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quarta-feira, 9 de março de 2016

Papa recebe metodistas e valdenses no Vaticano


A informação é do IHU:

Uma delegação metodista e valdense foi recebida pelo Papa Francesco. 
A primeira vez isto acontece no Vaticano


“Um encontro que encoraja todos a prosseguirem no caminho da colaboração e da comunhão entre as nossas igrejas”. Entre os temas enfrentados: a missão num mundo secularizado, o serviço aos últimos, os corredores humanitários e o diálogo inter-religioso. “Foi um encontro centrado na fraternidade e na autenticidade no estilo ao qual o Papa Francisco nos tem habituado”. 

A reportagem foi publicada por Notizie Evangeliche - NEV, 05-03-2016. A tradução é de Benno Dischinger.


Assim o pastor Eugenio Bernardini, moderador da Távola valdense, descreveu a audiência que viu hoje no Vaticano, pela primeira vez na história, uma delegação oficial das igrejas metodistas e valdenses para encontrar o Papa.

“Foi um encontro que encorajou a todos a prosseguirem no caminho da colaboração e da comunhão entre as nossas igrejas, não obstante a diversidade, e às vezes também as divergências que nos contra distinguem – declarou ainda Bernardini.

“Em particular, emergiram duas áreas de colaboração. A primeira é a missão da Igreja num mundo sempre mais secularizado e distante do Evangelho, uma missão que deve caracterizar-se por linguagens novas, sem intentos proselitistas e sim no espírito do livre testemunho em Cristo. Em segundo lugar, uma colaboração no serviço ao mundo e à sociedade, aquela que nós chamamos diaconia e que, para o Papa Francisco: deve estar a serviço dos últimos. Também falamos daquela grande tragédia dos prófugos e da imigração que interroga o nosso continente europeu e naturalmente também as nossas igrejas”.

Na conversação foram citados os corredores humanitários promovidos pela Federação das igrejas evangélicas na Itália (FCEI), da Comunidade de Sant’ Egídio e da Távola valdense, e que levaram recentemente para a Itália, legalmente e em segurança, 97 pessoas consideradas particularmente vulneráveis. A perspectiva é de uma colaboração em nível europeu para que o modelo dos corredores humanitários possa ser apresentado e adotado também no âmbito de outras nações do continente. Além disso, registrou-se uma profunda sintonia no entender a dimensão ecumênica do diálogo inter-religioso, em particular com o Islã, num tempo no qual se reforçam ao mesmo tempo fundamentalismos e preconceitos.

A delegação valdense e metodista doou ao Papa uma série de desenhos inspirados nas histórias de prófugos e migrantes, apresentados num contendor construído com a madeira das barcaças de Lampedusa.

O Papa Francisco, ao invés, ofereceu à delegação acima os textos da encíclica “Louvado seja” e da “Evangelli guadium”. O Pontífice já havia encontrado os representantes das igrejas metodistas e valdenses no passado dia 22 de maio, num encontro havido junto à Igreja valdense de Turim. Além do moderador Bernardini, a delegação compreendia: Greetje van der Ver, Aldo Lausarot, Luca Anziani, Jens Hansen, Lothar Vogel, Maria Bonafede, Raul Matta, Claudio Paravati e Paolo Naso.



quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Denominações cristãs se dividem sobre impeachment de Dilma

A matéria é do Estadão:

Conselho de igrejas critica impeachment

CONSTANÇA REZENDE

Conic, que reúne evangélicos e católicos, divulgou nota em que acusa Eduardo Cunha de se basear em ‘argumentos frágeis’ para abrir processo

RIO - O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), composto pelas igrejas Evangélica de Confissão Luterana, Episcopal Anglicana do Brasil, Metodista e Católica, divulgou nota em que diz que o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), se baseou em “argumentos frágeis” ao abrir o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

A posição da entidade não é acompanhada por lideranças evangélicas ouvidas pelo Estado, favoráveis a Cunha, que é membro da Assembleia de Deus de Madureira. No documento, o Conic sustenta que o processo de impeachment não tem legitimidade e que o afastamento de Dilma “nos conduziria para situações caóticas”.

