferência Episcopal Italiana (CEI), Cardeal Gualtiero Bassetti, num editorial para o jornal vaticano “L’Osservatore Romano” de 31 de julho – 1º de agosto.

Advertência de grande importância moral e política

“Ainda hoje, à distância de cem anos, aquelas palavras ressoam, não somente no discurso público, mas na consciência profunda de toda pessoa, como uma advertência de grande importância moral e política”, afirma o arcebispo de Perugia.

Naquela carta “o Papa pedia de modo contundente uma ‘paz justa e duradoura’ que pudesse sedimentar-se – graças aos mais importantes instrumentos da época: o pedido de um arbítrio internacional, a restituição recíproca de alguns territórios e a necessidade imperiosa de um desarmamento”.

Palavras de Bento XV revelaram-se proféticas

Embora as suas palavras não tenham mudado o rumo do conflito mundial, mesmo assim “revelaram-se proféticas”, sobretudo pelo seu “duríssimo juízo sobre a guerra”, acrescenta.

“A evocação de ‘um massacre inútil’ tornou-se a partir daquele momento uma espécie de grito de dor pela guerra moderna e todo tipo de atroz morte de massa provocada pela modernidade niilista. E não casualmente, o Papa Francisco a evocou por ocasião do G20 para denunciar os massacres inúteis de migrantes no Mediterrâneo” – observa o Cardeal Bassetti.

Início da elaboração de uma nova teologia da paz

O presidente dos bispos italianos afirma ainda que as palavras de Bento XV com a denúncia da guerra qual “massacre inútil” marcam “o início da elaboração de uma nova teologia da paz”.

Uma nova teologia da paz que não se fundamenta baseada em vagos propósitos ideais, mas indiscutíveis princípios evangélicos: a justiça, a caridade e a dignidade da pessoa humana.

Jamais como hoje essa teologia da paz “deve ser defendida daqueles que, de modo vil e mesquinho, perpetram brutais actos terroristas contra a humanidade inocente” e “de quem provoca as guerras por uma vontade de poder, de conquista e por interesses económicos”.

Força moral do direito na busca da paz

“Buscar a paz não é o produto de uma civilização decadente com uma identidade frágil – pondera ele –, é exactamente o contrário. Buscar a paz é um exercício heróico, que requer um esforço enorme, incessante, diário, e que requer uma força diferente da força militar: é a força da fé; a força do diálogo; e, como escrevia Bento XV, a ‘força moral do direito’.”

“Portanto, este é o tempo de defender o compromisso em prol da paz com coragem, determinação e mansuetude. Buscando dar-lhe também novos significados e uma linguagem renovada. Com um único grande objectivo: superar todos massacres inúteis do mundo actual”, conclui o presidente da Conferência Episcopal Italiana. (BS/RL/Sir)

Bento XV, cujo papado começou em 1914 (junto com a 1ª Guerra Mundial) e terminou com sua morte em 1922.




domingo, 30 de abril de 2017

Aqueles últimos dias de Berlim em 1945

Soldado soviético hasteia bandeira da URSS no topo do Reichstag em 1945.
Uma imagem que resume o fim de uma era.

O dia 30 de abril de 1945 é tido como o dia em que Adolf Hitler se matou em seu bunker que se situava embaixo da Chancelaria em Berlim, então capital da Alemanha nazista.

Sua visão mórbida do III Reich havia começado em 30 de janeiro de 1933, quando foi alçado à condição de Chanceler.

A partir de então, por mais de 12 anos, um reino de morte, dor e desgraça se instalou no mundo e, para nós que estamos perto da terceira década do terceiro milênio, é particularmente estranho notar que não faz tanto tempo assim.

Apenas 72 anos nos separam das ruínas de Berlim, e sua glória e sua devastação podemos acompanhar em poucos minutos que foram filmados em película colorida de razoável qualidade.

O primeiro vídeo abaixo (8 minutos) foi gravado em 1936, ano em que Berlim sediou as Jogos da XI Olimpíada, e no qual o mundo ainda não estava a par da tragédia à qual seria apresentado - e quase inteiramente destruído - pouco tempo depois.