“Vemos com muita preocupação que o presidente da Câmara tenha acolhido um pedido de impeachment com argumentos frágeis, ambíguos e sem a devida sustentação fática para acusação de crime de responsabilidade contra a presidente da República”, diz o pronunciamento. “Perguntamos quais seriam as consequências para a democracia brasileira diante de um processo de deposição de um governo eleito democraticamente em um processo sem a devida fundamentação.”

Já o pastor Omar Silva da Costa, presidente do Conselho Nacional de Pastores e da Convenção Geral das Igrejas Assembleias de Deus no Brasil, disse que as duas instituições defendem a abertura do processo. “Se Dilma for condenada, deve não só perder o mandado, como também ir para atrás das grades, onde já está José Dirceu (ex-ministro da Casa Civil). Mandamos e-mails para os pastores pedindo para orar pelas autoridades. Mas a autoridade que está fazendo um governo injusto, vivendo de corrupção, como foi provado pela Operação Lava Jato, deve ser condenada”, disse.

Na sua página na rede social Twitter, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, comemorou a abertura do processo de impeachment e criticou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por defender sua sucessora e correligionária. “Lula reclamando do encaminhamento do impeachment de Dilma, dizendo que é insanidade, é um brincalhão, farsante, o PT fez isso com outros governos”, escreveu.

O presidente do Conselho Político da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, pastor Lelis Washington, não só apoiou a atitude de Cunha, como afirmou que ele demorou muito tempo para tomá-la.

Autonomia. Pastora luterana e ex-presidente do Conic, Lusmarina Garcia disse que o impeachment não tem bases legais, pois sua “argumentação legal” é “muito frágil”. “É uma ação irresponsável por parte do presidente da Câmara e uma agressão às regras da democracia. Dilma foi democraticamente eleita e o seu impeachment seria um golpe”, disse ela, que considerou “natural” e “previsível” a Assembleia de Deus se manifestar a favor do processo, já que Dilma “contraria alguns interesses conservadores”.

Clemir Fernandes, pastor da Igreja Batista e sociólogo do Instituto de Estudos da Religião (Iser), afirma que nem sempre as crenças têm a mesma opinião política, mas que o cenário é comentado pelos líderes em cultos. “Nas igrejas em que circulo, mesmo que um pastor manifeste uma posição política, isso não tem alterado as opiniões dos fiéis.”



quinta-feira, 18 de junho de 2015

Atirador mata 9 fiéis de igreja metodista nos EUA


A trágica informação vem do UOL Notícias:

Atirador mata nove pessoas em igreja em Charleston (EUA)

Um homem branco matou nove pessoas na noite desta quarta-feira (17) em uma igreja frequentada pela comunidade negra de Charleston, na Carolina do Sul, informou a polícia.

"Havia oito mortos dentro da igreja. Duas pessoas feridas foram levadas ao hospital e uma faleceu. No momento, temos nove vítimas fatais deste crime odioso", disse o chefe da polícia de Charleston, Gregory Mullen. "Acredito que foi um crime de ódio", completou.

O ataque ocorreu por volta das 21h local (22h no horário de Brasília), na Emanuel African Methodist Episcopal Church, uma das mais antigas igrejas da comunidade negra de Charleston.

A polícia da cidade persegue um suspeito branco, com cerca de 20 anos, apontado como o autor dos disparos. A operação policial envolve um grande contingente, incluindo meios aéreos, e prosseguia quatro horas após o tiroteio.As TVs locais mostraram várias ambulâncias e um importante dispositivo policial em torno da igreja.

Os canais de televisão também mostraram um jovem que corresponde a descrição do suspeito sendo algemado e levado por dois policiais, mas as autoridades confirmaram que permanecem em busca do atirador.

Segundo o canal local ABC4 News, a polícia investigou uma ameaça de bomba, que já foi descartada.

Reações de políticos

"Minha família e eu oramos pelas vítimas e os parentes afetados pela tragédia sem sentido desta noite" na igreja, disse a governadora da Carolina do Sul, Nikki Haley. "Enquanto ainda ignoramos os detalhes, sabemos que jamais entenderemos o que motiva uma pessoa a entrar em um dos nossos locais de oração e tirar a vida de outros".

Jeb Bush, pré-candidato republicano à Casa Branca nas eleições de 2016, que deve participar de um comício em Charlotte, na Carolina do Norte, disse no Twitter que "nossos pensamentos e orações estão com os indivíduos e famílias afetadas pelos trágicos fatos de Charleston".