Uma cidade vibrante pulsava no ritmo dos carros que desfilavam pelo Unter den Linden, seu lindo boulevard, e pela Alexanderplatz.

As pessoas felizes comendo, bebendo e dançando em seus cafés não percebiam as nuvens negras que se aproximavam.


O segundo vídeo abaixo (quase 6 minutos), começa com a última aparição pública de Hitler por ocasião de seu 56º aniversário, quando recebia os cumprimentos da Juventude Hitlerista no que havia sobrado dos jardins da Chancelaria, acima do bunker onde se escondia.

No fim do vídeo se pode observar boa parte dos meninos da Hitlerjugend que se renderiam assustados (mas ainda cheios de ódio) enquanto seu tresloucado Führer esperava que eles defendessem a cidade contra os ataques soviéticos.

Rua após rua, prédio após prédio, soldados soviéticos e alemães lutam pelo que sobrou de Berlim, enquanto civis tentavam se safar, mas todos já sabiam do fim anunciado.

Era só uma questão de tempo.

Em 2 de maio de 1945, Berlim se renderia, e no dia 8 de maio o marechal Wilhelm Keitel assinaria formalmente o termo de rendição.

Keitel seria julgado em Nuremberg e - considerado culpado - foi executado em 16 de outubro de 1946.

Enquanto isso, o grande general soviético Georgy Zhukov inspecionava o que havia sobrado de Berlim.

O general Dwight D. Einsenhower, comandante dos aliados, que em 1953 se tornaria presidente dos Estados Unidos, não aparece no vídeo, mas pessoas próximas a ele e a Zhukov disseram que, se as relações soviético-americanas tivessem sido deixadas a cargo de ambos, a história do mundo seria outra, já que havia verdadeira amizade e muito respeito entre os dois.

Enfim, o vídeo mostra que houve homens e mulheres que honraram e foram dignos do que deles se exigiu naqueles tempos, enquanto a outros foi reservada a lata de lixo da História.


O vídeo abaixo (7 minutos) mostra Berlim já em julho de 1945.

A cidade já estava dividida nos diferentes setores destinados aos vencedores aliados, Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido e França, que mais tarde gerariam a divisão entre Alemanha/Berlim Ocidental e Oriental que durou décadas.

Percebe-se que os alemães andavam pelas ruas como quem acabara de sair de um pesadelo, ou de um sonho que pareceu bom por algum tempo, mas - mesmo em meio a tanta desgraça - estavam de certa forma "contentes" por haverem sobrevivido aos horrores da guerra.

Talvez "felicidade" (e seus derivados) fosse uma palavra que eles não estavam mais em condições de utilizar.

Pelo menos, era verão e nos mutirões de reconstrução já era possível observar alguns sorrisos:


Talvez a imagem mais contundente seja a do Berliner Sportpalast, onde outrora ecoavam os discursos demagogos de Hitler e Goebbels e que foi totalmente destruído no fim da guerra.

O vídeo termina com uma panorâmica da Unter den Linden, a avenida principal de Berlim, mostrando que, de alguma maneira, em meio a tantos escombros, ainda havia alguma esperança para a capital alemã.

Na virada de abril para maio de 1945, certamente os berlinenses tinham sentimentos conflitantes. 

De um lado, tudo indicava o extermínio do povo alemão e de sua capital após uma derrota tão fragorosa depois de tanta barbárie e maldade que os nazistas haviam infligido aos povos conquistados.

Por outro lado, talvez alguns poucos alemães tivessem um fio de esperança de reconstruir o seu país, a sua nação e o mundo como um todo.

Entretanto, era urgente sobreviver...

Enfim, Berlim e o mundo não conseguiram voltar ao "normal". Felizmente, porque o "normal" até então era a guerra total, mas lograram estabelecer uma nova ordem que - até hoje - luta para se manter em pé e em paz.




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

75 anos atrás, os japoneses iam para os campos de concentração nos EUA

Crianças americanas de ascendência japonesa não ficaram livres do horror da guerra, mesmo distante dela.