A pré-candidata democrata Hillary Clinton, que participou na quarta-feira de um ato eleitoral na cidade, escreveu no Twitter: "notícias terríveis de Charleston - meus pensamentos e minhas orações estão com vocês".



terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Comissão da Verdade destaca apoio de igrejas ao golpe militar de 1964

Marcha da Família com Deus pela Liberdade em 1964
A matéria é do Estadão:

Comissão relata papel de igrejas no golpe

ROLDÃO ARRUDA

Documento sobre abusos da ditadura, a ser revelado quarta-feira, menciona apoio e depois condenação de religiosos ao regime de 64

O apoio dado pelas igrejas do Brasil ao golpe militar de 1964 e, mais tarde, à consolidação da ditadura, terá destaque no relatório final da Comissão Nacional da Verdade - que será entregue à presidente Dilma Rousseff na quarta-feira. A informação é do coordenador do grupo de trabalho encarregado de analisar a questão religiosa naquele período, o cientista social Anivaldo Padilha.

Em entrevista ao Estado, ele observou que já existe grande quantidade de estudos e pesquisas sobre as perseguições sofridas pelas igrejas e a resistência de religiosos e leigos à ditadura. O colaboracionismo, porém, ainda teria sido pouco estudado. "Lideranças religiosas católicas e protestantes apoiaram o golpe e contribuíram em seguida para a legitimação e consolidação da ditadura", afirmou.

"Nós já sabíamos, desde o início, do papel importantíssimo que as igrejas tiveram, às vésperas do golpe, na disseminação da ideologia anticomunista, provocando medo e pânico em alguns setores da sociedade. Nesse sentido foram absolutamente responsáveis por criar o clima político que possibilitou o golpe. Agora, porém, obtivemos mais detalhes, chegamos a casos de padres e pastores que denunciaram membros de suas igrejas, fiéis e até colegas."

Segundo Padilha, o relatório da comissão terá nomes dos delatores. Ele não quis citar nenhum, afirmando que faz parte de um acordo com a coordenação-geral da Comissão Nacional, pelo qual as informações só poderão ser divulgadas após a entrega do relatório a Dilma.

"Nós tivemos acesso a um documento que revela que um bispo e um pastor metodista se ofereceram para ser informantes da polícia", contou. "Mas esse não foi um caso isolado. Aconteceu em outras igrejas."

Pai do ex-candidato petista ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha, Anivaldo Padilha, que militou na juventude metodista e na Ação Popular, sendo depois preso e torturado, disse que um pastor metodista sabia das prisões e das torturas. "O que se viu muito naquele período foram opções ideológicas - e não o resultado de ignorância ou falta de informação", afirmou.

Unânime. O apoio ao golpe foi quase unânime entre os religiosos em 1964. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que mais tarde se tornaria uma das principais vozes contra a ditadura, estava entre os apoiadores. Outros dois ícones da resistência, posteriormente, os bispos d. Paulo Evaristo Arns e d. Hélder Câmara também apoiaram o início do movimento, como lembrou Padilha.

"Menciono isso não para desqualificar, mas para mostrar a grandeza desses dois bispos", explicou. "No momento em que perceberam que haviam caído numa cilada, tomaram consciência de suas responsabilidades e se tornaram dois gigantes na luta contra a ditadura. Vários outros bispos católicos apoiaram o golpe e depois se redimiram. No campo protestante também ocorreram casos assim."

O documento do grupo coordenado por Padilha tem quase 200 páginas - mas só uma parte dele faz parte do relatório da Comissão Nacional a ser divulgado na quarta-feira. O material restante deve ser transformado numa publicação para distribuição e debate nas igrejas.



quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Teóloga batista participa de Sínodo no Vaticano

A informação é do IHU:

Uma protestante batista no Sínodo em Roma


De 4 a 19 de outubro de 2014, a Igreja Católica reúne um Sínodo Extraordinário sobre a família em Roma. Valérie Duval Poujol, teóloga batista e presidente da Comissão Ecumênica da Federação Protestante Francesa, participa dele como delegada fraterna e representa a Aliança Mundial Batista. Esta entrevista foi realizada antes da sua partida. 