A matéria é do jornal português Público, com grafia lusitana:

Japoneses-americanos recordam campos de concentração, 75 anos depois

A 19 de Fevereiro de 1942, o Presidente Roosevelt assinava um decreto para autorizar a detenção de norte-americanos de ascendência japonesa. Cerca de 120 mil passaram parte da II Guerra Mundial em campos de concentração nos EUA.

Joyce Nakamura Okazaki tinha sete anos em 1942 quando a família deixou a sua casa em Los Angeles e apresentou-se num campo de internamento para americanos de ascendência japonesa no deserto californiano, durante a II Guerra Mundial. Recorda-se de quartos cheios de berços e do embaraço que sentia pelo facto de as casas-de-banho do campo de Manzanar não terem privacidade. “Tal como aconteceu na Alemanha Nazi, nós, japoneses-americanos, fomos postos em campos de concentração”, disse Okazaki, hoje com 82 anos, apesar de reconhecer que os detidos não foram mortos ou torturados.

“Mas estávamos constantemente sob ameaça se nos aproximássemos das redes de arame farpado”, recorda.

Há 75 anos, assinala-se neste domingo, o Presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt assinava a ordem executiva 9066, que autorizava a detenção dos japoneses-americanos.

Cerca de 120 mil pessoas foram detidas em dez campos devido ao receio de que os japoneses-americanos colaborassem com o inimigo. Três meses antes, os Estados Unidos tinham entrado na II Guerra Mundial após o ataque surpresa do Japão contra Pearl Harbour, no Havai.

As fotos da altura ilustram o sentimento de perda de liberdade destes cidadãos americanos: homens elegantemente vestidos, de fato e gravata, a formarem filas nas ruas das cidades, ao lado de sacos e mala, a caminho dos campos. Uma mãe de bebé ao golo debruçando-se sobre as bagagens. O pó e as camaratas. Um detido a conduzir um tractor dentro do campo. Para recordar este período da história, uma exposição fotográfica com trabalhos de nomes cimeiros como Ansel Adams e Dorothea Lange abriu na sexta-feira no Museu Nacional de História Americana em Washington DC. Entre as muitas fotografias está a que imortaliza Okazaki, abraçada à mãe e à irmã, no campo de Manzanar.

Okazaki recorda uma vida de medo no campo. “Com redes de arame farpado e torres de vigia e guardas armados, ganha-se medo”, conta à Reuters.

Paralelos com o decreto de Trump. Alguns japoneses-americanos traçam agora um paralelo entre o internamento forçado nos anos 40 do século passado e a ordem executiva do actual Presidente dos EUA, Donald Trump, que no mês passado proibiu temporariamente a entrada de pessoas oriundas de sete países de maioria muçulmana.

“Como se reage hoje à proibição dos muçulmanos é como se reagiria à prisão dos meus avós e pais há 75 anos”, afirmou em Janeiro no Congresso o representante Mark Takano, cuja família foi detida durante a II Guerra Mundial.

O antigo detido Kanji Sahara recorda a chegada a um campo no hipódromo de Santa Anita, a meia hora da sua casa em Los Angeles, quando tinha oito anos. “Disseram-nos para nos apresentarmos à nossa igreja local. Estava uns dez ou 15 autocarros lá à nossa espera”, recorda Sahara, hoje com 82 anos. “Quando saí do autocarro, conseguia ver filas e filas de estábulos e barracas no parque estacionamento. Era aí que vivíamos”, conta.

O hipódromo foi um “centro de reunião” temporário para mais de 18 mil pessoas. Entre estas estava George Takei, que se tornaria um conhecido actor da saga Star Trek.

Seis meses depois, Sahara e a sua família foram transportados para um campo permanente em Jerome, estado norte-americano do Arcansas. Desta vez, foram de comboio.

“Havia guardas nas pontas de cada carruagem e as persianas estavam baixadas”, recorda Sahara.

No entanto, o período em Jerome correspondeu a uma melhoria das condições de vida. “A primeira coisa que notei foi o número de pessoas que vivia em cada camarata, comparado com Santa Anita, onde quase não nos conseguíamos mexer”, conta Sahara.

O rapaz de ascendência japonesa e a família só foram autorizados a sair do campo em 1945, tinha Sahara 11 anos. Okazaki e a família foram libertados em Julho de 1944. Foram obrigados a jurar lealdade aos Estados Unidos para recuperar a liberdade.