Poujol leciona ciências bíblicas no Instituto Católico de Paris. Com o marido, Samuel Duval, participou da criação de uma comunidade da Federação Batista em Salinelles. Presidente da Comissão Ecumênica da Federação Protestante Francesa, é membro do Comitê Misto Católico-Batista da França e do Comitê Misto Internacional Metodista-Batista. 

A reportagem é de Jane Stranz, publicada no sítio Protestants.org, 06-10-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto. 

Eis a entrevista.


A senhora está se preparando para uma viagem a Roma e passará 15 dias no Vaticano no Sínodo Extraordinário sobre a família. Pode nos dizer como é que uma protestante batista vai se encontrar justamente lá?

A Igreja Católica apreciava a presença de delegados fraternos para este Sínodo e enviou um convite para a Aliança Mundial Batista, que depois me solicitou. É verdade que na França as Igrejas Batistas são relativamente pouco conhecidas, uma denominação minoritária dentro da pequena minoria protestante francesa. Mas, em nível mundial, ela representa uma família extensa, em pleno crescimento, com mais de 42 milhões de fiéis. Como batistas, nós somos, ao mesmo tempo, uma Igreja histórica nascida da Reforma e uma Igreja evangélica e confessante. Eu serei um dos oito delegados fraternos de outras Igrejas, e é uma grande honra para mim estar presente no Sínodo em nome daqueles cristãos batistas que testemunham Jesus Cristo em mais de 21 países em todo o mundo. A aceitação do convite dirigido à Aliança Mundial Batista também é fruto do diálogo teológico entre as nossas duas Igrejas. No seu tempo, por ocasião do Concílio Vaticano II, a Aliança Mundial Batista tinha rejeitado o convite para participar dele. Hoje, graças ao diálogo, as nossas relações são marcadas por muito mais confiança.

Qual é o papel dos delegados fraternos? Vocês tem o direito de intervir?

Acho muito bonito o termo "delegado fraterno", é uma mudança em relação ao período do Vaticano II, quando os convidados de outras Igrejas eram "observadores", e a mudança assume uma dimensão ainda maior no quadro de um Sínodo sobre a família: não nos esqueçamos dos laços de fraternidade espiritual que nos unem entre cristãos... Os delegados fraternos são bem mais do que observadores. Somos encorajados a participar em tudo: nos discursos, nas discussões e na elaboração nos grupos de trabalho. Também nos é concedido o espaço para uma breve intervenção, o mesmo tempo dos presidentes das Conferências Episcopais nacionais. Acho isso verdadeiramente notável.

Na sua opinião, o que está em jogo nesse Sínodo para a Igreja Católica?

É verdade que, na França e também em outros países ocidentais, a mídia coloca no primeiro lugar as discussões e as decisões relativas ao acesso à Eucaristia das pessoas católicas divorciadas e novamente casadas. Quando recebi e li o documento preparatório para o Sínodo, o Instrumentum laboris, me dei conta de que os temas abordados são muito mais amplos do que apenas esse problema: a contracepção, a poligamia, o abuso de menores, o machismo, a homossexualidade... Isso mostra a novidade do método de trabalho deste Sínodo, parece-me. Partiu-se dos testemunhos da base, para depois refletir juntos sobre o evangelho da família no contexto da evangelização. É importante enfatizar que é a perspectiva da evangelização que serve de prisma para os trabalhos.

Este Sínodo, que de algum modo prepara o "ordinário" do ano que vem, portanto, é inovador na metodologia, porque manifesta um maior desejo de colegialidade e de proximidade com a realidade. O documento de trabalho mostra, ao mesmo tempo, toda a riqueza e a ambiguidade de um evangelho da família que busca encontrar um caminho entre dogma e pastoral, entre o que a Igreja Católica diz e o que os pastores e os bispos encontram in loco. Estou impressionada com esse grande esforço de colegialidade entre os defensores de uma atualização (uma reforma) e os defensores do status quo para permanecer com o ensino tradicional. Acho que o desafio deste Sínodo será formular um evangelho da família, uma evangelização baseada na família, que possa mostrar que se leva em conta as sociedades que vivem mudanças muito profundas. Também será preciso encontrar um modo para superar a tensão entre aqueles que afirmam que se deve simplesmente explicar melhor a doutrina da Igreja e aqueles que desejam mudanças no conteúdo e na aplicação da doutrina.

Como se preparar para isso? Não vai ser muito fácil ser quase a única protestante nessa assembleia...

É incrível perceber que o meu papel é bastante singular. Há outros dois delegados fraternos protestantes, um pastor reformado da Nigéria e um pastor luterano da África do Sul, além de um delegado anglicano, dois delegados ortodoxos e dois delegados ortodoxos orientais. Mas, entre os oito convidados fraternos, sou a única mulher, a única leiga e a única mãe. Até agora, na minha preparação, perguntei aos meus amigos, à minha Igreja, para me apoiarem com a oração, para me ajudarem a me preparar espiritualmente. Para poder ser não espectadora, mas protagonista ativa nesse papel.

Também estudei a fundo o documento preparatório, encontrei os colegas católicos para ter todos os esclarecimentos necessários em relação à sua tradição e para verificar que compreendi bem os termos. Fiquei muito impressionada, por exemplo, com o fato de que a mariologia não parece ter um papel muito grande no documento de trabalho, ao contrário do que, como batista, eu poderia imaginar em um documento católico. Nesse papel, estou em uma situação de "tradução", de busca de entender melhor a outra Igreja, mas estou, ao mesmo tempo, consciente da mensagem que se quer transmitir depois à própria Igreja. E a leitura do Instrumentum laboris também me interpela, eu tento interrogar também a minha tradição específica neste período de preparação.

Na sua comunidade e também por ocasião de um culto na televisão, a senhora rezou pelo Sínodo. Como isso foi acolhido na sua Igreja?

Quando eu fiz essa proposta, houve um certo "ranger de dentes". Às vezes, é difícil para os evangélicos orarem diretamente pela Igreja Católica ou pelo papa. Mas, ao mesmo tempo, os evangélicos e os outros cristãos sentiram que, desde a sua eleição, o Papa Francisco pediu com muita humildade aos cristãos que rezem por ele. Então, propor que se ore pelo Sínodo durante um culto transmitido pela televisão era uma espécie de agressão. Mesmo que eu não seja católica, estou envolvida com o que acontece nas outras Igrejas, estou envolvida com o Sínodo. E essa oração também vem de uma convicção bíblica de que somos chamados a suportar os fardos uns dos outros, como diz a carta aos Gálatas (Gl 5).

Em nível nacional, a senhora faz parte do Comitê Misto Batista-Católico. Pode nos dizer algo sobre os trabalhos teológicos desse grupo?

Os Comitês Mistos são um lugar de trabalho entre teólogos das nossas diversas tradições. Em 2009, esse Comitê Católico-Batista, por exemplo, publicou um documento sobre o lugar de Maria na teologia e na espiritualidade cristã. As nossas relações na França podem servir de exemplo para as relações entre batistas e católicos em outros lugares. Está sendo feita uma tradução ao inglês do documento sobre Maria. Atualmente, juntos, estamos estudando os problemas da ética. Frequentemente, diz-se que católicos e evangélicos têm posições bastante próximas sobre determinados problemas, referentes a temas como o aborto ou o matrimônio, por exemplo. Mas, durante os nossos encontros, percebemos que ainda era preciso ir além das aparências e que, para compreender melhor as diferenças e as semelhanças entre as nossas duas tradições, era preciso explicitar o fato de que os nossos processos de discernimento, isto é, o modo pelo qual chegamos a tomar uma posição ética, são muito diferentes. Esse trabalho está em andamento. Em uma época em que os problemas éticos se tornam, muito rapidamente, elementos de divisão, estamos convencidos de que as nossas reflexões sobre esses processos de discernimento podem ser úteis muito além das nossas duas confissões na França.

Em nível internacional, a senhora é membro de outro comitê misto entre batistas e metodistas. Pode nos dizer algo a mais sobre essas relações e sobre os trabalhos?