Hoje, Okazaki rejeita o termo “internamento” e prefere falar de “detenção” ou de “prisão”.

“Eu não fui internada, porque sou uma cidadã americana. A definição legal de internamento refere-se a inimigos estrangeiros em tempos de guerra”, explica.

Em 1988, o Presidente Ronald Reagan assinou uma lei a conceder indemnizações aos sobreviventes. Cada um recebeu cerca de 20 mil dólares e um pedido de desculpa.



Aliás, recomendamos um grande filme sobre essa época, "Neve sobre os Cedros"





quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Quem nos protegerá de Trump?

Marcelo Rubens Paiva tenta responder essa angustiante questão em coluna interessante publicada no Estadão de 14 de janeiro de 2017:

Aprender com o erro

Foi a ameaça de extinção em massa que freou a corrida armamentista da Guerra Fria

Os genes humanos cederam sua primazia na evolução dos homens a um agente completamente novo, inédito, não biológico, a cultura. Mas não devemos nos esquecer que tal agente novo e original é completamente dependente dos anciões genes humanos para existir. Aliás, foi feito pelos genes humanos, ser social que começou entre grupos de caçadores e colhedores coletivos, e que passou a pintar cavernas, compor músicas e contar histórias. Este é um dos pilares da sociobiologia de Theodosius Dobzhansky e Edward Wilson. Mas o que é cultura? Música, poesia, pintura, dança, esporte, folclore, festas familiares, jogos, religião, filosofia, narrativas e muito mais.

É culinária, confecção, decoração, previsão do futuro, contrato social, casamento, compreensão dos astros, calendário, divisão do ano em estações, meses, dias, horas, controle do tempo, ter noção do antes e depois, da vida e da morte.

É altruísmo (por incrível que pareça, poucas espécies o tem), tabu do incesto (aqui, há divergências, já que alguns acreditam que haja uma aversão natural de se afastar de alguém com quem conviveu na infância por mais de seis anos, o que aumenta a chance de diversificação genética do grupo), divisão entre infância e puberdade, rituais que celebram o princípio da fertilidade, cura pela fé, mitologia, divisão em castas, análise de sonhos, medicina, drogas psicoativas, educação.

Cultura é penteado, tatuagem, colares, cocares, fabricação de armas, utensílios para caça, cozinha, higiene pessoal. E ética, governos, Estado, nomes, nomes familiares, classificação das coisas, das cores, números, regras de convívio, rituais, leis, sanções penais, exílio ou banimento, superstições, correspondências, sinais e documentos.

Antropólogos e os pioneiros da sociobiologia costumam delimitar os avanços da humanidade como parte do alcance genético. Todas as particularidades da cultura humana têm explicações genéticas, fazem parte da evolução. Como entender Trump pela Teoria da Evolução, já que pode levar ao colapso das relações sociais.

É famosa a hipótese de Robin Fox. Que foi reproduzida em termos no clássico O Senhor das Moscas, de William Golding (Nobel de 1983), e recentemente no filme alemão A Onda, em que um professor de história prova que é possível, sim, que o nazismo possa voltar à Alemanha do novo milênio, numa experiência radical pedagógica que serve àqueles que não acreditam que tamanha insanidade coletiva um dia ocorreu.

Como seria se mandássemos bebês a um cenário isolado, uma ilha, um planeta, em que sobrevivessem sem contato conosco? Como seria a civilização criada por eles? Aprenderiam a se comunicar uns com outros? Teriam fala, escrita? Seus descendentes teriam inventado uma língua completamente diferente das existentes entre nós? Esta língua teria vários troncos? Seria possível nós entendermos esta ou estas línguas? Seria possível traduzi-las? Elas seguem os mesmos princípios de uma linguagem humana?

Fox vai longe. Esses exilados autônomos, se sobrevivessem ao isolamento, construiriam uma sociedade que teria governo, leis de propriedade, regras sobre o casamento, costumes sobre tabus, métodos para resolver conflitos sem derramamento abusivo de sangue, crenças no transcendente e sobrenatural (religião), práticas religiosas, mitos e lendas, narrativas orais, educação, sistema de status social, cerimônia para iniciação dos jovens, práticas de corte como enfeites para homens e mulheres, pinturas corporais, jogos, regras, disputas, prêmios, indústria de fabricação de ferramentas, armas, adultério, suicídio, psicoses, neuroses, curandeiros, família, guerras e pacificação.