É a primeira experiência nesse sentido. Nunca houve diálogo teológico em nível internacional entre metodistas e batistas, apesar das inúmeras colaborações em muitos países. Esse diálogo está previsto para cinco anos, com uma sessão anual: a primeira foi nos Estados Unidos, a próxima nos levará para a Singapura. Queremos ver os nossos pontos comuns e as nossas divergências – por exemplo, não temos a mesma teologia batismal nas nossas duas tradições. Mas o objetivo principal do nosso diálogo seria ver como podemos avançar mais juntos na missão. As nossas conversas têm como título "A fé em ação no amor". Como preparação para o nosso próximo encontro em Singapura, estudamos como em certos países as nossas duas tradições participam juntas da Igreja unida. Nesses países, conseguem-se superar certas questões eclesiológicas e teológicas com a vontade de servir a missão do evangelho e testemunhar Jesus Cristo juntos. É apaixonante para mim descobrir contextos tão diferentes do nosso contexto francês, em que a maioria das Igrejas Metodistas se uniram à Igreja Reformada Francesa em 1938, e dar-me conta disso na minha Igreja.

A senhora é teóloga e apaixonada pela leitura e pelo ensino da Bíblia. O que a leitura e o ensino da Bíblia oferecem para as relações ecumênicas?

A Bíblia não é uma contribuição, mas o fundamento de toda a minha motivação para participar desse trabalho ecumênico. Ela me serve de bússola – para o meu caminho com Deus, mas também, como diz o Grupo de Dombes [grupo de diálogo ecumênico de teólogos católicos e protestantes francófonos], para a conversão das nossas Igrejas. A Palavra de Deus permite que nos confrontemos com o chamado exigente de Deus para a nossa vida e para a vida das nossas instituições. A Bíblia, ao mesmo tempo, é o meu copo de água, o meu constante retorno à fonte, nas relações com os outros cristãos da minha tradição e de outras tradições. A Bíblia não pertence apenas aos protestantes. Desde o Vaticano II, os católicos leem muito mais a Bíblia. Essa realidade faz desaparecer certos estereótipos. Em todo o caso, estou feliz com estes próximos 15 dias. Realmente espero que, com a minha presença no Sínodo, reforce-se de algum modo o ecumenismo, o nosso conhecimento recíproco e, em longo prazo, o nosso reconhecimento recíproco.



segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Bispa metodista unge cardeal católico de Boston


Um fato inusitado aconteceu durante uma celebração ecumênica na Igreja Metodista Unida de Sudbury, Massachussets, nos Estados Unidos, no domingo, 12 de janeiro de 2014.

O atual cardeal de Boston, Sean O'Malley, foi convidado para pregar na igreja de Sudbury, com o fim de comemorar os 50 anos da visita de seu antecessor, Richard Cushing, àquela mesma igreja, convidado que foi a pregar pelos metodistas em plenos ventos ecumênicos do Concílio Vaticano II.

A visita de Cushing se deu numa época em que era grande a tensão entre católicos e protestantes nos Estados Unidos, quando não havia se usava tanto o termo "evangélico" para os não-católicos, e - por ser uma região de forte influência irlandesa - ainda havia uma espécie de "importação" do conflito que continua dividindo até hoje a Irlanda do Norte.

Nesse contexto, o cardeal O'Malley compareceu à igreja metodista de Sudbury, relembrando as dificuldades de convivência 50 anos atrás, e chamando todos os presentes, católicos e metodistas, à unidade diante do que ele chamou de uma "nova polaridade: crentes e descrentes".

Ao término da cerimônia, o cardeal O'Malley se postou ao lado da bispa local, Anne Robertson, e ambos passaram a ungir os fiéis que saíam da igreja com o gesto de uma cruz na testa de cada um,  instando a todos que renovassem os votos do batismo.

A surpresa ocorreu quando o cardeal pediu que a bispa Robertson fizesse o mesmo com ele, ungindo-o com água benta, conforme mostra a foto que ilustra este artigo.

A bispa metodista disse ao The Huffington Post que ela se sente "agradecida por todas as vezes em que as pessoas podem olhar além daquilo que as divide e enxergar a nossa humanidade comum - e neste caso a nossa fé comum".

A repercussão do gesto de O'Malley gerou diferentes reações: de entusiasmo pela prática ecumênica à reprovação escancarada por católicos fundamentalistas, muito em função do sacerdócio feminino que existe entre os metodistas americanos desde 1956.

Entretanto, o cardeal de Boston se justificou citando Gálatas 3:28 - "Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus".



quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Prazer e religião em Nelson Rodrigues

Hoje, 23 de agosto de 2012, se vivo fosse, o escritor, jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, comemoraria 100 anos de idade.