Se a roda não tivesse sido inventada, seja lá onde ela foi inventada, outro povo a inventaria. Se Gutenberg não tivesse inventado a prensa mecânica, alguém a inventaria. Se o tear mecânico não tivesse sido inventado, alguém o inventaria. O avião foi inventado ao mesmo tempo por Santos Dumont e pelos irmãos Wright. Assim como a Teoria da Evolução.

O mundo está assustado. Procura nos manuais de ciência política explicações para a eleição de Trump. Ele é uma releitura de Silvio Berlusconi, o empresário não político, que admira Nixon e Reagan, do ideário republicano radical, somado ao ódio histérico fomentado pelo macarthismo, que o desencanto com a política e com a elite liberal levou ao poder.

Trump é perigoso. Escolheu os imigrantes como o senador Joseph McCarthy escolheu os comunistas, para numa caça às bruxas governar sem projeto. É uma aberração política? É explicado pelo darwinismo social?

As crianças isoladas inventariam a República e a paz entre cidades, o reino e a promessa de estabilidade, a guerra total de Hitler e depois a paz, Trump, o conflito extremo, e a democracia e o Estado de bem social.

Trump é a razão para a existência de Trump: é preciso identificar e entender o ódio, eventualmente, para explicar como é fundamental para a sobrevivência da espécie a tolerância, a ética e o altruísmo.

Foi a ameaça de extinção em massa que freou a corrida armamentista da Guerra Fria. Foram as bombas de Hiroshima e Nagasaki que impediram a detonação rotineira de outras em cidades habitadas.



terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Crânio de Mengele vira material didático na USP

A informação é do Estadão:

Ossos de médico do Holocausto são usados em classe de Medicina em SP

Restos mortais de Josef Mengele, que conduziu experimentos em Auschwitz, viraram objeto de pesquisa na USP

SÃO PAULO - Por mais de 30 anos, os ossos de Josef Mengele, médico alemão que conduziu experimentos em milhares de judeus em Auschwitz, ficaram esquecidos em um saco plástico azul no Instituto de Medicina Legal (IML) em São Paulo.

O doutor Daniel Romero Muñoz, que liderou a equipe responsável pela identificação dos restos de Mengele em 1985, viu uma oportunidade de dar a eles uma utilidade. Há vários meses, o diretor do Departamento de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) obteve permissão para usá-los em estudos de Medicina Forense. Hoje, seus estudantes estão aprendendo a profissão estudando os ossos de Mengele e os conectando com a história de vida do homem conhecido como "Anjo da Morte".

"Os ossos serão úteis para ensinar como examinar os restos de um indivíduo e então confrontar a informação com dados de documentos relacionados àquela pessoa", disse Muñoz, recentemente, cercado de estudantes.

Mengele morreu há quase quatro décadas quando se afogou na costa do Estado de São Paulo. Ele esteve foragido por anos, escondido enquanto era procurado por conduzir experimentos em presos e por ter mandado milhares deles para a câmara de gás durante a 2ª Guerra Mundial.

"A vida de foragido de Mengele, e o mistério sobre o seu paradeiro, são parte do que faz seus ossos uma ferramenta útil de aprendizagem", disse Muñoz. "Por exemplo, examinando os restos dele, vimos que a pélvis esquerda estava fraturada", disse, acrescentando que a "informação encontrada em seu histórico militar dizia que ele tinha fraturado a pélvis em um acidente de moto em Auschwitz", o notório campo de concentração na Polônia.

Segurando o crânio de Mengele, Muñoz apontou para um pequeno buraco no lado esquerdo do osso da bochecha, que ele disse ter sido o resultado de um sinusite de longa duração. Muñoz disse que o casal alemão que recebeu Mengele no Brasil informou à polícia que ele frequentemente sofria de abscessos dentários que ele mesmo tratava com uma lâmina.

"Não me sinto bem (a respeito do uso dos ossos de Mengele para estudo)", disse Cyrla Gewertz, uma sobrevivente do holocausto de 92 anos. "Já tenho muitas memórias dolorosas dele, do que ele me fez e a outros em Auschwitz. Essas são memórias que não posso apagar da minha mente."

Depois da guerra, Cyrla, que disse ter sido internada também em outros campos de concentração como Ravensbruck e Malchow, foi para a Suécia, onde viveu por sete anos e onde conheceu e se casou com seu marido com quem veio ao Brasil em 1952.

Polonesa, Cyrla tem uma tatuagem no seu braço esquerdo a identificando como uma prisioneira de Auschwitz: A24840. Ela disse ter ficado cara a cara com Mengele em diversas ocasiões.

"(Mengele) me disse para tirar a roupa e entrar em uma caldeira com água extremamente quente", disse Cyrla em uma entrevista em seu apartamento em São Paulo. "Eu disse que a água estava muito quente e ele disse que se não fizesse o que ele mandava, me mataria. Depois, tive que entrar em uma caldeira com água congelante." Cyrla disse ter visto uma vez Mengele matando uma bebê recém-nascida jogando-a do topo da instalação do quartel. "Ele era uma pessoa má e perversa", ela disse. "Era um torturador."

Depois da guerra, diante do julgamento ao qual foram submetidos os membros de liderança do 3º Reich de Adolf Hitler, Mengele fugiu para a Argentina e morou em Buenos Aires por uma década.

Ele se mudou para o Paraguai depois que integrantes da agência israelense Mossad capturou o cabeça Adolf Eichmann, que também morava em Buenos Aires. Em 1960, ele chegou a São Paulo, onde recebeu abrigo do casal alemão Wolfram e Lisolette Bossert e de uma família de imigrantes húngaros.

Mengele, então com 67 anos, morreu enquanto nadava na praia da cidade de Bertioga em 1979. O casal Bossert o enterrou em Embu, nos arredores de São Paulo sob o falso nome de Wolfgang Gerhard. Anos depois, autoridades alemãs interceptaram uma carta enviada pelo casal à família de Mengele com a notícia da morte. Eles alertaram as autoridades brasileiras.

Em 1985, seu corpo foi exumado. Equipes da Alemanha, Israel, Estados Unidos e Brasil confirmaram que se tratava de Mengele, usando métodos incluindo a análise de testemunhos de pessoas que o conheceram no Brasil, comparando sua caligrafia em cartas apreendidas e estudando o crânio recuperado para checar se era compatível com fotos antigas.

A professora Maria Luiza Tucci Carneiro, historiadora que coordena o laboratório de estudos étnicos, racismo e discriminação da USP disse esperar que o aprendizado da classe chegue eventualmente além da ciência para a história e a ética. Estudantes devem também aprender "como médicos, psiquiatras e outros cientistas de relevância estavam a serviço do Reich, emprestando conhecimento para excluir grupos étnicos classificados como pertencentes a raças inferiores", disse Maria Luiza. "Uma exclusão que culminou em genocídio.



terça-feira, 15 de novembro de 2016

Após 2 anos sem vê-la, soldado iraquiano reencontra a mãe fugindo de Mossul


O vídeo abaixo mostra um desses momentos emocionantes em que todos nós nos sentimos iguais como seres humanos, independentemente de nossas origens nacionais, culturais e religiosas.

Nem precisa entender a língua, porque quando se trata de amor entre mãe e filho, o idioma é universal.

O vídeo em questão mostra a busca do soldado iraquiano de nome Saad, que saiu de Mossul dois anos atrás para servir ao exército iraquiano, exatamente no momento em que o Estado Islâmico invadiu e tomou aquela cidade sagrada do norte do país, deixando boa parte de sua família por lá.

Depois de dois anos, Saad está de volta a Mossul na ofensiva liderada pelo exército iraquiano, que está libertando a cidade das mãos cruéis e assassinas dos militantes do Estado Islâmico.

É aí que ele fica sabendo que sua família está num dos muitos ônibus que estão levando os civis já liberados para longe da cidade, e ele vai atrás de sua mãe.