Criou frases imortais como "o dinheiro compra até amor verdadeiro", "se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém",  "toda unanimidade é burra", "só o inimigo não trai nunca" e "Deus está nas coincidências".


Por mais "óbvio ululante" (outra criação dele) que seja dizer isso, o grande observador do cotidiano brasileiro do século XX continua atual e polêmico como sempre foi.

Muitos eventos celebram o seu centenário, e recomendamos a leitura do ótimo artigo "O anjo pornográfico: religião e prazer em Nelson Rodrigues", de Élton de Oliveira Nunes, publicado na revista (metodista) Caminhando, que pode ser lido na íntegra em .pdf clicando aqui.

Abaixo, um pequeno excerto do artigo em questão:




Mas, que vida é essa que leva para a morte? E por que mortes violentas e, em um sentido, punitivas e autopunitivas? Podemos buscar uma resposta no drama cristão de sentido e negação. Mais precisamente na fórmula cristã do sofrimento para a redenção: desejo, pecado, punição (Cf. uma leitura pietista de Tg 1.13-15). Sábato (1992/p. 30) vê claramente isso quando comenta:
A falta de auto-estima não transparece apenas nos atos extremos do suicídio. A cada momento, uma personagem necessita de punição.
A nós, torna-se claro aqui que Nelson revive em suas tramas o calvário do ser humano no drama da vida cristã. Ao desejar, comete o ser humano pecado. Ao pecar, vem a punição. Mas, em Nelson, a punição é também uma forma de redenção. Ao ser punido, de alguma forma, o ser se redime. Mas esta redenção não termina, pois novo ciclo de desejo irrompe e o drama recomeça. Por isso, novamente a peça se reinicia com outros nomes e situações, mas sempre o mesmo drama. Falando sobre isso, Francisco Carneiro da Cunha (2000/p. 15), citando Nelson Rodrigues, diz:
A ficção para ser purificadora tem de ser atroz. O personagem é vil para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós. E no teatro que é mais plástico, direto e de um impacto tão mais puro esse fenômeno de transparência torna-se mais válido. Para salvar a platéia é preciso encher o palco de assassinos, adúlteros e insanos, em suma, de uma rajada de monstros. São os nossos monstros íntimos dos quais eventualmente nos libertamos para em seguida recriá-los em cena novamente.
O drama de Nelson é o drama cristão. Nelson busca a redenção, pois vida é desejo (sexual) e desejo é intolerável na sociedade (expressa na família cristã-burguesa). O outro é objeto sempre proibido. Sábato (1992/p. 67) comenta: Tendo recebido a formação cristã de classe média urbana brasileira, o dramaturgo preservou até o fim a crença na divindade e em preceitos morais básicos. A dificuldade de observar esses preceitos aguça a loucura. Na terra o homem vive o desregramento de uma unidade perdida, inconsolável órfão de Deus. Há um deblaterar insano em terreno hostil. Resta o sentimento permanente de logro. A vida prega uma peça em todo mundo.



quinta-feira, 29 de março de 2012

Metodistas promovem encontro afro-cristão



Uma iniciativa da Igreja Metodista, rara no meio evangélico, que foge aos chavões das "unções", "estratégias", "renovações" e "prosperidade", e que merece ser divulgada:

Do Novos Diálogos:

V Encontro Afrocristão | 13 a 15 de abril de 2012

Tema: Saúde: dom de Deus e direito das populações negras e indígenas brasileiras

A proposta de V ENCONTRO AFROCRISTÃO é ser um espaço e tempo de fortalecimento da autoestima étnico-racial das pessoas negras inseridas nas igrejas cristãs e de todas as pessoas interessadas em dialogar com esta temática e com o grupo negro evangélico. Tendo como referência a mensagem cristã de libertação de preconceitos e discriminações que separam as pessoas e impedem que a justiça, a paz e o amor sejam realidade em nossa sociedade.

O tema deste ano é a saúde, compreendida como um bem-estar integral – físico, emocional e espiritual – que flui entre o individual, social e ambiental. Saúde é dádiva de Deus a todas as pessoas, direito que tem sido usurpado das gentes negras e indígenas. Um bem cultural das comunidades tradicionais negras e indígenas que preservam o cuidado e respeito com a natureza, com as pessoas e a comunidade. Um valor enfatizado na vida e obra de Cristo.

Maiores informações: http://3re.metodista.org.br



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