É lindo ser humano. Pena que nossas diferenças banais nos façam perder a chance de viver nossa humanidade comum em sua plenitude.

Emocione-se então:




sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Já estão tocando as trombetas da Terceira Guerra Mundial


Eita mundinho esquisito esse planeta que nos tocou habitar... guerras devem dar muito dinheiro, só assim se explica a voracidade mórbida para fabricar um conflito qualquer.

A matéria foi publicada em 13/10/16 pela estatal portuguesa RTP, com grafia lusitana:

Guerra (mundial) iminente?

Rui Sá, Daniel Catalão - RTP

Rússia e Estados Unidos estão em rota de colisão militar e não é apenas na Síria.

Há movimentações de misseis balísticos nucleares em vários pontos da Europa e da região da ásia-pacifico.

Em São Petersburgo, por exemplo, raciona-se já o pão à espera do eclodir da terceira guerra mundial, enquanto em Moscovo se preparam os abrigos nucleares.

Felipe Pathé Duarte, porta-voz do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, lembra que há em tudo isto uma componente de retórica discursiva muito importante mas diz que "há de facto movimentações preocupantes que não podem ser tomadas de ânimo leve" porque não são apenas palavras.

"Putin procura endurecer palavras e gestos simbólicos como forma de ganhar um lugar de destaque à mesa da diplomacia internacional", concluí o comentador do Jornal 2.

O presidente russo ordenou o regresso à pátria de todos os oficiais das forças armadas que estão no estrangeiro.

Fala em guerra iminente. Em Moscovo preparam-se abrigos antinucleares.

Imprensa próxima do Kremlin aponta para a Síria, olha os Estados Unidos e diz - "A terceira guerra mundial já começou".

No terreno é no entanto Putin quem intensifica os bombardeamentos sobre Aleppo. Os franceses cancelam a visita do presidente russo a Paris, falam em crimes de guerra e exigem responsabilização.

A Casa Branca diz nãoser possível negociar com quem não mantém os acordos, o Kremlin afirma que são os Estados Unidos e os seus aliados ocidentais quem está a provocar uma escalada da tensão na Síria.

Mas não é apenas a Síria a estar no centro da escalada das tensões entre Rússia e ocidente.

Na frente europeia há um aumento da repressão na Crimeia, com o FSB (serviços secretos russos) a liderar as rusgas e as detenções de ativistas locais.

Esta semana Putin ordenou a instalação de misseis balísticos nucleares no enclave de Kaliningrado, entre a Polónia e a Lituânia. Ambos países da OTAN.

De lembrar que este ano a Organização do Tratado do Atlântico Norte levou a cabo um dos maiores exercícios militares da sua história precisamente na Polónia, e que no Báltico, há a mobilização permanente de recursos para a defesa avançada do espaço aéreo ocidental. Portugal participa nessa missão na Lituânia com caças F-16.

Felipe Pathé Duarte lembra que há um claro sentimento na Rússia "de que o país está já sobre ataque por parte do Ocidente", pelo que as ações tomadas são justificadas pelos políticos, e militares, como sendo de defesa e inteiramente aceites pela generalidade dos russos.

Na oposição militar aos Estados Unidos da América Rússia e China dão mãos. Preparam-se gigantescos exercícios militares conjuntos.

Na mira de todos os discursos e ações a política dos Estados Unidos de instalar sistemas defensivos anti míssil em vastas zonas do mundo, da Europa a Israel, do Japão à Coreia do Sul.

Mas escalada global joga-se também num novo tabuleiro - o ciber espaço.

Os Estados Unidos acusam Moscovo de piratear informaticamente o partido democrata e a candidatura de Hilary Clinton, bem como de apadrinhar um plano para adulterar a votação eletrónica nas presidenciais de novembro.

Obama e Putin tiveram um encontro sobre o assunto. Moscovo nega. Washington garante não ter dúvidas do envolvimento russo.

As duas potências encontram-se este sábado para tentar o desanuviamento. De novo a questão Síria assume o centro da agenda.

Todos, no entanto, assumem que a Síria é apenas o ponto quente de uma nova guerra fria, mais vasta e global, que obriga a outro diálogo e diplomacia.



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